quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Essa coisa chamada c r i s e

Autor: Nu-Sol
publicado em: sítio, São Paulo: nu-sol, 2009.


2008-2009: anúncio de crise. Noticia-se nas mídias e comentam-se nos carros, ônibus, trens, aviões, metrôs e nas calçadas, e na Internet: crise!  C-r-i-s-e. Quem produz essa crise? Quem ou o quê? Qual? Como?

Vivemos um tempo em que se espera que alguém dê conta da crise e que o faça por nós.

Metafísica da crise: ela é individualizada, é um quem. Toma a forma de uma invisível pessoa esperada ou quase íntima, um parente que reaparece quando menos se espera ou quando dele se imagina desvencilhado. É um ser: um velho conhecido, ou a velha restaurada? Uma senhora ou O senhor? A crise nada tem de jovial. Ela precisa ser conhecida, aparentar proximidade, portar certa maturidade para superações. Ela é também um espírito: deve ser incorporada pelas pessoas como inevitável transtorno, uma doença leve ou grave, e noshabitar sazonalmente. Não chega para ficar, mas para repor os elementos na mesma ordem!

A crise ataca o corpo e mata, arruína, produz o inédito e o caos. A crise também é imprevisível, não é metáfora da pessoa nem do espírito. Quem quer saber de inédito e de caos? Não sei! Só sei que há uma regra geral: quem sair da crise ganhando mais do que perdendo, amplia sua saúde! É o que se espera da economia, da psicologia de cada indivíduo, da vivência de grupos e classes. Colaborar, cooperar, superar!

Os chefes de governos e os governantes da casa, do trabalho, da escola, da prisão, nas periferias e nos condomínios abastados, nos partidos e sindicatos, nas organizações legais e criminosas e pelas ongs, adentro e afora, querem mesmo é que a crise passe; às vezes, imaginam que esta será a última. A expectativa pelo anúncio do fim da crise traz a esperança na reposição das normas, das coisas, dos arranjos, de tudo refeito com fé e ciência.

2008-2009: o que uma crise pode anunciar longe do retorno do mesmo, da ampliação ou administração da fome, dos brilhos fugazes dos poderosos, dos soturnos lambe-botas e dos resplandecentes tagarelas, dos colecionadores de efeitos da crise, dos infindáveis desamparados e desesperados? O que há longe da retórica, da academia, das enciclopédias, das doutrinas, dogmas, proselitismos e prefixologias? Qual neo ou pós virá; será definido um novo conceito?

Uma crise é um instante krisis: morte ou superação de um estado, decisão, alteração súbita, conjuntura perigosa — e um dicionário diz: anormal, grave e perigosa —; crise política, crise de governo, crise de superior. Crise é coisa de humano que cria poderes, domínios, mas que pode inventar liberdades e rupturas.

Propagandeiam o fim do neoliberalismo e com isso alardeiam o retorno da “crítica da economia política”, a pertinência das palavras de Karl Marx sobre o Capital. Novas-velhas disputas sobre o mesmo estado das coisas provocado pelas crises periódicas, inevitáveis, inacabáveis e de seus efeitos sobre o rebaixamento de salários, a redução de direitos, o desnível de consciência, a necessidade de mobilizações...

A Anarquia não se insinua neste eterno retorno de certeiros perpetuadores do capitalismo e de seus respectivos sucessores. A Anarquia ultrapassa o regime da Propriedade (privada, mista, estatal ou coletiva); aprecia a crítica, não para afirmar mais uma verdade profética, mas para empolgar a luta de libertários contra autoritários; busca a contínua multiplicação das singularidades dos livres, sob quaisquer condições no presente. Autoridade é propriedade (capitalista ou socialista); anarquia é liberdade.

2008-2009: dos levantes de jovens iracundos na Grécia e de outros que poderão chegar para revirar, meter fogo na revolta, atiçar insurreições, driblar os engenhosos articuladores de revoluções. Para o anarquista não há crise cíclica ou esperada: eu e você sabemos mapear as crises alheias, destruir e conviver com as nossas , sem penas, soterrando punições e cartografando nossas invenções.

O anarquista aprecia a democracia, sim, para nela inventar, produzir, experimentar, transformar muitas anarquias. O anarquista evita a crise que escoa para totalitarismos, porque é durante esses governos atrozes e efêmeros, que as forças de oposição imantam na reposição do capitalismo com democracia ou dos socialismos centralizados e liquefazem anarquias.

A crise atual é um problema do capitalismo, com seus proprietários, burocracias pública e privada, acionistas, empregabilidades, governabilidades; com o excesso de habilidades em capturar inovações e em atrair criadores de ilegalismos lucrativos, que vão desde hackers até segurança mercenária, reintrodução da prática dos corsários, confinamento de empregados em empresas ilegais, acordos com organizações criminosas... É sua solução plasmada para revitalizar a ideologia do socialismo centralizado e/ou democrático. A crise, então, aparece nas mídias, em artigos, crônicas, talk-shows, mostrando-se evolucionista e dialética, funcionalista e compreensiva, marginal e estrutural. Enfim é uma senhora doente, pegajosa e anormal, em estado de liquidez, com a pretensão de permanecer viva a qualquer preço.

A crise, como qualquer uma dessas crises, propicia a sobrevivência dos miseráveis pedintes, dos agradecidos semivivos, dos favorecidos pelas migalhas dos benfeitores — que lhes deram escola, comida, gás, empregos e esmolas — para fortificados enterrarem seus próprios mortos com dignidade. A crise propicia a criação de novos ilegalismos que estarão contemplados nas futuras novas leis e orientarão os deveres dos cidadãos devotos dos direitos universais.

2009. O anarquista vive com suas inúmeras crises. A atual é de outro tempo e dura desde o instante que o neoliberalismo provocou a derrocada do socialismo. E agora? Ela mata ou cura? Devora ou vomita? Estarão os anarquistas tragados pelos socialistas?

Terão os anarquistas esgotados suas potências de liberdade no acontecimento1968?

Sabemos que o tal de anarco-capitalismo produzido pelos conservadores fez água. Isto não é uma metáfora! O anarco-capitalismo foi um dos nomes dados ao neoliberalismo para tentar imobilizar a potência da Anarquia. Do mesmo modo,especialistas internacionalistas insistiram em dizer que as relações entre Estados são pautadas na anarquia e na violência, justificando guerras justas, santas, cirúrgicas, preventivas, imprescindíveis...

Os anarquistas apreciam a democracia para produzirem singularidades. Não há revolta libertária no oportunismo das turbas, das sublevações de presidiários domesticados, dos amores pelas periferias e dos arrastões. Estes apenas usam das armas, da segurança e da delação contra si; alimentam populistas,vanguardistas e parasitas.

Anarquia nada tem a ver com capitalismo, nem com socialismo estatal. Anarquia é o surpreendente. Anarquia vive da crise jovial: perturbadora, convulsiva, insurgente e também engenhosa nas autogestões.

O anarquista não sai da crise e por isso arruína a noção de crise, de norma, de ordem, de universal, de plano e de mercado. O anarquista recusa a temporalidade da crise e ocupa livremente os espaços.

O anarquista é mais de um; é o diverso, é o passado, as memórias e o presente. Anarquista é um ideal, uma metáfora, uma metafísica, um universal. E também não é. Não? Não é um estado civil ou uma identidade; é um vacúolo no fluxo. Então não é um anarquista. Que libertário é esse?

2009: onde estão os anarquistas? Muito bem, tudo isso é muito bonito, mas onde estão os anarquistas? No século 19, no 20? Na divulgação da sua história, na propagação de seus ideais universais? Estão nos desdobramentos do anarco-sindicalismo, do sindicalismo revolucionário, na Internet, nas cooperativas, nas federações, em suas livrarias e editoras? Estarão noivos? Estão na revolta dos jovens estudantes gregos? Estão nas memórias de barricadas, na Palestina, no MST, no Tribunal Popular? Estão por dentro e como bons acadêmicos situam pré-anarquismos e pós-anarquismos? Estão noticiando isso e aquilo? A crise mata ou cura? Devora ou vomita? Estarão os anarquistas tragados pelos socialistas?Terão os anarquistas esgotados suas potências de liberdade no acontecimento1968?


Núcleo de Sociabilidade Libertária - Nu-Sol
Texto extraido de http://www.nu-sol.org. Acessado em: 03/12/2014.

sábado, 22 de novembro de 2014

um editor solitário-estelar da anarquia, simplesmente anarquista!

Passarinho. Estrela. Essas eram palavras que um editor, torcedor da estrela solitária alvinegra, gostava. Robson, apaixonado pela vida, pelas coisas boas da vida. Gostava de cachaça, de torresmo, de chouriço, de feijoada no Floresta, no meio da mata e do doce “mineiro de botas” no Aurora, seu bar preferido em Botafogo. Torcedor de radinho, de TV e de arquibancada. Robinho, mais um Chopp? Claro! Coloria seu alvinegro com o verde e rosa da Mangueira e com o vermelho e negro da anarquia. Piadista, bonachão, glutão. Recebia a todos em sua casa com um almoço delicioso! Também um saltimbanco iconoclasta. Homem de excessos e gigantesco em generosidades, sem o peso de pagar preços, apenas se entregava ao prazer de uma cachaça, de uma conversa, de uma companhia nos encontros sobre a anarquia, literatura, futebol, amor, paixão e amizades, sobre o planeta e suas coisas esquisitas. Homem imenso, não coube em si. Um insurgente!
Achiamé. Uma estrela solitária a editar palavras da anarquia. Interessado em jazz e no amor livre, preocupadoem atiçar e alertar os desavisados, a sacudir o conforto dos covardes, dos omissos e dos doutrinários. Literatura e anarquia, parceria inseparável. Impaciente com o mercado, não tinha CNPJ e nem emitia nota fiscal. Editou muitos clássicos, mas foi um dos únicos a editar anarquia hoje, em português, de autores que o mercado editorial simplesmente desconhecia. Inventou uma revista, a letralivre, que conversava com as edições dos jornais históricos da anarquia no Brasil, ao mesmo tempo que se aproximava dos fanzines anarco-punks. Foi responsável pela reativação do boletim do CCS-SP, encalacrado há mais de uma década, que sem ele segue sem ser impresso. Diagramou e imprimiu por conta própria. Distribuía suas edições e de companheiros pelo correio. Não existe história e memória da anarquia no Brasil sem ele. Brincava com as palavras impressas e as páginas de dizeres e imagens como uma criança grande. Editor incontornável, homem extraordinário. A anarquia sabe o tamanho que ele tem. Um instaurador!
Robson Achiamé, amigo querido, sua grandeza estelar ficou impressa nas páginas que combateram e combatem a favor da liberdade e contra a pequenez de picuinhas. Nas suas edições não havia seletividades: publicava todas as caras e ações dos anarquismos. A estrela solitária brilha, verde, rosa, branca, negra e vermelha. Daqui, saudamos e brindamos a sua existência! Tristes, pela certeza da impossibilidade do reencontro; alegres e fortes, pelo que imprimiu em cada um dos anarquistas. Amou as palavras para jamais usá-las com soberba. Um editor da anarquia! Simplesmente anarquista!

hypomnemata 171

Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no. 171, outubro de 2014.

o perigo dos restos

Os restos da convivência nas cidades, os refugos, aquilo que é varrido para debaixo do tapete, o que não é capitalizável para a memória da vida individual e coletiva tende a ser abjurado na história.
O que expõe a putrescência do progresso evidencia os ruídos do desmoronamento do reformismo moderno. Mas, diante do apocalíptico, este se reergue ao incluir o antigo degenerado como o degradado a ser emancipado.
Leis, convenções sociais e práticas socioambientais se esforçam para reduzir, reutilizar e reciclar os restos das experiências do que é vivo. E isso vai da merda ao lumpen.
Constrói-se sobre o discurso de fim do mundo práticas que objetivam afastar a escatologia, seja como os dejetos do corpo, seja como a imagem dos últimos dias ou mesmo a caminhada lenta, desorientada e famélica dos miseráveis pelas ruas das pequenas e grandes cidades.
A gestão do lixo explicita a tentativa de pulverizar e repaginar o resto e o refugo em algo bom, capitalizável, rentável e positivo politicamente. Esta é a condição ecológica e social, porém, antes de tudo, é a empresarial e governamental com inclusão e capitalização simultâneas.
As novas legislações, efeitos de uma agenda global ambiental, esmeram-se em reconfigurar, por meio de seus procedimentos de gestão dos riscos, tudo aquilo que lhes escape, inclusive a palavra “lixo”.
No Brasil, esse termo tornou-se obsoleto desde a promulgação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/10), primeiro instrumento jurídico-político de abrangência nacional a instituir procedimentos de gestão dos restos.
O lixo agora é fragmentado em resíduos, rejeitos, restos orgânicos e inorgânicos e outros termos técnicos que transfiguram as putrescências e imundícies de outrora em empreendimentos salutares nos dias atuais.
O lixo vira luxo e ouro nas mãos neoliberais, absorvendo o retorno do podre à forma de riquezas naturais, por meio da alquimia (tecno)lógica de mercado.
Até o ínfimo ato de jogar o lixo não mais na lixeira é modificado para expressar cuidados ecológicos, de modo que o indivíduo fique circunscrito às formas de conduta que passam por discursos higienistas, assistencialistas e ambientalistas.
Inscreve-se, assim, em cada cidadão o aspecto policialesco da vigilância dos atos e dos hábitos, moldando-o como ambientalmente responsável destinado a monitorar as práticas que impeçam a otimização e capitalização de tudo e todos. Na era da assepsia importa produzir o limpo com lucratividade e inclusão.
Entretanto, a recondução das condutas não diz respeito apenas aos restos materiais.
O frisson do ótimo funcionamento das cidades e metrópoles, ao não deixar espaço para a acumulação daquilo que não serve aos fluxos empresariais e de governos, requer gestão dos restos materiais, como também dos resíduos imateriais.
Assim, funciona também para o uso da memória da existência nas cidades.
Nos centros das cidades, grandes e pequenas, aquilo que está abandonado deve ser revitalizado, ressignificado, repaginado.
Ressignificar acontecimentos através de uma mudança de visão de mundo é repaginar lembranças dispersas na história em categorizações como, por exemplo, memórias tristes ou alegres.
Destas memórias àquelas sem atribuição de valorações, resta-lhes a lixeira – física, subjetiva, cibernética...
Aquilo que não é localizado na marcação do verdadeiro-falso, do bom-mau ou de bem-mal, também não ficará em um sedutor não lugar para alimentar discussões acadêmicas e suas frágeis hipóteses sobre a pós-modernidade.
O rejeito terá também seu destino ambientalmente correto, seja nos lixões, nos projetos de contenção das moléstias sociais, ou no “esquecimento” confortável do conceito de inconsciente.
Os procedimentos de gestão de riscos propulsionam as memórias capitalizáveis e os hábitos governáveis e, não obstante, ainda oferecem lugar aos restos, desde que não insistam em sua posição de estorvo e externalidades.
Espaços abandonados, como um hospital desativado há 20 anos na região mais valorizada da maior cidade do Brasil, torna-se espaço de intervenção artística como estratégia de marketing para a inauguração de um futuro shopping e hotel de luxo.
Catadores de papelão que perambulam pelas cidades, aos poucos se metamorfoseiam em agentes ambientais e vêm nesta posição a ascensão de um reconhecimento social e de mercado.
A estratégia para aglutinar as diferentes expressões daqueles que vivem dos refugos urbanos é a criação de um mito de origem (Zumbi dos Palmares, Expertina Martins, Sepé Taraju, Carlos Mariguella...) e, por conseguinte, de uma identidade de “exclusão e opressão” que ascende à de inclusão e participação.
Com efeito, tem-se a fundação de um movimento social nacional que brada pelos direitos dos catadores, forja uma história de exploração, vitimização e resiliência que atende aos requisitos para a ascensão ao status de minoria.
Enquanto isso, os antepassados infames (trapeiros, garrafeiros, carroceiros e catadores de rua), estes inglórios personagens, são travestidos em “heróis de resistência”: os degenerados de outrora passaram a ser segmentados agentes do combate à degradação do planeta.
Lideranças nacionais dos catadores são lançadas e um projeto de poder começa a se configurar.
Eles frequentam as reuniões ministeriais, agitam articulações governamentais, participam de agendas internacionais.
Os catadores de materiais recicláveis no Brasil, enfim, exportam suas tecnologias sociais da miséria para países do eixo “sul-sul” amparados por associações de indústrias multinacionais “sem fins lucrativos”.
Alguns poucos catadores “esclarecidos”, em parceria com multinacionais e ONGs transnacionais, iniciam a expedição para divulgar uma tecnologia que transforma projetos sociais em saídas socialmente justas, economicamente viáveis e ambientalmente sustentáveis (leia-se: soluções de baixo custo e ótimos resultados para a produção e o capital).
Enquanto isso, aqueles que não se deixam levar pelos protecionismos ancorados nas práticas de inclusão social tornam-se o resto destes trabalhadores do lixo.
A nova identidade do profissional, “catador de materiais recicláveis”, não aceita o bêbado, o craqueiro, o morador de rua, o desagregador, aquele não passível de ser agrupado ao trabalho e discurso da economia coletiva, solidária e cooperativa.
Mas não deixa de comprar-lhes materiais coletados capitalizáveis. Produz-se uma nova estratificação entre miseráveis: os que passam a ser organizados e incluídos e o resto que, a seu modo, “cata lixo” para seus superiores. Também um segmento do lumpen ascende ao status de classe média!
Tudo aquilo não passível de valorização ou valoração, o resto, deve ser ajustado para um lugar.
O resto grita a frenética necessidade de utilidade das coisas para comer, beber, dormir, perambular, consumir drogas podres na cidade, e desvela sua suposta fragilidade que, por n razões, os dispõe ao discurso sociológico como ainda não incluídos, apesar de imprescindíveis ao novo ramo da economia e aos seus superiores miseráveis já organizados como empreendedores.
O infame é tido como o frágil, o vulnerável, o resto, o perigo, o que deve deixar de existir ou ser governado pelo assistencialismo e os negócios sociais. Para isso, novas e velhas tecnologias de governo competem e atuam para produzir não só lixeiras, bolsões, ressignificações e repaginações pacificadas para o segmento resto alçado à visibilidade social, mas também para o resto do resto.
E assim o segmento lumpen, mais ou menos absorvido e oscilante na capitalização, ficará cada vez mais exposto aos programas de saúde e higiene das cidades, como bem desejam Estado, governos, empresários e organizações de catadores de lixo.
Na aplicação e combinação de teorias e tecnologias, visa-se tornar sustentável o insuportável e produzir doces, sutis e sofisticadas pacificações. Uma outra forma darepaginada política do extermínio se consagra!
A vida vaza, se estende, produz excessos. Não há como pacificar a existência. E o que se busca ignorar, controlar, capturar, pode, num revés, saltar para fora e surpreender os que se arvoraram a governar inclusive o que restar do resto.
Não existe vida pura!

terça-feira, 28 de outubro de 2014

flecheira.libertária.360

alterar
Paparicado por militantes alternativos da América do Sul, pouco a pouco, José Mujica escancara sua efetiva política relacionada às substâncias chamadas drogas. As vésperas das eleições no Uruguai, o guru dos maconheiros organizados ainda não implantou a legalização da cannabis. A justificativa para a demora de mais de um ano, segundo representantes do governo, é a falta de instituições para a regulamentação da produção e a dificuldade da emissão de licenças pelo Estado aos produtores da erva. Se o vencedor do próximo pleito não for o sucessor de Mujica, a política de drogas uruguaia, considerada “progressista” por muitos, corre o risco de ser engavetada. Como explicitam as próprias autoridades, o maior obstáculo para a legalização da ganja é o Estado. Libertários já sinalizavam: o uso de qualquer substância é uma questão ética, algo pessoal e intransferível. Quem gosta de estado alterado não confia no Estado. E ponto!
para ecoar um enorme não 
Na próxima semana, junto às eleições presidenciais, os uruguaios votarão em plebiscito a redução da maioridade penal no país. Segundo dados de sondagem, 44% dos entrevistados são favoráveis à redução, 43% contrários e 13% indecisos. Na última quinta-feira, estudantes e professores realizaram greve e manifestações. O ato foi chamado pelo coletivo democrata no a la baja composto por diversos “grupos heterogêneos”. Assim, no Uruguai, como por aqui, a grande questão das campanhas eleitorais é a segurança. Os apavoradinhos, daqui e de lá, emitem nas urnas sua estúpida crença em um reino de paz ou na miserável promessa de assegurar suas propriedades e bens. No limite, esse conto de fadas que povoa tanto a direita quanto a esquerda desperta desejos de extermínio e produz práticas fascistas cotidianas. Diante disso, que é mais que burrice e mais que covardia, é salutar ecoar um enorme NÃO! 
nós nos importamos
As mais de 200 meninas sequestradas pelo Boko Haram em abril continuam desaparecidas. Sem mais “esforços” diplomáticos, na última sexta-feira, o governo da Nigéria anunciou cessar-fogo em negociação pela libertação das meninas. De sexta a domingo, ocorreram diversos ataques à população civil, contabilizando dezenas de mortos. As autoridades nigerianas acusaram o Boko Haram de não cumprir o cessar-fogo e retomaram a caçada pelos representantes deste grupo. Em meio as infindáveis negociações, arranjos diplomático-militares entre estados e terroristas que aspiram ao Estado, as meninas seguem desaparecidas.
armas não matam a fome
A coalizão liderada pelos EUA lançou um pacote de armamentos do ar para “ajudar” os rebeldes curdos na Síria. As armas caíram nas mãos dos interagentes do Estado Islâmico que, ironicamente, agradeceram ao Tio Sam por vídeo na internet. Armas são feitas para matar, estejam elas nas mãos de quem estiver. Os Estados, ou grupos terroristas que lutam para constituir um Estado, sempre se impõem pelas armas e se perpetuam por uma combinação de violência e consentimento. Ninguém come armas e não se produz libertação ou liberação por meio da violência. Armas alimentam mercados por meio de suas demandas de mortes, chacinas, extermínios e genocídio. Armas, o Estado ou a vontade de se tornar Estado, servem para matar.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

hypomnemata 170

Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no. 170, setembro de 2014.

anarquistas não votam...

Os anarquistas não são refratários à democracia e a tomam, desde Proudhon, como regime da série liberdade.
Se houver um regime político, que seja o democrático. Somente porque em seu interior se podem potencializar os espaços, as experimentações de liberdade e a possibilidade imediata de rompimentos com hierarquias, centralidades, propriedade e Estado. Mas sem esquecer que a democracia reforça o governo de todos por cada um, enquanto a anarquia instaura o governo de cada um por cada um.
A recusa ao pleito e à participação em eleições não é um a priori moral ou um princípio derivado de suposta identidade.
Um de seus começos está na reflexão de Proudhon sobre o seu exercício como o deputado mais votado da história da França.
Em seu mandato, “trabalhou como um louco” em favor da justiça social, e mesmo assim nunca se viu tão distante das questões que atingiam diretamente os que o haviam aclamado como representante político.
No Brasil, após o saque ao Moinho Santista, em 11 de julho de 1917, os trabalhadores sugeriram ao jornalista e militante libertário Edgard Leuenroth, preso sob a acusação de ser o “mentor intelectual do saque”, que lançasse sua candidatura a deputado.
Segundo as leis vigentes, a candidatura facilitaria sua libertação.
Porém, Leuenroth recusou-se e lançou um libelo expondo sua decisão, intitulado “por que os anarquistas não aceitam a ação político-eleitoral”, publicado no jornal O Combate, em fevereiro de 1918 (e republicado em verve n. 2/2002 http://www.nu-sol.org/verve/pdf/verve2.pdf).
Neste texto, discorre sobre a inutilidade da ação político-eleitoral e seu caráter contraproducente em face às lutas que haviam se desenrolado com a grande greve de 1917.
Lembra sua atitude anarquista, evocando a coerência em sua recusa, mas indica também a formação das “capelinhas políticas” que toda ação eleitoral engendra, reforçando entre os trabalhadores a “mentalidade messiânica imperante”.
Conclui sublinhando que o parlamento é um “ambiente politicamente burguês e dominado pelos interesses capitalistas”, corrompendo mesmo quem, por ventura, nele adentra munido de boas intenções; é, portanto, um lugar “incompetente para decidir sobre quaisquer assuntos da vida social” e impotente para fazer valer o que nele se decida.
Por fim, e não menos importante, afirma que a ação parlamentar freia as possibilidades de ação direta — que não se confunde com cogestão e gestão compartilhada —, a única via pela qual, historicamente, conquistou-se um tanto mais de liberdade de ação, mesmo dentro do capitalismo, como a jornada de oito horas, arrancada na marra dos que se locupletavam com a exploração do trabalho alheio, roubando não apenas os frutos de seus esforços, mas também suas horas de vida livre.
            Os libertários se recusam a participar nas eleições e as combatem por meio de uma decisão refletida, baseada na experiência e de forma ativa em favor das lutas pela liberdade que não se fazem com mediações, negociações e representações.

quase um século depois
            O pleito majoritário de 2014, no Brasil, realizou-se pouco mais de um ano após as manifestações de rua que tomaram quase todas as capitais do país.
As jornadas de junho de 2103 foram evocadas, por vezes de maneira um tanto envergonhada, como elemento diferencial dessa edição da chamada “festa da democracia”, e apareceram ora como ponto de referência, ora como ponto de contraste.
            A corriqueira variedade de produtos destinada aos cidadãos-consumidores, em exposição nas eleições, assemelha-se à enfileirada disparidade presente em prateleiras de supermercados ou em lojas de carros. São produtos com plataformas semelhantes e funções análogas: atraem por meio de adereços insignificantes e pleiteiam um estatuto de diferença.
            As candidaturas pretendiam mostrar suas capacidades de “representar” a difusa insatisfação exposta nas ruas em junho de 2013, intitulando-se capazes de prover uma “nova política”, com “mais mudança” ou como “mudança de verdade”, segundo a ocasião.
            Entretanto, temperada de forma insossa com palhaços, velhinhos simpáticos e minorias raivosas (ávidas pelo estatuto jurídico de maioria reconhecida), acabou com uns e outros de mãos dadas ou abraçados com uma vassoura no rastapé da festa democrática, na qual prevaleceu a defesa da segurança.
            Não há verdades ocultas a serem reveladas: as mídias divulgaram amplamente os financiamentos comuns de aguerridos adversários, e todos, na corrida eleitoral, abriram cadernetas de dívidas com banqueiros, latifundiários, empresários de segurança privada, seguradoras, empreiteiros e usineiros.
            Os resultados, entregues em tempo recorde pelo questionável voto eletrônico (maior orgulho internacional do sistema eleitoral brasileiro), expuseram desilusões, corações traídos e partidos.
O festival de pastores, delegados, policiais, jogadores de futebol, celebridades (seja lá o que essa palavra designe), encerrou-se com a choradeira de minorias postulantes à condição majoritária, que cada vez mais se arvoram em depositários da reserva moral do país, seja pela esquerda messiânica made in brazil, seja pela direita pentecostal desavergonhadamente fascista.
            Há de se destacar no “processo” o upgrade do sistema eletrônico, acrescido de identificação biométrica, testado nas menores, mais pobres ou exemplares cidades da federação para sondagens de marketing.
Todas as incongruências e dificuldades acabaram tratadas como costumeiras “dificuldades normais de adaptação”.
O eleitor, obrigado por lei a fazer o papel de cidadão-consciente, consumidor, protagonista ou simplesmente otário, teve que “brigar” com a máquina para provar que suas digitais eramdele mesmo, chegando, em alguns casos, a ser impedido de exercer o seu obrigatório dever de cidadão. Mesmo com tamanha parafernália para garantir a lisura do processo de votação, ainda registra-se uma série de ocorrências nas quais eleitores descobrem que alguém já votou em seu nome.
Até os vivos que não puderam ou se recusaram a comparecer às urnas tiveram, ou terão, que confessar e provar sua falta, na forma de justificativa ou por meio de processo de regularização formal mediante pagamento de taxa.
A obrigatoriedade do voto segue intocada, mesmo com pontuais contestações orientadas por argumentos diversos, à forma pela qual o Estado encaminha ao confessionário político cada um de seus cidadãos.
            Mesmo em um regime democrático, a obrigatoriedade do voto atesta a prisão territorial a que é submetido cada um de seus detentos-cidadãos, com direito a controle biométrico, controle de circulação, controle empregatício, lei seca e o que mais aprouver ao detentor.
Quem não vota não tira passaporte, não abre conta em banco, não faz concurso público nem para professor. A obrigatoriedade do voto faz parte da prisão de todos no território nacional.
William Godwin já afirmava no século XVIII que a “coerção não é um argumento, ela inclui a confissão tácita da imbecilidade”.
E no carcomido itinerário da confissão, da política, da justiça e do direito universal, que jamais se aparta do duplo direito-dever, a obrigatoriedade trafega de punição em punição; de perdão em perdão.
É preciso, mais uma vez, não esquecer que a um perdão presente sempre resta uma dívida futura.
Eis aqui mais uma face do direito na lógica política do endividamento infinito que, também, compõe a covarde cultura do castigo.
            Outro “dado do processo” veio da imprecisão das sondagens opinativas, até mesmo a de boca de urna, que sacramentava o “sucesso” dos que pleitearam a reeleição, usando a propriedade dos estamentos burocráticos e conseguindo fazer valer seu domínio para não “largar o osso” das suas fontes aparelhadas e dos modos de embolsar.
            Na corrida ao posto de mandatário maior da nação, repetiu-se a encenação, já envelhecida dos modernosos, progressistas e ativistas das redes sociais.
De início, surpreendidos por uma candidatura imprevista em ascensão meteórica, despertou-se a fúria da “companheirada”, majoritariamente entregue ao ativismo digital, que se lançou ao serviço de “desconstrução” de adversária surpresa.
Alçada ao posto de inimiga apocalíptica e com os devidos ajustes na maior máquina partidária do país, pretendeu-se deslocar a disputa conhecida para a devida “polarização”, como desejam os politólogos brasileiros made in usa.
O resultado saiu pela culatra!
            Como ocorreu na Espanha, após os “indignados”, e na Grécia, após as revoltas de rua de dezembro de 2008, nada na corrida eleitoral refletiu a insatisfação das ruas.
E veio a segunda surpresa, com a migração de votos da inimiga apocalíptica para o candidato formal de oposição.
Não houve, enfim, desconexão ou crise da representação, como querem os liberais ou marxistas recém convertidos à nova política, simplesmente porque são campos de lutas distintos.
            Repete-se o circo, o teatro profissional ou amador que, com seus protagonistas e antagonistas, renova a cada pleito a propriedade da máquina do Estado nas mãos dos mesmos donos, gerenciado por novos e velhos encarniçados burocratas, serviçais provenientes das classes trabalhadoras ou das classes médias intelectualizadas e progressistas, que habilmente sabem deixar intocadas e entocadas questões realmente pertinentes à vida e à liberdade de cada um.
            Não cabe aos representantes ou aos seus serviçais burocratas — apresentando-se com figurinos conservadores, progressistas, de esquerdas ou de direitas —, a transformação da vida.
A decisão de não mais servir é uma atitude que diz respeito a cada um.
Isso não cabe nas urnas, sejam de papelão, lona ou eletrônicas.

além e aquém da direita e da esquerda
            Em sua enciclopédia anarquista, Sébastien Faure definiu o anarquista como aquele que luta contra a autoridade que pretende dirigir a vida, seja ela qual for ou em qualquer forma que ela se apresente.
            Os libertários não cabem nos bancos de dados políticos que buscam separar, dividir e hierarquizar as diversas identidades e sujeitos projetados e representados nas disputas político-eleitorais. São incomuns.
            Anarquistas não são esquerda, direita ou centro no Estado; não são progressistas, conservadores ou reacionários; os anarquistas dispensam palavras de ordem. São raros.
Estão aquém e além da direita e da esquerda.
Anarquistas são libertários!
            Por que os anarquistas não votam?
            Suas lutas buscam a invenção de outros espaços, experimentações de liberdade e produção de uma vida inclassificável.
            Libertários são antipolíticos, prezam a ação direta e atiçam transformações pela revolta.

domingo, 28 de setembro de 2014

Doutorado Informal, criar sem depender da Academia

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Como desenvolver um projeto de aprendizado autônomo e consistente, estabelecendo redes de diálogo e colaboração com quem acredita em conhecimento além dos certificados
Por Alex Bretas Vasconcelos | Imagem: Kiddaikiddee
Kathryn começou a ter coceira nas ideias. Mais especificamente, ela alimentava uma curiosidade cada dia maior em relação a carros esportivos: na verdade, ela queria comprar um Fiero antigo e restaurá-lo das rodas ao teto, um trabalho que pelas contas de Kathryn demoraria uns quatro anos. Argumentos pensados, convenceu os pais a deixarem-na comprar o carro com um dinheiro que ela mesma havia economizado.
Ao longo dos trabalhos de restauração, Kathryn sentiu-se inspirada pelo seu pai, que sempre a acompanhava, e por mensagens que trocava num fórum que reunia entusiastas do Fiero na internet. Dia após dia, ela construía, sujava as mãos, e depois as limpava para ler coisas sobre funilaria, pintura, sistemas elétricos e mecânicos. Como não poderia deixar de ser, conciliava a reforma do automóvel com várias outras atividades, como frequentar a escola, jogar bola e trabalhar como babá.
Depois de algum tempo, os amigos que Kathryn fez no fórum deixaram de somente postar elogios admirados e mensagens de motivação e passaram a perguntá-la seriamente sobre assuntos relacionados à restauração do Fiero. Ela começou a ser reconhecida pelo que aprendia, e isso devido a um projeto autônomo que partiu de um desejo corajoso.
Assim como Kathryn, que ousou colocar no mundo a sua curiosidade mais genuína, eu também o fiz. E estou arriscando chamar isso de doutorado informal. Toda essa história começou com o André Gravatá, que passou a utilizar o termo para nomear o projeto de aprendizagem autônomo que criara para si. O doutorado, aquele nível que certifica as pessoas que já podem inovar no mundo acadêmico, quando informal, aponta numa outra direção: todos já carregam consigo a sabedoria e a criatividade necessárias para inovar, e podem fazer isso sem depender da universidade.
Simples, só não é fácil. Yaacov Hetch – educador israelense e estudioso da educação democrática – diz que muita gente acha que a vida das crianças que estudam nas escolas democráticas não requer muito esforço. Elas não têm que se submeter a aulas e disciplinas, mas  precisam sustentar-se num caminho autônomo de aprendizagem, escolhendo o que e como aprender, em interação com o mundo. Yaacov afirma exatamente o oposto do que tantas pessoas acreditam: buscar uma área de interesse, agir e refletir de forma auto coordenada demanda uma enorme reserva de força interior. E é exatamente assim com o doutorando informal: para seguir na espiral de aprendizagem que mais lhe encanta, é preciso empreender-se continuamente.
Olhando para o meu processo, a partir do momento em que tomei a decisão de seguir pelo doutorado informal, mundos se abriram. Criei o Educação Fora da Caixa, um projeto de investigação cujo objetivo é irradiar aprendizagens a respeito de experiências, histórias e autores relacionados à educação de adultos. Duas palavras têm sido guias nessa jornada: curiosidade e autonomia. Assim, a opção de conduzir a pesquisa como um doutorado informal ficou bastante coerente. Compreender um pouco mais esse formato é uma das coisas que quero fazer no livro que será a principal entrega do projeto. À medida que interajo com pessoas que se interessam pela proposta, o doutorado informal vai ganhando alguns contornos.
Até o momento, entendo-o de dois jeitos. O primeiro é o doutorado informal como prática ou abordagem, e o segundo é o seu valor como metáfora. O lado prático tem a ver com como as pessoas que têm começado seus doutorados informais estão fazendo isso. Já estou começando a mapear essas práticas, e muitas possibilidades interessantes têm surgido – mentorias, grupos de diálogo, comunidades de prática, jornadas de aprendizagem, viagens, canais e redes de compartilhamento na internet, imersões, enfim, meios para materializar a intenção de aprender (e vivenciar) algo.As metodologias comumente utilizadas no meio acadêmico também podem servir ao doutorado informal, a questão é não se restringir a elas. Não colocar o método científico nem os resultados da ciência acima de qualquer outro domínio do conhecimento humano é justamente no que Paul Feyerabend, filósofo austríaco, acreditava. O meu entendimento é que o  doutorado informal segue nesse mesmo sentido: os caminhos são múltiplos, assim como as verdades.
O doutorado informal também pode ser visto como uma metáfora. Doutor, no Brasil, até bem pouco tempo eram os engenheiros, médicos e advogados. Em muitos lugares ainda se diz e se acredita nisso, quem “pode” é tratado como doutor. Tião Rocha, educador mineiro, conta que no Vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais, empoderamento virou “empodimento”. “Ah, então quer dizer que nóis pode?” O doutorado informal surge também para promover empodimentos de aprendizagem: todos podem fazer um doutorado, mas não precisa ser aquele, da universidade, pode ser um que aproveite da sua curiosidade mais viva e emerja da sua realidade, e então, subitamente, aquilo vai fazer sentido pra você. Aqui, vale destacar que o doutorado informal não pretende imitar (nem rivalizar com) o doutorado acadêmico; antes, trata-se de um outro universo que sabe conviver com o mundo das instituições.
Neste novo território que se apresenta, cada um escolhe como vai trilhar seu caminho e como vai entregar os frutos do seu trabalho ao mundo. Pode ser livro, dança, tecnologia, política pública, exposição, metodologia e até mesmo tese.
Mas, quem vai atestar que o resultado obtido pelo meu doutorado informal é bom, ou mesmo válido? Quem vai poder me certificar como especialista no assunto que escolhi?
Augusto de Franco diz que a árvore vai sendo reconhecida pelos seus frutos, e não por um certificado emitido pela corporação dos botânicos. Cada vez mais, o que está em jogo numa contratação, por exemplo, não são os diplomas que uma pessoa possui, e sim a qualidade de seus frutos. Se eu provo e gosto, a árvore é boa e seus frutos são válidos.
Não questiono as razões que levaram ao surgimento das instituições que certificam o ensinamento, mas o que temos vivido hoje aponta para um resgate da nossa liberdade e responsabilidade para valorar produções e pessoas por nós mesmos.
O doutorado informal tem sido cocriado a diversas mãos e a ideia é que continue sendo assim. No dia 4 de agosto, realizamos o primeiro encontro em São Paulo, e a intenção é fazermos mais conversas. Tenho trabalhado no formato dos Círculos de Doutorandos Informais (CDIs), espaços de colaboração que promovem trocas e apoio mútuo para pessoas que já começaram um doutorado informal ou têm uma ideia, questão ou desejo que gostariam de destrinchar de forma autônoma. Também criamos um grupo aberto no Facebook, disponível neste link.
Enquanto nós desenvolvemos, por meio do par reflexão-ação, a ideia do doutorado informal, pessoas como Kathryn já captaram a essência desse caminho mais livre de aprendizagem. Recentemente, ela conseguiu seu primeiro emprego formal e começou a fazer faculdade, mas continua trabalhando firme no seu Fiero. Alguém duvida que ela vai conseguir chegar lá? Eu acredito que ela já chegou. Que tal aprendermos com ela a coçar nossas ideias com vontade, como dizia Rubem Alves?
Para entrar em contato, meu e-mail é alexbretas11@gmail.com . Se você tiver qualquer percepção ou comentário sobre o texto e o doutorado informal, por favor, compartilhe comigo!

De Menor: o avesso da justiça

Preciso e minimalista, longa exibe pulso firme da diretora ao expor falência da justiça, referida apenas à letra fria da lei
Por Jean-Claude Bernardet, em seu blog 
Vi na televisão uma entrevista com a juíza que assinou o alvará de soltura de Cadu, assassino confesso do cartunista Glauco e seu filho. Em liberdade, ele teria voltado a matar. A juíza disse que agiu de conformidade com a lei baseando-se em dois laudos que justificavam sua decisão. Tive a impressão que a juíza não tinha contato com a realidade mas só com a papelada.
É o que o filme de Caru Alves expressa com precisão. A narrativa trabalha duas séries: de um lado audiências em um juizado de menores em que são acusados adolescentes pobres. Eles são defendidos por uma advogada que assume a defensoria pública. A outra série é composta pelas relações dessa mesma advogada com um rapaz que acabamos descobrindo ser seu irmão. O contraponto entre as audiências (que lembram cenas de Juízo de Maria Augusta Ramos) e a intimidade dos irmãos salienta que a justiça não tem acesso às pessoas e se pauta pelo texto da lei e pelo que está escrito nos autos.
O escândalo irrompe quando a “delinquência”, “compreensível” e “normal” quando se manifesta em meios pobres e famílias estouradas, surge na classe média onde não faltam comida nem teto.
A narrativa é contida. Ela reduz personagens e temática ao essencial. Nenhuma palavra a mais do que o estritamente necessário. Esse minimalismo é harmonioso: construção da narrativa, diálogos, interpretação dos atores.
O minimalismo e a narrativa despojada não são do agrado do público maior. Fui a uma sessão no fim da tarde de domingo, éramos uns quinze.
De Menor marca a estreia de uma diretora de pulso firme.

Do direito a tornar-se adulto com dignidade

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Ideologia dominante convida: após a juventude, aceitemos o capitalismo como inevitável. Para resistir, é preciso compreender que o possível não se resume ao real
Por Nuno Ramos de Almeida | Imagem: Adrien Dewisme, Vanité 2/3
Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós”
Natália Correia
Há um texto do escritor uruguaio Eduardo Galeano em que ele confessa a humilhação que sofre no barbeiro por lhe cobrarem apenas meio corte. Não acreditando no ditado de que é dos carecas que elas gostam mais, Galeano deixa cair uma frase que lhe alivia um certo sentimento de inferiorização diária: “Se o cabelo fosse importante, estaria dentro da cabeça e não fora”, e logo acrescenta convictamente: “Consolo-me comprovando que em todos esses anos caíram muitos de meus cabelos mas nenhuma das minhas ideias, o que é uma alegria quando penso em todos esses arrependidos que andam por aí.”
Há uma raça de pessoas que normalmente cita, como atestado de bom comportamento, a famosa frase de recorte autobiográfico atribuída ao ex-chanceler alemão Willy Brandt de que “quem aos vinte anos não é comunista não tem coração e quem assim permanece aos quarenta não tem inteligência”.
No fundo cresceríamos com a idade. O processo de um tipo se tornar adulto passaria por uma juventude em que começamos por não aceitar o mundo tal qual existe com todas as suas gritantes injustiças, e sobretudo acharíamos que temos forças para tudo mudar. A esse estado suceder-se-ia o choque da realidade, o bom senso e o crédito à habitação e as prestações dos eletrodomésticos, de tal maneira que aos 40 saberíamos que temos de aceitar “as coisas” e tentar viver da forma mais confortável no melhor dos mundos possíveis.
Exemplo radical deste tipo de conversão à realidade existente é, e Portugal, o de uma cáfila de maoístas como Durão Barroso, que passaram de gritar loas à revolução e a um grande líder qualquer a gritar vivas ao mercado e a servi-lo pelo maior ordenado possível, dizendo para isso o disparate mais gigantesco para provar a conversão.
Neste processo de chegada à idade adulta não faríamos mais que aceitar as nossas inevitáveis limitações e preparar-nos para viver a realidade. A ideologia dominante não faria mais que assegurar que este capitalismo e este mundo estariam aqui para sempre. E, como a cultura popular e os maus filmes de ficção científica demonstram, é mais fácil imaginar uma grande catástrofe que destruísse o planeta, ou mesmo uma invasão de extraterrestres, que a simples mudança de um regime e modo de produção injusto, que desperdiça recursos e destrói o planeta. O capitalismo será, segundo este pensamento que pretendem coagir-nos a aceitar, a realidade que sobreviveria ao fim mesmo de toda a realidade: as máquinas automáticas venderiam Coca-Cola mesmo que os seres humanos desaparecessem para as consumir.
Neste horizonte inultrapassável estaríamos sempre condenados a escolher entre políticos tão excitantes e diferentes como António José Seguro, António Costa e Passos Coelho.
O nosso principal problema está nessa mesma aceitação da realidade como elemento estruturante do possível. Se consideramos que viveremos sempre num regime de banqueiros, em que os lucros têm eles e os prejuízos pagamos nós; se achamos inevitável ficarmos com uma democracia em que, independentemente do nosso voto, os políticos fazem o que lhes apetece; se transigimos com a continuação de um regime de corrupção “normal”, em que o contribuinte paga os contratos ruinosos que os políticos assinam com grupos com quem vão depois trabalhar; então temos a realidade que merecemos e vamos deixá-la em herança aos nossos netos.
A existência de situações de injustiça não decorre de sermos adultos, mas de sermos parvos.

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atiçando a memória
No Chile, em 11 de setembro de 1973, militares apoiados por civis e agentes estadunidenses promoveram um golpe, garantido na bala, e que transformou também um estádio de futebol em campo de concentração. Nove anos antes, a ditadura civil-militar brasileira foi pioneira nesta tecnologia, usando o estádio Caio Martins, em Niterói, para encarcerar quase duas mil pessoas. Hoje, as reminiscências do governo civil-militar em tempos de governança democrática fazem com que a resistência ao golpe seja atualizada nas ruas, com manifestações e bombazos. Mas a memória do golpe chileno não anima apenas as forças resistentes; muitos aproveitam a data para recordarem, saudosos, um tempo ordeiro para eles. Competem para serem agraciados com a honraria que leva o nome do “augusto ditador”, oferecida pelo Ministério da Defesa chileno.
a produção do terror
Em meio aos embates em torno da memória do golpe, uma bomba explodiu no metrô da Escuela da Armada, no dia 8 de setembro, ferindo mais de uma dezena de pessoas. Prontamente, o governo chileno da Concertación declarou que a bomba era “obra da direita”. Um cientista político cravou na mídia internacional que os responsáveis eram anarquistas. Das 29 explosões no país neste ano, algumas foram reivindicadas por militantes libertários e não produziram feridos. A utilização dessas notícias pelo governo objetiva a revisão das leis sobre terrorismo e o recrudescimento da repressão. Além disso, o governo mobilizou mais de 1600 policiais para obstruir as históricas manifestações de rua no dia 11 de setembro. Relacionar anarquistas a terroristas é a velha estratégia de Estado, sob qualquer regime, para garantir a continuidade do exercício de seu terror. o financiamento e as organizações de ditadura
Nos últimos dias, a Comissão Nacional da Verdade divulgou documentos que registram a delação, por parte de grandes empresas, de funcionários envolvidos com o movimento sindical, entre 1964 e 1985. São elas: Embraer,Petrobrás, Ford, General Motors, Brastemp, Toshiba, Kodak, Johnson, Volkswagen, Philips e muitas outras. Além de fornecer dados pessoais dos trabalhadores, as empresas contratavam funcionários com o intuito de identificar possíveis opositores. A divulgação destes documentos atesta o óbvio que se tentou escamotear ao longo de décadas: no Brasil, assim como em outros países da América do Sul, a ditadura foi civil-militar. Explicita-se assim que as empresas não colaboraram com a ditadura apenas com financiamentos, mas também como forças repressoras organizadas. 
machos por caralho f.c. 
Na última semana, um jogador da seleção brasileira foi cortado pela comissão técnica sob a alegação de “indisciplina”. Sob o efeito do corte, identificado por polêmicas espalhadas em redes sociais como o resultado de suposto flagra do relacionamento sexual entre jogadores na concentração e dos desdobramentos da punição por racismo ao Grêmio, o Corinthians divulgou manifestação “anti-homofóbica”. Convocou os “fiéis” a calar os gritos de “bicha” dirigidos aos adversários, temeroso de punição pelo Tribunal Esportivo. A sua torcida organizada há um ano julgou publicamente um jogador que postou fotos distribuindo beijos na boca entre amigos e entrou com ação judicial contra a existência das “gaivotas fiéis”, torcida gay do mesmo club. Sustentado pelo discurso da tolerância, a política dos machos f.c. segue adiante, condenando, com apoio do “bom senso”, o prazer entre os jogadores, confinando os corpos às concentrações e fazendo do triunfante futebol uma miséria maior do que o 7x1 ao som de hino, lágrimas e odores familiares.

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kaapor
No Maranhão, desde agosto, índios Kaapor travam um combate direto com os madeireiros. Após serem comunicados de que o IBAMA e a FUNAI, mesmo com determinação da justiça promulgada em 2008, não se responsabilizavam pela fiscalização da extração da madeira na região, os Kaapor afirmaram: "estamos emguerra porque ninguém quer nos ajudar". O combate dos Kaapor escancara que a omissão do Estado nada mais é do que o apoio explícito aos avanços dos proprietários na floresta. Não existe omissão do Estado, quando muito um silêncio estratégico. Diante desta situação, o arco dos Kaapor defende não somente a própria terra. O arco teso dos índios mira a aliança escusa, banhada com sangue, do Estado e proprietários. 
contra a dissimulação 
Os proprietários avançam sobre a terra dos índios com apoios variados. Durante a última semana, um jornal de circulação nacional estampou uma manchete declarando que os índios haviam criado um "exército" para atacar os madeireiros. É sabida a mediocridade e o oportunismo de certas mídias. A força dos Kaapor é oposta àquela que visa constituir um exército. Quem possui exército, demarca os territórios, ataca os Kaapor e usa a violência, é o Estado. Quem dissimula diante disso é conivente com o extermínio. 
contra a polícia 
O assassinato do jovem negro em Ferguson explicitou o racismo incrustado na sociedade estadunidense. Se de um lado vários protestos espalhados pelo país reivindicaram “outra polícia”, mais próxima de lideranças comunitárias, de outro lado os anarquistas colocaram em xeque a sobrevivência da polícia e sua articulação indissociável com a violência. Na última semana, em Phoenix, após o assassinato de uma jovem por um oficial de farda, centenas de pessoas, entre elas militantes de grupos libertários, saíram às ruas no que foi chamado de protesto “antipolícia”. Este protesto escrachou viaturas, interrompeu a transmissão de um telejornal e recusou a participação de lideranças políticas. A manifestação “antipolícia” destoou do coro reformista e chamou a atenção para o racismo e a violência como propriedades do Estado.
cultura do castigo
De acordo com a UNICEF, o Brasil é o 6º país do mundo em número de homicídios de crianças e “adolescentes”até os 19 anos. Seus dados mostram que uma em cada 10 meninas em todo o planeta já sofreu algum tipo de “ato sexual forçado”; que 6 em cada 10 crianças são agredidas regularmente por seus pais, sendo que um terço destes acredita que o castigo físico é necessário para educar seus filhos. Independente de dados econômicos e estatísticos, a violência que atinge prioritariamente crianças e jovens é intrínseca à sociabilidade autoritária que começa dentro de casa. Nesse sentido, ao relatar as causas para a violência, a UNICEF e outras organizações de direitos humanos, em nome do chamado desenvolvimento humano, fazem funcionar a permanência de sua existência a partir de uma série de conceitos, indicadores e medidas que justificam ad infinitum a cultura do castigo. 
sondagens eleitorais 
Sondagens eleitorais da semana mostram como o eleitor — cidadão adulto que é obrigado a votar, ou jovem e idoso a quem o voto é facultativo —, reitera a moderação e o conservadorismo das condutas. A novidade é que esse eleitorado prefere o voto facultativo. Deve pensar: curtir o feriado é melhor. Entediado da política dos partidos e dos políticos, ele deseja que alguém zele pelos seus bens, sua segurança, sua vidinha. Para ele, involuntariamente, a política partidária, de variados matrizes ideológicos, é mesmice. Ao seu modo constata haver uma programação governamental inabalada, retóricas, novidades efêmeras, e, por fim, desiste. Fica à espera de qualquer condutor. Os pequenos fascismos do cotidiano se alimentam disso; o fascismo como governo do Estado começa assim.

domingo, 21 de setembro de 2014

A VIDA A GENTE INVENTA, A HISTÓRIA A GENTE CONTA, O MUNDO A GENTE TRAÇA

Este é um escrito que reapresento, depois de passados uns não sei quantos anos, numa homenagem à Jura -uma das velhas da minha vida-, quando da sua chegada aos 87 anos, neste 19 do setembro do 2014... taí o escrito, tal e qual veio ao mundo, sem edições...


            Quero fazer uma homenagem, neste escrito, a uma idosa que, mesmo com ares de guria, completa, por esses dias, seus setenta e poucos anos, e, por extensão, relembrar uma data comemorativa com relação ao idoso, que ocorre também por esses dias ... Juracema Fontoura, essa guria de setenta e poucos anos -viúva de um velho comunista que já encilhou seu pingo e foi campear em outras veredas de nosso imaginário, mas deixou na parede de sua casa a foice e o martelo, símbolos de suas crenças e de seus ideais-, chamo-a por borboleta porque, junto com sua irmã -outra borboleta de setenta e poucos anos-, dá suas revoadas tranqüilas e breves, e retorna ao ponto de onde saiu ... fazem isso com freqüência, tanta que sua bisneta, com suas asinhas em aprendizagem já é a borboletinha ... mal sai do casulo e já dá muito trabalho.
            Uma sua filha perguntava-me: teremos os mesmos desígnios quando chegarmos a tal idade? E isso me fez lembrar que, quando criança, sonhava com os tempos da adolescência que logo chegariam; e seguindo o que é próprio da condição humana, de nunca alcançar a completude e o que efetivamente se quer, quando adolescente, almejava, sedenta, a idade adulta, pensando que poderia nunca perder as coisas que a infância me permitia ver e fazer; chegada à condição de adulta, vi que teria muito por amadurecer, e agora, quanto mais cresço subjetivamente, mais almejo ficar velha, sonhando que então, com toda a experiência da caminhada da vida, possa viver e agir com mais maturidade!
            Sempre mantive relações de amizade com pessoas mais velhas do que eu, principalmente pela precocidade granjeada no convívio no moinho e no balcão do bolicho do meu pai ... tenho uma amiga que vai mais de duas décadas à minha frente, e às vezes, quando ela tece censuras ou considerações pertinentes à algumas experimentações por mim feitas, tenho que lembrar-lhe que quando eu nasci ela já estava domando boi a unha!
Relembro com carinho os velhos que habitaram a minha infância e que viverão para sempre em meu imaginário ... o seu Pedro Rosa, que me benzia contra cobreiro, anemia, tristeza e quebranto ... o compadre Mário, preto velho que picava o fumo em corda para fazer o seu palheiro, enquanto contava histórias de forma tão convincente que acreditei por muito tempo na veracidade das lendas que ele reinventava para me entreter; fui visitá-lo quando já chegava ao fim da vida, estava cego, bastou a minha presença para saber que eu tinha chegado; eu dava-lhe um pedaço de fumo sempre que ia ao bolicho, pois lhe associava à figura do saci pererê ... o compadre Homero, que visitei há pouco tempo e me recebeu com um literal quebra-costelas, contava-me histórias de lobisomem de forma que ainda hoje acredito que possam existir, e ensinou-me o apreço pelos bancos de madeira -aqueles de três pés-, assim como moer a cana para tomar a garapa e fazer melado ... a comadre Maria, que me contava os segredos das plantas e me ensinou a esperar amadurecer aquele casulinho que guarda as sementes do beijo para então estourá-los, e me disse, também, que um pé de butiá (uma das minhas frutas preferidas) demoraria sete anos para dar frutos, desde então conto ciclos pensando em plantar butiá e desistindo, pois demoraria muito tempo para colher a fruta, quando vejo que se passaram mais sete anos, penso que poderia ter plantado, acho que a minha vida mudará radicalmente no dia em que plantar um pé de butiá ... e tantos outros velhos, que aqui não cabe!

            Prestamos aqui a homenagem a todos os idosos -tanto aqueles que estão na "melhor idade", como aqueles que sofrem o malogro do abandono, da falta de sentido para a vida, da tristeza, da falta de respeito de seus familiares- ... idosos que, na forma que lhes foi possível, ajudaram a construir o mundo em que vivemos e, se deixaram problemas, seguimos a sina do ser humano lutando para construir um mundo melhor ... enfim, a vida a gente inventa, a história a gente conta e o mundo a gente traça!

sábado, 13 de setembro de 2014

A vida invoca a velha

Sou pescadora, bolicheira, conversadeira, inventadeira, poeteira, escrevinhadeira e curiosa (o que provoca pesquisamentos por causa do pouco conhecimento)... sou da conversa solta, sem palestramentos... penso que não temos nada para palestrar... a vida é feita de nossas experimentações que podem ser transformadas em conhecimento formal ou não... nesta semana estivemos conversando com trabalhadores da polícia civil, da brigada militar, da educação, dentre outros, dentro da programação de formação desse protagonistas, sensibilizando-os para a questão da violência contra a mulher e para o acolhimento humanizado dessas situações...
Introduzi (e apenas introduzi) o tema da violação dos direitos da mulher idosa, atravessado pela questão de gênero... assumo publicamente que não gosto de trabalhar com violação de direitos/ com violação da dignidade/ com violação da vida... já trabalhei na constituição e desenvolvimento do Serviço Sentinela, que antecedeu o CREAS na atenção e cuidado para com crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica, abuso e exploração sexual... e agora trabalho com atenção e cuidado para com idosos vítimas de violação de direitos...
Gosto, mesmo, é do trabalho com a produção de potência, de vida e de mobilização nos existires... não gosto das gentes que se nutrem da desgraça, da dor, da bílis, da ansiedade, da ganância, da intolerância e de outros quetais... então prefiro pensar que a vida pode invocar a velha... e das coisas que temos visto no trabalho com os velhos, tem aí umas coisas que estão anotadas em meus papeis de embrulho para compor uns escritos... vejamos aí...
↘VIOLAÇÕES   
                - judicialização da vida/ judicialização dos processos de trabalho com o idoso
                - medicalização da vida do idoso
- medicamentalização da vida do idoso
                - exploração laboral do idoso
                - exploração financeira e material do idoso
                - exploração afetiva e usos abusivos dos afetos (incidência basicamente com mulheres), praticados por companheiros/ filhos/ netos/ outros familiares / outras pessoas
- abandono afetivo, físico e material de idosos
- vida-dura, dura-vida... o que vem depois das dores dos existires... vem idosos que tiveram seus existires endurecidos por suas dores e isso acabou produzido tanto ou mais dores nas vidas dos seus...
↘O IDOSO E A PRODUÇÃO DE AFETOS E CONTÁGIOS
                               . a vida do idoso produzindo reverberação/ritornelo na vida das gentes
                               . produção de redes e forças = potência
                               . a inventividade que produz movimentos pode também produzir acontecimentos
                               . as pessoas que fazem usos abusivos se debatem (desde as mais tênues às mais amplas dimensões) COM EXCESSOS DE VIDA
                - a produção da violação do direito da idosa é sempre apenas UM ponto no imenso descampado da vida da pessoa/ a vida, as potências, as impotências, os quereres, os fazeres são muito maiores do que isso
                - olhar para o quão fascistas podemos ser quando tentamos desfocar a conversa das gentes e dirigir à violência pura, sem considerar toda a trama das existências que se cruzam e que se compõem
↘ TRABALHO VIVO
                - movimento permanente, feito de continuidades e descontinuidades
                - produção de experimentações – coragem de ir tateando e tecendo novos, outros pensares e outros fazeres
                - capacidade de reconhecer no outro a singularidade do seu processo
- produção de vida nos processos de envelhecimento
↘CAPACIDADE INVENTIVA PARA OLHAR PARA OS EXCESSOS DE VIDA
                - a vida enquanto campo ético-estético-político
                - vidas-conceitos
                - vidas-paradoxo
↘ Problematização: O QUE É A VIDA?
                - por onde se constituem os abandonos?
                - por onde se constituem as violações/violências?
↘ Para quem sofre por excessos de vida
↘ Problematizações advindas do trabalho com idosos
                - usos abusivos de drogas lícitas
                - usos abusivos de álcool
                - usos abusivos de afetos (mães/avós devoradoras/ pais negligentes/ síndrome da avó superprotetiva que anula as possibilidades de vivimentos
↘ Algo que muito nos interessa é a possibilidade de auxiliar o outro a lidar com os excessos de vida e fazer disso vivimentos e não morrimentos