terça-feira, 16 de março de 2010

DIVULGAÇÃO: Revista Caros Amigos - Edição Março/2010


Lista de matérias desta edição e, em especial, uma Entrevista com Boaventura de Sousa Santos - http://carosamigos.terra.com.br/
ENTREVISTA O escritor Milton Hatoum, arquiteto de formação e fenômeno da
LIXO RADIOATIVO Depósito localizado por Caros Amigos está em área densamente
MONOPÓLIO PRIVADO A empreiteira baiana Odebrecht foi promovida a gigante
GABRIELA MONCAU Lugar de mulher é na política
JOSÉ ARBEX JR. Vamos manter viva a universidade dos trabalhadores!
JÚLIO DELMANTO e OTÁVIO NAGOYA Enchente não é problema natural, é social
OTÁVIO NAGOYA A situação precária dos pesquisadores
NECO TABOSA A Escola flutuante do Recife
ENTREVISTA Boaventura de Sousa Santos
ENTREVISTA Ministro Sérgio Rezende
PEDRO ALEXANDRE SANCHES Assum preto vive solto
FIDEL CASTRO A Revolução bolivariana e as Antilhas
FREI BETTO O guerreiro Obama e o peixe fora d' água
GILBERTO VASCONCELLOS José Serra, o candidato trangênico
EDUARDO SUPLICY Mandela e os 30 anos do PT
JOÃO PEDRO STEDILE O conluio dos três poderes antidemocráticos
RENATO POMPEU Meio século de alegrias e frustrações
RENATO POMPEU Uma editora que resiste ao neoliberalismo: a UFRJ
GABRIELA MONCAU As carregadoras de sonhos da educação brasileira

Entrevista Boaventura de Sousa Santos

“A esquerda tem o poder político, mas a direita continua com o poder econômico” - Por Tatiana Merlino
Nos últimos dez anos, a América Latina setransformou na vanguarda da luta anti-imperialista: “foi o continente onde o socialismo do século 21 entrou na agenda política”. A análise é do intelectual português Boaventura de Sousa Santos, que vê grandes avanços no domínio político e “alguns avanços sociais” durante a década passada no continente latinoamericano. No entanto, ele afirma estar receoso com início do novo decênio: “vejo sinais perturbadores”, diz, referindo-se à recente derrota eleitoral da “esquerda moderada” no Chile e ao crescimento da direita na Venezuela.
Doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale, Estados Unidos, e professor titular da Universidade de Coimbra, em Portugal, Boaventura é considerado um dos principais intelectuais da língua portuguesa na área de ciências sociais. Em conversa com a Caros Amigos, o português falou sobre a crise do capitalismo, o papel da China no novo cenário político-econômico mundial, as propostas de integração da América Latino, e criticou o primeiro ano do governo de Obama: “Agora, o que se vê é que cada presidente dos Estados Unidos tem a sua guerra”.
Diferentemente do que muitos analistas imaginavam, a crise financeira mundial não resultou no colapso do capitalismo. Como o senhor vê a situação daqui para a frente? O que podemos esperar?
Boaventura de Sousa Santos – Essa situação mostra duas coisas: uma, que o pensamento crítico e de esquerda deveria fazer uma moratória de uma ideia que anda sempre presente, que é a crise final do capitalismo. Quantas crises finais já vimos, quantas foram anunciadas? Meus amigos Immanuel Wallerstein e David Harvey já estão falando em crise final. É evidente que haverá um fim, mas é muito difícil imaginá-lo agora. Hoje, o capitalismo não é um modo de produção, e sim um modo de civilização. Temos hábitos que não se imagina que possam existir fora da sociedade capitalista. Portanto, essa é uma luta por uma nova hegemonia, uma nova cultura. São necessárias transformações civilizacionais, e é por meio de uma luta de civilização que o capitalismo vai, eventualmente, cair. Mas não será já. Por exemplo, a crise financeira mostrou exatamente a capacidade de fôlego e de renovação interna que o capitalismo tem. Ele não tem princípios – só tem um, o lucro. Por isso que o capitalismo é, por essência, antidemocrático. Ele tolera a democracia enquanto ela for irrelevante para a proteção dos seus interesses. No momento em que ela ameaçar o desenvolvimento dos seus interesses, o capitalismo pode se transformar em anti-democrático.
Mas o fatos dos bancos terem recorrido ao Estado não muda o cenário do capitalismo mundial?
A partir de uma leitura marxista de Estado não há nenhuma surpresa. O Estado está aí para segurar o capital, e obviamente o Estado americano sustentou o capital financeiro. É aí que podemos discutir em que fase do capitalismo estamos. Nesse ponto eu concordo com os meus colegas. Acho que estamos numa fase particularmente perdedora do capitalismo. E, historicamente, uma certa derrocada do capitalismo acontece fundamentalmente nos momentos em que o capital financeiro começa a dominar o capital produtivo. Foi assim no declínio da Inglaterra, e hoje cremos que pode vir a dar-se a crise desse sistema. A palavra mais demonizada dos últimos tempos foi a “nacionalização”. No entanto, os homens de Wall Street não
hesitaram em aceitar a nacionalização da grande empresa de seguros A&G e de alguns bancos. Foram salvos exatamente pelo Estado. Ou seja, não há princípios, há resultados, há lucros. Essa crise não foi superada, pois, agora, foi aparentemente resolvida pelo capital financeiro. O presidente Obama declara que tem que haver uma regulação do capital financeiro porque a situação não é admissível para os cidadãos. Isso, mesmo numa democracia tão limitada como a norte-americana, em que tantos trilhões de dólares foram injetados no sistema financeiro para obter lucros fabulosos e se distribuir bônus e subsídios aos seus executivos, como faziam antes. Então, nada mudou. Essa é a primeira razão para mostrarmos que temos que ter uma certa prudência quando declararmos as fases finais do capitalismo. Temos que continuar a lutar, mas sabendo que esse é um sistema que tem uma capacidade histórica de se renovar. A segunda razão pela qual nada mudou é que a esquerda nas duas últimas décadas comprou as teses neoliberais. Aquela esquerda que tem a pretensão de chegar ao governo em muitos países – com exceção de alguns países do continente, como Equador, Bolívia ou Venezuela – acabou por aceitar que o mercado é um princípio de eficiência fundamental, que é melhor que o Estado, que a desregulação é importante, que a iniciativa privada é importante. Ou seja, a esquerda ficou desarmada.
Como o senhor vê o papel da China nessa nova conjuntura político-econômica? Ela tem potencial para redefinir a geopolítica mundial?
Tem, sim, e estamos a falar de mais de um quinto da população mundial, com uma parcela significativa da humanidade. Esse país tem uma grande capacidade de ser uma força internacional. Ao contrário dos países ocidentais, injetou dinheiro na economia produtiva e, portanto, é o primeiro país a sair da crise. Com um crescimento que, calcula-se, será de 9% neste ano. Entre suas limitações está a disjunção entre o sistema político e econômico. É um sistema do lucro, do egoísmo, governado por um partido único autoritário que tem outras lógicas de funcionamento. Por quanto tempo essa disjunção vai existir? A China vai ser uma influência boa e má. Boa no sentido de moderar os instintos imperialistas dos Estados Unidos. Mas isso não é garantia que não possa vir a prejudicar outros interesses da humanidade.
Quando Barack Obama ganhou as eleições presidenciais, o senhor escreveu um artigo falando do valor simbólico da vitória. Passado um ano de governo, recém-completado, qual é o balanço que o senhor faz, tanto da política interna quanto externa?
Nesse artigo eu já mostrava alguma distância em relação ao Obama. É curioso que fui talvez uma das primeiras pessoas a escrever colunas internacionais que não “embandeiraram arco”, como a gente diz em Portugal, com a eleição de Obama. É claro que simbolicamente há um poder enorme, porque, não ele, mas sua mulher, é descendente de escravos, e, assim, entra na Casa Branca uma descendente dos escravos que construíram a mesma Casa Branca. E isso é de um valor simbólico notável, do mesmo modo que é chegar um operário ao governo no Brasil. Mas um ano depois, o que vemos é que, por mais inteligente que seja um homem – e ele é o melhor aluno de Harvard até hoje –, por mais que ele tenha uma capacidade retórica impressionante, quando chega ao poder fica totalmente enredado a esse poder. Ao fim desse primeiro ano de mandato só temos desilusões. De fato, não há nada de positivo. Quando da crise financeira, o Obama ainda era candidato e o vi na televisão rodeado pelos grandes homens do Goldman Sachs [um dos maiores bancos de investimento do mundo], que são hoje seus consultores. Portanto, ainda como candidato ele deu sinais de que não ia mudar a política do país. Mas foi pior do que aquilo que se esperava, na medida em que ele tinha um perfil de luta contra a guerra. Agora, o que se vê é que cada presidente dos Estados Unidos tem a sua guerra. O Obama também tem a sua. E esta, todavia, é quiçá mais perigosa que a guerra do Bush contra o Iraque. Porque é uma guerra no Afeganistão, onde historicamente ninguém ganha. E é uma guerra que se estende a um país que antes era amigo, o Paquistão, que está a ser desagregado devido à influencia dos EUA. Portanto, a desilusão no campo da guerra é total. A segunda desilusão é o comportamento em relação à América Latina. Não é desilusão porque eu não estava iludido, mas é evidente que muita gente ficou, porque Obama veio com um discurso completamente distinto, de estender a mão aos colegas latino-americanos. Mas a verdade é que a Quarta Frota continua e vieram as sete bases militares na Colômbia, que não têm nada a ver com a droga, nem sequer com a guerrilha. Elas estão orientadas basicamente para a biodiversidade desse continente, área estratégica para os Estados Unidos. Portanto, não pode ocorrer nada nesse continente que ponha em risco os seus interesses estratégicos ou o seu acesso aos recursos naturais.
Tatiana Merlino é jornalista

DIVULGAÇÃO: Le Monde Diplomatique Brasil - Número 32- O FUTURO DAS CIDADES

DIVULGAÇÃO: Le Monde Diplomatique Brasil - Número 32- O FUTURO DAS CIDADES, com os seguintes escritos:
O futuro das cidades - Para unir o urbano dividido por Kazuo Nakano
O futuro das cidades - Saturação das metrópoles por Philip S. Golub
O futuro das cidades - A luta por espaço por Jean-Pierre Garnier
Cidades / Ásia - A (re)construção de Hanói por Xavier Monthéard
Mobilidade urbana - Os motoboys no globo da morte por Ricardo Barbosa da Silva
Entrevista / Boaventura de Sousa Santos - Uma mudança nos rumos da esquerda por Vanessa Marx
Integração sul-americana - Novas configurações políticas por Oscar Vega Camacho
Integração sul-americana - Saída regional para a crise por José Carlos de Assis
8 de março - Até que todas as mulheres sejam livres por Miriam Nobre
Haiti - Ajuda ou intervenção? por Pierre Micheletti
Crise econômica / Europa - A Grécia é a bola da vez por Niels Kadritzke
Banco Central Europeu - Rumo à falência por Laurent Cordonnier
Crise financeira - A urgência do contrachoque por Frédéric Lordon
Crise econômica / Ásia - Dubai, uma queda anunciada por Ibrahim Warde
Livre-mercado - Um negócio lucrativo para a Goldman Sachs por Serge Halimi
Estados Unidos / Segurança - A zona obscura da contenção do crime por Jérémie Droy
Agricultura - A Índia resiste à sedução dos EUA por Mira Kamdar
Propriedade intelectual - Diplomacia a portas fechadas por Florent Latrive
Fotografia - O olhar solidário das favelas por João Roberto Ripper
http://www.diplomatique.org.br/

segunda-feira, 15 de março de 2010

Poetagens Alheias

Estou apinchando por aqui, esse conto do Manoel de Barros, feito cocô de passarinho em vidraça de escola... pode não quebrar a vidraça, mas que deixa lambuzada, ah, isso deixa!
“AULA - Nosso Profe. de latim, Mestre Aristeu, era magro e do Piauí. Falou que estava cansado de genitivos dativos, ablativos e de outras desinências. Gostaria agora de escrever um livro. Usaria um idioma de larvas incendiadas! Mestre Aristeu continuou: quisera uma linguagem que obedecesse a desordem das falas infantis do que das ordens gramaticais. Desfazer o normal há de ser uma norma. Pois eu quisera modificar nosso idioma com as minhas particularidades. Eu queria só descobrir e não descrever. O imprevisto fosse mais atrente do que o dejá visto. O desespero fosse mais atraente do que a esperança. Epa! O profe. Desalterou de novo – outro colega nosso denunciou. Porque o desespero é sempre o que não se espera. Verbi gratia: um tropicão na pedra ou uma sintaxe insólita. O que eu não gosto é de uma palavra de tanque. Porque as palavras do tanque são estagnadas, estanqiues, acostumadas. E podem até pegar mofo. Quisera um idioma de larvas incendiadas. Palavras que fossem de fontes e não de tanques. E um pouco exaltado o nosso profe. Disse: Falo de poesia, meus queridos alunos. Poesia é o mel das palavras! Eu sou um enxame! Epa!... Nisso entra o diretor do Colégio que assistira a aula de fora. Falou: Seo Enxame espere-me no meu gabinete. O senhor está ensinando bobagens aos nossos alunos. O nosso mestre foi saindo da sala, meio rindo a chorar”.

ATENÇÃO: Novo Prazo Inscrições de Trabalhos ANPOF

Prazo de submissão de trabalho prorrogado para o XIV Encontro Nacional da ANPOF.
Devido a dificuldades técnicas para recuperação automática de senhas, adiamos o encerramento das submissões para 18 de março.
Mais informações: http://www.anpof.org.br/

ATENÇÃO: Alteração da Data do Pré-Congresso da Psicologia em Cruz Alta

Atenção psicólogos e estudantes da região Alto Jacuí! Pré-Congresso da Psicologia, em Cruz Alta, em 19 de março, sexta-feira.
O evento é preparatório para o Congresso Regional da Psicologia (COREP). Nele serão discutidos o tema e os eixos do VII Congresso Nacional da Psicologia (CNP). O objetivo é formular e apreciar teses, para posterior encaminhamento, e eleger delegados para o COREP.
A região Alto Jacuí abrange as cidades de Colorado, Cruz Alta, Fortaleza dos Valos, Ibirubá, Não-Me-Toque, Saldanha Marinho, Salto do Jacuí, Santa Bárbara do Sul, Selbach e Tapera.
Quando: 19/03/2010, das 17h às 21h30
Onde: Câmara Municipal de Vereadores de Cruz Alta - Av. Venâncio Aires, 1611 - Cruz Alta/RS

domingo, 14 de março de 2010

DE PASSAGEM

Este é um escrito que publiquei em forma de conto, no Jornal Estilo – Cruz Alta/RS, não lembro exatamente quando, mas que retomo, revisando seu tempo e seus pronomes, mas trago-o de volta, principalmente, porque tenho estado entretida com Manoel de Barros e com a vontade de conhecê-lo, para além do que conheço de suas letras e de sua breve aparição em minha frente, numa tarde em Corumbá!

Agora, as letras:
DE PASSAGEM!
Viajava, todos os meses, em busca de um amor distante que se revelaria muito tempo depois, quase que por um acaso. Vez ou outra ia pensando nas coisas que vão sendo criadas e adaptadas conforme os movimentos que os seres humanos vão constituindo, enfim, pensava que assim se faz a história e assim, também, se faz o consumo, assim como as invenções e criações, ou seja, a partir das necessidades humanas... às vezes muito tempo depois da emergência da necessidade, às vezes no exato no exato momento e às vezes, visionariamente, muito tempo antes.
Pensava na culinária, dessa de beira de estrada, feita para empanturrar apressado que corre para seguir viagem (bufet, espeto-corrido, lanches, café saturado, preços exorbitantes, comidas recicladas, molhos de pimenta e cremes aos quais, fígado algum sobrevive); lembrou dos postos de combustíveis, das lojas de conveniências, dos motéis, dos bordéis, das oficinas mecânicas, das borracharias e dos postos de pedágio, recordou dos hotéis e das pousadas; repassava na memória todos os presentes que comprara e todas as quinquilharias que guardava em casa e que foram adquiridas nessas tendinhas de beira de estrada... cerâmicas, brinquedos e réplicas em madeira, produtos típicos das regiões por onde passara... coisas tantas que para nada serviam... lembrancinhas, produtos supérfluos que todo mundo compra sem saber exatamente para que servirão... licores os mais diversos e cachaças as mais variadas.
Numa dessas andanças, passava pelo pantanal e ia tomada de ansiedade para ver, ao vivo e a cores, um jacaré que fosse, como se essa visão fosse mudar definitivamente a minha carga de conhecimentos... vi muitos jacarés, mas vi também muitas queimadas/ queimadas que matam ou que põem os bichos em fuga... e quando cheguei bem pertinho do Rio Paraguai, toquei sua água e aspirei profundamente o seu cheiro, para ter a certeza de que não era apenas uma fantasia ou uma figura presente em meu imaginário desde minha infância... e foi lá por perto do rio que soube sobre a pessoa que fez e a forma como foi feita a música Chalana... “lá vai a Chalana, bem longe se vai”... foi por lá, também, que entendi o que é uma chalana... o Pantanal e o Rio Paraguai eram daqueles lugares que queria muito conhecer, mas temia fazê-lo por achar que seriam imagens grandes demais, muito maiores do que aquelas povoavam o meu imaginário ingênuo e febril... sempre tinha essa sensação frente às coisas que eram por demais grandiosas... era tomada desses temores, por exemplo, quando ia visitar museus e me deparava com as obras de arte ou os registros históricos originais, o que me fazia perceber que o mundo é efetivamente real; ou quando visitava as casas em que moraram os escritores ou outros artistas, ou que reproduziam os ambientes em que os mesmos viveram... era tomada de pavor quando percebia que esses seres, que me eram somente imaginários, realmente existiam... foi desse mesmo pavor que fui tomada, lá por perto do Rio Paraguai, quando vi se aproximar Manoel de Barros, um de meus poetas e escritores preferidos, que veio chegando, num passo manso, e parou bem ao meu lado, como se fosse feito de carne e osso/ como se pudesse ficar andando, assim, entre os comuns mortais/ como se tivesse o direito de se por, em conta própria, frente às fantasias dos seres humanos/ quando vi que era mesmo o Manoel de Barros que estava ao meu lado, parei de respirar, fiz de conta que estava num momento de alucinação e fiz cara de delírio, e uma amiga, que conhecia o poeta, ainda perguntou se queria que falasse com ele... respondi que preferia sabê-lo apenas figura de meu imaginário... pensei, ora, se isso é jeito de acabar com as fantasias alheias... esses escritores às vezes não têm mesmo noção do lugar que ocupam na cabeça dos leitores!
Ia entretida nessas tessituras, repassando as criações emergentes das necessidades humanas e meus temores frente à grandeza e imensidão do mundo e das coisas do mundo, quando me dei conta de que os amigos também tinham o seu tempo em minha vida... havia aqueles que marcavam uma época; havia os que permaneciam por um longo tempo; e havia, alguns poucos, que uma vez inscritos em minha vida, jamais se retiravam de minha existência! Pensei nos amigos que ia encontrando pelo mundo... alguns do tempo de infância; outros do tempo de adolescência; outros do tempo de juventude; outros de tempo de universidade; outros do tempo de liberdade/ tempo em que ainda não sabia que responsabilidade não significava somente assumir com afinco as coisas que tinha que fazer; outros do tempo em que ainda estava a dar cabeçadas para aprender a andar com as próprias pernas, pois vivia desse dilema de meus pais não terem me dado um caminho pronto ou um rumo para seguir viagem; outros do tempo em que já via e sentia meus cabelos a embranquecer/ em que já tinha histórias para contar/ em que já estava muito mais a mostrar rumos do que a questionar caminhos; outros do tempo em que a solidão não mais me assustava; outros do tempo em que já encontrava com os amigos não para ter uma bengala, mas para a tranqüilidade da conversa/ da versação das coisas que faziam a vida acontecer ou deixar de acontecer; outros do tempo em que já havia aprendido a andar, nem à frente, nem atrás, mas lado a lado com os outros seres humanos; mas sabia que, de estação em estação, rodoviária que fosse, ou existencial que pudesse ser, haveria novas paradas e novas partidas, pois é de passagens, fugazes ou intensas, que vivemos... sabendo que estacionamos somente quando a inquietude dá lugar para o amadurecimento/ tempo em que, mesmo ainda inquietos, sabemos o que fazer com o que nos incomoda e com as coisas esgarçadas pelo tempo e pela vida!
Hoje viajo menos, porque já encontrei a estação do sossego, situada num mirante a partir do qual posso ver o mundo e circular nele como que anda em meio ao alvorecer da manhã. Viajo menos, também, porque encontrei alguém que me ajudou a ver a vida como possibilidade, coisas que não é somente a nossa caminhada profissional e existencial que pode nos mostrar. Hoje não estou mais de passagem, pois seis das coisas que abrigam as importâncias que me interessam! Aguardo a chegada, vinda de uma estação distante, da minha bugra velha que o Pantanal me concedeu... e foi ela, a melhor concessão que já recebi na vida!

Lia de Itamaracá

Nunca esquecerei o dia em que vi chegar diante do meu olhar apertado, a aparição de Lia de Itamaracá. É uma das negras mais lindas que já me apareceu em vida. Foi na segunda edição do Fórum Social Mundial quando, no encerramento do evento, ela foi chamada ao palco do grande auditório da PUCRS, para provocar a mística da Ciranda. Lia não canta. Lia emite a Ciranda. Ela é alma feiticeira da Ciranda. Quando sua boca se abre e sua garganta entoa o canto, é como se a concha do mar nos anunciasse a chegada da voz dos mares/ da voz das gentes/ do som que nos entra nos poros e nos faz balançar a ciranda que baixa em nosso corpo. Lia entoou o canto de todas as gentes e de todos os povos que ali estavam reunidos. Olívio Dutra se licenciou de Judite e juntou sua alma missioneira à alma cirandeira de Lia, dançando a dança que junta as mãos de todos e entrecruza a dança e o canto de todas as gentes. Depois daquela dança, meu DNA nunca mais foi o mesmo e o do Fórum Social Mundial ficou marcado para sempre! Apresento assim, o escrito de Marcos Aurélio de Souza, que é de abril de 2008 e que vale muito a lembrança:
“Lia de Itamaracá não conta no PIB - http://diplo.org.br/2008-04,a2374
O indicador que deveria medir a riqueza nacional ignora as relações culturais e afetivas estabelecidas num espetáculo artístico. Também não considera trabalho a criação dos filhos. Omissões como estas levam cada vez mais gente a indagar: para que serve um índice que só enxerga relações mercantis?
O Produto Interno Bruto brasileiro cresceu mais de 5% em 2007 e este foi motivo para celebrações vindas de todos os lados. Tal avanço econômico, somado a números bastante positivos no mercado de trabalho e investimentos em capital fixo, que aumentam a capacidade produtiva do país, também suscita certa onda de comemorações entusiasmadas ou comedidas. Contudo, o discurso comum só se torna possível porque enxerga crescimento econômico como equivalente ao aumento da riqueza da sociedade.
De fato, os números da economia brasileira para o ano passado aparentam ser encantadores. Entretanto, encantadora de verdade foi a presença de Lia de Itamaracá nas dependências do Sesc Pompéia, em São Paulo, um dia após a divulgação dos números da economia brasileira pelo IBGE. Uma mulher enorme, com cabelos longos, trançados orgulhosamente em estilo afro. Nossa mama África, nobremente vestida sob um longo vestido colorido; rainha majestosa, senhora de sua raça, um pouco - muito de seu povo e de sua cultura.
Nessa noite, ninguém parecia estar muito interessado com o “fantástico” resultado do PIB. Apenas esperavam Lia ocupar o palco, entoando as cirandas repletas da alma de sua gente. Entrou com andar calmo, nem muito lento, mas também sem arrastar chinela. Deu seu primeiro boa noite, com sorriso do tamanho de sua arte. Sendo a primeira resposta do público, que a essa altura já havia se levantado e tomado o salão da choperia, sonoramente tímida, ela repetiu a saudação alongando-a e elevando o volume da voz: boooa noooite, São Paulo! Dessa vez, a platéia correspondeu à altura e os primeiros batuques de ciranda puderam começar.
A força da música de Lia é inquestionável. O que se tem colocado cada vez mais em questão é validade da utilização do PIB como método de avaliação de progresso social ou baliza para se chegar à soma das riquezas geradas no país durante todo o ano. Aliás, estas definições freqüentemente utilizadas por governos, empresários, banqueiros etc., não são neutras. Deixam ocultas, sob um véu de vibração sóbria, típica dos economistas, as anomalias causadas por um tipo de crescimento que não respeita os limites dos recursos naturais, é agressivo à diversidade e acentua grandemente as exclusões sociais. De acordo com relatório da Organização do Comércio e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o PIB é um ícone de controvérsia estatística, porque “mede renda, mas não igualdade, mede crescimento, mas não destruição e ignora valores tais como coesão social e o meio ambiente” [1]
Ao tomar o PIB como paradigma, ficamos órfãos de indicadores que apontem os caminhos para evitar a autodestruição ou que mostrem o prazer, a satisfação e o bem estar
Em outras palavras, pode-se dizer que o Produto Interno Bruto capta as dimensões típicas das relações mercantis, que são, portanto, passíveis de monetarização. O valor que pode ser gerado ao se proporcionar à sociedade amplo acesso a bens culturais como o espetáculo de Lia de Itamaracá, não pode ser calculado para efeito do PIB, a não ser pelos ingressos vendidos. Mas a coisa vai além. Durante todo o espetáculo, Lia estimula o público a priorizar a educação, tomando a si mesma como exemplo; ela trabalha como merendeira no município de Itamaracá e dedica parte do seu tempo ao sobrinho, inclusive levando-o à escola. Certamente, Lia faz isso de coração, pensando no futuro da criança. Infelizmente, no PIB não se encontrou uma forma de calcular este tipo de determinação. Para ela ter esse trabalho contabilizado nas contas nacionais, fazendo a mesmíssima coisa, sem tirar nem pôr, como se diz no popular, teria de encontrar um emprego como babá. Segundo os autores do livro ’Novos Indicadores de Riqueza’, nos países desenvolvidos, o trabalho doméstico sem remuneração, executado com o suor diuturno de multidões de mulheres, ocupa o sexo feminino tanto quanto o trabalho remunerado. Isto leva os pesquisadores a inferirem que o PIB nessas nações simplesmente dobraria, caso tais horas de trabalho fossem monetarizadas [2]
As cirandas, maracatus e cocos do repertório de Lia fazem as pessoas se darem as mãos para formarem círculos e dançarem ao ritmo dos metais, ganzás, tarol e alfaia, tornando-se mais felizes e quentes. Mas, é o balanço da produção e do consumo sem limites, muito bem representados pelo PIB, que tem levado o planeta à ferveção. Lei básica da termodinâmica: tudo aquilo que se agita, eleva o grau de sua temperatura. O aumento do calor na terra, em função das mudanças climáticas provocadas pela forma como a sociedade resolveu se organizar economicamente e como decidiu medir seus resultados, nos colocou diante daquilo que Nicholas Stern, economista a trabalho do governo britânico, com pouquíssimas propensões a extremismos ecológicos, chegou a classificar de “único desafio aos economistas: a maior falha de mercado jamais vista” (leia em Stern Review Report ). O PIB mensura muitas coisas. Contabiliza positivamente a destruição de florestas e não desconta de seus resultados fatores de risco à civilização, como a emissão de CO2. Por exemplo, uma guerra eleva enormemente os números do PIB, pois os gastos com armamentos adicionam valor. Ao tomá-lo como paradigma, ficamos órfãos de indicadores que apontem os caminhos para evitar a autodestruição ou que mostrem o prazer, a satisfação e o bem estar emanados num show como de Lia de Itamaracá.
Incapaz de prestar conta dos reais avanços ou retrações sociais e de considerar os impactos ambientais provocados pela ação econômica em seus cálculos, a ditadura do PIB [3] vem sofrendo críticas crescentes. [4] . Os indicadores constituem ou são parte “daquilo que organiza nossas molduras cognitivas, nossa visão do mundo, nossos valores, nossos julgamentos. A predominância concreta de alguns deles não é, portanto, neutra” [5] . Se o PIB é construído sobre valores socialmente aceitos, é necessário reinventá-lo à luz das novas necessidades da sociedade. Talvez substituindo-o ou ampliando sua capacidade de abordar as novas complexidades sociais e econômicas do presente. Se assim ocorrer, possivelmente conceberemos um instrumento de medição de riqueza coerente com aquilo que o verdadeiro desenvolvimento humano pode nos oferecer de mais belo, valorizando bem mais a qualidade do nosso crescimento, ao invés da mera quantidade. Se isso for assegurado, Lia certamente encontrará na delicadeza de seu canto mais um sentido para manifestar-se. Toda as vezes que estiver no palco, contribuirá no cômputo geral de nossa medida de felicidade e bem estar”.
[1] Organização do Comércio e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
[2] Gadrey, Jean & Jane-catrice, Florence Jany-catrice. Os Novos Indicadores de Riqueza. São Paulo. Senac. 2006. 48.
[3] Veiga, José Eli. "Nada Justifica o Apego ao PIB"; Valor Econômico, 22/10/2006.
[4] Parte da explicação é oferecida no já citado trabalho Novos Indicadores de Riqueza
[5] Op. Cit., p. 24.

sábado, 13 de março de 2010

Poetagens Alheias

Das Poetagens de Fúlvia Moretto: FIM DE TARDE - “Não é somente ouvir Liszt em noite fria E nem mesmo andar por entre amendoeiras É mal-du-siècle esquisito em fim de tarde É sobretudo perguntar aos fantasmas Onde ficaram as coisas intocáveis Em que quisemos acreditar um dia”.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Quando um quilo de pena não pesa o mesmo que um quilo de chumbo!

Há dias que venho pensando em escrever sobre essas coisas que aqui desenho hoje. Há alguns dias aconteceram algumas manifestações de agricultores para provocarem o aumento nos preços pagos ao fumo produzido pelos mesmos.
Vendo tais cenas divulgadas na mídia, lembrei de um fato inusitado ocorrido há alguns anos no Rio Grande do Sul, quando o Governo Rigotto comemorou com muito alarde, a instalação de uma fábrica de cigarros da Souza Cruz em nosso Estado.
Minha cabeça é pequena demais para abrigar ao mesmo tempo, tantas coisas contraditórias. Vejamos:
A natureza dá mostras de seu desgaste, de sua deterioração, de sua degradação a todo o momento... apresenta deslizamentos de terra, ampliação do efeito estufa e do imenso buraco na camada de ozônio, terremotos, tsunamis, derretimento acelerado da camada polar, aumento do efeito da temperatura solar e muitos outros quetais!
O homem devasta progressivamente a pouca mata que resta em nosso planeta, utilizando, na maioria das vezes, o argumento de que a terra devastada serviria à produção. E é óbvio que não é para a produção de alimentos para aplacar a fome dos inúmeros famintos espalhados pelo planeta, mas sim para atender à voracidade capitalística que demanda mais e mais teias que sustentem o consumo desenfreado e predatório.
Já está por demais demonstrado os efeitos nefastos que as condições de produção de fumo, assim como, que os insumos utilizados na mesma, provocam sobre os seus produtores. Já está por demais demonstrado o efeito nefasto que o consumo de fumo produz sobre o meio ambiente e sobre a vida. Já está por demais demonstrado a necessidade de fazer valer a função social da terra, produzindo e distribuindo alimentos para todas as gentes.
A quem interessa, então, produzir e beneficiar o fumo? Alguém ainda é ingênuo o suficiente para defender a balela da geração de renda e de empregos a partir disso? Gerar renda e empregos ao custo das vidas que são trucidadas com o fumo? A quem interessa NÃO mexer nessas questões?

CINEMA: Banheiro do Papa

Para quem ainda não viu o filme, aí vai a estrada de chão batido que pode levar até ele!
"OUTROS CINEMAS - Banheiro do Papa: engajamento agridoce
Comédia popular de beleza plástica e certos efeitos (como montagens aceleradas e enquadramentos acrobáticos), o filme de Fernandez e Charlone celebra a inventividade, o jeitinho brasileiro-latino, a recusa à melancolia. Falta-lhe a crítica política — aparentemente, sua intenção inicial. Bruno Carmelo
Uma visita do Papa, numa terra tradicionalmente católica como a América Latina, é sempre um grande evento. Principalmente se Sua Santidade escolheu curiosamente visitar um vilarejo paupérrimo e minúsculo, esquecido na fronteira entre Uruguai e Brasil.
Esse visitante vai mudar completamente a vida dos cidadãos. Vivendo principalmente do contrabando, de pequenos comércios ou da corrupção (no caso, policiais que lucram também com o transporte ilegal de produtos pela fronteira), esses uruguais vêem no Papa um sinal direto de prosperidade. Porque religiosidade e ilegalidade caminham, no filme, de mãos dadas.
O primeiro significado da visita é de ordem puramente moral: o pontífice traria paz, prosperidade e alegria ao povo. Uma televisão local se encarrega de inflar a importância do evento e o amor da pequena região ao Papa. Como acontece freqüentemente, a figura do líder maior da Igreja serve a reacender aquela fé há certo tempo esquecida.
'Um invariável halo dourado, que dá a impressão de ser sempre fim de tarde no Uruguai' Caso a prosperidade não venha até eles, eles vão buscá-la: contando com a chegada de milhares de turistas brasileiros, a cidade se mobiliza para armar barracas de comidas, bebidas e lembrancinhas. Mais inusitado ainda é Beto, protagonista da história, que tem a feliz idéia de criar banheiros para os visitantes.
A narrativa se declara abertamente como uma comédia sobre a precariedade de vida dos uruguaios. Nada de tristeza frente ao pauperismo. Essas pessoas são todas alegres e atrapalhadas, e as alternativas encontradas por elas para driblar os problemas despertam riso. A esposa de Beto quer vender medalhas brasileiras aos brasileiros, Beto faz pesquisa sobre banheiros, a televisão local é de um amadorismo atroz, os contrabandistas têm meios simplícissimos de driblar a vigilância.
Consumada a visita e o prejuízo, Beto aparece frente ao seu banheiro pouco utilizado, gritando 'eu tenho uma idéia!'. Nada de tristeza: a platéia explode em risos. A vida continua
O Banheiro do Papa é um certo elogio ao 'jeitinho brasileiro', aqui expandido em versão latino-americana. Essa consciência da capacidade de “se virar” mesmo nas situações mais adversas e ainda que seja contra as normas, sempre foi uma qualidade da qual latino-americanos aprenderam a se orgulhar (mesmo que exista um elemento depreciativo nessa obrigatoriedade de rir da miséria). Aqui, os pobres são divertidos justamente por sua ingenuidade, por serem bons homens tolos.
Poderíamos ver no filme uma crítica contra o catolicismo? Contra as mídias? Embora a visita do Papa seja menos frutífera financeiramente do que se esperava, e os habitantes fiquem todos no prejuízo face a uma quantidade enorme de produtos jogados fora (numa certa de impacto, com intenção de denúncia social), Beto aparece na cena seguinte, frente ao seu banheiro pouco utilizado, gritando 'eu tenho uma idéia!'. Nada de tristeza: nessa hora, a platéia explode em risos. E a vida continua.
A direção, igualmente, não traz à estética do filme nada de particularmente engajado. Junto do uruguaio Enrique Fernandez, o brasileiro César Charlone (fotógrafo de Cidade de Deus) assina a direção e transpõe ao filme seu eterno deslumbramento pela luz do sol, de modo a contornar todos seus personagens de um invariável halo dourado, que dá a impressão de ser sempre fim de tarde no Uruguai. O movimento também o agrada particularmente, e todas as cenas dos personagens com suas bicicletas são compostas de montagem acelerada e enquadramentos acrobáticos.
Ao fim da sessão, grande parte da platéia mostrava um grande sorriso nos lábios. O Banheiro do Papa funciona muito bem como comédia popular, e apresenta uma grande beleza em suas imagens. Somente a parte de crítica política ganha menor importância que esses outros fatores; o que é uma pena, já que a intenção do projeto parecia ser justamente essa ironia política.
O Banheiro do Papa (El Baño del Papa)/Co-produção Brasil-França-Uruguai./Dirigido por Enrique Fernandes e César Charlone./Com César Troncoso, Virgínia Ruiz, Virgínia Mendez./Ano de produção: 2006./Duração: 1h35".
Fonte: http://diplo.org.br/2008-04,a2324

XIV Encontro Nacional de Filosofia

DIVULGAÇÃO: O XIV Encontro Nacional da ANPOF será realizado, no período de 04 a 08 de outubro de 2010, na cidade de Águas de Lindóia, no interior do Estado de São Paulo. As Inscrições estão abertas e deverão ser feitas diretamente neste site: http://www.anpof.org.br/.
Pagamento: A realização da inscrição não está vinculada ao pagamento imediato da taxa de inscrição. O pagamento deverá ser feito até 15 de agosto de 2010 para os participantes que apresentarão trabalho e até 4 de outubro para aqueles que não apresentarão trabalho.
A submissão de trabalhos deverá ser feita impreterivelmente até 15 de março.

quinta-feira, 11 de março de 2010

DIVULGAÇÃO: Curso Esquizoanálise e práticas sociais e institucionais

Curso: Esquizoanálise e práticas sociais e institucionais (Mensal) OBJETIVO - Estudar os modos de subjetividade contemporânea e Construir meios de transformar as práticas cotidianas no trabalho, educação e saúde, com base na esquizoanálise.
PROGRAMA - A esquizoanálise como intercessora da psicologia
Deleuze e Guattari: os fundadores da esquizoanálise
Invenção: da ação à problematização
Subjetividade contemporânea
Foucault - O cuidado de si
Análise e intervenção micropolítica
Desejo e produção
O conceito de rede e a promoção de redes sociais
A noção de rizoma para a compreensão da subjetividade
Cartografia nas práticas sociais e institucionais
Atuais transformações técnico-científicas e a micropolítica
Sociedade disciplinar X Sociedade de controle
Plano de consistência
Análise de práticas sociais e institucionais
MÉTODO - O curso é desenvolvido em pequeno grupo de aprendizagem, integrado por discussão do conteúdo teórico, troca de experiências, exercícios grupais e compreensão do processo grupal.
CRONOGRAMA - Seis encontros mensais, um sábado por mês, das 8h30min às 12h30min e das 14h às 17h30min.
De abril a setembro de 2010, dias 17.04, 15.05, 19.06, 17.07, 21.08 e 25.09.10.
INVESTIMENTO - Matricula no valor de R$ 65,00 (sessenta e cinco reais), correspondente a 50% da primeira mensalidade. Complemento da primeira mensalidade no valor de R$ 65,00 (sessenta e cinco reais) pago no dia 17 de abril. Mensalidades de maio a setembro no valor de R$ 130,00 (cento e trinta reais) pagas no dia de cada encontro. Desconto para estudantes. Os valores serão líquidos dos impostos de ISSQN, PIS, COFINS e CONT. SOCIAL (13,93 %), caso seja fornecida nota fiscal de serviços.
CERTIFICADO - Receberá certificado o aluno que comparecer a no mínimo 75% dos encontros grupais.
COORDENADORA - Branca Regina Chedid (CRP-07/610)
INSCRIÇÃO - Para participar do grupo marcar entrevista individual com Branca até o dia 14 de abril pelos fones 3331 7467, 3072 2903 e 9865 7870.
Local: Instituto Pichon-Rivière (Miguel Tostes, 998)
Informações:
Fone: (51) 3331-7467
E-mail: mailto:contato@pichonpoa.com.br
Site: http://www.pichonpoa.com.br/

DIVULGAÇÃO: Pré-congresso Regional de Psicologia - Cruz Alta - 18 de março

Atenção colegas psicólogos da Região do Alto Jacuí!
Acontece, de 03 a 06 de Junho de 2010, em Brasília, o Congresso Nacional de Psicologia e para isso, estão acontecendo duas etapas prepatórias que culminarão com a realização do Congresso, sendo o propósito do temário e da realização do Congresso, o que reproduzo aqui, antes apresentando a divulgação do Pré-congresso Regional de Psicologia:
O CRPRS informa a realização do Pré-congresso da Região do Alto Jacuí.








CRPRS Informa Quarta-feira, 11 de março de 2010.
Atenção psicólogos e estudantes da região Alto Jacuí!
Pré-Congresso da Psicologia em Cruz Alta em 18 de março
O evento é preparatório para o Congresso Regional da Psicologia (COREP). Nele serão discutidos o tema e os eixos do VII Congresso Nacional da Psicologia (CNP). O objetivo é formular e apreciar teses, para posterior encaminhamento, e eleger delegados para o COREP.
A região Alto Jacuí abrange as cidades de Colorado, Cruz Alta, Fortaleza dos Valos, Ibirubá, Não-Me-Toque, Saldanha Marinho, Salto do Jacuí, Santa Bárbara do Sul, Selbach e Tapera.
Quando: 18/03/2010, das 17h às 21h30
Onde: Câmara Municipal de Vereadores de Cruz Alta - Av. Venâncio Aires, 1611 - Cruz Alta/RS
Entrada franca
Contamos com vocês!
Para saber mais sobre as etapas do VII CNP - Congresso Nacional da Psicologia, acesse os endereços: http://cnp.pol.org.br/
http://www.crprs.org.br/
http://blog.crprs.org.br/
"CNP aposta na democracia para construir linhas de ação da profissão"
“Este é o momento em que a categoria pode e deve participar e trazer suas ideias para que a próxima gestão tenha em mãos os desejos, os anseios e propostas dos psicólogos brasileiros para a profissão no Brasil”, afirma o presidente do CFP, Humberto Verona, ao falar sobre a importância da participação dos psicólogos em todo o processo de realização do VII Congresso Nacional da Psicologia (CNP), instância máxima de deliberação do Sistema Conselhos.
É nesse espaço que a categoria, por meio de representantes eleitos nos congressos regionais, discute democraticamente as diretrizes da política nacional a ser implementada pelos Conselhos de Psicologia.
Os Congressos Nacionais da Psicologia são a instância máxima de deliberação na estrutura dos Conselhos Regionais e Federal de Psicologia. São, por isso, atividades políticas da maior relevância para a profissão no Brasil. Os CNPs não são, portanto, eventos acadêmico-científicos.
Com o tema Psicologia e compromisso com a promoção de direitos: um projeto ético-político para a profissão, o VII CNP pretende construir um programa que possa identificar a participação da Psicologia na promoção de direitos, ampliando a possibilidade de construir respostas efetivas às necessidades sociais, sob a ótica da inclusão social.
A etapa nacional do Congresso será realizada em Brasília, de 3 a 6 de junho de 2010, mas a construção do CNP já começou, com os eventos preparatórios, e continua com os pré-congressos e congressos regionais, nos quais a participação de todos os campos e segmentos da Psicologia é essencial para garantir a produção de um conjunto de teses qualificadas e representativas do pensamento contemporâneo da Psicologia, além de eleger os delegados que irão aos congressos regionais (Coreps) e ao CNP.
ENTENDA AS ETAPAS DO CNP
A primeira etapa do CNP é formada pelos eventos preparatórios: são realizados em diversos municípios. Eles têm a tarefa de suscitar debates e levantar questões para a formulação de teses. Há ampla participação da categoria, o que fortalece o caráter democrático da diversidade de contribuições na construção do projeto da profissão.
Pré-congressos: são instâncias que elaboram e aprovam as teses do Regional. Ocorre apenas um por área geográfica. Nesta instância são eleitos os delegados para o Congresso Regional;
Congresso Regional (Corep): composto por delegados eleitos nos pré-congressos. É realizado em cada Conselho Regional. Nos Coreps, são apreciadas as teses aprovadas nos pré-congressos de todo o país, e eleitos os delegados que irão ao Congresso Nacional;
Nas etapas preliminares são construídas as teses a ser debatidas no CNP. Por isso a importância de os psicólogos conhecerem as programações em seus Regionais e participarem dos eventos, o que é condição para ser eleito delegado.
Congresso Nacional: é a etapa final do processo de discussão e decisão sobre as orientações para a atuação dos Conselhos de Psicologia. Participam cerca de 230 os delegados nacionais, eleitos nos Coreps".

Grupo Transversal - Michel Foucault

DIVULGAÇÃO da tradução das aulas do Curso Do governo dos vivos, de Michel Foucault.
O Curso Do governo dos vivos, foi desenvolvido no Collège de France, 1979-1980 (aulas de 09 e 30 de janeiro de 1980), por Michel Foucault (tradução de Nildo Avelino).
Aí vai uma gota do texto: "Nenhum poder existe por si! Nenhum poder, qualquer que seja, é evidente ou inevitável! Qualquer poder, consequentemente, não merece ser aceito no jogo! Não existe legitimidade intrínseca do poder! E a partir dessa posição, a démarche consiste em perguntar-se o que é feito do sujeito e das relações de conhecimento no momento em que nenhum poder é fundado no direito nem na necessidade; no momento em que qualquer poder jamais repousa a não ser sobre a contingência e a fragilidade de uma história; no momento em que o contrato social é um blefe e a sociedade civil um conto para crianças; no momento em que não existe nenhum direito universal, imediato e evidente que possa, em todo lugar e sempre, sustentar uma relação de poder qualquer que ela seja. Vocês vêem, portanto, que entre isso que se chama, grosso modo, a anarquia, o anarquismo e o método que eu emprego é certo que existe qualquer coisa como uma relação".
Para baixar o arquivo em: Foucault, Michel - Do governo dos vivos.pdf
http://ccssp.org/arquivos/e-book-Foucaul.pdf
Mais informações: [grupotransversal] Michel Foucault - grupotransversal@yahoogrupos.com.br

quarta-feira, 10 de março de 2010

Poetagens Alheias

Das poetagens de que muito sei, trago hoje: "DE RELÓGIOS OU DE TEMPO", de Joan Edessom de Oliveira – "De relógios eu nada sei/ sempre temi o tempo porque sempre o enfrentei/ de onde venho todos sabem do valor das esperas e conhecem a dor/ que esperar sempre é doer/ aprender esperas significa aprender dores/ quem caminhou comigo ao sol sobre cactos e pedras?/ quem comigo olhou as águas que não existiam e fitou o mundo como se o mundo inteiro fosse fome e sede?/ se não o fizeram não poderá jamais sonhar com o lugar de onde venho/ ali aprendi a temer e enfrentar o tempo/ e por isso nada sei de relógios./ sei de amanhãs, porque os tenho aprendido nos hojes e nos ontens./ de amanhas eu sei porque sonho com eles/ que meu tempo é de esperar e doer/ mas é também de sonhar o tempo/ cactos e pedras não são para pisar mas os pisamos/ porque a mirada do horizonte era a fome e a sede/ e o caminho era duro, seco, cortante/ do lugar de onde venho nada se sabe de relógios/ embora se conheça bem de tempo/ de águas, então, sabemos quase tudo e quase nada/ que elas lá são parcas e fartas/ tudo a sua vez/ e ou bem as vimos em demasia/ ou nem as conhecemos/ não digo que os rios sejam caminhos/ embora por eles tenham vindo homens e bois/ mas de caminhos entendemos nós e os fizemos ao contrário dos que/ subiram os rios: os bois e as suas gentes/ venho de longe e não sei como contar do meu lugar/ a não ser que lá se sabe pouco ou nada de relógios/ embora de tempo se tema e enfrente".

terça-feira, 9 de março de 2010

Poetagens Alheias

Hoje trago um pouco das poetagens de Clarice Lispector, com um escrito do qual muito gosto e que se chama "Os bonecos de barro":
"O que ela amava acima de tudo era fazer bonecos de barro — o que ninguém lhe ensinara. — Trabalhava numa pequena calçada de cimento em sombra, junto à última janela do porão. Quando queria com muita força ia pela estrada até ao rio. Numa de suas margens, escalável embora escorregadia, achava-se o melhor barro que alguém poderia desejar: branco, maleável, pastoso: frio. Só em pegá-lo, em sentir sua frescura delicada, alegrezinha e cega, aqueles pedaços timidamente vivos, o coração da pessoa se enternecia úmido quase ridículo. Virgínia cavava com os dedos aquela terra pálida e lavada — na lata presa à cintura iam se reunindo os trechos amorfos. O rio em pequenos gestos molhava-lhe os pés descalços e ela mexia os dedos úmidos com excitação e clareza. As mãos livres, ela então cuidadosamente galgava a margem até a extensão plana . No pequeno pátio de cimento depunha a sua riqueza. Misturava o barro à água, as pálpebras frementes de atenção — concentrada, o corpo à escuta, ela podia obter uma porção exata de barro e de água numa sabedoria que nascia naquele mesmo instante, fresca e progressivamente criada. Conseguia uma matéria clara. e tenra de onde se poderia modelar um mundo.
Como, como explicar o milagre... Ela se amedrontava pensativa. Nada dizia, não se movia, mas interiormente sem nenhuma palavra repetia: Eu não sou nada, não tenho orgulho, tudo me pode acontecer; se quiser, me impedirá de fazer a massa de barro; se quiser, pode me pisar, me estragar tudo; eu sei que não sou nada. Era menos que uma visão, era uma sensação no corpo, um pensamento assustado sobre o que lhe permita conseguir tanto barro e água e diante de quem ela devia humilhar-se com seriedade . Ela lhe agradecia com uma alegria difícil, frágil e tensa; sentia em alguma coisa como o que não se vê de olhos fechados. Mas o que não se vê de olhos fechados tem uma existência e uma força, como o escuro, como a ausência — compreendia-se ela, assentindo feroz e muda com a cabeça. Mas nada sabia de si, passaria inocente e distraída pela sua realidade sem reconhecê-la; como uma criança, como uma pessoa.
Depois de obtida a matéria, numa queda de cansaço ela poderia perder a vontade de fazer bonecos. Então ia vivendo para a frente como uma menina.
Um dia, porém, sentia seu corpo aberto e fino, e no fundo uma serenidade que não se podia conter, ora se desconhecendo, ora respirando trêmula de alegria, as coisas incompletas. Ela mesma insone como luz — esgazeada, fugaz, vazia, mas no íntimo um ardor que era vontade de guiar-se a uma só coisa, um interesse que fazia o coração acelerar-se sem ritmo... de súbito, como era vago viver. Tudo isso também poderia passar, a noite caindo repentinamente, a escuridão fresca sobre o dia morno.
Mas às vezes ela se lembrava do barro molhado, corria alegre e assustada para o pátio: mergulhava os dedos naquela mistura fria, muda e constante como uma espera; amassava, amassava, aos poucas ia extraindo formas. Fazia crianças, cavalos, uma mãe com um filho, uma mãe sozinha, uma menina fazendo coisas de barro, um menino descansando, uma menina contente, uma menina vendo se ia chover, uma flor, um cometa de cauda salpicada de areia lavada e faiscante, uma flor murcha com sol por cima, o cemitério do Brejo Alto, uma moça olhando... Muito mais, muito mais. Pequenas formas que nada significavam, mas que eram na realidade misteriosas e calmas. Às vezes alta como uma árvore alta, mas não eram árvores, m:to eram nada...Ás vezes um pequeno objeto de forma quase estrelada, mas sério e cansado como uma pessoa. Um trabalho que jamais acabaria, isso era o que de mais bonito e atento ela já soubera. Pois se ela podia fazer o que existia e o que não existia!...
Depois de prontos, os bonecos eram colocados ao sol. Ninguém lhe ensinara, mas ela os depositava nas manchas de sol no chão, manchas sem vento nem ardor. O barro secava mansamente, conservava o tom claro, não enrugava, não rachava. mesmo quando seco parecia delicado, evanescente e úmido. E ela própria podia confundi-lo com o barro pastoso. As figurinhas assim, pareciam rápidas, quase como se fossem se desmanchar — e isso era como se elas fossem se movimentar. Olhava para o boneco imóvel e mudo. Por amor ou apenas prosseguindo o trabalho ela fechava os olhos e se concentrava numa força viva e luminosa, da qualidade do perigo e da esperança, numa força de sede que lhe percorria o corpo celeremente com um impulso que se destinava à figura. Quando, enfim, se abandonava, seu fresco e cansado bem-estar vinha de que ela podia enviar, embora não soubesse o que, talvez. Sim ela às vezes possuía um gosto dentro do corpo, um gosto alto e angustiante que tremia entre a força e o cansaço — era um pensamento como sons ouvidos, uma flor no coração: Antes que ele se dissolvesse, maciamente rápido, no seu ar interior, para sempre fugitivo, ela tocava com os dedos num objeto, entregando-o. E, quando queria dizer algo que vinha fino, obscuro e liso — e isso poderia ser perigoso — ela encostava um dedo apenas, um dedo pálido, polido e transparente, um dedo trêmulo de direção. No mais agudo e doído do seu sentimento ela pensava: Sou feliz. Na verdade, ela o era nesse instante, e se em vez de pensar: Sou feliz, procurava o futuro, era porque, obscuramente, escolhia um movimento para a frente que servisse de forma à sua sensação.
Assim juntara uma procissão de coisas miúdas. Quedavam-se quase despercebidas no seu quarto. Eram bonecos magrinhos e altos como ela mesma. Minuciosos, ligeiramente desproporcionados, alegres, um pouco perplexos — às vezes, subitamente, pareciam um homem coxo rindo. Mesmo suas figurinhas mais suaves tinham uma imobilidade atenta como a de um santo. E pareciam inclinar-se, para quem as olhava, também como os santos. Virgínia podia fitá-las uma manhã inteira, que seu amor e sua surpresa não diminuiriam.
— Bonito... bonito como uma coisinha molhada, dizia ela excedendo-se num ímpeto imperceptível e doce.
Ela observava: mesmo bem acabados, eles eram toscos como se pudessem ainda ser trabalhados. Mas vagamente, ela pensava que nem ela nem ninguém poderia tentar aperfeiçoá-los sem destruir sua linha de nascimento . Era como se eles só pudessem se aperfeiçoar por si mesmos, se isso fosse possível.
As dificuldades surgiam como uma vida que vai crescendo. Seus bonecos, pelo efeito do barro claro, eram pálidos. Se ela queria sombreá-los não o conseguia com o auxílio da cor, e por força dessa deficiência aprendeu a lhes dar sombra ainda por meio de forma. Depois inventou uma liberdade: com uma folhinha seca sob um fino traço de barro conseguia um vago colorido, triste assustada quase inteiramente morto. Misturando barro à terra, obtinha ainda outro material menos plástico, porém mais severo e solene. MAS COMO FAZER O CÉU? Nem começar podia! Não queria nuvens — o que poderia obter, pelo menos grosseiramente — mas o céu, o céu mesmo, com sua existência, cor solta, ausência de cor. Ela descobriu que precisava usar uma matéria mais leve que não pudesse sequer ser apalpada, sentida, talvez apenas vista, quem sabe! Compreendeu que isso ela conseguiria com tintas.
E às vezes numa queda, como se tudo se purificasse, ela se contentava em fazer uma superfície lisa, serena, unida, numa simplicidade fina e tranqüila".

segunda-feira, 8 de março de 2010

BREVÍSSIMOS CONTOS

Meu Eterno Amor
Chegou-lhe com o sorriso mais lindo que já vira. Parecia desenhado por Da Vinci. Para onde se movimentasse, parecia que aquele olhar lhe seguia. Quando sentiu seu abraço quente, junto sentiu a lâmina fria esquentar com seu sangue quente e ainda ouviu-lhe murmurar em seu ouvido: “meu eterno amor”. E quedou-se junto à eternidade daquele estranho amor.

BREVÍSSIMOS CONTOS

Garrafa Jogada ao Mar
Percebeu que, na ficção, a garrafa jogada ao mar é sempre encontrada pela pessoa a quem é feita a destinação da existência de quem a jogou. Entrou na biblioteca e jogou sua garrafa no mar de um romance. Esqueceu de deixar um pé na realidade. Passou o resto da vida boiando em alto-mar.

MULHER, UM OUTRO MUNDO E POSSÍVEL!

Nesta semana, uma amiga relembrava este texto que publiquei no Jornal Estilo (Cruz Alta/RS), em 2005. Retomo o texto e faço algumas revisões.
Dia 8 de março de 1857 marca a data que hoje lembramos: o Dia Internacional da Mulher, quando mulheres trabalhadoras, que foram agregadas como mão-de-obra barata para alavancar a industrialização e nesse dia, em Nova Iorque, se mobilizaram em protesto às precárias condições de trabalho e aos seus ínfimos salários.
Dia 25 de março de 1911 marca a data em que 146 mulheres morreram queimadas num incêndio numa fábrica em Nova Iorque, tendo sido vítimas das precárias condições e da falta de segurança no trabalho.
Historicamente, inúmeras mulheres foram mortas, acusadas de bruxaria e feitiçaria, condenadas pelo fato de formarem a resistência aos preceitos conservadores e por não se conformarem à discriminação à condição de gênero feminino.
Isto posto, 8 de março é um dia que merece muito respeito em memória à todas as mulheres que desenharam com a vida a luta de resistência que hoje nos permite ter um pouco mais de dignidade do que elas tiveram!
Tomo do ideário da construção de uma outra possibilidade de mundo, o mote para falar não somente das operárias ou dos soutiens queimados em tempos idos - as operárias, pelo exercício da opressão e do massacre à luta pelas condições de cidadania, e os soutiens, para simbolizar e plantar marcos de luta -, porque um outro mundo é possível se todos tecerem juntos as teias dessa luta, pois não podemos vislumbrar outra possibilidade de mundo se a mesma continuar a ser delineada pelo mesmo ideário que constituiu o sistema capitalístico, opressor e excludente no qual esperneamos todos os dias! Não é dos lugares marcados pelo elitismo, que se garante a dignidade de todas as gentes!
Portanto, quero falar das mulheres que são queimadas todos os dias em todos os momentos que lhes são podadas as condições de exercício dos sonhos que pulsam vivos ou adormecidos nos recantos mais superficiais ou mais profundos de suas subjetividades... também, daquelas que em outros tempos eram chamadas de bruxas e queimadas porque sabiam da luta que lutavam/ ou porque lidavam com o esmiuçamento das idéias que estavam abrigadas na sombra hermética do conhecimento... e, ainda, daquelas que eram massacradas porque adormeciam e acordavam/ adormecem e acordam todos os dias embaladas pela mais absoluta consciência da necessidade de empunhar as armas e a poesia para garantir a construção da igualdade, da solidariedade, da inclusão, da autonomia, da participação e da cidadania.
A tentativa que se fazia na Idade Média, de apagamento da singularidade dos lutadores/ da singularidade daqueles que compunham o canto do grito dos que buscavam um mundo que mais tarde foi embalado pelos ideais de efetiva liberdade, igualdade e fraternidade... ideário que, na verdade, originariamente, significou a luta dos burgueses pela tentativa de manter privilégios que a nobreza estava a lhes roubar e negar... essa tentativa de apagamento da singularidade dos lutadores, queimando-os, só fazia fortalecer a singularidade daqueles que carregavam e embalavam os tons do ideário que os opressores tentavam queimar, porque quando se mata um ser humano, ou se tenta desqualificar a solidez de seus referenciais éticos, ou abafar o som dos passos que dá, mesmo assim, não há como apagar a sua história!
Quero lembrar aqui, as mulheres que montaram os pilares de suas lutas alicerçados em referenciais que garantem, efetivamente, formas diferentes de fazer o mundo acontecer que não os mesmos instituídos historicamente pela cultura e ideologia machista. Quero lembrar das mulheres que não aprenderam a ler as letras do alfabeto, porque o pai, a mãe ou o marido entendiam que mulher não deve estudar ou, também, porque simplesmente tinham que trabalhar desde criança para ajudar a garantir o sustento das necessidades materiais básicas para a subsistência cotidiana, mas que aprenderam a ler as letras do mundo e, também, aquelas que não aprenderam a ler as letras do mundo.
Isso me faz lembrar dos relatos que tenho ouvido de mulheres que foram alfabetizadas já nos idos de suas idades e que se encantam com fatos que nos parecem simples, mas que para quem não sabe ler é deverasmente complexo, que é a simples possibilidade de poderem ler o nome de uma rua; ou saberem identificar o destino de um ônibus em que embarcam, sem correrem o risco de embarcar num ônibus qualquer; ou de poderem ler o nome dos filhos nos documentos da escola; ou poderem assinar o próprio nome sabendo o que é que estão desenhando naquelas letras... encanta-me o encanto de alguém que aprende a decifrar as letras, mas me encanta muito mais o encanto de alguém que consegue também decifrar o conhecimento, o mundo e as coisas do mundo e, por ora, da condição política de cada cidadão, da condição de participação nos rumos e nas decisões da vida política da comunidade... encanta-me o encanto daqueles que fazem valer o conhecimento empírico que construíram e não se assustam com os que portam muito do conhecimento formal adquirido ou construído.
Enquanto ainda contamos com a maioria de mulheres dando o rumo da educação formal em nossas escolas/ enquanto o processo de partilha de responsabilidade na educação dos filhos ainda esta a ser construída, temos que ter a mais absoluta percepção da dimensão da responsabilidade que temos na condução da construção de uma outra possibilidade de mundo que não o modelo que vimos historicamente reproduzindo e sustentando... temos o dever de pensar, questionar e discordar desse modelo, porque esse movimento não irá acontecer por si só ou pela automaticidade de seu vencimento enquanto ideário de mundo... na medida em que construímos outras condições de existir e viver, nos descolamos daquilo que por muito tempo nos disseram que deveríamos fazer!
Uma outra história e um outro mundo serão possíveis somente na medida em que as gentes forem construindo outras formas de pensar, de conceber e de fazer o mundo acontecer.
Assim, talvez um dia, não nos venham mais com flores e homenagens estéreis para colocar a pontuação em discursos que encobrem o machismo, a violência contra a mulher, o assédio moral e sexual às cidadãs que são atendidas ou que trabalham no serviço público e privado... não nos venham com flores para encobrir aquilo que realmente se passa no imaginário e na prática cotidiana de alguns que as distribuem... não invoquem mais a poesia para ventres dilacerados por filhos cuja história nega a construção de um mundo mais justo, mais humano e melhor... não nos venham mais com o trinado do canto dos pássaros para nos dizerem que também estão na luta, quando o cotidiano nos mostra o contrário e, enquanto cantam em nossas janelas, estouram nossos tímpanos... talvez um dia, não nos venham mais aqueles que exploram a fragilidade em que muitas mulheres foram historicamente colocadas... nem aqueles que dizem lutar por coisas que todos os dias negam/ que afinam as cordas para melhor quebrar o violão em nossas cabeças/ nem aqueles que fazem pseudo-construções chamando grandes grupos para construir e logo depois esquecem tudo o que o coletivo definiu, e saem a tomar as próprias decisões, acreditando se constituírem na síntese do coletivo/ nem aqueles fazem discursos libertários e em suas práticas se reafirmam e se sustentam no lugar de covardia ou de opressores... talvez um dia, possamos ver superadas essas coisas e posturas herdadas da cultura opressora contra a qual lutamos todos os dias, essas não são praticas efetivadas somente por homens que se assumem na condição de opressores, mas também por mulheres e por homens que se anunciam defensores da promoção da autonomia, da democracia, da solidariedade, do protagonismo e da participação... essa é uma condição que ainda há de nos custar muita luta para ser superada!
Para mostrar caminhos ou ajudar os outros a verem e construírem melhor os seus caminhos é importante já termos vislumbrado qual seja o nosso próprio caminho/ caminho que não está predefinido, mas que deve ser delineado a partir da história de cada um/ caminho que diz dos referenciais éticos que construímos para conduzir os nossos passos... talvez assim possamos juntar passos para construir outros caminhos e outras caminhadas!

domingo, 7 de março de 2010

A Côrte e a Vida nos Salões

Dias desses, numa discussão banal, uma colega de trabalho tentava mostrar que determinadas pessoas são “politicamente poderosas” pelas articulações ardilosas que fazem em torno da bolinação e projeção da própria vaidade... uma vaidade cujo fundamento vazio se esgota na rarefação de sua inconsistência e no desvario narcisista que busca sempre um lugar em qualquer em que se possa refletir a própria imagem.
Tomarei dois pontos para presentificar essa questão: as noções de política e de poder.
Trago a definição abrangente do termo política, tecida por João Ubaldo Ribeiro: “’Política’, em qualquer de seus usos, na linguagem comum ou na linguagem dos especialistas e profissionais, refere-se ao exercício de alguma forma de poder e, naturalmente, às múltiplas conseqüências desse exercício”.
E de Foucault, vem a noção de poder: o poder é contemplado por ele em dois vieses condicionantes, um pela via da sujeição e da dominação, e outro pela via da produção de práticas de liberdade e autonomia. Para termos mais precisão aqui, trago as palavras do próprio autor: “Para certas pessoas, interrogar-se sobre o ‘como’ do poder seria limitar-se a descrever seus efeitos, sem nunca relacioná-los nem a causas nem a uma natureza. Seria fazer deste poder uma substância misteriosa que, sem dúvida, se evita interrogar a si mesma, por preferir não ‘colocá-la em questão’. Neste mecanismo, que não se explicita racionalmente, suspeita-se um fatalismo. Mas sua desconfiança não nos mostra que elas supõem que o poder é algo que existe com sua origem, sua natureza e suas manifestações? / (...) eu diria que começar a análise pelo ‘como’ é introduzir uma suspeita de que o ‘poder’ não existe; é perguntar-se, em todo caso, a que conteúdos significativos podemos visar quando usamos este termo majestoso, globalizante e substantificador; é desconfiar que deixamos escapar um conjunto de realidades bastante complexo, quando engatinhamos indefinidamente diante da dupla interrogação: ‘O que é o poder? De onde vem o poder?’/ (...) Deste ‘poder’ é necessário distinguir, primeiramente, aquele que exercemos sobre as coisas e que dá a capacidade de modificá-las, utilizá-las, consumi-las ou destruí-las – um poder que remete a aptidões diretamente inscritas no corpo ou mediatizadas por dispositivos instrumentais. Digamos que, neste caso, trata-se de ‘capacidade’. O que caracteriza, por outro lado, o ‘poder’ que analisamos aqui, é que ele coloca em jogo relações entre indivíduos (ou entre grupos). Pois não devemos nos enganar: se falamos do poder das leis, das instituições ou das ideologias, se falamos de estruturas ou de mecanismos de poder, é apenas na medida em que supomos que ‘alguns’ exercem um poder sobre os outros. O termo ‘poder’ designa relações entre ‘parceiros’ (entendendo-se por isto não um sistema de jogo, mas apenas – e permanecendo, por enquanto, na maior generalidade – um conjunto de ações que se induzem e se respondem umas às outras)”.

Para seguir: a história que justifica o título deste escrito.
Retomarei um leve retrato da vida vivida nos salões alimentados pela nobreza e pela burguesia européia no período identificado como libertino. Salvo todas as imprecisões históricas e teóricas (visto não ter me detido numa pesquisa que garantisse a precisão destas letras), trago esta lembrança para fazer um traçado do podre-poder e do popular-poder.
A vida, o espaço de visibilidade e de afirmação subjetiva/social era calcado no trânsito e nas vivências propiciadas pelos salões. A nobreza tinha seus espaços próprios, sustentado, é óbvio, pelos impostos cobrados da patuléia. Aos pobres era reservado o espaço das cantinas e das ruas. Assim como, havia os espaços propiciados pelas figuras que fomentavam o encontro das gentes que produziam a literatura, as artes plásticas e outros fatos da cultura. Mas o que mais pulsava e fervia, eram os espaços em que, gentes travestidas de uma imagem que reunia num único simulacro, nobreza, burgo e cultura, circulavam, se punham a ver, apareciam, projetavam uma imagem fantasiosa nas paredes da existência e faziam circular nos salões das “madames” (= cafetinas, intrigueiras, ardilosas, devassas) a efemeridade da própria vaidade e assim, amealhados pela ilusão de um pseudo-reconhecimento, eram enredados nas intrigas, nos favorecimentos sexuais, nas artimanhas que se teciam nesses lugares.
Esse dito poder que a colega situava em dadas pessoas, não passa dessa sedução barata que opera no imaginário dos afoitos e volúveis que buscam não mais que o reconhecimento dos salões e das colunas sociais. Em outro lugar não o teriam ou nada seriam.
O poder que emana das articulações políticas baseadas nos interesses coletivos e populares é absolutamente diverso do poder que emana dos interesses privados e das vãs-vaidades. O efeito que dado exercício do poder pode operar sobre os outros, depende da reação de sujeição, ou de indiferença ou de resistência que se esboça. Cada um escolhe em que barco navegar, segundo os referenciais que sustentam a madeira de seu remo.
RIBEIRO, João U. Política. Ed. Nova Fronteira.

FOUCAULT, M. O Sujeito e o Poder. In. Foucault – Uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Ed. Forense Universitária, 1995.

sábado, 6 de março de 2010

Trabalhando em Instituições Públicas

Dia desses, uma colega de trabalho relatou-me uma situação em que outras duas pessoas se colocaram a “avaliar” a sua atuação profissional em seu trabalho numa instituição pública, tomando para isso elementos pessoais e absolutamente precários, ponderando que seu trabalho seria bom, mas que ela sempre derrapa nas coisas que pensa, escreve e fala.
A pessoa que se outorgou a pretensão de avaliar a sua atuação, não tem nenhuma proximidade pessoal ou profissional com ela, assim como, isso jamais seria possível, pois suas visões de mundo, de gente e de política são absolutamente divergentes, e suas práticas profissionais são ancoradas em critérios e instrumentos radicalmente distintos.
Trago esse tema, pois num encontro que tive ontem à noite com um grupo de amigos que também atuam profissionalmente em instituições públicas, mais uma vez isso foi pauta de nossas conversas.
O primeiro ponto de discussão foi o fato de que seja muito difícil para alguns agentes e gestores políticos, lidar com o fato de que os trabalhadores públicos sejam sujeitos ativos e protagonistas na construção e consolidação da prática profissional e das políticas públicas, e que possam ter e expressar seus posicionamentos teóricos, técnicos e políticos.
Quando um trabalhador público faz uso dessas condições, isso geralmente é tomado como afronta ou de forma pessoalizada, provocando reações paranóides e consequentemente, de retaliação.
Na maioria das comunidades, até a algum tempo, o que predominava na condução da gestão e operacionalização do trabalho público, era uma prática centralizada e autoritária, em que alguns “pensavam” dentro dos limites dos gabinetes e outros faziam, reproduzindo a dicotomia histórica capataz/peão – isso ainda vigora principalmente nas comunidades em que há a ditadura daqueles que usurpam os espaços de poder formal e impõe a limitação e precariedade de suas concepções pessoais de trabalho e de política, em detrimento dos referenciais teóricos e técnicos.
Ainda é muito comum, gestores que, diante de técnicos que atuam com autonomia e protagonismo, perguntarem aos mesmos: quem você pensa que é pra ter tomado essa atitude? É claro que muitos trabalhadores têm como característica pessoal, uma atuação mais passiva ou subserviente, o que não cria dificuldades para gestores autoritários, centralizadores e cultuadores do hierarquismo nas relações de trabalho, em detrimento da democracia e da horizontalidade.
Mas é importante sublinhar que a prática da discussão, da conversa e da construção coletiva seja fundamental para o desenho de relações de trabalho democráticas e participativas, em que o trabalho de todos –dos gestores e dos trabalhadores que operacionalizam as políticas públicas- possa ser avaliado e redimensionado permanentemente, superando-se assim, a prática hierarquista e desrespeitosa em que alguns se põem a julgar o trabalho alheio, chamando isso de avaliação.
Esclareça-se, que a avaliação da atuação de todos é fundamental para a atuação profissional e para a operacionalização séria das políticas públicas, e se faz a partir de critérios e instrumentos claros, justos e objetivos, definidos a partir do debate coletivo e não entre poucas cabeças e quatro paredes. Já, o julgamento do trabalho alheio é aquilo que se faz pelos cantos e pelas costas, segundo os critérios que são traçados na cabeça daqueles que o fazem.
O que é determinante na dimensão e operacionalização do trabalho público é a seriedade e qualidade técnica, teórica e política com que gestores e trabalhadores atuam. E para isso é fundamental a capacidade de debater e pensar as práticas.
Para encerrar, pontuo que tudo isso só é possível se não formos todos tomados pela paralisia provocada pelo sofrimento, sendo fundamental, então, que a dimensão humana esteja em primeiro lugar nas relações de trabalho, sem o que, nada resta a pensar. Completo com as palavras de René Kaës : “É por isso que é importante deixar falar e ouvir o sofrimento e o mal, seja qual for a sua procedência e a sua razão de ser: a condição primordial é permitir que a sua representação aflore – pela palavra e pelo jogo. Então é possível confrontá-la com as formações míticas e rituais de que as instituições se dotam necessariamente para se defender contra o sofrimento e para representar a causa e o tratamento desse sofrimento, ou mesmo para evitar de ter essa representação. Trata-se de criar um dispositivo de trabalho e de jogo que restabeleça, numa área transicional comum, a coexistência das conjunções e disjunções, da continuidade e das rupturas, dos ajustamentos reguladores e das irrupções criadoras, de um espaço suficientemente subjetivizado e relativamente operatório”.
KAËS, R. Realidade Psíquica e Sofrimento nas Instituições. In. A Instituição e as Instituições. Ed. Casa do Psicólogo, 1991.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Estou em crise: agora tenho um baú!

Moro numa região de preciosidades antiquarias. As gurias que moram aqui por perto de casa, andam em alta velocidade... a maioria beira ou passa dos 80!
Dia desses, soube por uma pessoa que soube por outro e que por sua vez soube por outra, que uma das gurias da região teve um AVC e que sua filha teve que levá-la para sua casa, tendo então que desmontar a casa da mãe e vender seus móveis antigos.
Meu primeiro ímpeto foi de sentar com essa filha e tentar convencê-la de não fazer isso... mas me dei conta que certamente as coisas pelas quais tenho apreço, não sejam as mesmas que a vizinha tenha... e quando fui visitar a casa, percebi que pensara certo.
Quando cheguei, o brechó já estava quase acabado, mas ainda resgatei duas coisas de que necessitava: um armário de banheiro e um baú!
Nunca fui muito ligada nessas coisas de casa e de móveis... sempre tive somente o necessário para viver... foi minha companheira quem me fez entender que morada é ali onde nos sentimos em casa (à vontade), tendo somente o necessário, mas com o aconchego que acolha nossos sonhos, nossas andanças, nossos descansos e nossas tempestades.
E vi isso também nas palavras de Bachelard , quando ele diz coisas como essas:
“É preciso dizer então como habitamos nosso espaço vital de acordo com todas as dialéticas da vida, como nos enraizamos, dia a dia, num ‘canto do mundo’./ Pois a casa é nosso canto no mundo”.
“(...) na mais interminável dialética, o ser abrigado sensibiliza os limites de seu abrigo. Vive a casa em sua realidade e em sua virtualidade, através do pensamento e dos sonhos./ Por conseqüência, todos os abrigos, todos os refúgios, todos os aposentos tem valores de onirismo consoante. Não é mais em sua positividade que a casa é verdadeiramente ‘vivida’, não é só na hora presente que se reconhecem os seus benefícios. O verdadeiro bem-estar tem um passado. Todo um passado vem viver, pelo sonho, numa nova casa”.
(...) a casa não vive somente o dia-a-dia, no fio de uma história, na narrativa de nossa história. Pelos sonhos, as diversas moradas de nossa vida se interpenetram e guardam os tesouros dos dias antigos”.
“(...) se nos perguntassem qual é o benefício mais precioso da casa, diríamos: a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz. Somente os pensamentos e as experiências sancionam os valores humanos. Ao devaneio pertencem os valores que marcam o homem em sua profundidade. O devaneio tem mesmo um privilégio de autovalorização. Ele desfruta diretamente seu ser. Então, os lugares onde se viveu o devaneio se reconstituem por si mesmos num novo devaneio. É justamente porque as lembranças das antigas moradias são revividas como devaneios que as moradias do passado são em nós imperecíveis./ (...) é necessário mostrar que a casa é um dos maiores poderes deintegração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem”.
Bachelard cita, também, um dito: “Carregamos na casa nossos deuses domésticos” e, pensando nessas coisas, três pontos me fizeram anotar este escrito neste papel de embrulho: a lembrança que me ocorreu dia desses, quando me veio à memória uma família de vizinhos de meus pais, em cuja casa quis morar em minha infância, porque lá havia, ao lado da casa, um galpão que funcionava como cozinha, onde ardia o fogo de chão... foi o primeiro lugar em que peguei o hábito de gravetear as brasas e o fogo... era onde assávamos milho verde, batata doce e no caldeirão pendurado sobre o fogo, era o arroz com galinha caipira. Outro ponto: o fato de uma amiga estar passando em revista seus guardados existenciais e com isso estar também aprendendo a se sentir em casa na medida em que redesenha a casa de seu ser. E outro ponto: por estar pensando muito nessa coisa de como as casas e os móveis carregam a história daquilo e daqueles que os habitam e usam. Gosto dos móveis antigos porque garantem a sustentabilidade ambiental e por, também, durarem muito... gosto das coisas duradouras... das coisas consistentemente duradouras... das coisas que fazem e carregam história... as intermitências de tempo dentro de espaços e regularidades longas, são muito mais seguras e profundas.
Assim, estou em crise com o baú, porque descobri que ele consistia mais numa fantasia do que numa necessidade. Ou numa necessária fantasia. Há tantas coisas para guardar nele e ao mesmo tempo, não consigo guardar nada, porque para se ter um baú é necessário muita sabedoria. As coisas que podem ir para o fundo do baú ou simplesmente para dentro dele, não podem ser qualquer coisa! Agora estou revendo toda a minha existência para saber o que é que poderei guardar dentro dele!

quarta-feira, 3 de março de 2010

Escutatório - Rubem Alves

Há alguns dias a amiga Maristela me trouxe à lembrança um escrito do Rubem Alves, chamado Escutatório. Enviou numa apresentação linda, mas eu reproduzo só o texto aqui e o caminho pra uma visita à casa virtual dele.
"Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma“. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia.
Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise...) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada...“ A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.
Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.“ Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.“ Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico“), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.“ Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.“ Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.“ E assim vai a reunião.
Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U“ definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino...“ Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto..." (O amor que acende a lua, pág. 65).
http://www.rubemalves.com.br/escutatorio.htm

Para José Mindlin

Não conheço muito de José Mindlin. Vi várias entrevistas suas e muitos escritos sobre o seu ofício: BIBLIÓFILO – o amigo dos livros. Foi advogado e empresário, e depois foi só cuidar de livros que começara a colher ainda na adolescência. Colecionava livros raros e os não tão raros. Morreu em 28.02.2010, aos 95 anos. Era uma das pessoas que eu gostaria de ter conhecido pessoalmente.

Foi um homem que construiu a simplicidade, a generosidade e uma vida para o mundo. Não acumulava livros. Colecionava para melhor dispô-los ao mundo.
E aqui, em homenagem à vida que Mindlin nos deixou acoierada em palavras, segue um poema do Borges cego.
JUNHO, 1968 - Jorge Luis Borges

Na tarde de ouro
ou numa serenidade cujo símbolo
poderia ser a tarde de ouro,
o homem dispõe os livros
nas prateleiras que aguardam
e sente o pergaminho, o couro, a tela
e o agrado que dão
a previsão de um hábito
e o estabelecimento de uma ordem.
Stevenson e outro escocês, Andrew Lang,
reatarão aqui, magicamente,
a lenta discussão que interromperam
os mares e a morte
e a Reyes não lhe desagradará decerto
a vizinhança de Virgílio.
(Ordenar bibliotecas é exercer,
de um modo silencioso e modesto,
a arte da crítica.)
O homem que está cego
sabe que já não poderá deslindar
os famosos volumes que manuseia
e que não lhe ajudarão a escrever
o livro que o justificará ante os outros,
mas na tarde que é casualmente de ouro
sorri perante o curioso destino
e sente essa felicidade peculiar
das velhas coisas amadas.

terça-feira, 2 de março de 2010

Escriturário

Palavras e Retratos
Depois de muitos anos morando em apartamento, há algum tempo nos foi dado mudar para uma casa. Nessa mudança, um senhor que viera para montar as estantes perguntou por que tínhamos tantos livros, mostrando um espanto de quem classifica as coisas em dois campos: as necessárias e as desnecessárias.

Ri muito e respondi que era porque quando criança via e pensava muitas coisas, mas não tinha certeza de nada. Então sempre tive que ler muito. Mas foi pior. Em vez de certezas, construí mais dúvidas. Ele achou graça e só depois de terminada a mudança, pode dizer que entendeu para que serviam os livros, pois montou e consertou várias coisas e em todas essas ações, tive que ajudá-lo a pensar e construir a melhor forma para executá-las.
Nessa época, andava eu em meio à cosedura de minha dissertação de mestrado e aquela mudança de casa me colocou a pensar no fato de que sempre lera Foucault como ferramenta para minha prática profissional e, a partir de então, tive que além de estudar sua obra, entender seu pensamento.
Li Foucault com um defeito nos olhos. É o defeito nos olhos que formaram a íris lendo as letras dos poetas.
Para mim é tão comum ler, questionar e querer reinventar o mundo, que ler Foucault (e todos os outros como ele) é como que ler o meu duplo, na dobra do poema e na dobra da linguagem, e muito mais: na dobra do sujeito.
Não entendo nada da Língua Portuguesa. Não que não a preze, mas só entendo as coisas simples. Entendi isso em mim lendo Manoel de Barros e, desde então, deixei de me angustiar com essas coisas da Língua.
Reclamam muito que escrevo frases longas. Então passei a usar ponto. Nem sei se o texto continua tendo sentido, mas coloco ponto final em toda curva das idéias. Fiquei, então, sem curvas.
Não lia Foucault tentando entendê-lo. Acho que não há nada a entender em lugar algum. Penso que um autor serve para vestir nossas idéias para que elas possam sair a andar por aí com alguma vestimenta, ou não nos servem para nada. O que é complicado é largar as idéias a andarem peladas por aí, sem roupagem alguma.
Estudar a roupagem das idéias do autor, também é um trabalho que valha, mas só isso, de nada ajuda o mundo.
Quando deslizo em meio a essas leituras, o que penso, é nesses seres opacos e opacizados pela velocidade cega do cotidiano. Seres que andam à velocidade da luz e que esquecem de olhar para o caminho, olho fixo que estão, no ponto de chegada no horizonte. Ponto de chegada incerto. Ponto de chegada impreciso. Ponto de chegada que pode ser tão e tão somente a morte. Morte física. Morte em vida. Morte matizada pela olheira crônica que encarrega o semblante de mostrar o retrato do ser que a porta.
Há palavras que me fogem ao controle e sempre que tenho que escrevê-las, desisto, porque alguma coisa delas, que não sei o que é... se, uma letra... se, a pronúncia... se, o sentido... se, o excesso de sentido... alguma coisa há, que elas me saem em pinotes e escapam. Talvez, por isso, pensei e sempre quis ser retratista. Só a imagem. Sem uma palavra. Sem uma letra. Sem as novas regras da Língua Portuguesa. Visivelmente imagem, em qualquer Língua.

segunda-feira, 1 de março de 2010

DIVULGAÇÃO: Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas

"Governo lança Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas - Foi lançado na sexta-feira (26.02) o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, que vai concentrar informações para a formação de uma rede de investigação e acompanhamento dos casos, a partir do acúmulo de dados sobre crianças, adolescentes, adultos e idosos. A rede nacional vai envolver órgãos de segurança pública, conselhos tutelares, entidades civis organizadas, unidades de assistência social e de direitos humanos" (Fonte: SECOM/Planalto).

III Fórum Social Missões

Divulgando o III Fórum Social Missões - nos dias 18, 19 e 20 de Março de 2010 URI - Santo Ângelo/RS - que tem por objetivo "Construir um espaço de socialização e debates dos temas estruturantes do Fórum Social Mundial, na perspectiva do diagnóstico dos paradigmas, dilemas e alternativas, em vista de um outro mundo possível, nos vários campos e setores da sociedade, tendo como horizonte a superação do regime capitalista excludente e a construção de uma sociedade igualitária, fraterna e justa".
http://www.forumsocialmissoes.org.br/index.php

Brevíssimo Conto III

Na dobra da esquina - Espreitou no meio fio da existência, a vaga sombra vagando entre os lixos esvoaçantes. Seguiu-a enquanto pode. Na esquina, seu ser encontrou outro ser. Esqueceu da sombra que perseguia e dobraram juntos, a esquina. Na dobra, perdeu-se o caminho. Nunca mais o reencontraram.

Brevíssimo Conto II

Inoportuna ausência - Quisera devolver-lhe seus mal fingidos orgasmos. Enviara pelo correio, mas o carteiro retornou-lhe o embrulho, com o carimbo assinalado “Ausente”. Guardou o pacote embaixo da cama. Em noites de temporal, uivava o vento em meio ao taquaral e gemia o laço do barbante que prendia os orgasmos.