terça-feira, 6 de julho de 2010

CÃO SEM DONO

Não sei de onde é que vem essa história de que cão deve ter dono. Mas muitas pessoas entendem que deva ter.
Sou mais afeita aos bichos da liberdade... aos pássaros... aos precisos e imperceptíveis gatos (mas eu cá e eles lá)... aos cães de rua... e por aí vai! E não me venham com o discurso sanitarista de que os cães de rua propaguem sujeira e doenças... nunca vi um cão de rua desembrulhando qualquer coisa para comer e depois jogar o papel ou o plástico ao léu; ou largando lixos pela janela do carro (até porque eles não dirigem por não usarem carros e, assim, não poluírem o ambiente); ou outros quetais que são tão bem praticados pelas gentes que se acham tão longe da existência nas ruas.
Confesso que não tenho propriamente afeição por cães. Acho de uma estultice sem tamanho, pessoas que gastam com bobageiras para cães, o que daria para alimentar ou beneficiar muitas gentes. Talvez o que me causa incômodo, é o teatro de sujeição que os humanos (muitas vezes desumanizados) encenam com os cães, como se houvesse um modo de subjetivação canino que fosse feito para “assujeitá-los” aos bondosos “donos”... e quando os miseráveis não se “assujeitam”, ninguém consegue entender o que o tornou “tão agressivo com o próprio dono”.
Bueno, estava eu habituada a tecer meu teatro com os pássaros... os danadinhos preferem quirera de arroz à quirera de milho... mas tem uma espécie que vem aqui em casa só para comer as folhas do mamoeiro... outra que vem catar as minhocas da terra fértil da horta... a corruíra vem comer os bichinhos e as teias de aranha das paredes... e o joão-de-barro vem catar a terra fértil para construir sua morada (fico toda-toda, pensando que a terra fértil que alimento com restos orgânicos seja apropriada à construção da morada do joão-de-barro). Fiquei toda-toda quando mudei de casa, deslocando-me 40 metros e os pássaros acompanharam a mudança. Tive espamos enfurecidos com o gato-preto que transita no pátio, quando comeu os filhotes da corruíra. Vivo em contenda com as lesmas. Troco a água-doce dos beija-flores. Coisas assim-assim.
Até que minha vida teve um rodopio incontrolável no dia de hoje. Cheguei do trabalho ao meio-dia e eis que alguém se desvencilhara de uma cadelinha, deixando-a na calçada de casa. Mas quando cheguei, ela já não estava com cara e nem com jeito de que fora rejeitada (nem sei se teve essa cara)... já era uma linda e formosa dama, dona da situação. Recebeu-me com cara de quem sabe quem está chegando em casa. Abanou o rabinho. Sentou nas patinhas traseiras. Andou ao meu lado e depois retornou ao lugar que escolheu para seu território, no alto da escada de entrada da casa. Veio adornada, com um colarzinho e um pingente. Cheguei a pensar que tivesse se desgarrado de seus “donos” e que logo voltaria ao seu “lar”. Passei o intervalo do meio-dia absolutamente conflituada... dou ou não dou água e comida... chamo ou não chamo socorro dos amigos cachorreiros... acolho ou não acolho.
Ao sair, no início da tarde, já estava em duvida se queria ou não queria que ela tomasse seu rumo... ao fechar o portão (pelo qual ela pode transitar livremente entre as grades, mas não o faz) olhei em seus olhos e pensei: tomara que seus “donos” a encontrem e ela ficou me olhando com cara de quem diz “vai tranqüila que eu ficarei aqui, comportada!”, estatelou a barriga no chão e largou a fuça sobre as patinhas dianteiras. Pensei: que fazer com tamanha simpatia?
À tarde, estava em atendimento clínico e quando deu um intervalo, a primeira coisa que me saltou à lembrança, foi a cadelinha! Liguei para o Canil Municipal e a moça que atendeu informou que não podem levar filhotes ao Canil, em função das zoonoses lá infiltradas e que eu deveria cuidar do bichinho até a realização da feira para doação. Achei muito engraçado, porque não consegui dizer a ela que não teria como cuidar, pois além de não contar com espaço físico para tal, não há lugar para um cachorro em minha vida!
O mais engraçado é que me bateu um desespero como se eu não tivesse saída para a situação... como se não fosse encontrar ninguém que a quisesse ou alguma alternativa que não seja adotá-la!
Quando retornei no final da tarde, a danadinha estava mais territorializada ainda e seu cocô e xixi formavam a demarcação do mapa, inclusive sobre os capachos! Não consegui ficar incomodada com isso e, num repente, flagrei-me pensando num nome bonito pra ela.
Ainda atendi meus pacientes no consultório e depois tive que arrumar água, comida e cama pra donzela que já havia feito mais cocô e xixi, tendo diarréia depois de comer.
Agora estou aqui, nesse clima de encantamento com essa bruxinha linda e simpática... mas estou assim-assim, ainda sem lugar para um cão em minha vida e ela ali, demarcando território físico e também em meu imaginário... sem contar que quando ouvi seu latido de cachorro-bebê, tive uma alegria tão boba que quase me convenci a arredar alguma coisa em minha vida, para dar espaço pra ela... talvez a beleza não vá pra feira de doações... talvez!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Poetagens Alheias - Nada de novo

Nada de novo - de Ricardo Miyake (19/07/2008)
Esta cidade de veias escuras
Arrasta consigo pessoas idem:
Apenas uma e outra ainda riem
Mas não sabe de quê, ou quem.
Nem por quê. Acresce levarem
Junto ao corpo os farrapos
Do que um dia foram e seus olhos
Mirarem um ponto além ou aquém,
Mas estão sempre felizes,
E isso, ao cabo, é o que sobra
Depois do esforço cotidiano
De se arrastar em ônibus cheirando a vômito
Em troca de um feijão com arroz pastoso
E gente mais ou menos igual.

O dia nasceu há pouco, e o sol
Promete mais odores de dentro dos esgotos.
Mas nada há de novo:
Pessoas, cidade, feijão, arroz e vômitos
Têm todos precisamente o mesmo gosto.

domingo, 4 de julho de 2010

Dedicatória

Dia desses, encontrei jogado numa lixeira qualquer da existência (e não sei quem jogou, nem porque o fez), um livro do Fabrício Carpinejar, chamado “O Amor Esquece de Começar”. Tomei o livro para mim, pelo título e por uma dedicatória de que gostei.
A dedicatória diz assim: “O que dizer a uma mulher que exala poesia por todos os poros?... Que tem o poder de transformar o cinza em azul... E que diz, sem palavras, tudo o que quero ouvir...
Apenas, que o Amor esqueça de terminar... L.
*... e que ela iluminou a minha escuridão, quando já cansada da noite...
18/01/07”.
Por um instante quis ser essa mulher que exala poesia por todos os poros e que tem o poder de transformar o cinza em azul, dizendo, sem palavras, tudo o que alguém queira ouvir.
Por um instante quis ser essa mulher que encontra alguém cansado da noite, para iluminar-lhe, com minha luz, sua escuridão.
Só por um instante quis sentir essas coisas, depois achei melhor permanecer apenas literária, na cor que se queira estar e sendo apenas luz.
Mesmo temendo encontrar o mesmo que a pessoa que acabou por jogar o livro na lixeira, guardei-o na estante, pensando que assim como o acaso do encontro com a lixeira me fez encontrar o livro, talvez possa encontrar quem possa dedicar palavras e atos bonitos que não levem um livro e nem uma vida para a lixeira da existência, e que não sejam apenas uma dedicatória ou que possa deixar o outro nesse estado descrito por Carpinejar: “Quando estamos sozinhos, somos pela metade./ Quando somos dois, somos um./ Quando deixamos de ser um dos dois, não somos nem a metade que começamos a história”!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

DIVULGAÇÃO: E o gol se tornou apenas um detalhe

E o gol se tornou apenas um detalhe - Por Camila Souza Ramos e Glauco Faria
O futebol como conhecemos hoje, com as regras gerais que permaneceram basicamente as mesmas ao longo de sua história, já tem mais de cem anos. Mas a sua importância econômica, a capacidade agregadora e a incrível gama de interesses que envolvem a modalidade atualmente não lembram em nada as primeiras partidas disputadas em campos a céu aberto. Esporte mais popular do mundo, ele se constituiu em um mercado que movimenta aproximadamente US$ 250 bilhões por ano e seu desenvolvimento acompanhou momentos históricos de muitos países. Não é à toa que o seu atual estágio esteja tão intimamente ligado à globalização econômica e financeira intensificada a partir da década de 1990.
Está longe de ser exagero ou saudosimo dizer que o futebol mudou muito nas últimas três décadas. O esporte chegou a lugares onde antes não era popular, como a Ásia e mesmo os EUA. Mas existe um dedo brasileiro nessa mundialização da bola. Para o bem, segundo muitos, e para o mal, para outros tantos. João Havelange foi durante 24 anos presidente da entidade máxima do futebol, a Fifa. Sua própria eleição, em 1974, foi possível graças às promessas de retirar da Europa o poder central das decisões que vigorava até então. Assim, conseguiu apoio da América Latina, da África e também de países dissidentes que antes apoiavam o então presidente e candidato à reeleição Stanley Rous. Em sua campanha, apoiou a reintegração da China ao órgão, mesmo contrariando, segundo ele, recomendação do ministério das Relações Exteriores do Brasil, em plena ditadura militar.
Mas claro que nem essa posição pró-chineses nem sua busca por aliados entre os países em desenvolvimento significava qualquer posicionamento ideológico à esquerda ou algum sentimento de justiça que tentasse trazer mais igualdade ao mundo da bola. Era uma estratégia de poder, e essa era bastante dispendiosa. Para satisfazer sua base de apoio, Havelange se comprometeu a ampliar o número de participantes da Copa do Mundo, de 16 para 24 já em 1978, o que gerava novos gastos tanto para as eliminatórias como para o próprio Mundial.
Nesse momento, segundo o livro Como eles roubaram o jogo, de David A. Yallop, surge a figura de Horst Dassler, presidente da Adidas que, a princípio, tinha se oposto à eleição do brasileiro ao cargo máximo do futebol. No entanto, no mundo dos negócios e da política as inimizades –e as amizades – não são eternas...
Para viabilizar não apenas o aumento de participantes do Mundial, mas também a concretização de outras promessas como competições envolvendo seleções das categorias de base, era necessário aumentar o aporte financeiro da Fifa. Dassler, considerado um dos precursores da concepção de esporte como negócio, uniu-se ao inglês Patrick Nally, profissional de relações públicas, e juntos tornaram-se líderes na área do marketing esportivo, ajudando a Fifa a conseguir o dinheiro de que precisava. E mais do que precisava.
O presidente da Adidas costumava buscar os grandes atletas do planeta para exibir sua marca. Mas na década de 70 já descobrira que era mais interessante ir diretamente às federações e confederações esportivas, e a Fifa obviamente poderia ser a mais valiosa delas. Junto com Nally, trouxeram o patrocínio da Coca-Cola para a Copa de 1978 e até hoje a empresa continua “parceira” do evento, com contrato até 2022. Começava a se robustecer ali o futebol como negócio. As Copas de 78 e 82, as duas primeiras realizadas sob os auspícios de Havelange, renderam US$ 78 milhões e US$ 80 milhões, respectivamente. Já o último Mundial sob comando do brasileiro na Fifa, em 1998, com 32 seleções participantes, gerou um faturamento de US$ 4 bilhões, um crescimento de 50 vezes em 24 anos.
Havelange deixou como legado um futebol mundializado: hoje, a Fifa tem 208 filiados, resultado direto da sua política expansionista. É mais do que o número de membros da Organização das Nações Unidas (ONU), que tem 192 países membros. Isso ocorre porque a entidade futebolística reconhece possessões e colônias como a Guiana Francesa e nações como a Palestina. De novo, o interesse passa longe de questões humanitárias; basta lembrar que operadoras de cartão de crédito têm procedimento semelhante, “reconhecendo” países que não existem para facilitar seu modus operandi. Talvez não seja mera coincidência.
O mercado de “pé-de-obra” - A globalização da bola e do dinheiro também tornou mais banal a transação de atletas entre equipes de todo o mundo. Atualmente, a Fifa estima que entre 20 e 30 mil jogadores já tenham saído de seus países para tentar a sorte em lugares que inclui países como o Vietnã (destino de 34 atletas brasileiros entre janeiro e outubro de 2009) e os grandes centros europeus). E as somas envolvidas nas transações cresceram de forma exponencial nas últimas décadas.
O jornal espanhol Marca fez um levantamento sobre a evolução dos valores das transferências de craques da bola, partindo da negociação de Johan Cruyff em 1973. O astro da Laranja Mecânica, a seleção holandesa de 1974 que revolucionou a tática no futebol, foi do Ajax para o Barcelona pelo valor atualizado de 360 mil euros. Nove anos mais tarde, a ida do craque argentino Diego Maradona para o mesmo Barcelona daria aos cofres do clube portenho a soma de 7,2 milhões de euros, 20 vezes mais do que o valor do capitão holandês. Já em 2009, a negociação envolvendo Manchester United e o Real Madrid selaria a maior transação na história da modalidade: 94 milhões de euros pelo português Cristiano Ronaldo.
Embora tais transações entre países existam desde antes da profissionalização do esporte (no Brasil, Arnaldo Porta saiu de Araraquara para jogar pelo Verona, da Itália, em 1914), o movimento se intensificou e tomou ares de grande negócio a partir das décadas de 70 e 80, quando os países europeus começaram a derrubar suas restrições a estrangeiros nas ligas nacionais.
O jornalista Paulo Vinicius Coelho, o PVC, em seu livro Bola Fora – A História do Êxodo do Futebol Brasileiro (Panda Books), conta que, em 1974, a Espanha passou a permitir dois estrangeiros por clube, independentemente de eles terem ou não ascendência espanhola. Isso fez com que jogadores como os palmeirenses Luis Pereira e Leivinha migrassem para os gramados espanhóis. Outro importante mercado, o italiano, fechado para atletas internacionais desde o fiasco da seleção local na Copa de 1966 (quando foi derrotada pela Coreia do Norte), reabriu em 1980, permitindo um estrangeiro por clube. Assim, o meia Falcão foi tornar-se o “Rei de Roma”, abrindo caminho para outros brasileiros, favorecidos por mais uma abertura na Itália e na Espanha depois de 1982, quando passou a se permitir três estrangeiros por clube.
No biênio 1983/1984 o Brasil viu jogadores com carreira consolidada na seleção brasileira irem para a Itália, como Zico e Sócrates, mas na segunda metade da década aumentou o número de países que passaram a recrutar o “pé-de-obra” brasileiro. Mirandinha foi o primeiro brasileiro a jogar na Inglaterra em 1987; Romário foi para o PSV da Holanda em 1988, enquanto o zagueiro Júlio César, titular da seleção de 1986, se transferiu para o Brest francês logo depois da Copa.
No entanto, o caso do jogador belga Jean Marc Bosman modificaria o cenário das transferências de atletas no futebol. Após ter seu contrato encerrado com o Liège, da Bélgica, o meia anunciou que iria se transferir para o Dunkerke, da segunda divisão francesa, mas foi impedido porque o seu vínculo – ou passe – ainda pertencia ao Liège, que exigiu € 600.000 pela cessão. O atleta recorreu à Justiça reivindicando para si a aplicação da lei que permitia aos cidadãos do continente trabalhar em qualquer país da Comunidade Europeia sem restrições. Em dezembro de 1995, o Tribunal de Justiça Europeu deu razão a Bosman, em uma decisão que criava jurisprudência tornando ilegais as indenizações por transferência de jogadores e as cotas que limitavam o número de atletas comunitários.
Desde então, qualquer jogador que tenha passaporte comunitário pode atuar livremente nos países da Comunidade Europeia, o que beneficiou o fluxo de atletas para o Velho Mundo. Aqui, a Lei Pelé adaptou a legislação brasileira à realidade do fim do passe em 1998. Os números mostram que a queda de barreiras aumentou e muito a transferência de boleiros para o exterior. Em 1995, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) registrou a saída de 254 jogadores e, em 2009, de 1.017. Pode-se dizer que a crise econômica ajudou o país a manter alguns de seus valores aqui já que, em 2008 o êxodo foi ainda maior que no ano passado, com 1.176 brasileiros tentando a vida em outros países.
“O Brasil produz muitos jogadores e o mercado interno não consegue absorver. Outro fator que influencia para que saia é o fato de que nem sempre o jogador tem a mesma possibilidade de ascensão social que o futebol permite em outras profissões, diferentemente do que ocorre em outros países que têm mais estrutura”, explica Oliver Seitz, PhD em Indústria do Futebol e primeiro brasileiro a lecionar no curso "Football Industry", da Universidade de Liverpool.“Além disso, começaram a se desenvolver nos anos 90 mercados que não existiam antes como o Japão, os EUA, o Leste Europeu etc. O desmembramento da União Soviética, por exemplo, fez com que novos países precisassem formar suas ligas nacionais e, para buscar jogadores, Brasil e Argentina possuem marcas muito fortes no futebol mundial”.
Essas condições favoráveis fizeram da saída de atletas um importante item na pauta de exportação brasileira, gerando, segundo dados do Banco Central, US$ 1,199 bilhão para o país entre 1993 e 2007. Contudo, o perfil do negócio começou a mudar nos últimos anos: enquanto em 2005 as 804 transações realizadas para o exterior renderam US$ 159 milhões, 1.085 atletas saíram do país em 2007, mas foram então movimentados apenas US$ 49,8 milhões, menos de um terço do montante de dois anos antes. Uma das possíveis explicações para isso é a saída de atletas com cada vez menos idade, às vezes antes de chegarem a jogar no time profissional, o que envolve valores menores do que as negociações de jogadores já consagrados.
“Em breve, será muito difícil ver aqui jogadores surgindo e encerrando a carreira no mesmo clube, como o Maldini no Milan, que passou mais de 20 anos num só time; Raul no Real Madrid ou Totti na Roma”, acredita Gian Oddi, editor-executivo do portal IG. “Os brasileiros vão sempre ser exportadores, a questão é em que momento exportar, pois é lamentável ter que fazer isso com jogadores de 17, 18 anos. Talvez a opção melhor fosse reter para ganhar mais dinheiro no futuro”, pondera.
Agentes e negócios subterrâneos - Para muitos, os jogadores de futebol saíram das mãos dos cartolas para entregar suas carreiras aos agentes ou empresários responsáveis pela intermediação das transferências. Os jornalistas Claudia Silva Jacobs e Fernando Duarte, no livro Futebol Exportação (Editora Senac Rio) descrevem a que ponto chegou tal influência: “Hoje, há atletas da categoria infantil com representação. O aumento dos agentes não foi apenas de importância: a comissão cobrada dos clientes pode chegar a 50% nos casos de empresários mais gananciosos”.
Um dos exemplos de sucesso no meio é Wagner Ribeiro. Uma matéria da edição n° 13 da revista Piauí mostra um pouco da trajetória do empresário, que iniciou a sua carreira transferindo o atacante França do XV de Jaú para o São Paulo. Adquiriu os direitos federativos do atleta por 2,5 milhões de reais e, apenas quatro dias depois, revendeu ao clube do Morumbi por 4,6 milhões. O diretor-financeiro do clube, Paulo Amaral, disse à época que não sabia do “pormenor”, um dos lucros mais espetaculares de um agente em tão pouco tempo.
Ribeiro é também empresário de um dos garotos-sensação do Santos, Neymar, hoje com 18 anos. Ele já havia tentado, em 2005, cuidar de sua mudança para a Europa. Voou para a Espanha a convite do Real Madrid, junto com o pai e o menino, e durante vinte dias Neymar marcou 26 gols pelo juvenil do time. O fato propiciou uma oferta de 3 milhões de dólares e o time madrilenho teria chegado a arrumar um emprego de mecânico para o pai de Neymar, na montadora que patrocina a equipe, para justificar a mudança da família (a assinatura de um contrato profissional com essa idade era impossível). Por pouco Neymar não teve uma trajetória semelhante à do argentino Lionel Messi, titular do Barcelona que jamais chegou a atuar profissionalmente em uma equipe do seu país natal, jogando desde os 13 anos no clube catalão.
Em vista disso, já foi proposta e tramita no congresso uma alteração na Lei Pelé que cria mecanismos como o aumento do repasse de recursos para os clubes formadores dos atletas, que vale tanto para o futebol quanto para as modalidades olímpicas. Para as transferências que ocorrerem dentro do território nacional, passa a ser oficializado o “mecanismo de solidariedade” vigente em negociações para o exterior, que equivale a 5% do valor pago nas transferências de um jogador de futebol direcionado aos clubes formadores. Outro ponto é a proibição de empresários em manter vínculo com jovens de 14 a 19 anos. De todo modo, o Ministério Público Federal também está de olho na questão e instaurou um inquérito civil público para apurar o aliciamento ilícito de atletas profissionais e amadores de futebol no Brasil para o exterior.
E é claro que um negócio lucrativo e que cresceu tanto nos últimos anos como a transação de atletas de futebol também atrai outro tipo de problema. De acordo com o relatório do Grupo de Ação Financeira da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado em julho de 2009, "os clubes de futebol são vistos internamente por criminosos como os veículos perfeitos para a lavagem de dinheiro". O documento descrevia um caso em que os investigadores obstruíram uma tentativa de lavagem de dinheiro por meio da compra de um clube italiano com dinheiro supostamente fornecido por uma associação criminosa da Itália.
“O que existe é uma selva e essa é a lei que impera. Não há controle, são transferências internacionais e privadas, portanto, fora do alcance dos governos. Decidimos que cabe à Fifa realizar esse monitoramento”, dizia o relatório da OCDE. Durante muito tempo, mesmo com transações envolvendo cifras milionárias, as negociações se davam com troca de faxes e em muitos casos isso ainda ocorre. Isso propiciou inúmeras negociações fraudulentas, muitas vezes envolvendo jogadores imaginários. Agora, a Fifa está implantando um sistema de transferência eletrônica que exige, entre outras coisas, a obrigatoriedade de que o dinheiro envolvido em uma transação de atleta seja depositado em conta bancária.
A telecracia no mundo da bola - “Hoje em dia, o estádio é um gigantesco estúdio de televisão. Joga-se para a televisão, que oferece a partida em casa. E a televisão manda.” É assim que o escritor uruguaio e fã de futebol Eduardo Galeano, no livro Futebol ao Sol e à Sombra, comenta o fato de os times terem que jogar ao sol do meio-dia na Copa do México em 1986, para adequar os horários ao maior mercado consumidor da modalidade, a Europa. Aliás, segundo Como eles roubaram o jogo, de David A. Yallop, esse foi um Mundial em que a participação da televisão havia alcançado outro patamar.
A sede inicial para a Copa de 1986 seria a Colômbia, que ganhou a indicação em 1974. No entanto, uma comissão da Fifa enviada ao país para analisar toda a infraestrutura necessária para o evento vetou a realização. O México, concorrendo com os EUA e Canadá, conquistou uma indicação que lembrava um jogo de cartas marcadas. O motivo era o interesse de Emilio Azcarraga Milmo, magnata das comunicações e dono do sistema Televisa mexicano, um dos maiores conglomerados de comunicação do mundo. Segundo Yallop, João Havelange, então presidente da Fifa, teria relações estreitas com Azcarraga, que vislumbrou que o futebol poderia ser um espetáculo midiático muito antes dos dirigentes da bola, tanto que adquiriu o América local, hoje um dos clubes mais fortes do país, em 1959.
Por fim, a Colômbia foi desclassificada por “não ter condições” de sediar a Copa, de acordo com uma comissão da Fifa. O México superou EUA e Canadá e sediou a Copa de 1986. A Televisa foi responsável pela transmissão e a União Europeia de Televisão desembolsou mais de 30 milhões de dólares pelos direitos de retransmissão do evento. Segundo Yallop, Havelange, quando questionado sobre ter alguma ligação financeira com Azacarraga, negou, para completar em seguida: “Se eu resolvesse estar financeiramente ligado, isso seria inteiramente legítimo”. Calcula-se que, para a Copa de 2014, no Brasil, aproximadamente US$ 2,2 bilhões serão faturados com a venda de direitos de transmissão.
A televisão também foi essencial para a recuperação do campeonato inglês, abalado pelo domínio dos hooligans nos estádios. Os times da terra da Rainha chegaram a ser banidos da Europa após a morte de 39 torcedores no Estádio Heysel, na Bélgica, na partida Liverpool e Juventus, final da Liga dos Campeões da Europa em 1985. Mas em 1992 surge a Premier League e a venda dos direitos de transmissão passou a ser feita diretamente pelos clubes, que concederam os direitos à Sky TV. O acordo inicial, fechado em 191 milhões de libras por 5 anos, saltou para 1,97 bilhão de libras para transmitir os jogos das temporadas 2010/2011 a 2012/2013.
Mas nem tudo são flores no negócio inglês. Os jogos não são transmitidos pela TV aberta e mesmo para passar os melhores momentos de uma partida ou os gols, as emissoras precisam pagar, como fez a BBC no pacote 2007-2010, desembolsando 188 milhões de libras pelos resumos dos jogos. E se muitos reclamam da influência da Globo, detentora dos direitos de TV do campeonato brasileiro, e que influencia nos horários e dias de jogos quase a seu bel prazer, lá é muito pior. “Na Inglaterra, a ingerência é muito maior, há até jogos disputados pela manhã porque precisa passar para a Ásia”, conta Oliver Seitz.
A gestão do “país do futebol” - Quem comparar os direitos de transmissão do campeonato inglês com o do Brasil, dito país do futebol, vai se deparar primeiro com a diferença financeira entre os dois. A Rede Globo garantiu o torneio brasileiro pelo triênio 2009/2011 por R$ 400 milhões anuais, o que não chega a 20% do valor da Premier League. Como a emissora adianta o pagamento de cotas de televisão para clubes endividados, eles acabam se tornando reféns, e o grupo da família Marinho tem sempre a preferência de cobrir qualquer proposta maior que a sua. Ou seja, participa de um leilão em que sabe o lance do adversário.
O êxodo de atletas também contribui para que o valor da competição não chegue a níveis mais altos, assim como dificulta sua venda para outros países. “O Brasil tem mais dificuldade para globalizar porque os melhores jogadores não jogam aqui. O grande mercado consumidor da Ásia ainda é afetado por conta do fuso horário, já que o valor de um jogo ao vivo é muito maior do que um gravado. Há ainda uma questão cultural, já que os asiáticos olham muito para a Europa em termos culturais, uma relação que não acontece com o Brasil”, esclarece Seitz.
Mas é na distribuição dos recursos oriundos das cotas de televisão que se mostra uma diferença fundamental na forma como os clubes ingleses e os brasileiros veem a gestão do futebol. Na Inglaterra, o dinheiro é distribuído da seguinte forma: 56% é partilhado igualmente entre os 20 clubes da competição, 22% de acordo com a performance e outros 22% segundo a audiência televisiva e o número de jogos transmitidos. Já no Brasil, existe um modelo que perpetua as desigualdades entre os clubes: são quatro grupos distintos, sendo que quem recebe mais ganha quase o dobro de quem recebe menos.
“Lá eles querem diminuir a diferença entre o que ganha um clube grande e um pequeno. Sou totalmente favorável a isso, mas seria voto vencido por conta dos interesses dos grandes clubes daqui”, sustenta Amir Somoggi, diretor da área Esporte Total da Crowe Horwath RCS. “As ligas americanas como a NBA dividem de forma igualitária o dinheiro dos direitos de transmissão, é como se aqui o Atlético-GO e o Flamengo ganhassem o mesmo. O Flamengo jamais aceitaria isso, mas a Liga lá faz isso para trazer um equilíbrio financeiro que traz um equilíbrio esportivo para a competição. Tirando tal receita, as demais, provenientes de estádios e de marketing, fazem com que os grandes faturem muito mais do mesmo jeito, portanto, uma divisão mais igualitária seria bom para eles e para o próprio campeonato, já que é interessante que clubes menores também tenham uma força grande na luta pelo título”, garante.
Talvez justamente a busca de receitas seja um dos pontos que mantém essa situação inalterada. Em 2009, os contratos de transmissão dos jogos geraram 27% das receitas obtidas pelos 21 maiores clubes brasileiros, enquanto 21% se relacionou com a venda de atletas para o exterior (em 2008, esse índice foi de 28%). Os dados da Casual Auditores mostram um início de diversificação de receitas, o que pode ser uma tendência no futuro. “Os valores dos patrocínios aumentaram de 7 a 8 vezes desde 2003. Paralelamente os clubes, com a chegada do Ronaldo, passaram a repatriar alguns grandes ídolos, como o Santos fez com Robinho, por exemplo. Esse movimento atrai mais atenção para os clubes e potencializa a atração de patrocinadores”, explica Eduardo Generoso, presidente da empresa de marketing esportivo ESM (Entertainment Sports Management).
Para Amir Somoggi, os clubes brasileiros precisam atentar para três pontos em especial para melhorar seu potencial econômico e diminuir o fosso que os separa dos europeus. “Primeiro, a receita de bilheteria, é preciso parar de vender bilhete para um jogo só e criar um ambiente de consumo, tornar a receita mais ampla vendendo uma série de partidas. Outro ponto são as receitas de marketing, que vão além do patrocínio de camisa, e a receita de mídia tem que ir além da televisão, é necessário trabalhar novas mídias como redes sociais e telefonia móvel”.
Ele também faz ressalvas sobre uma fórmula que vem sendo adotada por alguns clubes e que prejudica o torcedor: o aumento abusivo do valor de ingressos. “Cada clube tem seu perfil, mas uma coisa é certa: a variável do preço de um ingresso deveria ser a última a ser mexida. O que falta é entender que ter 50 mil pessoas em um único jogo pode ser bom, mas é necessário trabalhar para ter 50 mil em todas as partidas e existe uma gama enorme de receitas que podem ser geradas em jogos. Os clubes do Sul, que trabalham com a ideia do sócio-torcedor, tendem a longo prazo a ganhar mais dinheiro que os do Sudeste.” Provavelmente ainda vai demorar para o futebol daqui se equiparar aos mais ricos do mundo, mas isso pode ser uma estratégia de sobrevivência para um esporte que já teve muito mais identidade com o brasileiro do que tem hoje. - Camila Souza Ramos e Glauco Faria

quinta-feira, 1 de julho de 2010

DIVULGAÇÃO: Jornada dos 20 anos do Curso de Psicologia - UNIJUÍ

Dia desses, sofri um imenso e bobo susto. Recebi um email de divulgação enviado pelo Luciano Metztorf, que é o Secretário Executivo do Departamento de Filosofia e Psicologia - Campus Ijuí, da UNIJUI, convidando para a Jornada de comemoração dos 20 anos do Curso de Psicologia da UNIJUI.
O susto se deu porque fiz a Graduação em Psicologia, na UNIJUÍ, tendo entrado na primeira turma e, com esse convite, percebi que vinte anos se passaram!
Reconheço que apesar de muitos tropeços e dificuldades, estou muito contente com o que produzi no decorrer desse tempo, assim como, com o percurso-devir que se anuncia para o pra frente.
Demorei quase sete anos para concluir o curso. Segui a trilha dedilhada por Deleuze e Guattari, apesar de ter tomado, por algum tempo, outros caminhos teóricos, mas me demorei por mais tempo do que o formal, por desencontros existenciais e por essa trilha que, como diz François Ewald: "Você quer fazer psicologia? Deleuze e Guattari dizem: aprenda história, percorra as grandes formações da história universal - "selvagens, bárbaros, civilizados" -, espolie a biblioteca do arqueólogo, do etnólogo, do economista, empanturre-se de literatura e de arte, estão aí as disciplinas que relatam, no seu conjunto e na diversidade, as produções de desejo". Escrafunchar a biblioteca da universidade, foi uma das tarefas mais gostosas do tempo demorado em que por lá andei. Boa parte de minha formação teórica vem desse rico tempo de estudos, pesquisas e convivências na UNIJUÍ.
Relembro uma certa acusação de ortodoxia psicanalítica que pesava sobre a proposta do curso, na época, e gosto de dizer que isso foi fundamental para a boa formação que tivemos e para podermos, também, ter tranquilidade para buscar, escolher e construir outros referenciais!
Talvez não possa estar lá para essa comemoração, mas grafo o momento bonito dessa história que todos nós fizemos!
Informações completas e inscrições pelo site www.unijui.edu.br/dfp - Fone: (55) 3332-0427 - 9165-1655

DIVULGAÇÃO: 10 ANOS COM MAFALDA

10 ANOS COM MAFALDA - QUINO
"Não importa o que eu penso da Mafalda, mas sim o que a ela pensa de mim." - Julio Cortázar
Neste álbum aparecem todas as tiras da Mafalda produzidas por Quino durante os dez anos em que manteve viva sua mais famosa criação. Aqui as historietas são ordenadas por temas: a família, a escola, a rua, assim está o mundo, etc., o que pode facilitar sua exploração na escola. Na introdução a este retrato completo da polêmica menina argentina, encontra-se uma comovente e reveladora entrevista concedida por Quino ao jornalista italiano Rodolfo Braceli.
Editora Martins Fontes

quarta-feira, 30 de junho de 2010

As lentes embaçadas da RBS

Estou com uma anotação feita desde o último sábado, sobre as pulseiras do crack, da RBS, quando aconteceu a mobilização alusiva ao combate às drogas. Isso se somou hoje, a uma anotação sobre uma fala que ouvi, de passagem, ao meio dia, vinda do Lasier Martins, exaltando uma tal de radiografia da economia da região de Cruz Alta que seria feita a partir de um debate mediado pelo referido jornalista e representantes da economia local – evento que acontece numa promoção do Grupo RBS e da Rede Gaúcha- Gaúcha Sat, chama-se: Gaúcha Debates do Rio Grande, tendo como objetivo buscar soluções para o desenvolvimento das regiões do Estado.
Ponto 1: O jogo das pulseiras da RBS! Até vi algumas coisas sobre a febre das pulseiras do sexo e a febre de leis proibindo a sua comercialização (inclusive aqui em Cruz Alta), mas não atentei muito para a questão e nem formei uma noção mais objetiva sobre a mesma. Contudo, tomo-a por seu propósito, ou seja, o jogo das pulseiras é uma brincadeira boba que define códigos entre os adolescentes para publicizar questões sexuais... coisa banal se não tivesse tomado outra dimensão a partir da ação exacerbada de alguns jovens (talvez os mesmos que se enquadram no tal do bullying) que, encontrando uma menina que usava as tais pulseiras, a violentaram, obrigando-lhe a cumprir o exposto nas cores das pulseiras que usava. Com a proibição da comercialização na cidade em que esse fato ocorreu, várias outras comunidades correram a copiar a lei, passando ao largo, como sói acontecer, da discussão das questões de ordem pessoal e social, no que se refere ao corpo, à sexualidade e ao exercício dos movimentos próprios da adolescência com relação a isso.
Bueno! O que tem isso com as pulseiras da RBS? No meio de todo esse rebordeio sobre as pulseiras do sexo (proíbe ou não proíbe, discute ou não discute, onde a coisa escorreu pelo meio dos dedos, quem deixou escorrer, etc), me aparece a RBS com uma singela pulseirinha (acho que é de borracha), com uma inscrição em baixo-relevo: “CRACK NEM PENSAR” (a amiga que me anunciou as pulseiras e me trouxe a idéia de abordar o assunto, recebeu-as num evento que as alardeou!)... remeto a questão ao código das pulseiras (cada cor dá o sinal de como, quem e até onde a situação pode ir... as pulseiras da RBS, nas cores que me chegaram às mãos, tem o preto, o vermelho e o cinza - não sei se tem outras cores)... o que se quer com isso? Ora se proíbe as pulseiras, ora se usa a idéia para outras coisas... como ficam os referenciais para os adolescentes? Além disso, essa situação esclarece o ponto alto da campanha do crack nem pensar: primeiro, o NEM PENSAR, ou seja, não é para fomentar a evitação à droga, mas é feita pra não se pensar na questão; segundo, é uma campanha fascista e terrorista que coloca como único foco da questão social e da drogadição, o usuário e o crak; terceiro, e assim, não discute o sistema dominante que a RBS tanto fomenta e nas tetas do qual mama eternamente, assim como, não discute a publicidade de outras drogas, que é feita em todos os seus canais de comunicação (álcool, fumo, cigarro, capitalismo, exploração social, humana, política e econômica, tráfico de drogas, etc).
As pulseiras são claras no baixo-relevo: CRACK NEM PENSAR... nas cores, eu não sei... no mais, NEM PENSAR naquilo que é do interesse capitalístico da RBS!
Ponto 2: A radiografia econômica da região! Veio-me o Lasier (nem pensar!) dizendo mais ou menos assim: que já havia observado que a economia da região estava tomando um rumo e que agora a coisa vai, mas, com isso, só exaltou as ações macroeconômicas inseridas no traçado definido pelo modelo econômico dominante, que pouco fazem pelas gentes e muito insistem na retroalimentação ao capital (um exemplo: um produtor de leite que entra nesse sistema fica atrelado à aquisição de equipamentos, máquinas, insumos, etc, dentro de critérios e condições aos quais não pode fugir... acaba trabalhando muito mais para atender essas condições... e além disso, leite para todos, aqui em nossa comunidade, a custo reduzido, não temos!)!
Mas enfim, isso não aparece em radiografia... isso só apareceria em cartografias... e é por isso que a RBS faz radiografias, que é para mostrar só o que lhes interessa... bate a chapa e depois sai dizendo que esse é o retrato do Rio Grande! O que aparece no retrato, é o que não interessa efetivamente às gentes, só ao sistema dominante... esse mesmo do qual a RBS se alimenta!
PS: Hoje só falei de drogas, porque ocorreu de os assuntos se juntarem!

terça-feira, 29 de junho de 2010

DIVULGAÇÃO: Commonwealth: amor e pós-capitalismo

Por Bruno Cava
Imagem: Odalisca, de Henri Matisse (detalhe)
Déjeme decirle, a riesgo de parecer ridículo,
que el revolucionário verdadero está guiado
por grandes sentimientos de amor
Ernesto Guevara

Antônio Negri esteve no Brasil em 2003, na sua primeira viagem internacional depois de ser libertado da prisão, após cumprir pena na Itália por sua militância nos anos 1970. Durante a década, fez outras viagens à América do Sul, para conhecer de perto os movimentos de transformação catalisados pelos governos de esquerda no Brasil, na Argentina e na Bolívia. Nessas ocasiões, ofereceu palestras, participou de congressos, foi entrevistado pelo programa Roda Viva, dividiu mesa de debates com Gilberto Gil, defendeu sem papas na língua o governo Lula e lançou um livro em que discute diretamente a realidade social latino-americana (“Global: biopoder e lutas em uma América Latina globalizada”, 2005, em co-autoria com Giuseppe Cocco).
Não me esqueço de uma passagem marcante de uma dessas vindas. À noite, no bairro de Santa Teresa (Rio de Janeiro), fora do circuito oficial de eventos acadêmicos, Negri prelecionava para um círculo de conhecidos sobre as nuances políticas de seu sistema-mundo. Lá pelas tantas, um artista performático presente interrompeu-o com impaciência: “Tá bom, Toni, mas agora fala um pouco do amor! Do amor!”. Tinha tudo pra resultar em saia-justa, mas o filósofo italiano prontamente passou a discorrer sobre o conceito de amor e sua importância capital dentro do pensamento de esquerda. Impressionou os presentes.
Tomando a sua obra, chega-se à conclusão de que não poderia ser diferente, pois o amor atravessa-a de ponta a ponta. Bebendo da inesgotável filosofia de Spinoza, em “Anomalia Selvagem” (1981) o amor já aparece como constituinte da potência revolucionária, a partir da multiplicação do desejo (cupiditas) e da força em desenvolvê-lo (vis). Tema desenvolvido posteriormente em dezenas de livros, muitos dos quais traduzidos para o português, como O Poder Constituinte, De volta, Kairós, Alma Vênus, Multitudo, O Trabalho de Dioniso, Adeus Sr. Socialismo, entre outros.
Nesse projeto, Commonwealth se propõe a inventar um novo amor.
Último livro da trilogia escrita a quatro mãos com Michael Hardt, – seqüenciando Império (2000) e Multidão (2004), – o livro saiu pela Harvard University Press no ano passado e ainda aguarda versão em português. O título não deve ser traduzido por Comunidade, mas por Comum– mas bem poderia ficar Amor e Comum. De fato, os autores declaram que o amor é essencial para a filosofia e a política. Sem ele, e sem a arte dos bons encontros que o favorece, não se pode falar em libertação e democracia. Constituir um novo homem e uma nova sociedade implica radicalizar o amor – no comum de formas de vida, bens, afetos, imagens e conhecimentos. “O amor é uma força econômica.” O amor não tem medida, é só excesso, vence a morte e opera a revolução, como princípio da organização (política) da produção. Eis aí síntese cúpida do livro de 433 páginas.
Para fazer bom proveito de Commonwealth, não é preciso recorrer à obra pregressa da parceria Negri e Hardt. O livro arremata os dois anteriores e amadurece as suas questões, problemas e conceitos. Se o robusto estofo filosófico é assegurado pelo intelectual padovano de 76 anos, a prosa fluida, simples e atlética é tributária de Michael Hardt – professor de literatura de língua inglesa. Indicado, portanto, para quem desgosta de penosos e herméticos livros de filosofia e concorda com Ortega y Gasset: “a clareza é a cortesia do filósofo.” Hardt, por sinal, é autor de uma das mais límpidas introduções ao pós-estruturalismo francês (Gilles Deleuze: um aprendizado em filosofia, 1993).
Um amor que mobiliza a cidade dos homens,
é combinação produtiva de desejos e afetos,
passa longe da família, carreira profissional e nação
Voltando ao texto, Commonwealth resgata Dante e sua noção de vita nuova. Esta se realiza na comunhão de amor que mobiliza a cidade dos homens em busca da autonomia, da riqueza e da igualdade. Amor nada sentimental, que se desdobra ética, estética e politicamente. Cupidez que é causa e consequência, em ciclo virtuoso, da liberdade e potência de cada um, na sua combinação produtiva de desejos e afetos. Portanto, amor que passa longe da família, da carreira profissional e da nação – três vilões a bloquear o comum e expropriá-lo em nome de felicidades atrofiadas, impotentes e socialmente desiguais. A família corrompe-o pela exclusividade afetiva, hierarquia paternal, narcisismo filial e mecanismos de transferência de propriedade. A carreira profissional compromete-o pela alienação do trabalho, o individualismo, o controle patronal e a concepção unidimensional de tempo. E a nação pela homogeneização das diferenças, a imposição das maiorias, a xenofobia intrínseca e os ideais abstratos de glória, sacrifício e destino coletivo.
Com efeito, todo o último livro da trilogia pode ser lido como uma sinfonia, pautada pela repetição de motivos rítmicos e melódicos, ao redor do tema do amor revolucionário. Isto é, do comum. Commonwealth consiste assim num tratado de democracia radical, numa reedição contemporânea da Política arquetípica, dividida em seis partes densamente discursivas, entremeadas por seis ensaios mais leves e de imaginação livre (De Corpore, De Homine e De Singularitate, cada qual subdividido em dois capítulos). A orquestração retorna muitas vezes às mesmas cadeias argumentativas, porém sobre territórios discursivos diferentes, que vão da ontologia à antropologia, da filosofia da história à geopolítica, da ética à economia política. Logo, corta em diagonal os campos do conhecimento, em total transdisciplinariedade.
É impróprio falar em influências teóricas do livro, uma vez que não há compromisso com rigor exegético. Deliberadamente. Na realidade, perspectivista, o texto mobiliza autores amiúde contra eles mesmos. Trata-se de achar o devir minoritário do pensador que serve de referência. Esse conceito de Gilles Deleuze designa o procedimento de seleção de linhas conceituais periféricas, ocultas, menores no sistema de outro autor – o ponto de fuga é então, por assim dizer, repatriado em nova perspectiva.
Por isso, comparece em Commonwealth um Karl Marx minoritário, extraído não da vasta ortodoxia socialista, mas dos marxianos Grundrisse – cadernos manuscritos, volumosos e não-publicados em vida, onde o autor aponta outras direções a seu pensamento. Daí a sintonia da obra com o materialismo transformador, a análise fina do estatuto do trabalho (atualmente pós-industrial) e a recusa à república da propriedade e aos direitos burgueses. Mas, ao mesmo tempo, a dissintonia com a dialética histórica, a teleologia da ditadura do proletariado e teorias do colapso do capitalismo como evento transcendente, que vem de fora para abolir as classes por decreto.
Estas teorias, aliás, são enfrentadas logo na primeira parte, sob a legenda discurso apocalíptico. Os autores têm como alvo principal o filósofo Giorgio Agamben – autor dos hits acadêmicos Homo sacer: o poder soberano e a vida nua (1995) e Estado de exceção (2003), – para quem somente uma ruptura radical, ontológica e messiânica poderia salvar a civilização ocidental de sua falência política. Negri e Hardt chegam a convocar o mitólogo Evêmero (IV a.C). No evemerismo, o foco em teorias escatológicas “eclipsa e mistifica as formas dominantes de poder que continuam a reinar hoje – poder da propriedade e do capital, poder respaldado pela lei”.
Também onipresente no texto negri-hardtiano um Michel Foucault minoritário, abduzido de seus livros e cursos do final da década de 1970. Neles, o professor do Colégio da França discorre sobre a matriz biopolítica do poder (ou biopoder). Ou seja, um governo instaurado sobre os viventes e as populações, com base em saberes biológicos, médicos, psicológicos, estatísticos. Na esteira de outro intelectual, Gilles Deleuze, Commonwealth insiste no duplo sentido do poder na filosofia de Foucault. Se por um lado, a partir do vivente, o biopoder expõe, esquadrinha, controla e assim constitui o sujeito; por outro lado, a vida possui um rendimento positivo que independe daquele. Em síntese, a resistência biopolítica não aparece a posteriori do exercício do poder e não está enclausurada irremediavelmente em sua operação de captura. A resistência precede o poder, como a sua condição. Logo, o biopoder (opressão) não se confunde com a biopolítica (resistência). A resistência é primeira. Ontologicamente.
Para produzir, o capitalismo precisa agora
conceder liberdade. Mas ela, potencializada pelo desejo,
pode dispensar o sistema – violentamente, se preciso
Em termos práticos: pode existir enfim uma saída, para contornar e subverter as malhas cada vez mais cerradas e abrangentes das sociedades de controle. Existe uma escapatória para o pensamento e a ação de esquerda, que não finde recodificada e domesticada pelo capitalismo. Existe uma alternativa para a modernidade capitalista – a altermodernidade analisada ao longo do livro. E essa saída não é ex machina, como o deus de mentira que irrompia no palco para salvar o dia, ao final das peças gregas. Para Negri e Hardt, não adianta reinventar a roda. Os movimentos de libertação já trabalham na construção do comum, num fazer multidão baseado em redes colaborativas, no trabalho imaterial, na militância glocal (global + local), na produção de renda por fora dos circuitos capitalistas de fixação/exploração do trabalho. A análise de Negri e Hardt não opera pelo lado do poder, mas sob a espécie da resistência: “As lutas pela liberdade determinam todo o desenvolvimento das estruturas de poder”.
Se para os apocalípticos e pessimistas de esquerda, há um buraco negro no horizonte, uma sociedade inteiramente submetida a dispositivos difusos e perversos de controle, para os autores de Commonwealth a sociedade contemporânea vaza por todos os lados e é o poder capitalista quem padece de um impasse. Para produzir numa sociedade pós-industrial, o capitalismo precisa conceder liberdade e promover a produtividade imanente à vida. Mas essa mesma liberdade, potencializada pelo desejo, constituída no comum, articulada em multidão, inebriada de amor, pode dispensá-lo – violentamente, se preciso. É o drama de conter um lobo pelas orelhas: se soltá-lo, ele foge; mas se continuar segurando-o, ele morde.
O novo amor de que fala Commonwealth não se traduz por otimismos poliânicos ou entusiasmos ingênuos. Não é tampouco uma nova aposta pascalina: como se fosse preciso resistir porque não teríamos outra opção. Para os autores, o amor revolucionário significa que é preciso resistir porque é desejável. Porque queremos. E se não há garantias de que, resistindo, o amanhã será melhor, podemos “reconhecer que essa contingência não deve levar a conclusões cínicas, a ignorar o fato que sim, é possível mudar a sociedade e a nós mesmos”. Afinal, a grande felicidade, fazer tudo aquilo que somos capazes em comum, a beatitude de Spinoza, conquista-se politicamente na multiplicação de vida que é a própria revolução democrática.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Devastação no Nordeste

Li em algum lugar que Lula diz que as cidades que forram afetadas pelas chuvas na região nordeste do Brasil, serão reconstruídas em outro lugar, pois não se pode gastar em dinheiro em reconstrução. Não fui conferir se seja isso ou não seja. Basta-me o gancho que enroscou em meus pensamentos, trazendo de antanho, algumas coisas anotadas em meus papéis de embrulho.
Relembro, com isso, as discussões sobre os efeitos ambientais decorrentes das construções de barragens para contenção de água destinada à geração de energia elétrica. E tomo, aqui, os efeitos sobre as subjetividades e, por assim dizer, sobre as gentes.
Tanto numa condição, quanto noutra, seja num evento resultante dos movimentos da natureza em resposta à degradação ambiental, seja num evento decorrente da ação humana planejada, a alteração, a afetação causada não é apenas de ordem material, nunca será apenas de ordem material.
A vida das pessoas e suas condições de subjetivação se dão a partir de elementos práticos-materiais e, principalmente, a partir dos elementos humanos; portanto, a história de vida das gentes, se dá nas teias e nas relações que são construídas, seja no plano imaginário, seja no plano físico.
Assim, não se trata de meramente reconstruir as condições físicas e materiais dessas comunidades que foram, literalmente, arrastadas pelas águas, resgatando o que é possível resgatar materialmente e passando o rolo compressor sobre o que passa ao estatuto de entulho.
A vida não é entulho – por mais estranha que seja aos olhos dos burocratas, dos técnicos e do olhar dominante -; a existência não se reterritorializa a partir dessas condições; a história de vida não é uma planta baixa que pode ser refeita em qualquer outro lugar; os elementos subjetivos e existenciais que são ancorados em elementos ambientais, não se reacomodam na medida da reorganização material.
Os acidentes, as tragédias, as devastações não dissolvem as singularidades e as singularizações. A vida não fecha as cortinas, para depois apresentar um novo ato. Como nos mostra Guattari*, é necessário tecer uma articulação ético-política que contemple os fios do meio ambiente, das relações sociais e da subjetividade humana, contemplando assim, a questão de como se viver daí em diante. Aqui, duas questões que se juntam, uma relacionada à devastação ambiental e outra, à devastação de cidades.
* Ver: GUATTARI, F. As três ecologias. Campinas, SP: Papirus, 1990.

domingo, 27 de junho de 2010

A Experiência do Fora

O Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional e o Museu da UFRGS promoveram, de 22 a 24 de junho de 2010, o Seminário Vidas do Fora – habitantes do silêncio. Nó na teia que se formou a partir da pesquisa sobre as “vidas do fora” e seus registros no mundo e nas gentes (nas gentes loucas e nas não loucas – se é que as há!), o Seminário se junta à publicação do livro/coletânea de textos com o mesmo título, à Exposição EU SOU VOCÊ (que reúne a produção de quatro pacientes psiquiátricos, que faz parte do acervo da oficina de criatividade do Hospital; documentos históricos do Hospital; produções de artistas convidados) e à publicação do catálogo da exposição.
Não tive tempo de, durante o Seminário, ir ver a Exposição – a qual ainda verei -, mas em algumas falas do Seminário, muitas imagens, da mesma, foram apresentadas.
Do Seminário, trouxe, para leituras que já estou fazendo, o livro relacionado ao evento e o livro da Rosane Preciosa – Rumores Discretos da Subjetividade – sobre os quais ainda hei de tecer escrituras específicas. Além disso, trouxe muitas anotações e pensaduras, sobre as quais escreverei aqui... alguma coisa, agora e, outras, depois.
Uma das coisas que sempre me coloco como ponto de nó no pensamento, é: O que você faria se sua loucura fosse vista somente como incondicional, absoluta e radical loucura? Talvez essa seja a condição histórica em que os ditos loucos foram colocados e, por isso, a clausura foi mais forte do que qualquer possibilidade de resistência... o poder da clausura e da sociedade de controle é mais forte do que qualquer marreta que possa tentar arrebentar seus cadeados.
Eu, na verdade, escolho definir a loucura como uma das experiências do fora... é do fora, toda a experiência que não se fixe aos esquadros normalizadores do sistema dominante, com suas teorias feitas para definir o riscado em que cada um pode compor sua vida. O sofrimento psíquico é uma derrapada brusca na organização psíquica, subjetiva, familiar, institucional e social que joga o sujeito para fora dos liames das regularidades... não há espaço, entre a derrapada e o limbo do sofrimento, para ocorrer um movimento de desassujeitamento e de produção de uma outra possibilidade de vida... isso tudo se dá sobre uma linha muito estreita, muito tênue, em que salva-se aquele que corre até o fim dela sem cair... quem cair, outrora ia para internação, hoje deambula em meio a arremedos de produção de novos modos de fazer as políticas públicas de saúde mental e produções efetivamente sérias... nesse entrevero conta ainda, a produção da discussão e de um novo entendimento da sociedade sobre essas situações e questões, assim como, a produção efetiva de novas práticas para a construção do espaço do fora da loucura ou do sofrimento mental.
No Seminário, com a fala de Eugénia Vilela(1), a beleza generosa de suas palavras e de seu escrito provocou-me a colocar outra imagem na contraluz do testemunho e colocar-me brevemente numa linguagem entre a surdez e o corpo.
Disponho de 50% de capacidade auditiva nos dois ouvidos. Ao começo de sua fala no “Vidas do Fora”, neste 22.06.10, esforcei-me por ouvi-la. Adiei minha aproximação, esperando que a sonorização pudesse melhorar. Não melhorou. Pensei: depois leio o texto no livro. Desisti de me aproximar fisicamente, em prol de um exercício que então me propus fazer. Capturada pela magia do texto brotando dela, em minha surdez física fui ouvindo um pouco das palavras e escutando seu corpo... os movimentos do seu corpo... foi fascinante acompanhar o movimento do texto emergindo dela... brotando do corpo, na boca, nas mãos, no tronco, nos pensamentos, nela inteira... é como diz Gregório Baremblitt, ao falar de Deleuze e Guattari: “Não é um pensamento discursivo, mas segundo a própria definição deles, é uma máquina fundamentalmente energética, destinada a vibrar e a fazer vibrar aqueles que dela se aproximam e a engajá-los em um movimento produtivo, que não passa exatamente pelas idéias nem pelas palavras, passa pelos afetos. Por afetar e ser afetado. Passa pela capacidade de vibrar em consonância, passa pela capacidade de despertar o entusiasmo, a vontade de viver, a vontade de criar”(2). Para mim, é a experiência da surdez, surdez que ouve com os olhos. No mais, Eugénia vive o que diz... ela é o que diz!
Da mostra de fala de Regina Jaeger(3), entre ditos e imagens, trouxe muito de Manoel de Barros. Há muitos anos que sou encantada por ele. E não sei exatamente se é pelo que ele faz com as palavras e com as imagens, ou se é pelo que ele faz com sua loucura. Manoel é um louco que parece não criar... são as palavras que saem dele e tomam as formas despudoradas com que ele as apresenta... as palavras é que são loucas e transmutam o seu ser! Mas também, ele deixa sair o que quer, pensa o que quer e desenha a vida com traços que só ele enxerga. Escreve com lápis. Gosta da invencionática e não da informática. Não se importa se levam a sério suas palavras. Lambe as palavras como quem lambe algo gostoso.
Regina, entre muitas outras coisas, me fez pensar essas coisas: que Manoel de Barros é um louco que conduz sua loucura. Lambe as palavras e faz delas o que bem quer e subverte as imagens como bem entende. Da mesma forma que Deleuze viveu sua loucura. Ou Guattari viveu sua loucura. Ou Foucault viveu sua loucura. Ou Nietzsche viveu sua loucura. Eles e muitos outros viveram suas loucuras. Todos fizeram a criação no fora. No fora do sistema normalizador. O fora-devir. O fora-criação.
A loucura talvez seja o lugar em que se possa dizer a verdade/ toda a verdade, sem esquadros do ideário dominante.
Usamos as palavras do fora para falar de nossas teorias do fora. A loucura é o fora. O fora é a loucura... o fora é (des)normalizador. A exemplo de Nietzsche, Foucault, Deleuze e Gauttari, pensar o fora como um lugar de subjetivação... como a criação de novos modos de vida (no fora)... como estética da existência... como arte... enfim, como criação mesmo.
Quando Paola Zordan(4) fala da “Derme pictórica” do Hospital São Pedro, traz Fotografias da história marcada nas paredes/ no prédio físico do São Pedro, mostra como o musgo só nasce em lugar que lhe é próprio, ou como a rachadura, a fissura racha a norma e mostra o que a engenharia descuidou ou o que o tempo elaborou... ela mostra, também, que não se trata de pensar se é arte ou não... pois, pensar o fora, implica em pensar o estético e a criação, em pensar na produção que brota da criação nas situações mais adversas, que não aquelas de que a maioria espera que brote.
Não podemos esquecer que o MUSEU DO MUNDO é feito para guardar toda e qualquer arte, de toda e qualquer gente, enquanto o MUSEU DO CONSUMO é feito para guardar e fomentar qualquer coisa que possa gerar dinheiro... para gerar o reconhecimento daquilo que interessa ao sistema dominante!
Por isso, não nos interessa a pergunta sobre se a produção dos pacientes psiquiátricos seja ou não seja arte... essa é a pergunta do ideário dominante do DENTRO, que quer que as coisas sejam feitas para o consumo e para o lucro (o extremo lucro... lucro financeiro, material, subjetivo, político, econômico, social, etc.). Não nos interessa, também, o reconhecimento da produção/criação nas condições colocadas pelo DENTRO, pois esse reconhecimento é injusto, seletivo, interesseiro, falcatruento. Na horizontalidade do FORA, a condição de produção e reconhecimento é de todos e de qualquer um.
Pensar a loucura do outro e tergiversar sobre ela, permite dar a ver a nossa e a loucura dos loucos... vemos a loucura-pontual/ a loucura-sofrimento-psíquico para falar de nossa loucura anti-sistema-dominante... a arte-conceito/ arte-sistema/ arte-mercado X arte-criação é uma dicotomia que não existe, pois são dois mundos distintos: o de dentro e o de fora... o mundo de dentro do sistema dominante tem suas coordenadas que tão bem conhecemos... já, o mundo de fora refere-se à arte-criação/ arte-devir/ arte de todos e de qualquer um/ arte que não é feita para o consumo... o fora, trata-se da horizontalidade que aponta a possibilidade de produção de singularidades... ou como escreve Deleuze, ao falar da terceira dimensão traçada por Foucault em seu pensamento: “E do que se trata? Trata-se de uma relação de força consigo (ao passo que o poder era a relação da força com outras forças), trata-se de uma ‘dobra’ de força. Segundo a maneira de dobrar a linha de força, trata-se da constituição de modos de existência,ou da invenção de possibilidades de vida que também dizem respeito à morte, a nossas relações com a morte; não a existência como sujeito, mas como obra de arte. Trata-se de inventar modos de existência, segundo regras facultativas, capazes de resistir ao poder bem como se furtar ao saber, mesmo se o saber tenta penetrá-los e o poder tenta apropriar-se deles. Mas os modos de existência ou possibilidades de vida não cessam de se recriar, e surgem novos”(5).
Eu sou do fora. Eu escolhi e prefiro o fora (apesar de, em muitos aspectos, viver no dentro). Eu não vejo o dentro como um lugar possível para a maioria das gentes. Eu penso as condições rizomaticas do fora e não condições de inclusão no dentro.
Entre muitas coisas importantes produzidas por essa série de pontos-de-nó que se fizeram eventos, talvez a principal delas seja essa possibilidade de pensarmos o fora como esse outro lugar, como essa outra possibilidade de vida e de mundo que, dentre outros, Deleuze, Guattari, Foucault e Nietzsche tão bem desenharam.
1 Eugénia proferiu a Conferência de Abertura: A sombra da ferida. Corpo, silêncio e testemunho. Ela vem da Universidade do Porto, de Portugal. (PS: O título de seu escrito, no Livro, é: “À contraluz, o testemunho. Uma linguagem entre o silêncio e o corpo” – Em: Vidas do Fora – habitantes do silêncio, Org. Tânia Mara Galli Fonseca e Luciano Bedin da Costa, Ed. UFRGS).
2 Em: BAREMBLIT, G. Introdução à Esquizoanálise. Coleção Esquizoanálise e Esquizodrama.Belo Horizonte: Biblioteca Instituto Félix Guattari, 1998.
3 Regina Jaeger falou sob o título “A Escrita fora de si entre as forças da clausura”, em 23.06.10.
4 Paola Zordan falou sob o título “Hospital São Pedro: uma derme pictórica”, em 24.06.10.
5 DELEUZE, G. Conversações. São Paulo: Ed.34, 1992.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Brevíssimo Conto

LOUCURA - O registro do último lampejo de lucidez vem do dia em que viajava em um ônibus e sentiu o que poderia chamar de grau máximo de intimidade com alguém, quando, ao dormir atravessado nos bancos, seus pés atrapalharam a passagem no corredor. Alguns ficaram irritados, mas outros afastaram delicadamente as suas pernas. Acordou exaltado por essa alegria incontrolável. Depois disso, só lembra-se de seus olhos terem sido cegados pela luz da ambulância. Assim, extenuado, ficou preso, ainda, a uma única lembrança que o jogara definitivamente para o fora da vida. Ela vem do momento em chega em um velho prédio descascado, cujos ladrilhos encantaram seu olhar que só se ergueu para encontrar outro olhar. Era o olhar de uma mulher que correspondia exatamente ao daquela descrita por sua avó paterna como sendo sua mãe: A LOUCA. Desde então, nunca mais quis ver nada, nem sentir ninguém. Mas o olhar daquela mulher o perseguia todos os dias. Incomodava, mas mesmo assim causava um certo grau de intimidade, aconchego e conforto.

DIVULGAÇÃO: De José Saramago para o Fórum Social Mundial

De José Saramago para o Fórum Social Mundial (Por José Saramago)
Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.
Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI), os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar.
Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. “O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino”, foi a resposta do camponês. “Mas então não morreu ninguém?”, tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: “Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça, porque a Justiça está morta.”
Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das extremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à protecção da justiça. Tudo sem resultado, a espoliação continuou. Então, desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exacto tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça.
Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem excepção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido… Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as extremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo…
Esses sinos novos são os múltiplos movimentos de resistência e acção social que pugnam por uma nova justiça distributiva e comutativa
Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.
Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia.
Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objectivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e acção social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protectora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações.
Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há cinquenta anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aqueles trinta direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há quatrocentos anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a rectidão de princípios e clareza de objectivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo actual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos.
Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em consequência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização económica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização económica.
Continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica
E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingénuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efectivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que actualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo.
Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de acção democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica.
E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros “comissários políticos” do poder económico, com a objectiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo certas conhecidas minorias eternamente descontentes…
Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.
Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.