sábado, 11 de fevereiro de 2017

Anti-tutorial para (des)criar filhos (ir)responsáveis e sobre a (in)sustentabilidade das coisas

Sabemos que criar filhos não é uma coisa tão fácil quanto dizem os promotores das tradições familiaristas... criar filhos, implica dentre muitas outras coisas, em produzir com os mesmos, as noções básicas para o convívio com o outro e para a delimitação das questões práticas da vida.
Vejamos, que vivemos num sistema capitalístico e, com isso, tudo o que consumimos, tem um preço financeiro, sem contar todos os outros custos (o tempo que usamos em nossa formação, o tempo que usamos trabalhando, o tempo que gastamos correndo atrás das questões da vida prática, etc)... para cobrir esse preço, precisamos trabalhar e ter remuneração... os filhos que crescem sem entenderem essa noção, criam uma crença de que tudo funciona no automático e então não precisam fazer nada para ter uma boa vida... se contam com quem custeie isso, talvez passem a vida sem produzir essa noção... se vivem em famílias com finanças apertadas, talvez aprendam, talvez não... enfim, falemos um pouco sobre essas (des)criações e (mal)criações que se produzem nos agrupamentos familiares que vivem dentro do modelinho clássico e um tanto estúpido, de ir pro trabalho, voltar pra casa, fazer coisas e coisas, dormir, descansar, cansar, enfrentar as porcarias de dificuldades que tanto se cultiva e coisa e tal e tal e coisa.
As crianças, adolescentes e adultos criados sem produzir a delimitação dos usos e custos de tudo o que usufruem em suas vidas, desconhecem uma série de coisas, vejamos alguns exemplos:
1.       Desconsideram que a falta de noção sobre tudo, em que foram criados, não é a realidade de todo o resto do mundo;
2.       Desconsideram que vivemos num planeta chamado terra e, mesmo com a abundância, apresenta recursos naturais finitos, portanto, tudo o que desperdiçarem, fará falta em algum momento e, além do mais, todas as coisas materiais feitas no planeta, dependem da utilização dos seus recursos para existirem;
3.       Desconsideram que para ter um espaço privado para morar, alguém precisa trabalhar para construir, comprar ou alugar uma casa;
4.       Desconsideram que para ter móveis e utensílios para usar dentro da casa, alguém precisa trabalhar para comprar e, que, caso não cuidem e preservem essas coisas, destruindo-as, alguém precisará trabalhar mais para pagar a conta, ou será necessário tirar dinheiro de outras coisas para pagar o desperdício;
5.       Desconsideram que a energia elétrica que usam para ter luz, para ligar o ventilador, a estufa, o ar condicionado, o computador, a televisão, entre muitas outras coisas, custa dinheiro e, portanto, se deixarem tudo isso ligado à toa, alguém terá que trabalhar mais para pagar a conta, ou será necessário tirar dinheiro de outras coisas para pagar o desperdício;
6.       Desconsideram que a água na torneira, no chuveiro, no tanque, na máquina de lavar roupas, entre outros lugares, custa dinheiro e, portanto, se deixarem tudo isso ligado à toa, alguém terá que trabalhar mais para pagar a conta, ou será necessário tirar dinheiro de outras coisas para pagar o desperdício;
7.       Desconsideram que aquilo que comem e bebem, custa dinheiro e, que, portanto, aquilo que serviram além da necessidade para comer ou beber (suco, água, café, leite, iogurte, chá, comida, pão, lanche, etc), quando jogado fora, custa mais dinheiro e alguém terá que trabalhar mais para pagar a conta, ou será necessário tirar dinheiro de outras coisas para pagar o desperdício;
8.       Desconsideram que um carro, além de produzir poluição ambiental, custa dinheiro para ser comprado e para ser usado (impostos, seguro, manutenção, etc), assim como, precisa de combustível para andar, portanto, alguém precisa trabalhar para comprar o carro, para pagar os seus custos e para colocar o combustível;
9.       Desconsideram que para ter sinal de internet, alguém precisa trabalhar para pagar a conta;
10.   Desconsideram que todas as coisas pessoais que deixam atiradas pelo mundo ou abandonadas na casa de amigos, custam dinheiro (a roupa, o calçado, o shampoo, o sabonete, a escova dental, o creme dental, a toalha de banho, a mochila, etc) e alguém terá que trabalhar mais para comprar a reposição;
11.   Desconsideram que o que comem será expelido pelo organismo e que não basta largar no vaso sanitário... alguém precisa trabalhar para pagar a água e os produtos para limpar, além de fazer a limpeza;
12.   Desconsideram que a casa, os móveis e utensílios não sejam autolimpantes, portanto, ao usarmos tudo isso, alguém precisa limpar... e se não for limpo por quem usa e suja, alguém terá que trabalhar mais para limpar ou para pagar quem limpe;
13.   Desconsideram que os móveis e utensílios não contem com dispositivos automáticos que possam levá-los de volta ao lugar de onde saíram, portanto, se tirou a cadeira do lugar e não a colocar de volta, a mesma ficará atravancando o caminho dos demais; se usou algo e deixou largado à toa, isso ficará atravancando o ambiente e alguém terá que usar o seu tempo para guardar coisas largadas à toa pelos ocupantes da casa;
14.   Desconsideram que morar numa casa com outras pessoas, não seja o mesmo que estar num hotel... o quarto não aparecerá arrumado ou o banheiro não aparecerá limpo, com toalha trocada, com cesta de lixo esvaziada, enquanto a pessoa estiver fora...
15.   Desconsideram que além da sujeira produzida numa casa em função dos seus usos e abusos, há sujeiras que se produzem por conta própria (poeira, umidade, etc) e isso tudo também não é autolimpante, ou seja, alguém precisa ralar para limpar ou trabalhar para pagar quem limpe;
16.   Desconsideram que as roupas que usam no corpo, as roupas de cama, as toalhas, os panos de cozinha, os tapetes, também não são autolimpantes, portanto, não vão sozinhas do cesto da roupa suja para o tanque ou para a máquina de lavar, nem desta para o varal e nem do varal para os seus devidos lugares... alguém precisa fazer tudo isso... alguém precisa trabalhar para pagar os produtos, a água e a luz utilizados para lavar;
17.   Desconsideram que o pátio duma casa não seja autolimpante e nem as áreas de uso comum dum prédio de apartamentos;
18.   Desconsideram que a bóia que está no armário, na geladeira ou que vai pra mesa todos os dias, custa dinheiro e alguém tem que trabalhar para botar isso pra dentro de casa... alguém precisa sair pra comprar... alguém precisa organizar e guardar... alguém precisa preparar as refeições... e depois de comer a comidinha, não basta lavar o prato, os talheres, o copo, a caneca que sujou... tem as panelas, tem as tigelas, tem os panos, tem o fogão, tem a cozinha, tem a pia, tem um tantão de coisas para além do umbigo de cada um que come;
19.   Desconsideram que quando invadem ou desrespeitam o espaço do outro com barulhos, com gritos, com abusos, com sujeiras, com falta de noção, estão também roubando a energia que o outro utiliza para viver;
20.   Desconsideram que ninguém gosta de ficar pentelhando atrás de marmanjo pelas coisas com as quais não têm cuidado e que se tomarem os cuidados necessários, ninguém vai ficar pegando no pé e nem ter que ficar gastando energia atrás dos descuidos os dos prejuízos advindos dos mesmos;
21.   Desconsideram que o trabalho dificilmente baterá à porta de sua casa e muito menos do quarto em que dormem o dia todo, enquanto alguém trabalha para bancar o teto e tudo o que há sob o teto em que dormitam seus existires;
22.   Desconsideram que a vida não tem dispositivo de funcionamento automático, portanto, estando engrenado nas condições do sistema ou sendo anti-sistema, tentando se desengranar, é preciso correr atrás... é preciso inventar a vida, porque a vida não se inventa sozinha... se não encontrou seu rumo, não adianta ficar esperando caminho pronto,, é preciso inventar a andança;
23.   Desconsideram que gente chata, deselegante, invasiva e abusiva acaba confinada ao seu próprio si, porque não dá pra viver com quem ocupa todo o espaço, todo o ar e toda a energia do ambiente para si.


Enfim, certamente, lembrarei de outros pontos, então deixo o escrito entreaberto...

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Compêndio de análise institucional e outras correntes

BAREMBLITT, Gregorio. Compêndio de análise institucional e outras correntes; teoria e prática. 5.ed. Belo Horizonte, MG: Instituto Félix Guattari, 2002 (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2) 

[p.66 a 69]

“Denomina-se equipamentos a uma série de organizações, estabelecimentos, aparatos, maquinarias e tecnologias muito diversificados e inclusivos, de grande, médio ou pequeno porte, cuja finalidade fundamental (mas não única) está a serviço da repressão, do registro ou do controle social. Uma das maneiras possíveis de classifica-los é referindo-se ao tipo e grau de violência que empregam para cumprir sua função, enfatizando, além do mais que sua condição é mais propriamente determinada por essa função do que por sua materialidade, estrutura, forma, etc. Alguns exemplos conspícuos de equipamentos sãos os que certa tradição marxista chamava de ‘aparatos’. Estes cumprem funções eliminatórias, segregacionistas ou punitivas (como por exemplo, as Forças Armadas, a polícia, a censura cultural ou a Psiquiatria supressiva). Outros apontam para a doutrinação ou a informação tendenciosa (certa orientação da Religião, da Educação, da Comunicação de massas ou a Família).
 Mas um equipamento pode ser também uma determinada organização beneficente, ou certa modalidade de uso de um meio de transporte ou de um eletrodoméstico, assim também como técnicas de cuidado e gerenciamento da personalidade por parte das forças repressivas. O certo é que os equipamentos são predominantemente funcionais ao poder (seja do estado ou das entidades civis e privadas hegemônicas) e a reprodução da ordem constituída entendida como a soma do instituído-organizado.
De um dispositivo pode, de alguma maneira, dizer-se que é o contrário de um equipamento. Trata-se de uma montagem de elementos extraordinariamente heterogêneos que podem incluir ‘pedaços sociais’, naturais, tecnológicos e até subjetivos. Um dispositivo caracteriza-se pelo seu funcionamento, sempre simultâneo a sua formação e sempre a serviço da produção, do desejo, da vida, do novo. Um dispositivo forma-se da mesma maneira e ao mesmo tempo em que funciona, gerando acontecimentos revolucionários, transformadores. Embora seu tamanho e duração sejam tão variáveis quanto as materialidades que o compõem, têm a peculiaridade de nascer, operar e extinguir-se enquanto seu objetivo de metamorfose e subversão histórica se realizam. Um dispositivo em geral não respeita, para sua montagem e funcionamento, os territórios estabelecidos e os meios consagrados; pelo contrário, os faz explodirem e os atravessa, conectando singularidades cuja relação era insuspeitável e imprevisível. Gera, assim, o que se denomina linhas de fuga do desejo, da produção e da liberdade, acontecimentos inéditos e invenções nunca antes conhecidas. Nesse sentido, é óbvio que os dispositivos, também chamados agenciamentos, têm a ver com a transversalidade e, num sentido restrito, com o instituinte-organizante.
Um grupo político sujeito (quer dizer, que se dá seus próprios meios e leis inseparáveis de seus fins e que não pretende persistir mais além de seu objetivo revolucionário), um descobrimento científico, um pensador original e libertário, um inovador dos costumes sexuais ou das convicções éticas podem constituir-se num dispositivo, assim como podem sê-lo certa arrumação de máquinas técnicas (como as rádios livres) ou a defesa da natureza (como os movimentos ecológicos). Por último, digamos que um dispositivo não é uma obra de indivíduos ou sujeitos, ele os inclui, os constitui e os ‘maquina’ para concretizar suas realizações.
Em diferentes momentos da constituição de um campo de análise e/ou intervenção, os institucionalistas efetuam vários tipos de diagnósticos – sempre provisórios – da estrutura, dinâmica, processos, contradições principais e secundárias, opositivas e antagônicas, conflitos, defesas, mecanismos, magnitudes de produção, reprodução e antiprodução, analisadores, potências, poderes, territórios, linhas de fuga, equipamentos, dispositivos da área ou organização intervinda. O diagnóstico é importante para justamente instituir, organizar, planejar, antecipar, decidir os passos, que comentaremos em seguida, tais como: contrato, estratégia, logística, táticas, técnicas. Isso sem esquecer que boa parte do percurso é imprevisível.
Os institucionalistas, para efetuar análises – seguidas ou não de intervenções – precisam fazer acordos, pactos, convênios (ou como se queira chamá-los) com as organizações, estabelecimentos ou, simplesmente, com os coletivos de usuários ‘clientes’. A estes acordos costuma-se denominar contrato. Eles versam sobre os compromissos mútuos em que se explicitam os respectivos deveres e direitos das partes interessadas. Em muitos aspectos, o contrato institucionalista é semelhante a qualquer outro de prestação de serviços. Trata principalmente de tempo (duração total, freqüência dos trabalhos), honorários ou outro tipo de retribuição, delimitação de objetivos e autorização de acesso aos materiais investigados, promessas de sigilo quanto à informação obtida durante a investigação etc. Como veremos, é importante estar atento ao fato de que nem sempre o contrato representa um acordo com a totalidade do coletivo intervindo, mas com certos segmentos do mesmo. Por outro lado, tem especial significação qual é a relação jurídica (emprego, serviço profissional independente, solidariedade militante etc.) que fundamenta o contrato. Mas o essencial a recordar é que o contrato no Institucionalismo não é uma operação comercial externa ao processo que a intervenção, como serviço, deflagra. Os diversos aspectos do contrato – tempo, dinheiro, contratantes, objetivos, expectativas – são analisadores emergentes da problemática a ser pesquisada. Seu tratamento já é parte ativa da análise e da intervenção.
Designa-se por logística o balanço que os institucionalistas fazem de todas as forças, habilidades, elementos, recursos, etc. de que se dispõe ao começar uma intervenção; quer dizer, com que se pode contar, a favor e contra, para poder levar o trabalho adiante com um mínimo de possibilidade de realização.
A estratégia sistematiza os grandes objetivos a serem conseguidos (cuja máxima expressão é a auto-análise e autogestão do coletivo intervindo), assim como a progressão das manobras, dos espaços e territórios que se colocarão, a previsão de vicissitudes, opções, alternativas, avanços, retrocessos etc.
As técnicas são pequenos segmentos nos quais se decompõem a estratégia. Para dar um exemplo bélico, totalmente metafórico: a estratégia decide se será uma guerra de ocupação, de fronteiras, punitiva ou de extermínio parcial; se essa guerra se dará por terra, mar ou ar, quais serão os aliados, simpatizantes, neutros e inimigos etc. As táticas referem-se a batalhas circunscritas, à área onde se desenvolvem, a participação da infantaria, cavalaria, o horário, os movimentos de tropas etc. As técnicas, prosseguindo com a metáfora, aludem aos armamentos propriamente ditos: fuzis, morteiros, granadas etc.
No Institucionalismo é fácil fazer a transposição do que seja a logística, a estratégia e as técnicas do campo bélico ao campo da intervenção, sem tomá-las ao pé da letra. É interessante enfatizar drasticamente que, no Institucionalismo, uma vez que se adquira uma base de entendimento do panorama de uma organização e se concretizem os primeiros dispositivos para um contrato e diagnóstico provisórios, enquanto já se têm, baseados nisso, esboços de uma logística, estratégia geral e primeiras táticas, a eleição de técnicas é consideravelmente livre. Quer dizer: será ditada pela inspiração e treinamento, assim como pelas predisposições pessoais da equipe operadora, objetivo geral e objetivo imediato perseguido e peculiaridades do coletivo em pauta.

Procedimentos interpretativos, informativos, esclarecedores, de sensibilização, de expressão, de discussão, agenciamentos artísticos, desportivos, convivenciais, lúdicos, praticados em grupos e em assembléias podem ser adotados segundo as circunstâncias.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Visita a Guimarães Rosa, regada a finas cachaças

Uma viagem à história, ao ambiente natural e aos grupos de brasileiros que povoaram o palco regional de Sagarana, no 70º aniversário da obra
Por Mauricio Ayer
“– Soltem um cálice de branquinha potabilíssima de Januária, que está com um naco de umburana macerando no fundo da garrafa!…”

Pois sim, senhor João Rosa, que seja pelos 70 anos da publicação do Sagarana, o seu primeiro livro de narrativas, que o inseriu de pronto e definitivamente na literatura brasileira. Tudo bem que 10 anos antes o senhor vencera um importante concurso da Academia Brasileira de Letras com um livro de poemas – Magma, que só veio a ser publicado mais de meio século depois – e que 10 anos mais tarde o senhor colocaria em nossa balança um peso de desequilibrar o que é viável pensar da nossa cultura e de nossas letras – com as novelas e romances de Corpo de Baile e o gigante Grande Sertão: Veredas.
Mas é sobre Sagarana, de onde a citada fala foi extraída, no conto “Minha Gente”, que gostaria de começar a conversa, se o senhor permitir.
Pois bem: quem cala consente, pois não.
Para a circunstância e cerimônia abrideira, entendi que o senhor sugere uma cachaça de Januária, como tantas boas há. Poderia acatar-lhe o mandado, mas… como haveria de alcançar a dimensão do respeito pelo grande mestre se não for ramificando suas ideias, usando o adorno de suas flores, para que, sem mesmo percebermos, ensejem raízes tanto mais profundas na terra que compartilhamos?
Vamos, bem entendido, harmonizar o imaginário com o calor de uma selecionada cachaça de alambique, e que seja amadurecida na amburana, como o senhor quer. Mas o tempo modificou um pouco as coisas. Ainda hoje se usa a amburana para dar aroma, cor e sabor à cachaça, e é de forte interesse ler que, lá nos anos 1930 e 40, quando o senhor escreveu, revisou e publicou essa fala, essa prática era célebre em Januária, onde até hoje a tradição viceja. Só que não mais pela infusão de uma lasca de madeira na garrafa, o que atualmente se chama de “chipagem” e se proíbe por força de lei, ao menos para a produção das marcas oferecidas no mercado. Faz-se, ainda assim, seja ao modo informal, para servir em casa aos amigos, seja clandestinamente, com o intuito desleal de acelerar a transmutação da cachaça, sem o devido tempo da espera. Em vez da infusão, a amburana hoje é aplicada na tanoaria para a produção de tonéis voltados ao armazenamento de bebidas. Hoje como ontem, Januária armazena suas cachaças na amburana, como comprovam algumas marcas tradicionais da região: Claudionor, Januária, Velha Januária e Caribé, entre outras.
A fala que selecionei aqui sugere que Januária carimbou seu nome nas garrafas com o aroma da amburana. Não é de se crer que isso antecipa, para todos os efeitos, a própria tanoaria?
Bafejo à cachaça, quando o pasto da prosa era pra ser a literatura. Mas os acasos tampouco são gratuitos. A cachaça não é só elemento da paisagem do centro-norte de Minas Gerais, onde as estórias doSagarana nascem e circulam. Historicamente, ela foi um fator essencial na formação desse pedaço de mundo. Farinha de mandioca e cachaça eram os produtos obrigatórios no “portfolio” dos tropeiros que circulavam por todas essas terras, desde o século XVIII, quando os eixos eram as rotas do ouro, conhecidos como Estradas Reais. São os dois alimentos que forneciam energia aos trabalhadores – principalmente os escravizados, mas não exclusivamente – das minas. Assim se cria uma tradição alimentar e uma cultura de produção e consumo.
Para fins e efeitos turísticos, fixou-se a “Estrada Real” como um caminho em forquilha partindo de Diamantina e bifurcando em Ouro Preto para chegar ou em Paraty (Caminho Velho) ou no Rio de Janeiro (Caminho Novo). Mas na verdade tratava-se de um conjunto de vias mais ramificado e complexo1. Havia, por exemplo, um ramal do Caminho Velho que corria pelo vale do Paraíba até São Paulo e o porto de Santos, refazendo ao contrário o percurso bandeirante que, tendo índios como guias, levou até o tesouro escondido.
Havia também uma outra rota, pouco mencionada hoje mas de grande importância naquele tempo, conhecida como Caminho da Bahia, que subia o rio das Velhas, depois o São Francisco mais ou menos até a altura de Bom Jesus da Lapa, aí despegava do rio e cortava pelo sul da Chapada Diamantina para chegar a Salvador – que era a capital da colônia até a metade do século XVIII. Em sentido inverso, este caminho foi um vetor para que, atraída pela demanda de alimentos da população que chegava de toda parte para se concentrar na região da mineração de ouro, como Ouro Preto (então Vila Rica), Sabará e Mariana (então Vila do Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo), a cultura dos vaqueiros do sertão nordestino gerasse fazendas nas margens do São Francisco e do das Velhas e, depois, ocupasse a extensão do norte de Minas. A cidade de Januária, à margem do grande rio que amarra Minas à Bahia, está ali, como uma pedra bem no meio do caminho.
O senhor sabe disso tudo, muito mais do que eu poderia, mas agora estou falando com quem nos lê, não é mesmo. A geografia da ficção do Sagarana é a dos arraiais, vilarejos, fazendas e do sertão, dos chapadões e das veredas, do cerrado, com muitos ribeirões e alguns poucos grandes rios (além dos dois mencionados, há também o Paraopeba e o Pará). Essa terra é ocupada por vaqueiros, seleiros, ferradores, tropeiros, pequenos agricultores e comerciantes, mulheres territoriais das casas, igrejas ou prostíbulos, ofícios de gente nascida em um norte de Minas que, tendo prosperado com a pujança da atividade aurífera no setecentos, quedou-se assim um tanto ao-deus-dará, e ali desenvolveu uma cultura peculiar. Também terra de valentões – pois, como diz Antonio Candido, “o valentão armado, atuando isoladamente ou em bando, é fenômeno geral em todas as áreas onde a pressão da lei não se faz sentir, e onde a ordem privada desempenha funções que em princípio caberiam ao poder público”2. Mas vale também um a ética, construída a cada gesto compartilhada, negociada e reafirmada a cada ato social, a cada fala, cada gesto.
Já temos aí um pouco do caldo de fermentação do Sagarana: cachaça (herança do ciclo da cana, amplamente plantada nos engenhos de açúcar pernambucanos, baianos, paulistas e fluminenses); farinha de mandioca e o milho (legado índio incorporado em definitivo na dieta, principalmente dos caipiras); a cultura vaqueira do sertão de Pernambuco e Bahia (que continua Minas Gerais adentro); e, por fim, a formação dos arraiais e vilarejos como extensão de um modo de vida caipira, paulista, dos pequenos agricultores, produtores de alimento.
Isso aqui vale um parêntese. Os bandeirantes, empreendedores ferozes, herdeiros terrestres e silvícolas dos portugueses desbravadores de mares, depois de estabelecidos os locais das minas, foram trucidados ou expulsos da região mineira na chamada Guerra dos Emboabas – exceto por alguns que, seduzidos pela coroa, incorporaram-se como donos de terras ou administradores a essa civilização curtida na brutalidade. Foi aliás um bandeirante que se ocupou da construção do Caminho Novo, ligando por via direta a Vila Rica ao Rio de Janeiro, passo definitivo para a prosperidade daquela que viria a ser a capital da Colônia, do Império e da República do Brasil, que por outro lado reduziu consideravelmente a relevância de São Paulo.
Se os brutos sapadores foram excluídos, foi principalmente a gente comum de São Paulo que estendeu o tapete de sua cultura caipira pelo território mineiro. Isso, desde a expedição de Fernão Dias e Borba Gato que chegou às minas nas cabeceiras do rio das Velhas, cuja grande inovação foi plantar ao longo do caminho, com roças de milho e mandioca e algumas criações como galinhas e porcos, a semente dos arraiais que se tornariam as futuras cidades. Em Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre compara, nos séculos XVI e XVII, a cultura paulista, muito antes do domínio do café – horizontal, policultora, produtora principalmente de alimentos (até para abastecer o restante da colônia), fundada no trabalho próprio e incorporadora de alimentos, hábitos e parentescos indígenas – com a cultura do nordeste canavieiro (sobretudo a Zona da Mata pernambucana e o recôncavo baiano) – fundada, como ele bem distingue, na escravidão, na monocultura canavieira e exportadora e numa estrutura social aristocrática, em que o senhor de engenho concentra praticamente todos os poderes, e a massa trabalhadora é escravizada. Então foi a estrutura social gestada em São Paulo que proliferou para além da Mantiqueira.
É preciso lembrar aquilo que surge, pela primeira vez, nas Minas Gerais. O ouro, além da ganância, de brutal escravidão – que impulsiona imensamente o tráfico de escravos africanos no século XVIII, numa intensidade que o ciclo da cana jamais imaginaria – e das cidades, permitiu também formar, já naquele tempo, centros de cultura letrada ainda inéditos no Brasil, e que deixariam também o seu legado. Antonio Candido, novamente, conta desse início na Formação da Literatura Brasileira. Vamos vendo aí alguns dados de formação da paisagem que irá fermentar a imaginação deste mesmo Guimarães Rosa que agora recebemos como ilustre visitante.
A cachaça estava ali, estabelecida. É célebre a fórmula de Câmara Cascudo segundo a qual “Onde mói um engenho, destila um alambique”3, ou seja, a produção de cachaça sempre esteve presente junto da produção açucareira. Mas agora, na região mineira, se não havia uma produção de açúcar visando a exportação, pequenas plantações de cana serão estabelecidas para se produzir a rapadura, o açúcar e a cachaça para o consumo local. E lá estavam os tropeiros para circular pelas Estradas Reais com produtos do reino e da terra, entre os quais, obrigatoriamente, a cachaça.
O território do Sagarana, Guimarães Rosa conheceu primeiro como um nativo e morador, na infância, da cidade de Cordisburgo. Foi lá que muito cedo se interessou pelas línguas e leituras. Diz-se que aos 6 anos começou a aprender sozinho o francês e aos 7 tinha lido um livro nesta língua. Por esta época, com a chegada à cidade de um frei franciscano holandês, o padre Canísio Zoetmulder, começou a ter aulas de francês e de holandês. Aos 9 foi viver em Belo Horizonte e estudar no colégio Arnaldo, de padres alemães, onde ampliou consideravelmente seu cabedal linguístico, não só pelo alemão e o inglês, como também o grego e o latim, que faziam parte da formação clássica da época.
Aos 16 anos, João Guimarães Rosa entrou na faculdade de Medicina, onde veio a se formar aos 23. Foi então que ele fez uma nova incursão no território, agora com um olhar transformado, que se adicionava de sua formação médica, a um só tempo técnica e interessada pelas relações de homens e mulheres entre si e com o meio. Essa lente lhe renderá muitas observações para as tramas do Sagarana. E sabe-se que desde muito novo o escritor mineiro comportou-se como um pesquisador, por um lado, da língua e das línguas, mas também profundamente da paisagem, sua fauna e sua flora, sua gente, com suas idiossincrasias e universalidades. Vivia munido de um caderninho em que anotava tudo o que via, perguntando os nomes de cada planta ou bicho, saboreando as palavras e seus usos (e usando também seu conhecimento de outras línguas para “enriquecer” a sua, como ele dizia).
Como esculápio da roça, o doutor João Rosa foi recebido em casas das pessoas, pôde conversar com elas, observar seus modos de viver, saber de seus bens e de seus males, conhecer as suas alegrias, os seus dramas e as suas tragédias – que tratava de integrar na compreensão de seu ofício. Seu ofício, que era sim, também, o do cuidado, porém não restrito à medida do possível, com as pessoas dali e suas precárias condições, mas ainda mais genuinamente na medida do impossível com a formação de seu imaginário – imanente-transcendente, formador e parabolar.
São todas coisas que aparecem no relato do senhor, João Rosa, ao editor João Condé, que contém as explicações da escolha da terra-mãe – tão real, quão fabular, e que fabulosa – para situar sua ficção. Aliás, vou ler aqui um trecho dessa carta que o senhor escreveu, tal como publicada na edição da Editora Nova Fronteira que tenho em mão:
Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior – sem convenções, “poses” – dá melhores personagens de parábolas: lá se veem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca.4
Então essa é a matéria-prima (a paisagem local onde está impregnada, por força de formação, no território do imaginário universal da arte – do europeu ao chinês, para ficar em apenas dois exemplos –, o saber popular e o clássico, o conhecimento médico e a superstição, e por aí vai) que vai fermentar na produção de seus contos. Isso vai ser intimamente aquecido, para retirar aquilo que é mais o próprio , como o senhor mesmo, João Rosa, afirma, por uma “depuração”. Leio agora esse outro trecho, tal como o senhor conversou com Fernando Camacho, em 1966:
A criação da minha obra corresponde a uma depuração, à procura de um ideal […]. Esse ideal, essa procura, dentro de si próprio, aliás, permite-me às vezes um contato com qualquer coisa de […] comum a todos os homens. Paradoxalmente, o contato com os outros raramente se consegue quando se é extrovertido.5 (citado por Fantini, 2003, p.44)
Ou destilação, claro, para chegar à quintessência – da terra opaca e fabular à potência transparente do sentido. Então deixar as estórias maturarem nas madeiras da terra ou dos reinos, e assim nuançar seus caracteres, ásperos ou azeitados, com cores e humores os mais sutis – a ironia, o espanto, o sarcasmo, a crueldade, a ruindade.
Olhe o senhor, e ouça: entusiasmado, cheio de si, empavonado no proscênio, solando sobre o senhor, alcancei o extremo de olvidá-lo, o senhor. Rogo-lhe a vênia, é comum em homenagens nos engancharmos nos emaranhados de nossas admirações, a ponto de nossa imagem do herói, tão louvada de sincero amor, apagar da cena o homem – e a cachaça é o homem.
Devo-lhe oferecer, para o tanto, da melhor penicilina, apta a curar minha estima pelo senhor e pelo que nos legou. Não será de Januária, antes ofereço-lhe uma do lugar que veio a tornar-se seu rival, superando-a talvez em fama, mas, há que dizer, filha dos mesmos vaqueiros e cosedeiras, localizado em um atalho para o Caminho da Bahia – porquanto se chegava mais retamente do arraial de Diamantina aos cotovelos da Chapada, já em terra baiana, prolongando o vale do Jequitinhonha ao setentrião.
Mas, você sabe, a cachaça que escolhi não deixa de ter o seu laço com a cidade franciscana: é envelhecida em tonéis de amburana (e também de carvalho), equilibrando ambas no nariz e na língua. Isso redunda em um rosário de doçuras, rezadas no fundo ferroso de melado de cana, no mel especiado do lenho brasileiro e na baunilha frutada da madeira europeia. Como que permeando isso tudo há um toque de anis, fresco, que me provoca, por estranha sinestesia, a sensação da cor verde, em meio aos tons terra das madeiras.
Nomeio, pois, já que este era, desde o princípio, o nosso fim: uma cachaça que é uma obra prima, a Encantos da Marquesa Ouro. Ela tem algo singular, um sabor quase cítrico, que até se sente mais em sua versão prata mas que se prolonga sob a maturação das madeiras.
Espero que seja de seu agrado, já que é erguida e vertida, singelamente, em sua homenagem.
***
Esta carta é o começo de uma série de visitas a João Guimarães Rosa, que será benzida pelo “mais brasileiro dos prazeres”, no dizer do meu mestre o cachacista pernambucano Jairo Martins. As cachaças foram generosamente cedidas pela Amburana.
 —
1As informações sobre as Estradas Reais foram obtidas no livro de Márcio Santos,Estradas reais: introdução ao estudo dos caminhos do ouro e dos diamantes no Brasil, Belo Horizonte, Editora Estrada Real, 2001.
2Antonio Candido, “Jagunços mineiros de Claudio a Guimarães Rosa”, Vários Escritos, São Paulo, Duas Cidades, 2004, p. 99.
3Luís da Câmara Cascudo, Prelúdio da Cachaça: etnologia, história e sociologia da aguardente no Brasil, Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, p. 25.
4João Guimarães Rosa, “Carta a João Condé”, Sagarana, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2001, p.25.
5Citado por Marli Fantini, Guimarães Rosa: Fronteiras, Margens, Passagens, São Paulo, Ateliê Editorial e Editora Senac São Paulo, 2003, p. 44.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A POESIA VIVA

pessoas, o Folhetim Republicano, em sua quarta edição, já saiu do forno com quatro escritos:
Poesia Viva - p. 3/ Educação e Emancipação - p. 5/ Manifesto da Costa Rica - p. 7/ Lenço no pescoço - p. 9... aqui.
o Poesia Viva é uma escrevinhadura minha e está na página 3.
logologo coloco aqui o link da publicação oficial, que poderá ser encontrada, também no sítio do Instituto Missioneiro de Teologia.
aí vai o escrito...
A POESIA VIVA
Foucault, brincando ou não, afirmou que um dia o século ainda haveria de ser deleuziano. Disse isso, não antevendo a cronificação dum novo pensamento dominante –até porque, isso contrariaria o próprio pensamento de Deleuze-, mas sim, antevendo a perspectiva da ruptura com o ideário consolidado no imaginário das gentes, provocando uma certa liberação ao viver inventivo, ao viver poético.
O pensamento dominante e ortodoxo criou e sustentou modos de vida e campos teóricos esterilizantes. Em nossa formação cultural, aprendemos a cultivar misérias, dor, desamor, raiva, ódio, guerra; aprendemos, também, a cultivar o ideal do amor romântico que exclui todas essas coisas (entenda-se aqui, o amor romântico enquanto afeto geral e não endereçado a um campo específico); assim, aprendemos que só há um ou outro campo e que os dois se excluem... mas a vida, a vida corrente é feita não dessa condição binária e dicotômica, e sim, de transversas situações e condições. A vida inclui as belezas e também as feiezas, as consolidações e as rupturas, as situações as mais diversas, as mais transversas... enfim, é feita de campos de encontro, de desencontro, de entrecruzamentos, de descruzamentos... é feita de descontinuidades... e é nessas condições que outras linhas se criam e se recriam.
Quando olhamos para a vida enquanto invenção poética, a vemos como a condição vital que anima todas as nossas lidas do cotidiano. Não se trata dos versos modulados na exatidão do encontro da (mili)métrica rima das palavras ditas e das palavras escritas; não se trata dos versos impressos e tingidos nos pergaminhos guardados em nossas bibliotecas. Falo do verso que se modula como interioridade, superfície e face de nosso ser e de nosso existir, e que expressa aquilo que criamos em nossos viveres (tanto nos viveres na vida mais recolhida e reservada, quanto nos viveres públicos)... falo do verso enquanto expressão da singularidade.
O viver inventivo, feito da poesia viva (não como condição soberana e profunda do viver e do fazer-se sujeito, mas como modo de vida aberto, fluído e intempestivo), nos movimenta a compor a vida a partir duma ética própria ao sujeito, com suas reentrâncias, com suas dobras, com suas livres escolhas, com suas idealizações, com suas imperfeições, com seus quereres, com seus desejos mais profundos ou os mais superficiais, enfim, a ética, diferente da moral, é feita das escolhas da pessoa (sejam escolhas feitas a partir de imposições, sejam escolhas feitas a partir do seu livre fluir); trata-se de olhamos para nossos modos de vida como escolhas éticas e inventivas, desenhadas por um fazer político... não há escape, pois toda a nossa atuação constitui-se num fazer político, visto que estamos irremediavelmente incluídos nos aconteceres da polis –seja com nossos fazeres e pensares, seja com nossos não-fazeres ou desfazeres e não-pensares-.
Falo aqui, dos viveres, dos fazeres e dos quereres que não cabem no Lattes... de existires compostos de muitas vidas (e não somente da nossa e de uma única vida)... falo aqui, dos nossos fazeres enquanto gente que vive e que trabalha... falo aqui, de compor a vida enquanto poesia viva... falo aqui, de aprender a olhar as gentes com que trabalhamos, como se entidades fossem, dirigindo-lhes um delicado olhar feito de esquizo-lucidez, que nos permita cartografar/ajudar a cartografar as densidades, as levezas e as intensidades dos viveres que não são somente do outro, mas também são nossos.
É preciso aprender a cartografar... é preciso aprender a olhar a vida para além do pensamento acadêmico clássico... é preciso aprender a escrever a escrita das vidas... é preciso aprender a escrever a escrita composta na poesia das vidas... é preciso aprender a olhar os versos com que transversamos nossos versos... é preciso boniteza no olhar e no pensar... é preciso não querer impor às gentes com que fazemos nossas lidas cotidianas, uma moldura acadêmica à qual teriam que se ajustar para podermos lhes ver... é preciso coragem para ver e sentir a vida do outro (e por conseqüência, a nossa)... é preciso grandeza para reconhecer que nossas andanças acadêmicas e teóricas nos servem para alumiar nossa ignorância e para nos ensinar a inventar ferramentas e dispositivos que nos ajudem a andar com as gentes e compor seus existires e suas andanças.
Costumamos escrever pouco sobre os vastos territórios das existências que transitam nos campos das políticas públicas ou nos campos mais privados... escrevemos pouco sobre nossas experimentações, sobre nossos pensares e nossos fazeres... escrevemos pouco sobre as vidas com que transversamos nossos versos... cartografamos muito pouco nossas andanças e as daqueles com que andamos... não nos é dado olhar para a escrita de nossos fazeres que fica inscrita na vida das gentes... tai a escrita de que mais gosto... a escrita da vida... as formas com que a vida se escreve dentro e fora de cada um... isso que chamo de versos que transversam com outros versos.
Os caminhos e descaminhos traçados na geografia das ruas e na geografia das vidas das gentes, não têm linhas fixas... nos mostram as andanças lá por dentro das entranhas dos existires e dos viveres das gentes tortas que não cabem nas exatidões da ciência, da academia ou do olhar com que muitos olham para a vida dos viventes... é com um olhar maiúsculo dirigido às vidas minúsculas, que tornamos maiúsculos esses existires. É preciso ampliar, em vez de reduzir ou fixar. É preciso aprender a desconhecer, para se permitir olhar para além das molduras e quiçá, um dia, vir a conhecer.
Foucault nos mostra muito bem esse pensar e esse fazer visceral, quando da exumação dos arquivos do internamento do Hospital Geral e da Bastilha, na França, fuçando nas entranhas dos prontuários e das vidas abnegadas à sólida entidade chamada loucura (e ele faz isso, na perspectiva de mostrar a vida vista e vivida fora do conceito, fora da moldura; em seu escrito A Vida dos Homens Infames, entoa que: “Este não é um livro de história. A escolha que nele se encontrará não seguiu outra regra mais importante do que meu gosto, meu prazer, uma emoção, o riso, a surpresa, um certo assombro ou qualquer outro sentimento, do qual teria dificuldade, talvez, em justificar a intensidade, agora que o primeiro momento da descoberta passou.// É uma antologia de existências. Vidas de algumas linhas ou de algumas páginas, desventuras e aventuras sem nome, juntadas em um punhado de palavras. Vidas breves, encontradas por acaso em livros e documentos (...) nesses textos, a condensação das coisas ditas, que não se sabe se a intensidade que os atravessa deve-se mais ao clamor das palavras ou à violência dos fatos que neles se encontram. Vidas singulares, tornadas, por não sei quais acasos, estranhos poemas, eis o que eu quis juntar em uma espécie de herbário (...). Se eu o fiz então é sem dúvida por causa dessa vibração que sinto ainda hoje, quando me ocorre encontrar essas vidas ínfimas que se tornaram cinzas nas poucas frases que as abateram (...). Não é uma compilação de retratos (...): são armadilhas, armas, gritos, gestos, atitudes, astúcias, intrigas cujas palavras foram os instrumentos. Vidas reais foram ‘desempenhadas’ nestas poucas frases; não quero dizer com isso que elas ali foram figuradas, mas que, de fato, sua liberdade, sua infelicidade, com frequência sua morte, em todo caso seu destino foram, ali, ao menos em parte, decididos. Esses discursos realmente atravessaram vidas; essas existências foram efetivamente riscadas e perdidas nessas palavras (...). Para que alguma coisa delas chegue até nós, foi preciso, no entanto, que um feixe de luz, ao menos por um instante, viesse iluminá-las. Luz que vem de outro lugar”1.
A poesia viva é como lamber as palavras (no pensar de Manoel de Barros)... é como fornicar com o pensamento... copular com as existências ... procriar com os existires... a poesia viva é aquilo que inventamos sem saber que estamos inventando... é aquilo que se sente nas vísceras... é o verso que passa por dentro de cada um e dos outros... não se faz poesia viva sozinho... é sempre com o outro, seja o o outro enquanto presença física, seja o outro enquanto presença imaginária!
Taí a vida que não cabe no Lattes e nem nas gramáticas. Taí a vida cujo registro encontramos nos existires de cada um e em suas intensidades ... é nesses transversamentos sem emolduramentos, que vemos e sentimos a visceralidade que é a vida corrente de quem não subtrai da existência nem o mais duro, nem o mais difícil, nem o mais dorido... remexe no interior de suas dobras...... pharresia, incorpora a coragem da verdade como a espinha do seu dorso... verdade da vida nua, vida feita poesia que dilacera suavidades, vida cortante, vida do jeito que ela é. Imprecisa. Poética. Descompassada. Desemparelhada. É a vida que transborda.

Maria Luiza Diello – Venho dos descampados da existência, feito cheios de precisões para serem desfeitas; pescadora, bolicheira, moinheira, mulher-da-vida, conversadeira, inventadeira, poeteira, escrevinhadeira e curiosa (o que provoca pesquisamentos por causa do pouco conhecimento), no mais, Psicóloga, Especialista em Ciência Política, Mestre em Filosofia, Trabalhadora Pública e, também, arredo o banco pra trabalhar num canto não tão público, com as gentes que se recolhem um pouco ao conversatório (que a maioria chama de consultório).

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

hypomnemata 190

Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no.190, agosto de 2016
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Assujeitamento 1
Olimpíadas de 2016 no Brasil. Atletas sobem ao pódio e batem continência como orgulhosos soldados servindo à sua pátria.
Dos 465 atletas da delegação brasileira, 145 são militares. Eles fazem parte do Programa Atletas de Alto Rendimento (PAAR), criado pelo Ministério da Defesa em parceria com o Ministério dos Esportes em 2008, na época, respectivamente, sob o comando dos ministros Nelson Jobim e Orlando Silva.
O programa tinha como objetivo inicial reforçar a delegação brasileira nos Jogos Mundiais Militares (JMM) de 2011, realizados na cidade do Rio de Janeiro. Os atletas de alto rendimento foram convocados a se inscreverem por meio de edital público aberto duas vezes ao ano.
O atleta selecionado recebe uma renda mensal de R$3.200 mais 13° salário, plano de saúde, assistência odontológica, além de usufruir das estruturas das Forças Armadas para treinamentos: Centro da Capacitação Física do Exército, Complexo Esportivo de Deodoro, Universidade da Força Aérea, Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (CEFAN) da Marinha. Para que os atletas possam participar JMM, eles recebem das Forças Armadas a patente de 3°sargento do Exército, Marinha ou Aeronáutica.
O programa prepara os atletas para as competições organizadas pelo Conselho Internacional do Esporte Militar (CISM) e da União Desportiva Militar Sul-americana (UPMSA).
O CISM, sediado em Bruxelas, foi criado em 1948 por representantes da Bélgica, Dinamarca, França, Luxemburgo e Holanda sob o lema “amizade através do desporto”. Sua principal referência foi o Conselho Desportivo das Forças Aliadas, criado pelos EUA em 1945 e que reunia 12 países “em torno de um ideal de confraternização por intermédio da prática desportiva”. Logo após as milhões de mortes na II Guerra Mundial, deu-se às forças armadas um momento recreativo.
O Brasil, que tivera participação pífia nos jogos anteriores, culminando com a 33° colocação nos jogos de 2007, na Índia, foi alçado ao topo do esporte militar por meio deste programa: nos jogos militares de 2011, alcançou a primeira colocação do quadro de medalhas e, em 2015, nos jogos realizados na Coreia do Sul, ficou com o segundo lugar, atrás da Rússia.
O PAAR não é o único programa voltado a atletas de alto rendimento. Junta-se a ele o Programa Bolsa Atleta, do Ministério dos Esportes, que paga mensalmente R$3.100 a atletas filiados a alguma entidade de prática desportiva e que tenham integrado a delegação olímpica ou paralímpica nas últimas edições dos jogos.
O topo dos programas voltados aos atletas é o Bolsa Atleta Pódio, criado em 2011, que premia o alto rendimento esportivo por meio de um sistema para aferição de eficiência e produtividade como determinante para o pagamento dos atletas: os vencimentos mensais variam de R$5.000,00 (grupo 4) a R$15.000,00 (grupo 1), distribuídos segundo a colocação alcançada por cada atleta nos últimos campeonatos mundiais, rankings internacionais e jogos olímpicos.
Assim, realiza-se, no âmbito do chamado esporte de alto rendimento, a combinação entre rígida disciplina militar por meio do controle estatal direto, que fez o sucesso esportivo dos antigos países do chamado Bloco Soviético (Cuba, incluída), e recompensas via subsídios governamentais distribuídos segundo rendimento auferido de metas.
Vê-se, assim, que as tecnologias de governo não resultam de ideologias ou artimanhas dos que ocupam o governo de Estado, mas de práticas híbridas e variadas que se guiam pela capacidade de colher resultados. Não à toa a nação comemora o sucesso dos melhores jogos da “equipe Brasil”.
Completado por benefícios de outros programas “mais gordos”, vindos da iniciativa privada via patrocinadores, os atletas brasileiros gostaram mesmo de bater continência no pódio. Exercitaram e exemplificaram a tolerância entre ricos e pobres, gays e mulheres, pretos e brancos, e quase todos jovens, desfilando condutas retrógradas confirmadas no solene gesto militar do alto da vitória.
Não têm vergonha de demonstrar seu amor pela disciplina militar-esportiva, escancarar patriotadas, derramar-se em lágrimas pela “preservação de valores seculares e de respeito à família”. Juntam-se ao conservadorismo moderado do momento, fazendo-se de equilibrados senhores e senhoras de suas performances.
E, desse modo, renova-se a imagem de uma instituição autoritária que segue matando em todo território nacional.
Assujeitamento 2
Olimpíadas de 2016 no Brasil. Atletas sobem ao pódio e batem continência como orgulhosos soldados servindo à pátria.
O poder de polícia das Forças Armadas não cessou com o fim da ditadura civil-militar. Além da institucionalização da Polícia Militar, o governo da presidenta que sentiu na pele os efeitos da ditadura acionou por diversas vezes a medida militar de Garantia de Lei e Ordem (GLO), Portaria Normativa no 3.461 /MD, de 19 de dezembro de 2013, caracterizada pelo emprego das Forças Armadas em operações consideradas de “não guerra”.
Essas operações, realizadas exclusivamente por ordem expressa da Presidência da República, visam “garantir a ordem pública” e o “funcionamento regular das instituições” em áreas seletivamente triadas e por períodos limitados, sob o que se considera um estado de emergência.
Agem contra a “perturbação da ordem” e diante de “ameaças à incolumidade das pessoas e do patrimônio”. Dão às Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) o poder de polícia em períodos e locais determinados, podendo efetuar prisões e utilizar a força sempre que considerar necessário.
No caso específico do estado do Rio de Janeiro, as GLO foram acionadas para os eventos Rio+20, Copa das Confederações (passando por revisão devido aos acontecimentos das jornadas de junho de 2013), visita do papa Francisco à Jornada Mundial da Juventude, Copa do Mundo e Olimpíadas.
Por solicitação do governo estadual, a GLO foi requisitada nas operações da pacificação dos Complexos da Maré, Penha e Alemão.
A ostentação do aparato militar deu tons mais precisos aos campos de concentração chamados comunidades. A presença das Forças Armadas nas favelas garante odireito de ir e vir do Estado na vida daqueles que, nomeados como vulneráveis, permanecem como indesejados e perigosos que devem ser mantidos monitorados.
Reproduzem-se nestes espaços os guetos que garantem a sobrevivência desde que contidos em seu determinado quadrado. A garantia de direitos que servem de justificativa para as intervenções, e não fazem mais do que melhorar a condição de favelados aprisionados em um ambiente seguro para o resto da boa sociedade.
Rafaela Silva, judoca medalha de ouro, contemplada pelo (PAAR) tornou-se 3º Sargenta da Marinha. Dias após a conquista da medalha de ouro, ela voltou ao Complexo do Alemão onde nasceu.
Em cima de um carro de bombeiros, desfilou pelas miseráveis ruas das comunidades. Foi acompanhada por centenas de moradores que cantavam a todos os pulmões: “eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci” e, orgulhosos, bradavam: “favelaaa, favelaaa, favelaa, eu sou da favela”.
Para quem vive cercado e ama essa condição é mais fácil aderir a um mundo novo olímpico do que inventar um mundo outro.

flecheira.libertária.448

barricadas 
Desde quarta-feira, 31 de agosto, manifestações tomam conta de várias cidades do país. Entre as reivindicações, há desde a saída do delegado presidente passando por novas eleições, e seguindo a recomendação da ONU pela desmilitarização da polícia. No meio do trajeto conhecido irromperam os black blocs, confrontando a polícia, liberando a passeata e evitando mais repressão. Escancararam, mais uma vez, o quão violentas são as tropas do Estado. Em São Paulo, com o rosto coberto, um jovem vestindo negro, ao ouvir de um militante organizado, “aqui tem que ser pacífico”, respondeu: “aqui tem que ter barricada”. 
o papel de polícia 
Nenhum jornal de grande circulação estampou as dezenas de corpos feridos pelo Estado. Restringiram-se a dois ou três casos. Um dos maiores veículos da imprensa nacional condenou a ação dos black blocs, identificando-os como “soldados da arruaça”, “delinquentes”. O editorial do periódico, em conformidade com a ordem de pai para filhos, explicitou que se preocupa com a defesa da propriedade e esporadicamente com a vida dos milhares que saem às ruas. Expôs como exercita a figura de policial. De tão democrático ele garante que o dissabor de um colunista seja publicado. E o colunista, em seu espaço reservado, saboreia sua insatisfação e garante seu emprego sem perder a linha. Confortavelmente reiterou o editorial com o argumento senhorial de que o black bloc é coisa de moleque. Enquanto isso, em Caxias do Sul, um advogado preto que intercedeu a favor de manifestantes abordados violentamente pela polícia, foi espancado e seu filho, que saiu instintivamente em sua defesa, indiciado por tentativa de homicídio. 
de olhos bem abertos 
Na mesma semana em que os protestos voltaram a tomar as ruas, um dos fotógrafos que perdeu a visão depois de receber um tiro da polícia durante as jornadas de junho de 2013, teve a ação judicial que movia contra o Estado negada pela justiça. Na última quarta-feira, uma jovem de 19 anos também ficou cega ao ser alvejada por um estilhaço de bomba propriedade do Estado. Seja pela violência, ou política, é impossível não ver: o Estado mata, o Estado cega e o Estado é o justo! 
troca-troca da pacificação 
Após o julgamento que levou ao impeachment da presidente, movimentos de esquerda organizaram uma série de manifestações contra o delegado e agora presidente. Em algumas delas, adeptos da tática black bloc radicalizaram a monótona e ordeira marcha pacífica, quebrando bancos e atacando a polícia. Como se não bastasse os tiros e as bombas da polícia, enfrentaram a repressão no interior da própria manifestação. Líderes de organizações com vínculos partidários disseram não haver espaço “nas nossas manifestações para práticas dessa natureza” e que os black blocs deveriam ser “convidados a se retirar”. Além disso, orgulham-se em dizer que seus liderados colaboraram com a PM denunciando a presença dos mascarados. No final do ato deste último domingo, mais uma vez os que se arriscaram a se mascarar eram prontamente reprimidos pelos manifestantes pacíficos. A tática black bloc escancarou, mais uma vez, o amor dessas organizações e seus filiados pela polícia. Enquanto isso, alegremente, a direita – na companhia de skin heads –, comemorou a vitória passivamente e sem ser incomodada, deglutindo bolo com champanhe na porta da Fiesp.

sábado, 3 de setembro de 2016

porosa amorosidade

amorosidade é afeto que tem que ser bom e bonito (mesmo com altos e baixos, idas e vindas).
amorosidade é coisa que flui, porque se fosse para não fluir, seria morosidade.
amorosidade é sentimento pra produzir leveza e não peso ou gasto desnecessário de energia.
amorosidade é feita de encontros e de sintonia, e não de distanciamentos.
amorosidade é tecida no olhar de cuidado e de aconchego, e não de egoísmo e repulsa.
amorosidade é boniteza feita pra fazer florir e não para provocar esterilidades.
amorosidade é encantamento que inventa movimento e não travamentos.
amorosidade é musicalidade e não calamentos.
amorosidade é ter lugar pro outro e no outro, porque se tiver lugar somente para um, não é amor.
amorosidade é compartilhamento e parceria,
é encontrar até no desencontro,
é rir das mesmas coisas,
é alegria à desvairada,
é leveza serena,
é beber cachaça junto, só pra conversar à toa,
é andar de mãos dadas, só pelo alegramento de se estar junto,
é cumplicidade no toque,
é apaixonamento no olhar,
é sentir orgulho do que se é com o outro,
é andar sem medo (e também, andar com coragem),
é mirar todas as possibilidades e inventar acontecimentos,
inventar a vida.
vida á algo que só inventamos com o outro (qualquer outro... uma sonoridade, um fato, um ato, um afeto, uma imagem, uma palavra, uma gente).
é preciso ser poroso para inventar amorosidade.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

um velho, uma moça

relendo "memória de minhas putas tristes", do Gabo, me veio em forma de despensamento, a lembrança dum velho -corcunda-que não era de notredame. vencido, não pela idade, mas por seu desavantajado porte, nádegas enrugadas, pescoço curto, cabeça oca, foi ao mercado comprar um par para se emparceirar.
vencido, também, pela insegurança de varão insonso, molenga, desinteressante, precisava se reafirmar. e se afirmar.
escolheu a dedo, a menina que o faria se sentir um sansão. negociou-a com a mãe; não sei o que trataram no brique, mas sei que custou caro.passará a vida pagando. contam que periodicamente renova a certificação.
nunca foi enquadrado nas determinações do ECA. seu tempo, era do código de menores.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Fernando Bezerra (PSB-PE)

Conheça breve histórico dos senadores que aprovaram o impedimento de Dilma Rousseff, publicados na edição 230 de Caros Amigos
O senador de Pernambuco responde a quatro inquéritos. Fernando Bezerra foi citado na delação de Paulo Roberto Costa na Lava Jato por ter recebido R$ 20 milhões na época em que ele era secretário do então governador Eduardo Campos.

Zezé Perrella (PTB-MG)

Conheça breve histórico dos senadores que aprovaram o impedimento de Dilma Rousseff, publicados na edição 230 de Caros Amigos
Em 2015, o Ministério Público de Minas Gerais entrou com ação por improbidade administrativa contra o senador Zezé Perrella por enriquecimento ilícito e lesão ao tesouro entre os anos de 2007 e 2010, quando exercia o mandato de deputado estadual. Perrella teria recebido cerca de R$ 1,3 milhão por gastos que não tiveram relação com a atividade parlamentar. Entre 2005 e 2009, o parlamentar era filiado ao PSDB. Seu nome, porém, passará à história no caso do helicóptero apreendido com 445 quilos de pasta base de cocaína na cidade de Afonso Claudio, região serrana do Espírito Santo. A aeronave pertence à empresa Limeira Agropecuária, que tem como um dos donos o deputado mineiro Gustavo Perrella (Solidariedade-MG), filho do senador. Até o momento, a família está livre de envolvimento e se diz vítima de “apropriação indébita” pelo piloto, que responde por tráfico internacional. Contra Gustavo, o processo foi arquivado por falta de provas, sobrando para os dois pilotos e outros dois ajudantes que estavam em terra. O processo corre no Espírito Santo.

Magno Pereira Malta (PR-ES)

Conheça breve histórico dos senadores que aprovaram o impedimento de Dilma Rousseff, publicados na edição 230 de Caros Amigos
Senador eleito pelo antigo PL (Partido Liberal) e atual PR (Partido da República), formado em teologia, é pastor e cantor evangélico e faz parte da Bancada Evangélica do Senado. Em 2006, Malta foi citado no relatório da CPMI da operação Sanguessugas entre os políticos que desviaram recursos públicos destinados à compra de ambulâncias no Ministério da Saúde, o caso conhecido como a

Máfia das Sanguessugas, cujos esquemas, apontou também a investigação da PF, começaram na gestão de José Serra, no início dos anos 2000. Acabou absolvido na Comissão de Ética do Senado que seguiu o parecer do relator Demóstenes Torres, que orientava arquivamento por falta de provas. O senador também foi investigado no escândalo dos “atos secretos”, entre 1995 e 2009, quando teria se beneficiado do esquema de nomeações ilegais de funcionários para cargos de confiança.

Marcelo Crivella (PRB-RJ)

Conheça breve histórico dos senadores que aprovaram o impedimento de Dilma Rousseff, publicados na edição 230 de Caros Amigos
O Ministério Público Federal (MPF) abriu investigação para apurar indícios de corrupção no Ministério da Pesca e Aquicultura na gestão do agora senador Marcelo Crivella, entre 2012 e 2014. A suspeita era de que falsos pescadores e pescadores fantasmas estavam recebendo benefício do seguro-defeso, conhecido como Bolsa Pesca, pago durante o período anual de proibição da pesca. O MPF chegou a instaurar 25 ações judiciais e 86 investigações para apurar irregularidades na pasta. Cerca de 30 mil parcelas, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), foram pagas irregularmente entre 2012 e 2013 a pessoas com outro emprego formal, a quem já recebia outros benefícios previdenciários e a pessoas mortas. Um prejuízo de cerca de R$ 20 milhões, segundo o TCU.

Benedito Lira (PP-AL)

Conheça breve histórico dos senadores que aprovaram o impedimento de Dilma Rousseff, publicados na edição 230 de Caros Amigos
Também citado na Lava Jato por Paulo Roberto Costa, Lira teria recebido R$ 1 milhão de ajuda para a campanha eleitoral. GLADSON CAMELI (PP-AC) Além de Gladson Cameli ser um dos parlamentares do PP relacionados à Lava Jato e incluído nas investigações abertas em março de 2015 pelo STF contra 49 pessoas, 47 delas políticos, ele também responde a um processo por dirigir bêbado.

Ciro Nogueira (PP-PI)

Conheça breve histórico dos senadores que aprovaram o impedimento de Dilma Rousseff, publicados na edição 230 de Caros Amigos
Em depoimento prestado no final de junho no âmbito das investigações da Operação Lava Jato, o ex-diretor de refino e abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, afirmou que o senador Ciro Nogueira, atual presidente do PP, e o ex-ministro das Cidades, Mário Negromonte, eram os dois responsáveis pela divisão da propina destinada a políticos do partido. Ciro Nogueira também foi citado pelo presidente da UTC, Ricardo Pessoa, em delação premiada, quando o empresário afirmou ter pago R$ 2 milhões em propina a Nogueira. O PP é o partido com o maior número de citados na Lava Jato.

Ronaldo Caiado (GO)

Conheça breve histórico dos senadores que aprovaram o impedimento de Dilma Rousseff, publicados na edição 230 de Caros Amigos
 Em março de 2015, o ex-Senador Demóstenes Torres publicou um bombástico artigo na imprensa goiana, no qual acusa o líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado, de ter sido financiado pelo contraventor Carlos Cachoeira nas campanhas que disputou à Câmara Federal nos anos de 2002, 2006 e 2010. No artigo, amplamente divulgado pela imprensa, Demóstenes diz: “Ronaldo fazia, sim, parte da rede de amigos de Carlos Cachoeira, era, inclusive, médico de seu filho. Mas não era só de amizade que se nutria Ronaldo Caiado, peguem as contas de seus gastos gráficos, aéreos e de pessoal, notadamente nas campanhas de 2002, 2006 e 2010, que qualquer um verá as impressões digitais do anjo caído (Cachoeira). Siga o dinheiro”, afirmou Demóstenes. Cachoeira foi denunciado por tráfico de influência e negociava propinas para arrecadar fundos para disputas eleitorais. O bicheiro foi preso em 2012 em operação da PF que desbaratou esquema de adulteração de máquinas caça-níquel.

José Agripino Maia (RN)

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Conhecido moralista da oposição antipetista, o presidente nacional do Democratas, José Agripino Maia, foi citado em delação premiada feita por George Olímpio, empresário local, que o acusou de cobrar R$1 milhão para permitir um esquema de corrupção no serviço de inspeção veicular do Estado. Em março de 2015, o STF aceitou abrir um inquérito contra Agripino para esta caso, após pedido encaminhado pela PGR. O processo, que corre em segredo, foi aberto pela ministra Carmem Lúcia. Ainda em 2015, em outubro, a PGR enviou ao STF pedido para investigá-lo por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O senador é suspeito de combinar o recebimento de propina com executivos da construtora OAS com valores desviados das obras de Arena das Dunas, estádio no Rio Grande do Norte que sediou quatro jogos da Copa do Mundo de 2014. Em abril desse ano, o STF determinou a quebra de sigilo fiscal e bancário de Agripino Maia e do filho dele, o deputado Felipe Maia, de catorze empresas e de outros investigados.

Davi Alcolumbre (AP)

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Foi vereador em Macapá de 2001 a 2003 quando ainda era filiado ao PDT. Em 2002 foi eleito deputado federal pelo estado do Amapá, sendo reeleito em 2006 e 2010. Eleito senador em 2014 pelo DEM. Em outubro de 2015, foi denunciado pelo PMDB, PDT e PP, que afirmam que o senador recebeu cerca de R$ 300 mil de forma ilegal de empresas envolvidas com a Lava Jato. Davi enfrenta acusação e suspeita de caixa dois na campanha de 2014, e abuso do poder econômico. Os partidos entraram com uma representação, a de nº 2234-74.2014.603.0000, na Procuradoria Geral da República (PGR), denunciando que ele teria recebido R$ 100 mil da empresa Odebrecht e R$ 200 mil da CR Almeida. A campanha de Davi ao Senado também recebeu financiamento dos bancos Bradesco, R$ 250 mil, e Itaú, R$ 125 mil.

Ricardo Ferraço (ES)

Conheça breve histórico dos senadores que aprovaram o impedimento de Dilma Rousseff, publicados na edição 230 de Caros Amigos
Eleito pelo PMDB do Espírito Santo, Ricardo Ferraço filiou-se ao PSDB em janeiro deste ano. O senador, que em 2013 era presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE), participou ativamente da operação de fuga do ex-senador boliviano Roger Pinto Molina, em 2013, conhecido opositor de Evo Morales, um imbróglio diplomático e irregular. Então governador de Pando, Molina tornou-se fugitivo da Justiça boliviana, acusado de desvio de quase US$ 2 milhões e de envolvimento em massacre de camponeses conhecido como Massacre de Porvenir, de 2008, no qual vinte indígenas-camponeses foram assassinados e outros trinta ficaram desaparecidos.