quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

disposição subjetiva - deleuze

"Os escritores de maior beleza têm condições de percepção singulares que que lhes permitem extrair ou talhar perceptos estéticos como verdadeiras visões, mesmo às custas de regressarem com os olhos vermelhos. O oceano impregna de dentro as percepções de Melville, a ponto de o navio parecer irreal em contraste com o mar vazio e se impor à vista como 'miragem surgida das profundezas'. Mas bastará invocar a objetividade de um meio que torce as coisas e faz tremer ou cintilar a percepção? Não serão antes condições subjetivas que, sem dúvida, convocam tal ou qual meio objetivo favorável, nele se desdobram, podendo coincidir com ele, mas que conservam, não obstante, uma diferença irresistível, incompreensível? É em virtude de uma disposição subjetiva que Proust encontra seus perceptos numa corrente de ar que passa debaixo da porta e permanece fria diante das belezas que lhe assinalam. Melville possui um oceano íntimo desconhecido dos marinheiros, ainda que eles o pressintam: é nele que nada Moby Dick, e é ele que se projeta no oceano lá de fora, mas para transmutar-lhe a percepção e dele 'abstrair' uma Visão. Lawrence possui um deserto íntimo que o impele para os desertos da Arábia, entre os árabes, e que coincide em muitos pontos com as percepções e concepções destes, mas conserva a indomável diferença que as introduz numa Figura secreta inteiramente outra. Lawrence fala árabe, veste-se e vive como árabe, mesmo sob tortura grita em árabe, mas não imita os árabes, jamais abdica de sua diferença que ele já sente como uma traição. Sob seu traje de recém-casado, 'suspeita seda imaculada', não pára de trair a Esposa. Essa diferença de Lawrence não se deve apenas ao fato de continuar sendo inglês, a serviço da Inglaterra, pois ele trai tanto a Inglaterra quanto a Arábia, num sonho-pesadelo de tudo trair ao mesmo tempo. Mas tampouco se trata de sua diferença pessoal, tanto a empreitada de Lawrence é uma fria e projetada destruição do eu, levada até o fim. Cada mina que coloca explode também dentro dele, ele próprio é a bomba que ele faz estourar. Trata-se de uma disposição subjetiva infinitamente secreta, que não se confunde com um caráter nacional ou pessoal e que leva para longe de seu país, sob as ruínas do seu eu devastado" (em: A Honra e a Glória: T. E. Lawrence - Crítica e Clínica - Gilles Deleuze).

Um comentário:

  1. A arte, seja ela cinematográfica, seja ela literária (poesia ou histórias), seja ela pela expressão cinesiológica (movimento)é um modo de expressar o acontecimento.
    E este acontimento é o elemento que pulsa em nossos órgãos, é o que intensifica as nossas forças de potência.
    Não é por acaso que os gregos arcaicos ( pré-socráticos) viam nas artes uma forma de compreender o mundo a vida e principalmente o sujeito.
    A estética da arte possibilitava para os helênicos entender o ciclo de vida e morte representada simbólicamente por peças teatrais, música e dança além da poesia e a filosofia.
    Ficamos idiotas depois de Platão, que viu em outro mundo a possibilidade de compreender algo propriamento humano.
    Niet que estudou a fundo os arcaicos percebeu que havia um grande equivoco no postulado criado por Platão e difundido pelo cristianimos, pricinpalmente nos paises ocidentais.
    Niet foi quem novamente trouxe a perspectiva da arte para compreender a vida...
    Deleuze assim como outros pensadores não reeventaram a roda, mas com muita criatividade começam a explorar o cinema, a música e outras expressões artisticas para pensar a própria condição humana, como suas pulsões, seus desejos em fim tudo que atravessa a vida do sujeito.

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