domingo, 12 de fevereiro de 2012

Vida nua, vida besta, uma vida


Por Peter Pál Pelbart
Ao reduzir a existência ao seu mínimo biológico, o biopoder contemporâneo nos transforma em meros sobreviventes. 
O contexto contemporâneo se caracteriza por uma nova relação entre o poder e a vida. Por um lado, uma tendência que poderia ser formulada como segue: o poder tomou de assalto a vida. Isto é, ele penetrou todas as esferas da existência, e as mobilizou inteiramente, pondo-as para trabalhar. Desde os gens, o corpo, a afetividade, o psiquismo, até a inteligência, a imaginação, a criatividade, tudo isso foi violado, invadido, colonizado, quando não diretamente expropriado pelos poderes. Mas o que são os poderes?
Digamos, para ir rápido, com todos os riscos de simplificação: as ciências, o capital, o Estado, a mídia. Sabemos, no entanto, que os mecanismos diversos pelos quais eles se exercem são anônimos, esparramados, flexíveis, rizomáticos. O próprio poder tornou-se "pós-moderno": ondulante, acentrado, reticular, molecular. Com isso, ele incide diretamente sobre nossas maneiras de perceber, de sentir, de amar, de pensar, até mesmo de criar. Se antes ainda imaginávamos ter espaços preservados da ingerência direta dos poderes (o corpo, o inconsciente, a subjetividade) e tínhamos a ilusão de preservar em relação a eles alguma autonomia, hoje nossa vida parece integralmente subsumida a tais mecanismos de modulação da existência.

Até mesmo o sexo, a linguagem, a comunicação, a vida onírica, mesmo a fé, nada disso preserva já qualquer exterioridade em relação aos mecanismos de controle e monitoramento, se é que alguma vez tal exterioridade fosse cabível. Para resumi-lo numa frase: o poder já não se exerce desde fora, nem de cima, mas como que por dentro, pilotando nossa vitalidade social de cabo a rabo. Não estamos mais às voltas com um poder transcendente, ou mesmo repressivo, trata-se de um poder imanente, produtivo. Como o mostrou Foucault, um tal biopoder não visa barrar a vida, mas tende a encarregar-se dela, intensificá-la, otimizá-la. Daí nossa extrema dificuldade em situar a resistência, já mal sabemos onde está o poder, e onde estamos nós, o que ele nos dita, o que nós dele queremos, nós nos encarregamos de administrar nosso controle, e o próprio desejo está inteiramente capturado. Nunca o poder chegou tão longe e tão fundo no cerne da subjetividade e da própria vida como nessa modalidade contemporânea do biopoder.
É onde intervém o segundo eixo que seria preciso evocar, sobretudo em autores provenientes da autonomia italiana. Resumo tal tendência da seguinte maneira. Quando parece que “está tudo dominado”, como diz um rap brasileiro, no extremo da linha se insinua uma reviravolta: aquilo que parecia submetido, controlado, dominado, isto é, “a vida”, revela no processo mesmo de expropriação, sua potência indomável.

Tomemos apenas um exemplo. O capital precisa hoje não mais de músculos e disciplina, porém de inventividade, de imaginação, de criatividade, de força-invenção. Mas essa força-invenção, de que o capitalismo se apropria e que ele faz render em seu benefício próprio, não só não emana dele, como no limite poderia até prescindir dele. É o que se vai constatando aqui e ali: a verdadeira fonte de riqueza hoje é a inteligência das pessoas, sua criatividade, sua afetividade, e tudo isso pertence, como é óbvio, a todos e a cada um. Tal potência de vida disseminada por toda parte nos obriga a repensar os próprios termos da resistência.
Poderíamos resumir esse movimento do seguinte modo: ao poder sobre a vida responde a potência da vida, ao biopoder responde a biopotência, mas esse “responde” não significa uma reação, já que o que se vai constatando é que tal potência de vida já estava lá desde o início. A vitalidade social, quando iluminada pelos poderes que a pretendem vampirizar, aparece subitamente na sua primazia ontológica. Aquilo que parecia inteiramente submetido ao capital, ou reduzido à mera passividade, a “vida”, aparece agora como reservatório inesgotável de sentido, manancial de formas de existência, germe de direções que extrapolam as estruturas de comando e os cálculos dos poderes constituídos.
Seria o caso de percorrer essas duas vias maiores como numa fita de Moebius, o biopoder, a biopotência, o poder sobre a vida, as potências da vida 1. Mas aqui isto será feito sob um crivo particular, o do corpo. Pois tanto o biopoder como a biopotência passam necessariamente, e hoje mais do que nunca, pelo corpo. Assim, proponho trabalhar aqui três modalidades de "vida", isto é, três noções de vida, acompanhados de sua dimensão corporal correspondente, percorrendo de um lado a outro a banda de Moebius mencionada.
O "muçulmano"
É preciso começar pelo mais extremo -o "muçulmano". Retomo brevemente à descrição feita por Giorgio Agamben a respeito daqueles que, nos campos de concentração, recebiam essa designação terminal 2. O "muçulmano" era o cadáver ambulante, uma reunião de funções físicas nos seus últimos sobressaltos 3. Era o morto-vivo, o homem-múmia, o homem-concha. Encurvado sobre si, esse ser bestificado e sem vontade tinha o olhar opaco, a expressão indiferente, a pele cinza pálida, fina e dura como papel, já começando a descascar, a respiração lenta, a fala muito baixa, e feita a um grande custo...
O "muçulmano" era o detido que havia desistido, indiferente a tudo que o rodeava, exausto demais para compreender aquilo que o esperava em breve, a morte. Essa vida não humana já estava excessivamente esvaziada para que pudesse sequer sofrer 4. Por que os detidos dos campos chamavam de “muçulmano” aqueles que tinham desistido de viver, já que se tratava sobretudo de judeus? Porque entregava sua vida ao destino, conforme a imagem simplória, preconceituosa e certamente equivocada de um suposto fatalismo islâmico: o “muslim” seria aquele que se submete sem reserva à vontade divina.

Em todo caso, quando a vida é reduzida ao contorno de uma mera silhueta, como diziam os nazistas ao referir-se aos prisioneiros, chamando-os de “Figuren”, figuras, manequins, aparece a perversão de um poder que não elimina o corpo, mas o mantém numa zona intermediária entre a vida e a morte, entre o humano e o inumano: o sobrevivente. O biopoder contemporâneo, conclui Agamben, reduz a vida à sobrevida biológica, produz sobreviventes. De Guantánamo à Africa, isso se confirma a cada dia.

Ora, quando cunhou o termo de biopoder, Foucault tentava discriminá-lo do regime que o havia precedido, denominado de soberania. O regime de soberania consistia em fazer morrer e deixar viver. Cabia ao soberano a prerrogativa de matar, de maneira espetacular, os que ameaçassem seu poderio, e deixar viverem os demais. Já no contexto biopolítico, surge uma nova preocupação. Não cabe ao poder fazer morrer, mas sobretudo fazer viver, isto é, cuidar da população, da espécie, dos processos biológicos, otimizar a vida. Gerir a vida, mais do que exigir a morte.
Assim, se antes o poder consistia num mecanismo de subtração ou extorsão, seja da riqueza, do trabalho, do corpo, do sangue, culminando com o privilégio de suprimir a própria vida 5, o biopoder passa agora a funcionar na base da incitação, do reforço e da vigilância, visando a otimização das forças vitais que ele submete. Ao invés de fazer morrer e deixar viver, trata-se de fazer viver, e deixar morrer. O poder investe a vida, não mais a morte -daí o desinvestimento da morte, que passa a ser anônima, insignificante. Claro que o nazismo consiste num cruzamento extremo entre a soberania e o biopoder, ao fazer viver (a "raça ariana") e fazer morrer (as raças ditas "inferiores"), um em nome do outro.
O biopoder contemporâneo, segundo Agamben -e nisso ele parece seguir, mas também "atualizar" Foucault- já não se incumbe de fazer viver, nem de fazer morrer, mas de fazer sobreviver. Ele cria sobreviventes. E produz a sobrevida. No contínuo biológico, ele busca até isolar um último substrato de sobrevida. Como diz Agamben: "Pois não é mais a vida, não é mais a morte, é a produção de uma sobrevida modulável e virtualmente infinita que constitui a prestação decisiva do biopoder de nosso tempo. Trata-se, no homem, de separar a cada vez a vida orgânica da vida animal, o não-humano do humano, o muçulmano da testemunha, a vida vegetativa, prolongada pelas técnicas de reanimação, da vida consciente, até um ponto limite que, como as fronteiras geopolíticas, permanece essencialmente móvel, recua segundo o progresso das tecnologias científicas ou políticas. A ambição suprema do biopoder é realizar no corpo humano a separação absoluta do vivente e do falante, de zoè e biós, do não-homem e do homem: a sobrevida" 6.
Fiquemos pois, por ora, nesse postulado inusitado que Agamben encontra no biopoder contemporâneo: fazer sobreviver, produzir um estado de sobrevida biológica, reduzir o homem a essa dimensão residual, não humana, vida vegetativa, que o chamado "muçulmano" dos campos de concentração, por um lado, e o neomorto das salas de terapia intensiva, por outro, encarnam.
A sobrevida é a vida humana reduzida a seu mínimo biológico, à sua nudez última, à vida sem forma, ao mero fato da vida, à vida nua. Mas engana-se quem vê vida nua apenas na figura extrema do "muçulmano", sem perceber o mais assustador: que de certa maneira somos todos "muçulmanos". Até Bruno Bettelheim, sobrevivente de Dachau e Buchenwald, quando descreve o comandante do campo, qualifica-o como uma espécie de "muçulmano", "bem alimentado e bem vestido". Ou seja, o carrasco é ele também, igualmente, um cadáver vivo, habitando essa zona intermediária entre o humano e o inumano, máquina biológica desprovida de sensibilidade e excitabilidade nervosa. A condição de sobrevivente, de "muçulmano", é um efeito generalizado do biopoder contemporâneo, ele não se restringe aos regimes totalitários, e inclui plenamente a democracia ocidental, a sociedade de consumo, o hedonismo de massa, a medicalização da existência, em suma, a abordagem biológica da vida numa escala ampliada.
O corpo
Tomemos a título de exemplo o superinvestimento do corpo que caracteriza nossa atualidade. Desde algumas décadas, o foco do sujeito deslocou-se da intimidade psíquica para o próprio corpo. Hoje, o eu é o corpo. A subjetividade foi reduzida ao corpo, a sua aparência, a sua imagem, a sua performance, a sua saúde, a sua longevidade. O predomínio da dimensão corporal na constituição identitária permite falar numa "bioidentidade". É verdade que já não estamos diante de um corpo docilizado pelas instituições disciplinares, como há cem anos atrás, corpo estriado pela máquina panóptica, o corpo da fábrica, o corpo do exército, o corpo da escola. Agora cada um se submete voluntariamente a uma ascese, científica e estética a um só tempo. É o que Francisco Ortega chama de bioascese 7. Por um lado, trata-se de adequar o corpo às normas científicas da saúde, longevidade, equilíbrio, por outro, trata-se de adequar o corpo às normas da cultura do espetáculo, conforme o modelo das celebridades.
Como o diz Jurandir Freire Costa, a obsessão pela perfectibilidade física, com as infinitas possibilidades de transformação anunciadas pelas próteses genéticas, químicas, eletrônicas ou mecânicas, essa compulsão do eu para causar o desejo do outro por si, mediante a idealização da imagem corporal, mesmo às custas do bem-estar, com as mutilações que o comprometem, substituem finalmente a satisfação erótica que prometem pela mortificação auto-imposta 8. O fato é que abraçamos voluntariamente a tirania da corporeidade perfeita, em nome de um gozo sensorial cuja imediaticidade torna ainda mais surpreendente o seu custo em sofrimento.
A bioascese é um cuidado de si, mas, à diferença dos antigos, cujo cuidado de si visava a bela vida, e que Foucault chamou de estética da existência, o nosso cuidado visa o próprio corpo, sua longevidade, saúde, beleza, boa forma, felicidade científica e estética, ou o que Deleuze chamaria a "gorda saúde dominante". Não hesitamos em qualificá-lo, mesmo nas condições moduláveis da coerção contemporânea, de um corpo fascista -diante do modelo inalcançável, boa parcela da população é jogada numa condição de inferioridade sub-humana. Que, ademais, o corpo tenha se tornado também um pacote de informações 9, um reservatório genético, um dividual estatístico, com o qual somos lançados ao domínio da biossociabilidade ("faço parte do grupo dos hipertensos, dos soropositivos" etc.), isto só vem fortalecer os riscos da eugenia. Estamos às voltas, em todo caso, com o registro da vida biologizada… Reduzidos ao mero corpo, do corpo excitável ao corpo manipulável, do corpo espetáculo ao corpo automodulável, é o domínio da vida nua. Continuamos no âmbito da sobrevida, da produção maciça de "sobreviventes", no sentido amplo do termo.
1 - No rastro de Foucault, Deleuze, Negri, Lazzarato e outros, tal mapeamento foi tentado em “Vida Capital”, São Paulo, Iluminuras, 2003.
2 - G. Agamben, "Ce Qui Reste d´Auschwitz", Paris Payot & Rivages, 1999.
3 - J. Améry, "Par Delà le Crime et le Chatiment", Arles, Actes Sud, 1995
4 - P. Levi, “É Isto um Homem?”, Rio de Janeiro, Rocco, 2000.
5 - M. Foucault, "La Volonté de Savoir", Paris, Gallimard, 1976, p 179.
6 - G. Agamben, "Ce Qui Reste d´Auschwitz", op. cit, p. 205.
7 - Francisco Ortega, "Da Ascese à Bioascese, Ou do Corpo Submetido à Submissão do Corpo", in “Imagens de Foucault e Deleuze”, Rio de Janeiro, DP&A, 2002.
8 - Jurandir Freire Costa, “O Vestígio e a Aura: Corpo e Consumismo na Moral do Espetáculo”, Rio de Janeiro, Garamond, 2004.
9 - Paula Sibília, “O Homem Pós-orgânico”, Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 2002.

CAUSAS E RAZÕES DAS ILHAS DESERTAS (DL) gilles deleuze


[Manuscrito dos anos 50] 
Os geógrafos dizem que há dois tipos de ilhas. Eis uma informação preciosa para a imaginação, porque ela aí encontra uma confirmação daquilo que, por outro lado, já sabia. Não é o único caso em que a ciência torna a mitologia mais material e em que a mitologia torna a ciência mais animada. As ilhas continentais são ilhas acidentais, ilhas derivadas: estão separadas de um continente, nasceram de uma desarticulação, de uma erosão, de uma fratura, sobrevivem pela absorção daquilo que as retinha. As ilhas oceânicas são ilhas originárias, essenciais: ora são constituídas de corais, apresentando-nos um verdadeiro organismo, ora surgem de erupções submarinas, trazendo ao ar livre um movimento vindo de baixo; algumas emergem lentamente, outras também desaparecem e retornam sem que haja tempo para anexa-las.  Esses dois tipos de ilhas, originárias ou continentais, dão testemunho de uma oposição profunda entre o oceano e a terra. Umas nos fazem lembrar que o mar está sobre a terra, aproveitando-se do menor decaimento das estruturas mais elevadas; as outras lembram-nos que a terra está ainda aí, sob o mar, e congrega suas forças para romper a superfície. Reconheçamos que os elementos, em geral, se detestam, que eles têm horror uns dos outros. Nada de tranqüilizador nisso tudo. Do mesmo modo, deve parecer-nos filosoficamente normal que uma ilha esteja deserta. O homem só pode viver bem, e em segurança, ao supor findo (pelo menos dominado) o combate vivo entre a terra e o mar. Ele quer chamar esses dois elementos de pai e mãe [12], distribuindo os sexos à medida do seu devaneio. Em parte, ele deve persuadir-se de que não existe combate desse gênero; em parte, deve fazer de conta que esse combate já não ocorre. De um modo ou de outro, a existência das ilhas é a negação de um tal ponto de vista, de um tal esforço e de uma tal convicção. Será sempre causa de espanto que a Inglaterra seja povoada, já que o homem só pode viver sobre uma ilha esquecendo o que ela representa. Ou as ilhas antecedem o homem ou o sucedem. 

GILLES DELEUZE - A ILHA DESERTA E OUTROS TEXTOS


esta é a postagem da apresentação e aos poucos trarei os demais escritos que compõem o livro.
Textos e entrevistas (1953-1974) - Edição preparada por David Lapoujade 
Tradução brasileira 
Editora Iluminuras
2006

[7]
APRESENTAÇÃO NRT
David Lapoujade

Este primeiro volume reagrupa a quase totalidade dos textos de Gilles Deleuze publicados na França e fora dela entre 1953 e 1974, desde o aparecimento de Empirismo e subjetividade, sua primeira obra, até os debates subseqüentes à publicação de O anti-Édipo, escrito com Félix Guattari. No essencial, esta compilação compõe-se de textos já publicados – artigos, resenhas, prefácios, entrevistas, conferências – mas que não figuram em obra alguma já existente de Deleuze.

equipamentos - baremblit

BAREMBLITT, Gregorio. Compêndio de análise institucional e outras correntes; teoria e prática. 5.ed. Belo Horizonte, MG: Instituto Félix Guattari, 2002 (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2) 
[p.66 a 69]
“Denomina-se equipamentos a uma série de organizações, estabelecimentos, aparatos, maquinarias e tecnologias muito diversificados e inclusivos, de grande, médio ou pequeno porte, cuja finalidade fundamental (mas não única) está a serviço da repressão, do registro ou do controle social. Uma das maneiras possíveis de classifica-los é referindo-se ao tipo e grau de violência que empregam para cumprir sua função, enfatizando, além do mais que sua condição é mais propriamente determinada por essa função do que por sua materialidade, estrutura, forma, etc. Alguns exemplos conspícuos de equipamentos sãos os que certa tradição marxista chamava de ‘aparatos’. Estes cumprem funções eliminatórias, segregacionistas ou punitivas (como por exemplo, as Forças Armadas, a polícia, a censura cultural ou a Psiquiatria supressiva). Outros apontam para a doutrinação ou a informação tendenciosa (certa orientação da Religião, da Educação, da Comunicação de massas ou a Família).
 Mas um equipamento pode ser também uma determinada organização beneficente, ou certa modalidade de uso de um meio de transporte ou de um eletrodoméstico, assim também como técnicas de cuidado e gerenciamento da personalidade por parte das forças repressivas. O certo é que os equipamentos são predominantemente funcionais ao poder (seja do estado ou das entidades civis e privadas hegemônicas) e a reprodução da ordem constituída entendida como a soma do instituído-organizado.
De um dispositivo pode, de alguma maneira, dizer-se que é o contrário de um equipamento. Trata-se de uma montagem de elementos extraordinariamente heterogêneos que podem incluir ‘pedaços sociais’, naturais, tecnológicos e até subjetivos. Um dispositivo caracteriza-se pelo seu funcionamento, sempre simultâneo a sua formação e sempre a serviço da produção, do desejo, da vida, do novo. Um dispositivo forma-se da mesma maneira e ao mesmo tempo em que funciona, gerando acontecimentos revolucionários, transformadores. Embora seu tamanho e duração sejam tão variáveis quanto as materialidades que o compõem, têm a peculiaridade de nascer, operar e extinguir-se enquanto seu objetivo de metamorfose e subversão histórica se realizam. Um dispositivo em geral não respeita, para sua montagem e funcionamento, os territórios estabelecidos e os meios consagrados; pelo contrário, os faz explodirem e os atravessa, conectando singularidades cuja relação era insuspeitável e imprevisível. Gera, assim, o que se denomina linhas de fuga do desejo, da produção e da liberdade, acontecimentos inéditos e invenções nunca antes conhecidas. Nesse sentido, é óbvio que os dispositivos, também chamados agenciamentos, têm a ver com a transversalidade e, num sentido restrito, com o instituinte-organizante.
Um grupo político sujeito (quer dizer, que se dá seus próprios meios e leis inseparáveis de seus fins e que não pretende persistir mais além de seu objetivo revolucionário), um descobrimento científico, um pensador original e libertário, um inovador dos costumes sexuais ou das convicções éticas podem constituir-se num dispositivo, assim como podem sê-lo certa arrumação de máquinas técnicas (como as rádios livres) ou a defesa da natureza (como os movimentos ecológicos). Por último, digamos que um dispositivo não é uma obra de indivíduos ou sujeitos, ele os inclui, os constitui e os ‘maquina’ para concretizar suas realizações.
Em diferentes momentos da constituição de um campo de análise e/ou intervenção, os institucionalistas efetuam vários tipos de diagnósticos – sempre provisórios – da estrutura, dinâmica, processos, contradições principais e secundárias, opositivas e antagônicas, conflitos, defesas, mecanismos, magnitudes de produção, reprodução e antiprodução, analisadores, potências, poderes, territórios, linhas de fuga, equipamentos, dispositivos da área ou organização intervinda. O diagnóstico é importante para justamente instituir, organizar, planejar, antecipar, decidir os passos, que comentaremos em seguida, tais como: contrato, estratégia, logística, táticas, técnicas. Isso sem esquecer que boa parte do percurso é imprevisível.
Os institucionalistas, para efetuar análises – seguidas ou não de intervenções – precisam fazer acordos, pactos, convênios (ou como se queira chamá-los) com as organizações, estabelecimentos ou, simplesmente, com os coletivos de usuários ‘clientes’. A estes acordos costuma-se denominar contrato. Eles versam sobre os compromissos mútuos em que se explicitam os respectivos deveres e direitos das partes interessadas. Em muitos aspectos, o contrato institucionalista é semelhante a qualquer outro de prestação de serviços. Trata principalmente de tempo (duração total, freqüência dos trabalhos), honorários ou outro tipo de retribuição, delimitação de objetivos e autorização de acesso aos materiais investigados, promessas de sigilo quanto à informação obtida durante a investigação etc. Como veremos, é importante estar atento ao fato de que nem sempre o contrato representa um acordo com a totalidade do coletivo intervindo, mas com certos segmentos do mesmo. Por outro lado, tem especial significação qual é a relação jurídica (emprego, serviço profissional independente, solidariedade militante etc.) que fundamenta o contrato. Mas o essencial a recordar é que o contrato no Institucionalismo não é uma operação comercial externa ao processo que a intervenção, como serviço, deflagra. Os diversos aspectos do contrato – tempo, dinheiro, contratantes, objetivos, expectativas – são analisadores emergentes da problemática a ser pesquisada. Seu tratamento já é parte ativa da análise e da intervenção.
Designa-se por logística o balanço que os institucionalistas fazem de todas as forças, habilidades, elementos, recursos, etc. de que se dispõe ao começar uma intervenção; quer dizer, com que se pode contar, a favor e contra, para poder levar o trabalho adiante com um mínimo de possibilidade de realização.
A estratégia sistematiza os grandes objetivos a serem conseguidos (cuja máxima expressão é a auto-análise e autogestão do coletivo intervindo), assim como a progressão das manobras, dos espaços e territórios que se colocarão, a previsão de vicissitudes, opções, alternativas, avanços, retrocessos etc.
As técnicas são pequenos segmentos nos quais se decompõem a estratégia. Para dar um exemplo bélico, totalmente metafórico: a estratégia decide se será uma guerra de ocupação, de fronteiras, punitiva ou de extermínio parcial; se essa guerra se dará por terra, mar ou ar, quais serão os aliados, simpatizantes, neutros e inimigos etc. As táticas referem-se a batalhas circunscritas, à área onde se desenvolvem, a participação da infantaria, cavalaria, o horário, os movimentos de tropas etc. As técnicas, prosseguindo com a metáfora, aludem aos armamentos propriamente ditos: fuzis, morteiros, granadas etc.
No Institucionalismo é fácil fazer a transposição do que seja a logística, a estratégia e as técnicas do campo bélico ao campo da intervenção, sem tomá-las ao pé da letra. É interessante enfatizar drasticamente que, no Institucionalismo, uma vez que se adquira uma base de entendimento do panorama de uma organização e se concretizem os primeiros dispositivos para um contrato e diagnóstico provisórios, enquanto já se têm, baseados nisso, esboços de uma logística, estratégia geral e primeiras táticas, a eleição de técnicas é consideravelmente livre. Quer dizer: será ditada pela inspiração e treinamento, assim como pelas predisposições pessoais da equipe operadora, objetivo geral e objetivo imediato perseguido e peculiaridades do coletivo em pauta.
Procedimentos interpretativos, informativos, esclarecedores, de sensibilização, de expressão, de discussão, agenciamentos artísticos, desportivos, convivenciais, lúdicos, praticados em grupos e em assembléias podem ser adotados segundo as circunstâncias.
 buscado em: cooperação.sem.mando

A de Animal - abecedário de deleuze

CP: Então começamos com A. A é Animal. Poderíamos considerar sua a frase de W. C. Fields: “Um homem que não gosta nem de crianças, nem de animais não pode ser totalmente ruim”. Por enquanto, deixemos de lado as crianças, sei que você não gosta muito de animais domésticos, e nem prefere, como Baudelaire ou Cocteau, os gatos aos cachorros. Em compensação, você tem um bestiário, ao longo de sua obra, que é bastante repugnante, ou seja, além das feras, que são animais nobres, você fala muito do carrapato, do piolho, de alguns pequenos animais como esses, repugnantes, e além disso, que os animais lhe serviram muito desde O anti-Édipo. Um conceito importante em sua obra é o devir-animal. Qual é, então, sua relação com os animais?
GD: Os animais não são... O que você disse sobre minha relação com os animais domésticos, não é o animal doméstico, domado, selvagem, o que me preocupa. O problema é que os gatos, os cachorros, são animais familiares, familiais, e é verdade que desses animais domados, domésticos, eu não gosto. Em compensação, gosto de animais domésticos não-familiares, não-familiais. Gosto, pois sou sensível a algo neles. Aconteceu comigo o que acontece em muitas famílias. Não tinha gato, nem cachorro. Um de meus filhos com Fanny trouxe, um dia, um gato que não era maior que sua mãozinha. Ele o tinha encontrado, estávamos no campo, em um palheiro, não sei bem onde, e a partir desse momento fatal, sempre tive um gato em casa. O que me incomoda nesses bichos? Bem, não foi um calvário, eu suporto, o que me incomoda... não gosto dos roçadores, um gato passa seu tempo se roçando, roçando em você, não gosto disso. Um cachorro é diferente, o que reprovo, fundamentalmente, no cachorro, é que ele late. O latido me parece ser o grito mais estúpido. E há muitos gritos na Natureza! Há uma variedade de gritos, mas o latido é, realmente, a vergonha do reino animal. Suporto, em compensação, suporto mais, se não durar muito, o grito, não sei como se diz, o uivo para a lua, um cachorro que uiva para a lua, eu suporto mais.

o abecedário de gilles deleuze


dia desses, um amigo enviou-me mail solicitando alguns verbetes do abecedário de deleuze, que eu ainda não havia postado aqui no blog... assimassim, para quem não sabe de que diabos se trata esse tal de abecedário, estou postando a introdução da gravação e aos poucos vou trazendo os verbetes... no mais, não disponho do registro sobre quem tenha feito a transcrição. aí vai...
O ABECEDÁRIO DE GILLES DELEUZE
TRANSCRIÇÃO INTEGRAL DO VÍDEO, PARA FINS EXCLUSIVAMENTE DIDÁTICOS

A de Animal
B de Beber
C de Cultura
D de Desejo
E de Enfance [Infância]
F de Fidelidade
G de Gauche [Esquerda]
H de História da Filosofia
I de Idéia
J de Joie [Alegria]
K de Kant
L de Literatura
M de Maladie [Doença]
N de Neurologia
O de Ópera
P de Professor
Q de Questão
R de Resistência
S de Style [Estilo]
T de Tênis
U de Uno
V de Viagem
W de Wittgenstein
X de Desconhecido
Y de Indizível
Z de Ziguezague


A cláusula
Claire Parnet [1994]: Gilles Deleuze sempre se negou a aparecer na TV. Mas atualmente ele acha sua doença tão parecida com a petite mort, da canção de A. Souchon, que mudou de opinião. Mantive, porém, sua declaração [“a cláusula”], feita em 1988, no início da filmagem:
Gilles Deleuze [1988]: Você escolheu um abecedário, me preveniu sobre os temas, não conheço bem as questões, mas pude refletir um pouco sobre os temas... Responder a uma questão, sem ter refletido, é para mim algo inconcebível. O que nos salva é a cláusula. A cláusula é que isso só será utilizado, se for utilizável, só será utilizado após minha morte.
Então, já me sinto reduzido ao estado de puro arquivo de Pierre-André Boutang, de folha de papel, e isso me anima muito, me consola muito, e quase no estado de puro espírito, eu falo, falo ...após minha morte... e, como se sabe, um puro espírito, basta ter feito a experiência da mesa girante [do espiritismo], para saber que um puro espírito não dá respostas muito profundas, nem muito inteligentes, é um pouco vago, então está tudo certo, tudo certo para mim, vamos começar: A, B, C, D... o que você quiser. 
buscado em: cooperação.sem.mando

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Silencio


por clarice lispector

Es tan vasto el silencio de la noche en la montaña. Y tan despoblado. En vano uno intenta trabajar para no oírlo, pensar rápidamente para disimularlo. O inventar un programa, frágil punto que mal nos une al súbitamente improbable día de mañana. Cómo superar esa paz que nos acecha. Silencio tan grande que la desesperación tiene vergüenza. Montañas tan altas que la desesperación tiene vergüenza. Los oídos se afilan, la cabeza se inclina, el cuerpo todo escucha: ningún rumor. Ningún gallo. Cómo estar al alcance de esa profunda meditación del silencio. De ese silencio sin memoria de palabras. Si es muerte, cómo alcanzarla.
Es un silencio que no duerme: es insomne; inmóvil, pero insomne; y sin fantasmas. Es terrible: sin ningún fantasma. Inútil querer probarlo con la posibilidad de una puerta que se abra crujiendo, de una cortina que se abra y diga algo. Está vacío y sin promesas. Si por lo menos se escuchara al viento. El viento es ira, la ira es vida. O nieve. La nieve es muda pero deja rastro, lo emblanquece todo, los niños ríen, los pasos resuenan y dejan huella. Hay una continuidad que es la vida. Pero este silencio no deja señales. No se puede hablar del silencio como se habla de la nieve. No se puede decir a nadie como se diría de la nieve: ¿oíste el silencio de esta noche? El que lo escuchó, no lo dice.
La noche desciende con las pequeñas alegrías de quien enciende lámparas, con el cansancio que tanto justifica el día. Los niños de Berna se duermen, se cierran las últimas puertas. Las calles brillan en las piedras del suelo y brillan ya vacías. Y al final se apagan las luces más distantes.
Pero este primer silencio todavía no es el silencio. Que espere, pues las hojas de los árboles todavía se acomodarán mejor, algún paso tardío tal vez se oiga con esperanza por las escaleras.
Pero hay un momento en que del cuerpo descansado se eleva el espíritu atento, y de la tierra, la luna alta. Entonces él, el silencio, aparece.
El corazón late al reconocerlo.
Se puede pensar rápidamente en el día que pasó. O en los amigos que pasaron y para siempre se perdieron. Pero es inútil huir: el silencio está ahí. Aun el sufrimiento peor, el de la amistad perdida, es sólo fuga. Pues si al principio el silencio parece aguardar una respuesta —cómo ardemos por ser llamados a responder—, pronto se descubre que de ti nada exige, quizás tan sólo tu silencio. Cuántas horas se pierden en la oscuridad suponiendo que el silencio te juzga, como esperamos en vano ser juzgados por Dios. Surgen las justificaciones, trágicas justificaciones forzadas, humildes disculpas hasta la indignidad. Tan suave es para el ser humano mostrar al fin su indignidad y ser perdonado con la justificación de que es un ser humano humillado de nacimiento.
Hasta que se descubre que él ni siquiera quiere su indignidad. Él es el silencio.
Puede intentar engañársele, también. Se deja caer como por casualidad el libro de cabecera en el suelo. Pero, horror, el libro cae dentro del silencio y se pierde en la muda y quieta vorágine de éste. ¿Y si un pájaro enloquecido cantara? Esperanza inútil. El canto apenas atravesaría como una leve flauta el silencio.
Entonces, si se tiene valor, no se lucha más. Se entra en él, se va con él, nosotros los únicos fantasmas de una noche en Berna. Que entre. Que no espere el resto de la oscuridad delante de él, sólo él mismo. Será como si estuviéramos en un navío tan descomunalmente grande que ignoráramos estar en un navío. Y éste navegara tan largamente que ignoráramos que nos estamos moviendo. Más de eso, nadie puede. Vivir en la orla de la muerte y de las estrellas es una vibración más tensa de lo que las venas pueden soportar. No hay, siquiera, un hijo de astro y de mujer como intermediario piadoso. El corazón tiene que presentarse frente a la nada sólito y sólito latir alto en las tinieblas. Sólo se escucha en los oídos el propio corazón. Cuando éste se presenta completamente desnudo, no es comunicación, es sumisión. Además, nosotros no fuimos hechos sino para el pequeño silencio.
Si no se tiene valor, que no se entre. Que se espere el resto de la oscuridad frente al silencio, sólo los pies mojados por la espuma de algo que se expande dentro de nosotros. Que se espere. Un insoluble por otro. Uno al lado del otro, dos cosas que no se ven en la oscuridad. Que se espere. No el fin del silencio, sino la ayuda bendita de un tercer elemento, la luz de la aurora.
Después, nunca más se olvida. Es inútil intentar huir a otra ciudad. Porque cuando menos se lo espera, se puede reconocerlo de repente. Al atravesar la calle en medio de las bocinas de los autos. Entre una carcajada fantasmagórica y otra. Después de una palabra dicha. A veces, en el mismo corazón de la palabra. Los oídos se asombran, la mirada se desvanece: helo ahí. Y desde entonces, él es fantasma.
buscado em: cooperação.sem.mando

Por que é preciso criminalizar a homofobia


Entrevista com Willian do Santos, vítima de atentado que repercute intensamente nas redes sociais. Agredido em Porto Alegre no domingo, garoto perdeu quatro dentes, mas garante que não deixará caso passar em branco
Por Rachel Duarte, no Sul21 | Fotos: Daniela Bitencourt
“Tudo que aconteceu comigo é reversível. O que permanecerá em mim é a lembrança da tragédia. Esta eu levarei para o resto da vida”, disse ao Sul21 o jovem Willian dos Santos, vítima de agressão por homofobia no último domingo (5), em Porto Alegre. Com dificuldades na fala, em razão da perda de quatro dentes e deslocamento da mandíbula, por conta da violência sofrida ao sair do cinema no bairro Cidade Baixa, o estudante de 20 anos está disposto a não deixar o caso passar em branco. “O que aconteceu comigo, aconteceu com outras pessoas e pode acontecer de novo. Estou a disposição do estado para novos esclarecimentos”, disse.

Para bispo, ministra é 'infeliz, mal-amada_e_irresponsável'


o bispo josé benedito simão (SP), que parece não saber que vivemos num Estado laico e que parece ser um homem feliz, bem-amado e responsável (estou ironizando sua fala sobre a ministra!), também parece não saber que a posição da Igreja sobre a vida e sobre o aborto, não seja a mesma posição da maioria das gentes... principalmente daquelas mulheres cuja gestação não produz, necessariamente, a vida!
se o bispo tem feridas abertas e que estavam quase cicatrizando, talvez possa tratar disso contemplando e considerando o que seja a vida, o desejo e a necessidade das mulheres e das gentes... e não querendo impor a posição da igreja como uma decisão e posição de Estado!
aí vai a matéria sobre a manifestação pública do bispo:
O bispo de Assis (SP), d. José Benedito Simão, presidente da Comissão pela Vida da regional Sul 1 (Estado de São Paulo) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), disse ontem que a nova ministra da Secretaria de Política para as Mulheres, Eleonora Menicucci, "é uma pessoa infeliz, mal-amada e irresponsável", que "adotou uma postura contra o povo e em favor da morte" ao defender o aborto em declarações dadas à imprensa. Informada, a ministra não quis comentar as críticas feitas pelo bispo.
A reportagem é de Chico Siqueira e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 11-02-2012.
"Recebo com muita indignação as palavras da nova ministra, cuja pasta tem uma grande responsabilidade em favor da vida da mulher", afirmou d. José - para quem a ministra abriu uma polêmicas que pode criar um confronto entre Igreja e governo. "Ela é infeliz, mas ninguém precisa ficar sabendo. Seu discurso mostra que ela pode estar reabrindo feridas que estavam cicatrizando", disse ainda o bispo, referindo-se aos debates ocorridas no fim do governo Lulasobre aborto no Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH-3). "Ela tem obrigação de apresentar programas que gerem vida, e não morte. Deve falar em defesa da mulher, em defesa da vida, mas se posicionou a favor do homicídio, ao defender o aborto", protestou.

O bispo também reclamou das declarações da ministra sobre as preferências sexuais de sua filha, afirmando que ela "deveria tomar mais cuidado para não dar mau exemplo para nossos adolescentes".

Panfletos
D. José, de 61 anos, ficou conhecido em janeiro de 2010, quando divulgou panfletos chamando Lula de "novo Herodes", por levar adiante o PNDH 3. Os panfletos voltaram a circular em outubro, em plena campanha presidencial de segundo turno, mas foram apreendidos em uma gráfica do Cambuci, em São Paulo. A gráfica informou que a encomenda lhe fora feita pela diocese de Guarulhos.

Em outro trecho da entrevista de ontem, o bispo de Assis disse que vai seguir de perto os pronunciamentos da ministra. "Vamos acompanhar seu trabalho. Se os discursos forem nessa mesma linha (de defesa do aborto), vamos tomar algumas medidas de protesto, que podem ser panfletos ou manifesto público", acrescentou. E concluiu dizendo que "foi uma escolha infeliz do governo de Dilma", que poderia ter escolhido "uma pessoa mais responsável e equilibrada, mas colocaram essa pessoa para reacender temas polêmicos e complexos e reabrir feridas que estavam se fechando".

Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado aprova Ato Médico


A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado aprovou nesta quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012, o chamado Ato Médico. O PL segue agora para análise de duas Comissões do Senado: Educação, Cultura e Esporte (CE) e de Assuntos Sociais (CAS). Veja aqui o parecer que foi votado hoje.

A senadora Marta Suplicy (PT-SP), em sua fala, ressaltou a especificidade dos profissionais de saúde e citou a Psicologia, afirmando que como psicóloga não concorda com o dispositivo do diagnóstico nosológico, abordado no artigo 4º do PL, pois vai atrapalhar o exercício da profissão, visto que psicólogas e psicólogos também fazem diagnóstico nosológico, ou seja, diagnóstico de sinais e sintomas das doenças. A senadora, que é membro da Comissão de Assuntos Sociais, garantiu que vai fazer outra proposição ao texto do PL nesta Comissão.

O senador Humberto Costa (PT-PE), ex-ministro da saúde, falou que apesar de reconhecer o direito de regulamentar a Medicina, disse se incomodar com o tom corporativista que a discussão assumiu e que vai contra a visão multisetorial da saúde. “Em muitos casos, o psicólogo pode diagnosticar uma neurose simples, uma depressão e fazer uma psicoterapia”, ressaltou. Além disso, Costa destacou que os psicólogos possuem currículo muito parecido com o dos médicos.

A Psicologia deseja garantir que o Projeto de Lei passe por todas as comissões antes de seguir para o Plenário, pois não há concordância entre os profissionais de saúde que o texto do substitutivo encontra-se pronto para votação da forma como está.

O Conselho Federal de Psicologia mantém sua posição de questionar e manifestar-se contra os dispositivos corporativos do projeto e os dispositivos que demonstram interferência na atuação dos psicólogos e ameaçam a interdisciplinaridade do Sistema Único de Saúde (SUS). Por isso, mantemos a campanha contra a aprovação desse projeto e pedimos que todos enviem e-mail aos senadores da Comissão de Educação, Cultura e Esporte, clique aqui
buscado em: http://www.crprs.org.br/noticias_internas.php?idNoticia=1407

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

artigo sobre financiamento da Saúde


por José Carvalho de Noronha e Gustavo Souto de Noronha


“A sociedade burguesa se encontra diante de um dilema: ou avanço para o socialismo ou recaída na barbárie.” Friedrich Engels apud Rosa Luxemburgo (in: A Crise da Social-Democracia – Folheto Junius)
O Plano de Fundo

O dilema socialismo ou barbárie é de fundamental importância para qualquer discussão sobre a organização do Estado desde o século XIX. O padrão de produção, distribuição, acumulação e consumo hoje existente nas nações europeias e americanas do norte não é reproduzível para o conjunto das pessoas do mundo. Nos dias de hoje, já se consomem por ano as reservas de uma Terra e meia. Se os sete bilhões de habitantes da Terra adotassem o padrão de consumo dos Estados Unidos, seriam imediata- mente necessárias quatro Terras e meia! Vivenciamos uma crise ecológica sem precedentes e, como dizia Marx, a “produção capitalista só se desenvolve exaurindo as fontes originais de toda riqueza: a terra e o trabalhador”. Para evitar a barbárie, que, aliás, já se abate em várias partes do mundo, há que se agregar a defesa do planeta como parte indissociável da luta pelo socialismo.
Enquanto perdurou a ameaça do triunfo comunista com o “sucesso” soviético, o capitalismo europeu construiu estruturas de bem estar social. Este componente político também permitiu uma atuação maior do Estado na economia, sem asconstantes ameaças dos economistas do mercado. O fracasso soviético fez-se acompanhar da vitória do neoliberalismo e das ideias do Estado mínimo, e com elas a tentativa de desmonte de qualquer noção de proteção social.

APRESENTANDO NIETZSCHE, UM EXTEMPORÂNEO

Wanderley J. Ferreira Jr. participará, no dia 26 -02- 2012,  as 17h, do café filosófico no Bolshoi Pub, conversando/dialogando sobre Nietzsche e Heidegger, pensadores fundamentais para uma época que já não pensa, mas apenas planifica e calcula e na qual o homem é reduzido à condição de mero usuário-consumidor-mercadoria - aí vai um pequeno texto de 7 páginas no qual apresenta  Nietzsche.
Wanderley J. Ferreira Jr.
Filosofia – FE-UFG
wanderleyjr@fe.ufg.br

“... todas as minhas obras assemelham-se a anzóis: tenho a pretensão de entender melhor que qualquer outro dessas coisas relativas a caniços... Se a isca não foi abocanhada, a culpa não é minha. Não havia peixe...
[Nietzsche, Além de Bem e Mau. ]

A tentativa de apreender algum aspecto do pensamento de Nietzsche, através da eleição de noções ou temas supostamente fundamentais, corre o sério risco de se tornar estéril diante de sua forma de expressão fragmentária, aforismática e metafórica. Que sentido teria todas essas marteladas contra a moral, a religião, a metafísica, a cultura e as ciências? Existiria um alvo privilegiado  para os dardos de nosso filósofo? Sim, os valores supremos de nossa  civilização. Nietzsche coloca sob suspeita tudo que até hoje se venerou e amou como o Bem, o Belo e a Verdade, desmascarando esses grandes ideais como sintomas de decadência, fraqueza e aviltamento do que há de nobre e forte no homem. A filosofia teria, para Nietzsche, uma tarefa especial - a educação superior da Humanidade, o que exigiria uma transvaloração de todos os valores até então consagrados. Essa paidéia nietzschiana não visa a melhoria das massas, mas o aperfeiçoamento de um tipo novo de homem. Um homem que está para além de Bem e de Mal.
Como todo grande filósofo, Nietzsche pode ser considerado extemporâneo, inatual - aquele que, segundo ele mesmo,  nasceu cedo de um futuro ainda indemonstrado. Nietzsche sabia que seus contemporâneos não tinham olhos nem ouvidos para verem e ouvirem  a boa nova trazida por Zaratustra. Em meio a essa solidão, ele esperava a vinda de seus futuros leitores, que deveriam ter o dom da ruminação, além de aceitarem uma relação de cumplicidade com o filósofo no âmbito da  grande suspeita que ele levanta. O próprio Nietzsche reconhecia que seus escritos eram uma escola de suspeita contra tudo que até então se venerou e idolatrou. Nosso filósofo gostava de comparar seus escritos com o ar rarefeito das grandes altitudes, um ar fatal para os pulmões frágeis do homem de natureza bovina  acostumado a viver na planície.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

flecheira.libertária.233


um alvo,  
O ano começou com a espetacular ação policial que anunciou como objetivo acabar com a cracolândia. Governo, prefeitura, ONGs, religiosos e o conjunto da chamada sociedade civil organizada se mobilizou em torno  de soluções e opiniões que de início se apresentaram como divergentes. No entanto, o consenso se fez com  a identificação de um contingente de doentes indesejáveis que devem ser varridos das ruas ou terem a circulação controlada em abrigos, consultórios, alguma forma de confinamento. As medidas apresentadas alternaram defensores do tratamento ou repressão. Contudo, todos externaram sua compaixão aos desafortunados craqueiros do centro da cidade: voluntários ou não, devem ser confinados!.
a continuidade dos negócios 
A cracolândia é um produto imediato do proibicionismo. A utopia que se alimenta é a de que é possível acabar com o tráfico e com os usuários a médio ou longo prazo. Enquanto isso, policiais, ongueiros, especialistas, militantes, políticos, especuladores imobiliários,  seguem com um alvo comum para articular seus negócios e variados interesses. Os zumbis que vagam pelas ruas são apáticos o suficiente para se oferecerem seja  ao traficante, ao policial, ao tratador, enfim, ao primeiro condutor que ofereça a sua compaixão. Assim, se faz e se refaz um negócio com potencial quase infinito.
sobre a pele 
Há certo tempo que o olhar de vidro e polegar chamuscado característico das pessoas mortificadas pelo  crack ultrapassou as fronteiras da cracolândia. Em Itapetinga, cidade do estado da Bahia distante cerca de quinhentos quilômetros de Salvador, o rebanho que se entrega aos efeitos da pedra apresenta uma novidade. Parte dos denominados  craqueiros de Itapetinga são sustentados por um suplente de vereador que oferece uma nota de vinte reais para quem tatuar na pele o nome da loja da qual é proprietário. Recrutados para promoverem a loja de sela para cavalos e artigos para presentes, os  craqueiros de Itapetinga perambulam feito gado marcado para morrer.
basta de internações 
Um jornal de grande circulação publica pesquisa na qual propala que 90% dos entrevistados no país aprovam a internação involuntária de usuários de crack. Os psiquiatras corroboram, como era de se esperar. Cada um que concorda consente com uma faxina lucrativa dos restos, para restaurações conservadoras, para extermínios e investimentos bancados por grã-finos e madames. Internação é internação. E perto dela o crack, um dos atuais lixos rentáveis do tráfico capitalista, situa seu sinônimo correlato: internação=crack=quebra. Uma das principais eficácias políticas da internação, sob que pretexto for, é a de que ela é capaz de quebrar definitivamente uma pessoa, tornando-a um zumbi ou o solícito energizado disposto à mortificação assujeitada, em nome da segurança e qualidade de vida. A internação reafirma o mortificado pró-ativo, seja nos espaços destinados a “tratamentos”, seja nas cracolândias urbanas, seja nos campos de cortadores de cana submetidos ao trabalho escravo, seja nos cárceres para crianças e jovens.
terrorismos 
Além dos inúmeros relatórios e programas que anunciam soluções ou paliativos à crise europeia, a chamada comunidade internacional, por meio da ONU, externa suas preocupações com o crescimento dos extremismos e dos terrorismos no velho continente. Os porta-vozes da comunidade internacional dizem se empenhar em ações contra os grupos de extrema direita, em especial os neonazistas que perseguem e matam ciganos, judeus  e árabes, e de extrema esquerda, com destaque aos grupos anarquistas na Grécia. É preciso lembrar que antes de analistas e políticos falarem em crise, os jovens libertários gregos já alertavam para o desastre que  o livre mercado produzira na Europa. Há uma diferença considerável em atacar bancos, empresas e instituições do governo e atacar violentamente pessoas na rua.
os donos das soluções 
O justo meio liberal que tende a aproximar pelas pontas o radicalismo de esquerda e de direita reitera sua hipocrisia em achar que está sempre com ele a solução para os problemas. Enquanto isso, o justo meio liberal quer igualar como alvo de sua repressão o que está  em diametral oposição, ou seja, os fascistas que visam exterminar com sua covardia pútrida parte da população que identificam como principais culpadas de seu infortúnio e libertários que corajosamente não se calam diante da investida do Estado e afirmam por ações que a liberdade é mais importante do que segurança e pão.
SOPA/PIPA 
Em janeiro, por uma semana, as redes sociais ficaram mais agitadas. Pipocaram links sobre o SOPA/PIPA (proposta de lei antipirataria e de regulação de direito autoral) e as reclamações contrárias. O que a Wikipédia, o Google, o Facebook e a Fundação Mozilla reclamam é por uma regulação mais flexível de circulação de dados na internet. Da mesma maneira que, sob a ditadura chinesa, as grandes marcas da NASDAQ pretendem o controle exclusivo do mercado, em nome da "liberdade de expressão" e do "conhecimento livre". Disputam o compartilhamento pelo controle político da propriedade da informação.
devidamente localizados 
Na velocidade das redes sociais, o  feed  de notícias não para de ser atualizado. Enquanto isso, os efeitos do SOPA/PIPA repercutem no funcionamento de grandes sites. O Google já bloqueia alguns termos de busca e o Facebook  começa a reformular sua política de privacidade, como já ocorre na China, na Índia e no Paquistão. Com ou sem SOPA/PIPA, importa a continuidade do controle e estimular a troca de bits entre usuários localizáveis, por meio da seletividade dos termos de busca. Não existe palavra livre.
dois ou mais de três em um 
Há os zumbis do crack. Serão tantos quanto os hikikomoris, designação que no Japão se dá aos que vivem colados ao computador? Serão tantos quanto os falastrões do Facebook? Serão menos que os serviçais inovadores de programas a fomentar a racionalidade neoliberal? Serão o que é ou o que será? 

Drogas: incompreensão e moralismo também na esquerda




“Nosso povo” faz, sim, uso problemático de drogas. Assim como faz usos medicinais, culturais e contraculturais, religiosos, científicos, filosóficos e recreacionais destas substâncias
Por Júlio Delmanto, no Brasil de Fato
O conceito de fetiche é comum aos principais pensadores nascidos do século XIX, Karl Marx e Sigmund Freud. Se em Marx o fetichismo (da mercadoria) é utilizado como ferramenta descritiva de obscurecimento das relações sociais, que passam a ser encaradas como relações entre coisas por conta da dinâmica imposta pelo Capital, em Freud o fetichismo é também ocultamento, mas da falta que nasce com a recusa em se admitir a diferença sexual entre homem e mulher. Em ambos os casos, o conceito é utilizado para descrever mecanismos de ocultamento de um problema, processo que leva a atenção a deslocar-se do central e focar-se em algum aspecto aparente e superficial.

Hora de cuidar das doenças esquecidas



 
Num encontro internacional, laboratórios públicos do Sul formam rede que tentará produzir medicamentos contra enfermidades que não “interessam” às transnacionais  
Por Fabiana FrayssinetEnvolverde/IPS

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

"O comunismo é a ideia da emancipação de toda humanidade"


O filósofo francês Alain Badiou é um homem que não teme riscos: nunca renunciou a defender um conceito que muitos acreditam ter sido queimado pela história: o comunismo. Em entrevista à Carta Maior, Badiou fala da “ideia comunista” ou da “hipótese comunista”. Segundo ele, tudo o que estava na ideia comunista, sua visão igualitária do ser humano e da sociedade, merece ser resgatado em um mundo onde tudo passou a ter um valor mercantil. Pensador crítico da modernidade, Badiou define o processo político atual como uma “guerra das democracias contra os pobres”.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

entrevista com félix guattari

entrevista com félix guattari - parte I
buscado em: http://www.youtube.com/watch?v=jXi8eNHlSM4


entrevista com félix guattari - parte II
buscado em: http://www.youtube.com/watch?v=hUj-UmEvITE&feature=related


entrevista com félix guattari - parte III
buscado em: http://www.youtube.com/watch?v=Fk_OrkMG5YI&feature=related


entrevista com félix guattari - parte IV
buscado em: http://www.youtube.com/watch?v=aleBHgDS-Qg&feature=related


entrevista com félix guattari - parte V
buscado em: http://www.youtube.com/watch?v=CV_w--wir50&feature=related


entrevista com félix guattari - parte VI
buscado em: http://www.youtube.com/watch?v=ANZGFvaq2lg&feature=related