domingo, 24 de fevereiro de 2013

Saúde Integral, Poder, Cultura e AIDS



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Fala final de Luiz Fuganti
Fala final de Luiz Fuganti
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Palestra de Luiz Fuganti, em Machava, Moçambique, em 05/08/2005 - texto integral

SAÚDE INTEGRAL, PODER, CULTURA E AIDS
Início: apresentação de dança nativa de meninos e meninas, ao som de tambores.

Apresentador: Isso é o que fazemos em Moçambique: primeiro dançamos; depois conversamos. Nós vamos saber o que não sabemos e ele vai saber o que ele não sabe. Há de haver uma intersecção. É um debate que ele vem fazer conosco acerca do tema HIV/SIDA e eu gostaria de convidar desde já as intervenções da Manong-SIDA, entre outras, que vocês prestassem atenção às palavras que o filósofo vai dizer para depois podermos fazer o debate, numa abertura total. Ele gostaria de ouvir o que é que nós somos, e nós também havemos de precisar saber o que é. Ele há de criar uma abordagem diferente no tratamento do HIV – SIDA. Então nós devemos estar à altura de aproveitar melhor as lições que ele nos traz. E, quem sabe, ele também vai sair com alguma lição dos moçambicanos. Eu penso que não vou alongar muito, gostaria de apresentar essa delegação que essas são associações filiadas à MANONCSIDA ... E eu que estou a falar sou coordenador da MANONCSIDA, Estevão Simão Maladalama.


Apresentam-se vários representantes de associações de moradores, comunitárias, de mulheres, de jovens, vogais e secretários de várias Ongs, como Jovens Unidos de Moçambique, gestor do meio ambiente;Associação Viva a Vida; Pró-rede; Associação dos Moradores do Trevo; Chefe da Cultura e Desportos, Gestor do Meio Ambiente, entre outros.

Luiz Fuganti - Se as crianças quiserem ficar... Todo mundo é bem vindo. Afinal, filosofia não é um bicho de sete cabeças. Se a filosofia não tiver uma relação direta com a vida, não serve para nada. Então a gente tem que fazer do pensamento humano, na verdade, um instrumento vitalizador e prático, fundamentalmente. Mas o que eu queria dizer inicialmente, antes de iniciar propriamente o que penso poder contribuir com vocês, antes de tudo o meu respeito e minha admiração por essa cultura moçambicana que estou encontrando. Confesso que estou muito surpreso e muito grato por tudo o que estou recebendo da sociedade e dos povos moçambicanos. E estou realmente aprendendo muito, muito mais do que eu tenha para dar. E nesse sentido esse aprendizado não tem preço. Eu me sinto devedor de vocês, nesse sentido, porque de fato a realidade dos povos da África difere bastante da realidade de outros povos ocidentais, mas ao mesmo tempo, no Brasil, a gente tem muita semelhança com algumas coisas que acontecem aqui e se passam lá. Apenas que aqui acontece de modo tão interessante para nós brasileiros, que a gente fica surpreso do quanto a cultura dos vossos povos é algo de vivo e não simplesmente uma coisa de departamento, de secretaria, de ministério, de órgão burocrático. A cultura faz parte da vida e isso é algo muito incrível e que me emociona bastante. Mas eu fico preocupado porque, ao mesmo tempo em que eu tenho visto isso, a cultura de vocês muito viva, eu também sinto um processo sutil de desqualificação das próprias práticas culturais, saberes culturais, saberes locais, saberes tradicionais que simplesmente, muitas vezes, são deixados de lado, em nome de um saber mais científico, de um saber ocidental que muitas vezes traz junto com ele um controle social muito forte que é o que a gente chama de biopoder. Um poder sobre a vida, um poder socialmente instituído sobre a própria vida. Então o que eu quero trazer aqui a vocês é uma problemática, uma problematização sobre a maneira que a gente encontra para ajudar, para favorecer a vida, para combater as doenças e, no caso, o HIV-SIDA ou a malária, o cólera ou outras doenças como o tétano, etc. e o que, muitas vezes, vem com a instrumentação que a gente recebe, o que vem junto sutilmente, embutido nessa instrumentação.
Quero, então, tratar fundamentalmente de uma questão que pode fazer adoecer outra parte de nós, que é nossa alma propriamente dita, adoecer a alma, adoecer o espírito, adoecer a própria cultura, mais inclusive do que adoecer o próprio corpo. Então a idéia que eu quero trazer para vocês é que a saúde é uma coisa integral, que não faz parte apenas de um órgão: a saúde do olho, a saúde do ouvido, a saúde da boca, a saúde do estômago, a saúde sexual, a saúde alimentar, a saúde respiratória. A saúde é de todo o corpo e é do pensamento nosso junto com o corpo. A alma e o corpo estão sempre unidos, ligados. Os ocidentais - e eu de alguma maneira tenho de me incluir nisso, porque nós somos filhos do Ocidente de alguma maneira - criaram uma maneira de viver muito enfraquecedora e muito doente, que separa a alma do corpo. E criou–se uma idéia de ciência, uma idéia de medicina que é, na verdade, uma maneira de controlar a vida, de controlar o corpo e de controlar a alma dos indivíduos. Só vou dar um exemplo básico para que vocês possam se situar um pouquinho em relação ao que quero dizer. No Ocidente, inventou-se, por exemplo, uma doença da alma que se chama vulgarmente de loucura. E a loucura, num certo momento, por exemplo, se disse, no século XIX, que era uma doença mental. A doença mental então foi inventada exatamente no século XIX. E com a interpretação que se tinha sobre uma perturbação do espírito, da alma, veio junto um saber de cura para essa mesma doença mental. Antes foi inventado um tipo de doença, a partir de um certo ângulo, de uma certa perspectiva, e essa perspectiva é a do psiquiatra, que também foi inventado. Não existia psiquiatra antes do século XIX, antes do final do século XVIII. Pinel, por exemplo, que inventou essa interpretação de que a loucura seria uma doença mental era, ao mesmo tempo, um psiquiatra ou se tornou psiquiatra ao mesmo tempo em que esse tipo de doença nasceu ou foi inventado, digamos assim. Ao mesmo tempo em que se inventou o doente mental, a psiquiatria e o próprio psiquiatra, inventou-se também o hospício, que era o lugar onde se depositavam os loucos. Então, o que eu quero dizer, com esse exemplo, é que simplesmente certas sociedades com certos poderes e com certos saberes inventam para si um modelo de saúde e um modelo de doença.
Pinel dizia que o modelo da saúde da alma é quando a alma tem uma condição moral e racional, quando ela tem juízo. Quando ela perde o juízo, ela se torna louca. Então esse médico, na verdade, servia para ajudar a proliferar um tipo de moral, um tipo de racionalidade ocidental sem as quais o capitalismo não se desenvolveria, porque não é possível você ter um trabalhador louco, um empresário, um funcionário louco. Você tem de ter um pessoal bem ajuizado. Então, nesse caso, a medicina psiquiátrica serviu de prática de controle do poder. É nesse sentido, portanto, que eu quero alertar aqui o que muitas vezes vem junto com as sugestões de controles, de saberes científicos em relação ao HIV-Aids, em relação à malária, em relação a outras doenças também. Mas o HIV-Aids como uma questão fundamental, porque passa pelas questões e pelas atitudes amorosas sexuais e pode fazer com que se sirva disso para que se mude a cultura de um povo, as práticas de um povo, em nome de uma moral sexual, de uma moral amorosa que, na verdade, serve muito mais a um neocolonialismo do que a uma prevenção propriamente dita. A questão da prevenção é fundamental e eu quero entrar até nesses aspectos, ou seja, o que se pode fazer em relação à prevenção. Mas a gente, antes de tudo, tem que ultrapassar a questão moral e tem que atingir aquilo que eu chamo de ética. Então eu quero fazer aqui uma diferença entre ética e moral.

Diferença entre ética e moral

A moral liga a vida ao que ela deve fazer e a ética liga a vida ao que ela pode fazer, o que é bem diferente. São duas atitudes muito distintas. E ao mesmo tempo em que a ética liga a vida ao que ela pode fazer, a ética fortalece a vida para que a vida fique potente, capaz, seja capaz de selecionar os seus encontros. Que ela desenvolva capacidades seletivas. Na verdade, a ética é uma capacidade seletiva que a gente tem, que a gente cria, que a gente desenvolve; e a moral é uma capacidade seletiva, mas pela obediência e por valores que não fazem parte, mas que querem submeter a vida. Então, essa é a diferença que eu quero fazer. Na medida em que a ética liga a vida ao que ela pode, a ética afirma a potência da vida. E na medida em que a moral liga a vida ao que ela deve, a moral é, na verdade, um instrumento do próprio poder e não da potência. É outra diferença que eu quero fazer: entre poder e potência. Nos poderes estabelecidos, não se tem interesse que as populações sejam potentes. Não há poder que não precise de uma população enfraquecida, senão ele não se sustenta. Então, é sobre isso que quero falar e mostrar antes de tudo, e que eu acho que tenho a oferecer a vocês e, também, digamos assim, como atitude de gratidão em relação a tudo o que eu já recebi e estou aprendendo aqui em Moçambique. Estou muito feliz e enriquecido por isso e por fazer o máximo que posso, nesse curto momento que temos aqui, para dizer aquilo que talvez não tenha sido ainda dito e de modo diferenciado do que o Ocidente prega e talvez até do que o Oriente prega. Então é uma atitude de pensamento que vai em direção à liberação da vida e ao fortalecimento da vida, fundamentalmente, antes de qualquer questão. A questão prioritária é o fortalecimento da vida.

'Uma vida forte, uma vida potente, uma vida ligada ao que ela pode é uma vida saudável

Então eu quero trazer aqui uma idéia de grande saúde, não enquanto simplesmente a saúde de um órgão: - ah, estou bem do estômago, bem da vista, bem do ouvido. Não, a gente tem que estar bem com tudo, com o corpo inteiro, com a alma inteira e não tem corpo inteiro e alma inteira sem relação. Nós não somos indivíduos isolados de nós mesmos. Assistimos agora a uma belíssima apresentação dos meninos e meninas aqui e dá para perceber muito bem que tudo funciona coletivamente, em grupo, solidariamente. Um indivíduo dentro de um grupo já é um coletivo; então, não há indivíduo isolado. Se não há indivíduo isolado, se todo indivíduo é em relação, a relação é o canal por onde entram os bens e os males; por onde entra a saúde e a doença. É tudo pela relação. Mas a relação em si mesma não é nem boa e nem má. A relação é necessária. Se há relação, é porque ela é necessária. Se eu me relaciono com a água é porque eu preciso de água. Se eu me relaciono com o ar e o oxigênio, é porque eu preciso de oxigênio. Se eu me relaciono com o outro sexo é porque eu preciso de sexo ou a vida precisa se reproduzir, amar e se multiplicar e se diferenciar e se alegrar etc.
Todas as relações que chegam até nós são necessárias e demonstram que nós somos seres em relação; imediatamente em relação. Então, trata-se de encontrar uma atitude que faça com que nossas relações também sejam saudáveis, não apenas o corpo nele mesmo, a alma nela mesma, porque isso não existe, a não ser ficticiamente. Existe sempre uma alma, um espírito ou um pensamento em relação, um corpo em relação. Então, não basta a saúde do corpo, nem a saúde do espírito. Tem de haver saúde nas relações. E as relações são relações sociais entre indivíduos, entre corpos, entre idéias, entre almas, entre espíritos, entre culturas e também são relações com a natureza, com a terra, com as plantas, com os animais, com os pássaros; enfim, com o sol, com as estrelas, com tudo. Nós nos relacionamos basicamente com tudo o que está a nossa volta. Então existem vários níveis de realidades que têm de ser levados em conta, na medida em que a gente quer construir uma idéia de saúde. Onde quero focar, onde acho importante focar, a questão que quero enfatizar e depois queria ouvi-los, porque é muito importante que a gente dialogue, pois vocês devem ter muitas coisas teóricas e práticas para relatar, e de repente a gente pode construir algo em cima disso: o ponto essencial diz respeito ao modo de vida.

Modo de vida

O modo de vida é essencial. A gente percebe que muitas vezes os modos de vida que temos são desprezados ou desqualificados, porque não se adequam ao que esperam de nós. A questão é saber quem espera de nós e o que esperam de nós. Por exemplo, a gente sabe que a questão histórica e política em Moçambique, a questão da independência, a questão do colonialismo, antes disso, do escravagismo, depois o colonialismo, depois o chibalo e agora a independência e aparentemente uma nova república, uma segunda república, ou uma tentativa de democratização, de liberação, mas muitas vezes esconde uma atitude neocolonialista de outros países que estão monitorando as liberdades, os modos de vida, as culturas moçambicanas que devem servir a esses poderes ocultos e invisíveis. Então, o que eu trago aqui é essa questão da atitude do modo de vida que faz parte das antigas culturas, das culturas que seguem se afirmando a partir da sua própria diferença, numa atitude de resistência e de sobrevivência, mas, é claro, não querendo ficar nisso, querendo se ultrapassar. A vida não quer voltar-se para o passado, aliás os nossos antepassados só são dignificados, só são realmente respeitados se a gente estiver à altura deles, porque eles também foram criadores, e nós também temos de nos tornar criadores, a partir deles mesmos, ou seja, atingirmos uma plataforma de agenciamento, na medida em que a gente se alia a eles mas ultrapassa uma postura que eles também inventaram e não tem mais suficiência nas condições de vida atual. Foi necessário criar novas práticas sociais. Não é o caso, portanto, de negar a cultura passada e nem de repetir, mas de aproveitar tudo o que a cultura passada tem de forte, de saudável, de interessante, de selecionável, de afirmativo, e, a partir daí, criar uma nova maneira de viver e de pensar sem abandonar aquilo que nos fez chegar até aqui. Ou seja, nós não somos simplesmente um produto efêmero ou não caímos de pára-quedas na natureza. Houve milhares e milhares de milhões de anos de trabalho e de produção da própria natureza para que a gente chegasse aqui nesse momento do jeito que estamos. Então isso tem de ser respeitado. Precisa ser entendido e, ao mesmo tempo, o que a natureza e a existência pedem de nós? Que sejamos inventivos! Que sejamos criativos! Que sejamos ativos! Que tomemos parte da vida, que tomemos nossas vidas em nossas próprias mãos e criemos as condições da nossa existência e não simplesmente fiquemos à espera de uma salvação exterior. O poder sempre age dessa maneira. O poder, antes de ser violento e de ser opressivo, ele age por sedução. Já foi o tempo em que o poder agia por repressão, como na época da escravatura e do colonialismo. Hoje, o poder age fundamentalmente por amor e por sedução. Ele oferece crédito: está aí o FMI e o Banco Mundial que não me deixam mentir. Oferecem crédito e as condições do crédito: a coleira de um povo. Eu quero tocar num ponto, uma vez que muitos daqui fazem parte de ONGs, para fazer aqui uma crítica positiva às Ongs. Eu acho que muitos de vocês devem saber de práticas estranhas, no mínimo, de certas ONGs que recebem muitos fundos internacionais e não repassam ou não aplicam onde deveriam aplicar. A gente ouve falar de muita gente e eu até ouvi falar de alguém, que não sei se foi alguém do campo de Matola... Bem, que certos tipos são conhecidos como aqueles dos jipes vermelhos e das motos vermelhas.
Chegam, oferecem ajuda para a comunidade, em nome de uma assistência, de um bem, de uma benevolência, recebem todos os recursos, pagam os seus gordos salários, aumentam o seu capital e, na ponta do lápis mesmo, na hora de aplicar os recursos necessários para as atividades práticas não sobra nada. E, pior do que isso, muitas vezes, nesse mesmo processo, ao fim de um certo programa, por exemplo, de seis meses, vai-se embora e deixa-se a comunidade a ver navios. Ou seja, as pessoas até então de alguma maneira eram monitoradas, ajudadas, orientadas e, de repente, simplesmente a Ong muda de objetivo, muda de estratégia. Por que? Porque vai buscar dinheiro e outras justificativas em outro lugar. Então, o que é preciso, uma vez que vocês estão ligados a ONGs, é ter primeiramente esta atitude ética, forte, de transparência, de saber que os recursos devem ser geridos realmente em benefício coletivo e não em benefício individual. É claro que todo mundo quer ficar bem, mas não às custas da doença e da morte dos outros. Não às custas da miséria dos outros. Ficar bem porque é capaz de criar realidade e não ficar bem porque explora o outro. Isso é fundamental. Essa atitude ética é fundamental. E o ocidente geralmente traz uma outra visão. Traz uma visão individualista, egóica, egocêntrica, que vem favorecer a acumulação, a expropriação, o cinismo, o engano, em nome de que? De ofertas, de créditos, de ajudas, de parcerias. Então o que eu quero salientar aqui, que é muito importante, é que a gente tem que ter critérios para se ter parceiros. Saber exatamente quem os financia, quanto dinheiro chega até eles e quanto dinheiro chega lá na ponta da comunidade mesmo, que é de fato investido. Olha, no Brasil, por exemplo, a gente sabe que muito dinheiro chega aparentemente para a África. E a gente sabe que tem muitas ONGs americanas, européias e até brasileiras, não vou falar especificamente, mas sei que há, enriquecendo às custas da miséria dos povos, das doenças dos povos, etc. etc.
Então, as ONGs podem ser muito interessantes, mas podem ser também um braço neocolonialista. E elas podem, muitas vezes, veicular costumes desagregadores de um povo ou de uma cultura, educações moralistas que não tenham a ver com a cultura de um povo. Em nome do que? Em nome de uma atitude necessária para que se combata a Aids – o HIV-SIDA, como vocês chamam. E será que é essa a questão? Ou seja, em nome do bem, em nome de Deus, em nome da democracia, em nome da liberdade, em nome da felicidade, já se fizeram as piores coisas. Assim o Bush, por exemplo, em nome da democracia, faz o que faz no Iraque. A Igreja Católica já fez muitas barbaridades em nome de Deus: a Inquisição foi uma delas; a chamada Guerra Santa foi outra e muitas outras injustiças foram cometidas em nome de Deus, em nome da liberdade, em nome da democracia, em nome disso, em nome daquilo.
Agora a gente tem aqui um Estado em Moçambique, eu não quero me intrometer na realidade de um país que não é o meu, mas ao mesmo tempo eu me intrometo sempre em questões que me atingem e o que me atinge sempre de um modo difícil é o poder. E onde há o poder, aí não importa onde ele esteja, eu sou um combatente, eu me sinto um combatente. Não admito o poder como parasita da vida. Aí eu já não acho que é uma questão de povo, de nação, de indivíduo, o poder é sempre nocivo e a gente precisa criar uma outra maneira de se relacionar que não precise desse tipo de poder que expropria as pessoas.
Em relação às ONGs: eu acho que a ONG não é boa e nem má, depende do uso que fazemos dela. É tudo assim na vida. Embora a televisão veicule mais porcaria do que coisa interessante, mas de repente o povo precisa tomar a televisão, criar televisões públicas, outros programas que realmente veiculem cultura, veiculem coisa que valha a pena e não simplesmente faça engolir as novelas brasileiras. Eu conheço bem essa realidade. Nós, brasileiros, sofremos com a indústria de Hollywood que metia aqueles enlatados, aqueles filmes americanos na televisão e o povo simplesmente absorvia isso. Agora, o Brasil faz a mesma coisa com as novelas. Tudo bem que há coisas interessantes que passam nas novelas, mas a grande parte do que passa em novela é porcaria. São clichês que desagregam os povos, que introjetam valores mesquinhos, valores de disputa, valores de desconfiança, valores de violência, valores de uma libertinagem que não leva a nada, valores de ganância. São clichês que passam e a televisão se torna veículo disso. Os meios de comunicação são veículos de adoecimento das almas ou dos espíritos ou das culturas. Então, o neocolonialismo hoje é muito mais sutil. O poder chega hoje de modo invisível. É invisível como o HIV.

'O poder é como o HIV, totalmente invisível, mas é real. Ele captura os povos e os povos tombam um atrás do outro; caem como moscas envenenadas' 

As ONGs são instrumentos interessantes porque não são instituições privadas ou não é essa sua função, digamos assim, com fins lucrativos, e não são governamentais que seriam instituições burocratizadas. Então, aparentemente, a ONG teria uma função mais livre e mais direta nas comunidades. Mas em nome dessas atividades sem fins lucrativos, há muito lucro e de modo oculto. Será que a ONG pode ter um outro sentido e uma outra prática? Então é um desafio que eu lanço aqui a vocês. Imagino que vocês devam ter já essa prática, mas é preciso ter esse cuidado com as ONGs, em geral, com os recursos que chegam, a fiscalização real desses recursos e colocar isso de modo transparente para toda a comunidade ver. Olha, aqui no novo posto de teste de HIV-Sida, aplicamos x; aqui, aplicamos y em medicamentos; aqui aplicamos z em pesquisa com raízes e ervas da medicina tradicional, porque isso tem de ser feito também. É preciso destinar dinheiro para isso, para os curandeiros e para aqueles que tenham práticas locais que não podem ser simplesmente desprezadas por uma ciência ocidental. A ciência ocidental, na verdade, veicula um tipo de saber limitado, ainda que os laboratórios da medicina ocidental de um ponto de vista sejam muito desenvolvidos e isso é muito importante também, não é o único saber, não é a única prática interessante onde quase sempre ela quer se colocar. Ou seja, a ciência médica ocidental não é a única, ainda que tenha muita coisa que possa oferecer.
A idéia não é a gente sair dizendo não a isso e sim àquilo. É dizer sim a tudo que possa ser aliado. A ciência ocidental pode ser aliada? Que venha a ciência ocidental! Os curandeiros podem ser aliados? Que venham os curandeiros! Fulanos, cicranos, artistas, atores, publicidade em relação ao HIV; é interessante que venha isso tudo. A gente tem de se cercar de aliados, mas sempre com esse critério seletivo daquilo que realmente vem escondido muitas vezes com o nome de aliado, que é um inimigo, que é a captura. Essa é que é a questão essencial.
Então, o que eu quero dizer é o seguinte: é que tudo se passa não pelo bem e pelo mal, mas pela maneira como vivemos, pelo nosso modo de vida. É no modo de vida que a gente se mata ou se fortalece. É no modo de vida que a gente se alimenta ou se envenena. É no modo de vida que a gente se torna mais capaz ou se torna submetido. É no modo de vida que a gente tem uma ascensão e um crescimento ou a gente se esgota, a gente fica decadente e fica fraco, adoece e morre. É pelo modo de vida. Ora, se é pelo modo de vida, o modo de vida é aquilo que a gente pode ter na mão. Nós podemos agir imediatamente na questão do modo de viver. Essa é a primeira postura. Não precisamos de dinheiro, não precisamos de absolutamente nada, a não ser desse foco na maneira de viver. Porque a maneira de viver é que vai trazer bens ou males e aí a gente pode atuar. Não é ir lá na Igreja Universal e dar dinheiro para aqueles bandidos que dizem que, em nome da fé, eu vou ter uma recompensa material necessária. Porque aqueles são bandidos. Desculpe se alguém aqui faz parte dessa igreja, eu lamento, mas não agüento e tenho de falar essas coisas...

Aparte: E ela vem do Brasil, não é? Risos...

Luiz: É mais uma exportação brasileira que me envergonha, nesse sentido. É uma coisa terrível. Eu acho que a Igreja Universal deveria ser expulsa daqui, como foi expulsa da África do Sul, de Madagascar, de Portugal, na Europa. Os povos estão reagindo e estão expulsando. São bandidos que, em nome de Deus, fazem o que fazem. Mas se a gente tem atitude, a gente não precisa de nada disso. A gente não precisa ter fé num Deus fictício, invisível, que vai nos suprir depois. A gente não precisa ser refém de nenhum poder. Então o problema essencial é criarmos atitudes, maneiras de viver e de pensar. E aí entra um ponto. Um ponto que não é moral, mas que é ético. A maneira de viver é ao mesmo tempo um filtro, como o nosso fígado que filtra os alimentos. Como nossos rins que filtram os líquidos. O líquido que é bom para o corpo fica e o resto é expelido pela urina. O fígado seleciona os elementos que são bons para o corpo. Os outros são expelidos pelas fezes. E assim é tudo na vida. As idéias que são boas, uma capacidade seletiva ativa afirmativa que temos recolhe essas idéias como aliadas. As idéias que não servem são eliminadas, expelidas.

Na verdade, nosso corpo, nossa vida e também o corpo de uma sociedade é como uma válvula, como um fígado, como um rim: ele tem um filtro, ele tem uma capacidade seletiva. Mas eu quero aqui trazer um outro elemento mais essencial ainda na questão da capacidade seletiva. Que o ocidente inventou uma falsa capacidade seletiva que diz que nós temos livre-arbítrio para escolher entre o bem e o mal. Que nós podemos escolher uma coisa e recusar outra. O que eu digo é que a escolha fundamental não está entre uma coisa e outra coisa. A escolha fundamental está em cada coisa que me chega, porque se ela me chegou, ela é necessária. E em cada coisa que me chega tem algo de essencial nela. Então a questão é: chegar a aproveitar tudo o que me chega. Tudo, inclusive o mal. Porque se o mal chegou até mim é porque teve algo de comum entre a gente, senão ele não chegaria até mim, não é? Senão ele não entra em relação comigo. Se ele entra em relação comigo é porque primeiramente tem uma comunidade de relação. Tem algo entre eu e o mal que é comum. O que é esse algo? É o próprio canal da relação. O canal da relação é então necessário, sem o que não haveria essa relação. E o que é necessário, necessariamente é positivo e afirmativo. Então eu vou extrair do mal o que ele tem de bom. Em qualquer coisa, depende de nossa postura, nós podemos nos aproveitar de tudo. Estamos mal? Vamos aproveitar. Estamos com falta disso e daquilo? Vamos aproveitar porque isso estimula a fazer isso e aquilo. Aquilo, aquela coisa, aquela outra atitude, enfim. Tudo pode ser aproveitado. Então isso nos faz ter a idéia de que não há lixo na natureza. Todo lixo é reciclável, inclusive as intoxicações do meu corpo e da minha alma ou então de uma sociedade. A gente pode aproveitar tudo, transformar e transmutar. Basta ter atitude. Então, o essencial é a gente ter atitude. E aqui então eu quero entrar numa questão que talvez seja a última para que a gente possa abrir para o debate, porque senão fica só um monólogo, o que não é bom. Mas eu queria falar de um ponto que acho que é muito importante e que é uma coisa que, no Ocidente, a gente vê como incompetência da publicidade, que são os conselhos e as orientações em relação à atitude em relação às práticas sexuais, por exemplo, às práticas seletivas que fariam evitar você contrair o retrovírus do HIV. Fala-se sempre de modo moral e eu vou ousar dizer aqui que é de um modo um tanto hipócrita no sentido de dizer que não se deve fazer isso, não se deve fazer aquilo, sempre de um ponto de vista de um dever ser e não do que a natureza pode, do que a vida pode.
Assim, eu vou dar um outro exemplo, para falar do HIV, que é o exemplo das drogas. No Brasil, é muito comum veicularem publicidade anti-drogas, dizendo assim: a droga mata, a droga faz isso e aquilo, te deixa no pior dos mundos, mostra o mundo mais negro, negro no sentido negativo, mais sem perspectiva daquele que se droga. E não se serve de uma atitude de entendimento sobre o que a droga provoca. A sociedade – e a sociedade brasileira relativamente eu conheço muito bem – ela tem mecanismos de limitação da vida e de desqualificação da vida e faz com a que vida se torne uma vida limitada, entediada, triste, pesada, sem uma riqueza perceptiva, sensível e de pensamento. O que a droga faz? A droga traz isso que a sociedade proíbe, que a sociedade não dá, que a sociedade cultiva, na sua educação decadente. A droga faz o papel de liberação, só que por uma via torta, evidentemente, porque aquele que é drogado vai se dar mal em 99% dos casos. É muito difícil realmente ver aquele que sabe usar a droga e se libera verdadeiramente dela. Então não se percebe que há uma função ativa da droga, uma função positiva de liberação de percepções e sensações e simplesmente se cria um discurso moralista que diz: “Não à droga!”, que é um discurso absolutamente hipócrita, porque só gera mais vontade de usar a droga àquele que é estimulado pelo delírio. Você proíbe e aí aquele que se sente proibido quer experimentar: - Ah, é proibido, então deve ser uma coisa muito interessante. A mesma questão então é a questão da publicidade em relação ao HIV-Aids. Não é simplesmente dizer: - Não faça sexo sem camisinha! Tenha apenas um único parceiro! Como é que você vai falar disso numa cultura a poligamia ainda é uma instituição? Como é que você vai falar para uma pessoa ter um único parceiro? Nas sociedades ocidentais, esta é uma condição de propriedade de acumulação burguesa, você ter apenas uma mulher porque há uma questão de herança, de acumulação material. Então, lá, a monogamia e a conjugalidade têm uma função de poder. Quer-se estabelecer a mesma coisa aqui como necessária. Eu não vou entrar na questão se a poligamia é boa ou má, não quero entrar nessa questão. Mas em nome de que se diz que a poligamia é má? Em nome do HIV, de que ele poderia ser disseminado? De que adianta proibir uma coisa que é praticada e que é até uma condição cultural? Se a sociedade deseja isso, pratica isso. Se a sociedade tiver de mudar, quiser mudar, ela vai mudar, mas por motivos positivos e não proibitivos. É porque pode ser mais vantajoso ter um outro tipo de atitude que não a poligamia, mas não porque a poligamia levaria à morte, em nome do HIV. Então, não adianta dizer apenas: tenha um parceiro só. Só faça sexo com camisinha. Em nome de uma série de regras e valores morais, você não vai convencer. Uma parte até se convence, mas outra parte vai continuar...

Uma outra coisa é que as campanhas são demasiado sérias, sem humor. O humor é o ingrediente primeiro, porque o humor, na verdade, tem uma crueldade necessária e chama a atenção realmente, mas do ponto de vista da alegria. O humor te afeta muito mais do que alguém falando: vamos, faça isso! O humor é muito mais poderoso. Então, por que não usar de humor? Pode até usar do chamado humor negro, por que não? É um humor mais agressivo. É um humor que ri, digamos assim, daquele que está, de alguma maneira, tendo uma atitude idiota, de contaminação ou que está à mercê da contaminação. Ou seja, você pode se servir de várias práticas tradicionais, inclusive, das chamadas feitiçarias ou de uma série de elementos, de deuses, de entidades, que veiculam, digamos assim, uma certa captura, um inimigo que penetra o corpo de outro, você pode brincar com isso, mas de um modo fundamentalmente humorístico. O humor é fundamental, senão as campanhas de publicidade, de 100 pessoas, talvez cinco ou seis se afetem com aquela mensagem e o resto diria: - ah, isso não é nada...
Esta é uma questão que eu queria abordar para a gente ter alguma discussão nesse sentido. E só para finalizar, uma última questão, que é uma espécie de mapeamento da própria circulação do HIV e também as zonas cegas, as zonas invisíveis, as zonas que se tornam tabus, digamos assim, e aquelas em que já estão mais ou menos mapeadas, porque sabemos muito bem que o portador do HIV é estigmatizado. No Ocidente, ele foi extremamente estigmatizado e hoje em dia muita gente tem medo de fazer o teste por saber das represálias que poderá sofrer socialmente, caso o resultado seja positivo. Existe, então, uma cultura do medo e do estigma que também tem de ser rompida e discutida. Enfim, são algumas questões que trago e que espero sirvam para alguma coisa. Porque não sou médico, não sou agente de saúde, não tenho a prática diária que vocês têm, então tento trazer uma visão do ponto de vista da filosofia e espero que ajude um pouco a fazer pensar. Que vocês possam criar ainda mais uma prática extremamente afirmativa de combate, não apenas ao HIV-Aids, mas a todo inimigo que traz doenças, enfraquecimento, traz captura, porque, no fundo, em última instância, atrás do pior de todos os inimigos está o poder. Tem sempre aquela instância parasita que suga, que tira energia dos corpos, das vidas, das coletividades, das políticas. Este é o pior de todos os inimigos. Então esta é a praga, a doença maior. Mas junto com ele vem uma série de outras doenças. Há, inclusive, quem diga que o HIV é uma fabricação de laboratório. Entre crenças e não crenças, dito e não dito, a gente não sabe exatamente, mas poderia muito bem ele ter sido inventado para se exercer controle. Só vou dar um exemplo rápido disso, e então vou mesmo finalizar, porque acho que já falei além da conta, enfim. Nos Estados Unidos, na década de 50, o grande problema das cidades e principalmente de Nova York, Chicago, eram as gangues, os bandos urbanos de jovens. Havia muitas guerras entre elas, mas afirmavam destinos diferentes de ser. Cada bando, cada gangue, tinha seu estilo e era uma questão de orgulho. Era como uma cultura que fazia guerra com outra cultura. A CIA, órgão de inteligência norte-americano, e o FBI inventaram um jeito de acabar com as gangues, porque elas estavam incomodando a vida urbana, atrapalhando o capitalismo urbano. O jeito que eles inventaram foi inserir a cocaína nos bandos. A própria CIA e o FBI começaram a fornecer cocaína para os bandos. O que aconteceu? Eles se desfacelaram, acabaram. Este é só um exemplo de que muitas vezes o poder é capaz de fazer esse tipo de coisa e se ele inventou ou não o HIV, esta já não mais uma questão, mas poderia bem ser, não é? Em nome de um biopoder, o poder chega agora pelo próprio controle da vida. No Brasil se faz muito biopirataria, aqui deve haver também. Os curandeiros devem saber que as plantas devem ser roubadas o tempo todo por gente que diz que vai fazer pesquisa de ervas e suas propriedades farmacêuticas ou de cosméticos, etc. e levam, patenteiam, tomam uma fórmula que já era dos antepassados. Então, o capitalismo não tem escrúpulos. E eles chegam sorrateiros e quando você vê, já foi. É como o HIV, chega e quando você vê, diz, agora já era. Fazer o que? Hoje em dia, não se morre mais de HIV. Não é necessário mais. Não que não se morra. Morre-se sim, mas não é mais necessário morrer-se de Sida, porque já há medicamentos para se prolongar a vida. Existem laboratórios que já conseguiram. Então esses aliados devem estar aqui, gratuitamente para a população. Esta tem de ser uma outra luta política. No Brasil, esta luta está praticamente vencida, os medicamentos são gratuitos para a população portadora do HIV. Esta é uma outra questão, não é mais preciso morrer de SIDA. Você pode prolongar a vida, conviver com o retrovírus, criar um estilo de vida, mas para isso é preciso ter essa conquista do acesso amplo e devido uso dos medicamentos.
''Por uma questão de ordem, as perguntas e os comentários dos participantes foram feitos todos juntos e as respostas foram amarradas ao final''

Participante 1. Daniel (Matola): – Sou advogado do INFAL. Tenho muito a agradecer por esta oportunidade que me foi concedida para conversar e aprender um pouco sobre as outras maneiras de se combater o HIV –SIDA, daquilo que peguei como ponto de conversa. Estou trabalhando na prevenção. Eu já trabalhava com criança órfã e estou trabalhando com mulher viúva que, majoritariamente, são mulheres que os maridos pereceram com tuberculose e com HIV. Há atividades que nós realmente desenvolvemos para que esta doença, assim como nas crianças cujos pais pereceram, nós temos que introduzir para que mudem de comportamento. Estou percebendo aqui o Ocidente, assim como uma parte do Oriente, está e continua a envenenar as nossas mentes em relação àquilo que o
HIV na verdade é e o que estamos vivendo aqui em Moçambique.

'É um pouco difícil compreender por que razão os mesmos ainda enviam navios com toneladas e toneladas de alimentos para poderem resolver o alongamento das vidas desses que estão a perecer com HIV, mas fora do prazo de validade, por exemplo. Nós estamos a perceber situações sérias dentro do país de beneficiários que hoje estão a encontrar uma segunda doença em relação aos alimentos que são doados. Francamente. Estamos a perceber, embora não tenhamos essa parte do poder que se referiu, de dizer não a essa ajuda. Se possível, que voltem ao mar e dêem aos peixes. Mas também para que contaminar os peixes? Eles são nossa alimentação também'.

É o mesmo círculo. É um pouco difícil realmente de pegarmos essas posições, mas seria a altura de começarmos a pensar nisso, para que as próximas gerações não venham a\cair dentro e continuem a serem domados como somos domados. Esta parte de modo de vida em que estamos sujeitos, realmente, uma exportação ou importação, já não sei exatamente como posicionar, esta vinda de culturas que ao fim e ao cabo já não conseguimos nos primar pela cultura inteiramente moçambicana enquanto que tal. O senhor se referiu um bocadinho das novelas, não só as brasileiras, e outras. A STV é um canal de televisão que tantos jovens apreciam, o tipo de música que é tocada durante o período que essa emissora está aberta, não tem nada a ver com Moçambique, aparecem com uma ou duas músicas moçambicanas cantadas ali, é por uma questão de segundos. Mas a maior parte do tempo vamos ver americanos, jamaicanos - que é tudo América, não é? - mas vamos ver toda uma gama de cultura ocidental. É exatamente por isso que estamos a falar das novelas também. Realmente é orgulho, como nos disse, que começamos uma sessão dessas com uma dança tradicional inteiramente nossa. Esta é uma maneira de mostrar que ainda que precisemos de mais capacitação, não é verdade, já estamos a perceber que é a partir da cultura, da informação, pois que a cultura é uma informação também; a comunicação entre os povos, a transmissão das experiências nos identificam como um povo enquanto tal.

Eu só ganhei com esse pequeno debate – aliás, nem é pequeno – eu só ganhei. Pois a maneira de como enfrentar essa doença do século; se efetivamente é uma coisa fabricada nos laboratórios já há quem dizia que, dentro dos alimentos – aqui eu voltei para a parte dos alimentos – enlatados ou não, há um quê ali, há um quê do HIV e as pessoas consumiam e volta e meia eles estão lá. Esses medicamentos, quando os grandes laboratórios fazem as pesquisas de um determinado medicamento, quando é chegada a vez, nós somos bodes expiatórios. Chegam aqui em nossos hospitais onde estão internadas pessoas vivendo com o HIV, as cobaias, fazem de nós as cobaias mesmo. É verdade. Então é a partir disso que nós temos começar a ver. O nosso ministério da Saúde deve ter essa qualidade de perceber, compreender, ver, analisar, o tipo de medicamento que é realmente introduzido no país que volta e meia é retirada a patência, ou a marca, porque não era aquele que devia, mas porque isso faz parte dos grandes laboratórios para poderem ter esse grande comércio... Mas para terminar também, quero dizer que estou muito grato. Gostaria de aprender mais com os colegas e muito obrigado.

Participante 2: Vão me desculpar porque tenho outro compromisso e minha intervenção é bastante curta. Eu gosto de ser direto em certos assuntos. Muito mais para o nosso visitante, eu diria que é um grande problema nosso, conforme já foi dito, que já não se morre de HIV. '

''Quero dizer que aqui em Moçambique ainda se morre de HIV. Nós só temos duas classes sociais. Quem tem minimamente e quem não tem. Há quem diga que tenha o normal, que dá para comer diariamente. Mas esse não tem. Pode ter para comer, mas não tem uma palhoça condigna. Então, há duas classes: quem tem e quem não tem. E em relação a medicamentos não há'. ''

Hoje em dia, o Ministério da Saúde já não recebe pessoas com HIV, porque já não há medicamentos para distribuir. Porque se recebem pessoas novas, automaticamente já não vão poder manter aquelas outras pessoas que já estão recebendo há mais tempo. E outra coisa: a pessoa tem medicamento, mas por ser de uma classe que não tem, chega em casa toma, aquilo é pesado e acaba morrendo por causa dos medicamentos. E é por aí que eu quero dizer que ainda se morre de HIV e ainda vai se morrer muito. É muito difícil dizer que em nosso país já não se poderá morrer de HIV ...

Luiz Fuganti: Eu quero dizer que antes eu até reforcei essa frase: morrer por HIV só acontece por omissão das políticas públicas.

Participante 2: Sim. Eu também quero reforçar realmente o problema das cestas básicas. É um problema que existe. São alocados vários fundos para as ONGs para levar cestas básicas aos doentes, mas muitas vezes elas não chegam lá. Essa é a minha contribuição. Obrigado.

Participante 3: Vou primar de fato não pelo HIV-SIDA, mas pela associação da qual também sou membro e faço trabalhos para a área de desenvolvimento comunitário que, naturalmente, passa também por esse componente do HIV-SIDA. Para mim, o HIV-SIDA está muito associado na base daquilo que foi a primeira apresentação do nosso filósofo aqui em dizer que entre o Ocidente e o Oriente e particularmente a África, aqui em Moçambique, onde estamos, a situação do SIDA é muito complicada. Não sei se realmente seria o problema do poder, que volta a fazer um peso nas consciências de pessoas com relação ao HIV. E eu gostaria de, nesse debate, de que se falasse mesmo mais do HIV, porque é aquilo que nos preocupa. Aliás, é com base na maior parte das organizações que estão aqui presentes que foram criadas de fato para o combate a esta epidemia. Mas há uma pergunta que antes eu gostaria de reservar para o nosso representante brasileiro. Como é que o Brasil encara de fato a epidemia do século? E se tem isso, como é que conseguiu ultrapassar as barreiras que nós hoje, em Moçambique atravessamos? Nós ouvimos dizer até, de fontes bem seguras, nós podemos ver alguns artigos nos jornais e na televisão, de alguns representantes seniors do governo brasileiro prometer abrir uma fábrica em Moçambique para a fabricação de medicamentos, tanto que são para os retrovirais, não se sabe. Estava prometido que dentro em breve iria haver, mas realmente, como sabemos, Moçambique é um país que ainda não atingiu a indústria para conseguir um capital de tal forma a poder alocar de forma gratuita essa distribuição de medicamentos como o Brasil já tem. Mas eu gostaria de saber, em poucas palavras, de fato resumidas, como o Brasil, juntando-se à sociedade civil, ultrapassou essas barreiras para chegar à fase em que está. Por que, tendo em conta que o Brasil realmente não precisou de muito tempo para ultrapassar isso? Nós, na África, particularmente em Moçambique, começamos a ouvir falar de SIDA. que nem tínhamos isso na consciência, na década de 80. De lá pra cá, estamos já com praticamente 25 anos, para não exagerar, dentro dessa doença. Os moçambicanos começaram a ter o peso na consciência dessa doença a partir da década de 90, que é quando nós começamos a assumir que isso já era um problema sério tal como a gente já vive na essência, porque dizia-se na década de 90 que o SIDA seria uma doença que poderia matar. Eliminava o homem por completo. As pessoas não tinham isso. Mas, de 1999 ou 2000 para cá, isso começou a ser uma coisa vivida por todos nós. É simples, até alguém aqui entre nós, pode aparecer alguém dizendo que tem o problema do SIDA. Já não é o problema, como se referiu um pouco antes, que já por se temer as represálias que as pessoas iriam passar quando se descobrisse que esta já é uma pessoa infectada. Nós já temos essa liberdade em Moçambique, pelo menos as pessoas já dizem, aparecem em público dizem e as pessoas entre nós conversam sobre essa situação. E principalmente aquelas pessoas que agora já recebem medicamentos quer queiram ou não divulgam ... Por cá, houve problemas quando apareceu a questão do tal navio que falou nosso colega. É realmente um pouco chato. Isso nós conseguimos ver. Eu não sei se quando enviam os produtos de lá, dos países que acham que devem doar a nós; mandam os produtos com um prazo adiantado em cinco anos, mas quando aparecem aqui os produtos já não têm validade. Quer dizer que eu não sei qual a distância que se percorre, por exemplo, do Brasil para se chegar em Moçambique de navio com produtos fora do prazo. Quer dizer não consigo entender. Eu não digo o Brasil, dou o exemplo do Brasil, porque é o país que agora estamos a ter essa relação de debate. Poderia dizer de um país como a Dinamarca ou a Holanda e, não sei, por aí afora. Mas eu digo que, em relação aos fundos alocados, realmente há uma coisa que deveríamos considerar um pouco. Há países do Ocidente que quando doam para uma Guiné Bissau, por exemplo - a Guiné Bissau para Moçambique é o planalto da moeda, para os que conhecem e são moçambicanos. Estão a ver o distrito da moeda? É a Guiné Bissau aqui. Aquilo para nós é dirigido para um administrador; para a Guiné Bissau é para um presidente... Imaginem um fundo alocado para a Guiné Bissau não deve ser um fundo alocado para a República de Moçambique. Então nós temos esse problema. Isso para fugir de que? Um pouco daquilo que a gente considera corrupção. Em Moçambique não podemos sentir tanto a corrupção quando se mandam os donativos. Quando dizem: mandamos 200 mil dólares ou dois milhões de dólares para Moçambique para o apoio às ONGs que trabalham na área de combate ou prevenção do HIV-SIDA. Comparativamente àquilo que pode se ter mandado para Guiné, para S. Tomé é insignificante. Esse dinheiro não chega a ser nada. Estamos aqui na Machava. Essa Machava é um posto administrativo com cerca de catorze bairros e congrega um agregado acima dos 116 mil habitantes. Eu faria a pergunta: quanto valor pensam que podia ser alocado desde a prevenção, para os cuidados, o acompanhamento, até a medicação. O que acontece muitas das vezes nas doações ... Se conta, por exemplo, apoio nutricional, mas não se está a contar, por exemplo, como é que o navio depois de estar ali para transportar essas coisas, para fazer chegar aos donos, distribuir, quer dizer, esta coisa toda não está inserida. E quando aparece, não é a mudança muitas das vezes da atitude do projeto o objetivo da associação. É que as circunstâncias às vezes obrigam em determinados momentos que a gente tome outras posições. Porque realmente não somos nós quem tem. Concordo, estamos com duas classes ou três: quem tem, quem tem o mínimo e quem não tem. E nós optamos por aqueles que não têm. E os que não têm, são os que mais sofrem nesse caso, quando se descobre que é essa a situação. Nós estamos aqui, numa zona do corredor, estamos por uma zona por onde passamos no corredor, é a zona do parque industrial, é o sítio de muita concentração, vou até realçar, que é o sítio de passagem de todos tipos de pessoas por aqui. Assim, a partir das fronteiras usando nossos corredores e o contato com as pessoas tem sido dos melhores, daí é que... não é fácil. E com essa dificuldade que a gente tem, não é fácil ... A este jogo do preservativo que muitas das vezes como material usado para dar prevenção que a gente usa que também deixa a duvidar também. A gente fica sem saber qual está dentro do prazo, que a gente se referiu aqui... Não sei qual seria a melhor fiscalização.

Como é que o Brasil, na sua experiência, acha que deve nos transmitir no que diz respeito ao controle de fiscalização desses tipos de instrumentos de material que a gente usa para o combate e a prevenção a esta epidemia. Nós falamos bastante de SIDA, poderíamos falar também de cólera. Mas o cólera é uma coisa que periodicamente no nosso país aparece. A gente conhece as épocas em que o cólera até tem atuado, como a malária. Mas essa malária que a gente de Moçambique tinha nos tempos, posso dizer, isso não é um dado oficial, mas posso dizer que está no dia a dia que eu investigo, nas minhas pesquisas, eu consigo notar que há malária agora até no inverno ... Era difícil no inverno a gente ter essa malária. Não se tinha malária no tempo de frio aqui em Moçambique. Mas agora é freqüente, a malária em todas as estações do tempo. Quer dizer que é mais uma situação que, penso, as autoridades da saúde até devem estar em fase de pesquisa para descobrir o que é que está se passando por detrás disso. Será de fato que será aquilo que chamam de sintomas do HIV-SIDA? Ou não é a mesma malária do palodismo que a gente tem? Nas estações do tempo que a gente tem, ou seja, há essa diversidade de complicação para mim. Mas não vou deixar de ceder o lugar para que os outros também falem. Mas também lancei aquelas três perguntas para ver se numa delas a gente consegue ter um bocadinho de saída em relação que foram os obstáculos que o Brasil teve e superou.

Talvez seja a diferença de tempo em que o Brasil tomou conhecimento da existência do vírus e aquilo que Moçambique teve na mesma via para tomar conhecimento... Os tratamentos é que são um pouco diferentes. Quis também dizer o que vem associado à gravidade que é o SIDA, para nós que é ainda problema, quando para os outros não é problema. Por exemplo, no Ocidente já não é problema o HIV-SIDA, mas para nós aqui na África é um problema sim. Mas isso está associado à industrialização. Tanto o capital, porque a gente não tem o capital financeiro, nós não temos e em relação à dependência eu posso dizer que realmente as imposições dos que têm já nos tem criado também perturbações naquilo que queremos fazer no atendimento a esta epidemia. Bom, vamos ver mais debates. Penso que os outros vão falar qualquer coisinha até eu achar que devo dizer e me pronunciar. Obrigado.

Participante 4 - Raimundo Dimas, da Organização Viva a Vida: Falou-se aqui de um estilo de vida. Eu queria saber como alguém que está infectado pelo HIV-SIDA pode adotar um estilo de vida para viver, não só esperando pelos retrovirais. Adotar um estilo de vida que lhe facilite viver tendo o SIDA, não se deixando abater com o SIDA. É somente esta questão que quero fazer.

Participante 5 - Ângelo Eurico (membro da Associação Adesmo): Só gostaria de salientar algumas coisas. Acho que o governo poderia adotar uma outra maneira de prevenir. O governo poderia falar do preservativo, não proibir a importação do preservativo. Acho que aí cada qual iria tomar as devidas providências. Porque cada pessoa duas vezes ao se deixar envolver com outra pessoa que não conhece, mas evitando uma propagação Assim poderia se controlar melhor.

Luiz Fuganti: Você acredita que isso possa funcionar?

Ângelo: Acho que pode funcionar. Porque eu posso evitar me relacionar com uma pessoa que não conheço. Outra pessoa também pode evitar. Assim, as idéias vão se desenvolvendo. E podemos evitar as mortes consecutivas das pessoas ou as mulheres ou as crianças órfãs que estão a aparecer. Desfavorecidas, sem nenhuma condição de vida. Acho que, seguindo o debate, outras coisas vão aparecer.

Participante 6 – Alberto, da Associação Joice:__ Eu queria falar da educação mesmo, porque muitos de nós, moçambicanos, sempre reclamamos que estamos precisando de apoio. Apoio e que tudo isso saia do governo. Mas enquanto nós não fizermos nada que possa nos dar alguma coisa e falar acerca da educação, porque a gente tem uns doze anos a estudar, sem contar com a reprovação. São doze anos que a gente está a estudar. Nós começamos a estudar com sete anos e com mais os doze anos vamos completar dezenove anos de idade. Com quinze anos, a gente já tem preocupações com dinheiro. Quando você está na 12a. classe, você já não tem nenhuma formação, você não tem emprego, não tem nada. Então, gostaria que, talvez, que se desenvolvesse a educação, porque a gente desde criança tem um certo objetivo que gostaria de seguir. Então, em vez de eu estudar até a 12a. série, já com outros programas na cabeça, então eu deveria estar pensando em atingir aqueles meus programas. Posso dizer que o próprio governo vai depender do estrangeiro. Muita gente chora por causa de um emprego. Muitas empresas são do estrangeiro, dizem que é porque o estrangeiro é bom. Bom, mas agora eu quero visitar o meu país. Então se aquela empresa sai, aqui fechou-se. Nós aqui tínhamos que, desde pequenos, estudar e ter uma certa formação para não depender, para pensar em fazer o nosso dinheiro. Para a gente ter o dinheiro que a gente possa gerir com nossos equipamentos, etc... Não é que aqui somos grandes, mas é que nós também dependemos dos outros para nos darem dinheiro. Nós esperamos deles para nos dar, então é essa a principal dificuldade. E para reprisar o que o nosso colega falou, que se arranja um jeito de durante uma semana usar preservativo com uma pessoa, mas depois já não usa mais porque já se acostumou. Você se acostumar com uma pessoa não quer dizer que você conhece aquela pessoa, saiba onde andou antes.

Participante 7: Eu queria enaltecer a idéia do jovem que estava falando aqui há pouco. Eu tinha uma idéia quase similar. Houve uma idéia aqui de proibir o uso de preservativo. Acho que não deveria se proibir o preservativo, porque ensinar sobre SIDA não é não incentivar a pessoa a praticar o sexo; é ensinar acerca do sexo e dizer que tem que utilizar o preservativo. Há uma idéia que diz que seu digo: não utilize mais o preservativo! Alguém ia ter uma idéia assim: já que não preciso mais usar o preservativo, agora paro. Não vou mais fazer o sexo, porque se eu faço sexo hei de ter SIDA. Mas faria isso, um jovem que é capacitado, que sabe que o SIDA existe. Mas aqueles que não sabem não iriam parar; continuariam a utilizar o preservativo. A minha idéia é a que não paremos de utilizar o preservativo, ensinemos aqueles que não sabem a utilizá-lo, porque o preservativo ajuda aqueles que sabem que a SIDA existe. Aqueles que não sabem, com preservativos vão se prevenindo. É isso que eu queria falar.

Participante 8 - Samora Michel: Simplesmente não tenho muita coisa a dizer a não ser agradecer a sua presença aqui em Moçambique. Isso é de se louvar. No momento é ímpar. Não são todas as coisas que podem apanhar essa reunião e tornar a repetir o que meu colega estava a se referir. Eu posso dizer que o uso de preservativo é obrigatório. Isso parte de cada um de nós. O indivíduo é que deve saber porque o uso, quando deve usar, para que e usar. Porque, na verdade, se não usa, hoje em dia não se brinca. O SIDA existe e posso dizer que veio para ficar, porque naturalmente ainda não existe a cura. Simplesmente existem medicamentos para atenuar o próprio vírus. Então, há uma necessidade de toda a população a acatar o uso de preservativo, porque eu não posso saber se ela ou ele está contaminado, se eu mantiver relação sexual sem o uso de preservativo. Eu vou falar das associações que estão abalizadas na matéria. Há que incentivar o outro para que possa mesmo usar o preservativo. As pessoas estão a morrer e assim não dá. O moçambicano é um povo pacífico, quando entra uma instituição qualquer com dinheiro de verdade. Falou-se das igrejas, por exemplo, da Universal do Reino de Deus, que, na verdade, o que faz é roubar, usando o nome de Deus. E isso é que é mal. Quando entra uma instituição com dinheiro, ela prefere o dinheiro para ela que aplicar naquilo que vai beneficiar a população. Não quer saber do mal que vai acontecer, sei lá, daqui a cinco anos. Simplesmente quer o presente, não quer saber do futuro. Isso, na verdade, eu também estou contra. Às vezes vejo a televisão. Há uma televisão, a Miramar, em que as pessoas falam de muitas coisas, de que a igreja cura, que a igreja pode fazer isso e etc. Uma vez vi uma senhora falando que tinha tido o SIDA, mas que estava então curada em nome da fé. Porque ela se entregou à Igreja do Reino de Deus, naturalmente. Ela dizia que se você fosse na igreja você ficaria salvo. Risos. A fé daria conta disso. Se eu fosse o presidente da República, hoje mesmo, eu mandaria esta igreja de volta para o vosso país. Então é mais ou menos assim.

Participante 9 – Associação Viva a Vida: Eu queria acrescentar um bocado daquilo que falou a Dona Claudina. Da questão de como a pessoa apanha o HIV. Não é só do “jeito” que a pessoa apanha. Pode ser pela agulha. Se uma pessoa é soropositiva conferida, contra uma outra pessoa que não tem... Através de uma mosca que passa onde ela tem uma ferida e depois sai, vai pousar na ferida de uma outra pessoa, é contaminada. Mesmo do sexo ao sexo, uma pessoa que é soropositiva contra outra pessoa que não é, mas tendo uma ferida, essa outra pessoa apanha a SIDA e não é através do “jeito”. Eu mesma passei um bocado no hospital, há certos “jeitos” que estão fora do prazo. Tem bactérias bastante patogênicas por causa disso, porque estão fora do prazo.

Participante 10: Descobriram que esse “jeito”, esse preservativo está fora do prazo e como prova disso, até a própria Saúde ainda não nos deu isso, mas já temos provas que esse preservativo, senhor enfermeiro, senhor médico, senhor técnico da medicina, está havendo isso. Nós temos que provar essas coisas, porque muitas das vezes nossas intervenções, é verdade, que não devem ser destrutivas, mas devem ser intervenções, como deve vir do Brasil, não é? Vem de lá, não sei se é do Rio de Janeiro ou de São Paulo... Ah, vem de São Paulo. Dá pra ver, que depois de abrir o preservativo, sai um bichinho, uma bactéria. Mas também quero ratificar essa parte de bactéria patogênica. Não é uma bactéria qualquer que aparece lá, queríamos deixar claro isso, porque ele, ao falar, me faz lembrar de uma vez que disse que até os curandeiros, muitas das vezes, são marginalizados. Porque, aquém das investigações e pesquisas, até os nossos antepassados usaram medicamentos fortes. Na farmácia moderna, aquilo é patenteado por indivíduos que apareceram e somem. Depois aparece aquilo de novo para si próprio, dizendo: é um comprimido que “nós descobrimos”. Mas na verdade, o comprimido foi descoberto aqui mesmo, era algo que já existia. Foi você quem descobriu o comprimido. Falta esta aproximação da medicina moderna com a medicina tradicional. Realmente deveria haver, mas a partir de nós aqui. Nós trabalhamos muito nesta situação. É que temos incutir. Essa descoberta, por exemplo, de preservativo, água quente, nós estamos aqui a ouvir. Mas, cuidado porque essa que é uma investigação sua, seja tarde, em vez de divulgarmos.

Participante 11: Meu nome é Sérgio, gestor de advocacia. O que eu quero apresentar aqui é um ponto que registrei e que achei muito importante para nós, para talvez termos a experiência lá do outro lado, da capacidade seletiva que um homem deve ter do modo de viver. Eu gostaria de, talvez, que se pudesse desenvolver, de dar algumas dicas, desenvolver algumas experiências na divulgação dessa capacidade seletiva que eu acho que aqui em Moçambique falta muito lá na base. Essa capacidade de selecionar o modo de viver. Como nós das associações podemos fazer um trabalho lá na base que possa dar frutos. Porque eu acho que um homem, a partir dessa capacidade que tem de escolher o que ele quer ser, daquilo que receba, daquilo que de fato precisa, isso seria muito importante para lutar contra muitos males para além da SIDA que enfermam nossa sociedade. Eu gostaria que nos dessem uma experiência em que possamos nos aliar a esta experiência para fazer um trabalho de desenvolvimento dessa capacidade no homem. Acho que é o que nos falta para nós. Nos falta muito. O governo tem sua parte, mas mesmo nós como humanos, como moçambicanos nos falta esta parte. Não sabemos escolher o que é que nós queremos ser. O que é que nós necessitamos daquilo que nós recebemos dos outros. Era isso que eu queria dizer, obrigado.

Participante 12: Eu quero falar da parte da SIDA, que é a parte onde me sinto mais bem à vontade. Esse bairro aqui, o Machava, é uma zona em que, lá para o interior, quase que as pessoas nem chegam e não há como as pessoas terem esse tipo de informação. Os meios de comunicação são escassos porque lá mais para dentro nem a energia elétrica chega. Mas, também, por mais que as informações cheguem para as pessoas, como é que vão conseguir evitar essa doença? Onde adquirir o preservativo, por exemplo? Não há onde ter o preservativo. Então, eles têm uma informação, onde vão se proteger, onde vão arranjar esse dispositivo para se proteger? Acho que falta um pouco de cultura. Porque quando a gente fala com uma pessoa e esta pessoa despreza nossa informação, vou falar um pouco como ativista, temos de deixar a pessoa manifestar sua vontade. Ela pode não saber o que está dizendo, mas ela tem de ter a oportunidade de se defender. Temos de descobrir outras maneiras de pôr as pessoas conscientes do que é a tal doença. Eu só queria falar a respeito disso. Obrigado. 
Luiz Fuganti: Algumas pessoas colocaram de fato questões e outras já deram sugestões e colocações. Já tem muito pensamento, envolvendo isso tudo: atitudes, práticas e a questão seletiva. Na medida em que eu for me lembrando de algumas questões essenciais eu vou falando e aí peço a generosidade de vocês. Se eu me ausentar de algumas questões, me sinalizem de novo: “olha, e essa questão e aquela..., aqui você esqueceu, aqui você passou e assim por diante”.
Eu vou tentar falar segundo o que está me afetando mais imediatamente e as questões mais gerais do ponto de vista das políticas públicas que eu me lembro foram levantadas. A gente pode começar pela questão de como o Brasil ultrapassou as dificuldades iniciais. Eu digo que são iniciais, porque ainda há muitas dificuldades. Também no Brasil, acredito que ainda se morre de Aids. É muito menos, acho que é apenas uma minoria, mas acho que ainda acontece isso. Felizmente o Brasil tem algumas comunidades, alguns movimentos, muito ativos em algumas áreas. O Brasil também tem um setor que é bem forte. Existe muito homossexualismo no Brasil. As comunidades homossexuais são muito organizadas ou aprenderam a se organizar e a se defender, porque também no Brasil existe muito preconceito contra homossexuais. Inicialmente os próprios norte-americanos, a Europa, a moral estabelecida e as religiões diziam que era uma doença de homossexuais. Era uma doença de libertinos, era uma doença que pegavam aqueles que se comportavam mal. Era uma espécie de castigo divino ou de outra espécie. Mas, enfim, era preciso mudar o seu comportamento. O que eu quero dizer é que, no Brasil, esse discurso moralista, nesses movimentos, não pegava. E esses movimentos começaram a se organizar e a se defender muito fortemente. E começaram a tomar atitudes em relação à maneira de se relacionar sexualmente e inventar meios de esclarecimento, meios de se fazer prognósticos, diagnósticos, de remediar, de desestigmatizar etc. Esse lado, não só das comunidades homossexuais, mas de muitos outros movimentos - como também os GAPs, Grupos de Apoio aos Portadores de HIV, de artistas, de mulheres, mães, porque no Brasil tem muitos movimentos ativistas se organizando em torno de entidades civis - foram muito importantes para forçar o governo brasileiro a ter uma atitude mais ativa e criar uma política pública direcionada para essa questão. A gente sabe também que onde o capitalismo é um pouco mais desenvolvido percebe-se que ele atua diretamente naquilo que desagrega socialmente e que também viabiliza a condição de sua reprodução. Então o HIV não se tornou simplesmente uma ameaça para a vida e para as comunidades. Ele se tornou também uma ameaça para o modo de viver em sociedade, de acumulação econômica, de negociações etc., de uma sociedade que precisa, digamos assim, da paz, da saúde e da estabilidade para realizar bons negócios. Então isso faz parte também de uma atitude de um país que quer manter o seu nível econômico, seu desenvolvimento econômico. Mas essencialmente teve de fato uma atitude do poder público e do Ministério da Saúde. Houve uma política do SUS – Sistema Único de Saúde - muito ligada é claro à ação direta dessas comunidades que respondeu à altura e teve atos de Estado que tomaram a saúde pública como sendo uma prioridade em relação aos negócios privados. Por exemplo, recentemente, o atual governo do Lula quebrou a patente de um grande laboratório norte-americano, pela primeira vez na História, porque esse laboratório não queria abrir mão dos lucros exorbitantes que ele estava tendo em cima de uma descoberta que produzia um medicamento importantíssimo que faz parte do coquetel que atua para manter a vida dos portadores do HIV. Há, então, uma atitude estatal forte nesse sentido, há uma intervenção do Estado muito forte, mas que não é simplesmente uma vontade de um bom governo, mas uma conquista social. Os próprios movimentos sociais se impõem, de alguma maneira, conjugados com o ministério e fazem essa atuação direta. Uma vez que a pobreza no Brasil é muito forte, as desigualdades no Brasil são muito grandes, existem ricos muito ricos, mas muito mesmo, e existem pobres muito pobres; existem pobres não tão pobres; pobres ainda um pouco menos pobres. Enfim, existe de tudo, mas a grande maioria é pobre e talvez tenha até 30% de gente que viva naquela linha abaixo da pobreza. Eu preciso ver isso, pode ser que não chegue a ser 30%, mas bem acima de 20% vive na linha abaixo da pobreza. Então o Brasil é um país de grandes desigualdades e sabe-se muito bem que onde há muita pobreza e falta de condições, se o Estado não intervir, existe uma calamidade pública mesmo, uma epidemia que não tem mais nenhum controle. O brasileiro gosta muito de sexo; faz muito sexo. É uma cultura de sexo, é uma cultura que vitaliza e que prioriza do corpo; as pessoas gostam dos prazeres da vida. A sexualidade faz parte da vida, é uma coisa bonita. E é por isso que aqui eu já aproveito e respondo uma questão sobre o não uso do preservativo. Não é que é uma boa ou má idéia. Eu sinto que é uma idéia que não convence. Porque a natureza, a vida não funciona por proibição ou por uma sugestão de abstinência. É mais ou menos como você dizer: a tua vida tem mil faces, mas tem cem ou cento e cinqüenta faces que você não pode viver, que é proibido você viver. É uma coisa estranha para a vida. Um dia desses, lá na Matola sede, me perguntaram sobre a questão do sexo com animais e queriam saber, em outras palavras, se isso era legítimo. Se isso deveria ser feito ou não. Aí eu respondi que a questão não era se deve ou não deve; se há relação, é porque pode. Se há é porque pode, mesmo que tenha uma proibição. A questão é que se é natureza, ela gosta do que pode, faz o que pode. A questão então é não proibir o que pode, mas, aí sim, fortalecer a capacidade seletiva para que tudo o que ela puder seja vitalizador, seja potencializador; que não se morra pela boca e não se beba o próprio veneno ou morda a isca que nos mata. Então é esta a questão. Não exatamente proibir a relação, mas agir nessa relação de um modo tal que você tenha a capacidade, tenha a prudência, tenha a defesa para não ser destruído. Então, se relacionar sim, mas de modo suficientemente protegido para que você se fortaleça a cada relação que você tenha e não se enfraqueça. E assim, sob todos os pontos de vista e não apenas sob o ponto de vista do HIV. Do ponto de vista ético; do ponto de vista das idéias; do ponto de vista da vitalidade do corpo; da alegria coletiva; da coletividade; da cultura; de todos os pontos de vista: todas as relações que a gente tem, a gente pode ter. Mas a questão é: de que jeito que você pode ter? Não é de qualquer jeito, não é de qualquer maneira. Então essa é a capacidade seletiva, aí entra a questão que a própria cultura, na sua essência é isso.

“A cultura cria a maneira de viver. Essa é a postura ativa da cultura. É por isso que a cultura não pode se jogar fora, não pode se menosprezar. Porque as culturas criam estilos próprios de viver e aquilo que se chama cultura simplesmente como uma tradição estagnada, isso não é cultura. A cultura é sempre viva, é sempre dinâmica, ela sempre se modifica”.

Então o que o Estado geralmente faz em relação à cultura, dizendo que isso vai para o Ministério, vai para um departamento, é folclorizar a cultura. A cultura vira folclore. E por que vira folclore? Porque é um objeto de troca, uma mercadoria. Eu posso vender uma dança, um canto, uma atitude: ‘Olha que bonito, que exótico’. Aquilo tem valor de mercado.

É o capitalismo já matando a cultura, folclorizando a cultura, mas a cultura em sua essência é outra coisa. É uma atitude ativa que seleciona maneiras de viver. Modos de vida que não proíbem as relações como: ‘Ah, uso camisinha ou não uso camisinha...’. Não é pela produção é pela capacidade de fazer com que cada relação seja fortalecedora e não enfraquecedora. É uma capacidade que faz com que toda relação tenha algo de positivo para dar, uma vez que para que haja relação tem que ter algo em comum. Então, essa postura responde à questão de ‘Ah, não use camisinha, mas se abstenha do sexo”. Não vai funcionar. Ao menos para mim não funcionaria e acho que para muita gente. Então, tem gente que é capaz de se abster. Existe gente que é capaz, mas são muito poucos. Você vê a igreja católica. Os padres são proibidos de casar. Mas há muita promiscuidade nos conventos, entre as freiras, entre os padres. Há muitos casos de pedofilia, safadeza, sacanagem. Há muito nessas instituições que proíbem o padre de ter relações sexuais. A proibição sempre chama a transgressão. Então a questão é outra, a gente tem que ir a favor da natureza e não contra a natureza; a favor do amor, a favor da vida, a favor do sexo, a favor de tudo o que é bom. Porque isso é bonito, faz parte da vida e não estigmatizar a vida e dizer que há um modelo de comportamento, que deve ser assim e não deve ser assado, porque não vai funcionar. Não é uma atitude boa. Então, a sociedade brasileira, ainda voltando àquela outra questão de como o Brasil resolve isso...

“De alguma maneira, a sociedade brasileira é mais plural nesse sentido. Ela já admite várias maneiras de se relacionar. Vou dar como exemplo uma política municipal na cidade de Santos”.

Houve um prefeito que morreu há uns três ou quatro anos de câncer, chamado David Capistrano. Mas, antes disso, ele foi secretário da saúde do município, na época da prefeita Telma de Souza, do PT - Partido dos Trabalhadores. Nessa gestão, Santos foi a primeira cidade no Brasil que começou a distribuir seringas descartáveis e camisinhas no Porto de Santos. O Porto de Santos era o lugar onde mais havia contaminação de Aids, por causa da prostituição e também porque a droga rolava solta. Então, você vai dizer o que? Não use drogas? Enquanto isso os jovens vão se drogando, usando a mesma seringa e isso e aquilo e a Aids vai se espalhando e se torna uma calamidade pública. A prefeitura começou a distribuir seringas e os moralistas tiveram uma atitude radical. A Igreja, vários setores reacionários da sociedade disseram que era um absurdo que estavam incentivando o uso das drogas, aprovando uma prática que deveria ser proibida. O que se entendia na época era que uma atitude moral não iria resolver. As pessoas usavam drogas do mesmo jeito.

Assim, pensou-se, ao menos, em como conter a contaminação. Com a camisinha foi a mesma coisa. As prostitutas do Porto de Santos não só espalhavam a Aids na própria cidade e no Estado de São Paulo, mas para o mundo inteiro, porque é um porto internacional e os marinheiros poderiam espalhar a Aids para o mundo também. Santos era a cidade com o maior nível de contaminação de HIV e reduziu drasticamente. Foi uma atitude política do Partido dos Trabalhadores. Foi este secretário da Saúde municipal, prefeito mais tarde, mas na época David ainda era secretário municipal, quem desospitalizou o Anchieta, sendo o primeiro manicômio brasileiro a ser fechado. Soltou os loucos, tratando-os de outra maneira. Porque até então eles recebiam eletrochoques, camisas-de-força. Então, são práticas, são atitudes públicas necessárias e favoráveis à vida e não contra, do tipo “não faça, não faça”, porque se a vida pode ela vai fazer, ela vai dar um jeito de fazer.
Aí entra uma outra questão que atravessou aqui. As camisinhas fora do prazo ou que estão contaminadas com algum tipo de bactéria. Isso pode acontecer. Então tem que se desenvolver laboratórios ou ter lugares de checagem. Esta deve ser uma exigência dos movimentos e dizer que querem checar a positividade desse produto. É preciso a garantia, a autenticação do Ministério da Saúde: um selo do Ministério da Saúde dizendo que o produto é bom. Mostrar que não vai fazer mal à população, mas sim defendê-la, levando esse produto para ela, seja alimento, seja camisinha, medicamentos em geral. Isso é fundamental.

Respondendo a uma outra questão em relação às ofertas de alimentos que vêm do exterior. Esse tipo de oferta muitas vezes vem bem intencionado, digamos assim. Existe muita gente que realmente é solidária e sensível à pobreza dos povos, às doenças. Tem muita gente assim. Mas, o problema é que essa mesma gente não tem o controle do processo do envio e recebimento. Então os que detêm o controle do processo, geralmente é gente de poder. É gente que enriquece às custas disso. Provavelmente se apodera dos próprios alimentos, troca os alimentos. É possível que haja donos de supermercados ou de distribuidoras de alimentos que simplesmente modificam esse tipo de questão. Eu sei que existem instituições sérias como, por exemplo, os médicos sem fronteira. Parece que é gente muito séria. Na Cruz Vermelha, também há gente séria, não tenho bem certeza, mas parece que ela é uma instituição séria. A questão é se aliar com instituições sérias, criar alianças mesmo. Se o governo não ouve, vá direto a essas instituições, mostrando que os problemas existem, são sérios e é preciso resolvê-los. Que precisamos checar se as camisinhas que chegam são válidas, são boas. O mesmo em relação aos alimentos. Ou seja, criar um posto de fiscalização, laboratórios. E essa atitude tem de vir de vocês mesmo e chegar até os órgãos que podem realmente ter força de decisão para que o governo tome uma atitude diferente.
E, agora, respondendo a uma outra questão. O governo - ou o atual Estado - não digo o Guebusa... E quem sou eu para falar de Guebusa, de Chisano? De Machel, acho que posso falar, porque simpatizo com muita coisa que vi aqui. Tenho também minhas críticas, a gente pode falar entre amigos, não vou sair falando, mas enfim. Tinha realmente uma atitude de unidade nacional, o espírito de vigilância, de cuidado com o inimigo, o espírito de força de trabalho, a partir do próprio povo, de construção da própria riqueza, da atitude que alguém estava falando antes – acho que foi você – de a gente ter uma atitude criativa e não esperar simplesmente favores de fora. Então, a riqueza se faz em casa; a riqueza se faz pela atitude; pela capacidade produtiva que tem de se desenvolver, enfim. Entretanto, o Estado atual é um Estado que vem com duas insígnias: liberdade e democracia, certo? Mas o modelo é ocidental. Esse Estado democrático e livre é o mesmo que, em nome do povo, enriquece poucos, se serve da máquina administrativa e burocrática para fazer negócios privados e espúrios e rouba ou desvia literalmente orçamento público, senão diretamente, de modo indireto. Onde tem suas propriedades, valoriza aqui, valoriza ali. Ou seja, há um direcionamento para que se acumule e que se privatize. Então eu digo sempre que o Estado democrático e livre ocidental, que é tão propalado e querido como um valor universal tem um conteúdo terrível. O conteúdo dele é o capital. Então, o Estado é apenas o gerente do capital. O Estado não está a favor das populações. Ele só está a favor das populações da mesma maneira que certas igrejas estão a favor do povo quando o povo está fraco, doente e miserável. Daí essas mesmas igrejas dizem: o reino dos céus é dos miseráveis, dos pobres, dos doentes, dos desvalidos; é deles o reino dos céus. É engraçado. Então, eles precisam que as populações miseráveis aumentem; que fiquem cada vez mais miseráveis e pobres e doentes. Porque sem essas populações, o reino de Deus não se estabelece. Então o reino de Deus cresce, mas na verdade que reino é esse? É o reino dos sacerdotes, dos padres, do papa, disso e daquilo. Ou seja, tem que ter cuidado; tem que ter espírito crítico. O Estado faz a mesma coisa. Ele não quer ver cidadãos fortes e livres, ao menos esse Estado democrático liberal que é gerente do capital. Por que? Porque o capital precisa dos trabalhadores para aumentar a mais valia do capitalista. E o trabalhador só aumenta a mais valia porque é prisioneiro de um salário e de uma função que é ativada pelo próprio capital. Então, o trabalhador tem de se tornar refém. Tem de comer na mão do capitalista. E o capitalista diz que agora é por aqui; depois, por ali: você come na minha mão, faz o que eu quero. É mais ou menos isso que é a liberdade do Estado, o liberal e democrático. O Estado está aí não para ajudar as populações, de fato. Ele está aí para gerenciar a acumulação de capital e sempre com a cara de bonzinho; sempre com a cara de “em nome do povo”, “em nome dos interesses nacionais”. Só que o interesse nacional geralmente é o interesse de uma multinacional. O povo geralmente é “eu”, “meu bolso”: “eu sou o povo”. Enfim, eu não estou dizendo que o Estado moçambicano tenha se transformado nisso. Eu estou falando que isso já chegou aqui e que isso poderá ser ou já é dominante. Existem velhos combatentes da Frelimo - Frente de Libertação de Moçambique e outros, com outras atitutes, até com certas divergências em relação à Frelimo, mas que têm atitudes favoráveis ao povo, que não se confundem com esses corruptos que estão aumentando o bolso e aumentando as propriedades.

A questão então é essa: será que o Estado moçambicano realmente está favorável? Eu sinto, e agora vou falar a minha opinião de estrangeiro que está a poucos dias aqui, que parece que o Guebusa está numa outra direção. Não sei. Oxalá, como dizem no Brasil, tenha essa atitude. Agora, é complicado, quando simplesmente se reforça a segurança pública e a gente sabe que a violência é estimulada pela própria miséria ou pela fabricação da miséria. É como ser contra o terrorista e continuar invadindo o Afeganistão, o Iraque... Você está fazendo fábricas de terroristas, porque o terrorista faz a guerra a sua maneira. É ruim, é errado, mas o que você vai dizer a alguém que dá sua vida e se explode com outras pessoas? Que é um imoralista? O cara está dando a vida, ele já perdeu tudo, inclusive a vida na explosão. Então não adianta moralizar a atitude do terrorista e dizer: pára, é mal... Sim, mas o que adianta classificar? O fato é que estão multiplicando os terroristas. Por que? Por atitudes autoritárias do Ocidente. Vão lá, em nome da democracia roubam todo o petróleo iraquiano. O petróleo custava 25 dólares o barril. Em nome da manutenção do preço foi feita essa guerra toda e hoje está em 60 e poucos dólares, porque as empresas norte-americanas se apoderaram dos poços iraquianos. Eles mesmos aumentaram os preços e financiaram a guerra. Ou seja, são estados perversos. Pensam na acumulação do capital. A questão crítica então que se põe aqui é: será que o Estado moçambicano, a partir de 90, 92, com os acordos de paz, com a nova Constituição, com a eleição de 94, com os dois mandatos do Chisano, será que não entrou no espírito neoliberal? Na verdade, o nome exato é neocolonial. Então, a questão essencial que se põe, nesse sentido, é essa: o Estado pode ter uma atitude de proteção de seus cidadãos, simplesmente para que sobrevivam trabalhadores suficientes para fazer a riqueza dos outros. Sendo assim, o interesse do Estado é outro. O interesse nosso é diferente do interesse do Estado. Nós aqui: a gente compõe. O Estado quer combater o HIV e nós também, mas por motivos diferentes. Mas, então, vamos nos aliar nesse ponto, certo? A questão não é saber se o Estado tem mesmo boas intenções, isso ou aquilo.

“O Estado, na verdade, é apenas uma forma reguladora que é apoderada por forças de várias naturezas. A questão é a gente saber que forças se constituem e atravessam o Estado”.

Se há uma composição com essas forças das comunidades, das ONGs, dos movimentos sociais, das associações, que realmente falam a partir do ponto de vista imanente da sociedade, então, que bom. A questão é que sempre tem que se conquistar essa posição. O Estado não vai dar isso de mão beijada. É uma conquista. Não tem de se ter ilusão em relação a isso não; é preciso manter firme essa questão na base. Pode-se, em nome dos mesmos valores que o Estado veicule, cobrar. A questão não é transparência? A questão não é investimento direcionado dos gastos em relação à Saúde Pública? Onde o Estado está investindo em Saúde Pública? O que é Saúde Pública? Aí entramos em outra questão que foi tocada aqui também. A questão do saneamento, por exemplo.
O saneamento é fundamental. Não vai se eliminar o cólera, a malária e outras doenças sem saneamento. Então, a questão do saneamento, é uma questão de política pública. A questão do urbanismo, por exemplo, planos diretores de uma cidade ou inclusive de áreas rurais. Como se organiza e se distribui o espaço humano? Como é que se distribuem essas relações? Isso tudo pode ser uma questão de saúde pública. Então a questão é muito mais ampla. Mas, na verdade, tudo tem que partir da base, da atitude. É não esperar que o governo faça, porque é improvável que ele faça. Se ele fizer, vai ser por interesses outros que não a vida potente de uma população. Porque a população potente, livre e soberana não interessa a qualquer Estado que exerce captura ou tira lucro do seu povo. Porque, na verdade, o Estado é apoderado por um certo grupo. O Estado em vez de ser coisa pública é apoderado por elementos privados, por quem tem interesses privados. De novo, estou insistindo aqui, que não estou dizendo que seja o caso de Moçambique, porque isso pode acontecer aqui e eu sinto que tem um capitalismo selvagem, destruidor, entrando sutilmente no país. Não sei nem se é sutil ou já escancarado. Eu soube que a Igreja Universal do Reio de Deus entrou nas barbas da Frelimo, na sede da Frelimo, em Maputo. Alugaram um espaço lá dentro do prédio. O que está acontecendo com a Frelimo, não é? Eu acho, que se eu estivesse aqui em Moçambique, eu seria um dos maiores defensores da Frelimo. Eu acho que foi uma coisa linda, bonita, da independência de Moçambique; esses movimentos todos que foram feitos em nome da expulsão do colonialismo, do chibalo, da exploração. A independência é um valor fundamental. Mas será que essa independência não foi agora mascarada com o nome de democracia e liberdade. Será que essa independência não virou uma dependência mais sutil? Eu digo sempre que, no Brasil, nós tivemos a independência feita por uma português, que foi D. Pedro I. Ele simplesmente era filho de um rei de Portugal. E ele bradou: - Independência ou Morte! Esta terra é livre! Livre? Ora, na verdade, era o capitalismo instalado lá e havia uma monarquia para garantir a remessa dos lucros e a acumulação. Então foi uma maneira de manter o poder nas mãos de quem criou a independência. Então a independência pode ser uma máscara, assim como democracia e liberdade. “ - Ah, a democracia é um valor fundamental, um valor universal”, diriam. Não existe valor em si. O valor precisa de uma força ou de uma potência que o sustente. Então a questão fundamental é a qualidade das relações afetivas e de força e de potência entre as pessoas, entre as sociedades e não simplesmente uma forma ideal, porque forma ideal nós temos suficiente. Por exemplo, a ONU.
Resposta às questões sobre a capacidade seletiva:

Em relação àquele que já contraiu o HIV, foi uma fatalidade e então não há mais o que fazer, em relação ao ponto de vista de como se evitar, pois o HIV já está nele. Uma vez que ele já está, aproveite da situação. O que dá para falar? Aproveite o melhor que isso possa lhe dar. Ou seja, transforme sua vida em uma grande vida. Esteja à altura dessa fatalidade. Aconteceu? Aconteceu por vários motivos que agora não vem ao caso. Você pode viver com a Aids? Pode. Você pode criar uma vida ativa e livre com Aids? Pode. Você pode ser inteiro com Aids? Pode. Mas você precisa conquistar isso. Você precisa ter acesso aos medicamentos; você precisa criar uma postura em relação aos seus amigos, aos seus amores, às suas relações. Você precisa criar essa atitude de dignidade. E, mais do que isso, dar o exemplo. Uma vez que aconteceu contigo, usar isso como algo do tipo, talvez, não façam o que fiz. Aconteceu comigo, consigo viver assim, mas não é fácil viver com Aids. Não é, mas vamos enfrentar. Mas pode-se viver, inteiramente, dignamente.
'Nós, na verdade, e agora há um ponto de vista absoluto, daqui a pouco vamos morrer, de uma coisa ou de outra. Pode ser de HIV ou não. Então, a questão é a seguinte: não importa a doença que o atinja ou a relação que você tenha, mas esteja à altura do que lhe acontece. Porque tudo pode acontecer'.
Então, seja digno do que lhe acontece. Não acuse e nem se acuse, porque não adianta acusar ou culpabilizar. É uma coisa horrível. A culpa só destrói; não se trata de culpa. Trata-se de fraqueza, ou seja, o que devo fazer para não me enfraquecer, para me fortalecer. É uma questão ética e não moral. A moral acusa, a moral culpa. “Ah, eu peguei Aids e a culpa é do americano que trouxe de um laboratório, etc.”. E aí, o que vai mudar minha vida, se a culpa for do outro? Ah, a culpa é minha? Tá bom, mas já foi, não vou ficar me torturando, me martirizando, dizendo que é um castigo. Que maneira pobre de viver. Aconteceu? Vou fazer disso algo que me fortaleça. Nietzsche diz: “o que não me mata, me deixa mais forte”. É a atitude, diante de qualquer coisa que nos aconteça. Não só o HIV. Eu acho que é perfeitamente possível você viver dignamente, inclusive se você for aleijado, tetraplégico.
Existe um sujeito chamado Joe Busquet, que foi baleado na II Guerra Mundial, se não me engano. Olhem a filosofia de vida que ele desenvolveu ao dizer que “os acontecimentos da minha vida existiam antes de mim. Nasci para encarná-los”. Que coisa incrível! Aquele acontecimento que deixou ele tetraplégico já estava ali, à espera dele. Aconteceu essa fatalidade com ele. Ele afirma e acolhe isso, uma vez que foi fatal. Ele diz, com outras palavras ‘benvindo esse modo tetraplégico de viver’ e criou uma obra literária das mais belas. Não acusa nada e ninguém: nem o tiro que recebeu, nem quem o disparou, nem a guerra e nem a si mesmo. Faz disso um alimento, uma fonte que embeleza e multiplica e potencializa a vida. Porque não há nada na existência que seja capaz de acusar e de diminuir a vida. Nenhum tipo de dor, nenhum tipo de sofrimento. Nós devemos desconfiar de todas as religiões que usam do sofrimento para dizer que a vida é uma coisa inferior, injusta e ruim. A gente tem de desconfiar dessas religiões que falam isso, porque a vida é uma coisa boa, apesar de tudo, com todas as dores e sofrimentos que isso possa ter. A dor e o sofrimento na verdade nada mais são do que um excitante, um tempero da vida. É isso que a gente tem de fazer com a dor e não ficar lamentando, acusando, chorando, desesperando. Não vai adiantar nada, só vai piorar a situação. Então, aproveita. Aconteceu, aproveita.
Em relação à capacidade seletiva é a mesma questão. O que é a capacidade seletiva? É a gente desenvolver um pensamento e uma atitude que, em vez de acusar o outro ou a si mesmo, percebe o que há de necessário em cada relação. Então a gente seleciona o que? Seleciona o necessário no acidente ou no acaso ou na sorte. Existe algo ali que é necessário, é fatal. Em um acidente tem algo que é essencial. Na multiplicidade tem algo que é uma unidade. Então é selecionar essa coisa que é necessária; uma espécie de duplo do acontecimento ou de tudo que acontece. Tem uma espécie de duplo que é aquela realidade de que no fundo é a natureza que brinca através de nós, a natureza brinca o tempo todo. A natureza tem um humor que nos usa. Nós somos natureza e nós nos expressamos e produzimos, mas é a natureza que se expressa em nós, através de nós. Então ela joga com a gente. Uma árvore é uma máscara da natureza, uma formiga, o sol, o vento, são máscaras ou são expressões da própria natureza. Tudo é expressão de uma mesma natureza. Assim, esses jogos que a natureza estabelece são jogos que revelam toda a sua potência e sua perfeição. Então, se a gente faz parte desses jogos, de que modo que a gente deve jogar?
'A gente deve aprender a jogar. A vida é um jogo. Então vamos aprender o jogo que fortalece. É aí que você desenvolve a capacidade seletiva'.
Ou seja, aprender a jogar, aprender a dançar, aprender a ser flexível e não moralizar e dizer que temos de chegar naquele alvo ou temos de nos lembrar de uma memória lá atrás que é fixa. Nenhuma memória fixa do passado e nenhum alvo fixo no futuro vão fazer com que a natureza se renda, porque a natureza não funciona nem por finalidade e nem por origem. Ela funciona no próprio processo de encontro dos corpos e das idéias. Tudo são relações de encontros. E, então, a seleção se faz na qualidade da relação. Não é dizer não à relação. A relação está aí de qualquer jeito. Eu tenho que respirar, senão morro; se paro de respirar, morro, sufoco. Então tenho que respirar. É uma função necessária, certo? O olho vê; é a luz que atravessa o olho. É uma relação necessária. O som chega aos ouvidos, é uma relação necessária som-ouvido. Mas alguém pode dizer: ‘eu não quero ouvir nada’. Mas por que? Vamos aproveitar: eu tenho ouvido e posso ouvir; visão e ver; aproveitar tudo o que posso, mas com qualidade. É aí que entra a seleção. Tem uma maneira de selecionar. E essa maneira é aproveitar tudo o que o acontecimento oferece, compõe comigo e me fortalece. Existe algo assim em várias práticas guerreiras de vários povos. No Peru, por exemplo, existem ou existiam povos que comiam o cérebro do inimigo. Para que? Para ficar mais fortes, mais inteligentes. Então, a questão, agora falando de um modo distinto, é falar que algo me acontece e então eu vou aproveitar. Toda inteligência do acontecimento e a força que o acontecimento traz posso incorporá-la como aliada. Essa força, em vez de ser minha inimiga vai ser minha aliada. É assim que se vencem as guerras. Não é acabando com os inimigos, eliminando, mas fazendo do inimigo um aliado. O HIV pode ser um aliado na criação de estilos de vida muito interessantes, em vez de ser inimigo que vai moralizar e diminuir a vida. O poder quer usá-lo como inimigo, quer desmoralizar a vida, desqualificar a vida. A gente pode usar ao contrário, para fortalecer a vida e a nossa capacidade seletiva. Mas isso implica o que? Experimentação. Uma atitude experimental. Você não pode simplesmente agir com pensamento prévio. É claro que no desconhecido você se protege. Uma questão clara: você não vai arriscar experimentar fazer sexo sem camisinha, porque é uma roleta russa. É quase um suicídio. Você vai simplesmente favorecer um mau encontro. Então, na medida em que você não tenha certeza, você sabe que aquilo poderá te destruir, você tem que criar a distância, o filtro, a proteção necessária que eu percebi. Não sei se vi demais, mas percebi na dança dos meninos aqui uma prática guerreira e um combate contra o inimigo invisível. Não sei se é isso. Estão me dizendo que é isso.

Então, é mais ou menos essa questão. Não sei se é suficiente para esclarecer a questão do nosso amigo, da capacidade seletiva. Mas, só para fechar... Existe um filósofo chamado Spinoza que diz que somos uma potência em ato. Toda relação é um ato que preenche minha potência. Se eu estou respirando, minha respiração é um ato que preenche minha capacidade respiratória. Se estou ouvindo, é um ato que preenche minha capacidade auditiva. Todas as relações são atos que preenchem minha capacidade. E aí ele diz que tem atos que nos determinam de fora e tem atos que nos determinam de dentro de nós mesmos. O que nos determina de fora, ele chama de paixão. A paixão é aquilo que me determina de fora, me atinge, mas não sou capaz de ser causa daquilo, eu não tomo parte daquilo, sou apenas uma vítima daquilo. Então, ele vai dizer que há paixões alegres e paixões tristes. Aquelas que me atingem e que não sou causa, que me enfraquecem, são paixões tristes. Aquelas que vêm de fora, as quais não sou causa e me atingem, e me fortalecem são as paixões alegres. Então ele vai dizer que há esses dois tipos de paixões. Mas tem uma outra coisa que não é paixão, mas é ação. E a ação é sempre alegre. Porque ação é sempre um ato que compõe a minha vida com outras vidas e fortalece minha vida. Ação é sempre uma coisa ativa, é uma coisa positiva. Faz a potência, a capacidade de existir e de pensar aumentar. A ação é sempre assim, é sempre alegre. Então, o ato que atinge a minha potência ou o ato que é ativo, não que é passivo, é já a minha capacidade ética seletiva. Então, trata-se de minha capacidade de encontrar esse ato e de aproveitar o acontecimento no que ele tem melhor.

Existe um índio mexicano, chamado Don Juan, um índio yakee, que está na obra do Carlos Castañeda, não sei se alguém aqui já ouviu falar. Esse índio diz que é preciso ter a morte como aliada. Em vez de recusar a morte, e a morte pode acontecer a qualquer momento, fique atento. Esteja ali presente, inteiro, em cada momento. Se você está atento em cada momento, você já é seletivo. Então, ser seletivo, é estar presente, inteiro, em cada relação, não pela metade. Se você está ali, então esteja pleno ali, esquece do resto, esquece de tudo. Diz um outro filósofo, Nietzsche, que é melhor ter uma virtude do que duas. Porque duas divide a atenção e o querer, e três ainda mais. Em uma, você está mais concentrado. É a potência de concentração, é a capacidade de concentração. Então essa presença é que nos dá a capacidade de selecionar, porque a natureza vai revelar a sabedoria que tem ali. A inteligência do acontecimento está ali; a inteligência não é a de um cérebro genial ou de um deus fora da natureza. A inteligência está no próprio acontecer das coisas. Existe uma inteligência do andar, do falar, do ver, do ouvir. Existe uma inteligência nossa em cada capacidade nossa nos encontros que a gente faz. É aí que tem a capacidade seletiva. Então isso tudo está aí. Não precisa de nenhum sábio, de nenhuma erudição, não precisa de escola para isso. Isso a cultura é capaz de fazer. O que as narrativas dos nossos antepassados, os rituais que fazem os guerreiros que fazem uma função social, por exemplo, nos dão uma capacitação, veiculam, em última instância, uma maneira de ser, uma capacidade seletiva. Então tem que unir esse aspecto positivo das culturas que inventam capacidades seletivas. O que acontece geralmente quando um corpo adoece? Geralmente tem algum mau trato de algum antepassado, segundo a medicina tradicional, não é isso? Alguma coisa que não atendeu a um antepassado. O que é um antepassado, na verdade? Um antepassado é uma memória, é uma atitude. Essa atitude já é uma atitude vitoriosa, seletiva, se esqueceu daquela atitude, se deu mal; voltou àquela atitude, se dá bem. É como uma dívida que você tem com essa memória passada. Se você tem ela presente, a dívida está paga; se ela vai embora, a dívida está aí. Então você tem que voltar e pagar a dívida. Quer dizer que a natureza toda é perfeita. Ela funciona perfeitamente. Isso é fundamental. Então as culturas, nesse sentido, devem ser tanto preservadas, quanto estimuladas e ultrapassadas também, porque hoje em dia são necessárias novas maneiras seletivas que os antepassados não tinham. Vou dar um exemplo: aquele mesmo índio mexicano, Don Juan, diz que antes da invasão dos espanhóis, os índios tinham visões, tinham seus xamãs, curandeiros, etc. e tinham uma sabedoria. Mas essa sabedoria não foi suficiente para se defenderem dos espanhóis. Os espanhóis capturaram esses índios, dominaram, destruíram, mataram. E aí esses índios desenvolveram uma nova sabedoria que ele chamava de novos videntes. Então eles criaram uma nova postura, uma nova maneira de ser, a partir desse mau encontro que tiveram com os espanhóis. Agora vocês têm aqui o neocolonialismo, o capitalismo, um monte de coisas, então têm que criar. Mas vocês têm que criar, ninguém vai dizer a fórmula. Porque senão há mais uma colonização. Risos... Então, são vocês que têm que saber. Tudo é imanente, tudo está na vida. Bem, eu não sei mais das outras questões.
Participante: Dentro dessa relação, no nosso caso concreto, talvez não se conheça a expressão “pés descalços”, mas somos nós, pobres, esta camada em relação ao que você está a explicar agora com a economia. Se formos perceber minha família, com essa idade que eu tenho, há seis, oito ou dez cabeças que vivem com menos de um dólar/dia. Ou seja, uma pequena relação entre a minha pobreza e esse poder econômico. Qual é o ponto de intersecção entre os dois...
Luiz Fuganti: Eu vou voltar a insistir então que nós somos ricos o suficiente. Não há no fundo falta de nada, desde que tenhamos atitude, desde que saibamos conquistar. É claro que existe um poder que não quer que isso aconteça. Que prefere ver as populações como reféns desse mesmo poder, porque assim extrai energia, mais valia, etc. Mas eu vou dar um exemplo simples. Exemplo de atitudes imediatas. Por exemplo, no trato com a terra, no trato com as plantas, no trato com a energia, no trato com o lixo, com aquilo que a gente veste, com que a gente come, com aquilo que a gente joga fora. O que a gente faz com essas coisas ao nosso redor? Aqui, há pés descalços, sem nada? Não. Nós somos capazes de ter energia própria, nós somos capazes de plantar, uma vez que há terra. Parece não haver falta de terra em Moçambique, não é?
Resposta: Não tem.
Luiz Fuganti: Esta é uma vantagem imensa. No mundo inteiro, se matam por falta de terra. Aqui não tem esse problema. Então, existem várias atitudes... E aí entra a questão da educação, que você mencionou. A gente precisa criar uma prática educacional para a capacitação. Ele disse que são doze anos que você fica estudando e há uma defasagem, porque quando você se forma sua cabeça já mudou, a sociedade já mudou, já é outra coisa. Enfim, você perde o chão. Então, como, na verdade os próprios pais educam e devem ser educados, os professores que educam também podem ser educados ou se reciclar ou fazer oficinas. Aqui existe o IMAP, não é? Achei super interessante, porque é a produção dos próprios educadores, dos próprios professores. Então, eu penso que o professor tem que entender de energia, do lixo, da alimentação, da saúde, da agricultura, do clima. Ele tem que ter conhecimentos gerais de tudo, porque ele já pode começar a educar a criança, ensinar a criança a ter uma atitude em relação à terra, a ter uma atitude em relação ao lixo. Por exemplo, a água empoçada é fonte de mosquitos e faz espalhar a malária. Então, se a água está empoçada a atitude simples é eliminar a poça. Se todo mundo fizer isso, desaparecem os focos de mosquito. Outro exemplo: esgoto a céu aberto. Tem maneiras fáceis e baratas de se fazer fossa, de se criar um sistema de esgoto, sem precisar de financiamento externo. É preciso atitude e idéias, porque os elementos vocês têm. Vocês têm árvores, folhas, palhas, terra, valas. É possível criar sistemas de irrigação, por exemplo, onde a água não chega. Se a água está muito embaixo no solo, vamos buscá-la. Não é preciso muito dinheiro para isso, quase nada. É preciso iniciativa e atitude. Em relação à energia, por exemplo, tem a energia solar. Essa tecnologia ainda é uma coisa cara, mas a gente é capaz de produzir uma energia solar que custa muito pouco e que alimente uma casa e até toda uma comunidade. Há a energia eólica, os cataventos... Você transforma essa energia eólica em energia elétrica, por exemplo, em vez de esperar que as redes públicas cheguem até você e ainda tenha de pagar pela energia depois. Mais uma conta para pagar, sendo que é possível criar sua própria energia. E mais, pode vender para o Estado. Isso é possível, sim, isso não é uma utopia. Depende de atitudes. Agora, onde é que estão esses saberes? Esses saberes existem e como acessá-los? As ONGs não estão aí falando que querem ajudar? Pois, então, que venham essas ONGs e que passem essas idéias. Enfim, se elas não chegam, vamos buscá-las, vamos às universidades, vamos entrar em contato com fulano, com cicrano, vamos à Internet, criar redes, vamos ter atitude. A atitude política essencialmente é uma atitude de cada um. Esta é a grande política. A gente estava falando aqui em grande saúde. Eu dizia antes que a saúde não era apenas a saúde do meu corpo, da minha alma, mas é a saúde das relações sociais e só há saúde de relações sociais, se tivermos relações saudáveis com o meio ambiente.

“Então, a saúde implica três planos: o plano ambiental ou ecológico, o plano social e o plano mental e corporal. Ela implica isso tudo: esta é a grande saúde. Então, é possível ter uma atitude a partir do que temos. O que temos? É a capacidade de criar, de pensar junto com a natureza, de se aliar com a natureza, em vez de maltratar a terra. Em vez de jogar lixo no chão, de deixar as poças para que o inimigo se reproduza, a gente elimina, com nossa capacidade seletiva. Nós não queremos mosquitos, queremos outra coisa. Então esta já é uma atitude seletiva”.

Com poucas coisas, se faz muito, muito mesmo. Acho que o essencial é isso. As culturas antigas viviam, sobreviviam. Cada uma tinha sua palhota, sua terra, sua agricultura, sua caça. Hoje em dia eliminaram-se as florestas. Eu sempre cito o exemplo em relação aos macacos. Como é que você extermina os macacos? Acabe com as árvores e você acaba com os macacos. A questão ambiental é fundamental. A gente tem de tratar, cuidar da natureza. O caju é fonte de renda? Vamos plantar cajus. Mamão é fonte de renda? Vamos plantar mamões. Vai melhorar o clima, melhorar a temperatura, ter mais sombra, vamos ter maior variedade de pássaros, de insetos. A natureza toda ganha com isso, nós ganhamos com isso: a gente está tendo uma atitude ativa, se compondo com a natureza. Gostar da natureza, amar de fato a natureza e não simplesmente tirar, esgotar, pois esta é a mentalidade do homem ganancioso e também do homem predador. Esse homem simplesmente vai tirando e pensa que não vai acabar nunca. Mas acaba, porque ele está maltratando aquilo que o alimenta. As culturas antigas sabem muito bem o cuidado que têm de ter com os rios, com as árvores, com as plantações, com os animais, e que é tudo uma questão de aliança. Então é essa atitude que a gente tem de voltar a ter e que o neocolonialismo está aí para roubar de nós. É aí que um valor antigo da própria Frelimo e da revolução que chama vigilância é fundamental. A gente tem de estar atento, ser vigilante com o que estão fazendo, roubando a confiança das pessoas, das populações e essa atitude em relação à natureza. Mas não adianta a gente só acusar lá fora, acusar os outros, a gente tem de ter atitude aqui. Isso é fundamental: ser dignos de nós mesmos, na relação que temos entre nós e com a natureza. Alguma coisa ficou para ser respondida?

Participante 1: Não faltou nada. A lamentação de fato é que o tempo foi curto, mas ter muita comida não quer dizer encher a barriga. É melhor comida com qualidade do que quantidade. O essencial passou. É verdade que gostaríamos que esta relação ocorresse mais vezes. Este é um pedido nosso, de formar uma rede. Nós precisamos navegar um pouco, nós ainda não temos essa capacidade, porque não tempos equipamento próprio, mas gostaríamos de dar essa recomendação para que o sr. Luiz Fuganti levasse consigo estas ONGs que estão aqui, em particular a Manoncsida, lá para São Paulo, e nós vamos dar nosso endereço naturalmente, e também levar vosso endereço para interagir de uma forma mais direta. Nós gostamos dos seus ensinamentos, mas gostaríamos de ter mais. É verdade que sabemos que tem só mais uns dias e na semana que vem já vai seguir para o Brasil, mas nossa saudade ficará.

Participante 2: Pelo menos poderíamos ter encontros anualmente. Eu sei que antes de seguir para o Brasil, tem que ir para Maputo ou outra província. Qual será o outro passo seguinte depois desse aqui, para que possamos nos preparar e esperarmos? Naturalmente gostamos muito da vossa presença e me sinto muito honrado de vê-lo aqui. Obrigado.

Luiz Fuganti: Eu posso levar um pedido de vocês ao Ministério da Saúde ou outras instituições. Não posso prometer nada, mas vou tentar o que posso fazer.

Participante 3: Faça do Brasil, Matola. Quero dizer que saímos agradecidos, estamos muito felizes. Perde quem não está aqui presente e espero que nosso desejo, que nossa vontade seja a mesma e que o Luiz leve a mesma impressão nossa. Nós estamos satisfeitos, muito obrigado. Parabéns.

Luiz Fuganti: Eu também estou feliz de estar aqui e estou aprendendo demais, me enriquecendo muito com vocês e fazendo muitas análises comparativas também, mas entendendo as singularidades dessas sociedades e dessas populações tão complexas e tão interessantes e que vão fazer muito bem ao pensamento e espero que isso volte em forma de outros frutos, em breve. Muito obrigado a todos.

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