segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Deleuzeanas

VIDA (OU VITALIDADE) NÃO-ORGÂNICA - Vie (ou vítalité) non-organique]
Por: François Zourabichvili, em: O VOCABULÁRIO DE DELEUZE
"Há um laço profundo entre os signos, o acontecimento, a vida, o vitalismo. É a potência de uma vida não-orgânica, aquela que pode haver numa linha de desenho, de escrita ou de música. São os organismos que morrem, não a vida. Não existe obra que não indique uma saída para a vida, que não trace um caminho por entre as vias. Tudo o que escrevi era vitalista, pelo menos eu espero, e constituía uma teoria dos signos e do acontecimento." (P,196)
* É raro a palavra "vitalismo" ser empregada com o rigor de um conceito. Como todo o mundo, os filósofos têm seus momentos pouco gloriosos, quando descobrem, sem admi¬ti-lo, o interesse de cultivar uma doxa que lhes é própria, manter o equívoco de certas palavras a fim de poder jogá¬las na cara do adversário como diploma de infâmia. Logo, por que não denunciar o vitalismo de Deleuze, uma vez que ele próprio incessantemente o reivindicava para si? É deci¬sivo, nesse tipo de manobra infra-filosófica, não saber do que se fala. Invocar o vitalismo refere-se mais ou menos a duas coisas: a um certo extravio das ciências naturais no século XVIII numa espécie de mística que se esquiva a qual¬quer esforço verdadeiro de explicação (postulação de um "princípio vital" como razão última do vivente); e ao culto da vitalidade, que se propaga diversamente na Europa no fim do século XIX, reivindicado mais tarde por um certo número de movimentos políticos, entre os quais o fascismo (invocação de um gênio da raça, do povo ou do indivíduo, e dos direitos superiores da vida em sua luta com forças reputadas degeneradas). A recusa da idéia de espontanei¬dade, corolário da teoria do desejo-máquina, deveria bas¬tar para afogar no ridículo qualquer exploração insinuante do uso deleuziano da palavra "vitalismo". É verdade que, para isso, é preciso alçar-se a um plano filosófico. Nunca encontraremos em Deleuze um conceito de vida em geral. Se ele se interessa pela noção nietzschiana de "vontade de poder", e se a identifica em última instância à duração-me¬mória de Bergson, é em primeiro lugar por deduzir daí o caráter diferenciado-diferenciável, que exclui o recurso à vida como valor transcendente independente da experien¬cia, preexistente às formas concretas e trans-individuais nas quais é inventada (NPh, caps. II-III, sobretudo 56-9, 114-6; IT, 179-92). Logo, não há vida em geral, a vida não é um absoluto indiferenciado, mas uma multiplicidade de pla¬nos heterogêneos de existência, repertoriáveis segundo o tipo de avaliação que os comanda ou os anima (distribui¬ção de valores positivos e negativos); e essa multiplicidade atravessa os indivíduos mais do que os distingue uns dos outros (ou ainda: os indivíduos só se distinguem em fun¬ção do tipo de vida dominante em cada um deles). Em se¬gundo lugar, Deleuze busca nesse conceito uma problemática que permita superar a alternativa da moral fundada em valores transcendentes e do amoralismo niilista ou relativista, que toma como pretexto a facticidade destes úl¬timos para concluir que "tudo se equivale". Mais precisa¬mente, devemos distinguir duas formas de relativismo, das quais apenas uma é niilista: "não é a variação dá verdade segundo o sujeito, mas a condição sob a qual desponta para o sujeito a verdade de uma variação" (Le pli, 27). Uma coisa e afirmar que a verdade depende do ponto de vista de cada um; outra é dizer que a verdade é muito relativa a um pon¬to de vista, mas que nem por isso todos os pontos de vista são equivalentes. Mas como um ponto de vista se arrogaria superioridade na ausência de qualquer critério objetivo que permitisse avaliar as pretensões de fora? Ao assumir preci¬samente essa condição, e, por conseguinte, ao colocar o pro¬blema de uma avaliação imanente dos pontos de vista ou das avaliações que condicionam cada modo de existência (SPE, 247-9; IT, 184-5; QPh, 72; CC, cap. XV). É superior o modo de existência que consiste na prova mútua dos modos de existência, ou que se empenhe em fazê-los ressoar uns nos outros. São verdadeiras a distância ou o conjunto das dis¬tâncias experimentadas e a seleção imanente que aí se ope¬ra. Isso significa dizer que a verdade é criação, não no sentido em que Deus poderia tê-la feito outra (Descartes), mas no sentido em que é relativa à perspectiva que um pensador ou um artista pôde adotar sobre a variedade dos modos de existência e dos sistemas de valores disponíveis (IT, 191). Mas a questão reverbera: em que sentido o ponto de vista que ordena os pontos de vista seria superior aos outros? Por que, além disso, podemos afirmar que os pontos de vis¬ta se organizam na experiência? Por que o modo de existên¬cia criador é o único aberto, o único a se problematizar a si próprio e a viver a existência como problema? Essa respos¬ta correria o risco de reintroduzir a finalidade e de comprometer a condição de imanência. Perguntemos então por que vale mais definitivamente pensar do que não pensar. A res¬posta deleuziana é que pensar é mais intenso. Ponderemos aqui com prudência a objeção que ocorre ao espírito: decer¬to é na experiência que aprendemos a superioridade intensi¬va dos afectos - isto é: do encontro com o heterogêneo ou com o fora pelo qual toda a afectividade se vê abalada e redistribuída - sobre as afeições comuns -; mas isso ainda não seria, sob a aparência de um enunciado último, um cri¬tério exterior de juízo, a reintrodução disfarçada de um va¬lor transcendente - a intensidade -, assinalando assim o fra¬casso do programa de avaliação imanente? Em última ins¬tância, a intensidade é um critério imanente porque a auto¬afirmação de nossas faculdades coincide com a afirmação do novo, da saída, do afecto, e com isso determina a inten¬sidade - sejam quais forem os terrores que a acompanhem - como alegria.
Portanto, Deleuze pode chamar mais especificamente vida ou vitalidade não a multiplicidade das formas de vida, mas aquela entre essas formas em que a vida - o próprio exercício de nossas faculdades - se quer a si mesma: forma paradoxal, a bem da verdade, mais próxima do informe. Aí também, reconhecemos uma inspiração nietzschiana, e de¬vemos reafirmar, embora de outra forma, a ausência em Deleuze de um conceito de vida ou de vitalidade em geral: por um lado, porque a vida tal como ele a concebe é sempre e inseparavelmente vida não-orgânica (ou ainda não-pessoal - cf. LS, 177; D, 61; etc); por outro, porque sendo o próprio da vitalidade não-orgânica e sua criatividade e por conse¬guinte sua imprevisibilidade (certamente não um tesouro natural ou originário que bastaria exteriorizar), procuraría¬mos em vão sua forma padrão (ainda que nada impeça de conferir à vitalidade não-orgânica, imitando desoladamente, tristemente, a imagem que dela inevitavelmente Deleuze fornece, ela que não obstante é "sem imagem"; assim como é possível venerar o rizoma na sombra de uma inspiração rizomática). Vida não-orgânica: a expressão, que vem de Worringer (MP, 619-24; FB-LS, 34 e 82; IM, 75-82), é sobre¬determinada pelo conceito de "corpo sem órgãos", oriundo de Artaud (FB-LS, 33-4. CC, 164) e pelo pensamento de Bergson (IT, 109). Detenhamo-nos aqui sobre o que advém de Bergson: "a vida como movimento se aliena na forma material por ela suscitada" (B,108), a vida é criação, mas o vivo é fechamento e reprodução, de modo que o elã vital - assim como a duração - dissocia-se a cada instante em dois movimentos: um de atualização-diferenciação numa espé¬cie ou forma orgânica, o outro por meio do qual ele se recu¬pera como totalidade virtual sempre aberta a cada uma de suas diferenciações; assim, "não é o todo que se fecha à maneira de um organismo, é o organismo que se abre sobre um todo, e à maneira desse todo virtual" (B, 110). É, por conseguinte, recusando-se a circunscrever a vida nos limi¬tes do vivo formado, e assim a definir a vida pela organiza¬ção, que a tendência evolutiva ou criadora que atravessa o vivente pode ser pensada, para além da alternativa insatis¬fatória do mecanismo e do finalismo. Essa recusa leva, na¬turalmente, seja a se proporcionar a vida sob a forma de um princípio distinto da matéria, seja a conceber a matéria mes¬ma como vida, não - como vimos - aí alojando almas dire¬trizes, o que apenas comprovaria a incapacidade de sair da imagem da vida como organização ou como subjetividade constituída, mas designando como vida a atividade criado¬ra anônima da matéria que, a um dado momento de sua evolução, faz-se organização: essa segunda via desemboca na concepção de uma vitalidade fundamentalmente inor¬gânica. Não existe nisso capricho terminológico, menos ain¬da - salvo se nos esquivarmos ao raciocínio lógico e nos deixarmos preocupar pelas prevenções da doxa - de fantas¬magoria mística; o que está em jogo nessa redefinição da vida, vamos repetir, é pensar em que o vivente formado está em excesso sobre sua própria organização, em que a evolução o atravessa e o transborda (sua lógica não pode senão contestar e competir com a do darwinismo - com¬preende-se por que Deleuze, em seu estudo do devir, tenha particularmente meditado sobre os casos de mutualismo ou de co-evolução, trevo e zangão, vespa e orquídea, para os quais a teoria da evolução não fornece explicação satisfató¬ria: cf. MP, 17). Finalmente, se a vida deve ser concebida aquém da organização, como pura criação da natureza, não se deve suspeitar da mínima metáfora em sua invocação para além - vida psíquica e criação de pensamento. Com efeito, todo processo deriva da vida não-orgânica na medi¬da em que não reconduz a uma forma constituída mas dela escapa, e só esboça uma nova para já escapulir para outra parte, para outros esboços: o que aqui é chamado "vida" não depende da natureza dos elementos (formação mate¬rial, psíquica, artística etc.), mas da relação de desterritoria¬lização mútua que os arrasta para limiares inéditos (a orga¬nização, por exemplo, é um limiar transposto pela matéria - seja dito para simplificar ao extremo; e na relação da ves¬pa e da orquídea, deve-se considerar a vida não-orgânica do "bloco de devir" que carrega as duas formas de vida organizada, as entrelaça uma à outra até transpor um li¬miar de existência em que elas se pressupõem mutuamen¬te). A vida não-orgânica é um exemplo típico de conceito deleuziano, irredutível à atribuição de um domínio próprio, suscetível por conseguinte de um uso literal, qualquer que seja o domínio abordado, e de um uso "transversal", que combine numa igual literalidade uma multiplicidade de domínios quaisquer, por mais heterogêneos que sejam. Com isso, aproximamo-nos: da concepção deleuzo-guattariana da natureza, que não reconhece mais a cisão entre natural e artificial; do conceito de plano de imanência; enfim, natu¬ralmente, da experiência do corpo pensado sob a condição da referência a um corpo sem órgãos.

domingo, 10 de outubro de 2010

DIVULGAÇÃO: Por um novo padrão de desenvolvimento

Por um novo padrão de desenvolvimento – 08/10/2010
Dois militantes históricos do PT propõem à esquerda rever sua visão de progresso e questionar a ideia de que a natureza e recurso a ser explorado
Por Hamilton Pereira e Juarez Guimarães, em Carta Maior
(Sobre o mesmo assunto, em Outras Palavras, O Vermelho e o Verde)
O primeiro turno das eleições gerais ocorridas no último domingo, a exemplo do que ocorreu em 2006, exigirá dos dirigentes e militantes do Partido dos Trabalhadores uma objetiva reflexão sobre o quadro expresso pelas urnas e a ação imediata para coroar com êxito a campanha de Dilma Rousseff. Dilma 46,7%. José Serra 32,7%. Marina Silva 19,4%. Esses são os números.
A expressiva votação obtida por Marina Silva só confirma a importância de sua liderança pública. É necessária uma ação política imediata que dialogue com as expectativas desse segmento dos cidadãos e cidadãs brasileiros. Atualizamos aqui os elementos fundamentais da Carta Aberta entregue a ela e que fizemos circular pela internet, no momento em que Marina Silva fez sua opção pelo afastamento do PT, pela filiação ao PV e se posicionou como candidata à Presidência da República.
Ao concluir oito anos de mandato, podemos afirmar que o governo Lula criou as bases para iniciar um novo ciclo de crescimento econômico neste início do século XXI, após duas décadas de estagnação. A retomada levantou para nós quatro desafios para qualificar este novo: desenvolver o Brasil aprofundando as conquistas democráticas; desenvolver o Brasil com distribuição de renda, combatendo as criminosas desigualdades sociais e regionais; desenvolver o Brasil, afirmando sua fisionomia soberana e pacífica diante do mundo e desenvolver o Brasil incorporando a sustentabilidade socioambiental à cultura do novo ciclo.
Os três primeiros desafios estão encaminhados: vivemos uma experiência democrática em que as instituições funcionam e se amplia a participação popular nos processos de tomada de decisão; vivemos uma profunda dinâmica de investimento do Estado no combate às desigualdades sociais e regionais que nos permite dizer ao mundo, como na recente pesquisa do IPEA, que no Brasil as camadas mais pobres da população elevam de forma inédita e ampla sua qualidade de vida em meio à crise mundial. O Brasil ocupa hoje com altivez e competência seu lugar nas decisões nos foros mundiais.
O quarto desafio é planetário, não é apenas da sociedade brasileira: o novo ciclo de desenvolvimento ainda não incorporou plenamente a dimensão da sustentabilidade socioambiental à sua cultura. Mesmo considerando as conquistas alcançadas internamente na formulação e condução das políticas socioambientais sob responsabilidade de Marina Silva, ao longo de cinco anos e meio à frente do Ministério do Meio Ambiente, seguidos da gestão de Carlos Minc. Temos, portanto, aí um grande desafio a vencer para conferir uma nova qualidade à continuidade do nosso projeto.
Durante muito tempo, a esquerda ouviu com atenção apenas discreta os argumentos daqueles que puseram no centro de sua agenda, de suas angústias e esperanças, a luta pela sobrevivência do planeta. Mesmo quem examinava os argumentos, com sincera boa vontade, não deixava de sentir que havia ali, talvez, as marcas de um diagnóstico excessivo, de uma urgência artificiosa ou, quem sabe, de um viés tendencioso ou algo messiânico.
Marina Silva há de concordar que o governo Lula é o governo da história republicana brasileira que mais fez pelas políticas públicas voltadas para a sustentabilidade socioambiental. Não se conhece outro no qual a tensão entre desenvolvimento econômico e a preservação da natureza tenha ido ao centro de sua dinâmica. Entre suas conquistas, estão a redução ampla e consistente no desmatamento da Amazônia, o alargamento inédito das áreas de preservação, a busca de alternativas econômicas para a “floresta em pé”, por meio da Lei de Florestas Públicas, o encaminhamento reconhecido internacionalmente dos compromissos relativos ao combate ao aquecimento global.
Pela primeira vez na história, o Estado brasileiro começou a regular os investimentos econômicos pela lógica da sustentabilidade. A Resolução do Conselho Monetário Nacional proposta pela então Ministra Marina Silva, que condiciona a liberação de recursos para empreendimentos do agronegócio nas áreas da fronteira agrícola aos critérios de sustentabilidade socioambiental, moderniza as práticas desta área sensível da economia sobre o ambiente. Este é apenas um exemplo.
Não temos problema em reconhecer que estes avanços históricos são ainda insuficientes diante do novo ciclo de desenvolvimento brasileiro iniciado nessa primeira década. Mais energia, mais carros e pressão imobiliária nas cidades: não podemos perder de vista que 80% dos brasileiros vivem nos centros urbanos. Mais pressão também sobre a Amazônia e as fronteiras agrícolas, reprodução em escala ampliada de padrões de consumo típicos de países capitalistas centrais. A agenda ecológica estará perdida se condenada a lutar apenas na resistência, caso a caso, na regulação e na contenção das vertentes mais agressivas do crescimento. O que se requer é um novo paradigma de desenvolvimento: a economia verde do século XXI, como está se propondo. Não apenas uma contenção e regulação dos mercados, mas uma reposição e uma programatização ampla dos fundamentos socioambientais do desenvolvimento brasileiro.
O PT foi o primeiro partido socialista brasileiro a incorporar, como contribuição inestimável da geração da qual fazem parte Chico Mendes e Marina Silva, a temática do desenvolvimento sustentável. Provavelmente estão na extensa rede de militantes, filiados e simpatizantes do nosso partido a maior parte dos que sustentam a utopia verde. Mas ela ainda é uma agenda setorial, isto é, não estrutura, não orienta as prioridades da sociedade. Cobra agora seu lugar definitivo na agenda do desenvolvimento do século XXI.
O claro diagnóstico da comunidade científica, a pressão da opinião pública internacional, a sensibilidade crescente diante dos desastres ecológicos tem feito surgir um fenômeno novo, no centro e na periferia do mundo capitalista: um liberalismo ecológico. Isto é, a formação de uma consciência e de um programa que pretende unir capitalismo e sustentabilidade, mercado e regulação. No Brasil, se observa hoje, no curso da campanha eleitoral de 2010, um claro esforço por parte de certos segmentos empresariais, por parte do PSDB/DEM e de setores ecológicos anti-socialistas, de abraçar uma agenda verde.
Mas esse eco-liberalismo apresenta dois grandes limites. O primeiro é que, centrado em uma base empresarial, terá como horizonte sempre os interesses do mercado, de sua potência agressivamente destrutiva, e não a formulação de um novo paradigma que não pode estar assentado na exploração e na maximização do lucro. O segundo, e de implicações mais graves, é o que aparta o grito do planeta – cuja expressão está sob nossos olhos com as catástrofes climáticas – do grito dos oprimidos, aparta o grito da Terra do grito dos pobres, a causa da sustentabilidade ambiental da causa da justiça social!
No Brasil, esta separação entre a causa ambiental e a causa social, entre a luta ecológica e movimento sindical, o Movimento dos Sem-Terra, as CEBs e toda a rede social que organiza a luta dos pobres contra a exploração, seria uma tragédia. A luta em defesa da sustentabilidade socioambiental soma, mobiliza, sopra para além das esferas de um só partido. Ela requer grande ambiência social, um espírito novo de convergência, de horizontes e cores tão plurais como as da complexa sociedade democrática que estamos construindo. Por isso não pode ser neutra, pretender eqüidistância da luta dos que têm fome e sede de justiça!
É por isso necessário que o programa de governo a ser oferecido ao país pelas forças políticas que defendem a continuidade do processo inaugurado com o governo do Presidente Lula, na disputa desse segundo turno das eleições, lideradas por Dilma Rousseff, defina claramente uma zona de compromisso que incorpore, na formulação e execução das políticas públicas a dimensão da sustentabilidade socioambiental à cultura do novo ciclo de desenvolvimento. E estabeleça, explorando até o limite das nossas consciências e criatividades, um novo paradigma que supere o padrão de produção e consumo definido pelo capitalismo liberal.
Esta é a melhor forma de estabelecer o diálogo público com a liderança pública de Marina Silva e seus eleitores. Ele tornará evidente que a opção conservadora por Serra seria um retrocesso inaceitável, pois significaria o apoio à coalizão que abriga o núcleo político e a liderança dos setores mais devastadores do agro-business brasileiro, dos que oprimem, reprimem e criminalizam os sem-terra. Seria, de fato, uma verdadeira ruptura com os próprios fundamento da trajetória social e ecológica de Marina Silva. A opção pela candidatura Dilma Rousseff só pode fortalecer a força da agenda ecológico, recriando o diálogo e o encontro necessário para formar um novo paradigma democrático, distributivo e ecológico do novo desenvolvimento brasileiro.

sábado, 9 de outubro de 2010

DIVULGAÇÃO: BIOGRAFEMA COMO ESTRATÉGIA BIOGRÁFICA

INSTITUTO DE PSICOLOGIA SOCIAL PICHON-RIVIÈRE
Convida
Dia 21 de outubro das 19 h às 21 h
BIOGRAFEMA COMO ESTRATÉGIA BIOGRÁFICA

Encontro de apresentação da Tese de Doutorado em Educação "Biografema como estratégia biográfica: escrever uma vida com Nietzsche, Deleuze, Barthes e Henry Miller" onde o autor propõe que tomar partido da biografia enquanto criação (e não somente como representação de um real já vivido) é colocar-se diante de uma política que se mostra contrária a todo uso biográfico que sufoca a vida, a toda estratégia ou metodologia thanatográfica. O próprio sujeito se desloca – ele passa a ser, neste sentido, também um criador, um fabulador de realidade, um ator mesmo de escritura e de vida.
Palestrante Luciano Bedin da Costa - Doutor em Educação/UFRGS. Professor de psicologia/SETREM, realiza oficinas de Fotografia e Subjetividade. Ministra aulas na Especialização em Educação Infantil/UNISINOS, com enfoque em culturas e linguagens infantis. Organizou o livro Vidas do Fora: habitantes do silêncio. Ed. UFRGS, 2010. Responsável pelo projeto Cartografias Infantis: a cidade pela criança - a fotografia pela infância, financiado pela - FUNARTE.
Inscrições gratuitas: 3331 7467 e contato@pichonpoa.com.br e www.pichonpoa.com.br
Miguel Tostes, 998, conj. 24, Esquina Protásio Alves - Rio Branco - Porto Alegre.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

DIVULGAÇÃO: Documentários sobre Mercedes Sosa na Sala P F Gastal

Documentários sobre Mercedes Sosa na Sala P F Gastal
Em outubro, mês que marca o primeiro ano da morte da cantora argentina Mercedes Sosa, a Sala P. F. Gastal da Usina do Gasômetro coloca em cartaz uma pequena mostra reunindo dois documentários sobre este ícone musical da América Latina. A iniciativa de lançar este programa duplo no mercado brasileiro é da distribuidora Zapata Filmes, em parceria com a Cinema 7 Films da Argentina, SONY Music e AMERICINE.
A mostra inclui o já clássico Como um Pássaro Livre, de 1983, que marca o retorno do exílio de Mercedes Sosa à Argentina, e Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima, que acompanha o derradeiro trabalho musical da artista antes de sua morte. Esta mostra especial está sendo programada por meio da rede de distribuição da Zapata Filmes em diferentes países do continente e em várias mídias (cinema, televisão e DVD, em exibição simultânea), seguindo o mesmo modelo de outros filmes lançados pela empresa do diretor colombiano (radicado em Porto Alegre) Juan Zapata em anos anteriores, privilegiando assim o público que por gerações acompanhou a brilhante carreira da cantora argentina.
Como um Pássaro Livre poderá ser visto a partir de 5 de outubro na sessão das 17h e Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima estará em exibição nas sessões das 15h e 19h. Ingressos a R$ 6,00 e R$ 3,00.
SINOPSES
Como um Pássaro Livre (Como un Pajaro Libre), de Ricardo Wullicher (Argentina, 1983, 67 minutos)
Com Mercedes Sosa, Charly García, León Gieco, Ariel Ramírez e Antonio Tarragó Ros.
Um clássico do cinema documentário argentino que marca o retorno do exílio daquela que é considerada a maior cantora da Argentina, Mercedes Sosa, em 1982. No filme, Mercedes Sosa conta aspectos de sua vida ilustrados com imagens registradas em diversos recitais. O documentário inclui o registro de músicas como La Masa, Guitarra Enlunarada, Como la Cigarra, Cuando Tenga la Tierra e Alfonsina y el Mar, entre outras célebres canções do repertório da artista. Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima (Mercedes Sosa, Cantante – Un Viaje Íntimo), de Rodrigo Vila (Argentina, 2008, 120 minutos)
Documentário que registra o último trabalho musical de Mercedes Sosa. Seus encontros, emotivas coincidências, momentos criativos, cumplicidades, testemunhos dos artistas que participaram deste trabalho musical e reflexões de Mercedes sobre sua vida. O documentário é um reflexo da intimidade da artista em seu momento criativo, retratando aquilo que não se pode ver, mas se sente quando escutamos sua música. Juan Manuel Serrat, Shakira, Caetano Veloso, Julieta Venegas, León Gieco, Teresa Parodi, Gustavo Cerati, Charly García, René Pérez, Fito Páez, Lila Downs e Daniela Mercury foram alguns dos mais de 40 artistas que participaram desta gravação de caráter épico. O documentário de Rodrigo Vila transcorre nas salas de gravação onde Mercedes Sosa interpretou junto a estes artistas as canções que compõem seu último álbum, Cantora. Uma viagem musical e humana, na qual Mercedes esquece a presença das câmaras e se deixa levar pela emoção da interpretação, às vezes rindo, às vezes chorando. Sua relação com cada artista está explícita, amigos, velhos companheiros de rota e novas figuras da música contemporânea que vivem a adrenalina de gravar uma canção pela primeira vez com um ícone da música latina. Momentos íntimos que refletem também as razões de Mercedes na escolha do repertório e dos artistas que a acompanharam neste último trabalho. Somado a isto, o documentário está pontuado por duas entrevistas únicas realizadas com Mercedes na sua casa meses antes de sua partida.
GRADE DE HORÁRIOS
Primeira Semana - 5 a 10 de outubro de 2010
5 de outubro (terça-feira)
15:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
17:00 – Como um Pássaro Livre
19:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
6 de outubro (quarta-feira)
15:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
17:00 – Como um Pássaro Livre
19:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
7 de outubro (quinta-feira)
15:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
17:00 – Como um Pássaro Livre
19:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
8 de outubro (sexta-feira)
15:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
17:00 – Como um Pássaro Livre
19:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
9 de outubro (sábado)
15:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
17:00 – Como um Pássaro Livre
19:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
10 de outubro (domingo)
15:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
17:00 – Como um Pássaro Livre
19:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Para Depor o Podre Poder!

Para Depor o Podre Poder!
Hoje, mesmo sem tempo físico sobrando, não posso deixar passar a ventania e colocar os moinhos de vento pra funcionar!
Eu havia decidido que, neste pleito, não esboçaria qualquer imprecisão ideológica e política sobre as eleições, mas há uma entidade que me habita e que é mais forte do que eu própria. Havia decidido isso, simplesmente porque estou num tempo de revisão... de revisão da vida, da existência, das crenças (ideológicas, políticas, sociais, humanas, poéticas, profissionais, enfim, crenças de toda ordem)... de revisão, ainda, das coisas que passam por minhas vontades e por minha cabeça, das leituras que faço e desfaço. Assumo a convicção de que o trabalho das esquerdas deve ser um trabalho de formiguinha, cavando minúsculos túneis subterrâneos nas coisas que parecem brotar do chão e crescer com ares de naturalidade... e é esse o meu trabalho cotidiano, por onde ando e por onde passo... problematizando o que está posto e provocando mobilizações para a produção de outras formas de vida e de existenciar a vida!
Meu voto seria usado, neste ano, só com pretensões anarquistas. Meu olhar serviria somente para colher elementos para pensar e repensar o mundo e as coisas do mundo... mas aí a semana me premiou com umas tempestades devastadoras que arrancaram meus telhados e os de muita gente... começa com a vinda do segundo turno nas eleições presidenciais, passa pelas estranhas indecisas-decisões da Marina Silva, cruza com a manifestação da Maria Rita Kehl (e sua “demissão” pelo Estadão) e por muitas outras manifestações. Então pensei: enquanto as formiguinhas cavam os subterrâneos de todas as coisas e convicções, sem dúvida, o Estado deve estar mais forte!
Isso tudo me fez lembrar o espetáculo de rua “O Amargo Santo da Purificação – Uma Visão Alegórica e Barroca da Vida, Paixão e Morte do Revolucionário Carlos Marighella”, sobre a vida do revolucionário brasileiro Carlos Marighella (1911-1969) – sobre o qual fiz uma postagem anterior a esta... assisti essa apresentação no primeiro dia do Fórum Social Mundial deste ano, em Porto Alegre (nos próximos dias poderei postar uma série de fotografias feitas na ocasião) e ficou martelando em minhas idéias o Estandarte “DEPOR PODRE PODER”... os eventos desta semana estão me fazendo lembrar que a luta nunca está ganha... que a gorda-mídia-dominante é voraz e devoradora e come, todos os dias, nossos pensamentos, nossas idéias, nossos sonhos, nossas existências, nossa dignidade e a luta que lutamos dia-após-dia pra ganhar, sem contar, que banaliza a vida, quando faz dos efeitos do sistema que defende, o espetáculo que alimenta suas audiências, suas vendagens, suas publicidades... faz da miséria, da fome, da pobreza, da exploração, da usurpação daqueles que gosta de chamar de “excluídos”, para dizer que mora aí o perigo do qual todos devem ser defendidos... maquia o capitalismo devorador e diz que os pobres geram as mazelas sociais!
É essa gorda-mídia-dominante que reivindica uma tal liberdade de expressão que não é a mesma que vem de nossas tripas...galopa atrás do imperialismo de idéias e pensamentos que diz o que podemos-devemos pensar ou dizer... mas não queremos mais isso... portanto, Maria Rita Kehl, você não imagina com que estupor e concomitante alegria ouvi a notícia de sua demissão do Estadão, pois entre muitas outras coisas, esses pequenos atos nos fazem acordar e perceber que basta um cochilão e a ditadura volta com outras roupagens... Willian Bonner e Fátima Bernardes transformam-se em formosos bonequinhos, diante a vastidão do cenário que costeia seus topetes programados para modular os jornais nacionais... e que não me apareça o Eduardo Suplicy com ares tragicômicos, pedindo “com licença, Estadão, resgate a Maria Rita, pois ela é assimassim”... ninguém é idiota em pensar que haja ingenuidade no ato do Estadinho!
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E a Marina Morena!
Respeito tudo o que vem das florestas. A força, a vitalidade e a potência que vem dos ares da florestania, são o contraponto aos simulacros produzidos pela devastação capitalística... ou alguém há de achar bonito um imenso descampado tomado por monoculturas que servem pra tudo, menos para as pessoas comerem e sobreviverem? Alguém se levanta em defender a vitalidade dos imensos conglomerados urbanos, tecidos em aço e cimento? Alguém sente prazer em entupir suas narinas de fuligem?
A floresta tem essa coisa mágica da genuidade dos seres que a habitam... a água que brota num pedaço de qualquer lugar... os bichos que vivem suas existências naturais... as gentes que ali produzem somente para viver e não para depredar ou explorar... o ar que só percebemos quando nos falta... enfim, quando vejo Marina, tenho a sensação de que ela acabou de emergir da floresta... com certeza tem o direito de expressar sua dor e sua discordância com relação ao cenário político que ela própria ajudou a construir, mas ela representa muito mais do que isso... não representa apenas a sobrevivência na miséria social e econômica, nem a superação do analfabetismo, nem tantas outras coisas... Marina é um ser da floresta que carrega em si a vitalidade de que tanto necessitamos para vencer os dias e as noites!
Marina tem o direito de dizer que saiu com muita dor do PT... muitos outros também saíram com muita dor e isso serve para nos mostrar que a força, que o poder está nas gentes e nas relações que se tece, e não necessariamente nas instituições!
Digo essas coisas, pensando não naqueles que usurpam das coisas públicas em benefício próprio e de poucos, nem nos grandes exploradores, usurpadores e acumuladores capitalísticos, nem nos que se dizem de esquerda simplesmente para poderem alcançar as mesmas coisas que os bonecos capitalísitcos usufruem... digo essas coisas, pensando em tudo o que já se produziu para garantir pelo menos um pouco de dignidade para a maioria das gentes... e isso, com certeza, não é uma força, um vitalismo, uma intenção produzida pela direita ou pelo capitalismo, mas por cada um de nós e, se passa pelo Estado, absolutamente não é por um Estado governado pela direita!
Para Depor o Podre Poder das direitas vampiras e dos capitalismos devoradores é necessário um vitalismo produtor de resistência e de movimentos, e não de resignação ou passividade... podemos facilitar nossos caminhos, em vez de dificultar... marinas da floresta, marias rita demitidas pela gorda-mídia-dominante, execrados do sistema, explorados no que há de mais básico para a existência humana (a vida), desrespeitados no básico direito de expressar o que pensam, aviltados em sua dignidade, todos, sabemos por onde não ir!

DIVULGAÇÃO: A vida de Carlos Marighella

A vida de Carlos Marighella
Carlos Marighella nasceu em Salvador, Bahia, em 5 de dezembro de 1911. Era filho de imigrante italiano com uma negra descendente dos haussás, conhecidos pela combatividade nas sublevações contra a escravidão.
De origem humilde, ainda adolescente despertou para as lutas sociais. Aos 18 anos iniciou curso de Engenharia na Escola Politécnica da Bahia e tornou-se militante do Partido Comunista, dedicando sua vida à causa dos trabalhadores, da independência nacional e do socialismo.
Conheceu a prisão pela primeira vez em 1932, após escrever um poema contendo críticas ao interventor Juracy Magalhães. Libertado, prosseguiria na militância política, interrompendo os estudos universitários no 3o ano, em 1932, quando deslocou-se para o Rio de Janeiro.
Voltaria aos cárceres em 1939, sendo mais uma vez torturado de forma brutal na Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo, mas se negando a fornecer qualquer informação à polícia.
Anistiado em abril de 1945, participou do processo de redemocratização do país e da reorganização do Partido Comunista na legalidade, foi eleito deputado federal constituinte pelo estado da Bahia. Seria apontado como um dos mais aguerridos parlamentares de todas as bancadas, proferindo, em menos de dois anos, cerca de duzentos discursos em que tomou, invariavelmente, a defesa das aspirações operárias, denunciando as péssimas condições de vida do povo brasileiro e a crescente penetração imperialista no país.
Nos anos 50, tomaria parte ativa nas lutas populares, em defesa do monopólio estatal do petróleo e contra o envio de soldados brasileiros à Coréia e a desnacionalização da economia.
Após o golpe militar de 1964, Marighella foi localizado por agentes do DOPS carioca em 9 de maio num cinema do bairro da Tijuca. Enfrentou os policiais que o cercavam com socos e gritos de “Abaixo a ditadura militar fascista” e “Viva a democracia”, recebendo um tiro a queima-roupa no peito. Descrevendo o episódio no livro “Por que resisti à prisão”, ele afirmaria: “Minha força vinha mesmo era da convicção política, da certeza (...) de que a liberdade não se defende senão resistindo”.
Repetindo a postura de altivez das prisões anteriores, Marighella fez de sua defesa um ataque aos crimes e ao obscurantismo que imperava desde 1o de abril. Conseguiu, com isso, catalisar um movimento de solidariedade que forçou os militares a aceitar um habeas-corpus e sua libertação imediata.
Em dezembro de 1966, em carta à Comissão Executiva do PCB, requereu seu desligamento da mesma, explicitando a disposição de lutar revolucionariamente junto às massas, em vez de ficar à espera das regras do jogo político e burocrático convencional que, segundo entendia, imperava na liderança. E quando já não havia outra solução, conforme suas próprias palavras, fundou a ALN (Ação Libertadora Nacional) para enfrentar, de armas em punho, a ditadura.
O endurecimento do regime militar, a partir do final de 1968, culminou numa repressão sem precedentes. Marighella passou a ser apontado como inimigo público número um, transformando-se em alvo de uma caçada que envolveu, a nível nacional, toda a estrutura da polícia política.
Na noite de 4 de novembro de 1969 surpreendido por uma emboscada na Alameda Casa Branca, na capital paulista, Carlos Marighella tombou varado pelas balas dos agentes do DOPS sob a chefia do delegado Sérgio Paranhos Fleury.
Em 11 de setembro de 1996 a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça reconhece a responsabilidade do Estado pela morte de Marighella.
Contatos: Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz - oinois@terra.com.br - (51)9999 45 70
PS: Mais tarde postarei um escrito que faz referência a esse trabalho da Tribo.

DIVULGAÇÃO: Dez falsos motivos para não votar na Dilma

Dez falsos motivos para não votar na Dilma
por Jorge Furtado em 25 de julho de 2010
Tenho alguns amigos que não pretendem votar na Dilma, um ou outro até diz que vai votar no Serra. Espero que sigam sendo meus amigos. Política, como ensina André Comte-Sponville, supõe conflitos: “A política nos reúne nos opondo: ela nos opõe sobre a melhor maneira de nos reunir”.
Leio diariamente o noticiário político e ainda não encontrei bons argumentos para votar no Serra, uma candidatura que cada vez mais assume seu caráter conservador. Serra representa o grupo político que governou o Brasil antes do Lula, com desempenho, sob qualquer critério, muito inferior ao do governo petista, a comparação chega a ser enfadonha, vai lá para o pé da página, quem quiser que leia. (1)
Ouvi alguns argumentos razoáveis para votar em Marina, como incluir a sustentabilidade na agenda do desenvolvimento. Marina foi ministra do Lula por sete anos e parece ser uma boa pessoa, uma batalhadora das causas ambientalistas. Tem, no entanto (na minha opinião) o inconveniente de fazer parte de uma igreja bastante rígida, o que me faz temer sobre a capacidade que teria um eventual governo comandado por ela de avançar em questões fundamentais como os direitos dos homossexuais, a descriminalização do aborto ou as pesquisas envolvendo as células tronco.
Ouço e leio alguns argumentos para não votar em Dilma, argumentos que me parecem inconsistentes, distorcidos, precários ou simplesmente falsos. Passo a analisar os dez mais freqüentes.
1. “Alternância no poder é bom”.
Falso. O sentido da democracia não é a alternância no poder e sim a escolha, pela maioria, da melhor proposta de governo, levando-se em conta o conhecimento que o eleitor tem dos candidatos e seus grupo políticos, o que dizem pretender fazer e, principalmente, o que fizeram quando exerceram o poder. Ninguém pode defender seriamente a idéia de que seria boa a alternância entre a recessão e o desenvolvimento, entre o desemprego e a geração de empregos, entre o arrocho salarial e o aumento do poder aquisitivo da população, entre a distribuição e a concentração da riqueza. Se a alternância no poder fosse um valor em si não precisaria haver eleição e muito menos deveria haver a possibilidade de reeleição.
2. “Não há mais diferença entre direita e esquerda”.
Falso. Esquerda e direita são posições relativas, não absolutas. A esquerda é, desde a sua origem, a posição política que tem por objetivo a diminuição das desigualdades sociais, a distribuição da riqueza, a inserção social dos desfavorecidos. As conquistas necessárias para se atingir estes objetivos mudam com o tempo. Hoje, ser de esquerda significa defender o fortalecimento do estado como garantidor do bem-estar social, regulador do mercado, promotor do desenvolvimento e da distribuição de riqueza, tudo isso numa sociedade democrática com plena liberdade de expressão e ampla defesa das minorias. O complexo (e confuso) sistema político brasileiro exige que os vários partidos se reúnam em coligações que lhes garantam maioria parlamentar, sem a qual o país se torna ingovernável. A candidatura de Dilma tem o apoio de políticos que jamais poderiam ser chamados de “esquerdistas”, como Sarney, Collor ou Renan Calheiros, lideranças regionais que se abrigam principalmente no PMDB, partido de espectro ideológico muito amplo. José Serra tem o apoio majoritário da direita e da extrema-direita reunida no DEM (2), da “direita” do PMDB, além do PTB, PPS e outros pequenos partidos de direita: Roberto Jefferson, Jorge Bornhausen, ACM Netto, Orestes Quércia, Heráclito Fortes, Roberto Freire, Demóstenes Torres, Álvaro Dias, Arthur Virgílio, Agripino Maia, Joaquim Roriz, Marconi Pirilo, Ronaldo Caiado, Katia Abreu, André Pucinelli, são todos de direita e todos serristas, isso para não falar no folclórico Índio da Costa, vice de Serra. Comparado com Agripino Maia ou Jorge Bornhausen, José Sarney é Che Guevara.
3. “Dilma não é simpática”.
Argumento precário e totalmente subjetivo. Precário porque a simpatia não é, ou não deveria ser, um atributo fundamental para o bom governante. Subjetivo, porque o quesito “simpatia” depende totalmente do gosto do freguês. Na minha opinião, por exemplo, é difícil encontrar alguém na vida pública que seja mais antipático que José Serra, embora ele talvez tenha sido um bom governante de seu estado. Sua arrogância com quem lhe faz críticas, seu destempero e prepotência com jornalistas, especialmente com as mulheres, chega a ser revoltante.
4. “Dilma não tem experiência”.
Argumento inconsistente. Dilma foi secretária de estado, foi ministra de Minas e Energia e da Casa Civil, fez parte do conselho da Petrobras, gerenciou com eficiência os gigantescos investimentos do PAC, dos programas de habitação popular e eletrificação rural. Dilma tem muito mais experiência administrativa, por exemplo, do que tinha o Lula, que só tinha sido parlamentar, nunca tinha administrado um orçamento, e está fazendo um bom governo.
5. “Dilma foi terrorista”.
Argumento em parte falso, em parte distorcido. Falso, porque não há qualquer prova de que Dilma tenha tomado parte de ações “terroristas”. Distorcido, porque é fato que Dilma fez parte de grupos de resistência à ditadura militar, do que deve se orgulhar, e que este grupo praticou ações armadas, o que pode (ou não) ser condenável. José Serra também fez parte de um grupo de resistência à ditadura, a AP (Ação Popular), que também praticou ações armadas, das quais Serra não tomou parte. Muitos jovens que participaram de grupos de resistência à ditadura hoje participam da vida democrática como candidatos. Alguns, como Fernando Gabeira, participaram ativamente de seqüestros, assaltos a banco e ações armadas. A luta daqueles jovens, mesmo que por meios discutíveis, ajudou a restabelecer a democracia no país e deveria ser motivo de orgulho, não de vergonha.
6. “As coisas boas do governo petista começaram no governo tucano”.
Falso. Todo governo herda políticas e programas do governo anterior, políticas que pode manter, transformar, ampliar, reduzir ou encerrar. O governo FHC herdou do governo Itamar o real, o programa dos genéricos, o FAT, o programa de combate a AIDS. Teve o mérito de manter e aperfeiçoá-los, desenvolvê-los, ampliá-los. O governo Lula herdou do governo FHC, por exemplo, vários programas de assistência social. Teve o mérito de unificá-los e ampliá-los, criando o Bolsa Família. De qualquer maneira, os resultados do governo Lula são tão superiores aos do governo FHC que o debate “quem começou o quê” torna-se irrelevante.
7. “Serra vai moralizar a política”.
Argumento inconsistente. Nos oito anos de governo tucano-pefelista - no qual José Serra ocupou papel de destaque, sendo escolhido para suceder FHC - foram inúmeros os casos de corrupção, um deles no próprio Ministério da Saúde, comandado por Serra, o superfaturamento de ambulâncias investigado pela “Operação Sanguessuga”. Se considerarmos o volume de dinheiro público desviado para destinos nebulosos e paraísos fiscais nas privatizações e o auxílio luxuoso aos banqueiros falidos, o governo tucano talvez tenha sido o mais corrupto da história do país. Ao contrário do que aconteceu no governo Lula, a corrupção no governo FHC não foi investigada por nenhuma CPI, todas sepultadas pela maioria parlamentar da coligação PSDB-PFL. O procurador da república ficou conhecido com “engavetador da república”, tal a quantidade de investigações criminais que morreram em suas mãos. O esquema de financiamento eleitoral batizado de “mensalão” foi criado pelo presidente nacional do PSDB, senador Eduardo Azeredo, hoje réu em processo criminal. O governador José Roberto Arruda, do DEM, era o principal candidato ao posto de vice-presidente na chapa de Serra, até ser preso por corrupção no “mensalão do DEM”. Roberto Jefferson, réu confesso do mensalão petista, hoje apóia José Serra. Todos estes fatos, incontestáveis, não indicam que um eventual governo Serra poderia ser mais eficiente no combate à corrupção do que seria um governo Dilma, ao contrário.
8. “O PT apóia as FARC”.
Argumento falso. É fato que, no passado, as FARC ensaiaram uma tentativa de institucionalização e buscaram aproximação com o PT, então na oposição, e também com o governo brasileiro, através de contatos com o líder do governo tucano, Arthur Virgílio. Estes contatos foram rompidos com a radicalização da guerrilha na Colômbia e nunca foram retomados, a não ser nos delírios da imprensa de extrema-direita. A relação entre o governo brasileiro e os governos estabelecidos de vários países deve estar acima de divergências ideológicas, num princípio básico da diplomacia, o da auto-determinação dos povos. Não há notícias, por exemplo, de capitalistas brasileiros que defendam o rompimento das relações com a China, um dos nossos maiores parceiros comerciais, por se tratar de uma ditadura. Ou alguém acha que a China é um país democrático?
9. “O PT censura a imprensa”.
Argumento falso. Em seus oito anos de governo o presidente Lula enfrentou a oposição feroz e constante dos principais veículos da antiga imprensa. Esta oposição foi explicitada pela presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) que declarou que seus filiados assumiram “a posição oposicionista (sic) deste país”. Não há registro de um único caso de censura à imprensa por parte do governo Lula. O que há, frequentemente, é a queixa dos órgãos de imprensa sobre tentativas da sociedade e do governo, a exemplo do que acontece em todos os países democráticos do mundo, de regulamentar a atividade da mídia.
10. “Os jornais, a televisão e as revistas falam muito mal da Dilma e muito bem do Serra”.
Isso é verdade. E mais um bom motivo para votar nela e não nele.
x(1) Alguns dados comparativos dos governos FHC e Lula.
Geração de empregos: FHC/Serra = 780 mil x Lula/Dilma = 12 milhões
Salário mínimo: FHC/Serra = 64 dólares x Lula/Dilma = 290 dólares
Mobilidade social (brasileiros que deixaram a linha da pobreza): FHC/Serra = 2 milhões x Lula/Dilma = 27 milhões
Risco Brasil: FHC/Serra = 2.700 pontos x Lula/Dilma = 200 pontos
Dólar: FHC/Serra = R$ 3,00 x Lula/Dilma = R$ 1,78
Reservas cambiais: FHC/Serra = menos 185 bilhões de dólares x Lula/Dilma = mais 239 bilhões de dólares
Relação crédito/PIB: FHC/Serra = 14% x Lula/Dilma = 34%
Inflação: FHC/Serra =12,5% (2002) x Lula/Dilma = 4,7% (2009)
Produção de automóveis: FHC/Serra = queda de 20% x Lula/Dilma = aumento de 30%
Taxa de juros: FHC/Serra = 27% x Lula/Dilma = 10,75%
(2) Elio Gaspari, na Folha de S.Paulo de 25.07.10: José Serra começou sua campanha dizendo: "Não aceito o raciocínio do nós contra eles", e em apenas dois meses viu-se lançado pelo seu colega de chapa numa discussão em torno das ligações do PT com as Farc e o narcotráfico. Caso típico de rabo que abanou o cachorro. O destempero de Indio da Costa tem método. Se Tupã ajudar Serra a vencer a eleição, o DEM volta ao poder. Se prejudicar, ajudando Dilma Rousseff, o PSDB sairá da campanha com a identidade estilhaçada. Já o DEM, que entrou na disputa com o cocar do seu mensalão, sairá brandindo o tacape do conservadorismo feroz que renasceu em diversos países, sobretudo nos Estados Unidos.
.Blog de Jorge Furtado

Jornal O Estado de São Paulo demite Maria Rita Kehl

Quinta, 7 de outubro de 2010, 11h25 Atualizada às 15h25
Maria Rita Kehl: "Fui demitida por um 'delito' de opinião", por Bob Fernandes
A psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida pelo Jornal O Estado de S. Paulo depois de ter escrito, no último sábado (2), artigo sobre a "desqualificação" dos votos dos pobres. O texto, intitulado "Dois pesos...", gerou grande repercussão na internet e mídias sociais nos últimos dias.
Nesta quinta-feira (7), ela falou a Terra Magazine sobre as consequências do seu artigo:
- Fui demitida pelo jornal o Estado de S. Paulo pelo que consideraram um "delito" de opinião (...) Como é que um jornal que anuncia estar sob censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?
Leia abaixo a entrevista.
Terra Magazine - Maria Rita, você escreveu um artigo no jornal O Estado de S.Paulo que levou a uma grande polêmica, em especial na internet, nas mídias sociais nos últimos dias. Em resumo, sobre a desqualificação dos votos dos pobres. Ao que se diz, o artigo teria provocado conseqüências para você...
Maria Rita Kehl - E provocou, sim...
- Quais?
- Fui demitida pelo jornal O Estado de S.Paulo pelo que consideraram um "delito" de opinião.
- Quando?
- Fui comunicada ontem (quarta-feira, 6).
- E por qual motivo?
- O argumento é que eles estavam examinando o comportamento, as reações ao que escrevi e escrevia, e que, por causa da repercussão (na internet), a situação se tornou intolerável, insustentável, não me lembro bem que expressão usaram.
- Você chegou a argumentar algo?
- Eu disse que a repercussão mostrava, revelava que, se tinha quem não gostasse do que escrevo, tinha também quem goste. Se tem leitores que são desfavoráveis, tem leitores que são a favor, o que é bom, saudável...
- Que sentimento fica para você?
- É tudo tão absurdo... A imprensa que reclama, que alega ter o governo intenções de censura, de autoritarismo...
- Você concorda com essa tese?
- Não, acho que o presidente Lula e seus ministros cometem um erro estratégico quando criticam, quando se queixam da imprensa, da mídia, um erro porque isso, nesse ambiente eleitoral pode soar autoritário, mas eu não conheço nenhuma medida, nenhuma ação concreta, nunca ouvi falar de nenhuma ação concreta para cercear a imprensa. Não me refiro a debates, frases soltas, falo em ação concreta, concretizada. Não conheço nenhuma, e, por outro lado...
- ...Por outro lado...?
- Por outro lado a imprensa que tem seus interesses econômicos, partidários, demite alguém, demite a mim, pelo que considera um "delito" de opinião. Acho absurdo, não concordo, que o dono do Maranhão (senador José Sarney) consiga impor a medida que impôs ao jornal O Estado de S.Paulo, mas como pode esse mesmo jornal demitir alguém apenas porque expôs uma opinião? Como é que um jornal que está, que anuncia estar sob censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?
- Você imagina que isso tenha algo a ver com as eleições?
- Acho que sim. Isso se agravou com a eleição, pois, pelo que eles me alegaram agora, já havia descontentamento com minhas análises, minhas opiniões políticas.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

DIVULGAÇÃO: Dois pesos… Maria Rita Khel diz tudo!

Dois pesos… Maria Rita Khel diz tudo! - 4 de outubro de 2010
Por Maria Rita Khel*
Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.
Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.
O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.
*Matéria originalmente publicada no jornal O Estado de S. Paulo e reproduzida do site O Escrevinhador

DIVULGAÇÃO: Marina... você se pintou?

6/10/2010 - Marina,... você se pintou?
"Dilma, admitamos, não é a candidata de nossos sonhos. Mas Serra o é de nossos mais terríveis pesadelos. Ajude-nos a enfrentá-lo. Você não precisa dos paparicos da elite brasileira e de seus meios de comunicação. “Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu”, escreve Maurício Abdalla, professor de filosofia da UFES, autor de Iara e a Arca da Filosofia (Mercuryo Jovem), dentre outros.
Eis o artigo.
“Marina, morena Marina, você se pintou” – diz a canção de Caymmi. Mas é provável, Marina, que pintaram você. Era a candidata ideal: mulher, militante, ecológica e socialmente comprometida com o “grito da Terra e o grito dos pobres”, como diz Leonardo.
Dizem que escolheu o partido errado. Pode ser. Mas, por outro lado, o que é certo neste confuso tempo de partidos gelatinosos, de alianças surreais e de pragmatismo hiperbólico? Quem pode atirar a primeira pedra no que diz respeito a escolhas partidárias?
Mas ainda assim, Marina, sua candidatura estava fadada a não decolar. Não pela causa que defende, não pela grandeza de sua figura. Mas pelo fato de que as verdadeiras causas que afetam a população do Brasil não interessam aos financiadores de campanha, às elites e aos seus meios de comunicação. A batalha não era para ser sua. Era de Dilma contra Serra. Do governo Lula contra o governo do PSDB/DEM. Assim decidiram as “famiglias” que controlam a informação no país. E elas não só decidiram quem iria duelar, mas também quiseram definir o vencedor. O Estadão dixit: Serra deve ser eleito.
Mas a estratégia de reconduzir ao poder a velha aliança PSDB/DEM estava fazendo água. O povo insistia em confirmar não a sua preferência por Dilma, mas seu apreço pelo Lula. O que, é claro, se revertia em intenção de voto em sua candidata. Mas “os filhos das trevas são mais espertos do que os filhos da luz”. Sacaram da manga um ás escondido. Usar a Marina como trampolim para levar o tucano para o segundo turno e ganhar tempo para a guerra suja.
Marina, você, cujo coração é vermelho e verde, foi pintada de azul. “Azul tucano”. Deram-lhe o espaço que sua causa nunca teve, que sua luta junto aos seringueiros e contra as elites rurais jamais alcançaria nos grandes meios de comunicação. A Globo nunca esteve ao seu lado. A Veja, a FSP, o Estadão jamais se preocuparam com a ecologia profunda. Eles sempre foram, e ainda são, seus e nossos inimigos viscerais.
Mas a estratégia deu certo. Serra foi para o segundo turno, e a mídia não cansa de propagar a “vitória da Marina”. Não aceite esse presente de grego. Hão de descartá-la assim que você falar qual é exatamente a sua luta e contra quem ela se dirige.
“Marina, você faça tudo, mas faça o favor”: não deixe que a pintem de azul tucano. Sua história não permite isso. E não deixe que seus eleitores se iludam acreditando que você está mais perto de Serra do que de Dilma. Que não pensem que sua luta pode torná-la neutra ou que pensem que para você “tanto faz”. Que os percalços e dificuldades que você teve no Governo Lula não a façam esquecer os 8 anos de FHC e os 500 anos de domínio absoluto da Casagrande no país cuja maioria vive na senzala. Não deixe que pintem “esse rosto que o povo gosta, que gosta e é só dele”.
Dilma, admitamos, não é a candidata de nossos sonhos. Mas Serra o é de nossos mais terríveis pesadelos. Ajude-nos a enfrentá-lo. Você não precisa dos paparicos da elite brasileira e de seus meios de comunicação. “Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu”.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

DIVULGAÇÃO: Eleições 2010: o voto conservador e os temas ocultos

5/10/2010 - Eleições 2010: o voto conservador e os temas ocultos. Entrevista especial com Ivana Bentes
Em: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=36968
Ainda que Marina Silva fosse a representante das ideias ecologicamente sustentáveis, o debate sobre a relação desse tema com desenvolvimento e pobreza não foi aprofundada, trazendo para discussão apenas os tradicionais temas presentes nesses períodos eleitorais. Quem aponta essa questão é a professora Ivana Bentes, que concedeu a entrevista à IHU On-Line, por telefone.
A cultura também não teve espaço nos debates, atesta a professora. “E isso é decisivo para pensarmos o capitalismo cognitivo, capitalismo da informação e da comunicação”, afirma. Ao analisar o resultado que levou Dilma e Serra para o segundo turno, Ivana afirma que imaginava que Dilma ganharia no primeiro turno e, ao analisar o argumento de que um país como o Brasil não pode eleger um presidente em primeiro turno, ela discorda veementemente. “O apoio político inicial significa cacife para mudanças com menos alianças, legitimado pelo voto popular”, justifica.
Professora de comunicação, Ivana também avaliou os espaços ocupados pelas eleições em redes sociais como o Twitter e o Facebook. “Foi uma possibilidade de um ensaio, ainda tímido, de democracia direta e participativa. Não basta votar em alguém para o Congresso, é preciso ter um diálogo constante com estes candidatos através dessas ferramentas que aproximam o político do seu eleitor”, afirmou.
Ivana Bentes é graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde fez o mestrado e o doutorado em Comunicação e, atualmente, é professora e Diretora da Escola de Comunicação da UFRJ. Confira a entrevista.
IHU On-Line – Que temas foram esquecidos nas eleições 2010?
Ivana Bentes – Basicamente, a questão da cultura. Um dos temas mais emergentes no Brasil hoje é a questão da cultura, ou seja, faltou discutir toda uma série de possibilidades de atuação e intervenção através do campo da cultura. E isso é decisivo para pensarmos o capitalismo cognitivo, capitalismo da informação e da comunicação. A cultura já deixou de ser um luxo. Ela é um campo à parte. Os candidatos focaram muito nas questões tradicionais: saúde, educação, distribuição de renda. Além disso, o discurso ecológico, de uma forma mais aprofundada, não foi feito. E isso é muito estranho, uma vez que a candidata Marina Silva é do Partido Verde. A discussão sobre ecologia e desenvolvimento e sobre a relação entre ecologia e pobreza não foi feita.
IHU On-Line – O segundo turno entre Dilma e Serra era esperado pela senhora?
Ivana Bentes – Eu acreditava que a eleição terminaria no primeiro turno em função dos altos índices de aceitação do próprio Lula e porque Dilma vai dar continuidade a uma série de programas do atual presidente. Esse voto da classe C parecia que estava mais ou menos definido. Agora, o segundo turno indica uma espécie de emergência de um novo centro do Partido Verde, que já está presente em todo o mundo, que se alia a todo um pensamento liberal que tira da pauta a distribuição de renda, pobreza, precarização do trabalho em nome do discurso ecológico “zen-empresarial” que me parece bastante redutor em termos do entendimento de uma série de questões. A pauta ecológica, então, aparece, mas de forma diluída e ligada a uma série de crenças liberais indicando o surgimento no Brasil de um partido de centro que não é uma esquerda comprometida com certas questões, como a pobreza, mas ainda com um discurso meio frouxo em relação ao ecologismo zen e inofensivo pela falta de aprofundamento desse debate.
Entre os 20% que votaram na Marina estão os votantes envergonhados do Serra, que não assumem um voto de direita e extremamente conservador, mas também não se identificam com algumas questões em voga no Brasil, como a questão da distribuição de renda, o acesso à universalização da educação e que são questões que estão aí. O mais complicado deste primeiro turno foi a presença de discursos como “antiaborto” no campo do comportamento. Por isso, podemos dizer que uma parcela da classe C também votou na Marina, como os evangélicos ligados a essa discussão de uma pauta extremamente importante em termos de comportamento e mentalidade.
IHU On-Line – E o voto de Marina, para quem vai?
Ivana Bentes – Existe uma parte grande do eleitorado que efetivamente queria um segundo turno, usando um argumento bastante discutível dizendo que não podemos eleger um presidente da república com uma aprovação tão grande porque isso significa um capital simbólico e inicial muito grande. Eu penso exatamente o contrário: Lula fez o que pôde em termos de mudança porque, justamente, tomou posse com um número expressivo de votação. O apoio político inicial significa cacife para mudanças com menos alianças, legitimado pelo voto popular.
Quem votou na Marina por questões evangélicas, religiosas, de comportamento antiaborto, preocupada com a ascensão da classe C vai votar no Serra, afinal é um conservador. Ou seja, o votante envergonhado do Serra, no segundo turno, se decide. Assim, haverá uma divisão dos votos da Marina, uma parte para Dilma e outra, para Serra. Muita gente está falando numa carta de compromisso e aliança entre PV e PSDB e isso parece previsível em termos políticos. Esse discurso ecológico zen tem toda uma visão empresarial descompromissada com uma série de pautas históricas. O cenário é esse. Os votos da Marina vão se reconduzir, se redirecionar para Dilma para quem têm as questões da ecologia como uma pauta necessária, mas dentro e aliada a discussões como distribuição de renda, proteção social, importância de projetos como o Bolsa Família, redemocratização da educação. Ou seja, uma política com os pobres.
IHU On-Line – Como a senhora avalia o uso dado às redes sociais nesse primeiro turno? Como a senhora vê movimentos como o #ondaverde e o #BomDilma?
Ivana Bentes – Eu acho que são importantíssimas essas quebras de paradigmas. Até os debates na televisão foram comentados nas redes sociais como uma decepção enorme, com o formato engessado e publicitário. Ao mesmo tempo, essa possibilidade é algo concreto para se intervir nesse campo e para pensar novas estratégias de campanha. E mais: o contato mais direto no Twitter e Facebook. Foi uma possibilidade de um ensaio, ainda tímido, de democracia direta e participativa. Não basta votar em alguém para o Congresso, é preciso ter um diálogo constante com estes candidatos através dessas ferramentas que aproximam o político do seu eleitor. Não tenho dúvida disso. Alias, hoje começou um movimento pedindo aos candidatos eleitos que não abandonem sua presença virtual.
Agora, se dá um novo entendimento de político que sai um pouco dessa questão da democracia representativa e aponta questões para pensarmos a democracia plebiscitária, de participação direta da decisão daquele que te representa. Parece-me que esses são os horizontes, obviamente que ainda limitados em função do acesso da população à própria rede. São, hoje, certos nichos que estão tendo o privilégio de experimentar uma forma de diálogo e aproximação através das redes sociais. Eu acompanhei bastante a questão das eleições no Twitter e Facebook e vi que dá para se fazer discussão, postar informação, apresentar contradiscurso em relação a uma mídia poderosa, como a televisão que foi muitas vezes discutida, desmentida, reanalisada através das redes.
IHU On-Line – A Folha protagonizou momentos que foram questionados pelos leitores quanto a sua prática jornalística durante o pleito. Já o Estado de São Paulo anunciou o apoio a Serra em editorial. O que isso diz sobre a relação entre jornalismo e política, atualmente?
Ivana Bentes – Há duas questões importantes que têm que ser colocadas: tanto a forma mídia de massa quanto a forma partido tradicional estão em crise. A mídia tradicional pensada na forma de produção de poucos para muitos, o monopólio dos meios de comunicação, a impossibilidade que tínhamos dessa diversificação de vozes e posicionamentos terem visibilidade e alcance é colocada em questão com a entrada e o uso das redes sociais. Além disso, há uma codependência enorme entre partido e mídia. Os partidos se apresentam, muitas vezes, na sua forma midiática, publicitária. Portanto, os partidos tradicionais também estão em crise, se pensarmos na sua relação com o jovem, na renovação do discurso político. Tanto nessa questão da relação da mídia com a política e dos partidos com a mídia temos que pensar exatamente como a forma tradicional está em crise, além disso, precisamos identificar quais são os limites dessas organizações e instituições.
Se vimos a mídia atuando como partido político, poderíamos perguntar se os jornais têm um projeto político e precisamos imaginar que esse projeto é uma defesa dos negócios da própria mídia. Todas as políticas públicas que criticaram o negócio da comunicação ou que apontavam para uma intervenção no negócio da comunicação foram bombardeadas. A Conferência Nacional de Comunicação não teve qualquer repercussão nos “grandes” meios. Toda a discussão e mobilização social não teve repercussão nos jornais. Por isso, é importante pensar, apesar da cobertura parcial e tendenciosa de alguns grandes veículos de comunicação, que o resultado do voto popular não bate com essa tomada de partido. Esse dado é importante porque a ideia de onipotência da mídia é colocada em xeque.
IHU On-Line – Como explicar o fenômeno Tiririca?
Ivana Bentes – É um esvaziamento da ideia de partido e política tradicional. Na verdade, o voto no Tiririca mostra uma visão bastante conservadora por parte do eleitor que generaliza a política como o lugar da corrupção, como algo da mera ordem da representação que não faz a menor diferença. Penso que esse é um voto da desqualificação do político. Esse é o voto mais conservador possível. Não vejo os vários candidatos que seguem essa linha do Tiririca como um protesto político, parece que é o voto do conformismo máximo que pensa: “todos os políticos são corruptos, não há diferença entre um político x ou y, nem entre partidos”. Esse é um voto que generaliza, nivela por baixo e que joga todo o campo da política no esgoto público.
IHU On-Line – Os modelos utilizados hoje de debate político são eficientes?
Ivana Bentes – Não, são extremamente limitados, engessados, não dão a possibilidade de se trabalhar com as diferenças. Eles jogam os diferentes candidatos nesse, como eu disse, esgoto público da semelhança. Todos falam em nome da educação, da saúde e da segurança, que foram os temas recorrentes discursos. Ali a singularidade dos candidatos mal aparece. Toda a singularidade que poderíamos ouvir, por exemplo, da Dilma sobre a cultura digital, sobre a banda larga, mudanças em relação às novas tecnologias não é visível no debate televisivo. Há um achatamento do que há de igual. Nesse sentido, o debate televisivo acaba levando ao voto do Tiririca. Há uma dificuldade de se ver as diferentes singularidades entre os candidatos. Elas até aparecem em alguns momentos, mas o formato achata. Além do mais, foram em cima do trivial, do contextual, do escândalo. Quando se discute o escândalo, não se discute estrutura, o que interessa, o que efetivamente muda. Esse debate espetacularizado em cima do escândalo, do boato, do que ainda não tem consistência, é extremamente contraprodutivo para o próprio eleitor.

domingo, 3 de outubro de 2010

Lixo eleitoral

Gosto de viver rodeada pelo verde e pelas flores. Gosto na natureza, viva ou morta, presente na tecitura das singularidades da existência. Vou compondo, aos poucos, um simplório jardim em frente de casa, não somente por gostar disso, mas também para pavimentar o caminho dos passantes com cores e flores. Algumas pessoas que, como eu, gostam de poder ir andando pela rua e encontrando essa poesia espalhada no caminho, preservam esse jardim que é absolutamente público; outras, mais individualistas, arrancam e levam as plantas ou as flores, ou mesmo, as pisoteiam. Assim vai correndo a vida do jardim. É comum, também, que o mesmo sirva de estação para o lixo que aqueles que pensam que o mundo seja uma imensa lixeira, jogam ao léu... juntam-se embalagens de bala, chicléte, sorvete dentre outras, sacos plásticos, papéis de publicidade, papéis diversos, copos plásticos, garrafas e muitas outras coisas. Juntar tudo isso que muitos jogam na imensa lixeira do mundo, tornou-se uma tarefa cotidiana. Mas hoje, essa tarefa foi singular, visto que ontem foram juntados todos os lixos que se acumularam durante vários dias em que passei fora... hoje, ao abrir a janela pela manhã, deparei-me com o chão da calçada e do jardim absolutamente forrado de propaganda eleitoral... situação que não é diferente em frente às demais casas e, principalmente, das sessões eleitorais... fico estupefata com essas coisas, pois não entendo como pode alguém pensar - seja candidato ou cabo eleitoral - que essa sujeirada toda possa render votos... talvez isso mostre um pouco do que se passa nas cabeças e nas intenções desses candidatos!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

UM BÔNUS

Acordou dentro do pesadelo e soube que a existência resolvera, em boa hora, entregar-lhe um bônus. Mas antes, exigiu-lhe que exaurisse todas as possibilidades que antes lhe fizeram tremer. Então. Correu. Cantou. Chorou. Gritou. Esfregou-se na pedra-de-mó até virar um fio de dar-dó. Teve visões. Teve alucinações. Fodeu com a dor e gozou lágrimas. Até que um dia, do nada, acordou dentro da vida. O bônus estava ganho. E a vida também.