domingo, 13 de novembro de 2011

AGENCIAMENTO [agencement] - deleuze


"Segundo um primeiro eixo, horizontal, um agenciamento comporta dois segmentos, um de conteúdo, outro de ex­pressão. De um lado ele é agenciamento maquínico de cor­pos, de ações e de paixões, mistura de corpos reagindo uns sobre os outros; de outro, agenciamento coletivo de enunciação, de atos e de enunciados, transformações incorpóreas atri­buindo-se aos corpos. Mas, segundo um eixo vertical ori­entado, o agenciamento tem ao mesmo tempo lados territo­riais ou reterritorializados, que o estabilizam, e pontas de desterritorialização que o impelem." (Kplm, 112).
* Esse conceito pode parecer à primeira vista de uso amplo e indeterminado: remete, segundo o caso, a instituições muito fortemente territorializadas (agenciamento judiciá­rio, conjugal, familiar etc), a formações íntimas desterrito­rializantes (devir-animal etc), enfim ao campo de experiên­cia em que se elaboram essas formações (o plano de ima­nência como "agenciamento maquinico das imagens-movi­mentos", IM, 87-8). Dir-se-á portanto, numa primeira apro­ximação, que se está em presença de uma agenciamento todas as vezes em que pudermos identificar e descrever o acoplamento de um conjunto de relações materiais e de um regime de signos correspondente. Na realidade, a dispari­dade dos casos de agenciamento precisa ser ordenada do ponto de vista da imanência, a partir do qual a existência se mostra indissociável de agenciamentos variáveis e remane­jáveis que não cessam de produzi-la. Mais do que a um uso equívoco, ela remete então a pólos do próprio conceito, o que interdita sobretudo qualquer dualismo do desejo e da instituição, do instável e do estável. Cada indivíduo deve lidar com esses grandes agenciamentos sociais definidos por códigos específicos, que se caracterizam por uma forma re­lativamente estável e por um funcionamento reprodutor: tendem a reduzir o campo de experimentação de seu dese­jo a uma divisão preestabelecida. Esse é o pólo estrato dos agenciamentos (que são então considerados "molares"). Mas, por outro lado, a maneira como o indivíduo investe e participa da reprodução desses agenciamentos sociais de­pende de agenciamentos locais, "moleculares", nos quais ele próprio é apanhado, seja porque, limitando-se a efetuar as formas socialmente disponíveis, a modelar sua existên­cia segundo os códigos em vigor, ele aí introduz sua peque­na irregularidade, seja porque procede à elaboração invo­luntária e tateante de agenciamentos próprios que "decodi­ficam" ou "fazem fugir" o agenciamento estratificado: esse é o pólo máquina abstrata (entre os quais é preciso incluir os agenciamentos artísticos). Todo agenciamento, uma vez que remete em última instância ao campo de desejo sobre o qual se constitui, é afetado por um certo desequilíbrio. O resul­tado é que cada um de nós combina concretamente os dois tipos de agenciamentos em graus variáveis, o limite sendo a esquizofrenia como processo (decodificação ou desterri­torialização absoluta), e a questão - a das relações de forças concretas entre os tipos (ver LINHA DE FUGA). Se a instituição é um agenciamento molar que repousa em agenciamentos moleculares (daí a importância do ponto de vista molecu­lar em política: a soma dos gestos, atitudes, procedimentos, regras, disposições espaciais e temporais que fazem a con­sistência concreta ou a duração - no sentido bergsoniano - da instituição, burocracia estatal ou partido), o indivíduo por sua vez não é uma forma originária evoluindo no mun­do como em um cenário exterior ou um conjunto de dados aos quais ele se contentaria em reagir: ele só se constitui ao se agenciar, ele só existe tomado de imediato em agencia­mentos. Pois seu campo de experiência oscila entre sua pro­jeção em formas de comportamento e de pensamento pre­concebidas (por conseguinte, sociais) e sua exibição num plano de imanência onde seu devir não se separa mais das linhas de fuga ou transversais que ele traça em meio às "coi­sas", liberando seu poder de afecção e justamente com isso voltando à posse de sua potência de sentir e pensar (daí um modo de individuação por hecceidades, que se distingue do referenciamento de um indivíduo por meio de característi­cas identificantes - MP, 318s).
Os dois pólos do conceito de agenciamento não são por­tanto o coletivo e o individual: são antes dois sentidos, dois modos do coletivo. Pois se é verdade que o agenciamento é individuante, fica claro que ele não se enuncia do ponto de vista de um sujeito preexistente que lhe poderia ser atribuí­do: logo, o próprio está na medida de seu anonimato, e é por esse motivo que o devir singular de alguém concerne de direito a todos (assim como o quadro clínico de uma doen­ça pode receber o nome próprio do médico que soube reu­nir seus sintomas, embora ele seja em si mesmo anônimo; idem na arte - cf. PSM, 15; D, 153). Não nos iludiremos, portanto, quanto ao caráter coletivo do "agenciamento de enunciação" que corresponde a um "agenciamento maquí­nico": ele não é produzido por, mas por natureza é para uma coletividade (daí o apelo de Paul Klee, muito citado por Deleuze, por "um povo que falta"). É nisso que o desejo é o verdadeiro potencial revolucionário.

** O conceito de agenciamento substitui, a partir do Kafka, o de "máquinas desejantes": "Só há desejo agenciado ou maquinado. Vocês não podem apreender ou conceber um desejo fora de um agenciamento determinado, sobre um pla­no que não preexiste, mas que deve ser ele próprio cons­truído." (D,115). Isso é insistir mais uma vez na exteriorida­de (e não na exteriorização) inerente ao desejo: todo desejo procede de um encontro. Tal enunciado é um truísmo ape­nas na aparência: "encontro" deve ser entendido num sentido rigoroso (muitos "encontros" não passam de chavões que nos remetem a Édipo...), ao passo que o desejo não es­pera o encontro como a ocasião para seu exercício, mas nele se agencia e se constrói. Todavia, o interesse principal do conceito de agenciamento é enriquecer a concepção do de­sejo com uma problemática do enunciado, retomando as coisas no ponto em que a Lógica do sentido as deixara: toda produção de sentido ali tinha como condição a articulação de duas séries heterogêneas mediante uma instância para­doxal, e supunha-se em geral que a linguagem não funcio­nasse senão em virtude do estatuto paradoxal do aconteci­mento, que ligava a série das misturas de corpos à série das proposições. Mil platós concerne ao plano em que se arti­culam as duas séries, atribuindo um alcance inédito à dua­lidade estóica das misturas de corpos e das transformações incorporais: uma relação complexa se tece entre "conteú­do" (ou "agenciamento maquínico") e "expressão" (ou "agenciamento coletivo de enunciação"), redefinidos como duas formas independentes, não obstante tomadas numa relação de pressuposição recíproca e relançando-se uma à outra; a gênese recíproca das duas formas remete à instân­cia do "diagrama" ou da "máquina abstrata". Não é mais uma oscilação entre dois pólos, como ainda há pouco, mas a correlação de duas faces inseparáveis. Ao contrário da relação significante-significado, tida como derivada, a ex­pressão refere-se ao conteúdo sem, com isso, descrevê-lo nem representa-lo: ela "intervém" nele (MP, 109-15, com o exemplo do agenciamento feudal). Decorre daí uma con­cepção da linguagem que se opõe à lingüística e à psicaná­lise, assinalando-se pelo primado do enunciado sobre a pro­posição (MP, platô 4). Acrescentemos que a forma de ex­pressão não é necessariamente linguageira: há por exem­plo, agenciamentos musicais (MP, 363-80). Se nos ativermos aqui à expressão linguageira, que lógicas regem o conteúdo e a expressão no plano de sua gênese e, por conseguinte, de sua insinuação recíproca ("máquina abstrata")? A da "hecceidade" (composições intensivas, de afectos e de ve­locidades - prolongamento significativo da concepção do Anti-Édipo, fundada na síntese disjuntiva e nos "objetos par­ciais"); e a de uma enunciação que privilegia o verbo no infinitivo, o nome próprio e o artigo indefinido. Ambas se comunicam na dimensão de Aion (MP, 318-24) - especial­mente o exemplo do Pequeno Hans). Enfim, é em torno do conceito de agenciamento que se pode avaliar a relação de Deleuze com Foucault, os empréstimos desviados que lhe fez, o jogo de proximidade e de distância que liga os dois pensadores (MP, 86-7 e 174-6; todo o Foucault é construído em cima dos diferentes aspectos do conceito de agencia­mento).

d'O VOCABULÁRIO DE DELEUZE, organizado por François Zourabichvili (Traduçao André Telles - Rio de Janeiro 2004).

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