sábado, 10 de novembro de 2012

comunidade (verbetes nu-sol)

comunidade
 


 
A comunidade é o governo de todos sobre todos. Nela prepondera a obediência e se expressa, racionalmente, a vontade conservadora de uniformidade e nivelamento. Opera segundo uma gestão de poder individualizante e totalizadora, fazendo com que cada indivíduo participe ativamente do governo da comunidade na mesma proporção em que se torna polícia de si próprio e do alheio. A vida em comunidade é o princípio mais elementar de servidão, organizador histórico da política de grupos identitários. Seu amálgama é regido por valores morais de origem que determinam suas formas exemplares de conduta. A comunidade pode se constituir como um pequeno Estado no interior do próprio Estado, e na sociedade de controle, é uma das nomeações para guetos, periferias, favelas, subúrbios. Também designa grupos que agem no interior da prisão, como resistência reativa, atuando na conservação e continuidade das políticas desegurança, agenciadas tanto por instituições estatais, como pela sociedade civil organizada, redimensionando elites no interior da própria comunidade. A comunidade conserva ou delimita costumes identitários e inibe a experimentação de inovações; na sociedade de controle torna-se um dispositivo dos programas de administração da miséria e de gerenciamento das penas.
Ver também: campo de concentraçãocrime organizado;denúnciaestamos todos presosjustiça cidadã.

crianças (verbetes nu-sol)

crianças
 



 
As crianças são temidas. Uma só palavra, um único gesto delas pode fazer desmoronar qualquer reino. Os adultos sabem muito bem disso e procuram calá-las, domesticar seus impulsos e aplicar sobre elas sua milenar cultura e educação por meio de ameaças e usos dos castigos, introjeção da crença em fantasmas, escolarizações e inibições de atitudes despojadas. Espera-se da criança que ela se transforme num bom cidadão, num bom trabalhador, numa boa pessoa, religiosa, filantrópica, tolerante, moderada. Espera-se que as crianças agora e no futuro colaborem para a conservação e aprimoramento de costumes. Todavia, são as crianças pobres que encarnam e escancaram o medode crianças em nossa sociedade. Elas são vistas como potencialmente perigosas, antes de mais nada, porque são pobres, por não possuírem uma família estruturada como a burguesa, não frequentarem regularmente escolas, não provarem para a sociedade que serão bons cidadãos e trabalhadores. Segundo o direito penal, por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente, ela vive em situação de risco. Desde o Código de Menores de 1927 habita o vocabulário de juízes,promotoresadvogados e pessoas preconceituosas como menor. É o outro, o estranho. É a criança perigosa que a sociedade não conseguiu calar e domesticar. Da mesma maneira, o conhecimento produzido pelas humanidades não consegue admirar a criança e suas surpreendentes atitudes. Prefere uniformizá-la e colabora para imobilizá-la por meio do conceito de infância, determinando quais são as condutas esperadas e adequadas, segundo uma classificação normalizadora. A criança é um perigo para a sociedade, uma leveza para a liberdade.
Ver também: abolicionismo penalpericulosidadesegurança integradatécnicos em humanidadesvulnerabilidade.

drogas (verbetes nu-sol)

drogas
 



 
O termo "drogas" é hoje usado para classificar todos os psicoativos cuja produção, comercialização e uso são proibidos por lei. Droga psicoativa é uma substância que provoca efeitos apaziguadores (como o álcool, a maconha, a heroína e a morfina, estas últimas derivadas do ópio), euforizantes (como a cocaína e a cafeína) ou alucinógenos (como o LSD, o peyote ou a ayuahusca). No entanto, há algo que diferencia a cocaína da cafeína, ou o álcool da maconha: a cocaína e a maconha são ilegais, ao passo que as outras duas não. Essa distinção não se deve às propriedades químicas ou aos supostos "prejuízos" à saúde que poderiam causar, mas a um processo político, social, econômico e moral – o proibicionismo – que, desde a década de 1910, tem lançado todo um conjunto de "drogas" na ilegalidade. Entretanto, a relação entre os homens e os psicoativos é tão antiga quanto a própria vida social. As pessoas usam "drogas" para experimentar estados alterados de consciência, buscar prazeres únicos, tratar doenças, diminuir sofrimentos físicos e mentais, praticar exercícios espirituais, cometer ações inusitadas. Como a procura pelas "drogas" é incontível, a proibição apenas gerou um mercado ilícito de proporções mundiais, onarcotráfico. Enfim, o termo droga também designa o pejorativo na sociedade e passível de internação e encarceramento. Os antiproibicionistas pleiteiam a descriminalização ou a legalização das drogasOs abolicionistas penais defendem a liberação das drogas como atitude condizente com o princípio do governo do próprio corpo e de suas ingovernáveis sensações.
Ver também: crime organizadojovensprogramas educativos;redução de danospericulosidade.

hypomnemata extra


Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária 
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
novembro de 2009.
Danem-se os torturadores!
           Não há Estado democrático de direito sem miséria e tortura. Não há banalização da tortura, pois todo saber jurídico penal exige a tortura para obtenção da verdade que lhe interessa.
Tudo o que se convencionou chamar de crime é político. Não há distinção entre o comum e o político: ambos expressam a realidade do regime da propriedade que, às vezes, é atingida nos seus poderes privado e público, e outras no corpo do próprio indivíduo, seja ele adulto, jovem ou criança.
Toda subversão é insuportável ao Estado. Toda subversão incita a liberdade e expõe assimetrias. Quando um povo está sob regime ditatorial, a subversão é a derradeira expressão de sua saúde.
No regime democrático de direito, os acomodados cidadãos preferem não ver, ouvir e falar sobre as torturas diárias que acontecem em prisões, delegacias, vielas, favelas, lares bem constituídos, escolas...
Querem fazer crer que com o fim das prisões políticas, só restaram torturadores em arquivos processuais ou na memória sempre viva de guerreiros da liberdade! O torturador é o vestígio impagável do fascismo. Este, por vezes, toma a forma de governo de Estado, e, na maioria das vezes, em conduta democrática dissimulada.
A noção de crime, a polícia, o tribunal e todo o aparato penal alimentam a continuidade dos dissimulados. Sustentam a necessidade da polícia, do tribunal e de todo aparato penal, azeitado pela tortura. Instaura-se um círculo vicioso em que todos devem acreditar, finalmente, no tribunal nacional e internacional.
Acreditam que pela punição se forjam valores universais de humanidade; que se corrigem as torturas pelas punições legais; e que, se necessário for, façam uso da pena de morte em nome do Estado democrático de direito e pelo bem da humanidade.
Todavia, antes de julgar um torturador, ou condenar sua impunidade —propriedades dos aplicadores de castigos — precisamos saber seus nomes e estampá-los pelas ruas, nas casas de famílias, nas escolas... Divulgar quanto ganharam e ganham, onde estão, do quevivem, com quem se relacionam...
A tortura, assim como a punição, não é um instituto jurídico, mas um dispositivo das tecnologias de poder.
Danem-se os torturadores! E que sejam sempre bem-vindos os subversivos, em qualquer regime. Deles sempre dependerão novas experimentações de liberdade! Mas não confundam subversão pela liberdade com terrorismo fundamentalista!
Abaixo qualquer terror de Estado e os torturadores! Não nos esqueçamos que a democracia moderna nasceu com o terror!
A democracia é também o regime propício a ampliar liberdades e dar um fim ao regime da propriedade. 
         
 Saúde!

hypomnemata 149 - nu-sol


Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no. 149, outubro de 2012.

Do governo das condutas e das contra-condutas
Ganha mais um impulso o programa de retirada de usuários de drogas do meio urbano.
Iniciado na Bahia e realizado em São Paulo foi expandido para o Rio de Janeiro, depois da pacificação na comunidade Jacarezinho.
Os governos levam adiante seu programa de assistência voluntária, involuntária e compulsória ao usuário de drogas; acoplam ao tráfico capitalista os itinerários complementares dos que transitam entre o recolhimento e o acolhimento; situam as premissas que norteiam o controle de si e dos outros relativos à despoluição de si e o usuário é visto como possível capital humano virtual a ser atualizado no e pelos programas de cuidados.
O resultado esperado é a reforma do meio urbano com o consentimento dos cidadãos, ao mesmo tempo em que as políticas ambientais ganham contornos eugênicos.
Sabemos que no passado recente houve um grande investimento autoritário neste sentido; seu foco estava nos deficientes, loucos, estranhos, subversivos, gays e, por último, nos judeus; suas práticas levaram aos campos de concentração e de extermínio até a solução final.
Todavia, os revestimentos humanistas a estas práticas condenadas durante a II Guerra Mundial, amenizaram democraticamente as políticas de segregação, extermínio e controle dos outros.
A prática recente, ao se fundar no consentimento obtido junto aos normais que habitam a população, repete o ponto de partida do mesmo procedimento eugênico nazista tão condenado pela retórica do humanitarismo contemporâneo.
Não se trata mais de supressão de anormais ou de uma raça.
Agora, o revestimento humanitarista e ambiental dirige-se ao atendimento e ao acompanhamento como cura interminável pelos procedimentos similares aos das internações no passado.
Entretanto, mesmo não recebendo o nome de campo de concentração, os espaços de confinamentos para tratamentos reiteram as mesmas práticas de segregação e limpeza; o objetivo não é mais o do extermínio, mas sim o da produção de programas de saúde e segurança voltados à despoluição de cada um, possibilitando seu acesso à condição de capital humano.
Pela programação sobre a cura interminável, redimensiona-se a esperança de cada usuário na sobrevivência, por meio da sua adesão circunstancial à moral da ordem; de outro lado, difunde-se a conexão entre programa de vida e vida programada não só para o regime geral do governo das condutas como também para o das contra-condutas.
O tráfico permanece restrito ao combate político-repressivo, ao mesmo tempo em que as programações inacabadas, voltadas aos usuários, atualizam o processo de governo das condutas com base no tratamento dos transtornos e nos cuidados com os transtornados.
As drogas continuam vistas pelos governos e sociedade como efeito nocivo sobre corpos e mentes de pessoas de fraca consistência psicológica, a serem governados pelo discurso psiquiátrico humanitarista.
Nada de discussão sobre o uso de drogas senão pelos efeitos do tráfico; nada de propostas objetivas relativas ao fim do tráfico.
Ao contrário, tais programações consideram o tráfico como normal e, em seu limite, abarcam a possibilidade neoliberal de legalização das drogas como produto comercial acoplado ao gerenciamento de condutas pelos dispositivos legais do Estado, atualizados pelos programas de cuidados.
Nem poderia ser diferente: o capitalismo começou com tráficos e se sustenta com base na permanência das conexões entre reprodução do capital e ilegalismos.
No meio disso, mais uma vez, os pobres e os miseráveis estão disponíveis a ser tanto mão de obra do tráfico, quanto usuários de drogas.
Eles são considerados a população-alvo para intervenções psiquiátricas, sob o regime de programas governamentais com a participação de organizações não-governamentais, recebendo o auxílio à sua própria despoluição e contribuindo para a sustentabilidade capitalista.
É o melhor que se pode oferecer a eles com apoio dos demais cidadãos; é de melhoria em melhorias que se governam as condutas socialmente aceitas ou não.
As contra-condutas voltadas a negociações sobre legalizações pontuais deixam intocável a produção de ilegalismos por estarem dirigidas à descriminalização de condutas relativas às chamadas drogas leves, como a maconha, usualmente consumida, hoje em dia, por estratos superiores aos dos miseráveis.
Enquanto isso as condutas combatidas fazem parte dos programas sociais de pacificação de favelas, limpeza e valorização dos centros urbanos, produção de empregos assistenciais de segurança e saúde para especialistas e ONGs que são aplicados aos usuários de drogas condenadas para funcionarem como retratos de redutores de violências.
A população dos cidadãos está presente não apenas consentindo, mas obtendo empregos e dando dinâmica à melhoria das condições de seu acesso à renda; ao mesmo tempo, direta ou indiretamente, governa de modo eugênico a população dos insuportáveis.
Esta deve reconhecer os efeitos das benfeitorias da programação de sua despoluição individual relacionada à composição de um ambiente mais saudável governado pela panaceia da cura.
Não se trata mais de segregar para exterminar, mas de identificar para incluir de maneira limpa.
O usuário deve, voluntariamente, aderir para que os esforços na redução de internações involuntárias e compulsórias justifiquem a ampliação dos programas.
Espera-se que cada programa siga inacabado, pois não há nem haverá nenhuma disposição para a erradicação do tráfico; sua eficiência se mostrará e atestará, por meio de estatísticas divulgadas midiaticamente e pela difusão da restauração da exemplaridade da vida em família com apoios de ONGs e organizações transterritoriais.
Resultado atual da proliferação dos programas de saúde e segurança para os usuários: crescimento da descriminalização de condutas pontuais e políticas inofensivas, visando transformar a droga em mercadoria legal sob um padrão de fiscalização conectado ao domínio das condutas pelo Estado.
Não se trata mais da biopolítica pela qual o Estado governava a espécie, sua população em um território; agora, trata-se de governo da vida de certas populações por demais populações realizado pela simbiose Estado-sociedade civil e organizações transterritoriais.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Zona Autónoma


Zona Autónoma: Territorio asambleario de la auto-gestión de lo común y lo multitudinario. El fin del Capital-Estado y de todos sus dispositivos ampliados: massmediáticos y empresario, legislativo y ejecutivo, judicial y militar, educativo y sanitario. Todos ellos aparatos de captura de la vida, que no hacen más que manipular y absorber, controlar y disciplinar, recluir y reprimir, formatear y reparar, al sujeto social que alimenta y reproduce la “Matrix”. Una forma de comando universal que separa al emisor del receptor, al productor de lo hecho, al  que vota del que lo representa, a quien ordena del que obedece, al reo del juez, al sometido bajo la amenaza armada, al “sin luz” del educador, a la enfermedad de la cura. La autonomía no es una fuga personal y grupal autocomplaciente, una práctica que es renuente a la crítica, que hace un dogma de todo lo valiosamente realizado por el campo de la autonomía. Tampoco es un movimiento que se subdivide en grupos y endogrupos, despreciando cada uno a los integrantes del otro. Descalificándose entre compañeros/as que hasta ayer, todos ellos, se consideraban los hombres y las mujeres del cambio social. El peor de los narcisismos, porque proviene de los que aspiran a ser mejores. La Zona Autónoma es un territorio, que por supuesto se asienta, pero que va mucho mas allá, del propio espacio físico de cada poder popular. Un área donde no gobierne el salario y el mercado, al mismo tiempo que gobierna una forma política anticapitalista y asamblearia. Un rizoma diseminado local, nacional y mundialmente. Con capacidad de articulación material y no solo simbólica. Un reticulado cosmopolita con nodos autónomos diseminados por el planeta, antagonizando la lógica de la representación de la mercancía fuerza de trabajo. Una Zona Autónoma internacional, que supere la resistencia global al capital y pase a la ofensiva construyendo, aquí y ahora, el anticapitalismo.
em: DICCIONARIO POSFORDISTA 

Trabajo precario


Trabajo precario: Empleo inestable, intermitente, incierto. El trabajo precario da nacimiento a una nueva modalidad del hacer bajo el capitalismo, y se encarna en un sujeto social con nombre propio: “El Precariado”. Fracción de clase mayoritaria de la multitud; encarnación de la disminución del trabajo socialmente necesario para reproducir la vida del empleado y aumentar pavorosamente el trabajo excedente que produce plusvalor. Lo que es igual, a salarios paupérrimos que deviene en un subproletariado del subconsumo, o “working poor”. Hoy, las economías crecen con ejércitos industriales de reserva a tiempo completo, o “Excedentariado”, que no volverá nunca más a las fábricas. Hoy, el capitalismo funciona con el paulatino pasaje del trabajo registrado y por tiempo indefinido, al contratado en negro y por tiempo fijo, o de lo contrario, no funciona. Para el capital la fuerza de trabajo es una mercancía. Las modalidades laborales del “Terciariado” y el “Precariado”, disminuye el valor de esa mercancía tan particular, tan valiosa para el capitalista: la energía humana del hacer. Una sustancia que genera plusvalía y por la cual el empresario paga lo menos posible, para que así, el uso del trabajo produzca el mayor plus-valor posible. La Argentina, es una clara demostración que la economía puede crecer por cuatro años a la manera china, pero no por ello aumentan los salarios reales de la mayoría. Contrariamente, el poder adquisitivo del salario está ahora, en promedio, por debajo de 2001. Y además, el país tiene índices de desigualad social, trabajo en negro y tercerizado, peores que en plena crisis recesiva del 2001. Para graficar y permitir comparaciones -para aquellos que no viven en la Argentina- pondremos los valores en dólares (U$S). Redondeando, mientras la línea de indigencia está en los 150 dólares, la de la pobreza ronda los 300 dólares, y la canasta familiar de bienes y servicios está en los 800 dólares. Desde el 2001, y con el retorno de los gobiernos peronistas, el trabajo en negro aumentó un 500 por ciento, y la plusvalía absoluta y relativa (productividad que le dicen) se incrementó un 44 %. Aproximadamente, con Kirchner, el 30 por ciento de los trabajadores(as) son indigentes, el 60 % son pobres, y el 80 por ciento está fuera de los Convenios Colectivos de Trabajo, o Paritarias. La mitad de los trabajadores privados registrados -unos 2,5 millones- recibe un sueldo de 300 dólares por mes (por lo tanto, son pobres). Los asalariados precarios son el 40 por ciento de la fuerza laboral y la mitad gana U$S 140 (es decir, indigentes). El ingreso de la mitad de los cuentapropistas no profesionales es de  U$S 150 (también indigentes). El cincuenta por ciento del personal doméstico   -tanto como un millón- cobra U$S 80 (poco más que la mitad de la línea de indigencia). Los piqueteros con planes sociales, que tanto irritan al poder, reciben 50 dólares (tres veces menos que la línea de indigencia); no teniendo un peso de aumento en los últimos cinco años. Para ellos, no ser ya pobres, sino indigentes, resulta un verdadero lujo. Y para el capital, como lazo social, la asistencia es el precio global que paga la sociedad mercantil, el valor que abona el estado, para controlar en la sub-vida a las masas que han sido descartadas. Sub-alimentados, para el capitalismo, si se dejan morir de hambre y enfermedades evitables mejor, tanta masa excedente estorba. Tanto pobre, con tanto tiempo libre para pensar y organizarse, resulta peligroso. Como son menos que un ejército industrial de obreros de reserva, ya que no gastarán nunca más su fuerza de trabajo en una fábrica, el estado los alimenta con menos de lo mínimo e indispensable. Si el salario, debía ser la medida de la reproducción de la fuerza de trabajo; la asistencia, es la forma de clientelizar a millones a los que se les paga para que sólo continúen en silencio respirando. Además de los trabajadores negados, y de trabajadores formales con salarios de pobreza y tercerizados en la indigencia, hay un sub-proletariado salarial de la sub-indigencia. Daremos un ejemplo ilustrativo: existe en plena Ciudad “Autónoma” de Buenos Aires, una fuerza de trabajo sub-obrera, empleada en 1.600 talleres y fábricas ubicados en distintos barrios de la Capital Federal. Que trabajan entre 16 y 18 horas diarias, encerrados de por vida, con familias hacinadas en casas-talleres-cárceles, desnutrida crónicamente y cobrando 70 dólares por mes (la mitad del ingreso para ser un indigente). De este modo, se entiende, como los asistidos sociales (como fuerza excluida del salario de manera perpetua) no puedan superar los valores que cobra el subsuelo del trabajo por una paga. Para la lógica de acumulación del capital, un desempleado no puede recibir más que los ofensivos 50 dólares, cuando hay asalariados a 70 dólares por mes. Después de la devaluación, se produjo una trasvasamiento de nada menos que “¡Diez puntos!” de los ingresos del trabajo al capital. ¡Y todavía algunos dudan si después del 2001 no hubo un proceso de acumulación originaria de capital! El balance de los últimos 12 años, indica, que hubo una transferencia de 13.7 por ciento de la “torta” nacional. Sesenta mil millones de pesos anuales, ¡720.000 millones en total! Cientos de miles de millones extras, que le fueron robados a la multitud por el capital, bajo gobiernos radicales y peronistas. La distribución de la riqueza bajo el gobierno de Kirchner resulta peor que durante toda la convertibilidad. Es decir, no sólo es peor que con Menem, sino que resulta peor que durante el gobierno de De la Rúa. Ahora el capital se queda con el 47.4% de la riqueza, mientras que en 1993 obtenía el 33.7%, en 1997 el 46.8 por ciento, y en el 2.000 el 40%. Esta exacción contra el trabajo pauperiza y mata. Este verdadero genocidio en democracia resulta un espectáculo pornográfico de miseria planificada. La multitud aspira a salir de la pobreza trabajando, mientras que trabajando se hace pobre. Sea con Menem y De la Rúa, con Duhalde y Kirchner, el posfordismo no tiene marcha atrás, salvo que la multitud termine con el capitalismo. El capital no precisa muchos más esclavos de los que ya expolia. Mientras concentra la superexplotación en unos (aumentando al máximo el tiempo excedente de trabajo y el valor de cambio de la mercancía, precarizando a la mayoría, y disminuyendo al mínimo el tiempo necesario para reproducir toda la fuerza de trabajo, o sea bajando el costo de los salarios) expulsa a otros, hasta llegar al valor sin uso del trabajo como desempleo asalariado, bajo la figura del asistido social subindigente y trabajador negado por el capital. El sindicalismo no “ajusta” al mundo del trabajo al estado, porque ya no concuerda, el empleo con la agremiación. A nivel universal, solamente un 8 por ciento de toda la población económicamente activa está sindicalizada. Sin el fordismo como modelo dominante, y por ende, sin sindicatos masivos; los partidos capitalistas de masas han terminado. El éxodo electoral del ciudadano, desafiliado de las viejas pautas keynesianas, provoca que el “Capital-Parlamentarismo” haya decidido gobernar con el porcentaje que los vote, sean cuales fueren los que lo hagan. De ahí su ontología social a constituirse en un estado “Capital-Ejecutivista”, carente de legitimidad, y poseedor de una mera pátina de legalidad. Ya no estamos, siquiera, en el campo de la representación; sino en el plano de la simulación de la propia representación. El sistema capitalista establece un patrón económico que explota, de manera asalariada plena en la Matrix “Capital-Parlamentaria”, a un tercio de la población trabajadora. El resto, al precariado y el paro. Y esta es una propensión mundial del capital. En el planeta, el 50 por ciento de la fuerza laboral está des-asalariada; y el otro 50 por ciento, se divide por mitades, los que están en blanco y en negro. Es decir, únicamente el 25 % está registrado, otro 25 por ciento resulta intermitente y el 50% restante es trabajo negado. Del comienzo de la decadencia de la sociedad keynesiana y fordista, de los dos tercios incluida en el trabajo registrado y un tercio en la precariedad y la reserva; se invirtió la pirámide, y se avanza como tendencia, a una sociedad postkeynesiana y postfordista con un tercio de registrados y dos tercios en la flexibilidad y el trabajo negado. Trabajo capitalista= 25%registrado+25% “Precariado”+50% “Excedentariado”. ¡Otra que el viejo ejército industrial de reserva! Subordinación y pasividad, o cooptación y represión. El menú de la sociedad del capital y el Estado excedentario, no tiene más platos para ofrecer a millones de bocas hambrientas.
em: DICCIONARIO POSFORDISTA

terça-feira, 30 de outubro de 2012

flecheira.libertária.272


balancinho eleitoral: uma dúzia
As abstenções finalmente invadiram as pautas dos analistas político-eleitorais. Por que tanta abstenção? Porque: 1) esse povo não aguenta mais a mesmice; 2) está cagando e andando para o voto obrigatório e responde pagando a taxa estatal em cartório para não se ver prejudicado como trabalhador; 3) tem mais o que fazer do que perder o tempo em filas para digitar números de candidatos repaginados, anular ou deixar em branco; 4) sabe que votar é manter as coisas como estão quando quer mudanças; 5) sabe que votar nulo não é mais maneira de contestar a obrigatoriedade do voto na falaciosa democracia brasileira; 6) não quer ser governado; 7) quer ser governado e pouco importa o governante: 8) compõe um conjunto heterogêneo e de difícil mapeamento; 9) o assunto vai virar dissertaçãoe tese de alpinistas acadêmicos; 10) domingo fez sol; 11) todas e nenhuma das anteriores; 12) diga qual foi a sua. 
resistência guarani-kaiowá
Diante  do despacho da Justiça Federal para que certos índios abandonassem suas próprias terras, retomadas de proprietários, os  guarani-kaiowá do  tekoha denominado  Pyelito Kue/ Mbarakai, publicaram  uma carta, na qual, anunciam ao governo como decretarão  sua “morte coletiva”. Disseminada por blogs e redes sociais, a carta gerou protestos e publicações pelo planeta. Frente à preocupação crescente com o possível suicídio dos guarani-kaiowá, um líder do Pyelito Kue/ Mbarakai, Apykaa, afirmou que a “morte coletiva”, exposta no texto, não significa dar cabo da própria existência. Se for para a gente se entregar, nós não nos entregaremos fácil. É por causa da terra que estamos aqui, nós estamos unidos com o mesmo sentimento e com a mesma palavra para morrermos na nossa terra. Esta terra é nossa mesmo! (...) Nós morreremos se os fazendeiros atacarem. Ao contrário do suicídio, a “morte coletiva”, frente ao acossamento pelo Estado, proprietários e jagunços, afirmou a perspectiva de uma resistência vital.
para além do direito
Sob o efeito da publicação da carta, representantes da Justiça do Mato Grosso do Sul pronunciaram-se em nota explicando que a liminar expedida era referente à “manutenção de posse” e não de reintegração, isto é, a liminar servia  somente para reiterar  e lembrar os  guarani-kaiowá de que os proprietários daquele solo, segundo o Estado,são os fazendeiros.  Todavia, a  ardilosa distinção técnica, que escancarou ainda mais a escusa articulação entre proprietários e a Justiça, não alterou o ímpeto de resistência guarani-kaiowá. Mesmo sob alvo da violência amparada pela aliança entre os canalhas de toga e proprietários com seus jagunços armados até os dentes, um antigo guaranikaiowá, sentado sob o tronco de uma árvore,  bradou:  esta terra não é dos brancos, é nossa e de nossos antepassados.
para além do território
A nota emitida pela Justiça somente atestou a continuidade das violências contra os índios. Pouco se comentou, mas precisamente na mesma semana da sua publicação pela Justiça do Mato Grosso do Sul, uma jovem do Pyelito Kue/ Mbarakai, foi estuprada numa propriedade próxima, quando voltava do centro de Iguatemi em direção ao tekoha. Não é de hoje que certas mulheres  guarani-kaiowá são estupradas por proprietários e seus seguranças. Não é de hoje que índios são expulsos de suas terras e covardemente assassinados. Não é de hoje. A violência abominável contra os índios cresceu, precisamente e ao mesmo  tempo, com a criação do território chamado Brasil.  
elas não vão parar
Após apuração de recurso, uma das integrantes presas do  Pussy Riot, teve sua sentença revogada. Yekaterina Samutsevich foi posta em  liberdade condicional  no último dia 10 por, não ter participado,  formalmente, da manifestação política] na Catedral, pela qual ela e a mais duas pussy riots foram condenadas a dois anos de prisão. No mesmo dia em que saiu da prisão, deu entrevista a um renomado jornal estadunidense. Em meio a uma série de perguntas tolas, foi questionada: “você diz que vai continuar com seu protesto. Mas veja, você esteve na prisão por tantos meses e há cada vez mais leis e outras coisas que dificultam protestos na Rússia. Você não está com medo?”. A jovem russa respondeu que em momento algum, nem mesmo agora, teve medo e que, além das questões políticas que elas combatem continuarem em jogo, suas amigas seguem presas e isto é insuportável. Com um sorriso, acrescentou que apenas será “mais esperta” para não ser pega de novo. E a luta das pussy riots não cessa.
nós também não
Na semana passada, as outras duas  pussy riots presas foram enviadas pelo governo russo  a dois “campos de trabalho” no interior do país – os campos de Mordovia e Perm que, entre muitos outros, serviram para extrair força de trabalho, sangue e vísceras de milhares de pessoas durante o período da Ditadura do Proletariado. A justiça russa ainda não se pronunciou oficialmente sobre o caso e  a imprensa internacional não dá  notícia. Talvez porque a continuidade dos  gulags  sirva bem à produção capitalista; porque as pessoas não se incomodam com castigos e prisões; porque as torturas e mortes que  a partir  deles, impreterivelmente, seguem, e perpetuam ditaduras e democracias. Nadezhda Tolokonnikova e Maria Alyokhina estão encarceradas! Na Rússia e em cada canto do planeta milhões de pessoas estão presas! Como é possível que apenas para tão poucos isso seja insuportável? Será que só a filha de Nadezhda, uma criança de quatro anos, desenha rotas de fuga com escavadeiras para derrubar os muros da prisão e soltar a sua mãe?

sábado, 27 de outubro de 2012


Por meio de relatos, o filme revela a violência e as atrocidades cometidas contra internos em hospitais psiquiátricos. Retrata o tratamento e a injusta condenação que ainda recebem os portadores de sofrimentos mentais no Brasil. Neste tribunal, os hospitais psiquiátricos, com todo o seu notório saber, e a maioria de seus médicos, enfermeiros e atendentes, estariam no banco dos réus. 

O filme denuncia a falência do hospital psiquiátrico enquanto recurso assistencial. O caráter violador dos direitos humanos, os altos custos financeiros de sua manutenção e a sua ineficiência contradizem a força da sua presença no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Para o CFP, o cenário atual dos manicômios brasileiros é preocupante. Pelo menos 60 mil pessoas ainda estão internadas em hospitais psiquiátricos e diariamente são submetidas às mais perversas condições e situações de violência. E não é só. Há, ainda, 300 manicômios no Brasil, dos quais cerca de 80% são privados. Porém, todos eles, públicos ou privados, são financiados por recursos governamentais, consumindo cerca de 500 milhões de reais por ano. 

Em 2001, uma das vitórias das entidades que lutam pelo fim dos manicômios no Brasil foi a aprovação do projeto de lei do deputado Paulo Delgado (PT-MG). Sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso no dia 6 de abril deste ano, o projeto de lei, que ficou 12 anos tramitando no Congresso, dispõe sobre a extinção gradual dos manicômios e sua substituição por outros recursos assistênciais e regulamenta a internação psiquiátrica compulsória, consolidando as emendas e subemendas aprovadas no turno suplementar. "Este é o momento mais importante da minha vida", festejou Geraldo Peixoto, vice-presidente da Associação Franco Basaglia e pai de ex-interno. 
buscado em: http://www.youtube.com/watch?v=x8d1ksPo0xs

flecheira.libertária.271


semelhanças 
Dominou as televisões paulistas: jovem denunciado pela mãe visando sua interdição dispara contra agentes judiciários e depois se entrega. Diagnosticado como esquizofrênico, ele declara ter suspeitado serem eles ladrões entrando em sua casa e atirou. Ele tinha um pequeno arsenal de armas obtido legalmente. Não precisa estar diagnosticado esquizofrênico para ter claro que as ações de ladrões e polícia se assemelham. Tampouco haver em grande parte dos cidadãos o desejo de matar infratores. Se os alvejados fossem ladrões talvez os psiquiatras consultados não o enquadrasse como anormal e a mídia o incensasse como herói do dia. Enfim, estamparam-se as semelhanças entre práticas legalizadas e os ilegalismos, a sede de vingança, a crença na punição generalizada e o ambíguo discurso psiquiátrico. 
contra o extermínio dos guarani-kaiowá
O consentimento com o extermínio dos guarani-kaiowá não cessou, pelo contrário, transformouse em apoio  explícito do Estado por meio de um despacho da Justiça Federal ordenando a expulsão dos índios das margens do Rio Hovy. Ameaçados, cercados entre jagunços, despachos da Justiça e as celas de fétidas prisões, os índios decidiram não abandonar a terra mesmo sob decisão do Estado. Em carta amplamente divulgada, os guarani-kaiowá afirmaram: sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do Rio.  
pela vida 
Nos últimos oito anos, mais de duzentos índios foram assassinados no Mato Grosso. Diante de tais violências, os guarani-kaiowá do tekohá denominado Pyelito Kue/Mbarakai pronunciaram-se afirmando que mesmo com o despacho de expulsão não sairão de suas terras.  Na carta que tornaram pública, os índios reclamam que o Estado decrete oficialmente “a morte coletiva” da gente que vive em Pyelito Kue/Mbarakai para que enfim possam morrer sob a mesma terra de seus antepassados. O extermínio dos  guarani-kaiowá pelo Estado e proprietários segue em frente e não é de hoje. Entretanto, se até recentemente ele ocorria na calada da noite, em ciladas pelas estradas, em atropelamentos duvidosos, e prisões, agora ele corre solto pela adesão escancarada do Estado por meio de despachos da Justiça favoráveis aos fazendeiros do Mato Grosso. O sangue não escorre mais somente no chão de terra batida dos guarani-kaiowá. Ele se esvai também, longe dali, entre o branco das folhas dos trâmites e o preto rançoso das togas. É preciso dar um basta no extermínio de índios no Brasil, já! 
balancinho eleitoral
Eleições paulistanas: com suas propagandas televisivas pautadas em louvar um em detrimento do outro, os dois candidatos, ambos o melhor ex-ministro, apresentam seus  clips  divulgando seus mirabolantes programas de governo recheados de depoimentos de gente simples. Somam índices de aceitação e rejeição; sobem e descem nas pesquisas. Fazem suas alianças políticopartidárias denunciadas por um e outro com base na moderação. Enfim, para um telespectador minimamente inteligente explicitam que governam pela programação da gestão com interesses específicos mostrados como interesse geral. Os governados nada querem saber do funcionamento de um governo; escolherão o mais qualificado tecnicamente. Por isso, o marketing eficiente investe na  catação de votos obrigatórios  de uma população que ama ser governada e que pouco sabe sobre o controle de empregos públicos. Abobada, ela assiste ou fica sabendo dos espetáculos de julgamentos de corrupções inerentes à existência de Estado e governos. 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Ninguém pode viver sem Estamira


Por Victor Melo
Estudou psicologia na Universidade Estadual de Londrina e fez mestrado na Universidade Paulista Júlio Mesquita - UNESP-Assis. Atualmente é professor no curso de Psicologia do CEULP-ULBRA, em Palmas.


"Eu quero compartilhar com vocês a minha visão do mundo, das coisas".
Estamira
Foto: Marcos Prado

Estamira é uma falecida senhora brasileira que viveu por 70 anos.  Sua trajetória de vida foi retratada no documentário “ESTAMIRA” dirigido pelo fotógrafo Marcos Prado que também dirigiu “Os Carvoeiros” e produziu o filme “Ônibus 174”. Existe uma temática que é transversal nesses três filmes de Marcos Prado: pessoas em condições de vida extremas, imersas numa sociedade que, há tempos, exporta, cada vez mais, o senso de justiça e importa, cada vez mais, a desigualdade social e a exploração do homem pelo homem.
No documentário “Os Carvoeiros” Prado retrata a vida de famílias do interior do Brasil, em especial dos estados de Minas Gerais, Mato Grosso e Pará, na produção de carvão vegetal que alimenta multinacionais do aço e de automóveis. Retrata o regime de trabalho dessas pessoas e nos mostra que a escravidão é uma prática que atravessa sociedade até os dias de hoje, mesmo nos países que possuem leis de abolição à escravidão, como o Brasil.
Marcos Prado parece querer dar voz às pessoas do dia-a-dia, pessoas cujas vozes não se ouvem, anônimas da sociedade. Ele busca retratar as condições de vida dos milhares de anônimos brasileiros, desde os explorados em sua força de trabalho até aqueles que, em meio às dificuldades de viver, praticam seqüestros, de forma desesperada, como foi no episódio do Ônibus 174. Ou seja, Prado trata em seus documentários, da injustiça, da exclusão, das desigualdades sociais com a tentativa de retratar o ponto de vista das pessoas que se submetem-são submetidas à injustiça, à exclusão e às desigualdades sociais.
O mesmo ocorre à Estamira. Marcos busca essa senhora, em seus 63 anos, e lhe oferece um meio de falar de suas condições de vida, aliás, um meio de viver, nas telas, as condições de vida que vivia há mais de 20 anos. E Estamira diz que sim, que tem algo a falar para o mundo. Ao longo do documentário, ela, no poder do microfone, tece sua concepção de vida e seu ponto de vista acerca do homem. “Assim falou Estamira” é um link do sítio oficial do documentário onde se encontram frases de Estamira. É interessante notar a relação que o sítio quer fazer com o filósofo Nietsche, autor de “Assim falou Zaratustra”. E isso se deve simplesmente pelo fato de Estamira praticar, ao longo das gravações do documentário, de pensamento filosofia, tecendo críticas pertinentes, atuais e ácidas quando à sociedade que a circunda. Estamira foi uma filósofa.
Vivendo e trabalhando no Aterro Sanitário Jardim Gramacho, a desconfiança e decepção com o homem são imanentes em seu viver, transbordam em suas falas, em seu pensamento, em seu andar, em seu habitat e na relação com a família. “Eu transbordei de raiva... transbordei de ficar invisível... com tanta hipocrisia, com tanta mentira, com tanta perversidade, com tanto trocadilo.”

Aterro sanitário Jardim Gramacho. Foto: Marcos Prado

Para Estamira, o homem que explora outro homem (a exploração em todas as suas formas: econômica, sexual, afetiva e etc.) é trocadilo. “Trocadilo é Deus ao contrário!” E mesmo que trocadilo seja outras coisas para ela, é também sinônimo de “amaldiçoado, excomungado, hipócrita, safado, canalha, indigno, incompetente...”, pois “o trocadilo fez de uma tal maneira, que quanto menos as pessoas têm, mais eles menosprezam, mais eles jogam fora, quanto menos eles têm!...”
Suas falas são auto-referenciais, aliás, o seu sistema filosófico de concepção de mundo é auto-referencial. “Eu Estamira sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim. Ninguém pode viver sem Estamira. E eu me sinto orgulho e tristeza por isso.” A meu ver, de outra maneira talvez não poderia ser, pois todas as referências que teve na vida a traíram: seus esposos a traíram, os cientistas mataram sua mãe num hospital psiquiátrico, seu filho e neto insistem em catequizá-la, mesmo depois de Deus a ter traído. Sobre deus, Estamira fala: “Que Deus é esse? Que Jesus é esse, que só fala em guerra e não sei o quê?! Não é ele que é o próprio trocadilo? Só pra otário, pra esperto ao contrário, bobado, bestalhado. Quem já teve medo de dizer a verdade, largou de morrer? Largou? Quem andou com Deus dia e noite, noite e dia na boca ainda mais com os deboches, largou de morrer? Quem fez o que ele mandou, o que o da quadrilha dele manda, largou de morrer? Largou de passar fome? Largou de miséria? Ah, não dá!”

 
Estamira gesticula e diz sua concepção de mundo: "Tudo que é imaginário, tem, existe, é.". Foto: Marcos Prado

O mundo de traição em que Estamira viveu não poderia, em minha concepção, ser-lhe a principal referência de sentido e de produção de vida... a ideia de solidariedade, de sentido de vida e de inteligência não cabem num sistema referencial embasado na traição. A meu ver, a auto-referência como fundamento do mundo é a única relação em que ela pôde identificar vida depois de ter perdido a fé em seu próprio Criador. E a ciência vai chamar isso de psicose, de esquizofrenia, de narcisismo, de projeção, de formação reativa, de delírio, de discurso desconexo – Ah, não dá!!!
Estamira, a meu ver, possui a chave para o maior mal da humanidade, maior que a própria morte: tem a chave para a solidão – suporta a solidão como poucos; está no mundo, está no universo, sozinha – não vive em função de discursos, não vive em função de ninguém. Vive na Terra, pega-lhe uma carona e cuida dela transformando o lixo utilidades. “A Terra disse, ela falava, agora que ela já tá morta, ela disse que então ela não seria testemunha de nada. Olha o quê que aconteceu com ela. Eu fiquei de mal com ela uma porção de tempo, e falei pra ela que até que ela provasse o contrário. Ela me provou o contrário, a Terra. Ela me provou o contrário porque ela é indefesa. A Terra é indefesa.”
 
Estamira, em conversa numa língua desconhecida pelo homem trocadilo. Foto: Marcos Prado

É contra a exploração que ela passa a explorar, não as pessoas, mas o Aterro Sanitário Jardim Gramacho. É do lixo e no lixo que ela passa a viver. É no lixo, com todo o seu mal-cheiro e possibilidades de doenças, que ela encontra seu habitat, suas referências pessoais, amigos e colegas, seu trabalho, sua educação, seu lazer, sua vida. É naqueles que reconhecem a própria responsabilidade do próprio lixo que ela se reconhece. E quem assim não o faz é hipócrita. Por isso não só vive com o objetivo de transformar o lixo material, mas também ao lixo abstrato, à hipocrisia. Ela mesma diz: “A minha missão, além d’eu ser Estamira, é revelar a verdade, somente a verdade. Seja mentira, seja capturar a mentira e tacar na cara, ou então ensinar a mostrar o que eles não sabem, os inocentes… Não tem mais inocente, não tem. Tem esperto ao contrário, esperto ao contrário tem, mas inocente não tem não.”
Estamira denuncia a ciência como já o fizeram Boaventura de Souza Santos e outros autores críticos do epistemicídio. Revela a classe dos copiadores e dos dopantes, independente se a burocracia acadêmica e da sociedade formalizada pelos contratos aceita sua fala ou a divulga como formadora de opiniões. Tão pouco Estamira procura tal reconhecimento.
Enfim, Estamira se apresenta no documentário de Marcos Prado e nos vínculos que deixou após sua morte. Ela foi uma mulher que morreu aos 70 anos, no dia 28 de agosto de 2011, por conta de uma infecção que se generalizou na espera de seu atendimento no Hospital Miguel Couto, na Gávea, Zona Sul da cidade do rio de Janeiro. E é, hoje, uma personagem que se destacou pela forma brilhante de fazer de sua vida um fluxo de transformação, disruptivo, denunciante, instituinte.

Saiba mais:

FICHA TÉCNICA
Diretor: Marcos Prado
Produção: Marcos Prado, José Padilha
Roteiro: Marcos Prado
Fotografia: Marcos Prado
Trilha Sonora: Décio Rocha
Duração: 127 min.
Ano: 2004
País: Brasil
Gênero: Documentário
Cor: Preto e Branco
Distribuidora: Não definida
Classificação: 10 anos

terça-feira, 16 de outubro de 2012

flecheira.libertária.270


balancinho eleitoral 
Entre as suavidades e as diatribes encenadas dos marqueteiros, os efeitos de sondagens eleitorais, passeios de candidatos pelas periferias e ajustes nos negócios político-partidários, segue a disputa eleitoral pelas prefeituras. Levantam-se suspeitas sobre manipulações. Mas como não haver o  melhor engendramento quando está em jogo compor o corpo majoritário na política democrática? A representação é isso. A liberdade para existir deve abalar a representação, este ato teatral pelo qual um fala e governa os demais. No balancinho eleitoral, crescem as abstenções...  
sobre abstenções 1 
Em um Estado que obriga ao voto porque os cidadãos  ainda são considerados deseducados para a democracia, deixar de se apresentar no teatro eleitoral da política começa a tomar vulto: 1/3 do eleitorado da cidade de São Paulo não compareceu ao primeiro turno. Todos terão de justificar a ausência. Esta é a rotina estabelecida, desde os tempos da ditadura civil-militar, para controlar a cada um. Contudo, há um efeito a ser analisado por politólogos, marqueteiros, políticos, jornalistas e cidadãos...  
sobre abstenções 2 
Entre os que não compareceram há, sem dúvida, os que preferem vadiar, mas há também os que combatem a  encenação democrática, os contestadores, os livres. A obrigatoriedade do voto, estatisticamente, está anunciando uma derrocada do voto obrigatório, ou simplesmente mostrando que voto facultativo e obrigatório são partes de uma encenação que está se esgotando... Adiante, isso pode ser indício de contestação mais radical como também de ampliação de um fascismo mal disfarçado. 
eleições: presos em casa 
A Fundação Casa ― enorme complexo prisional para jovens no estado de São Paulo vinculado à Secretaria de Desenvolvimento e Ação Social ― divulga seu orgulho diante do que chama de “verdadeiro exercício de cidadania”, pela participação, na condição de eleitores, dos jovens que se encontram lá encarcerados. Mas não só. Ressalta o significativo número de egressos, que voltaram à Casa para votar pois é lá que se encontra seu domicílio eleitoral. A prisão não só explicita da maneira mais crua o aprisionamento que envolve o trâmite eleitoral, como mostra sem pudor, a partir da continuidade de cárceres para jovens no país, o aprisionamento que incide na redução de qualquer cidadão a um potencial prisioneiro do território do Estado. Um jovem que cumpre ou cumpriu pena sob a nomenclatura de medida socioeducativa está enredado, definitivamente, a uma pena que não finda, e cuja dívida infinita se situa, também, no denominado direito. Esta é a obrigatoriedade ao irremediável. É o retorno de onde nunca saiu: o cárcere seja ele transvestido de domicílio ou casa. 
eleições: presos de volta para casa 
Enquanto isso, em Atalaia do Norte, no estado do Amazonas, inúmeros indígenas ficaram presos sem ter como voltar para suas aldeias, pois não tinham  dinheiro para isso. Permaneceram ali, acampados em canoas na beira de um rio, junto a fossas de dejetos, naquilo que mais parecia um campo de refugiados flutuante, sem ter o que comer e beber, após seu translado de centenas de quilômetros, até as urnas mais próximas para votar. É que os coronéis, os canalhas capitalistas proprietários de terras que 
custearam sua ida às urnas, como perderam as eleições, negaram-se a pagar a viagem de volta.  
sem volta 
Diante das condições em que ficaram expostos, duas crianças indígenas morreram. É aqui, também junto aos índios ao lado de crianças que se esvaem por infecções, desidratadas, entre diarreias e vômitos que habita o outro flanco, deliberadamente não notado, dos suaves genocídios, dos cuidadosos etnocídios, dos encarceramentos protetores, acompanhados dos exercícios inclusivos e muita prisão, que se instalam em prédios, complexos, zonas, cidades, florestas, reservas, sertões, beiras de rio, igarapés, grandes cidades, ou num mangue, ou fim de esgoto sujo, onde cotidianamente é dado cabo de um corpo de criança ou jovem. Lá e aqui, onde pastam as moscas e os ratos.  
fim de feriado 
Domingo, 14 de outubro de 2012: mais duas favelas foram ocupadas no Rio de Janeiro num prosseguimento da chamada política de pacificação do governo estadual, com apoio do governo federal. Manguinhos e Jacarezinho são favelas do corredor de entrada do Rio que inclui a via expressa que liga o aeroporto internacional às zonas sul e central da cidade. A operação foi concluída às 10h da manhã, após rápida incursão das forças de segurança, sem tiroteio e com direito a hasteamento da bandeira do Brasil e hino nacional. As autoridades comemoraram mais uma “reconquista territorial” e sinalizaram para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora até o final do ano. Ficaram satisfeitas, também, com a lisura e eficiência da operação, finalizada a tempo de que os cariocas voltassem para casa do feriado nacional com calma e segurança.  
junto e misturado 1
Enquanto blindados da Marinha passavam por cima de rústicas barreiras deixadas nas entradas da favela e policiais militares ― com a tropa de elite na vanguarda ― entravam nas favelas de Manguinhos e do Jacarezinho, acompanhados por uma retaguarda composta por policiais civis da divisão antidrogas e assistentes sociais. Os policiais civis buscavam capturar traficantes e iniciar investigações que se desdobrarão depois da ocupação das favelas. Os assistentes sociais localizaram e recolheram ― com apoio 
da PM ― cerca de 80 usuários de crack, encaminhados para triagem e tratamento compulsório. A  pacificação de favelas é conduzida por uma coalizão civil-militar que inclui forças armadas, policiais militares, policiais civis, policiais federais e assistentes sociais. 
junto e misturado 2
Mas não só. Logo virão ― ou aumentarão sua presença ― ONGs e projetos sociais de empresas e o programa UPP Social da prefeitura do Rio, com serviços públicos bancados pelo município. Uma grande composição de forças voltada à integração e que produz modulações nos tráficos e ilegalismos que não cessam, mas que se redimensionam sob a aprovação geral de favelados, empresários, políticos, militares, ongueiros, todos de olho em novos negócios e dividendos políticos. 
pacificações: presos por ambos os lados 1 
Enquanto isso, no início da manhã dominical, uma das maiores empresas de difusão em informação do país e do planeta suspende sua programação habitual para transmitir cobertura  completa acompanhada de comentários do antropólogo  especialista em segurança pública, propalando os já conhecidos elogios ao sucesso das  operações complexas de pacificação. Derramando verborragia sobre o inaceitável, reitera o consenso sobre a internação de crianças e jovens revestidas do novo-velho termo de recolhimento. Reversos do mesmo. A prisão acolhida que corre solta pelas ruas e sobre a qual quase ninguém tem coragem de se levantar e dar um basta. 
pacificações: presos por ambos os lados 2 
O foco da ação complexa, na madrugada do domingo, dirige-se ao que nomeiam de zona periférica dos complexos, envolvendo “a nova cracolândia”. E isto muito longe de arranhar, também faz parte das contrapartidas da mesma lógica que se iniciou pelo acordo entre o PCC e Fernandinho Beira Mar para aval de entrada do  crack, o lixo reciclado da cocaína, no Rio de Janeiro. Sem acanhamento algum, a senhora especialista e autoridade responsável sobre os informes da Secretaria de Desenvolvimento e Ação Social, explicita que a prisão sempre começa por crianças e jovens ao distinguir que para adultos cabe o recolhimento e para crianças e jovens o recolhimento compulsório, e não há discussão.  
pacificações: presos por ambos os lados 3 
Distingue-se o que se reitera. Os já conhecidos argumentos do velho-termo de polícia, de qualquer traficante, ou seja, de qualquer capitalista: o sucesso da abordagem. Deseja-se manter inalterado o estado das coisas, e conservar intocada a continuidade da prisão para crianças e jovens no país, sob outros revestimentos do chamado  cuidado  com elas e de sua proteção integral, garantida também pelo que a encadeia na  cadeia: o sucesso da abordagem. Enquanto isso, neste momento, crianças e jovens estão presos. Seguem em cana entre abordagens, triagens, novos encaminhamentos, processos, julgamentos, tribunais, celas e escolinhas, programas, projetos... Isto se chama, também,  inclusão pelo aprisionamento, sob a ampliação do mercado complementar entre os chamados lícitos e ilícitos que não se apartam do mercado da proliferação de infindáveis direitos.

hypomnemata 148 - nu-sol


Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no. 148, setembro de 2012.
 livres em linhas de fuga
 livres, pussy riots
            Após Vladimir Putin anunciar sua candidatura às eleições presidenciais de 2012, no final do ano passado, um grupo de jovens mulheres russas criou oPussy Riot  grupo punk feminista cujas letras e performances atacam dispositivos da política Russa.
         Desde então, as pussy riots tomaram lugares simbólicos da história política do país tocando punk rock de letras contundentes e vestindo balaclavas e roupas coloridas.
Sobre os muros vizinhos do Centro de Detenção de Moscou elas gritaram:

a urgência da morte à prisão!

Dentro da estação central de metrô moscovita chamaram uma revolta popular.
Na Praça Vermelha, ao lado do Kremlin, saudaram a revolta russa que faz “Putin se mijar”.
Elas se apartam dos protestos-clamores em torno de ressuscitações de nacionalismos.
Lembrando uma história atravessada por lutas anarquistas cantaram o jorro da “Kropotkin – vodka” sobre o telhado de um café gran fino, enquanto simulavam masturbações na vitrine de uma butique luxuosa e interrompendo um desfile de moda na passarela.
Na Catedral do Cristo Salvador oraram a “Reza – punk: Virgem Maria, ponha o Putin para fora”.
         As garotas foram presas após quase todas essas apresentações, e soltas pouco tempo depois.
No começo de março, depois da apresentação da reza-punk, três integrantes do Pussy Riot  Nadezhad Tolokonnikova, Yekaterina Samutsevich e Maria Alyokhina  foram presas e permaneceram na prisão aguardando decisão judicial.
         As outras duas integrantes que também tocaram na Catedral escaparam da Rússia.
A escolha das garotas por atacar lugares políticos simbólicos é por um combate aos dispositivos de governo sacralizados.
Ao profanarem esses dispositivos elas produzem novas linhas de fuga.
         Por conseguinte, as três garotas, depois de 5 meses presas, foram condenadas a dois anos de prisão no dia 17 de agosto de 2012.
         A atenção da imprensa global sobre este caso aumentou na medida em que se aproximou a data do julgamento e foi impulsionada, em grande parte, pela manifestação de grupos em defesa dos direitos humanos como a Anistia Internacional, organizações feministas e lgbtt’s, e astros da música pop como Paul McCartney, Björk, Sting, a banda Red Hot Chilli Pepers e a cantora Madonna.
Ao clamar pela libertação das garotas, por eles consideradas “presas políticas” e vítimas de uma “política tipo stalinista”, em nenhum momento os pop stars e os grupos de defesa de direitos questionaram a existência da prisão enquanto dispositivo político inerente e imprescindível a qualquer Estado democrático ou ditatorial.
         As garotas mostraram que a sua prisão não se reduz a ataque específico ao Estado russo com relação à liberdade de expressão, mas sim ao roubo sistemático praticado por qualquer Estado.
Nadezhad Tolokonnikova, antes de adentrar ao tribunal com o braço esquerdo em riste, declarou à imprensa:
“Nós estamos na prisão.
É um sinal claro de que a liberdade está sendo roubada por toda a Rússia”.
         Chefes de Estado de vários países se declararam contrários à decisão do governo russo.
Diplomatas estadunidenses rapidamente se pronunciaram acerca do veredicto considerando o deferimento “desproporcional”.
         Enquanto isso, em frente ao consulado russo de Nova Iorque, mulheres e homens vestindo balaclavas coloridas foram presos pela polícia local.
Mais uma vez escancarou-se a imprescindibilidade da prisão enquanto dispositivo político inerente a qualquer Estado, desta vez, a partir do modelo da democracia estadunidense.
Além de Nova Iorque, no dia da condenação, protestos aconteceram em diversas cidades do planeta, com maior expressão em Berlim e em Moscou.
Nesta última, dezenas de manifestantes foram presos, entre eles, os integrantes de um grupo que escalou as paredes do tribunal e gritou “free pussy riot”, assim como o campeão de xadrez, Gary Kasparov, que mordeu a mão de um policial que tentava prendê-lo.
         Presas em um cubo de vidro, Nadezhad Tolokonnikova, Yekaterina Samutsevich e Maria Alyokhina riram constantemente durante todo o julgamento.
Elas se recusaram a pedir perdão ou assumir a culpa e de modo contundente responderam a quem pretendia perdoá-las:
 “que vá para o inferno como o seu perdão!”
Fora da prisão, outras integrantes do Pussy Riot compuseram a música “Putin acende o fogo”  escancarando que

as detenções não cessam as revoltas
e que quem as teme é o Estado e não o contrário.

         As pussy riots continuam na luta, profanando dispositivos, inventando novas linhas de fuga, escapando, por hora, de suas capturas.
Não foram pegas pelo investimento da imprensa nem demais instituições, pois ainda que estejam encarceradas, não participaram do tribunal, e permaneceram rindo: refutaram a culpa, o perdão e a desculpa.

f r e e        c      a     g   e
setembro de 2012, diversas homenagens foram organizadas para celebrar o centenário do compositor inventor libertário john cage.
em um de seus escritos liberadores, cage afirmou: algumas vezes você usa o acaso e outras, não. os cogumelos são uma dessas ocasiões em que você não pode usar o acaso porquê você corre o risco de se matar.
os cogumelos e a música, mushrooms and music, certamente foram duas das grandes paixões deste inventor nascido em 1912, na califórnia, eua, país onde nasceu mas que descobriu somente depois das leituras, na década de 1930, do poeta walt whitman.
happenings e concertos celebraram cage em seu centenário.
pouco se comentou acerca de seus escritos.
e foi precisamente nesses escritos que ele afirmou de maneira mais incisiva sua perspectiva libertária estética em sua própria existência.
inovadores, imprevisíveis, surpreendentes, refinados, enfim não faltam qualificativos aos seus livros.
neles está o pensamento do inventor para além da música, expondo seus ditos singulares acerca de ecologia, arquitetura, tecnologias avançadas, cogumelos, povos indígenas dos estados unidos, guerras, comunicação, filosofia oriental, entre outros múltiplos motes.
por meio da exposição da verve dos escritos do inventor estadunidense, poderíamos somar a isso tudo uma outra paixão sua, a anarquia.
escreveu nos anos 1960, em “fim de papo”, citando henry david thoreau que o melhor governo é o que não governa coisa nenhuma.
prosseguiu no mesmo ensaio, para enfim concluir:
se prestarmos atenção à prática de não-ser-governado, observaremos que ela está crescendo (...) a queima dos cartões de convocação. haight-ashbury;
a evasão de impostos. catorze mil americanos renunciaram à cidadania em 1966. desobediência civil;
não pagamento de impostos...
dez anos depois de “fim de papo”, ao articular anarquismo e música numa conferência em nova iorque, analisou sob perspectivas anarquistas de educação libertária e do antimilitarismo que existem recursos intocados em crianças e adolescentes, aos quais não temos acesso porquê os mandamos para a escola; e entre os militares, que perdemos por mandá-los para lugares ao redor do mundo, e sob sua superfície, para instalações ofensivas de testes de bombas.
se a escritura de cage foi pouco comentada durante as comemorações de seu centenário, menos ainda se falou sobre o anarquismo singular deste homem que quando veio ao brasil, envolveu-se com as agitações libertárias em plena ditadura civil-militar.
em 1968, participou de um encontro realizado no rio de janeiro.
o libertário pietro ferrua recordou que o convidou para falar sobre anarquismo depois de conhecê-lo na casa da compositora jocy de oliveira.
ferrua combinou de ligar no dia seguinte para cage.
contudo, como relembrou posteriormente, conseguir uma linha de telefone no final dos anos 1960, no brasil, podia resultar em mais de duas horas de espera na fila.
cage aguardou a ligação em vão.
todavia, os libertários descobriram o endereço em que ele estava hospedado e enviaram um carro para buscá-lo.
no encontro, cage falou sobre paul goodman e revolução não-violenta associando-a com a utilização de novas tecnologias, irritando alguns sindicalistas presentes.
quando começou a dizer sobre sua paixão pelos cogumelos foi interrompido por um provocador, provavelmente infiltrado, que se levantou e disse que a plateia esperava dele a receita de uma revolução e não aquela culinária.
recebeu como resposta do inventor libertário a seguinte pergunta: como vocês querem fazer uma revolução se os telefones não funcionam?
ao despedir-se de cage, pietro ferrua convidou-o a escrever algo sobre anarquismo para ser divulgado como propaganda libertária.
o inventor anarquista replicou afirmando que no percurso de seus textos já havia passagens recorrentes sobre o seu libertarismo.
vinte anos depois, escreveu o livro anarchy, composto por mesósticos dedicados a kropotkin, tolstoi, emma goldman, thoreau, entre outros libertários.
2012: centenário de john cage.
no momento em que certos jovens articulam-se nas chamadas “marchas” que reivindicam desde a denominada “democracia real” e a legalização do uso de substâncias consideradas ilegais pelos governos, podemos recuperar suas afirmações de desmilitarização da linguagem e abolição da comunicação.
precisamos de uma sociedade na qual a comunicação não seja praticada, na qual as palavras se tornem nonsense, assim como acontece entre amantes.
hoje, enquanto militantes saudosistas se alojam por trás de léxicos do século XIX, ecologistas radicais defendem o primitivismo diante da utilização das tecnologias, chefes de estado negociam políticas em nome do “futuro”, acompanhar o movimento liberador dos escritos de cage, free cage, é ainda mais urgente.
distanciando-se dos consolos e tristezas utópicas, cage instigou a anarquia como experiência em movimento.
desde o final da segunda guerra mundial, as movimentações políticas que explodiriam nos anos 1960, já eram anunciadas por certos libertários estadunidenses. paul goodman, participara na segunda metade dos anos 1940, da publicação libertária why? e de encontros com refugiados da revolução espanhola na sede da SIA (solidariedade internacional antifascista). julian beck e judith malina, inventavam em 1947, o living theatre. nesse mesmo instante cage combinou em sua escrita libertária as práticas de liberdade de thoreau com a de libertários como emma goldman . ultrapassando os embates do século XIX e início do XX, ainda incorporou em suas afirmações as experiências estéticas propiciadas por invenções de alta tecnologia. deste modo inventou um anarquismo singular, interessado em embates desvelados no presente.
se a gente ‘pensa’ de modo fixo, imóvel, sobre o ‘quando os homens estiverem preparados para isso’ esse ‘quando’ parecerá sempre inatingível.
Para além das comemorações o vital é cage free, now!