quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O FILÓSOFO MASCARADO


MICHEL FOUCAULT (Entrevista – 06/04/1980)
 
Le Philosophe masqué (entrevista de C. Delacampagne), em ‘Le Monde" n. 10945, de 06 de abril de 1980: "Le Monde-Dimanche", pp. I e XVII. Em janeiro de 1980, Christian Delacampagne decidiu pedir a Foucault uma longa entrevista para o suplemento dominical de "Le Monde", dedicado principalmente aos debates culturais. Foucault aceitou imediatamente, mas apresentou uma condição de princípio: a entrevista deveria ficar anônima, o seu nome não deveria aparecer e importava eliminar todos os indícios que teriam permitido identificar a sua pessoa. Foucault justificou esta posição da seguinte maneira: a cena intelectual tornou-se presa da mídia, as "estrelas" prevalecem sobre as idéias, e o pensamento como tal acaba não sendo reconhecido; conseqüência disso é que aquilo que se diz conta menos do que a personalidade de quem fala. E também este tipo de crítica com relação à "midiatização" corre o risco de ser menosprezada, caso for pronunciada por alguém que, sem querê-lo, já ocupa um lugar no sistema da mídia, como era o caso de Foucault. A fim de romper com semelhantes efeitos perversos e para tentar que fosse dita uma palavra que não pudesse ser aniquilada pelo fama do autor, convinha decidir-se a entrar no anonimato. A idéia agradou a Delacampgne. Acordaram que a entrevista fosse feita a um "filósofo mascarado", isento de uma precisa identidade. Faltava convencer "Le Monde", que queria uma entrevista com Foucault, a aceitar um texto de "ninguém". Foi difícil, mas Foucault mostrou-se inflexível.
O segredo foi conservado até a morte de Foucault. Parece que bem poucos conseguiram descobri-lo. Em seguida, "Le Monde" e a editora La Découverte concordaram em juntar em volume esta entrevista com outros textos do mesmo autor. Conforme acontece nestes casos, "Le Monde" decidiu unilateralmente revelar o verdadeiro nome do "filósofo mascarado". O texto da entrevista cabe integralmente a Foucault, que elaborou inclusive as perguntas, junto com Delacampagne, e reescreveu com muito cuidado cada resposta.


Permita-me,  em primeiro lugar,  perguntar-lhe porque escolhe o anonimato.
Imagino que você conheça a história daqueles psicólogos que apresentaram breve filme numa localidade no coração da África profunda. Pedem aos espectadores que narrem a história da forma como a entenderam. Pois bem, de um drama com três personagens, só uma coisa os havia interessado: a passagem das sombras e das luzes através das árvores.
Entre nós, os personagens ditam lei à percepção. Os olhos voltam-se preferivelmente para as figuras que vão e vêm, aparecem e desaparecem.
Por que lhe sugeri de usar o anonimato? Por saudades do tempo em que eu era absolutamente desconhecido e, portanto, aquilo que dizia tinha alguma possibilidade de ser entendido. O contato imediato com o eventual leitor não sofria interferências. Os efeitos do livro refletiam-se em lugares imprevistos e desenhavam formas a que nunca havia pensado. O nome constitui uma facilitação.
Gostaria de propor um jogo: o do "ano sem nome". Por um ano publicar-se-iam apenas livros sem o nome do autor. Os críticos deveriam haver-se com uma produção completamente anônima. Mas penso que, talvez, não teriam nada a dizer: todos os autores esperariam o ano sucessivo para publicarem os seus livros...
Você acredita que, hoje, os intelectuais falam demais? Que nos atrapalham com os seus discursos diante de qualquer mínimo pretexto e, muitas vezes, até mesmo sem pretexto algum?
A morte dos intelectuais parece-me um estranho conceito. Intelectuais, nunca os encontrei. Encontrei pessoas que escrevem romances e pessoas que curam os doentes. Pessoas que estudam economia e pessoas que compõem música eletrônica. Encontrei pessoas que ensinam, pessoas que pintam e pessoas de quem não entendi se faziam alguma coisa. Mas nunca encontrei intelectuais.
Pelo contrário, encontrei muitas pessoas que falam do intelectual. E, por escutá-los tanto, construí para mim uma idéia de que tipo de animal se trata. Não é difícil, é o culpado. Culpado um pouco de tudo: de falar, de silenciar, de não fazer nada, de meter-se em tudo... Em suma, o intelectual é a matéria-prima a julgar, a condenar, a excluir...
Não penso que os intelectuais falem demais, porque para mim não existem. Mas penso que o discurso sobre os intelectuais esteja passando do limite e seja pouco encorajante.
Tenho uma feia mania. Quando as pessoas falam tanto por falar, quando fazem discursos que ficam no ar, procuro imaginar onde levariam as suas palavras se fossem transcritas na realidade. Quando "criticam" alguém, quando "denunciam" as suas idéias, quando "condenam" o que escreve, imagino-os numa situação ideal em que têm pleno poder sobre ele. Reproduzo as suas palavras no primeiro significado: "demolir", "abater", "reduzir ao silêncio", "sepultar". E vejo abrir-se a radiante cidade em que o intelectual certamente seria prisioneiro e enforcado, com maior razão se fosse um teórico. É verdade, não vivemos em uma região em que os intelectuais são mandados ao diabo; mas, na realidade, diga-me, por acaso ouviu falar de um certo Toni Negri? Por acaso não está na prisão exatamente enquanto intelectual?
Mas, então, o que o levou a entrincheirar-se atrás do anonimato? Um certo uso publicitário que, hoje, certos filósofos fazem ou permitem fazer do seu nome?
Isto não me perturba minimamente. Nos corredores do meu liceu vi grandes homens de gesso. E agora, nas primeiras páginas dos jornais, em baixo, vejo a foto do pensador. Não sei se a estética melhorou. A racionalidade econômica seguramente, sim...
No fundo, impressiona-me profundamente uma carta escrita por Kant, quando já era muito velho: contra a idade, a visão que se reduz e as idéias que se confundiam, apressava-se, assim narra, em terminar um livro para a feira do livro de Lípsia. Conto este episódio para demonstrar que não tem nenhuma importância. Publicidade ou não, feira ou não, o livro é coisa totalmente diferente. Nunca conseguirão levar-me a crer que um livro seja ruim porque se viu o seu autor à televisão. Mas nem sequer que seja bom só por este motivo.
Se escolhi o anonimato, não é para criticar isso ou aquilo, o que nunca faço. É um jeito de dirigir-me mais diretamente ao eventual leitor, o único personagem que me interessa: "já que não sabes quem sou, não sentirás a tentação de buscar os motivos pelos quais digo o que lês; deixa-te andar, diz simplesmente: é verdadeiro, é falso, gosto, não gosto. Isto basta".
Mas o público não espera que a crítica forneça juízos precisos sobre o valor de uma obra?
Não sei se o público espera que o crítico julgue as obras ou os autores. Mas creio que os juízes já estavam aí antes que o público pudesse dizer o que queria.
Parece que Courbet tinha um amigo que se acordava à noite urlando: "julgar, quero julgar". É incrível quanto as pessoas gostam de julgar. Julga-se em todo lugar, continuamente. Provavelmente, para a humanidade, é uma das coisas mais simples a fazer. Mas você sabe que o último homem, quando a última radiação houver reduzido o último adversário a cinzas, tomará uma mesa mal ajeitada, se sentará e começará o processo contra o responsável.
Não posso deixar de pensar em uma crítica que não procure criticar, mas fazer existir uma obra, uma frase, uma idéia; acenderia fogos, olharia a grama crescer, escutaria o vento e imediatamente tomaria a espuma do mar para a dispersar. Reproduziria, ao invés de juízos, sinais de vida; invocá-los-ia, arrancá-los-ia do seu sono. Quem sabe os inventaria? Tanto melhor, tanto melhor. A crítica sentenciosa faz-me adormentar; gostaria de uma crítica feita com centelhas de imaginação. Não seria soberana, nem vestida de vermelho. Traria consigo os raios de possíveis tempestades.
Há, porém, tantas coisas a conhecer, tantos trabalhos interessantes, que a mídia deveria falar todo o tempo de filosofia?
Certamente, entre a "crítica" e aqueles que escrevem livros existe um mal-estar de longa data. Uns não se sentem entendidos e outros acreditam que se queira fazer pressão sobre eles. Mas o jogo é este.
Parece-me que hoje a situação seja bastante particular. Temos instituições pobres, enquanto nos encontramos em situação de super-abundância.
Todos deram-se conta da exaltação que freqüentemente acompanha a publicação ( ou a reedição) de obras, que, aliás, às vezes são interessantes. Trata-se, sempre, de nada menos que a "subversão de todos os códigos", do "antagonista da cultura contemporânea", da "discussão radical de todo o nosso modo de pensar". O seu autor deve ser um marginal incompreendido.
Em compensação, não há dúvida de que os outros devam ser remetidos à obscuridade da qual nunca deveriam ter saído; não eram senão a espuma de "uma moda irrelevante", um simples produto institucional, etc.
Diz-se que se trata de um fenômeno parisiense e superficial. Contudo, eu percebo aí os efeitos de uma inquietação profunda. O sentimento do "nenhum lugar vazio", "ou ele ou eu", "um por vez". Está-se em fila indiana, por causa da extrema exigüidade de lugares em que se pode escutar e fazer-se ouvir.
Resulta daí uma espécie de angústia que irrompe em mil sintomas, mais ou menos curiosos. A partir disso, naqueles que escrevem, o sentimento da sua impotência diante da mídia, que é acusada de dominar o mundo dos livros e de dar existência ou de fazer desaparecer aqueles que agradam ou desagradam. A partir disso, nos críticos, o sentimento de conseguir fazer-se ouvir, a não ser que se levante o tom e se tire da cartola um coelho por semana. A partir disso, a pseudo-politização que mascara, sob a alegação da necessidade de mover uma "batalha ideológica" ou de acabar com os "pensamentos perigosos", a ânsia profunda de não ser lidos nem ouvidos. A partir disso, também a fobia fantástica do poder: cada pessoa que escreve exerce um poder inquietante a que se precisa pôr, se não um fim, pelo menos limites. A partir disso também a afirmação um pouco encantadora segundo a qual, atualmente, tudo é vazio, desolado, sem interesse e importância: afirmação que, evidentemente, provém daqueles que, não fazendo nada, pensam que os outros são supérfluos.
Mas não acredita que a nossa época é realmente sem espíritos à altura dos seus problemas e de grandes escritores?
Não, não acredito no refrão da decadência, da ausência de escritores, da esterilidade do pensamento, do horizonte negro e tétrico.
Creio, pelo contrário, que há uma abundância excessiva. E que não sofremos por causa do vazio, mas porque os meios para pensar em tudo o que acontece sejam demasiado poucos. Há muitíssimas coisas a conhecer: fundamentais, terríveis, maravilhosas ou estranhas, ao mesmo tempo minúsculas e capitais. Além disso, há uma curiosidade imensa, uma necessidade, um desejo de conhecer. Sempre lamentamos que a mídia embote a cabeça das pessoas. Nesta idéia há alguma misantropia. Acredito, pelo contrário, que as pessoas reagem: quanto mais se procura convencê-las, mais se interrogam. O espírito não é uma cera mole. É uma substância reativa. E o desejo de saber mais, melhor e diversamente, cresce à medida que se procura encher as cabeças.
Se isso for verdade e se acrescentarmos a isso que, na universidade e em outros lugares, se estão formando grandes quantidades de pessoas que podem servir de intermediários entre a massa de coisas e a avidez de saber, pode-se bem rapidamente deduzir que a desocupação dos estudantes é a coisa mais absurda que há. O problema consiste em multiplicar os canais, as passarelas, os meios de informação, as redes televisivas e as radiofônicas, os jornais.
A curiosidade foi um vício estigmatizado sucessivamente pelo Cristianismo, pela filosofia e até por uma certa concepção da ciência. Curiosidade, futilidade. Mesmo assim, a palavra me agrada. Sugere-me algo bem diferente: evoca a "cuidado", a atenção que se presta ao que existe ou poderia existir; um sentido agudo do real, que, porém, nunca se imobiliza diante disso; uma prontidão em julgar estranho e singular aquilo que nos circunda; uma certa obstinação em desfazer-se do que é familiar e em olhar as mesmas coisas de forma diferente; um ardor em colher o que acontece e aquilo que passa; uma desenvoltura com relação às hierarquias tradicionais entre o que é importante e o que é essencial.
Sonho com uma nova idade da curiosidade. Os meios técnicos existem; o desejo existe; as coisas a conhecer são infinitas; as pessoas que podem empenhar-se nesta tarefa existem. De que então sofremos? De escassez: canais estreitos, exígüos, quase monopolistas, insuficientes. Não se trata de adotar atitude protecionista para impedir que uma "má" informação invada e sufoque a "boa". Importa, pelo contrário, multiplicar os trajetos e as possibilidades de ir e vir. Nenhum colbertismo neste campo. O que não significa, como frequentemente se teme, uniformização e nivelamento por baixo. Significa, sim, diferenciação e simultaneidade de redes diferentes.
Imagino que, neste plano, a mídia e as universidades poderiam ter funções complementares, ao invés de continuarem a opor-se.
Você lembra a admirável frase de Sylvain Lévy: o ensino comporta um ouvinte; basta haver dois que se torna vulgarização. Também os livros, a universidade, as revistas cultas são mídia. Dever-se-ia evitar de chamar mídia os canais de informação aos quais não se pode ou não se quer ter acesso. Importa entender como fazer que as diferenças ajam; saber se devemos instaurar uma zona reservada, um "parque cultural" para as frágeis espécies dos cultos, ameaçados pelas grandes aves de rapina da informação, enquanto todo o resto do espaço seria um vasto mercado de bugigangas. Não me parece que semelhante repartição corresponda à realidade. Pior: não me parece de fato desejável. Para fazer que as diferenças úteis ajam não deve haver repartição alguma.
Procuremos fazer uma proposta concreta. Se tudo vai mal, onde se pode começar?
Não, não vai tudo mal. Em todo caso, creio que não se deve confundir a crítica construtiva contra as coisas com as jeremiadas repetitivas contra as pessoas. Com relação a propostas concretas, elas aparecem como "gadgets", se antes não forem precisados alguns princípios gerais. Este, em primeiro lugar: o direito ao saber não deve ser reservado nem a uma idade da vida, nem a certas categorias de indivíduos; se deve poder exercitá-lo ininterruptamente e de formas múltiplas.
Mas esta vontade de saber não é ambígua? Afinal, o que as pessoas farão com todo este saber que está adquirindo? A que pode servir?
Uma das funções principais do ensino consistia nisto: a formação do indivíduo caminhava no mesmo passo da determinação do seu lugar na sociedade. Hoje precisaríamos conceber o ensino de modo tal que permitisse ao indivíduo de se modificar a seu prazer; e isso é possível apenas sob a condição de que o ensino seja uma possibilidade oferecida "permanentemente".
Em suma, você é a favor de uma sociedade culta?
Digo que a vinculação com a cultura deve ser contínua e a mais polimorfa possível. Não deveria haver, por um lado, uma formação que se sofre e, por outro, uma informação a que se é submetido.
O que acontecerá, em uma sociedade culta, com a filosofia eterna?... Ainda temos necessidade dela, das suas interrogações sem resposta e dos seus silêncios diante do incognoscível?
O que é a filosofia senão um modo de refletir, não tanto sobre aquilo que é verdadeiro e aquilo que é falso, mas sobre a nossa relação com a verdade? Às vezes a gente se lamenta por não existir na França uma filosofia dominante. Muito melhor. Não há nenhuma filosofia soberana, é verdade, mas há uma filosofia ou, melhor, há filosofia em atividade. A filosofia é o movimento pelo qual nos libertamos – com esforços, hesitações, sonhos e ilusões – daquilo que passa por verdadeiro, a fim de buscar outras regras do jogo. A filosofia é o deslocamento e a transformação das molduras de pensamento, a modificação dos valores estabelecidos, e todo o trabalho que se faz para pensar diferentemente, para fazer diversamente, para tornar-se outro do que se é. Sob este ponto de vista, os últimos trinta anos foram período de intensa atividade filosófica. A interferência entre a análise, a pesquisa, a crítica "culta" ou "teórica" e as mudanças no comportamento, a conduta real das pessoas, a sua maneira de ser, a sua relação consigo mesmas e com os outros, foi constante e considerável.
Há pouco dizia que a filosofia é um modo de refletir sobre a nossa relação com a verdade. É preciso acrescentar: é um modo de perguntar-se: se esta é a relação que temos com a verdade, como devemos comportar-nos? Creio que tenha sido feito e que se esteja continuando a fazer um trabalho considerável e múltiplo, que modifica, contemporaneamente, o nosso vínculo com a verdade e a nossa maneira de nos comportarmos. E isso em ligação complexa entre uma série de pesquisas e um conjunto de movimentos sociais. É a própria vida da filosofia.
É compreensível que alguns lastimem o vazio atual e busquem, na ordem das idéias, um pouco de monarquia. Mas aqueles que, pelo menos uma vez na própria vida, provaram um tom novo, uma nova maneira de olhar, um outro modo de fazer, aqueles, creio, nunca sentirão a necessidade de se lamentar porque o mundo é um erro, a história está farta de inexistências; é tempo para que os outros fiquem calados, permitindo assim que não se ouça mais o som da reprovação por parte deles...
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FOUCAULT, Michel. Archivio Foucault. Vol. 3. Estetica dell’esistenza, etica, politica. A cura di Alessandro Pandolfi. Milano, Feltrinelli, 1994, pp. 137-144. Tradução portuguesa de Selvino José Assmann. Fpolis, setembro de 2000.  
Este texto foi gentilmente cedido por Marco Antonio Frangiotti, e aparece originalmente no site de "textos de interesses filosóficos"
buscado em: cooperação.sem.mando

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

flecheira.libertária.269


balancinho eleitoral  
No final, rondando os 30% seguem os dois candidatos para o segundo turno das eleições de São Paulo, repetindo os índices regulares de eleições anteriores. Nas últimas duas semanas os ataques diretos ao candidato refugiado na sigla evangélica, minaram parcialmente as repercussões midiáticas do passado do candidato. A sempre oscilante parte do eleitorado reacionário de classe média baixa e circunvizinhança pendeu para os candidatos que ofereceram garantias  políticas mais seguras. O eleitorado reacionário que ronda os 35%, expressa um segmento duro e de disposição fascista. Mas em eleição o que importa é ser majoritário. E assim crescem os fascistas, os ilusionistas democratas, os senhores do pastorado, os vitoriosos de sempre.
dispositivos de exceção  
O rebanho comparece à votação. Porque deseja e porque faz da obrigação seu ato de liberdade. Amam a legislação de exceção que lhes impuseram como sua escolha. Quem não comparecer à votação sem justificar sua ausência sabe que isso pode lhe custar o emprego! Como derrubar esta fantasia? Estamos todos presos! 
eleições e controle eletrônico 
O sistema de identificação biométrico sempre esteve intimamente ligado ao controle nas prisões e à classificação de indivíduos considerados perigosos. Hoje, no Brasil, as mais altas tecnologias biométricas vêm sendo utilizadas em empresas, bancos, computadores pessoais e etc. Nas eleições de 2012, algumas cidades já adotaram a identificação biométrica eletrônica – acoplada à tecnologia da urna eletrônica – para garantir a  segurança e a transparência no processo eleitoral. Para além do fato do voto ser obrigatório no Brasil, seu caráter secreto também já não existe há algum tempo. Os amantes servis da democracia representativa acham graça nas  facilidades propiciadas pela tecnologia. Desse modo, aquele que é considerado um dos momentos mais emblemáticos da democracia representativa apenas escancara o que está presente no que há de mais ordinário em nosso cotidiano, o fato de que, cada vez mais, estamos todos presos. 
além do voto e da política 
Como contraposição à realização dos pleitos eleitorais em todo o país, certos grupos de São Paulo organizaram a “Semana do Não Vote”. Constituída por uma programação de debates, exibições de vídeos, festas e até um “churrascão da justificativa”, marcado para domingo à tarde numa praça da região central da  cidade, a Semana visou, segundo seus organizadores, explicitar a “descrença” com a democracia representativa e propor uma “alternativa política” baseada em práticas libertárias. O posicionamento em favor da abstenção destoou de velhas ladainhas em torno do voto nulo. Entretanto, a disposição inicial de embate com a obrigatoriedade do voto colmatou-se na propaganda da abstenção como mero protesto a reboque da organização de uma alternativa política. É preciso ir além do voto. Mas não basta. A política e as infindáveis reformas e profusões de alternativas que a sustentam também devem ser arruinadas. 
escrachando o voto 
O voto obrigatório foi instituído durante a ditadura civil-militar e permaneceu obrigatório mesmo depois de ter passado pela denominada “abertura política” nos anos 1980, e a chamada consolidação da democracia na última década do século XX. A obrigatoriedade do voto é o rescaldo apodrecido, em plena democracia, do que há de mais abominável na recente política brasileira. Por que não – em tempos que certos jovens corajosos escracham torturadores e serviçais da ditadura civil-militar – não abolirmos este senhor decrépito e autoritário denominado voto obrigatório? É preciso escrachar o que persiste de ranço da ditadura civil-militar no presente. Por que não? 
porque sim 
O argumento da ditadura civil-militar para justificar o voto obrigatório se baseou na ortopedia político-pedagógica que propunha educar o cidadão para votar, formatando sua consciência democrática. Anunciava que quando o cidadão já estivesse conscientizado, as eleições voltariam a ocorrer pelo voto facultativo. Essa tal pedagogia foi incorporada pelas lideranças políticas, seus intelectuais e militantes e se tornou mais um normalizador dispositivo de exceção na democracia. 
criança esperança 
No Rio de Janeiro, uma renomada escola particular instituiu para os alunos do ensino fundamental um exercício de processo eleitoral, no qual os alunos  votaram em chapas compostas por colegas para eleger “prefeitos” e “vereadores” de cada série. A diretora frisou não se tratar de uma simulação, pois os “programas políticos” elaborados pelos próprios candidatos e suas “equipes de assessores” de colegas serão implantados ou negociados com a direção visando sua efetivação. Um dos “candidatos” colocou no seu “programa” a demanda por dois professores em sala de aula para “controlar a bagunça”, enquanto uma “pequena eleitora” disse que iria fiscalizar para valer se as promessas seriam cumpridas. A diretora, orgulhosa, considera a proposta um sucesso na formação da cidadania em plena semana de eleições municipais. Assim, educa-se desde a mais tenra idade os futuros  cidadãos, talhados para serem  agentes de uma democracia a ser gerenciada com controles, procedimentos, obediência e adesão a um inevitável, único e desejável modelo político.

IDEAS Y CREENCIAS


por José Ortega y Gasset 

CREER Y PENSAR 

I - Las ideas se tienen; en las creencias se está. - "Pensar en las cosas" y "contar con ellas". 
Cuando se quiere entender a un  hombre, la vida de un hombre, procuramos ante todo averiguar cuáles son sus ideas. Desde que el europeo cree tener "sentido histórico", es ésta la exigencia más elemental. ¿Cómo no van a influir en la existencia de una persona sus ideas y las ideas de su tiempo? La cosa es obvia. Perfectamente; pero la cosa es también bastante equívoca, y, a mi inicio, la insuficiente claridad sobre lo que se busca cuando se inquieren las ideas de un hombre -o de una época- impide que se obtenga claridad sobre su vida, sobre su historia.  
Con la expresión "ideas de un hombre" podemos referirnos a cosas muy diferentes. Por ejemplo: los pensamientos que se le ocurren acerca de esto o de lo otro y los que se le ocurren al prójimo y él repite y adopta. Estos pensamientos pueden poseer los grados más diversos de verdad. Incluso pueden ser "verdades científicas". Tales  diferencias, sin embargo, no importan mucho, si importan algo, ante la cuestión mucho más radical que ahora planteamos. Porque, sean pensamientos vulgares, sean rigorosas "teorías científicas", siempre se tratará de ocurrencias que en un hombre surgen, originales suyas o insufladas por el prójimo. Pero esto implica evidentemente que el hombre estaba ya ahí antes de que se le ocurriese o adoptase la idea. Ésta brota, de uno u otro modo, dentro de una vida que preexistía a ella. Ahora bien, no hay vida humana que no esté desde luego constituida por ciertas creencias básicas y, por decirlo así, montada sobre ellas. Vivir es tener que habérselas con algo -con el mundo y consigo mismo. Mas ese mundo y ese "sí mismo" con que el hombre se encuentra le aparecen ya bajo la especie de una interpretación, de "ideas" sobre el mundo y sobre sí mismo.  
Aquí topamos con otro estrato de ideas que un hombre tiene. Pero ¡cuán diferente de todas aquellas que se le ocurren o que adopta! Estas "ideas" básicas que llamo "creencias" -ya se verá por qué- no surgen en tal día y hora dentro de nuestra vida, no arribamos a ellas por un acto particular de pensar, no son, en suma, pensamientos que tenemos, no son ocurrencias ni siquiera de aquella especie más elevada por su perfección lógica y que denominamos razonamientos. Todo lo contrario: esas ideas que son, de verdad, "creencias" constituyen el continente de  nuestra vida y, por ello, no tienen el carácter de contenidos particulares dentro de ésta. Cabe decir que no son ideas que tenemos, sino ideas que somos. Más aún: precisamente porque son creencias radicalísimas se confunden para nosotros con la realidad misma -son nuestro mundo y nuestro ser-, pierden, por tanto, el carácter de ideas, de pensamientos nuestros que podían muy bien no habérsenos ocurrido.  
Cuando se ha caído en la cuenta de la diferencia existente entre esos dos estratos de ideas aparece, sin más, claro el diferente papel que juega en nuestra vida. Y, por lo pronto, la enorme diferencia de rango  funcional. De las ideas-ocurrencias -y conste que incluyo en ellas las verdades más rigorosas de la ciencia- podemos decir que las producimos, las sostenemos, las discutimos, las propagamos, combatimos en su pro y hasta somos capaces de morir por ellas. Lo que no podemos es ... vivir de ellas. Son obra nuestra y, por lo mismo, suponen ya nuestra vida, la cual se asienta en ideas-creencias que no producimos nosotros, que, en general, ni siquiera nos formulamos y que, claro está, no discutimos ni propagamos ni sostenemos. Con las creencias propiamente no hacemos nada, sino que simplemente estamos en ellas. Precisamente lo que no nos pasa jamás- si hablamos cuidadosamente- con nuestras  ocurrencias. El lenguaje vulgar ha inventado certeramente la expresión "estar en la creencia". En efecto, en la creencia se está, y la ocurrencia se tiene y se sostiene. Pero la creencia es quien nos tiene y sostiene a nosotros.  
Hay, pues, ideas con que nos encontramos -por eso las llamo ocurrencias- e ideas en que nos encontramos, que parecen estar ahí ya antes de que nos ocupemos en pensar.  
Una vez visto esto, lo que sorprende es que a unas y a otras se les llame lo mismo: ideas. La identidad de nombre es lo único que estorba para distinguir dos cosas cuya disparidad brinca tan claramente ante nosotros sin más que usar frente a frente estos dos términos: creencias y ocurrencias. La incongruente conducta de dar un mismo nombre a dos cosas tan distintas no es, sin embargo, una casualidad ni una distracción. Proviene de una incongruencia más honda: de la confusión entre dos problemas radicalmente diversos que exigen dos modos de pensar y de llamar no menos dispares.  
Pero dejemos ahora este lado del asunto: es demasiado abstruso. Nos basta con hacer notar que "idea" es un término del vocabulario psicológico y que la psicología, como toda ciencia particular, posee sólo  jurisdicción subalterna. La verdad de sus conceptos es relativa al punto de vista particular que la constituye y vale en el horizonte que ese punto de vista crea y acota. Así, cuando la psicología dice de algo que es una "idea", no pretende haber dicho lo más decisivo, lo más real sobre ello. El único punto de vista que no es particular y relativo es el de la vida, por la sencilla razón de que todos los demás se dan dentro de ésta y son 
meras especializaciones de aquél. Ahora bien, como fenómeno vital la creencia no se parece nada a la ocurrencia: su función en el organismo de nuestro existir es totalmente distinta y, en cierto modo,  antagónica. ¿Qué importancia puede tener en parangón con esto el hecho de que, bajo la perspectiva psicológica, una y otra sean "ideas" y no sentimientos, voliciones, etcétera?  
Conviene, pues, que dejemos este término -"ideas"- para designar todo aquello que en  nuestra vida aparece como resultado de nuestra ocupación intelectual. Pero las creencias se nos presentan con el carácter opuesto. No llegamos a ellas tras una faena de entendimiento, sino que operan ya en nuestro fondo cuando nos ponemos a pensar sobre algo. Por eso no solemos formularlas, sino que nos contentamos con aludir a ellas como solemos hacer con todo lo que nos es la realidad misma. Las teorías, en cambio, aun las más verídicas, sólo existen mientras son pensadas: de aquí que necesiten ser formuladas.  
Esto revela, sin más, que todo aquello en que nos ponemos a pensar tiene ipso facto para nosotros una realidad problemática y ocupa en nuestra vida un lugar secundario si se le compara con nuestras creencias auténticas. En éstas no pensamos ahora o luego: nuestra relación con ellas consiste en algo mucho más eficiente; consiste en... contar con ellas, siempre, sin pausa.  
Me parece de excepcional importancia para inyectar, por fin, claridad en la estructura de la vida humana esta contraposición entre pensar en una cosa y contar con ella. El intelectualismo que ha tiranizado, casi sin interrupción, el pasado entero de la filosofía ha impedido que se nos haga patente y hasta ha invertido el valor respectivo de ambos términos. Me explicaré.  
Analice el lector cualquier comportamiento suyo, aun el más sencillo en apariencia. El lector está en su casa y, por unos u otros motivos, resuelve salir a la calle. ¿Qué es en todo este su comportamiento lo que propiamente tiene el carácter de pensado, aun entendiendo esta  palabra en su más amplio sentido, es decir, como conciencia clara y actual de algo? El lector se ha dado cuenta de sus motivos, de la resolución adoptada, de la ejecución de los movimientos con que ha caminado, abierto la puerta, bajado la escalera. Todo esto en el caso más favorable. Pues bien, aun en ese caso y por mucho que busque en su conciencia no encontrará en ella ningún pensamiento en que se haga constar que hay calle. El lector no se ha hecho cuestión ni por un momento de si la hay a no la hay ¿Por qué? No se negará que para resolverse a salir a la calle es de cierta importancia que la calle exista. En rigor, es lo más importante de todo, el supuesto de todo lo demás. Sin embargo, precisamente de ese tema tan importante no se ha hecho cuestión el lector, no ha pensado en ello ni para negarlo ni para afirmarlo ni para ponerlo en duda. ¿Quiere esto decir que la existencia o no existencia de la calle no ha intervenido en su comportamiento? Evidentemente, no. La prueba se tendría si al llegar a la puerta de su casa descubriese que la calle habla desaparecido, que la tierra concluía en el umbral de su domicilio o que ante é1 se habla abierto una sima. Entonces se produciría en la conciencia del lector una clarísima y violenta sorpresa. ¿De qué? De que no había aquélla. Pero ¿no habíamos quedado en que antes no había pensado que la hubiese, no se había hecho cuestión de ello? Esta sorpresa pone de manifiesto hasta qué punto la existencia de la calle actuaba en su estado anterior, es decir, hasta qué punto el lector contaba con la calle  aunque no pensaba en ella y precisamente porque no pensaba en ella.  
El psicólogo nos dirá que  se trata de un pensamiento habitual, y que por eso no nos damos cuenta de él, o usará la hipótesis de lo subconsciente, etc. Todo ello, que es muy cuestionable, resulta para  nuestro asunto por completo indiferente. Siempre quedará que lo que decisivamente actuaba en nuestro comportamiento, como que era su básico supuesto, no era pensado por nosotros con conciencia clara y aparte. Estaba en nosotros, pero no en forma consciente, sino como implicación latente  de nuestra conciencia o pensamiento. Pues bien, a este modo de intervenir algo en nuestra vida sin que lo pensemos llamo "contar con ello". Y ese modo es el propio de nuestras efectivas creencias.  
El intelectualismo, he dicho, invierte el valor de los términos. Ahora resulta claro el sentido de esta acusación. En efecto, el intelectualismo tendía a considerar como lo más eficiente en nuestra vida lo más consciente. Ahora vemos que la verdad es lo contrario. La máxima eficacia sobre nuestro comportamiento reside en las implicaciones latentes de nuestra actividad intelectual, en todo aquello con que contamos y en que, de puro contar con ello, no pensamos.  
¿Se entrevé ya el enorme error cometido al querer aclarar la vida de un hombre o una época por su ideario; esto es, por sus pensamientos especiales, en lugar de penetrar más hondo, hasta el estrato de sus creencias más o menos inexpresas, de las cosas con que contaba? Hacer esto, fijar el inventario de las cosas con que se cuenta, sería, de verdad, construir la historia, esclarecer la vida desde su subsuelo.  

II - El azoramiento de nuestra época. - Creemos en la razón y no en sus ideas. La ciencia casi poesía. 
Resumo: cuando intentamos determinar cuáles son las ideas de un hombre o de una época, solemos confundir dos cosas radicalmente distintas: sus  creencias y sus ocurrencias o "pensamientos". En rigor, sólo estas últimas deben llamarse "ideas".  
Las creencias constituyen la base de nuestra vida, el terreno sobre que acontece. Porque ellas nos ponen delante lo que para nosotros es la realidad misma. Toda nuestra conducta, incluso la intelectual, depende de cuál sea el sistema de nuestras creencias auténticas. En ellas "vivimos, nos movemos y somos". Por lo mismo, no solemos tener conciencia expresa de ellas, no las pensamos, sino que actúan latentes, como implicaciones de cuanto expresamente hacemos o pensamos. Cuando creemos de verdad en una cosa no tenemos la "idea" de esa cosa, sino que simplemente "contamos con ella".  
En cambio, las ideas, es decir, los pensamientos que tenemos sobre las cosas, sean originales o recibidos, no poseen en nuestra vida valor de realidad. Actúan en ella precisamente como pensamientos nuestros y sólo como tales. Esto significa que toda nuestra "vida intelectual" es secundaria a nuestra vida real o auténtica y representa a ésta sólo una dimensión virtual o imaginaria. Se preguntará qué significa entonces la verdad de las ideas, de las teorías. Respondo: la verdad o falsedad de una idea es una cuestión de "política interior" dentro del mundo imaginario de nuestras ideas. Una idea es verdadera cuando corresponde a la idea que tenemos de la realidad. Pero nuestra idea de la realidad no es nuestra realidad. Ésta consiste en todo aquello con que de hecho contamos al vivir. Ahora bien, de la mayor parte de las cosas con que de hecho contamos no tenemos la menor idea, y si la tenemos -por un especial esfuerzo de reflexión sobre nosotros mismos- es indiferente porque no nos es realidad en cuanto idea, sino, al contrario, en la medida en que no nos es sólo idea, sino creencia infraintelectual.  
Tal vez no haya otro asunto sobre el que importe más a nuestra época conseguir claridad como este de saber a qué atenerse sobre el papel y puesto que en la vida humana corresponde a todo lo intelectual. Hay una clase de épocas que se caracterizan por su gran azoramiento. A esa clase pertenece la nuestra. Mas cada una de esas épocas se azora un poco de otra manera y por un motivo distinto. El gran azoramiento de ahora se nutre últimamente de que tras varios siglos de ubérrima producción intelectual y de máxima atención a ella el hombre empieza a no saber qué hacerse con las ideas. Presiente ya que las habla tomado mal, que su papel en la vida es distinto del que en estos siglos les ha atribuido, pero aún ignora cuál es su oficio auténtico.  
Por eso importa mucho que, ante todo, aprendamos a separar con toda limpieza la "vida intelectual" -que, claro está, no es tal vida- de la vida viviente, de la real, de la que somos. Una vez hecho esto y bien hecho, habrá lugar para plantearse las otras dos cuestiones: ¿En qué relación mutua actúan las ideas y las creencias? ¿De dónde vienen, cómo se forman las creencias?.  
Dije en el parágrafo anterior que inducía a error dar indiferentemente el nombre de ideas a creencias y ocurrencias. Ahora agrego que el mismo daño produce hablar, sin distingos, de creencias, convicciones, etc., cuando se trata de ideas. Es, en efecto, una equivocación llamar creencia a la adhesión que en nuestra mente suscita una combinación intelectual, cualquiera que ésta sea. Elijamos el caso extremo que es el pensamiento científico más rigoroso, por tanto, el que se funda en evidencias. Pues bien, aun en ese caso, no cabe hablar en serio de creencia. Lo evidente, por muy evidente que sea, no nos es realidad, no creemos en 
ello. Nuestra mente no puede evitar reconocerlo como verdad; su adhesión es automática, mecánica. Pero, entiéndase bien, esa adhesión, ese reconocimiento de la verdad no significa sino esto: que, puestos a pensar en el tema, no admitiremos en nosotros un pensamiento distinto ni opuesto a ese que nos parece evidente. Pero... ahí está: la adhesión mental tiene como condición que nos pongamos a pensar en el asunto, que queramos pensar. Basta esto para hacer notar la irrealidad constitutiva de toda nuestra "vida intelectual". Nuestra adhesión a un pensamiento dado es, repito, irremediable; pero, como está en nuestra mano pensarlo o no, esa adhesión tan irremediable, que se nos pondría como la más imperiosa realidad, se convierte en algo dependiente de nuestra voluntad e ipso facto deja de sernos realidad. Porque realidad es precisamente aquello con que contamos, queramos o no. Realidad es la contravoluntad, lo que nosotros no ponemos; antes bien, aquello con que topamos.  
Además de esto, tiene el hombre clara conciencia de que su intelecto se ejercita sólo sobre materias cuestionables; que la verdad de las ideas se alimenta de su cuestionabílidad. Por eso, consiste esa verdad en la prueba que de ella pretendemos dar. La idea necesita de la critica como el pulmón del oxigeno y se sostiene y afirma apoyándose en otras ideas que, a su vez, cabalgan sobre otras formando un todo o sistema. Arman, pues, un mundo aparte del mundo real, un mundo integrado exclusivamente por ideas de que el hombre se sabe fabricante y responsable. De suerte que la firmeza de la idea más firme se reduce a la solidez con que aguanta ser referida a todas las demás ideas. Nada menos, pero también nada más. Lo que no se puede es contrastar una idea, como si fuera una moneda, golpeándola directamente contra la realidad, como si fuera una piedra de toque. La verdad suprema es la de lo evidente, pero el valor de la evidencia misma es, a su vez, meta teoría, idea y combinación intelectual.  
Entre nosotros y nuestras ideas hay, pues, siempre una distancia infranqueable: la que va de lo real a lo imaginario. En cambio, con nuestras creencias estamos inseparablemente unidos. Por eso cabe decir que las somos. Frente a nuestras concepciones gozarnos un margen, mayor o menor, de independencia. Por grande que sea su influencia sobre nuestra vida, podemos siempre suspenderlas, desconectarnos de nuestras teorías. Es más, de hecho exige siempre de nosotros algún especial esfuerzo comportarnos conforme a lo que pensamos, es decir, tomarlo completamente en serio. Lo cual revela que no creemos en ello, que presentimos como un riesgo esencial fiarnos de nuestras ideas, hasta el punto de entregarles nuestra conducta  tratándolas como si fueran creencias. De otro modo,  no apreciaríamos el ser "consecuente con sus ideas" como algo especialmente heroico.  
No puede negarse, sin embargo, que nos es normal regir nuestro comportamiento conforme a muchas "verdades científicas". Sin considerarlo heroico, nos vacunamos, ejercitamos usos, empleamos instrumentos que, en rigor, nos parecen peligrosos y cuya seguridad no tiene más garantía que la de la ciencia. La explicación es muy sencilla y sirve, de paso, para aclarar al lector algunas dificultades con que habrá tropezado desde el comienzo de este ensayo. Se trata simplemente de recordarle que entre las creencias del 
hombre actual es una de las más importantes su creencia en la "razón", en la inteligencia. No precisemos ahora las modificaciones que en estos últimos años ha experimentado esa creencia. Sean las que fueren, es indiscutible que lo esencial de esa creencia subsiste, es decir, que el hombre continúa contando con la eficiencia de su intelecto como una de las realidades que hay, que integran su vida. Pero téngase la serenidad de reparar que una cosa es fe en la inteligencia y otra creer en las ideas determinadas que esa inteligencia fragua. En ninguna de estas ideas se cree con fe directa. Nuestra creencia se refiere a la cosa, inteligencia, así en general, y esa fe no es una idea sobre la inteligencia. Compárese la precisión de esa fe en la inteligencia con la imprecisa idea que casi todas las gentes tienen de la inteligencia. Además, como ésta corrige sin cesar sus concepciones y a la verdad de ayer sustituye la de hoy, si nuestra fe en la inteligencia consistiese en creer directamente en las ideas, el cambio de éstas traería consigo la pérdida de fe en la inteligencia. Ahora bien, pasa. todo lo contrario. Nuestra fe en la razón ha aguantado imperturbable los cambios más escandalosos de sus teorías, inclusive los cambios profundos de la teoría sobre qué es la razón misma. Estos últimos han influido, sin duda, en la forma de esa fe, pero esta fe seguía actuando impertérrita bajo una u otra forma.  
He aquí un ejemplo espléndido de lo que deberá, sobre todo, interesar a la historia cuando se resuelva verdaderamente a ser ciencia, la ciencia del hombre. En vez de ocuparse sólo en hacer la "historia" -es decir, en catalogar la sucesión- de las ideas sobre la razón desde Descartes a la fecha, procurará definir con precisión cómo era la fe en la razón que efectivamente operaba en cada época y cuáles eran sus consecuencias para la vida. Pues es evidente que el argumento del drama en que la vida consiste es distinto si se está en la creencia de que un Dios omnipotente y benévolo existe que si se está en la creencia contraria. Y también es distinta la vida, aunque la diferencia sea menor, de quien cree en la capacidad absoluta de la razón para descubrir la realidad, como se creía a fines del siglo XVII en Francia, y quien cree, como los positivistas de 1860, que la razón es por esencia conocimiento relativo.  
Un estudio como éste nos permitiría ver con claridad la modificación sufrida por nuestra fe en la razón durante los últimos veinte años, y ello derramaría sorprendente luz sobre casi todas las cosas extrañas que acontecen en nuestro tiempo.  
Pero ahora no me urgía otra cosa sino hacer que el lector cayese en la cuenta de cuál es nuestra relación con las ideas, con el mundo intelectual. Esta relación no es de fe en ellas: las cosas que nuestros pensamientos, que las teorías nos proponen, no nos son realidad, sino precisamente y sólo... ideas.  
Mas no entenderá bien el lector lo que algo nos es, cuando nos es sólo idea y no realidad, si no le invito a que repare en su actitud frente a lo que se llama "fantasías, imaginaciones". Pero el mundo de la fantasía, de la imaginación, es la poesía. Bien, no me arredro; por el contrario, a esto quería llegar. Para hacerse bien cargo de lo que nos son las ideas, de su papel primario en la vida, es preciso tener el valor de acercar la ciencia a la poesía mucho más de lo que hasta aquí se ha osado. Yo diría, si después  de todo lo enunciado se me quiere comprender bien, que la ciencia está mucho más cerca de la poesía que de la realidad, que su función en el organismo de nuestra vida se parece mucho a la del arte. Sin duda, en comparación con una novela, la ciencia parece la realidad misma. Pero en comparación con la realidad auténtica se advierte lo que la ciencia tiene de novela, de fantasía, de construcción mental, de edificio imaginario.  
  
III - La duda y la creencia - El "mar de dudas" - El lugar de las ideas. 

El hombre, en el fondo, es crédulo o, lo que es igual, el estrato más profundo de nuestra vida, el que sostiene y porta todos los demás, está formado por creencias 1. Éstas son, pues, la tierra firme sobre que nos afanamos. (Sea dicho de paso que la metáfora se origina en una de las creencias más elementales que poseemos y sin la cual tal vez no podríamos vivir: la creencia en que la tierra es firme, a pesar de los terremotos que alguna vez y en la superficie de algunos de sus lugares acontecen. Imagínese que mañana, por unos u otros motivos, desapareciera esa creencia. Precisar las líneas mayores del cambio radical que en la figura de la vida humana esa desaparición produciría, fuera un excelente ejercicio de introducción al pensamiento histórico).  
Pero en esa área básica de nuestras creencias se abren, aquí o allá, como escotillones, enormes agujeros de duda. Éste es el momento de decir que la duda, la verdadera, la que no es simplemente metódica ni intelectual, es un modo de la creencia y pertenece al mismo estrato que ésta en la arquitectura de la vida. También en la duda se está. Sólo que en este caso el estar tiene un carácter terrible. En la duda se está como se está en un abismo, es decir, cayendo. Es, pues, la negación de la estabilidad. De pronto sentimos que bajo nuestras plantas falla la firmeza terrestre y nos parece caer, caer en el vacío, sin poder valernos, sin poder hacer nada para afirmarnos, para vivir. Viene a ser como la muerte dentro de la vida, como asistir a la anulación de nuestra propia existencia. Sin embargo, la duda conserva de la creencia el carácter de ser algo en que se está, es decir, que no lo hacemos o ponemos nosotros. No es una idea que podríamos pensar o no, sostener, criticar, formular, sino que, en absoluto, la somos. No se estime como paradoja, pero considero muy difícil describir lo que es la verdadera duda si no se dice que creemos nuestra duda.  
Si no fuese así, si dudásemos de nuestra duda, sería ésta innocua. Lo terrible es que actúa en nuestra vida exactamente lo mismo que la creencia y pertenece al mismo estrato que ella. La diferencia entre la fe y la duda no consiste, pues, en a creer. La duda no es un "no creer" frente al creer, ni es un "creer que no" frente a un "creer que si". El elemento diferencial está en lo que se cree. La fe cree que Dios existe o que Dios no existe. Nos sitúa, pues, en una realidad, positiva o "negativa", pero inequívoca, y, por eso, al estar en ella nos sentimos colocados en algo estable.  
Lo que nos impide entender el papel de la duda en nuestra vida es presumir que no nos pone delante una realidad. Y este error proviene, a su vez, de haber desconocido lo que la duda tiene de creencia. Sería muy cómodo que bastase dudar de algo para que ante nosotros desapareciese como realidad. Pero no acaece tal cosa, sino que la duda nos arroja ante lo dudoso, ante una realidad tan realidad como la fundada en la creencia, pero que es ella ambigua, bicéfala, inestable, frente a la cual no sabemos a qué atenernos ni qué hacer. La duda, en suma, es estar en lo inestable como tal: es la vida en el instante del terremoto, de  un terremoto permanente y definitivo.  
En este punto, como en tantos otros referentes a la vida humana, recibimos mayores esclarecimientos del lenguaje vulgar que del pensamiento científico. Los pensadores, aunque parezca mentira, se han saltado siempre a la torera aquella realidad radical, la han dejado a su espalda. En cambio, el hombre no pensador, más atento a lo decisivo, ha echado agudas miradas sobre  su propia existencia y ha dejado en el lenguaje vernáculo el precipitado de esas entrevisiones.  
Olvidamos demasiado que el lenguaje es ya pensamiento, doctrina. Al usarlo como instrumento para combinaciones ideológicas más complicadas, no tomamos en serio la ideología primaria que él expresa, que él es. Cuando, por un azar, nos despreocupamos de lo que queremos decir nosotros mediante los giros preestablecidos del idioma y atendemos a lo que ellos nos dicen por su propia cuenta, nos sorprende su agudeza, su perspicaz descubrimiento de la realidad.  
Todas las expresiones vulgares referentes a la duda nos hablan de que en ella se siente el hombre sumergido en un elemento insólido, infirme. Lo dudoso es una realidad liquida donde el hombre no puede sostenerse, y cae. De aquí el "hallarse en un mar de dudas".  
Es el contraposto al elemento de la creencia: la tierra firme.2 E insistiendo en la misma imagen, nos habla de la duda como una fluctuación, vaivén de olas. Decididamente, el mundo de lo dudoso es un paisaje marino e inspira al hombre presunciones de naufragio. La duda, descrita como fluctuación, nos hace caer en la cuenta de hasta qué punto es creencia. Tan lo es, que consiste en la superfetación del creer. Se duda porque se está en dos creencias antagónicas, que entrechocan y nos lanzan la una a la otra, dejándonos sin suelo bajo la planta. El dos va bien claro en el du de la duda.  
Al sentirse caer en esas simas que se abren en el firme solar de sus creencias, el hombre reacciona enérgicamente. Se esfuerza en "salir de la duda". Pero ¿qué hacer.? La característica de lo dudoso es que ante ello no sabemos qué hacer. ¿Qué haremos, pues, cuando lo que nos pasa es precisamente que no sabemos qué hacer porque el mundo -se entiende, una porción de él- se nos presenta ambiguo?  
Con él no hay nada que hacer. Pero en tal situación es cuando el hombre ejercita  un extraño hacer que casi no parece tal: el hombre se pone a pensar. Pensar en una cosa es lo menos que podemos hacer con ella. No hay ni que tocarla. No tenemos ni que movernos. Cuando todo en torno nuestro falla, nos queda, sin embargo, esta posibilidad de meditar sobre lo que nos falla. El intelecto es el aparato más próximo con que el hombre cuenta. Lo tiene siempre a mano. Mientras cree no suele usar de él, porque es un esfuerzo penoso. Pero al caer en la duda se agarra a él como a un salvavidas.  
Los huecos de nuestras creencias son, pues, el lugar vital donde insertan su intervención las ideas. En ellas se trata siempre de sustituir el mundo inestable, ambiguo, de la duda, por un mundo en que la ambigüedad desaparece. ¿Cómo se logra esto? Fantaseando, inventando mundos. La idea es imaginación. Al hombre no le es dado ningún mundo ya determinado. Sólo le son dadas las penalidades y las alegrías de su vida. Orientado por ellas, tiene que inventar el mundo. La mayor porción de él la ha heredado de sus mayores y actúa en su vida como sistema de creencias firmes. Pero cada cual tiene que habérselas por su cuenta con todo lo dudoso, con todo lo que es cuestión. A este fin ensaya figuras imaginaras de mundos y de su posible conducta en ellos. Entre ellas, una le parece idealmente más firme, y a eso llama verdad. Pero conste: lo verdadero, y aun lo científicamente verdadero, no es sino un caso particular de lo fantástico. Hay fantasías exactas. Más aún: sólo puede ser exacto lo fantástico. No hay modo de entender bien al hombre si no se repara en que la matemática brota de la misma raíz que la poesía, del don imaginativo.  
Diciembre 1934  
1 Dejemos intacta la cuestión de si bajo ese estrato más profundo no hay aún algo más, un fondo metafísico al que ni siquiera llegan nuestras creencias  
2 La voz tierra viene de tersa, seca, sólida   
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PARA LOS NIÑOS ESPAÑOLES 
(José Ortega y Gasset) 
Texto escrito por el autor para su inclusión en el volumen Nuestra raza, libro de lectura manuscrita escolar. Editorial Hispano-Americana. Reus, 1928 
El porvenir de España depende enteramente de vosotros los niños españoles. Y dentro de vosotros, niños españoles, depende enteramente de que aprendáis o no aprendáis una cosa. ¿Sabéis cuál? Esto que habéis de aprender y cultivar en vosotros exquisitamente, niños españoles, es lo que en mayor grado faltaba a nuestros padres y nuestros abuelos. ¿Sabéis qué es? ¡Ah!, una cosa que parece muy sencilla. Esta: distinguir entre personas. 
No ignoráis que con el ejercicio y el adiestramiento consigue el hombre perfeccionar incalculablemente su capacidad de distinguir. El pintor llega a notar la diferencia entre colores que a los demás parecen iguales. El músico distingue las más leves divergencias entre los sonidos. Para el que es catador de vinos, como lo fue el padre de Sancho Panza, no hay dos vinos iguales. La palabra "sabio" significó en un principio el que distingue de sabores. 
Pues bien, la vida de una sociedad y más aún la de un pueblo depende de que sus individuos sepan bien distinguir entre los hombres y no confundan jamás al tonto con el inteligente, al bueno con el malo. 
Mirad: a la hora en que escribo esto para vosotros hay en España, desgraciadamente, muy pocos hombres inteligentes y de corazón delicado. Solo esos hombres puros, espirituales, profundos y nobles podrían mejorar a la patria. Pero no logran que se les atienda. 
Porque los españoles que ahora forman nuestra sociedad no saben distinguir entre hombres y, acaso de buena fe, creen que son inteligentes los que son más necios, que son buenos los que son más farsantes. Ya sabéis que hay enfermos de la visión los cuales ven grises los objetos azules. Una cosa parecida nos acontece hoy a los españoles: padecemos una perversión del juicio sobre personas. Se juzga inteligentes a esos vanos charladores que llaman "políticos". Se cree que es buen poeta, buen novelista, buen profesor el que más lugares comunes dice, el que mejor halaga al público repitiendo las tonterías que este pensaba veinte años hace. 
Y en tanto los mejores, los que verdaderamente valen son poco conocidos, nadie les hace caso o, tal vez, se les combate en todas formas. 
¿Veis cuán importante seria que vosotros llegaseis a la madurez con una exquisita sensibilidad para distinguir entre el valer verdadero y el falso? 
A este fin yo os recomendaría, entre otras, cuatro reglas o criterios: 
1. No hagáis nunca caso de lo que la gente opina. La gente es toda una muchedumbre que os rodea -en vuestra casa, en la escuela, en la Universidad, en la tertulia de amigos, en el Parlamento, en el circulo, en los periódicos. Fijaos y advertiréis que esa gente no sabe nunca por qué dice lo que dice, no prueba sus opiniones, juzga por pasión, no por razón. 
2. Consecuencia de la anterior. No os dejéis jamás contagiar por la opinión ajena. Procurad convenceros, huid de contagios. El alma que  piensa, siente y quiere por contagio es un alma vil, sin vigor propio. 
3. Decir de un hombre que tiene verdadero valor moral o intelectual es una misma cosa con decir que en su modo de sentir o de pensar se ha elevado sobre el sentir y el pensar vulgares. Por esto es más difícil de comprender y, además, lo que dice y hace choca con lo habitual. De antemano, pues, sabemos que lo más valioso tendrá que parecernos, al primer momento, extraño, difícil, insólito y hasta enojoso. 
4. En toda lucha de ideas o de sentimientos, cuando veáis que de una parte combaten  muchos y de otra pocos, sospechad que la razón está en estos últimos. Noblemente prestad vuestro auxilio a los que son menos contra los que son más. 
buscado em: cooperação.sem.mando

terça-feira, 9 de outubro de 2012

INDIVIDUAÇÃO IMPESSOAL, SINGULARIDADE QUALQUER E COMUNIDADE QUE VEM


por Carlos Augusto Peixoto Junior

Em entrevista à revista Les lettres françaises, publicada em março de 1968, indagado sobre como definiria os problemas da filosofia contemporânea, Gilles Deleuze afirmava que havia uma tendência no pensamento da época a abandonar as referencias até então freqüentes ao Eu e ao Ego. Com isso, ele considerava que estavam sendo também postas em questão certas alternativas formuladas pelo pensamento tradicional, pautadas em opções tais como: Deus ou o homem, a substância infinita ou o sujeito finito. Isto porque o pensamento ocidental já não podia mais se ater à oposição entre um universal puro e particularidades encerradas em pessoas, indivíduos ou egos. Já naquele momento, portanto, a morte de Deus e a possibilidade de sua substituição pelo homem, com todas as permutações entre estas duas figuras, pareciam não ser mais uma questão relevante. Como Foucault já havia percebido, Deus e o homem teriam morrido um com o outro. Diante disto Deleuze concluía: "o que estamos descobrindo atualmente, ao que me parece, é um mundo abundante em individuações impessoais, ou mesmo em singularidades pré-individuais (é isso que significa o 'nem Deus, nem homem', do qual fala Nietzsche, essa é a anarquia coroada)" (Deleuze, 1968/2002, p.190, grifado no original).

Como Foucault já havia percebido, Deus e o homem teriam morrido um com o outro
Na sua opinião estas questões estariam diretamente articuladas com as discussões sobre o poder. As forças de repressão sempre tiveram necessidade de Egos estabelecidos ou de indivíduos determinados para se exercer. Quando nos tornamos mais fluidos e escapamos às determinações do Ego, quando não há mais homem sobre o qual Deus possa exercer seu mandato ou pelo qual possa ser substituído, o poder e sua policia se perdem completamente.

Nota-se, portanto, o viés político destas categorias de individuação impessoal e singularidade pré-individual, das quais Deleuze nunca abriu mão no decorrer de sua vida. Na mesma época da entrevista acima citada, elas são desenvolvidas no contexto de dois trabalhos que afirmam o pensamento da diferença: a Lógica do sentido e Diferença e repetição. Ali ele novamente se contrapõe a uma outra alternativa filosófica clássica — singularidade individual/pessoal ou abismo indiferenciado — defendendo a tese de um mundo pululante, composto por singularidades anônimas e nômades, impessoais e pré-individuais, que comporiam um campo transcendental que não se confunde com nenhuma profundidade indiferenciada. Tal perspectiva, além de recusar a forma da pessoa e o ponto de vista da individuação, também procura dispensar qualquer referência à consciência — característica de uma avaliação fenomenológica — já que esta não poderia prescindir de uma síntese de unificação, representada pelas figuras do Eu ou do Ego.
"O que não é nem individual nem pessoal; ao contrário, são as emissões de singularidades enquanto se fazem sobre uma superfície inconsciente e gozam de um princípio móvel imanente de auto-unificação por distribuição nômade, que se distingue radicalmente das distribuições fixas e sedentárias como condições das sínteses de consciência." (Deleuze, 1969/1982, p. 105). Neste sentido, as singularidades seriam verdadeiros acontecimentos transcendentais, algo como
uma quarta pessoa do singular que, longe de serem individuais ou pessoais, presidiriam a gênese dos indivíduos e das pessoas. Na verdade, elas se apresentam como um potencial que não comporta por si nem Ego individual nem Eu pessoal, mas que os produz atualizando-se, efetuando-se. Segundo Deleuze, só uma teoria dos pontos singulares estaria apta a ultrapassar a síntese da pessoa e a análise do individuo, tais como elas se fazem na consciência.

Eis aí uma teoria radical do inconsciente enquanto pensamento puro, que faz dele um elemento subversivo, absolutamente desvinculado de qualquer formação consciente, e que possibilita pensar em formas de subjetivação também radicalmente estranhas à normalidade. De acordo com Deleuze, se o pensamento tradicional e a psicologia da consciência procuram nos impor como alternativa ou um Ser soberanamente individuado (forma altamente pessoalizada) ou um fundo indiferenciado — abismo sem diferenças, sem fundo, não-Ser informe — é porque não conseguem conceber singularidades determináveis que não estejam absolutamente aprisionadas em um Ego individual supremo ou um Eu pessoal superior. De um lado, teríamos o pensamento metafísico determinando de forma natural o Ego supremo como aquele que caracteriza um Ser infinito e completamente determinado por seu conceito, necessariamente individuado, rejeitando o não-ser — relegado a irrealidade —e delegando às individualidades finitas realidades radicalmente limitadas. Do outro, encontraríamos um pensamento transcendental que prefere a forma finita da pessoa, determinando este Eu superior como elemento que opera a permutação Homem-Deus, com a qual o pensamento ocidental se contentou durante tanto tempo. Ambos os casos nos deparam apenas com singularidades aprisionadas no campo da representação, humana ou divina.

Segundo Deleuze, só uma teoria dos pontos singulares
estaria apta a ultrapassar a
síntese da pessoa e a análise do individuo, tais
como elas
se fazem na consciência

A representação liga a individuação à forma do Eu e à sua matéria. Nestes termos, o Eu assume a forma da individuação superior e torna-se princípio de identificação e recognição para qualquer juízo de individualidade que incida sobre as coisas. "Para a representação, é preciso que toda individualidade seja pessoal (Eu) e que toda singularidade seja individual (Eu). Logo, onde se pára de dizer Eu, pára também a individuação; e onde pára a individuação, pára também toda singularidade possível." (Deleuze, 1969/1988, ps. 435-436, grifado no original). Um Eu passivo, como este, é apenas um acontecimento localizado em campos prévios de individuação, e que se constitui no ponto de ressonância de suas séries individuantes. Até mesmo o Eu divido, postulado por certas visões estruturais de inspiração hegeliana, ainda deixaria passar todas as idéias definidas por suas singularidades, elas mesmas prévias aos campos de individuação.

É contra tudo isso que Deleuze vai buscar em Nietzsche o mundo das singularidades impessoais e pré-individuais. Singularidades nômades, livres da individualidade fixa do Ser infinito e dos limites sedentários do sujeito finito.

Neste mundo dionisíaco da vontade de potência e da energia livre, deparamo-nos com algo que mesmo não sendo individual nem pessoal, é capaz de ser singular e ao mesmo tempo plural; mundo no qual é possível saltar de uma singularidade para outra. Este é também o mundo do "se" e do "eles", irredutível à banalidade cotidiana, onde se elaboram os encontros e as ressonâncias que transbordam o universo representacional. "Máquina dionisíaca de produzir o sentido e em que o não-senso e o sentido não estão mais numa oposição simples, mas co-presentes um ao outro em um novo discurso. Este novo discurso não é mais o da forma, mas nem muito menos o do informe: ele é antes o informal puro" (Deleuze, 1969/1982, p. 110). Nele não há mais sujeito, homem ou Deus, e muito menos homem no lugar de Deus. Trata-se apenas daquela singularidade livre, anônima e nômade, que percorre o mundo independentemente das matérias de sua individuação e das formas de sua personalidade. Eis aí o significado do além do homem nietzscheano, o tipo que se encontra para além de tudo aquilo que é.

Decorridos pouco mais de vinte e cinco anos após estas reflexões, Deleuze retoma o tema das singularidades em seu ultimo texto escrito — seu "testamento", de acordo com alguns comentadores —, publicado logo após a sua morte. Fato que talvez por si só sirva para atestar toda a importância atribuída pelo autor aos conceitos de individuação impessoal e singularidade pré-individual.
O breve artigo deleuziano tem um título intrigante, dadas as circunstâncias e o momento em que foi escrito: A imanência: uma vida... Nele encontramos uma tentativa de pensar o que poderia ser um campo transcendental, e já de saída nota-se a recusa das categorias de eu e sujeito para pensá-lo. Este campo pré-reflexivo, impessoal e a-subjetivo, "se define por um plano de imanência, e o plano de imanência por uma vida" (Deleuze, 1995/2001, p.28).

Diante da necessidade de descrever o que seria uma vida, Deleuze recorre a dois exemplos, um no campo da literatura, e outro especificamente atrelado à gênese das subjetividades. O primeiro é retirado do romance de Charles Dickens, Our mutual Friend, no qual um canalha desprezado por todos é reconduzido agonizante aos que conviviam com ele, e ocorre que eles passam a manifestar um certo respeito e amor pelo que restava do moribundo, tentando salvá-lo. Mas à medida que ele volta a viver, seus salvadores retomam a frieza habitual e ele reencontra toda a sua baixeza e vilania. Aqui, precisamente, teríamos apenas uma vida jogando contra a morte. Neste sentido, observa Deleuze, "a vida do indivíduo é substituída por uma vida impessoal, embora singular, que produz um puro acontecimento livre dos acidentes da vida interior e exterior, ou seja, da subjetividade e da objetividade do que acontece. 'Homo tantum' por quem todo mundo se compadece e que atinge uma certa beatitude. É uma hecceidade, que não é mais de individuação, mas sim de singularização: uma vida de pura imanência, neutra, além do bem e do mal, já que só o sujeito que a encarnava no meio das coisas a tornava boa ou má. A vida de tal individualidade se apaga em benefício da vida singular imanente a um homem que não tem mais nome, embora não se confunda com nenhum outro. Essência singular, uma vida..." (Deleuze, 1995/2001, ps. 28-29).

O outro exemplo empregado é o das crianças ainda bem pequenas que se assemelham umas às outras e não têm nenhuma individualidade, mas nas quais certamente encontramos singularidades: um sorriso, um gesto, um trejeito, particularidades que não são características subjetivas. Crianças como essas são atravessadas de uma vida imanente, que é pura potência ou beatitude no que diz respeito a seus sofrimentos e fraquezas. Com isto, Deleuze procura mostrar que uma vida não se reduz ao simples momento em que a vida individual afronta a morte universal, como no caso do romance de Dickens. "Uma vida está em todos os lugares, em todos os momentos que atravessa esse ou aquele sujeito vivo e que são medidos por determinados objetos vividos: uma vida imanente levando consigo os acontecimentos ou singularidades que apenas se atualizam em sujeitos e objetos" (Deleuze, 1995/2001, p.29). Consideradas por este prisma, as singularidades ou acontecimentos constitutivos de uma vida coexistem com os acontecimentos da vida correspondente a elas mas não se agrupam da mesma forma. Comunicam-se entre si de outra maneira que os indivíduos, na medida em que a vida impessoal não seria feita propriamente de tempos mas de entretempos. É assim que uma vida singular estaria apta a dispersar toda individualidade ou tudo que a individualiza.

Deleuze procura mostrar que uma vida não se reduz ao simples momento em que a vida individual afronta a morte universal
De acordo com Giorgio Agamben, esta imanência absoluta que se apresenta como vida não poderia mesmo ser atribuída a um sujeito. O lugar desta vida separável não está nem neste mundo nem em outro, mas entre os dois, numa espécie de intermundo feliz que ela parece só abandonar a contragosto. O que torna tão interessante a centelha de vida do personagem de Dickens é justamente o seu estado de suspensão no que diz respeito às normas e direitos. "Por isso Deleuze pode falar em uma vida impessoal, situada num limiar para além do bem e do mal" (Agamben, 2000, p. 180).

Ao que nos parece, foi esta singularidade de uma vida, formulada no testamento deleuziano, que inspirou Agamben a articular o conceito de singularidade qualquer ao domínio político da comunidade que vem. Para ele, a singularidade qualquer enquanto figura da singularidade pura, sem identidade, também não é simplesmente indeterminada. Na verdade ela se determinaria unicamente através de sua relação com a idéia da totalidade de suas possibilidades. Totalidade, esta sim, indeterminada e vazia, a partir da qual se poderia pensar na constituição de algum pertencimento; ponto de contato com um espaço exterior que permaneceria vazio. O que o qualquer acrescentaria à singularidade seria um limite vazio que faz dela uma singularidade finita e no entanto indeterminável segundo um conceito. "Uma singularidade acrescida de um espaço vazio não pode ser outra coisa senão uma exterioridade pura, uma pura exposição. Qualquer é, neste sentido, o acontecimento de um fora" (Agamben, 1990, p. 69, grifado no original). Nestes termos o fora não seria exatamente um outro espaço situado para além de um espaço determinado, mas justamente a exterioridade que lhe dá acesso, uma passagem. Esta experiência do limite, enquanto ser em um fora, seria o dom que a singularidade receberia da humanidade esvaziada de qualquer pessoalidade.

Ainda de acordo com Agamben, deslocando a imanência para a esfera da vida, Deleuze estava ciente de que penetrava num campo perigoso. Ele teria se apercebido perfeitamente "de que o pensamento que toma como objeto a vida compartilha deste objeto com o poder e deve confrontar-se com suas estratégias." (Agamben, 2000, p. 183). É a partir daí que o autor pretende retomar nos dias atuais a conotação política das singularidades pré-individuais às quais Deleuze fazia menção. A política da singularidade qualquer, de um ser cuja comunidade não é mediada nem por uma condição de pertencimento, nem pela ausência da mesma, mas pelo pertencimento enquanto tal, implicaria a relativa ausência de conteúdos reivindicativos precisos. Segundo ele, "a novidade da política que vem, é que ela não será mais uma luta pela conquista ou controle do Estado, mas uma luta entre o Estado e o não-Estado (a humanidade), disjunção irremediável das singularidades quaisquer e da organização estatal" (Agamben, 1990, p. 88, grifado no original). Este tipo de política nada tem a ver com a simples reivindicação do social contra o Estado que se expressa atualmente em certos movimentos de contestação. As singularidades quaisquer não poderiam compor uma sociedade na medida em que não dispõem de nenhuma identidade que possam fazer valer, nem de nenhum laço de pertencimento que poderiam fazer reconhecer.

Em última instância, como mostrava Deleuze, todo Estado pode reconhecer diversos tipos de reivindicação de identidade, e até mesmo a de uma identidade estatal no interior dele próprio
Em última instância, como mostrava Deleuze, todo Estado pode reconhecer diversos tipos de reivindicação de identidade, e até mesmo a de uma identidade estatal no interior dele próprio (o que é confirmado pelas relações entre terrorismo e Estado nos dias atuais). "Mas que singularidades constituam uma comunidade sem reivindicar uma identidade, que os homens co-pertençam sem uma condição de pertencimento representável (mesmo sob a forma de um simples pressuposto) constitui o que o Estado não pode tolerar em nenhum caso" (Agamben, 1990, p. 89). E isto porque o Estado não está verdadeiramente fundado num laço social, do qual ele seria apenas a expressão, mas sobre a ausência de laço que ele interdita. 
Para o Estado, portanto, como Deleuze também já havia indicado, o que importa não é jamais a singularidade enquanto tal, mas somente sua inclusão em algum tipo de identidade. Por estas razões, um ser privado de qualquer identidade representável seria absolutamente insignificante para o Estado. Neste sentido, a comunidade que vem — pautada na individuação impessoal e na singularidade qualquer, que rejeita peremptoriamente qualquer condição de pertencimento — será a principal forma de resistência ao modelo societário dominante na atualidade.

Referências bibliográficas:
Agamben, G. (1990) La communauté qui vient: théorie de la singularité quelconque, Paris, Seuil.
__________ (2000) "A imanência absoluta" in Alliez, E. Gilles Deleuze: uma vida filosófica, RJ, Editora 34.
Deleuze, G. (1968/2002) "Sur Nietzsche et l'image de la pensée" in L'île déserte et autres textes, Paris, Éditions de Minuit.
__________ (1969/1982) A lógica do sentido, SP, Editora Perspectiva.
__________ (1969/1988) Diferença e repetição, RJ, Editora Graal.
__________ (1995/2001) "Imanence: a life..." in Pure imanence, N. York, Zone Books.
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Oficina de bioética


Felix Guattari nos fala da emergência de um paradigma estético, ou, mais largamente, estético e ético-político, que atravessaria todas as regiões do saber e do fazer — isto é, das técnicas e das artes, das ciências, do pensamento e da política — contemporâneos.

Diz ele, em Caosmose: "O paradigma estético processual trabalha com os paradigmas científicos e éticos (...) instaura-se transversalmente à tecnociência porque os [processos de desenvolvimento desta] são, por essência, de ordem criativa e tal criatividade tende a encontrar a do processo artístico (...) tem implicações ético-políticas porque quem fala em criação fala em responsabilidade da instância criadora em relação à coisa criada(...) mas essa escolha ética não mais emana de uma enunciação transcendente, de um código de lei ou de um deus único e todo-poderoso (...) a própria gênese da enunciação encontra-se tomada pelo movimento de criação processual"(1).

O que era da ordem das artes e da experiência estética é assim ampliado e passa a estar presente em todas as outras ordens, a atravessar outros campos de experiência, antes definidamente separados dela. Segundo Guattari, a força do paradigma estético já estaria latente desde o Renascimento, mas tenderia a se tornar dominante agora, em função de uma propriedade nova de transparência ou transversalidade entre as várias camadas de nossa experiência.


Simondon toma
os operadores da Física Quântica como base para
desenhar uma outra ontologia.
Ele mostra como ao longo
da história da filosofia e das ciências ocidentais,
jamais se pensou o processo de individuação — isto é,
a história de como algo se torna algo e sempre se tomou o
indivíduo como já dado

A história deste paradigma como conceito filosófico, metamodelizador de práticas científicas, educativas, terapêuticas, políticas, a partir dos mesmos operadores, é uma história que se deve começar a contar a partir da obra de Gilbert Simondon, biofísico e filósofo, mestre de Gilles Deleuze.

Simondon toma os operadores da Física Quântica como base para desenhar uma outra ontologia(2). Ele mostra como ao longo da história da filosofia e das ciências ocidentais, jamais se pensou o processo de individuação — isto é, a história de como algo se torna algo e sempre se tomou o indivíduo como já dado. Isto acontece tanto na forma aristotélica que se imprime à matéria, a forma, como idéia platônica, que já sai pronta da cabeça do criador — ele chama a concepção aristotélica de tecnológica, como no atomismo, desde Demócrito e Leocipo, em que as coisas, os seres, em geral, não passam de conjuntos de átomos, que se reúnem e se dispersam, mas constituídos por algo já pronto: átomos, 'os que não têm partes', como os indivíduos, os que não se dividem.

Tudo muda com a dimensão quântica do pré-individual. O que se individua sai desse todo ou desse nada, conjunto de todos os potenciais, em transformação veloz e inidentificável, quando dois ou mais potenciais são, por acaso, içados fora do plano pré-individual e uma informação passa a circular de um a outro. Enquanto a informação se faz, e isto tem um ritmo, uma repetição criadora, algo está alí individuando. O que está individuando, no entanto, nunca deixa de ser atravessado pelos fluxos potenciais de onde surgiu, e pode incorporar esses potenciais e mutar, mudar de estrutura ou ser dissolvido, voltar ao caos de onde se originou. A forma mais rica desses sistemas físicos mutantes é a vida, o ser vivo: estruturas continuamente abertas e se replicando. Para pensar o movimento do vivo, ele cria a categoria de metaestabilidade: fala do que está num movimento constante entre o estável - a estrutura - e o instável, a mutação. Mas, Simondon mostra, o modelo da individuação não se encontra só no mundo físico e no vivo, ele também aparece no psiquismo e no coletivo humanos — não há, por sinal, individuação psíquica que não seja imediatamente coletiva. Ele se encontra, também, tanto no ser quanto no conhecer. Não há diferença entre os modos, os movimentos com que a Natureza se cria e os modos como os homens constróem seu conhecimento da Natureza, do Cosmos ou de si-mesmos. Simondon recupera um monismo ontológico como os de Duns Scotus ou Espinosa.

Num capítulo especialmente marcante de Mil Platôs, Deleuze e Guattari continuam esta história na construção do conceito de ritornelo. Mostram como os movimentos, os encontros, as seleções arbitrárias de matérias e ritmos com que a Natureza se faz a si mesma, repetem-se nos modos de territorialização dos pássaros, em muitas espécies de peixes, em todos os mamíferos; repetem-se na ordenação das primeiras formas de socius humanos, dos cantos tribais à especialização do trabalho e profissões, como nos modos e pensamento da arte; referem-se ao pensamento de artistas contemporâneos como Paul Klee, Messiaen ou Stockhausen. Física, Etologia (o estudo dos comportamentos dos animais), Etnologia e Estética trocam livremente suas matérias e operadores. A Arte não começou com os homens. Toda a Natureza, todo o Cosmos é Música. Processos de consolidação, de consistência, sempre à beira de dissoluções catastróficas, da atração por Buracos Negros. O ritornelo, em sua repetição diferencial tem como vetor, como eixo constitutivo, um movimento desterritorializante. Constituir-se súbita e arbitrariamente para sair do caos (ou não consegui-lo e ruir de volta ao caos) repetir sua forma, sua canção mágica, e partir em variações em direção a outros territórios. O único sentido de ter uma forma é poder sair dela. Tema e variações. Temas-variações e Variações-temas.(3)
 


Deleuze e Guattari
continuam esta história na construção do conceito de ritornelo.
Mostram como os movimentos,
os encontros,
as seleções arbitrárias de
matérias e ritmos com que a Natureza se faz a si mesma,
repetem-se nos modos de territorialização dos pássaros, em muitas espécies de peixes, em todos os mamíferos...


Num movimento semelhante, vemos os biólogos Humberto Maturana e Francisco Varela criarem a noção de autopoiese e passarem a tratar o ser vivo como processo cognitivo, ao mesmo tempo em que pensam a cognição como processo criador. Da ameba a Mozart ou Einstein, todo ser vivo é um contínuo processo criador, não de mera adaptação a um meio como pensava o funcionalismo darwinista, mas como simultânea invenção do meio e de si mesmo. Ao encontrar as diferenças no mundo — e o mundo é, por excelência diferença — , os seres vivos criam ao mesmo tempo os modos desse mundo lhes ser dado e a si mesmos, como se "sendo posta a vontade de ver, o olho fosse formado". Pois não são as condições ambientais, ou a "necessidade" que determinam a procura de uma solução como pensa o Cognitivismo, mas criar significa primeiramente o processo de determinar as condições, ou: o primeiro movimento é criar o problema. O ser vivo como autopoiético, cria continuamente a si mesmo e a seu mundo. (4)

Outro filósofo e sociólogo das ciências, Bruno Latour, criou a noção de rede para pensar os coletivos heterogêneos que, na realidade, são os responsáveis e o próprio objeto da produção científica atual.

Incontáveis mediadores operam entre a inteligência do cientista e a natureza, entre o sujeito e o objeto da investigação. Estes mediadores são intrumentos disponíveis, artigos científicos e outros documentos selecionados como pertinentes, competências tecno-científicas, mas também administrativas, dos pesquisadores, recursos financeiros destinados ao projeto por instituições de fomento ou indústrias, interlocutores científicos, parceiros comerciais etc. Todos esses elementos heterogêneos -- reais, coletivos e discursivos -- participam do processo de criação da ciência , como formula Virginia Kastrup, lembrando que, com o conceito de rede, Latour faz uma leitura empírica e pragmática da ciência(5), contra a perspectiva epistemológica que a abstraía de seu fazer efetivo e pensava-a como discurso exclusivamente comprometido com a verdade.

Latour cria a noção de 'híbrido' para falar dos objetos produzidos pelo conhecimento, no nosso trato cotidiano: não são nem os objetos naturais purificados, da ciência; nem objetos resultantes do modo determinado da organização social em que aparecem; nem objetos de linguagem, com sua forma dada pela ordem do discurso. São exatamente e necessariamente o misto destas três abordagens (6).

Kastrup lembra que o modelo das redes de Latour é inspirado na noção de rizoma, de Deleuze e Guattari, e segue o 'método' do pensar rizomático, formulado pelos dois em Mil Platôs. Este método tem como primeiro e segundo princípios os da conexão e da heterogeneidade: não importa qual ponto do rizoma pode ser conectado a não importa qual outro (...) elos semióticos de toda natureza são conectados a modos de codificação muito diversos, elos biológicos, políticos, econômicos etc, colocando em jogo não só regimes de signos diferentes, como também estatutos de estados de coisas.

O terceiro princípio é o da multiplicidade. Multiplicidade é uma entidade matemática que Bergson primeiro utilizou ao falar do caráter da duração como tempo, cuja matéria é qualitativa. Ele não cresce sem mudar de natureza. Multiplicidade é um número que não é nem uno nem múltiplo. Nem a inteireza do uno, nem a dispersão do múltiplo, ele é um todo aberto. Diz o terceiro princípio do rizoma: uma multiplicidade não tem sujeito nem objeto, mas somente determinações, grandezas, dimensões que não podem crescer sem que ele mude de natureza.

O quarto princípio é o da ruptura assignificante: contra os cortes muito significantes que separam as estruturas ou atravessam uma estrutura. Um rizoma pode ser rompido ou quebrado em qualquer lugar, ele retoma seguindo tal ou tal de suas linhas ou seguindo outras linhas (...). Há ruptura no rizoma cada vez que as linhas segmentárias explodem numa linha de fuga, mas a linha de fuga faz parte do rizoma.

Pierre Levy, filósofo e informático, criador de um softwareAs árvores do conhecimento —cuja função é potencializar um projeto democrático em instituições de grande porte, através da completa horizontalidade na troca de informações e organização situacional de coletivos, em rede informatizada(7) , retoma esta linha em seu texto sobre as Tecnologias da inteligência.

Como os rizomas de Deleuze e Guattari, as redes de Latour (...) não respeitam as distinções estabelecidas entre coisas e pessoas, sujeitos pensantes e objetos pensados (...). Tudo que for capaz de produzir uma diferença em uma rede será considerado como um ator (...). Esta concepção do ator nos leva a pensar de forma simétrica os homens e os dispositivos técnicos. As máquinas são feitas por homens, elas contribuem para formar e estruturar o funcionamento das sociedades e as aptidões das pessoas, elas muitas vêzes efetuam um trabalho que poderia ser feito por pessoas (...) (8)

Levy mostra como tanto as máquinas informáticas são dispositivos de inteligência atuando em interface com os humanos ou permitindo redes de subjetividades cuja produção é uma inteligência coletiva, como as próprias instituições sociais — escola, família, hospital, burocracia estatal... — devem ser pensadas como máquinas com funções, memória, efeitos de inteligência determinados, em interface com as subjetividades que as 'habitam'.


Voltando a Guattari, é preciso conhecer o dinamismo de seu sistema de quatro funtores — em Cartografias esquizoanalíticas— , dirigidos tanto para a leitura de acontecimentos culturais e políticos, quanto para a prática clínica. Proposto como um projeto estético/pragmático e não como científico, este sistema é uma das ricas fontes de operadores para o trabalho clínico, como para o político ou o pedagógico, criado nos últimos anos. Seus funtores são (1) os Territórios Existenciais, i.e. comportamentos, modos de ser organizados, práticas técnicas, artísticas, amorosas, políticas, etc ¾ que se ligam aos (2) Universos Incorporais das religiões, ideologias, filosofias, ciências, teorias de qualquer gênero; e os (3) Fluxos — econômicos, técnicos, políticos, libidinais etc — com seu funcionamento maquínico, que se ligam, aos (4) phylum maquínicos, i.e., à memória e à imaginação das máquinas ¾ tanto as máquinas técnicas, quanto as sociais... (9)Os funtores se articulam nas seis direções, ou seja, não há instância determinante e instância determinada; não há infraestrutura e superestrutura, todas as dimensões interagem com efeitos diversos.

A aplicação do paradigma estético e de seus movimentos presentes nos autores citados aponta para a possibilidade de inovações na prática pedagógica. Vou esboçar algumas direções.



Varela discute
a compreensão da
aprendizagem nas várias teorias cognitivas e mostra
que tanto nas cognitivistas
quanto nas conexionistas
(baseadas na neurologia da emergência),
a aquisição de conhecimento
depende de uma representação,
ou é mediada
pela representação

A partir da compreensão de uma integração prévia entre organismo e meio e de um processo independente, criador de novas ordens no organismo - autopoiese - ao mesmo tempo rearticulador disso que se entende por meio, Varela cria a noção de 'enação'. Varela discute a compreensão da aprendizagem nas várias teorias cognitivas e mostra que tanto nas cognitivistas quanto nas conexionistas (baseadas na neurologia da emergência), a aquisição de conhecimento depende de uma representação, ou é mediada pela representação.

Na enação, ao contrário, aproveitando esse sistema de acoplamento metaestável organismo-meio, há aprendizagem sem representação. Há uma espécie de emergência de novas habilidades, de novos operadores, sem a necessidade de se representá-los (10). É muito fácil perceber esse processo no aprendizado de habilidades físicas, nos esportes, na dança ou no aprendizado de instrumentos musicais. As práticas de conjunto, com estudantes de níveis variados, por exemplo, costumam acelerar surpreendentemente a aprendizagem dos mais novos, saltando estágios considerados analiticamente sucessivos. Mas o mesmo se dará na aprendizagem de habilidades intelectuais, de construção conceitual e teórica, como experimentamos nos grupos de pesquisa que há pouco começamos a formar em nossas universidades, integrando participantes dos vários níveis de formação - alunos da graduação, mestrandos, doutorandos e seus orientadores, mestres e doutores.

A estratégia esquizoanalítica de Guattari, montada sobre os seus quatro funtores, aponta para a expectativa de movimentos emergentes de produção de conhecimento sem nenhuma ordem pre-definida, a partir da atuação em vários campos simultâneos, práticos e teóricos, de organização de grupos de interesse, de agenciamentos entre a escola e outras instâncias sociais produtivas, de serviços, de ação política ou criadora, artística, técnica etc. É evidente que isto implica mudança radical da forma-escola, de seu modo de instituição, tendo como primeiro aspecto a desmontagem das fronteiras que promovem sua segregação em relação às outras instâncias sociais.

A escola, hoje, é uma espécie de prolongamento patológico da instância familial, em que as professoras são 'tias' e onde se reproduzem tantos os índices etológicos da família (a competição mortal entre os irmãos, a seleção moral dos 'bem comportados' e dos 'rebeldes', os 'que não vão dar certo' e os 'perturbados' e 'perturbadores') tantos os modos de 'fatalizar' o ritual de passagem para a idade adulta e de reproduzir as posições sociais de classe.

Assim como Guattari critica a psicanálise pela sua fixação patológica no pequeno teatro familiar e propõe, no lugar do inconsciente familial, um inconsciente maquínico produtivo, onde estão presentes todas as instâncias sociais, culturais, ecológicas, etológicas, e maquínicas que intervêm na produção de subjetividade, a Escola deve ser espaço de agenciamento de todas estas instâncias. A questão é que os agenciamentos se fazem de modo arbitrário.

Pierre Levy propõe que as redes de computador interativas criam o suporte para novos movimentos de criação/produção de conhecimento, tornando possível o surgimento de 'inteligências coletivas', isto é, modos em que se curto-circuita a separação entre produção e distribuição de conhecimento. As duas são simultâneas. Levy fala da sinergia que move estas 'inteligências coletivas', em trabalhos em equipe, quando a proposição de um se prolonga na do outro, dos outros, em tempo real — mensagens que se ampliam/reformam/crescem/ transformam no ato da troca. O que significa isso para o ambiente escolar?

Todos esses meios, e novos operadores para a prática educativa, têm um caráter ético e político determinado; implicam mudanças na vida escolar, na formação dos professores, nos processos de administração da educação; e dependem portanto de uma mudança de mentalidade muito mais ampla, de uma verdadeira revolução ético-política que não se realiza, certamente, de forma independente, apenas no sistema educacional ou no ambiente escolar.

(1) Guattari, Felix. Caosmose, um novo paradigma estético. Trad. de Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro, 34 letras, 1992, 136-137.
(2) Simondon, Gilbert. L’individu et sa génèse physico-biologique. Paris, 1964.
(3) Deleuze, Gilles e Guattari, Felix. Mil Platôs. Capitalismo e esquizofrenia. Vol.4, “Do Ritornelo”, São Paulo, 34 letras, 1997.
(4) Maturana, Humberto R. e Varela, Francisco J. Autopoiesis and cognition. The realization of the living. D. Reidel, The Netherlands, 1980; A árvore do conhecimento. As bases biológicas do entendimento humano, Editorial Psy, Campinas, 1995.
(5) Kastrup, Virginia. A invemção de si e do mundo - uma introdução do tempo e do coletivo no estudo da cognição. Tese de Doutorado / Psicologia Clínica / PUC-SP, 1997.
(6) Latour, Bruno. Jamais fomos modernos. Trad. de Carlos Irineu da Costa. Editora 34, Rio de Janeiro, 1994.
(7)Ver. Levy, Pierre e Authier, Michel. As Árvores de Conhecimentos. Trad. de Monica Seincman. São Paulo, Escuta, 1995.
(8) Levy, Pierre. As tecnologias da inteligência. O futuro do pensamento na era da informática. Trad. Carlos Irineu da Costa. Ed. 34, Rio de Janeiro,1993, p.137.
(9) Guattari, Felix. Cartographies Schizoanalytiques. Paris, Galilée, 1989.
(10) Varela, Francisco.
Conocer. Gedisa Ed., Barcelona, 1992
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