segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

atravessamento


para uma-linda-onça-marruá
(agora, uma-linda-bruxa).

entrei naquela mata, pé por pé,
como que temendo e, ao mesmo tempo,
querendo o encontro com a onça.
com a temida onça.
(onça é um bicho que me pega pelas ventas das narinas.
onça é um bicho que me pega pelas pegadas.
onça é um bicho que me pega pela pele.
onça é um bicho feito gente, que me pega pelo cheiro,
sussurrando seus passos em meus surdos-ouvidos).

busquei refúgio na segurança de um forte cercado
que me protegesse de seu faro, de suas garras, de suas patas, de sua chegada.

andava lépida pela mata, protegida por meu seguro cercado.
senti suas pegadas me cercando, mas me fiz de árvore.
me fiz de ente.
me fiz de impermeável (dentro de meu cercado).

por um breve instante vi a onça feito gente.
por um breve instante, percebi sua presença
por um breve instante, senti sua presença.

e, olhando bem, era gente.
então, naquele exato momento, vi-lhe!
movimentei-me de lado, o tempo todo, tentando evitar o seu movimento.
enquanto me presentificava naquele instante,
enquanto ouvia,
enquanto conversava,
enquanto pensava,
enquanto me intensificava,
enquanto falava,
enquanto lia um breve texto,
percebia que a onça estava quieta,
mas não estava se defendendo. E nem atacando.
era apenas uma onça-gente-mulher.

sibilei todas as minhas palavras,
para ter certeza, naquele momento,
de que havia provocado um encontro,
um encontro-atravessamento.
um encontro-transversalizamento.

fiz uma forte curvatura para entrar-lhe.
fui tocando as palavras e os afetos com as mãos.
registrei em minha pacata memória,
o exato instante em que cruzei seu imaginário e
atravessei sua existência.
fiquei ali parada,
para voltar depois.

fugi. assumo. fugi.
protegi-me em meu cercado.
vi-lhe apenas como a onça,
atravessando meu-mundo,
meu-pequeno-mundo.

estava atravessada.
rizomaticamente atravessada.

depois disso tudo,
a vida seguiu.
seguiu por um curto espaço de tempo.
até que a onça voltou materializada em si.

voltou e tocou meu olhar com sua presença.
voltou e entoou sua voz em meu ouvido.
voltou e provocou minha pele com sua pele.
voltou e brandiu seu toque em minha existência.

rodopiei, voei, aterrissei, saltitei e olhei pra trás.
olhei e vi que você estava lá no horizonte,
parada, olhando meu deambular.
firmei as pernas e, num salto,
assustei-lhe.

vi-lhe apenas uma onça.
mostrou-se, ainda, marruá.
entretida em meu devaneio-fuga,
demorei a perceber que seria uma bruxa.

bruxa.
simplesmente, bruxa.

ouviu meus passos incertos.
leu minha cadência.
perscrutou meus pensamentos,
traduziu minhas andanças.
percebeu meus desatinos.
alcançou meus desvarios.
avisou de meu desabalo.

viu isso tudo e avisou pra andar devagar...
... é preciso muito tino pra sair dessa mata fechada!
(é de se olhar que ainda são as bruxas que sabem das coisas!)
mas se há de sair!

6 comentários:

  1. Diello, logo vi que tua cara era de quem tinha sido pego pela onça. Agora bruxa. Ou sempre bruxa.
    Feliz por ti e pela bruxa.

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  2. SEM PALAVRAS.....
    O QUE ESCREVER?
    É MUITO ENCANTAMENTO!!!
    É MUITA POESIA!!!
    LINDO!!!

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  3. Maria Luisa, sou homem e sempre que te vejo ou te escuto encantando as pessoas fico sonhando com o dia em que eu pudesse te falar que tu me encanta tambem.
    Mas sei que nunca alcançarei essa graça.
    Te lendo hoje fiquei com uma inveja boa dessa mulher ou onça ou bruxa que merece todo esse teu canto. Ela deve ser muito linda e especial como tu descreveu.

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  4. Nossa!,nossa, assim você me mata!!, rsrsrs...
    Á poesia é um acontecimento!. Olha Maria Luiza você é um corpo com órgão de mais, e com órgão muito intesificados, rsrsr... Realmente você encanta, não só com a poesia reverberada, mas também com a profundida que você nós olha!!. Que bom que nós nos encontramos,sei lá não quero enquadrar, estou aprendendo isso na esquizoanalise, toda via, você é uma amiga de potência, rsrsr.
    Bom à onça teve um "devir" e tornou-se "bruxa", rsrsrs por isso gostamos tanto de você!!!

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  5. Maria, te lendo vejo o que muitas mulheres gostariam de ouvir dos homens. Mas tu sabes dizer perfeitamente.
    Obrigada por tua poesia.

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  6. caros amigos!
    não me habito
    (já faz tempo).
    não existo.
    não mais do que os personagens
    que invento!
    (esses seres literários que encontramos nas florestas ardentes de nossas próprias entranhas).
    invento-os para que sejam um pouco do que já não mais me habita.
    esses afetos,
    essa poesia,
    esse encanto,
    qualquer um pode ver olhar.
    basta me provocar.
    mas se não me provocar,
    retiro-me como o candeeiro
    se retira da noite
    quando lhe acaba o óleo.
    no mais, ainda que eu mesmo não me habite mais, ardo em chamas com a poesia que me devora.

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