sábado, 11 de fevereiro de 2017

Anti-tutorial para (des)criar filhos (ir)responsáveis e sobre a (in)sustentabilidade das coisas

Sabemos que criar filhos não é uma coisa tão fácil quanto dizem os promotores das tradições familiaristas... criar filhos, implica dentre muitas outras coisas, em produzir com os mesmos, as noções básicas para o convívio com o outro e para a delimitação das questões práticas da vida.
Vejamos, que vivemos num sistema capitalístico e, com isso, tudo o que consumimos, tem um preço financeiro, sem contar todos os outros custos (o tempo que usamos em nossa formação, o tempo que usamos trabalhando, o tempo que gastamos correndo atrás das questões da vida prática, etc)... para cobrir esse preço, precisamos trabalhar e ter remuneração... os filhos que crescem sem entenderem essa noção, criam uma crença de que tudo funciona no automático e então não precisam fazer nada para ter uma boa vida... se contam com quem custeie isso, talvez passem a vida sem produzir essa noção... se vivem em famílias com finanças apertadas, talvez aprendam, talvez não... enfim, falemos um pouco sobre essas (des)criações e (mal)criações que se produzem nos agrupamentos familiares que vivem dentro do modelinho clássico e um tanto estúpido, de ir pro trabalho, voltar pra casa, fazer coisas e coisas, dormir, descansar, cansar, enfrentar as porcarias de dificuldades que tanto se cultiva e coisa e tal e tal e coisa.
As crianças, adolescentes e adultos criados sem produzir a delimitação dos usos e custos de tudo o que usufruem em suas vidas, desconhecem uma série de coisas, vejamos alguns exemplos:
1.       Desconsideram que a falta de noção sobre tudo, em que foram criados, não é a realidade de todo o resto do mundo;
2.       Desconsideram que vivemos num planeta chamado terra e, mesmo com a abundância, apresenta recursos naturais finitos, portanto, tudo o que desperdiçarem, fará falta em algum momento e, além do mais, todas as coisas materiais feitas no planeta, dependem da utilização dos seus recursos para existirem;
3.       Desconsideram que para ter um espaço privado para morar, alguém precisa trabalhar para construir, comprar ou alugar uma casa;
4.       Desconsideram que para ter móveis e utensílios para usar dentro da casa, alguém precisa trabalhar para comprar e, que, caso não cuidem e preservem essas coisas, destruindo-as, alguém precisará trabalhar mais para pagar a conta, ou será necessário tirar dinheiro de outras coisas para pagar o desperdício;
5.       Desconsideram que a energia elétrica que usam para ter luz, para ligar o ventilador, a estufa, o ar condicionado, o computador, a televisão, entre muitas outras coisas, custa dinheiro e, portanto, se deixarem tudo isso ligado à toa, alguém terá que trabalhar mais para pagar a conta, ou será necessário tirar dinheiro de outras coisas para pagar o desperdício;
6.       Desconsideram que a água na torneira, no chuveiro, no tanque, na máquina de lavar roupas, entre outros lugares, custa dinheiro e, portanto, se deixarem tudo isso ligado à toa, alguém terá que trabalhar mais para pagar a conta, ou será necessário tirar dinheiro de outras coisas para pagar o desperdício;
7.       Desconsideram que aquilo que comem e bebem, custa dinheiro e, que, portanto, aquilo que serviram além da necessidade para comer ou beber (suco, água, café, leite, iogurte, chá, comida, pão, lanche, etc), quando jogado fora, custa mais dinheiro e alguém terá que trabalhar mais para pagar a conta, ou será necessário tirar dinheiro de outras coisas para pagar o desperdício;
8.       Desconsideram que um carro, além de produzir poluição ambiental, custa dinheiro para ser comprado e para ser usado (impostos, seguro, manutenção, etc), assim como, precisa de combustível para andar, portanto, alguém precisa trabalhar para comprar o carro, para pagar os seus custos e para colocar o combustível;
9.       Desconsideram que para ter sinal de internet, alguém precisa trabalhar para pagar a conta;
10.   Desconsideram que todas as coisas pessoais que deixam atiradas pelo mundo ou abandonadas na casa de amigos, custam dinheiro (a roupa, o calçado, o shampoo, o sabonete, a escova dental, o creme dental, a toalha de banho, a mochila, etc) e alguém terá que trabalhar mais para comprar a reposição;
11.   Desconsideram que o que comem será expelido pelo organismo e que não basta largar no vaso sanitário... alguém precisa trabalhar para pagar a água e os produtos para limpar, além de fazer a limpeza;
12.   Desconsideram que a casa, os móveis e utensílios não sejam autolimpantes, portanto, ao usarmos tudo isso, alguém precisa limpar... e se não for limpo por quem usa e suja, alguém terá que trabalhar mais para limpar ou para pagar quem limpe;
13.   Desconsideram que os móveis e utensílios não contem com dispositivos automáticos que possam levá-los de volta ao lugar de onde saíram, portanto, se tirou a cadeira do lugar e não a colocar de volta, a mesma ficará atravancando o caminho dos demais; se usou algo e deixou largado à toa, isso ficará atravancando o ambiente e alguém terá que usar o seu tempo para guardar coisas largadas à toa pelos ocupantes da casa;
14.   Desconsideram que morar numa casa com outras pessoas, não seja o mesmo que estar num hotel... o quarto não aparecerá arrumado ou o banheiro não aparecerá limpo, com toalha trocada, com cesta de lixo esvaziada, enquanto a pessoa estiver fora...
15.   Desconsideram que além da sujeira produzida numa casa em função dos seus usos e abusos, há sujeiras que se produzem por conta própria (poeira, umidade, etc) e isso tudo também não é autolimpante, ou seja, alguém precisa ralar para limpar ou trabalhar para pagar quem limpe;
16.   Desconsideram que as roupas que usam no corpo, as roupas de cama, as toalhas, os panos de cozinha, os tapetes, também não são autolimpantes, portanto, não vão sozinhas do cesto da roupa suja para o tanque ou para a máquina de lavar, nem desta para o varal e nem do varal para os seus devidos lugares... alguém precisa fazer tudo isso... alguém precisa trabalhar para pagar os produtos, a água e a luz utilizados para lavar;
17.   Desconsideram que o pátio duma casa não seja autolimpante e nem as áreas de uso comum dum prédio de apartamentos;
18.   Desconsideram que a bóia que está no armário, na geladeira ou que vai pra mesa todos os dias, custa dinheiro e alguém tem que trabalhar para botar isso pra dentro de casa... alguém precisa sair pra comprar... alguém precisa organizar e guardar... alguém precisa preparar as refeições... e depois de comer a comidinha, não basta lavar o prato, os talheres, o copo, a caneca que sujou... tem as panelas, tem as tigelas, tem os panos, tem o fogão, tem a cozinha, tem a pia, tem um tantão de coisas para além do umbigo de cada um que come;
19.   Desconsideram que quando invadem ou desrespeitam o espaço do outro com barulhos, com gritos, com abusos, com sujeiras, com falta de noção, estão também roubando a energia que o outro utiliza para viver;
20.   Desconsideram que ninguém gosta de ficar pentelhando atrás de marmanjo pelas coisas com as quais não têm cuidado e que se tomarem os cuidados necessários, ninguém vai ficar pegando no pé e nem ter que ficar gastando energia atrás dos descuidos os dos prejuízos advindos dos mesmos;
21.   Desconsideram que o trabalho dificilmente baterá à porta de sua casa e muito menos do quarto em que dormem o dia todo, enquanto alguém trabalha para bancar o teto e tudo o que há sob o teto em que dormitam seus existires;
22.   Desconsideram que a vida não tem dispositivo de funcionamento automático, portanto, estando engrenado nas condições do sistema ou sendo anti-sistema, tentando se desengranar, é preciso correr atrás... é preciso inventar a vida, porque a vida não se inventa sozinha... se não encontrou seu rumo, não adianta ficar esperando caminho pronto,, é preciso inventar a andança;
23.   Desconsideram que gente chata, deselegante, invasiva e abusiva acaba confinada ao seu próprio si, porque não dá pra viver com quem ocupa todo o espaço, todo o ar e toda a energia do ambiente para si.


Enfim, certamente, lembrarei de outros pontos, então deixo o escrito entreaberto...

2 comentários:

  1. Estas desconsiderações me fazem considerar quantas desconsiderações/considerações são necessárias em tempos em que o dispositivo automático toma lugar do dizer com firmeza os sins e os nãos.

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    1. com certeza, graciele! e quantas vezes deixamos o dispositivo automático imperar, porque cansamos de tentar produzir alguma noção sobre as coisas? o sem-noção acaba ficando de boas porque mata no cansaço, mas sem saber que mata também a possibilidade de sustentar algum afeto bom!

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