sábado, 1 de dezembro de 2012

para dona cleci


Não me relaciono muito bem com gentes desprovidas de gentitudes e de gentidades, mas tenho um carinho especial  pelas crianças e pelos velhos... gosto das crianças pela pureza com que(des) olham e (des)pensam o mundo e as coisas do mundo... e dos velhos, gosto pela sabedoria com que (des)acontecem a vida... nessas e noutras, encontro muita gente que me atravessa os afetos pela preciosidade das coisas que lhes habitam e transitam, assimassim, conheci Maria Cleci Soares Henriques... uma guria que já estava nos seus 81 anos quando a conheci... hoje conta 82... arqueada em seu corpo frágil, mantém-se altiva em sua existência... leitora de muitos livros, teve breve passagem pela escola formal, mas isso não a impediu de aprender a ler o traçado preciso das letras escritas com as tintas do alfabeto... lê Saramago, que não é leitura pra qualquer coió... faz projetos... tece invenções... cria a vida no tempo de seus tempos... por essas e outras, reproduzo aqui, um escrito de seu neto (Carlos Guilherme Vogel do Amaral), por conta do acontecimento dos seus 80 anos...
“Terça-feira, 14 de setembro de 2010
O que se faz em 80 anos?
Oitenta anos são 960 meses, algo em torno  de 4.174 semanas, 29.220 dias ou ainda 701.280 horas. Um pouco além disso, 80 anos pode ser tempo suficiente para curtir a infância com os irmãos e os primos, tempo para fazer com que alguém ande muitos quilômetros para pedir sua mão em casamento, tempo para parir e criar quatro filhos, ver esses filhos terem filhos e olhar para os netos, crescidos e barbados, e implorar a vinda de um bisneto.
Tempo para frequentar os bancos escolares por apenas quatro meses e mesmo assim aprender o suficiente para apreciar Shakespeare ou para ensinar um neto a ler enquanto lhe acompanhava na leitura diária do jornal.
Tempo para aprender a fazer um almoço inconfundível ou doces de abóbora de lamber os beiços. Tempo para preparar chimarrão e fazer palavras cruzadas. Tempo para assistir à novela das seis e para cultivar a mania de jogar cartas sozinha em cima da cama. Tempo para costurar as roupas furadas que os netos trazem de longe e para acender uma vela para iluminá-los quando é preciso. Tempo para aprender a fumar e tempo para deixar o cigarro de lado.
Tempo para fazer amigos e viagens mesmo depois dos setenta. Tempo para saber que nunca é tarde para começar algo novo. Tempo para dores difíceis, como a de perder um filho e tempo para superar e seguir em frente. Tempo para chorar e tempo para sorrir.
Tempo mais do que suficiente para encher um neto de orgulho.
Fica registrada aqui minha homenagem aos 80 anos da Dona Cleci, minha avó” (Carlos Guilherme Vogel do Amaral).

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