terça-feira, 26 de julho de 2016

sem titulamentos

fico vendo essas vidas e e esses pensamentos dizentes dos jeito que se deve ou deveria ser e penso sobre como é bonito ser do jeito que você quiser ser e não do jeito que dizem que "se deveria ser"... e poder fazer isso sem culpar ou responsabilizar ninguém por qualquer tino ou desatino advindo disso.
como é bonito você se desamarrar das coisas que não lhe fazem bem e simplesmente ir viver!
olho para minhas andanças e gosto da maior parte das coisas que vivi e que vivo... às vezes faço escolhas das quais posso dar conta e outras, que tenho que me esforçar para dar conta.
sou bolicheira de nascença, parida no quarto ao lado do bolicho, entre as pernas fortes e andantes duma bolicheira.
sou moinheira de nascença.
sou cachaceira de nascença (de avô, dum lado alambiqueiro e doutro, sorvedor).
sou inventadeira de nascença (dos dois lados da vida biológica me vem esse sangue feito de inventar vida e inventar histórias).
sou pescadora de nascença (não tanto pelos peixes que se pesca... mais pelo furdunço da pescaria e pelas histórias que se pode inventar).
sou mulher do barranco (não que eu barranqueie alguma coisa)... daquelas que puxa o fumo e a palha, vai enrolando o palheiro e fica lendo, através da fumaça, o mundo que passa na estrada poeirenta.
sou mulher da vida... até aguento um tempo no tranco da não-vida, mas isso dura pouco... sou mulher da vida feita poesia, da vida feita alegria, da vida risonha, da vida leve, da vida solta.
sou escrevinhadeira... pois gosto de, como Manoel - o poeta, de Barros-, lamber e fornicar com as palavras... gosto de emprenhá-las e ver parir afetos e pensamentos.
sou empoetada... inventei isso pra vida, em lugar de ser sobrevivente.
sou mulher do facão, que é pra ter com que cortar ideia feita de absurdidade e pensamento engomado.
sou mulher de não ter cargo... até aceito o apelido poético de mãe, mas só porque isso equivale à condição de mulher que ajuda as gentes a inventarem gentidade em suas vidas... então sou mãe de filho pra isso e se não for pra isso, não tem porque ser mãe de filhos.
sou mulher de viver, dormir, acordar, morar, amar a mesma mulher todos os dias, desde que ela também queira isso e outras coisas boas.
sou gente de pouco tino.
sou gente, sou mulher que não abre mão duma coisa pra ser outra... entendo a vida como feita de escolhas, porque se tiver "abrir mão" duma coisa para ser outra, então é imposição e não escolha... se a luta tiver que ser dura e árdua, assim lutarei, mas sem deixar de torná-la leve, serena e bonita.
por essas e outras, também sou psicóloga por formação acadêmica e (de)formação existencial... trabalho com as letras, porque elas juntam em versos os existires... trabalho com a redução de danos, porque acredito que nunca seria possível extinguir e liquidar o dano por completo... trabalho com os usos e abusos de álcool e de muitas outras drogas (afetos desmedidos, doces, cocaína, salgados, crack, comidas em geral, bebidas em geral, trabalho exacerbado, medicamentos, maconha, tabaco, consumo, café, capitalismo, fascismo, preconceito, discriminação, intolerância, ignorância de estimação, leitura ruim, pouca leitura -não propriamente leitura das letras escritas no papel, mas mais a leitura das letras escritas na vida-, soberba, atrevimentos, falta de noção das coisas e da vida, exploração do outro, arrogância, vagabundagem mascarada de grandeza, mania de grandeza)... enfim, trabalho com esses e muitos outros tipos de drogas, porque acredito que seja isso que corroa as vidas e os viveres das gentes... e ainda, o que gosto mais, é de trabalhar com gente que quer viver... até porque, para se manter atolado, não precisa buscar ajuda... cada um se atola sozinho, porque morrer é fácil... viver é que é difícil!

segunda-feira, 11 de julho de 2016

hypomnemata188

hypomnemata188
Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no.188, junho de 2016.

O que se fala e o que se evita dizer
Só crianças brincando. Entre texturas e quenturas. Juntos, descobrindo seus corpos. A escritora e poeta, taxada de obscena, narra o encontro de peles tenras desnudas. E os adultos se acostumaram a dizer às crianças que é feio ficar pelado. Os pequenos sussurram entre si, em meio às minúsculas e imensas descobertas: “e a lagarta? ela não está pelada?”
O nome disso? O que não tem juízo (...).
Até que...
Só uma criança brincando... E, de repente, os gritos. Só uma criança existindo, e em seguida a surra, o palato queimado, os dedinhos mutilados, os braços com ranhuras de unhas.
E, na economia política da pena, os pais ou responsáveis são enquadrados como autores de “maus-tratos”.
No exercício do pátrio-poder, ou como autoridade superior, eles têm o direito de castigar “desde que não imoderadamente seus filhos ou crianças sob sua responsabilidade a fim de educá-los”.
Um desconhecido é punido por “lesão corporal” diante da identificação de indícios e materialidade do “fato”.
O nome disso? Linguagem penal.
O inominável disso? Um dos inumeráveis começos da cultura do castigo.
Até que...
Apenas um bebê dormindo. E, de repente... Pela terceira vez, na mesma semana, ele dá entrada no hospital, com o períneo rompido. Falam que caiu da cadeira em todas as ocasiões.
Na economia política da pena, “exibir conteúdo impróprio a menores de idade prevê uma punição maior do que a um profissional de saúde e ou educação que não denuncie o abuso de criança e adolescente às autoridades competentes diante de indícios e materialidade do fato”.
O nome disso? Higienização da moral pública.
O inominável disso? Um dos inumeráveis começos da cultura do castigo.
Até que... Até que... Até que... Até que...
B a s t a !
Meninos e meninas são cotidianamente pi-ca-dos em suas casas pelo papai e pela mamãe, pelo padrasto e pela madrasta, pelo parente próximo e distante, pelo agregado e comunitário, pelo aditivo e adjacente, pelo familiar e conhecido.
É assim que se gesta e se consolida uma cultura do castigo.
Não é preciso esperar pelas futuras relações violentas produzidas sobre outros corpos e sobre si mesma para que uma criança acostumada a isto naturalize o autoritarismo.
Enquanto isso, corroborando o “combate à cultura do estupro”, o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro acaba de lançar o Dossiê-Mulher 2016 (relativo ao número de violências cometidas no estado em 2015).
Nele se destaca que, proporcionalmente, os alvos preferenciais de violências sexuais são crianças e as jovens no interior da família.
Não surpreende que na publicação não haja uma palavra a respeito de tal prática exercida sobre os corpos de meninos e garotos, que, afinal, também são, respectivamente, crianças e jovens.
Esta é apenas uma ínfima constatação de que a mesma cultura do castigo que violenta os corpos de crianças e jovens é nutrida por mulheres e homens que amam oespetáculo da denúncia.
Os eternos itinerários que perpetuam as trocas de sinais recíprocos entre vítimas e algozes para abastecer o lugar cômodo da santa indignação e da assepsia dos tratamentos degradantes.
Enquanto isto...
Alardeiam-se as estatísticas em torno de “estupros” de “mulheres”.
Avolumam-se relatórios, dossiês, mapas georreferenciados, projetos e programas, processos judiciais, organizam-se marchas e protestos para denunciar o que passam a chamar de “cultura do estupro”.
Não há cultura alguma do estupro.
Esta é apenas a denominação inerente a uma linguagem crédula na existência da natureza ontológica do crime.
O “estupro” nada mais é do que uma terminologia que tipifica um crime.
Assim como o “estupro de vulnerável” é tão somente a variedade em torno do mesmo tema como condição agravante na lógica penal.
Quase todos e todas estão tão absorvidos por esta linguagem e criaram tanto amor a ela que sequer notam um pequeno, um ínfimo, detalhe imenso.
Na mesma proporção crescente que mais se “fala” da cultura do estupro exercida sobre meninas, garotas e mulheres, quase ninguém quer tocar ou dizer coisa alguma sobre os meninos e os garotos que são proporcionalmente alvos preferenciais de violências sexuais que já começam em casa.
Isto não é um tema a ser aferido estatisticamente em termos absolutos ou relativos para os afeitos à lógica da ponderação, das penalizações e das violências.
É, simultaneamente, uma constatação óbvia diante do que se evita dizer.
Questão a ser colocada para o pretendido consenso em torno da cultura do castigo que é produzida e sustentada tanto por homens quanto por mulheres que se acostumaram ao amor-moral; ao amor-direito; ao amor-dever; ao amor-juízo por ela.
            E basta de falarem que falta Amor.
Amor é o que não falta, como afirmou um homem corajoso e inclassificável, no século XIX, ao escrever algumas considerações provisórias sobre o Estado fundado no amor, quando situou, também, que entregar-se à ideia de Amor é uma das formas mais “Belas” de se aniquilar a vida.

Violência penal
Uma garota é violentada por mais de 30 homens.
Pelo que se sabe, todos são mais ou menos de seu ciclo de convivência, partilham de uma sociabilidade fundada no sucesso, na conquista e na ostentação embalada pelo ritmo do funk.
Em várias destas músicas todos são celebrados como os melhores, os mais sagazes e avassaladores.
Falam que meninas e meninos são hiper-sexualizados.
Em pouco tempo, abriu-se mais uma discussão acalorada e midiatizada em vários círculos de ativistas e protagonistas para rapidamente chegar a mais uma inovação: “cultura do estupro”.
Seria a música funk culpada?
A violência e o mistifório dos trinta não seria apenas a expressão de uma conduta milenar que habita os gestos, desejos e poderes de cada um sob o signo da cultura patriarcal?
Quando ocorre uma violência inominável e insuportável, nomeá-la imediatamente e submetê-la a explicações definidoras, estabelecendo motivações e culpados, nada mais é que inscrevê-la na lógica penal e, com isso, torná-la, de alguma maneira, palatável.
Assim, responde-se a uma violência com outra, mais insidiosa, racionalizada e abonada, que é a violência do sistema penal.
Ao estabelecer um ou mais culpados, institui-se motivações, formas de vingança, ações preventivas, contabilizam-se dados e estatísticas, pacificam-se racionalmente algo que é, por si, revoltante, inaceitável, insuportável.
E assim a sociedade vomita suas próprias criações como dejetos derivados de uma sociabilidade autoritária e efeitos diretos da cultura do castigo que se reproduz pela relação vítima-agressor.
Se há um culpado, se há um grupo a ser identificado e punido, se há uma conduta a ser criminalizada e perseguida, a sociedade se defende, livrando-se da sua iminente incomôda criatura.
Até que a próxima vítima apareça, ou melhor, seja denunciada, pois na maioria das vezes os violentados são silenciados.
Esta mesma sociedade da moral exemplar e das punições regulares só se reproduz pelo manto silencioso que pousa solene sobre os violentados.
Expostos pelas denúncias eles estarão estigmatizados para sempre. Sobre eles, indelevelmente recairá certa culpa na inocência. E isso não se restringe ao sistema penal formal.
E para outras condutas criminalizadas ou criminalizáveis não faltarão os justiceiros das hordas de linchadores reais e virtuais; as listas de potenciais perigosos que devem ser identificados e punidos; as pessoas que devem ser policiadas por todos e todas, incluindo os defensores de direitos abstratos.
A violência penal não existe por si, ela está incrustada na sociedade.
Ela produz, ordinariamente, seus corpos a serem malhados, executados, esquartejados, picados e moídos.
A potência que habita corpos menores é o alvo privilegiado da cultura do castigo, seja pelo seu aparato formal ou informal.
Assim também ocorre quando a polícia, profissional da execução e da perseguição dá cabo da vida de um franzino pequeno corpo de um garoto de 10 anos.
A opinião pública se apressa em pedir punição, em cobrar apuração das autoridades, em corrigir eventuais abusos e excessos policiais.
Mas ela também conta com uma parte significativa que sai em defesa da polícia em nome da segurança de seus bens a serem protegidos e da necessidade de matar, mesmo que seja um garoto de 10 anos que furtou um automóvel.
Em meio à rotina do procedimento protocolar de “reconstituição da cena do crime”, a boa sociedade aparece para dar vazão ao seu desejo de vingança e sangue.
Algumas dezenas de pessoas, aproximadamente trinta, cercam o procedimento criminal levado a cabo pela polícia civil, para demonstrar seu apoio aos policiais que haviam cravado um balaço no peito daquele menino de 10 anos.
Afinal, tratava-se de uma vida desprezível, um perigo perambulante, um virtual assassino, um potencial estuprador: tanto melhor que vá o quanto antes.
A violência, desde suas manifestações mais ordinárias e toleráveis, até suas formas mais espetaculares e chocantes, é o alimento da cultura do castigo e das recompensas.
A nossa cultura é assim, ora mais autoritária, por vezes totalitária, ou mesmo democrática. É a cultura patriarcal repaginada há séculos que se reproduz pela adesão dos súditos.
Seus alvos prediletos são os corpos de mulheres, crianças, jovens e todos os que têm a coragem de ser diferente.
A diferença que vaza e implode o condutor soberano e a ficção pluralista.

O consentimento
30 homens aceitaram violentar uma mulher. Grande parte destes homens, senão todos, consentiram que a situação era justa ou justificável para eles.
A maioria forte consente uma prática violenta sobre a mais fraca.
O consentimento justo da maioria sobre uma mulher escancara a quem quiser a ilusão e o maniqueísmo das práticas por maioria.
A reação imediata da sociedade é a de horror e exige punição, por meio de uma dura pena justa, justificável.
O castigo é o meio pelo qual se obedece antes de tudo na família. O soberano da casa é o proprietário de sua prole.
As crianças, posteriormente, aprendem o dever de obedecer na rua, na escola, entre os vizinhos, com a polícia, com o comando, o partido.
O castigo não é uma violência exclusiva de uma classe econômica pobre.
Está em qualquer camada social, em todas as instituições, organizações e empresas e se expressa, por meio de nuances, mais ou menos aceitáveis.
A violência das penas nem sempre parece justa aos corpos submetidos, mas eles se acostumam às regularidades e as justificam.
Muitos meninos e meninas se acostumam, todos os dias, a terem seus corpos invadidos por milhares de mãos que o fazem para o seu bem, em nome do melhor interesse, ou para o bem da sociedade.
— É assim! E assim, perpetuam os beliscões, os tapas, as surras, a invasão dos sexos.
Aprende-se que desta maneira se reconhece a superioridade de outro: são os mais fortes, os mais poderosos, as autoridades, os donos da grana, os que têm legitimidadepara meter a mão, o pau, o pé, o cano.
O alvo é a mulher diante do macho, a criança diante do adulto, o marginal diante da polícia e do Estado, o único diante do grupo (ou da comunidade).
E, na primeira oportunidade, na primeira inversão de status, os que eram alvos se escoram em uma aparente ou provisória vantagem para dar continuidade ao ciclo de violências.
As relações balanceadas pela covardia são a regra.
Qualquer sugestão de insubordinação é contida a duras penas.
É esta a educação pelo Estado. É esta a educação pela família de bem. É esta a prática da “sociedade civil” e das empresas por dentro e por fora no chamado crime organizado.
Mulheres são violentadas.
Homens são violentados.
É a perpetuação de um ciclo que é coerente com a existência do Estado.
Milhares de meninos e meninas são violentados, agora, e silenciados.
(...)
Em uma escola qualquer, em uma cidade qualquer, um dia desses, no Brasil: uma jovem se relaciona sexualmente com um grupo de jovens, de maneira consensual.
A brincadeira é filmada, o vídeo compartilhado na escola e entre os vizinhos.
A jovem Geni é removida da escola e da região.
A brincadeira prazerosa é condenada como conduta sexual inadequada para uma mulher.
Começa aí a violência sobre o seu sexo. Seu corpo agora é alvo. Passa pelas mãos e olhos dos pais, dos diretores, coordenadores, conselheiros, psicólogos, etc.
São dedos que apontam, são línguas que cospem venenos, são olhares que reprovam e devoram: é a culpa que faz minguar o prazer, são variadas ameaças que pretendem garantir conformação da boa conduta no governo do sexo.
É por isso que o corpo livre para o sexo de uma mulher, em segundos pode se tornar sinônimo de corpo disponível, desfrutável, por qualquer um. O seu livre prazer deve ser punido.
O corpo que experimentou livremente seu prazer deve ser enjaulado nos invisíveis compartimentos escusos de seu inconsciente, da moral, dos diagnósticos que justificam sua conduta inadequada e condenável.
São as mãos autorizadas de especialistas que se infiltram bloqueando os toques prazerosos ambicionando cicatrizar cada lembrança em mancha para nomear a suposta superação do escândalo ressignificado como trauma.
A liberação do corpo de crianças e jovens para o seu próprio prazer é inconcebível.
O sexo liberado, na sociedade contemporânea, deve ser regulado, repaginado ou servir de mote para conter a violência relacionada a tudo o que vaza das relações conjugais.
E as práticas liberadoras do sexo hoje são aceitáveis, em grande medida, quando reguladas pelo redimensionamento aceitável das famílias.

Polícia é polícia
Há mais de trinta anos foi implantada em São Paulo a primeira delegacia da mulher, inaugurando o rol de delegacias especializadas que procriaram por todo o Brasil para atender as chamadas vítimas vulneráveis.
A instituição da delegacia especializada pelo Estado está fundamentada na prestação de serviço centrada no suposto atendimento diferenciado e humanitário, para acolher, assistir e proteger vítimas de mazelas e violências.
Os profissionais, delegados, delegadas, agentes e escrivães devem estar aptos, capacitados, reciclados em cursos presenciais ou à distância que os sensibilize e conscientize dos direitos humanos universais para garantir aos que procuram uma delegacia especializada que ali se encontra lisura e segurança destinadas a proceder à punição humana e exemplar do violentador.
Governantes, ativistas, “operadores do direito” e outros tantos, querem fazer acreditar nas recomendações de amor ao próximo, em práticas de acolhimento, em direito à diferença, assegurando que a delegacia especial é uma delegacia social.
Com cursos de capacitação, reciclagem ou não, polícia é polícia.
A delegacia especializada é destinada aos diferentes, geralmente indesejados, pobres e miseráveis, e ela é repressiva e punitiva como as outras.
Seu papel é monitorar os grupos vulneráveis, receber denúncias, governar a violência e colaborar para o extenso discurso sobre suas causalidades sob o princípio da excelência da punição.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

hypomnemata 185

Boletim eletrônico mensaldo Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertáriado Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SPno185, março de 2016.


brasyl...brasil
Então tá: cada um deve decidir de que lado está. São dois: governo e oposição.
Onde está quem não estiver em nenhum desses lados e quiser atravessar essa dicotomia, dissolvê-la, escancarar o limite que o discurso democrático faz questão de concretizar?
A vida não é isso ou aquilo, mesmo segundo as circunstâncias possíveis diante do chamado conflito.
A vida é muito mais e menos do que isso, porque pode acontecer sem a submissão às hierarquias.
Vida não se qualifica. Entretanto, não faltam aqueles que pretendem programá-la.
Chamam isso de qualidade de vida.
Então tá: os fascistas podem se agregar a qualquer lado; de preferência, imediatamente ou por osmose, estão junto à direita conservadora; são considerados legítimos no amplo espectro do pluralismo partidário.
Eles se movem, segundo as ocasiões, para forçar golpes de Estado e se imiscuem no discurso democrático.
São capazes de aglutinar os partidários e nutrem-se tanto dos apartidários quanto dos suprapartidários.
Ao chegarem a ser governo são os primeiros a suprimir os chamados debates democráticos.
São um fragmento de massa imantado no sistema partidário ou dele se desvencilhando ocasionalmente.
São capazes de formar partidos e disputar espaços institucionais, dando certa coloração ao conservadorismo racista, xenófobo, nacionalista, e que atrai grandes segmentos de trabalhadores desempregados, e de setores amedrontados da classe média preocupada com a perda de seu poder de consumo e de seus miseráveis privilégios.
Então tá: de vez em quando, eles devem ser domados pelas forças oposicionistas ou governamentais para o bem da democracia e de suas instituições.
Eles vão do louvor ao interesse nacional às práticas de imunização do aparelho de Estado.
Eles são os puros, bons, asseados, ordeiros e policiais à paisana.
Não hesitam pegar em armas para enfrentar manifestações contrárias, sejam elas pacíficas ou não.
São o outro braço da polícia e funcionam como agentes gratuitos para manter a ordem.
Não falam, zurram.
Não conversam, ditam.
Não ouvem, são seletivamente surdos.
Para eles não há adversários, apenas inimigos.
São antidemocráticos.
Servem à ordem para um golpe de Estado.
Ajustam-se novamente à ordem democrático-burguesa restaurada, transvestidos de movimento social legítimo, ou legalmente como partido.
A finalidade fascista é a de calar os outros e assim que possível dar cabo deles.
Os partidos da ordem (sendo maioria ou minoria) contam com estas milícias para domar os adversários políticos e raras vezes declaram estabelecer aliança com eles.
No limite, os fascistas são a minoria que pretende ser maioria governante privilegiada.
Então tá: eles são uma força importante no Estado para o governo e para a oposição; dependendo da situação podem estar de um lado ou de outro.
Quem são, quem os seguem?
Há variados estudos pormenorizados sobre a composição social do fascismo.
Todavia, poucos dão atenção para o fato de que o fascismo como movimento ou governo de Estado é resultante da frágil politização que a democracia representativa e mesmo a participativa não dão conta.
A participação clientelista no governo do Estado promove acesso a bens de consumo, eleva os níveis de escolaridade, estende serviços básicos de saúde e preparam o futuro capital humano.
Esse apinhado populacional está disponível a ser ocupado.
Porém, na medida em que os programas sociais diminuem e o desemprego aumenta, eles recorrem à força política à espera de uma palavra de alento.
Enfadonhos, esses homens e mulheres, jovens, adultos e velhos, de imediato perfilam ao lado das forças fascistas.
Eles vivem em meio a pequenos fascismos nos costumes, nas relações amorosas, na política. Tá?
Mas há o outro apinhado que foi politizado neste itinerário, que melhorou sua condição de vida e reconhece o esforço governamental na sua formação como capital humano.
Relacionados geralmente à cultura dos chamados excluídos, eles querem ser felizes onde nasceram.
Acreditam no outro mundo transcendental e querem viver tranquilos no mundinho que lhes destinaram as forças econômicas e sociais.
Manifestam-se politicamente em defesa do que obtiveram e do direito de ostentar seu mísero ou emergente patrimônio móvel ou imóvel.
São os agentes defensores das políticas compensatórias e pouco se sabe de sua propensão ao fascismo ou das demais variantes autoritárias que as democracias contêm.
Fundamentam sua conduta no agradecimento e na concórdia. Tá?
Dentro desse apinhado estão também aqueles com politização oscilante.
São os ocupados e empregados como capital humano inovadores distribuídos entre os favoráveis e contrários ao governo.
Eles defendem seus postos, seus benefícios, seus direitos de maioria ou minorias qualificadas.
Exigem, como todos os demais, punição para quem ferir a ordem.
Desejam polícias e políticos (mesmo quando estes estão em baixa).
Cuidam, ocupam-se da conduta alheia com prestimoso monitoramento e são decisivos na imposição do “de que lado você está?”.
Esse ubuesco cidadão-polícia governa a vida social nas empresas, na comunidade, na família em conformidade com os ditames democráticos.
Trata-se de um sujeito responsável cuja conduta deixa intocada a divisão social do trabalho.
Então tá: todos devemos ser democratas e defensores dos interesses capitalistas?
Então tá: eles nos dão acesso à internet, celulares, facebook e derivados para termos comunidades de amizades e seguidores, expormos nossas intimidades, registrar jornalisticamente reportagens alternativas sobre violências, catar ocupações, sermos felizes...
Enfim, fazer circular a comunicação contínua e democrática... sempre monitorada legalmente.
Então tá: a justiça é justa, a justiça não é justa; a polícia é violenta, a polícia realiza ações que não lhes são cabíveis; os políticos são corruptos, ainda há políticos sérios; os nossos líderes são sen-sa-cio-nais, são inconfiáveis; tudo, enfim, deve girar em torno da dicotomia e deve pender para o lado positivo a ser restaurado ou conservado.
Então tá: é Brazyl, Brasyl, Brazil, Brasil; é o tal de viva o Estado e os governos: afinal, ruim com eles, pior sem eles.
E viva o desenvolvimento sustentável, viva o capital e viva a qualidade de vida.
E você não quer que com isso persistam os pequenos fascismos?
Não há melhoria que os estanquem, senão que os incrementem em crises.
Os fascistas valem mais para o Estado do que os melhorados para um governo.
Essa é a democracia burguesa, sua finalidade, seus usos, sua existência.

militar polícia militar
Os militares também estão nos quartéis.
Quase todo dia, algum coronel ou general, com cargo e na ativa, declara ser fiel à Constituição, eximindo-se das disputas políticas.
Querem se desvencilhar dos pedidos de “intervenção” ou de “volta da ditadura” que pululam nas redes sociais e nas manifestações país adentro.
Justificam seu “profissionalismo” evitando comparações com o ambiente que antecedeu o golpe de 1964.
Naquela época, dizem, o Brasil estava ideologicamente fragmentado e à beira do caos. Agora, não.
Estava antes?
Não está agora?
Os discursos de militares oscilam na ambiguidade daqueles que continuam a ocupar o mesmíssimo lugar de sempre: o pedestal da defesa da cotidianidade e da sua excepcionalidade indissociáveis.
Desde os militares positivistas que foram escudo e governante no primeiro golpe – o que criou a República em 1889 – até os defensores dos valores da civilização cristã, capitalista, autoritária e ordeira, o golpismo político brasileiro, em parceria com os militares, sempre conectou o ideal de que as forças armadas pairam sobre a vida corruptível na política.
Consideram-se excepcionais, pois se veem diretamente vinculados à Pátria, à Nação, à Soberania, enfim, ao bem-comum.
São os guardiões da “ordem” e do “progresso”.
Em 1964, o golpe foi chamado de “revolução”, “movimento”, “salvação nacional”.
Em nome da “democracia”, em defesa dos “valores e da ética”, contra a “corrupção”.
Hoje, quem é contra o governo brande as mesmas bandeiras.
Quem é a favor do governo agita as mesmas faixas.
Sempre em nome da “democracia” e dos “valores éticos”.
Quando as mesmas muitas bandeiras tremulam elas podem instigar as narinas golpistas.
Os militares estão também nos quartéis, enquanto as polícias militares permanecem nas ruas, com tanques de última geração, armas letais e as ditas não-letais, drones, helicópteros, localizadores eletrônicos, armaduras “inteligentes”.
As PMs de agora são treinadas, capacitadas e equipadas como forças militares de elite.
Olhando de longe ou de perto, são militares, como qualquer outra polícia.
As PMs de hoje são forças auxiliares do Exército, como ordena a Constituição democrática de 1988, preservando, em linhas gerais, a mesma estrutura de comando e subordinação definida na Lei de Segurança Nacional de 1969.
Elas podem ser convocadas para manter “a lei e a ordem” junto com as forças armadas e as demais polícias, todas imantadas no sistema de inteligência.
Tudo legal, tudo constitucional.
Mas os policiais militares, ou não, também são fotogênicos robocops prontos para selfies com manifestantes enrolados em bandeiras brasileiras.
Recebem aplausos e retribuem batendo continência.
São amados por uma heterogênea maioria como garantidores da paz, ou melhor, das pacificações.
De vez em quando, alguns reclamam de seus excessos, do que não lhe é cabível, de seus “abusos diante da lei”.
A ditadura de ontem e a democracia de hoje encontram-se nas PMs e em todas as polícias, nas pacificações de favela e na possibilidade legal de que o dispositivo constitucional de “garantia da lei e da ordem” seja acionado colocando todas essas forças em movimento simultâneo.
Mas, por ora, não precisa.
Militares podem ficar legalistas no quartel porque a PM e todas as polícias, uniformizadas ou não, legalmente estão na rua.

política é pacificação
Há o esforço, alimentado pelos fluxos informacionais, em alocar todos e cada um no contra ou a favor, no dentro ou fora, no eles ou nós, no centro ou na periferia.
Há a insistência de comentaristas, especialistas universitários e formadores de opinião em prognosticar uma crise (econômica e política), mas, também, em afirmar a solidez das instituições, um Estado imunizado em sua arquitetura institucional liberal democrática, com seus freios e contrapesos: o governo deve ser preservado.
Há clamores por bom senso, razoabilidade, senso comum.
Política é moderação.
Os mais inflamados por essa razão moderada e constituinte clamam por novas eleições gerais.
Como disse certa vez um destemido e explosivo anarquista (Unabomber), “somos capazes de imaginar o fim do mundo, mas não o fim do capitalismo”, e do Estado.
A crise é a forma mesma do governo na racionalidade neoliberal: as dicotomias dissolvem-se no fluxo, misturam-se, mas continuam operando como formas de mover os interesses, de governar as desigualdades e assimetrias.
Na política institucional valem os empresários, os políticos, os partidos e futuros remendos ou novos projetos de salvação econômica.
O problema é resolver a crise política, com ou sem impeachment, ou seja, a deles. Estão se marimbando para o resto da sociedade!
No fluxo, pululam as ilegalidades e as violências, captadas pelos monitoramentos e seletivamente capturadas para vazamentos.
Na crise, novas forças se postam, abre-se caminho para os espertos, a expertise e os oportunistas, que se apressam em investir em rendimentos futuros.
A velocidade do fluxo de informação sobre os fatos é importante para que não se produza um acontecimento capaz de alterar radicalmente o estado das coisas.
Fala-se em disputa de narrativas, mas como sustentar tal intepretação diante do fato de que todos compõem e circulam no fluxo do mesmo enredo?
É evidente que a produção de heróis, vilões, grande pai, grande irmão, grande mãe, super justo, mega articulador, mega projetos é contínua e, precisamente por ser contínua, o romance moderno fica interrompido, pois as histórias são intermitentes e inacabadas.
Tudo se dirige ao centro: o Estado.
Política é pacificação que produz docilidades, acondiciona violências e perseguições, organiza a ocupação de territórios e garante a continuidade da produção.
A disputa também é um produto; participar dela também é um investimento.
Os antigos viajantes diziam que os habitantes dessa terra, chamada depois de Brasil, que eles imaginavam sem mal, eram apolíticos, não possuíam Estado; coube a um estrangeiro notar que se tratava de povos contra o Estado.
Hoje, essa terra colonizada, ainda dependente de seus recursos naturais, enviados para além-mar como forma de ostentar a opulência de suas elites oligárquicas e financiar o clientelismo dos miseráveis governados por elites secundárias, se debate em torno do governo do Estado, a forma política predileta de colonizados e colonizadores de terno, farda e/ou diploma, que um dia sonharam em ser franceses, e hoje, sonham com Miami, Nova Iorque, Dubai e Pequim ou se considerarem cosmopolitas.
A bandeira nacional, encharcada com sangue de negros, indígenas e lutadores subversivos, recobre a todos, à esquerda e à direita; afinal, eles temem a ruína, mas na disputa, preocupam-se com o espólio a ser dividido entre os seus.
Eliminação da miséria extrema; ascensão da chamada “nova classe média” (três salários mínimos, segundo o DIEESE); políticas compensatórias, ações afirmativas; aumento do consumo, expansão do crédito; expansão (e sucateamento) do ensino universitário, o recente e já extinto ciência sem fronteiras (mas Made in USA); judiciário forte e ativo, polícia federal equipada e qualificada; consolidação institucional da disputa democrática pelos cargos públicos, combate à corrupção, estabilização da economia, controle da inflação; minha casa, minha vida, luz para todos, aceleração do crescimento — cadê o Amarildo? —; Belo Monte; Rafael Braga Vieira, não vai ter Copa, Copa (e 7x1); não vai ter Golpe, Olimpíadas, Vila Autódromo; mais amor, por favor, muda mais, mas fica como está; pátria educadora, assassinato contínuo e sistemático de jovens e negros, o Brasil que queremos, a Rota na rua, crianças de farda, crianças que cantam hino e batem continência para homens armados com escopetas militares; 3,80 Não; bombas de gás lacrimogênio, bombas de consecução, blindados de Israel, Condor: Tecnologias Não-Letais — Condor? Sangra nuestra America —, desmilitarização da polícia, polícia, lei antiterrorismo, lama de rejeito tóxico... fluxo contínuo.
Esse é o pacote a ser zelado, melhorado e monitorado pelo cidadão-polícia em nome do bem comum.
Em junho de 2013, a revolta ingovernável ativou a potência antipolítica, expandiu o interesse pelos anarquismos, mas já continha os verde-amarelinhos fascistas e os que buscavam ver naquele acontecimento um passe adiante no progresso e no desenvolvimento da multidão.
Direita e esquerda, entre delegados e monumentos da intelectualidade afrancesada e americanizada nacional, apontaram seu inimigo em comum: os black blocs, agentes desestabilizadores, irresponsáveis promotores do caos, inimigos da sociedade.
A eleição de 2014 disparou a violenta e destemperada disputa política pelo governo do Estado; os perdedores, democratas juramentados, buscaram questionar a regra de todas as formas, queriam alterá-la utilizando a força da lei, abriram espaço para perdedores radicais que já agridem padres em missas, pessoas em bicicletas, cachorros de vermelho; talvez o sonho colonizado de virar Made in USA comece a se concretizar.
Ah!, e claro, delatores e listas vazadas já mostraram que por parte de empreiteiras e empresários tem dinheiro para todas as partes que fazem a política do interesse nacional, deles.
A revolta é a força estranha que entrecorta os fluxos, contém as velocidades, desorienta os monitoramentos, faz cada paralelepípedo da velha cidade se arrepiar e voar perfurando o vagabundo asfalto que os recobre.
A política é a tecnologia que opera pela violência, pela astúcia e pela captura das forças para conter a potência da revolta.
A política é a principal herança dos colonizadores modernos.

uma nota sobre a mídia golpista
As passeatas e a luta pela democracia no final da ditadura civil-militar alastraram-se pelo Brasil nos anos de 1980.
Setores da direita e a mídia televisiva — principalmente a Rede Globo de Televisão — eram os alvos pelo apoio recíproco ao regime militar e suas arbitrariedades.
Em São Paulo, as passeatas pelas Diretas Já, levaram milhares de pessoas às ruas.
Na Praça Marechal Deodoro, encontrava-se a sede da Rede Globo de Televisão. Ali se ouvia em uníssono: “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!”
A Rede Globo de Televisão, grupo empresarial da família Marinho, desde a apresentação do seu primeiro telejornal em 1965, o Tele Globo, sustentou o discurso dos militares em troca de concessões e permissões para operarem inúmeros canais em território nacional.
A colaboração mútua entre militares e a emissora se fortaleceu em 1969 com a implantação do Jornal Nacional transmitido do Rio de Janeiro para todo o país, apoiando a integração nacional.
Com a redemocratização, ao longo dos anos de 1990, as críticas à manipulação da Rede Globo persistiram por grupos de esquerda e meios acadêmicos, que manifestavam seu descontentamento, afirmando o quanto a emissora, com maior audiência, era parcial, autoritária e antidemocrática.
Contudo, a Rede Globo incorporou o discurso democrático e da imparcialidade em nome da transparência e neutralidade.
Fez mea culpa, reformulou programas e noticiários.
Em outubro de 1996, estreou seu o canal fechado Globo News com uma programação jornalística durante 24 horas.
De uns anos para cá, democratas juramentados de esquerda e direita disputaram espaço televisivo para ter voz e visibilidade na Rede Globo e na chamada grande mídia empresarial.
Não é de hoje que candidatos eleitos preferem conceder suas primeiras entrevistas “ao vivo” para a emissora emblemática por seu apoio aos militares e fascistas [no passado.].
Durante um tempo, as passeatas e manifestações arrefeceram.
Mas, as passeatas democráticas autorizadas e protegidas pela polícia ganharam ares de desfile midiático, com coberturas, entrevistas e análises de especialistas.
De 2013 para cá, a Rede Globo voltou a ser o alvo por sua pretensa imparcialidade diante daqueles que clamaram pelo Estado em nome de mudanças.
Os que anseiam pelo controle da mídia, ativistas institucionalizados, ongueiros, oportunistas, militantes e contestadores de plantão chamam a emissora de “mídia golpista”, a favor do impeachment.
Em suas passeatas e manifestações empunharam faixas e cartazes, foram para a porta das suas sedes regionais retomando o velho slogan: “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”.
Os que vestem verde e amarelo em defesa da verdade e da justiça sentem-se contemplados e felizes com o discurso da emissora, com seus âncoras e apresentadores, condutores de consciência “indignados” com a política vigente.
Não existe imparcialidade, muito menos neutralidade e transparência.
A Rede Globo deixa claro diariamente o investimento no governo de condutas.
Sua “prestação de serviço” trabalha um acreditar em suas histórias e análises revestidas em imagens e sons, recortadas, editadas, produzidas para o cidadão, para quem quiser ver, assistir, seguir, participar, compartilhar, concordar ou discordar e ter uma opinião.
Passou e passa na televisão em todos os equipamentos eletrônicos.
É só ela?
São todas democráticasneutras e transparentes que respondem com seriedade ao regime de concessões de meios de comunicação de massa monopolizado pelo Estado.
Não se iluda: o jovem Étienne de La Boétie já dizia no século XVI, concomitante à emergência histórico-política do Estado moderno, é o próprio povo que se deixa degolar.

é preciso não esquecer
É sempre bom lembrar.
No final dos anos 1970, anarquistas resistiam renhidamente à ditadura civil-militar.
O jornal O Inimigo do Rei (1977-1988) não dava sossego ao governo.
Entre as históricas avacalhações realizadas pelos jornalistas-jornaleiros que produziam O Inimigo do Rei, houve a capa “Prática sexual ampla, geral e irrestrita”, esculhambando a negociação de abertura proposta por Ernesto Geisel e a reivindicação de derrubada da LSN (Lei de Segurança Nacional) pela distribuição de LSD.
Entretanto, o alvo do humor mordaz dos libertários não ficou restrito ao governo militar e a seus seguidores cordatos, ufanistas lambe-botas.
Frente à anistia, reivindicaram sua ampliação aos presos considerados “comuns” publicando a capa: “Eu também quero sair”.
E pouco tempo depois, às vésperas da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), alertaram que a criação da organização servia para tirar partido de homens e mulheres operários.
Por fim, concluíram, há quase quatro décadas, que nenhuma transformação radical era possível pela via parlamentar.
Hoje, mais do que nunca é bom lembrar.
O Inimigo do Rei enfrentou com coragem a violência perpetrada pelos abomináveis militares e pela corja conivente.
Todavia, não deixou de provocar a conduta de parte dos militantes.
Você pode fumar baseado! Desde que não seja do PDS ou trotskista”, declararam ainda nos anos 1980.
Assim, liberados da dicotomia os anarquistas não respeitaram muro algum e, diante da política, seguiram adiante...

a sangria da legalidade democrática ou não
Não há lei que tão somente reprima.
Caso contrário ela não seria obedecida.
Aí está sua positividade na produção de sujeições e assujeitamentos.
Não há legalismos apartados dos ilegalismos.
Eles se sustentam reciprocamente.
Aí está um dos baixos começos do Estado e do capitalismo.
Não há lei que, no limite, não se refira ao gládio.
Partam em busca de sua origem gloriosa e não encontrarão nada mais do que um conto de fadas.
Peguem a lei em suas palavras reluzentes e em seus expedientes de funcionamento.
Agora a torçam histórica e politicamente.
Sai sangue!
E não há lei, nem norma nem direito ou torto que o estanque.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Pontos nodais para uma interpretação dos dilemas do cotidiano cruzaltense

Ando faxinando meus escritos pra rever a vida que me trouxe e me manteve em Cruz Alta já por quase 20 anos... lembro que, numa ocasião estive aqui antes de concluir minha graduação em Psicologia e, entrando na cidade, disse à minha companheira da época: “esta é a última cidade em que moraria” (e sempre conto isso mostrando não um certo desprezo, mas sim, para compor os tempos e percursos de minha vida)... buenas! A última! Em que moraria!... o quê será que isso poderia estar significando à época? E hoje?
Naquele tempo, “forasteiro” ainda era tratado com muito desprezo... para minha sorte, eu própria nunca estive atrelada a esse pensamento que determina posses aos territórios... penso que somos cidadãos do mundo e ponto! Em qualquer lugar em que estivermos, estaremos em nosso lugar, visto que essa seja uma questão subjetiva, antes de ser geográfica!
Quando cheguei para trabalhar aqui, conhecia quase nada da história e da realidade da comunidade... e vivi, aqui, um dos tempos mais bonitos de pesquisamentos que já tive em minha vida... posso dizer que nos 18 anos em que estive nesta que é a última cidade em que eu moraria, fiz das minhas territorialidades e de minhas desterritorializações, um lugar bom para se viver... aqui inventei afetos; teci e tessi relações; transversei meus versos com os versos de tanta gente que nem sei contar; produzi filhos; plantei jardins; semeei, cultivei e colhi amores; granjeei desafetos (dos quais, não me envergonho... há tipos e tais e coisas que tenho orgulho em não receber em meus pelegos)... aqui, foi uma boa escolha para ser a “última cidade em que eu moraria”... nas próximas cidades, não quero mais morar... só quero viver... morar dá muito trabalho e já não tenho mais tempo pra isso!
No mais, resgatei dum escrito longo e pretensioso, um trecho que está sempre presente em meu imaginário, quando penso em Cruz Alta... é um escrito que hoje eu escreveria doutras formas e com outros referenciais teóricos, mas sendo de 1999, me serviu para re-olhar algumas questões...  eis aí, o escrito cujo pretensioso título original era "Pontos nodais para uma interpretação dos dilemas do cotidiano cruzaltense":

O desenvolvimento deste trabalho constitui-se pela perspectiva de ensaiar sobre questões pontuais da história e da situação cruz-altense contemporânea, e perpassa – não somente pela especificidade do âmbito estudado, mas também pela necessidade de que se desenvolva uma percepção contextual da situação estudada – a pesquisa sobre a história do município de Cruz Alta, sua constituição, sua formação, sua cultura e os elementos que perfazem esses aspectos.
A pesquisa envolve coleta de dados registrados em documentos formais e informais arquivados na Biblioteca Pública Municipal e na Prefeitura Municipal; observação e registro de fatos e incidentes que acontecem ou que se repetem na história do município, e o destaque às questões que permeiam as queixas, as discussões e as intervenções cotidianas no município; já, a elaboração do texto, no momento, não ganhará uma sustentação teórica bibliográfica, aspecto este que deverá ser desenvolvido doravante.
O referenciamento de interpretação teórica da leitura que se faz a partir das informações pesquisadas contempla o indivíduo, a instituição e a sociedade pela via da sua constituição, no que se refere aos aspectos específicos, históricos e encadeantes de sua formação, sendo que, apesar de que se trabalhe aqui com informações históricas, devemos destacar que a abordagem se dá sobre os aspectos imaginários da constituição histórica do município, o que não implica, necessariamente, considerar a objetividade de sua linearidade e factualidade.
A tentativa de delineamento e compreensão sobre qual seja a formação cultural de Cruz Alta esbarra na indefinição, o que deixa-nos a questão: qual é o retrato,  qual é a formação cultural de Cruz Alta?
Gabriel García Márquez, em Cem Anos de Solidão, constrói a metáfora de um povo que foi sem nunca ter sido, ou seja, é um povo sem gênese, que vive a apocalípse de seu próprio fim traçado nas letras ardentes da literatura; Macondo, o povoado romanceado por Márquez, possibilita-nos traçar um retrato do que seja um povo cujos sonhos, desejos e paixões morrem logo ali onde parece que vai brotar o novo... mas não brota, porque ainda não existe, e Márquez inicia assim seu texto “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo”.
Queria ser mais suave em minha escrita, mas meu olhar estrangeiro impede que suavize o contorno do retrato que vejo, desta bela Cruz Alta que está tão viva em nosso cotidiano, mas, ao mesmo tempo está tão longe em nosso imaginário, tão longe que aqui ainda temos baile de gala; escolha de rainhas e princesas; reconhecimento pelo que se parece ser e não pelo que se é; simulacros de um imperialismo morto e enterrado, cujos fantasmas ainda perambulam em nosso meio;... e “o estrangeiro toma tudo como mitologia, como emblema. Reintroduz imaginação e linguagem onde tudo era vazio e mutismo. Para ele estes personagens e histórias ainda são capazes de mobilizar” (Peixoto, 1988).
Um povo que ainda vive seu passado é porque que não consegue resgatar imaginariamente os elementos que perfazem sua história, e sem resgatar a história toda tentativa de iniciar alguma coisa será apenas um recomeço sem ponto de âncora... por isso, ao pensar Cruz Alta, relembro Cem Anos de Solidão! Podemos relembrar, também, o livro Cruz das Almas, de Edson Amâncio, que é um retrato literário de uma Cidade que doloridamente tenta reconstruir as lembranças que portam o teor de sua história... doloridamente, porque nunca desejamos reencontrar aquilo que está por sob as cicatrizes que recalcam um ferimento que já marcou sua intensidade em nossa vida!
Por essas e outras, ao aludir ao Tempo e ao Vento de Érico, que há 50 anos disfarçava Cruz Alta nas entrelinhas de seu romance, podemos pensar então que, assim como Cruz das Almas, Cruz Alta não existe, pois é uma criação literária de Érico Veríssimo, em que ele próprio, escritor, é personagem dissimulada de sua escrita e de sua crítica... e atualmente homenageamos Érico de forma contida, constrangida, porque sabemos que aqui ele não teve seu espaço assim como todos aqueles que quiseram mexer nos porões da história.
E, por falar em porões, Cruz Alta, talvez por sua geografia regular, conta pouquíssimos porões em sua arquitetura habitacional antiga... mas conta muitos sobrados... poucos sótãos... ora, o que esta cidade faz com seus guardados antigos, aqueles que os melhores porões acumulam junto com o pó da história? O que nossas crianças terão para contar de uma história calcada na superfície? Ou os porões ainda estão por serem cavados? Ou teremos nosso cotidiano transformado em história viva para que se faça do turismo uma forma de se ver que ainda não conseguimos construir nada além do que está posto?
O encantamento provocado por esta terra de marechais, generais, e tudo mais... e tão carente de sustentação, sem rima que rime com o estranhamento de que somos tomados cotidianamente diante as figuras que compõe a cena desta polis controversa que vive sua crise como se logo ali adiante viesse a ocorrer um milagre salvador e evita-dor do dorido que é ver a própria cara sangrando para se pagar o preço da covardia calcada há anos nas entrelinhas do tempo... esse é o encantamento de que somos tomados quando nos deparamos com o estranho presente ali onde o familiar está dissimulado com suas vestes mais óbvias, as vestes do primitivo, as vestes do primário, as vestes de tudo que se repete nos dilemas do cotidiano cruz-altense... e aquilo que se repete/que faz repetição é o que faz sinal do que ainda está por ser elaborado... e parece-nos que por aqui há muito o que ser elaborado, desconstituído, azucrinado!
Márquez, Érico, Amâncio e muitos outros construíram uma metáfora literária da história, da história em crise... nós, por aqui, a vivemos... e “a cultura em crise faz apelo a suas criaturas mais sublimes para encontrar uma saída” (Peixoto, 1988).
Encontramos informações de que não foi deixado nenhum documento ou registro da instalação provisória ou definitiva de povoamento em Cruz Alta, sendo que as primeiras pessoas que aqui chegaram, eram quase todas analfabetas.
Há quatro lendas que, imaginariamente, sustentam uma teia – não tão clara – do que seja a história de Cruz Alta; há versões e variações dos temas básicos das referidas lendas, sem que isso mude suas essências, mudando apenas os significantes que sustentam as diferentes interpretações. Vejamos então:
- A lenda da Fundação de Cruz Alta retrata um elemento importante no que se refere ao fator assistencialista presente na cultura da cidade, marcado pelo registro inicial da menina abandonada pelo pai, que encontra aconchego e alimento na fera que é domada pela menina com sua ingenuidade e fragilidade.
E em nome do quê se construiu a capela e se plantou a Cruz Alta; em nome do pai morto ou da filha viva? Que lugar é esse “Mui Leal Cidade do Divino Espírito Santo da Cruz Alta”? E qual é a conotação cultural conferida à Cruz?
- A lenda de Anahy, que traz a moça queimada viva por defender a sua terra, transformando-se na flor da corticeira.
- A lenda da Lagoa do Cemitério, que apresenta uma criança/filho assassinado e não reconhecido pela família, o que resultou na maldição de que todo filho desta terra, para prosperar e se tornar famoso, teria que deixar Cruz Alta e passar a viver em outras paragens.
- E a lenda da Panelinha, que retrata a desconfiança/descrédito para com a possibilidade de Cruz Alta sustentar um espaço/lugar àqueles que vem de fora, tendo que lançar mão da magia da água da fonte para reter aqui aqueles que lhe interessam.
Que lugar/cidade é essa, cuja instauração se deu em lugar outro que não aqui? A cidade foi planteada fora daqui.
A extensão de nossa pesquisa aos primórdios da criação/instauração do município de Cruz Alta tem sua pertinência marcada pela necessidade de que se pense sobre a situação presente/atual que é, sem dúvida, resultado de um processo histórico instaurado e desencadeado ao longo do tempo, a partir de fatos efetivos e de mitos que norteiam imaginariamente a estruturação/ o encadeamento simbólico de situações e questões que acontecem e se repetem, podendo gerar a mobilização e também a desmobilização pessoal ou coletiva num determinado contexto; desta forma, pensar a cultura, requer pensar as instâncias nas quais está inserida e as quais permeia, bem como a efetividade interativa de tais instâncias; diante isso o que temos da fundação de Cruz Alta? O desbravamento e povoamento de uma terra nova pelos europeus, cuja distribuição e exploração é coordenada pelos jesuítas; a morte de Arabela logo após o parto; uma filha (Joana Jacy) que fica com o pai; um ser frágil (João Rodrigues da Cruz ) que morre de susto/ de medo; uma filha acolhida e protegida por uma fera (Ao) temida; uma cruz que é plantada no local onde foi encontrado o pai morto e a filha viva – um local outro que não o povoado já existente; uma capela que é erguida junto à cruz em nome do mesmo fato que a instaurou; um nome que por si diz muito “ Mui Leal Cidade do Divino Espírito Santo da Cruz Alta”, cuja denominação aceita muitas metáforas, entre elas Aldeia do Divino, Capital do Trigo, Aldeia dos Tupiniquins, Rainha da Serra, entre outros, e cujo local de fundação que abriga efetivamente a cruz do ato, chama-se Encruzilhada da Cruz Alta, nome este que foi substituído por forasteiros que trabalhavam no serviço ferroviário lotado na Estação Benjamin Nott, que passou a designar o local.
O que é que a religiosidade/misticismo fluente/latente em Cruz Alta está mascarando? Porque é que “aqui nada dá certo”, ou “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”? O que é que tanto se insiste em “proteger” aqui em Cruz Alta? O que é que sustenta a crença na “praga de madrinha”? Porque é que em Cruz Alta a maçonaria, que tem atuação tão forte, se empenha em promover “a fraternidade, igualdade, a paz e a harmonia” sem mobilizar o seu outro aspecto originário que é de construção? Porque há um apontamento constante e generalizado de que Cruz Alta não cresce? Porque é tão forte o discurso de que se faz alguma coisa e se dá certo, dá, senão parte-se para outra tentativa? O que é que determina o discurso e a efetividade do fato de que Cruz Alta seja a “terra do já foi “ ou “terra do já era” em alusão à instauração de empreendimentos e posterior desarticulação/extinção dos mesmos? Porque há tantas campanhas, talvez não de conscientização mas de indução à valorização e ao prestígio de Cruz Alta? No que se constitui a permanente preocupação em defender o “Poder Público” e o “Executivo”?
A concepção aparente de administração pública, ao longo de diferentes gestões, em Cruz Alta, perpassa a perspectiva de “beneficiar” e agradar a população e a comunidade, diante esse aspecto, em que dimensão poderíamos situar a perspectiva de administração da cidade/do município, que contemple a articulação e o desenvolvimento social, econômico e político, considerando que o que sustenta basicamente a prática da Administração Municipal – e de suas adjacências – seja a perspectiva de fazer uma gestão melhor e diferente das anteriores, o que é efetivado não através da modificação/revisão das formas existentes ou criação de novas formas de trabalho e atuação, mas através de ações e projetos que irão ampliar o que já está instaurado.