sábado, 16 de outubro de 2010

DIVULGAÇÃO: A moral da boa forma e a impossibilidade do corpo perfeito

15/10/2010 - A moral da boa forma e a impossibilidade do corpo perfeito.
Entrevista especial com Paula Sibilia
Atualmente, o corpo é “punido” e desprezado por mostrar sua materialidade e substância. O que se espera é que sejamos sempre jovens, limpos e puros, numa verdadeira moral da boa forma, que não admite poros, rugas, marcas de expressão, gorduras, velhice. Tudo deve ser “deletado”, e programas como o Photoshop criam pessoas irreais, com corpos inatingíveis para um padrão humano saudável física e psicologicamente. As constatações são da pesquisadora argentina Paula Sibilia e podem ser lidas na entrevista que concedeu, pessoalmente, à IHU On-Line. Segundo ela, os corpos são inadequados justamente “porque são corpos, pelo fato de serem carnais, tridimensionais, terem consistência orgânica, biológica, viscosa. Tudo isso desmente a imagem ideal alardeada hoje. O fato de um corpo ser vivo é um fator contrário à possibilidade de imutabilidade, fixidez de um corpo ideal”. Há uma verdadeira paranoia em busca do corpo perfeito, e a “imagem vísivel, a imagem corporal, é cada vez mais pensada como tudo o que somos”. Por trás dessa concepção, repousa o mercado, que lançou seus tentáculos inclusive em nosso corpo e nossa alma. Investir no corpo virou imperativo, e se gerenciar enquanto marca é preponderante para quem quer ser cotado como empregável.
Paula Sibilia acentua que a materialidade das pessoas vem sendo negada, algo bastante contraditório depois da liberação corporal iniciada nos anos 1960. Trata-se de uma moral da boa forma, na qual todos estão fora do padrão estético imposto. Na conversa com a IHU On-Line, a pesquisadora falou também sobre a espetacularização da intimidade em nossos dias, assim como o uso de ferramentas como o Facebook e Twitter. Ela reflete que somente aqueles que aparecem na mídia, que são mencionados, presentes e visíveis, são legitimados como existentes e importantes. Quem não tem essa visibilidade está ameaçado pela inexistência, não tem estatuto de real ou não interessa.
Graduada em Ciências da Comunicação, pela Universidade de Buenos Aires (UBA), Paula é mestre na mesma área, pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e doutora em Saúde Coletiva, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, é professora no Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Entre suas obras, citamos O homem pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais (Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002) e O show do eu (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008). Em 2008, participou do Simpósio Internacional Uma sociedade pós-humana? possibilidades e limites das nanotecnologias, realizado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Em 2010 esteve novamente na Unisinos proferindo a conferência Biotecnologias, ciências da vida e produção de subjetividade na sociedade contemporânea, dentro da programação do XI Simpósio Internacional IHU: o (des)governo biopolítico da vida humana.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Por que o culto ao corpo cria tanta infelicidade?
Paula Sibilia – Há um ideal de adequar o próprio corpo a uma imagem "real", tão irradiada e ressaltada pela mídia. Isso se tornou uma obrigação, mas não no sentido de uma lei, que faz com que todo mundo tenha esse corpo. Trata-se de uma obrigação mais sutil, mas também mais eficaz, porque gera o desejo de ter esse corpo. Isso é ainda mais complicado, pois queremos ter, e por isso estamos ainda mais obrigados a isso. É uma espécie de moral da boa forma. Temos que ser assim. Isso cria infelicidade por vários motivos, primeiramente porque esse é um ideal cada vez mais inacessível. Muitos corpos jamais chegarão a esse padrão nem seguindo à risca, nos mínimos detalhes, o receituário prescrito.
Hoje os corpos têm, ainda, a interferência digital em suas fotos. O Photoshop tira todos os "defeitos", ou tudo aquilo que está fora da ordem, como rugas, marcas de expressão, gorduras. Isso tudo é deletado. Cria-se um corpo sem carne, descarnado. Fisicamente, esse é um ideal impossível. Pensemos na boneca Barbie, por exemplo. Ela tem medidas inatingíveis para um ser humano.
Além disso, parece-me que hoje o corpo é punido por mostrar a sua materialidade, sua substância. Na medida em que esse corpo se demonstra em sua carne, em sua cotidianidade, que está no tempo e que tem substância material, ele é desprezado. O que se espera do corpo é que ele deveria se comportar como imagem sempre jovem, limpa e pura. Por isso digo que é uma moral da boa forma, que castiga e pune tudo que venha contradizer isso.
"É possível comprar pílulas que mudam o estado de ânimo, o modo de ser. Se me sinto triste, posso comprar felicidade. Isso contribui para uma redefinição do que é o corpo humano"
IHU On-Line – E por que as pessoas se preocupam tanto com seus corpos hoje em dia? A aparência se converteu em nossa essência?
Paula Sibilia – A cultura moderna, da sociedade industrial dos séculos XIX e XX em diante, pensou a condição humana e sua subjetividade como alguém que tem uma interioridade. Para além do corpo, que era pensado como uma máquina, se projetava o humano com uma interioridade, com essência. Pensava-se o corpo como habitado por uma energia imaterial, inacessível, oculta, mistoriosa – a alma. Com os desenvolvimentos mais recentes da ciência da vida, da neurociências e também do fenômeno do culto ao corpo, a verdade sobre cada um está se deslocando da essência interiorizada para outras instâncias, como a imagem corporal. Cada vez mais, o que somos se revela a partir do que projetamos como imagem, mas também a célula, o código genético, a neuroquímica cerebral, guardam a nossa verdade. Haveria, então, um movimento de redefinição sobre o que é o sujeito. Essas essências não tão essenciais começaram a ganhar mais espaço em nossos dias. E as essências visíveis estão recebendo papel preponderante. Já as outras entidades biológicas são invisíveis apenas porque são muito pequenas, mas hoje se tornam visíveis porque há máquinas capazes de mostrá-las. O código genético, por exemplo, está cada vez mais observável, objetivável, decifrável, pois o vemos na tela do computador. Ocorre o mesmo com a neuroquímica do cérebro. Talvez a aparência não seja a melhor palavra para falar delas, porque essa palavra vem carregada de uma tradição que leva uma carga de mentira e engano (as aparências enganam).
Além disso, as aparências remetem a uma essência, que seria a aparência, mas que na verdade é uma visibilidade, porque não remete a uma instância anterior e mais verdadeira, que seria a essência. Há um deslocamento, portanto, da essência, como algo que antes poderia ser chamado de aparência visível, mas não é aparência porque não remete à essência. A imagem vísivel, a imagem corporal, é cada vez mais pensada como tudo o que somos. Se temos alguma coisa valiosa, ela deve estar inscrita no corpo, com sinais, tatuagens. Não haveria outra coisa. Acredito, contudo, que isso seja ainda mais claro com essas entidades biológicas porque, quando a neuroquímica do cérebro for completamente decifrada, ela hospedará toda a verdade.
IHU On-Line – E é dentro desse contexto que surge o culto ao cérebro, ao qual a senhora se refere em suas pesquisas?
Paula Sibilia – O culto ao cérebro faz parte dessa transição da essência interiorizada para uma redefinição do que é o corpo, que passa, sobretudo, pelas ciências da vida mas também uma redefinição sobre o que é o ser humano. Trata-se de um novo corpo e de uma nova subjetividade, assim como a interioridade psicológica era compatível com o corpo mecânico, o homem máquina dos filmes de Chaplin, dotado de um corpo útil para aquele projeto de sociedade industrial. A interioridade psicológica também era útil para esse tipo de sociedade, com o ideal de cultura letrada, com a leitura e escrita como as principais ferramentas de construção de si, não só para a redação de romances, mas de cartas e diários. Um dos fatores dessa mudança, além das tecnociências em geral, são os meios de comunicação, cada vez mais interativos e imediatos.
"A materialidade das pessoas vem sendo negada. É surpreendente que se tenha esse desejo depois da revolução dos anos 1960, com a liberação corporal"
Investimento no corpo
O mercado também se inseriu em espaços antes alheios à sua lógica e lugar originários. Hoje a lógica do mercado e das empresas é aplicada às nossas vidas. Por isso, "investimos" no corpo e em nossas carreiras. Esse termo passou a ser bastante usado. Precisamos mudar e atualizar o cabelo, o visual, fazer um upgrade. A lógica empresarial tem sido aplicada a tudo. Isso também se dá com o corpo, com as roupas. Além disso, há algo que vai ainda mais adiante, que seria a administração de si como uma marca, uma imagem e cotações, que colocam valores às pessoas, conforme seu sucesso, desempenho e o que se vê.
Claro que o mercado estava presente nos séculos XIX e XX, na sociedade capitalista, mas nas últimas décadas ele está se infiltrando em áreas em que antes não atuava, e que se consideravam esferas alheias à sua alçada, como a alma, por exemplo. Cada vez mais, essas esferas estão moduladas pelo mercado. É possível comprar pílulas que mudam o estado de ânimo, o modo de ser. Se me sinto triste, posso comprar felicidade. Isso contribui para uma redefinição do que é o corpo humano, comandado por informação, tecnologia e biogenética, divulgadas pelos meios de comunicação, na qual há uma aliança com o mercado. Mas há, também, uma redefinição sobre o que é o ser humano. É outra a nossa alma que é compatível com esse corpo informatizado, e essa “alma” é definida, cada vez mais, pela informação. É a nossa informação que nos faz ser o que somos, mais do que outra entidade não palpável, objetivável.
IHU On-Line – Como fica a questão da identidade, da singularidade da beleza, com o advento do Photoshop e do corpo magro e malhado como ideal?
Paula Sibilia – Trata-se de uma perfeição curiosa, pois não tem poros. Há vários trabalhos sobre tipos de sofrimentos psíquicos que vêm sendo registrados nos consultórios de psicanalistas e psicólogos. Os adolescentes, sobretudo, têm dificuldades de aceitar os próprios poros. Aos 16 anos, pensam que têm rugas, enxergam gordura onde não existe. Esses pequenos indícios de humanidade são perseguidos. O poro, por exemplo, é o que nos conecta com o mundo, por onde entram e saem fluidos. Os poros nos tornam porosos, permeáveis, nos conectam com os outros. Agora eles são considerados defeitos. Isso é realmente curioso. Talvez se descubram substâncias, como já tem sido feito em certa medida, como maquiagens e botox, que plastificam a pele e dissimulam a condição porosa de nossa pele. Mas os poros, de fato, nunca deixarão de existir. A materialidade das pessoas vem sendo negada. É surpreendente que se tenha esse desejo depois da revolução dos anos 1960, com a liberação corporal. Esse sofrimento ligado ao corpo é novo, ligado com a aparência e o aspecto. Ele não é conectado à moral tradicional, repressora. Trata-se de uma outra moral, a da boa forma, que é tão ou mais forte do que aquela que existia antes dos anos 1960.
Concentração no umbigo
As anoréxicas, por exemplo, se organizam em blogs defendendo seu estilo de vida. Elas defendem a possibilidade de não comer como sendo um estilo de vida, e não como uma doença. Elas odeiam, tem nojo da gordura e dos gordos. Na verdade, odeiam a si próprias, porque, em verdade, jamais conseguirão estar livres de qualquer gordura. Isso mostra uma total concentração no próprio umbigo, porque só conseguem pensar em sua imagem corporal, em seu peso. Se você acompanhar esses blogs, irá perceber que o assunto recorrente é a respeito do que comeram, o que deixaram de comer, como conseguiram enganar os pais dizendo que comeram, quando na verdade não o fizeram. Essas jovens só pensam nisso e não conseguem desdobrar suas forças no mundo, criar, agir. Ouvi falar do caso de um garoto que tirou a luz do banheiro para que não precisasse enxergar seus próprios poros e rugas, sua imagem. Isso extrapola o sofrimento pessoal, e vira uma paralisação. Essas pessoas não conseguem agir no mundo, contribuir na sociedade, se relacionar com os outros.
IHU On-Line – Em nossa sociedade, o que significa estar fora do padrão estético?
Paula Sibilia – Se continuarmos nesse raciocínio, tudo e todos estariam fora do padrão estético. A imagem idealizada, irradiada pela mídia e com intervenção tecnológica, é impossível de atingir. É um padrão ideal que cada vez mais se torna um modelo a ser copiado, não só admirado. Esses corpos exemplares deveriam ser imitados. Há uma pressão por copiar, imitar, encarnar no próprio corpo esse ideal, que nunca atingiremos, nem mesmo as modelos. Isso porque, se uma modelo chega a certo patamar, ela irá retroceder em função da idade, indiscutivelmente. Os corpos são inadequados porque são corpos, pelo fato de serem carnais, tridimensionais, terem consistência orgânica, biológica, viscosa. Tudo isso desmente a imagem ideal alardeada hoje. O fato de um corpo ser vivo é um fator contrário à possibilidade de imutabilidade, fixidez de um corpo ideal. Então, não se trata só de sofrimento individual, mas de repercussão no mundo, de ação, já que há uma obsessão no corpo, uma concentração excessiva nele. Há um investimento enorme que faz com que as pessoas não tenham nem mesmo energia para outras preocupações.
"Os adolescentes, sobretudo, têm dificuldades de aceitar os próprios poros. Aos 16 anos, pensam que têm rugas, enxergam gordura onde não existe. Esses pequenos indícios de humanidade são perseguidos"
IHU On-Line – A velhice também se enquadraria nessa categoria em função de que as pessoas não aceitam envelhecer e estão cada vez mais interferindo em seu corpo de forma reiterada, com plásticas sucessivas, por exemplo? O que isso demonstra sobre a subjetividade de nossos contemporâneos?
Paula Sibilia – Sim, a velhice passou a ser considerada, em certo sentido, uma patologia que tem que ser evitada. É nesse sentido que as ciências da vida buscam desprogramar o envelhecimento geneticamente, ou então através da bioquímica. Se isso não for possível, há que se dissimular os sintomas visíveis na pele, ou na performance, no desempenho. As pessoas não querem cair nessa categoria de velho, que soa como um insulto. Há, inclusive, o eufemismo da terceira idade. Mais recentemente, foi criado outro ainda mais hipócrita, que é a "melhor idade".
Há uma estigmatização da velhice que concorda com todos esses fatores que estamos analisando. Os velhos não se enquadram no ideal do corpo liso e performático. É curioso porque nem sempre foi assim, essa é uma consequência indesejada dos movimentos de reivindicação da juventude, da segunda metade do século XX e do ideal do jovem como aquilo que todos deveríamos ser. A cultura ocidental não costuma valorizar a experiência dos anciãos, por exemplo. Aquele que sabe, no Oriente, é aquele que viveu mais tempo, e não o jovem, que ainda está começando. Hoje, isso faz cada vez menos sentido em nossa sociedade. O velho é estigmatizado porque não conhece as novidades, como o computador, o Facebook, o Twitter. Nas empresas, no mercado de trabalho, os mais cotados para contratação são os jovens. As pessoas com mais de 30 anos são consideradas velhas, porque não têm a capacidade de se conectar com o novo, o recente. Isso inverte a lógica da experiência. O velho, cada vez mais, é estigmatizado porque não sabe, porque está ligado ao mundo passado, e por isso não serve mais. O que serve, agora, é saber manusear essa infinidade de aparelhinhos, e ser rápido nisso. Alguém que não está acostumado com essa situação fica nervoso, pois há uma espécie de bloqueio em função da idade. Parece até que isso é um grande valor. As coisas mudam tão rapidamente, e isso não se sustenta.
IHU On-Line – Qual é a relação que podemos estabelecer entre a construção da subjetividade e a sociedade do espetáculo? Por que é tão importante desvelar a intimidade publicamente?
Paula Sibilia – Quando Guillebaud escreveu A sociedade do espetáculo, nos anos 1960, ele afirma que a sociedade do espetáculo só é o que se vê. É essa reivindicação das aparências de que falamos há pouco. Só se é o que se vê, o que aparece, e da maneira que aparece. A aparência não engana mais. Se é o que se vê, isso é o que é. E só é aquele que aparece, que está na mídia, que é mencionado, presente e visível. Aqueles que não têm acesso a essa visibilidade, estão cada vez mais marcados pela ameaça de inexistência, não têm estatuto de real, ou então não interessam. Essas ferramentas novas, como Orkut e Facebook, vêm apoiar e reforçar esse fenômeno. Não é por acaso que foram inventadas agora. Elas servem para processar o que somos. Nossa sociabilidade está atravessada por essas formas de se tornar visível, de ser famoso, notado e visto para poder ser alguém. Não é por acaso que essas ferramentas sejam tão populares. Há algum tempo atrás, mesmo que elas existissem, não teriam a mesma adesão. A intimidade não era importante, era algo que deveria ser preservado, resguardado. Não era interessante mostrar aos outros a nossa intimidade, bem pelo contrário. Se isso acontecesse, seria entendido como uma violação. Era o caso dos diários íntimos, trancados com chaves. Se fossem lidos, poderia haver até suicídio de seu autor, além de tremendos dramas pessoais. Os diários eram um diálogo apenas consigo mesmo. Hoje, a intimidade não é maios aquilo que costumava ser. Há uma vontade de mostrar o que acontece em nossa esfera privada, o espaço considerado mais verdadeiro e ideal da vida de cada um. Então, deve ser visto para que sejamos aquilo que é visto, senão, não seremos nada.
IHU On-Line – De que forma essa espetacularização da vida altera as relações sociais?
Paula Sibilia – Essas ferramentas são de construção de subjetividade, mas também de sociabilidade enorme. As pessoas vivem conversando, fazendo trocas, o que é fundamental, nem que seja porque o outro "confirma" que existo, o que é fundamental para que eu me espelhe no olhar do outro. É um tipo de sociabilidade, contudo, é diferente daquela dos séculos XIX e XX. A quantidade de contatos que temos na internet é enorme, com listas de amigos, seguidores. No paradigma da intimidade, se tinha contato com um número muito restrito de pessoas. Era um outro tipo de contato, com outras premissas, ambições e regras do jogo. O tipo de contato atual se baseia na rapidez, na quantidade e na mutabilidade. O Twitter é bem gráfico nesse sentido: só se podem escrever 140 caracteres. Temos que ser rápidos, o que faz todo o sentido. Se você tem muitos contatos, as pessoas têm que ler com rapidez o que se escreve. É um tipo de sociabilidade que tem essas regras não por acaso. Calcula-se o valor de uma pessoa no Twitter pela quantidade de seguidores que tem. É uma lógica de mercado, com cotações.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

DIVULGAÇÃO: A educação sob os parâmetros da biopolítica: o efeito Foucault

A educação sob os parâmetros da biopolítica: o efeito Foucault
Para o professor Sílvio Gallo, a principal contribuição que a filosofia da diferença dá à educação é o fato de que ela compreende a “necessidade de tomar a diferença conceitualmente em si mesma e não como representação ou identidade”. Em entrevista concedida à IHU On-Line, por telefone, o filósofo sobre como as filosofias da diferença, principalmente aquelas pensadas por Deleuze, Foucault e Derrida, compreendem a educação. Sílvio fala também sobre a transição do entendimento da pedagogia como arte para tornar-se uma ciência. “Deixamos de tratar a pedagogia como um saber prático da condução do processo de aprendizado para tratar como certos regimes de verdades de conhecimentos sobre o que é uma criança, isto tendo em vista poder educá-la corretamente, garantindo os resultados que visam ser alançados”, afirma.
Sílvio Donizete de Oliveira Gallo é graduado em Filosofia pela PUC Campinas. Possui graus de mestrado e doutorado em Educação alcançados na Universidade Estadual de Campinas, em que, atualmente, é professor pesquisador e desenvolve o projeto Filosofias da diferença e educação: suas interfaces, suas implicações, suas interferências. É autor de Subjetividade, Ideologia e Educação (Campinas: Alínea, 2009), Deleuze & a Educação (Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2008), entre outros.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como as filosofias da diferença compreenderão a educação?
Sílvio Gallo – Ainda estou num patamar muito inicial dessa compreensão. Há várias dimensões que poderíamos trabalhar para entender essa questão. O que eu tenho focado é justamente pensar o conceito de diferença pela perspectiva filosófica e o que isso implicaria em discussões mais contemporâneas de educação. O que venho levantando é uma crítica sobre como se faz essa discussão porque ela tem tomado a diferença como representação e não tomando a diferença como diferença em si mesma. Essa é a principal contribuição que a filosofia da diferença poderia nos dar, ou seja, a necessidade de tomar a diferença conceitualmente em si mesma e não como representação ou identidade. Nos discursos que temos visto sobre educação inclusiva, por exemplo, a diferença é tomada sempre como diferença em relação a uma identidade. Isso faz com que se apague a diferença efetiva. A pedagogia inclusiva não é uma pedagogia de afirmação da diferença, mas de apagamento da diferença.
IHU On-Line – O que o senhor pode falar a respeito do “efeito” de Foucault na educação?
Sílvio Gallo – Eu trabalho essa questão desde 2005 de forma mais articulada. O que propus, enquanto projeto, foi uma leitura do que estou chamando de filosofia da diferença na versão francesa que vai compreender, basicamente, filósofos como Deleuze, Foucault e Derrida. Essa filosofia tem um ponto de partida que foi posto por Nietzsche no final do século XIX, ao propor que a filosofia pense a diferença. A partir disso, temos duas vertentes básicas: uma na filosofia alemã, trabalhada principalmente por Heidegger e outra francesa, trabalhada pelos três filósofos citados anteriormente. No meu projeto sigo a vertente francesa. Nessa direção, o que fiz até agora foi, primeiramente, focar em como se dá a gênese da filosofia da diferença na filosofia de Nietzsche. Num segundo momento, me dediquei a Deleuze focando principalmente o conceito de diferença e, a partir daí, busquei elementos para compreender a educação. Quando passo a entender o conceito de filosofia da diferença a partir de Foucault, faço um estudo da obra dele centrando a discussão numa leitura dos cursos que este pensador deu.
A ideia dessa fase do projeto é fazer uma leitura regressiva, ou seja, parti do último curso dado por Foucault em 1984 e depois fui retrocedendo. Esse curso está muito voltado para a ideia da filosofia antiga e nos conceitos de cuidado de si e parresia. Nesse momento, estou trabalhando essa etapa da produção intelectual do Foucault para buscar os aportes disso na educação. Desde as relações que ele mesmo faz nessas obras, percebemos que essa questão é muito intensa. Quando ele está tratando de textos gregos antigos, de como alguém cuida de si mesmo e se preocupa com dizer a verdade num processo de formação, Foucault está lidando muito diretamente com questões educacionais mais formais e até de uma formação no sentido mais geral. A ideia é tanto evidenciar esse trabalho que ele faz com relação à educação, como esses aportes que ele fez da filosofia antiga para pensar problemas contemporâneos da educação. Essa é a direção do que pretendemos desenvolver ainda nesta pesquisa.
IHU On-Line – Que jogos de “poder e saber” foram feitos pela Pedagogia para que esta pudesse se transformar em ciência?
Sílvio Gallo – Essa é uma questão complexa. Poderíamos ver, no processo de constituição da pedagogia na modernidade, um trabalho bastante curioso. Se olharmos panoramica e retrospectivamente esse período, veremos que a educação era considerada uma arte, uma ação do conhecimento de natureza prática. E o que vemos na modernidade, a partir do século XVII, é todo um procedimento de afirmação da ciência, e isso Foucault analisa em diversos momentos, que vai organizando nossa forma de pensar, agir e produzir conhecimento. Tudo isso teve um impacto extremamente forte na produção científica. E, assim, assistimos, na pedagogia, uma conformação a essa lógica moderna que é da produção da verdade segundo os cânones da ciência. O que vemos, no âmbito da pedagogia, é o seu desejo de se constituir como tal, o aporte que a psicologia traz para isso – aliás, a psicologia serve como a grande base da pedagogia, porque a primeira ciência mostra saber o que é a criança e como ela pode ser educada.
Assim, deixamos de tratar a pedagogia como um saber prático da condução do processo de aprendizado para tratar como certos regimes de verdades de conhecimentos sobre o que é uma criança, isto tendo em vista poder educá-la corretamente, garantindo os resultados que visados. Por outro lado, teríamos também, e essa é uma reflexão importante que Foucault faz em Vigiar e Punir, uma discussão em torno dos jogos de poder que aí se estabelecem. É a invenção do exame que permite que a pedagogia se torne uma ciência. Agora, eu diria que, embora tenhamos todo esse processo no período moderno, e que deu certo, felizmente vemos que os estudantes e professores o tempo todo traçam linhas de fuga em relação a esse processo todo. É um processo que funciona, mas que dá possibilidades de se escapar o tempo todo também.
IHU On-Line – Como o senhor vê a transição do poder disciplinar para o biopoder?
Sílvio Gallo – Não sei se poderíamos falar em transição, porque esta dá a ideia de substituição de um por outro. E não é isso que Foucault coloca. Ele fala numa complementaridade entre essas duas técnicas de poder. Na medida em que a disciplina – entendida como um poder individualizante, que age sobre o corpo de cada indivíduo – se assenta e funciona, é que os Estados começam a operar dentro da lógica do biopoder. Tendo os indivíduos absolutamente disciplinados, conseguimos trabalhar com um poder que se exerce já não só sobre o indivíduo, mas sobre a população. Há uma complementaridade entre os dois porque o próprio biopoder só pode ser exercitado na medida em que se tem um conjunto populacional disciplinado. Desta forma, o âmbito da educação é interessante ser observado na medida em que vemos a complementação de um com o outro na atuação do poder disciplinar enquanto uma lógica de controle e de organização da instituição e uma lógica de disciplinarização dos estudantes na instituição. Não deixa de ser curioso, portanto, que cada vez mais nós ouçamos falar da preocupação da chamada classe política sobre a educação.
IHU On-Line – Há um projeto lançado pelo MEC que prevê que não haja reprovação nos três primeiros anos escolares. Podemos dizer que essa medida do MEC é uma espécie de mecanismo de disciplinamento? A reprovação pode ser encarada como uma maneira de biopoder?
Sílvio Gallo – Aqui em São Paulo temos um processo de progressão continuada instalada a mais de uma década que tem sido defendido por uns e criticado por outros. Se pensarmos com as ferramentas conceituais que Foucault nos coloca, eu diria que a reprovação é um efeito de um processo avaliativo que é de natureza disciplinar. Você estabelece os espaços do aprendizado, metrifica aquilo que é ensinado, avalia o quanto foi aprendido segundo esses critérios e protocolos e a criança que não atingiu aquilo que se convenciona é reprovada. Assim, a reprovação funciona no contexto da disciplina, ele é reprovado para fazê-lo aprender melhor no contexto dessa noção de aprendizado como algo que pode ser controlado. Por outro lado, a ideia da não reprovação está ligada a um jogo biopolítico, porque, na medida em que se afirma que não vai mais reprovar nas três primeiras séries ou durante todo o primeiro ciclo do ensino fundamental, é feito um jogo de planejamento do sistema educacional como um todo. E esse jogo está justamente na direção daquilo que Foucault chamou de biopolítica. No caso do Estado brasileiro, isso está muito relacionado com alcançar os índices propostos pelos organismos internacionais. Durante muito tempo, o Brasil foi criticado por ter altos índices de reprovação e de evasão escolar, então uma forma de se reduzir esses índices é através da progressão continuada. Não que isto vá fazer funcionar melhor o sistema de ensino, mas melhora esses índices apresentados aos organismos internacionais em busca de financiamentos.
IHU On-Line – O discurso sobre a falta de qualificação do professor está presente de que forma dentro dessa ideia de biopolítica na educação?
Sílvio Gallo – Sim. Você faz o discurso da falta de qualificação pelo viés de uma certa concepção de educação. Se pensamos a pedagogia como técnica, como no início da Modernidade, não faria muito sentido falarmos em qualificação do professor. Faz mais sentido pensar, portanto, em vocação do professor, em algo intrínseco a ele que o faz estar ou não preparado para esse ato de educar. Mas quando temos a colonização do campo da educação por esse viés cientifico é quando vamos buscar a garantia da boa atuação do professor na sua qualificação profissional. Então, ser qualificado profissionalmente, ter uma boa preparação é justamente o que garante a boa atuação. Num quadro de planejamento educacional, em termos de um estado ou de um país, que é o que chamaríamos de controle populacional que se exerce, nos termos da biopolítica, o discurso da qualificação ou não do professor entra como um dos elementos disso que podemos chamar de biopolítica da educação.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Deleuzeanas

VIDA (OU VITALIDADE) NÃO-ORGÂNICA - Vie (ou vítalité) non-organique]
Por: François Zourabichvili, em: O VOCABULÁRIO DE DELEUZE
"Há um laço profundo entre os signos, o acontecimento, a vida, o vitalismo. É a potência de uma vida não-orgânica, aquela que pode haver numa linha de desenho, de escrita ou de música. São os organismos que morrem, não a vida. Não existe obra que não indique uma saída para a vida, que não trace um caminho por entre as vias. Tudo o que escrevi era vitalista, pelo menos eu espero, e constituía uma teoria dos signos e do acontecimento." (P,196)
* É raro a palavra "vitalismo" ser empregada com o rigor de um conceito. Como todo o mundo, os filósofos têm seus momentos pouco gloriosos, quando descobrem, sem admi¬ti-lo, o interesse de cultivar uma doxa que lhes é própria, manter o equívoco de certas palavras a fim de poder jogá¬las na cara do adversário como diploma de infâmia. Logo, por que não denunciar o vitalismo de Deleuze, uma vez que ele próprio incessantemente o reivindicava para si? É deci¬sivo, nesse tipo de manobra infra-filosófica, não saber do que se fala. Invocar o vitalismo refere-se mais ou menos a duas coisas: a um certo extravio das ciências naturais no século XVIII numa espécie de mística que se esquiva a qual¬quer esforço verdadeiro de explicação (postulação de um "princípio vital" como razão última do vivente); e ao culto da vitalidade, que se propaga diversamente na Europa no fim do século XIX, reivindicado mais tarde por um certo número de movimentos políticos, entre os quais o fascismo (invocação de um gênio da raça, do povo ou do indivíduo, e dos direitos superiores da vida em sua luta com forças reputadas degeneradas). A recusa da idéia de espontanei¬dade, corolário da teoria do desejo-máquina, deveria bas¬tar para afogar no ridículo qualquer exploração insinuante do uso deleuziano da palavra "vitalismo". É verdade que, para isso, é preciso alçar-se a um plano filosófico. Nunca encontraremos em Deleuze um conceito de vida em geral. Se ele se interessa pela noção nietzschiana de "vontade de poder", e se a identifica em última instância à duração-me¬mória de Bergson, é em primeiro lugar por deduzir daí o caráter diferenciado-diferenciável, que exclui o recurso à vida como valor transcendente independente da experien¬cia, preexistente às formas concretas e trans-individuais nas quais é inventada (NPh, caps. II-III, sobretudo 56-9, 114-6; IT, 179-92). Logo, não há vida em geral, a vida não é um absoluto indiferenciado, mas uma multiplicidade de pla¬nos heterogêneos de existência, repertoriáveis segundo o tipo de avaliação que os comanda ou os anima (distribui¬ção de valores positivos e negativos); e essa multiplicidade atravessa os indivíduos mais do que os distingue uns dos outros (ou ainda: os indivíduos só se distinguem em fun¬ção do tipo de vida dominante em cada um deles). Em se¬gundo lugar, Deleuze busca nesse conceito uma problemática que permita superar a alternativa da moral fundada em valores transcendentes e do amoralismo niilista ou relativista, que toma como pretexto a facticidade destes úl¬timos para concluir que "tudo se equivale". Mais precisa¬mente, devemos distinguir duas formas de relativismo, das quais apenas uma é niilista: "não é a variação dá verdade segundo o sujeito, mas a condição sob a qual desponta para o sujeito a verdade de uma variação" (Le pli, 27). Uma coisa e afirmar que a verdade depende do ponto de vista de cada um; outra é dizer que a verdade é muito relativa a um pon¬to de vista, mas que nem por isso todos os pontos de vista são equivalentes. Mas como um ponto de vista se arrogaria superioridade na ausência de qualquer critério objetivo que permitisse avaliar as pretensões de fora? Ao assumir preci¬samente essa condição, e, por conseguinte, ao colocar o pro¬blema de uma avaliação imanente dos pontos de vista ou das avaliações que condicionam cada modo de existência (SPE, 247-9; IT, 184-5; QPh, 72; CC, cap. XV). É superior o modo de existência que consiste na prova mútua dos modos de existência, ou que se empenhe em fazê-los ressoar uns nos outros. São verdadeiras a distância ou o conjunto das dis¬tâncias experimentadas e a seleção imanente que aí se ope¬ra. Isso significa dizer que a verdade é criação, não no sentido em que Deus poderia tê-la feito outra (Descartes), mas no sentido em que é relativa à perspectiva que um pensador ou um artista pôde adotar sobre a variedade dos modos de existência e dos sistemas de valores disponíveis (IT, 191). Mas a questão reverbera: em que sentido o ponto de vista que ordena os pontos de vista seria superior aos outros? Por que, além disso, podemos afirmar que os pontos de vis¬ta se organizam na experiência? Por que o modo de existên¬cia criador é o único aberto, o único a se problematizar a si próprio e a viver a existência como problema? Essa respos¬ta correria o risco de reintroduzir a finalidade e de comprometer a condição de imanência. Perguntemos então por que vale mais definitivamente pensar do que não pensar. A res¬posta deleuziana é que pensar é mais intenso. Ponderemos aqui com prudência a objeção que ocorre ao espírito: decer¬to é na experiência que aprendemos a superioridade intensi¬va dos afectos - isto é: do encontro com o heterogêneo ou com o fora pelo qual toda a afectividade se vê abalada e redistribuída - sobre as afeições comuns -; mas isso ainda não seria, sob a aparência de um enunciado último, um cri¬tério exterior de juízo, a reintrodução disfarçada de um va¬lor transcendente - a intensidade -, assinalando assim o fra¬casso do programa de avaliação imanente? Em última ins¬tância, a intensidade é um critério imanente porque a auto¬afirmação de nossas faculdades coincide com a afirmação do novo, da saída, do afecto, e com isso determina a inten¬sidade - sejam quais forem os terrores que a acompanhem - como alegria.
Portanto, Deleuze pode chamar mais especificamente vida ou vitalidade não a multiplicidade das formas de vida, mas aquela entre essas formas em que a vida - o próprio exercício de nossas faculdades - se quer a si mesma: forma paradoxal, a bem da verdade, mais próxima do informe. Aí também, reconhecemos uma inspiração nietzschiana, e de¬vemos reafirmar, embora de outra forma, a ausência em Deleuze de um conceito de vida ou de vitalidade em geral: por um lado, porque a vida tal como ele a concebe é sempre e inseparavelmente vida não-orgânica (ou ainda não-pessoal - cf. LS, 177; D, 61; etc); por outro, porque sendo o próprio da vitalidade não-orgânica e sua criatividade e por conse¬guinte sua imprevisibilidade (certamente não um tesouro natural ou originário que bastaria exteriorizar), procuraría¬mos em vão sua forma padrão (ainda que nada impeça de conferir à vitalidade não-orgânica, imitando desoladamente, tristemente, a imagem que dela inevitavelmente Deleuze fornece, ela que não obstante é "sem imagem"; assim como é possível venerar o rizoma na sombra de uma inspiração rizomática). Vida não-orgânica: a expressão, que vem de Worringer (MP, 619-24; FB-LS, 34 e 82; IM, 75-82), é sobre¬determinada pelo conceito de "corpo sem órgãos", oriundo de Artaud (FB-LS, 33-4. CC, 164) e pelo pensamento de Bergson (IT, 109). Detenhamo-nos aqui sobre o que advém de Bergson: "a vida como movimento se aliena na forma material por ela suscitada" (B,108), a vida é criação, mas o vivo é fechamento e reprodução, de modo que o elã vital - assim como a duração - dissocia-se a cada instante em dois movimentos: um de atualização-diferenciação numa espé¬cie ou forma orgânica, o outro por meio do qual ele se recu¬pera como totalidade virtual sempre aberta a cada uma de suas diferenciações; assim, "não é o todo que se fecha à maneira de um organismo, é o organismo que se abre sobre um todo, e à maneira desse todo virtual" (B, 110). É, por conseguinte, recusando-se a circunscrever a vida nos limi¬tes do vivo formado, e assim a definir a vida pela organiza¬ção, que a tendência evolutiva ou criadora que atravessa o vivente pode ser pensada, para além da alternativa insatis¬fatória do mecanismo e do finalismo. Essa recusa leva, na¬turalmente, seja a se proporcionar a vida sob a forma de um princípio distinto da matéria, seja a conceber a matéria mes¬ma como vida, não - como vimos - aí alojando almas dire¬trizes, o que apenas comprovaria a incapacidade de sair da imagem da vida como organização ou como subjetividade constituída, mas designando como vida a atividade criado¬ra anônima da matéria que, a um dado momento de sua evolução, faz-se organização: essa segunda via desemboca na concepção de uma vitalidade fundamentalmente inor¬gânica. Não existe nisso capricho terminológico, menos ain¬da - salvo se nos esquivarmos ao raciocínio lógico e nos deixarmos preocupar pelas prevenções da doxa - de fantas¬magoria mística; o que está em jogo nessa redefinição da vida, vamos repetir, é pensar em que o vivente formado está em excesso sobre sua própria organização, em que a evolução o atravessa e o transborda (sua lógica não pode senão contestar e competir com a do darwinismo - com¬preende-se por que Deleuze, em seu estudo do devir, tenha particularmente meditado sobre os casos de mutualismo ou de co-evolução, trevo e zangão, vespa e orquídea, para os quais a teoria da evolução não fornece explicação satisfató¬ria: cf. MP, 17). Finalmente, se a vida deve ser concebida aquém da organização, como pura criação da natureza, não se deve suspeitar da mínima metáfora em sua invocação para além - vida psíquica e criação de pensamento. Com efeito, todo processo deriva da vida não-orgânica na medi¬da em que não reconduz a uma forma constituída mas dela escapa, e só esboça uma nova para já escapulir para outra parte, para outros esboços: o que aqui é chamado "vida" não depende da natureza dos elementos (formação mate¬rial, psíquica, artística etc.), mas da relação de desterritoria¬lização mútua que os arrasta para limiares inéditos (a orga¬nização, por exemplo, é um limiar transposto pela matéria - seja dito para simplificar ao extremo; e na relação da ves¬pa e da orquídea, deve-se considerar a vida não-orgânica do "bloco de devir" que carrega as duas formas de vida organizada, as entrelaça uma à outra até transpor um li¬miar de existência em que elas se pressupõem mutuamen¬te). A vida não-orgânica é um exemplo típico de conceito deleuziano, irredutível à atribuição de um domínio próprio, suscetível por conseguinte de um uso literal, qualquer que seja o domínio abordado, e de um uso "transversal", que combine numa igual literalidade uma multiplicidade de domínios quaisquer, por mais heterogêneos que sejam. Com isso, aproximamo-nos: da concepção deleuzo-guattariana da natureza, que não reconhece mais a cisão entre natural e artificial; do conceito de plano de imanência; enfim, natu¬ralmente, da experiência do corpo pensado sob a condição da referência a um corpo sem órgãos.

domingo, 10 de outubro de 2010

DIVULGAÇÃO: Por um novo padrão de desenvolvimento

Por um novo padrão de desenvolvimento – 08/10/2010
Dois militantes históricos do PT propõem à esquerda rever sua visão de progresso e questionar a ideia de que a natureza e recurso a ser explorado
Por Hamilton Pereira e Juarez Guimarães, em Carta Maior
(Sobre o mesmo assunto, em Outras Palavras, O Vermelho e o Verde)
O primeiro turno das eleições gerais ocorridas no último domingo, a exemplo do que ocorreu em 2006, exigirá dos dirigentes e militantes do Partido dos Trabalhadores uma objetiva reflexão sobre o quadro expresso pelas urnas e a ação imediata para coroar com êxito a campanha de Dilma Rousseff. Dilma 46,7%. José Serra 32,7%. Marina Silva 19,4%. Esses são os números.
A expressiva votação obtida por Marina Silva só confirma a importância de sua liderança pública. É necessária uma ação política imediata que dialogue com as expectativas desse segmento dos cidadãos e cidadãs brasileiros. Atualizamos aqui os elementos fundamentais da Carta Aberta entregue a ela e que fizemos circular pela internet, no momento em que Marina Silva fez sua opção pelo afastamento do PT, pela filiação ao PV e se posicionou como candidata à Presidência da República.
Ao concluir oito anos de mandato, podemos afirmar que o governo Lula criou as bases para iniciar um novo ciclo de crescimento econômico neste início do século XXI, após duas décadas de estagnação. A retomada levantou para nós quatro desafios para qualificar este novo: desenvolver o Brasil aprofundando as conquistas democráticas; desenvolver o Brasil com distribuição de renda, combatendo as criminosas desigualdades sociais e regionais; desenvolver o Brasil, afirmando sua fisionomia soberana e pacífica diante do mundo e desenvolver o Brasil incorporando a sustentabilidade socioambiental à cultura do novo ciclo.
Os três primeiros desafios estão encaminhados: vivemos uma experiência democrática em que as instituições funcionam e se amplia a participação popular nos processos de tomada de decisão; vivemos uma profunda dinâmica de investimento do Estado no combate às desigualdades sociais e regionais que nos permite dizer ao mundo, como na recente pesquisa do IPEA, que no Brasil as camadas mais pobres da população elevam de forma inédita e ampla sua qualidade de vida em meio à crise mundial. O Brasil ocupa hoje com altivez e competência seu lugar nas decisões nos foros mundiais.
O quarto desafio é planetário, não é apenas da sociedade brasileira: o novo ciclo de desenvolvimento ainda não incorporou plenamente a dimensão da sustentabilidade socioambiental à sua cultura. Mesmo considerando as conquistas alcançadas internamente na formulação e condução das políticas socioambientais sob responsabilidade de Marina Silva, ao longo de cinco anos e meio à frente do Ministério do Meio Ambiente, seguidos da gestão de Carlos Minc. Temos, portanto, aí um grande desafio a vencer para conferir uma nova qualidade à continuidade do nosso projeto.
Durante muito tempo, a esquerda ouviu com atenção apenas discreta os argumentos daqueles que puseram no centro de sua agenda, de suas angústias e esperanças, a luta pela sobrevivência do planeta. Mesmo quem examinava os argumentos, com sincera boa vontade, não deixava de sentir que havia ali, talvez, as marcas de um diagnóstico excessivo, de uma urgência artificiosa ou, quem sabe, de um viés tendencioso ou algo messiânico.
Marina Silva há de concordar que o governo Lula é o governo da história republicana brasileira que mais fez pelas políticas públicas voltadas para a sustentabilidade socioambiental. Não se conhece outro no qual a tensão entre desenvolvimento econômico e a preservação da natureza tenha ido ao centro de sua dinâmica. Entre suas conquistas, estão a redução ampla e consistente no desmatamento da Amazônia, o alargamento inédito das áreas de preservação, a busca de alternativas econômicas para a “floresta em pé”, por meio da Lei de Florestas Públicas, o encaminhamento reconhecido internacionalmente dos compromissos relativos ao combate ao aquecimento global.
Pela primeira vez na história, o Estado brasileiro começou a regular os investimentos econômicos pela lógica da sustentabilidade. A Resolução do Conselho Monetário Nacional proposta pela então Ministra Marina Silva, que condiciona a liberação de recursos para empreendimentos do agronegócio nas áreas da fronteira agrícola aos critérios de sustentabilidade socioambiental, moderniza as práticas desta área sensível da economia sobre o ambiente. Este é apenas um exemplo.
Não temos problema em reconhecer que estes avanços históricos são ainda insuficientes diante do novo ciclo de desenvolvimento brasileiro iniciado nessa primeira década. Mais energia, mais carros e pressão imobiliária nas cidades: não podemos perder de vista que 80% dos brasileiros vivem nos centros urbanos. Mais pressão também sobre a Amazônia e as fronteiras agrícolas, reprodução em escala ampliada de padrões de consumo típicos de países capitalistas centrais. A agenda ecológica estará perdida se condenada a lutar apenas na resistência, caso a caso, na regulação e na contenção das vertentes mais agressivas do crescimento. O que se requer é um novo paradigma de desenvolvimento: a economia verde do século XXI, como está se propondo. Não apenas uma contenção e regulação dos mercados, mas uma reposição e uma programatização ampla dos fundamentos socioambientais do desenvolvimento brasileiro.
O PT foi o primeiro partido socialista brasileiro a incorporar, como contribuição inestimável da geração da qual fazem parte Chico Mendes e Marina Silva, a temática do desenvolvimento sustentável. Provavelmente estão na extensa rede de militantes, filiados e simpatizantes do nosso partido a maior parte dos que sustentam a utopia verde. Mas ela ainda é uma agenda setorial, isto é, não estrutura, não orienta as prioridades da sociedade. Cobra agora seu lugar definitivo na agenda do desenvolvimento do século XXI.
O claro diagnóstico da comunidade científica, a pressão da opinião pública internacional, a sensibilidade crescente diante dos desastres ecológicos tem feito surgir um fenômeno novo, no centro e na periferia do mundo capitalista: um liberalismo ecológico. Isto é, a formação de uma consciência e de um programa que pretende unir capitalismo e sustentabilidade, mercado e regulação. No Brasil, se observa hoje, no curso da campanha eleitoral de 2010, um claro esforço por parte de certos segmentos empresariais, por parte do PSDB/DEM e de setores ecológicos anti-socialistas, de abraçar uma agenda verde.
Mas esse eco-liberalismo apresenta dois grandes limites. O primeiro é que, centrado em uma base empresarial, terá como horizonte sempre os interesses do mercado, de sua potência agressivamente destrutiva, e não a formulação de um novo paradigma que não pode estar assentado na exploração e na maximização do lucro. O segundo, e de implicações mais graves, é o que aparta o grito do planeta – cuja expressão está sob nossos olhos com as catástrofes climáticas – do grito dos oprimidos, aparta o grito da Terra do grito dos pobres, a causa da sustentabilidade ambiental da causa da justiça social!
No Brasil, esta separação entre a causa ambiental e a causa social, entre a luta ecológica e movimento sindical, o Movimento dos Sem-Terra, as CEBs e toda a rede social que organiza a luta dos pobres contra a exploração, seria uma tragédia. A luta em defesa da sustentabilidade socioambiental soma, mobiliza, sopra para além das esferas de um só partido. Ela requer grande ambiência social, um espírito novo de convergência, de horizontes e cores tão plurais como as da complexa sociedade democrática que estamos construindo. Por isso não pode ser neutra, pretender eqüidistância da luta dos que têm fome e sede de justiça!
É por isso necessário que o programa de governo a ser oferecido ao país pelas forças políticas que defendem a continuidade do processo inaugurado com o governo do Presidente Lula, na disputa desse segundo turno das eleições, lideradas por Dilma Rousseff, defina claramente uma zona de compromisso que incorpore, na formulação e execução das políticas públicas a dimensão da sustentabilidade socioambiental à cultura do novo ciclo de desenvolvimento. E estabeleça, explorando até o limite das nossas consciências e criatividades, um novo paradigma que supere o padrão de produção e consumo definido pelo capitalismo liberal.
Esta é a melhor forma de estabelecer o diálogo público com a liderança pública de Marina Silva e seus eleitores. Ele tornará evidente que a opção conservadora por Serra seria um retrocesso inaceitável, pois significaria o apoio à coalizão que abriga o núcleo político e a liderança dos setores mais devastadores do agro-business brasileiro, dos que oprimem, reprimem e criminalizam os sem-terra. Seria, de fato, uma verdadeira ruptura com os próprios fundamento da trajetória social e ecológica de Marina Silva. A opção pela candidatura Dilma Rousseff só pode fortalecer a força da agenda ecológico, recriando o diálogo e o encontro necessário para formar um novo paradigma democrático, distributivo e ecológico do novo desenvolvimento brasileiro.

sábado, 9 de outubro de 2010

DIVULGAÇÃO: BIOGRAFEMA COMO ESTRATÉGIA BIOGRÁFICA

INSTITUTO DE PSICOLOGIA SOCIAL PICHON-RIVIÈRE
Convida
Dia 21 de outubro das 19 h às 21 h
BIOGRAFEMA COMO ESTRATÉGIA BIOGRÁFICA

Encontro de apresentação da Tese de Doutorado em Educação "Biografema como estratégia biográfica: escrever uma vida com Nietzsche, Deleuze, Barthes e Henry Miller" onde o autor propõe que tomar partido da biografia enquanto criação (e não somente como representação de um real já vivido) é colocar-se diante de uma política que se mostra contrária a todo uso biográfico que sufoca a vida, a toda estratégia ou metodologia thanatográfica. O próprio sujeito se desloca – ele passa a ser, neste sentido, também um criador, um fabulador de realidade, um ator mesmo de escritura e de vida.
Palestrante Luciano Bedin da Costa - Doutor em Educação/UFRGS. Professor de psicologia/SETREM, realiza oficinas de Fotografia e Subjetividade. Ministra aulas na Especialização em Educação Infantil/UNISINOS, com enfoque em culturas e linguagens infantis. Organizou o livro Vidas do Fora: habitantes do silêncio. Ed. UFRGS, 2010. Responsável pelo projeto Cartografias Infantis: a cidade pela criança - a fotografia pela infância, financiado pela - FUNARTE.
Inscrições gratuitas: 3331 7467 e contato@pichonpoa.com.br e www.pichonpoa.com.br
Miguel Tostes, 998, conj. 24, Esquina Protásio Alves - Rio Branco - Porto Alegre.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

DIVULGAÇÃO: Documentários sobre Mercedes Sosa na Sala P F Gastal

Documentários sobre Mercedes Sosa na Sala P F Gastal
Em outubro, mês que marca o primeiro ano da morte da cantora argentina Mercedes Sosa, a Sala P. F. Gastal da Usina do Gasômetro coloca em cartaz uma pequena mostra reunindo dois documentários sobre este ícone musical da América Latina. A iniciativa de lançar este programa duplo no mercado brasileiro é da distribuidora Zapata Filmes, em parceria com a Cinema 7 Films da Argentina, SONY Music e AMERICINE.
A mostra inclui o já clássico Como um Pássaro Livre, de 1983, que marca o retorno do exílio de Mercedes Sosa à Argentina, e Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima, que acompanha o derradeiro trabalho musical da artista antes de sua morte. Esta mostra especial está sendo programada por meio da rede de distribuição da Zapata Filmes em diferentes países do continente e em várias mídias (cinema, televisão e DVD, em exibição simultânea), seguindo o mesmo modelo de outros filmes lançados pela empresa do diretor colombiano (radicado em Porto Alegre) Juan Zapata em anos anteriores, privilegiando assim o público que por gerações acompanhou a brilhante carreira da cantora argentina.
Como um Pássaro Livre poderá ser visto a partir de 5 de outubro na sessão das 17h e Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima estará em exibição nas sessões das 15h e 19h. Ingressos a R$ 6,00 e R$ 3,00.
SINOPSES
Como um Pássaro Livre (Como un Pajaro Libre), de Ricardo Wullicher (Argentina, 1983, 67 minutos)
Com Mercedes Sosa, Charly García, León Gieco, Ariel Ramírez e Antonio Tarragó Ros.
Um clássico do cinema documentário argentino que marca o retorno do exílio daquela que é considerada a maior cantora da Argentina, Mercedes Sosa, em 1982. No filme, Mercedes Sosa conta aspectos de sua vida ilustrados com imagens registradas em diversos recitais. O documentário inclui o registro de músicas como La Masa, Guitarra Enlunarada, Como la Cigarra, Cuando Tenga la Tierra e Alfonsina y el Mar, entre outras célebres canções do repertório da artista. Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima (Mercedes Sosa, Cantante – Un Viaje Íntimo), de Rodrigo Vila (Argentina, 2008, 120 minutos)
Documentário que registra o último trabalho musical de Mercedes Sosa. Seus encontros, emotivas coincidências, momentos criativos, cumplicidades, testemunhos dos artistas que participaram deste trabalho musical e reflexões de Mercedes sobre sua vida. O documentário é um reflexo da intimidade da artista em seu momento criativo, retratando aquilo que não se pode ver, mas se sente quando escutamos sua música. Juan Manuel Serrat, Shakira, Caetano Veloso, Julieta Venegas, León Gieco, Teresa Parodi, Gustavo Cerati, Charly García, René Pérez, Fito Páez, Lila Downs e Daniela Mercury foram alguns dos mais de 40 artistas que participaram desta gravação de caráter épico. O documentário de Rodrigo Vila transcorre nas salas de gravação onde Mercedes Sosa interpretou junto a estes artistas as canções que compõem seu último álbum, Cantora. Uma viagem musical e humana, na qual Mercedes esquece a presença das câmaras e se deixa levar pela emoção da interpretação, às vezes rindo, às vezes chorando. Sua relação com cada artista está explícita, amigos, velhos companheiros de rota e novas figuras da música contemporânea que vivem a adrenalina de gravar uma canção pela primeira vez com um ícone da música latina. Momentos íntimos que refletem também as razões de Mercedes na escolha do repertório e dos artistas que a acompanharam neste último trabalho. Somado a isto, o documentário está pontuado por duas entrevistas únicas realizadas com Mercedes na sua casa meses antes de sua partida.
GRADE DE HORÁRIOS
Primeira Semana - 5 a 10 de outubro de 2010
5 de outubro (terça-feira)
15:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
17:00 – Como um Pássaro Livre
19:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
6 de outubro (quarta-feira)
15:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
17:00 – Como um Pássaro Livre
19:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
7 de outubro (quinta-feira)
15:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
17:00 – Como um Pássaro Livre
19:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
8 de outubro (sexta-feira)
15:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
17:00 – Como um Pássaro Livre
19:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
9 de outubro (sábado)
15:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
17:00 – Como um Pássaro Livre
19:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
10 de outubro (domingo)
15:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima
17:00 – Como um Pássaro Livre
19:00 – Mercedes Sosa, Cantora – Uma Viagem Íntima

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Para Depor o Podre Poder!

Para Depor o Podre Poder!
Hoje, mesmo sem tempo físico sobrando, não posso deixar passar a ventania e colocar os moinhos de vento pra funcionar!
Eu havia decidido que, neste pleito, não esboçaria qualquer imprecisão ideológica e política sobre as eleições, mas há uma entidade que me habita e que é mais forte do que eu própria. Havia decidido isso, simplesmente porque estou num tempo de revisão... de revisão da vida, da existência, das crenças (ideológicas, políticas, sociais, humanas, poéticas, profissionais, enfim, crenças de toda ordem)... de revisão, ainda, das coisas que passam por minhas vontades e por minha cabeça, das leituras que faço e desfaço. Assumo a convicção de que o trabalho das esquerdas deve ser um trabalho de formiguinha, cavando minúsculos túneis subterrâneos nas coisas que parecem brotar do chão e crescer com ares de naturalidade... e é esse o meu trabalho cotidiano, por onde ando e por onde passo... problematizando o que está posto e provocando mobilizações para a produção de outras formas de vida e de existenciar a vida!
Meu voto seria usado, neste ano, só com pretensões anarquistas. Meu olhar serviria somente para colher elementos para pensar e repensar o mundo e as coisas do mundo... mas aí a semana me premiou com umas tempestades devastadoras que arrancaram meus telhados e os de muita gente... começa com a vinda do segundo turno nas eleições presidenciais, passa pelas estranhas indecisas-decisões da Marina Silva, cruza com a manifestação da Maria Rita Kehl (e sua “demissão” pelo Estadão) e por muitas outras manifestações. Então pensei: enquanto as formiguinhas cavam os subterrâneos de todas as coisas e convicções, sem dúvida, o Estado deve estar mais forte!
Isso tudo me fez lembrar o espetáculo de rua “O Amargo Santo da Purificação – Uma Visão Alegórica e Barroca da Vida, Paixão e Morte do Revolucionário Carlos Marighella”, sobre a vida do revolucionário brasileiro Carlos Marighella (1911-1969) – sobre o qual fiz uma postagem anterior a esta... assisti essa apresentação no primeiro dia do Fórum Social Mundial deste ano, em Porto Alegre (nos próximos dias poderei postar uma série de fotografias feitas na ocasião) e ficou martelando em minhas idéias o Estandarte “DEPOR PODRE PODER”... os eventos desta semana estão me fazendo lembrar que a luta nunca está ganha... que a gorda-mídia-dominante é voraz e devoradora e come, todos os dias, nossos pensamentos, nossas idéias, nossos sonhos, nossas existências, nossa dignidade e a luta que lutamos dia-após-dia pra ganhar, sem contar, que banaliza a vida, quando faz dos efeitos do sistema que defende, o espetáculo que alimenta suas audiências, suas vendagens, suas publicidades... faz da miséria, da fome, da pobreza, da exploração, da usurpação daqueles que gosta de chamar de “excluídos”, para dizer que mora aí o perigo do qual todos devem ser defendidos... maquia o capitalismo devorador e diz que os pobres geram as mazelas sociais!
É essa gorda-mídia-dominante que reivindica uma tal liberdade de expressão que não é a mesma que vem de nossas tripas...galopa atrás do imperialismo de idéias e pensamentos que diz o que podemos-devemos pensar ou dizer... mas não queremos mais isso... portanto, Maria Rita Kehl, você não imagina com que estupor e concomitante alegria ouvi a notícia de sua demissão do Estadão, pois entre muitas outras coisas, esses pequenos atos nos fazem acordar e perceber que basta um cochilão e a ditadura volta com outras roupagens... Willian Bonner e Fátima Bernardes transformam-se em formosos bonequinhos, diante a vastidão do cenário que costeia seus topetes programados para modular os jornais nacionais... e que não me apareça o Eduardo Suplicy com ares tragicômicos, pedindo “com licença, Estadão, resgate a Maria Rita, pois ela é assimassim”... ninguém é idiota em pensar que haja ingenuidade no ato do Estadinho!
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E a Marina Morena!
Respeito tudo o que vem das florestas. A força, a vitalidade e a potência que vem dos ares da florestania, são o contraponto aos simulacros produzidos pela devastação capitalística... ou alguém há de achar bonito um imenso descampado tomado por monoculturas que servem pra tudo, menos para as pessoas comerem e sobreviverem? Alguém se levanta em defender a vitalidade dos imensos conglomerados urbanos, tecidos em aço e cimento? Alguém sente prazer em entupir suas narinas de fuligem?
A floresta tem essa coisa mágica da genuidade dos seres que a habitam... a água que brota num pedaço de qualquer lugar... os bichos que vivem suas existências naturais... as gentes que ali produzem somente para viver e não para depredar ou explorar... o ar que só percebemos quando nos falta... enfim, quando vejo Marina, tenho a sensação de que ela acabou de emergir da floresta... com certeza tem o direito de expressar sua dor e sua discordância com relação ao cenário político que ela própria ajudou a construir, mas ela representa muito mais do que isso... não representa apenas a sobrevivência na miséria social e econômica, nem a superação do analfabetismo, nem tantas outras coisas... Marina é um ser da floresta que carrega em si a vitalidade de que tanto necessitamos para vencer os dias e as noites!
Marina tem o direito de dizer que saiu com muita dor do PT... muitos outros também saíram com muita dor e isso serve para nos mostrar que a força, que o poder está nas gentes e nas relações que se tece, e não necessariamente nas instituições!
Digo essas coisas, pensando não naqueles que usurpam das coisas públicas em benefício próprio e de poucos, nem nos grandes exploradores, usurpadores e acumuladores capitalísticos, nem nos que se dizem de esquerda simplesmente para poderem alcançar as mesmas coisas que os bonecos capitalísitcos usufruem... digo essas coisas, pensando em tudo o que já se produziu para garantir pelo menos um pouco de dignidade para a maioria das gentes... e isso, com certeza, não é uma força, um vitalismo, uma intenção produzida pela direita ou pelo capitalismo, mas por cada um de nós e, se passa pelo Estado, absolutamente não é por um Estado governado pela direita!
Para Depor o Podre Poder das direitas vampiras e dos capitalismos devoradores é necessário um vitalismo produtor de resistência e de movimentos, e não de resignação ou passividade... podemos facilitar nossos caminhos, em vez de dificultar... marinas da floresta, marias rita demitidas pela gorda-mídia-dominante, execrados do sistema, explorados no que há de mais básico para a existência humana (a vida), desrespeitados no básico direito de expressar o que pensam, aviltados em sua dignidade, todos, sabemos por onde não ir!

DIVULGAÇÃO: A vida de Carlos Marighella

A vida de Carlos Marighella
Carlos Marighella nasceu em Salvador, Bahia, em 5 de dezembro de 1911. Era filho de imigrante italiano com uma negra descendente dos haussás, conhecidos pela combatividade nas sublevações contra a escravidão.
De origem humilde, ainda adolescente despertou para as lutas sociais. Aos 18 anos iniciou curso de Engenharia na Escola Politécnica da Bahia e tornou-se militante do Partido Comunista, dedicando sua vida à causa dos trabalhadores, da independência nacional e do socialismo.
Conheceu a prisão pela primeira vez em 1932, após escrever um poema contendo críticas ao interventor Juracy Magalhães. Libertado, prosseguiria na militância política, interrompendo os estudos universitários no 3o ano, em 1932, quando deslocou-se para o Rio de Janeiro.
Voltaria aos cárceres em 1939, sendo mais uma vez torturado de forma brutal na Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo, mas se negando a fornecer qualquer informação à polícia.
Anistiado em abril de 1945, participou do processo de redemocratização do país e da reorganização do Partido Comunista na legalidade, foi eleito deputado federal constituinte pelo estado da Bahia. Seria apontado como um dos mais aguerridos parlamentares de todas as bancadas, proferindo, em menos de dois anos, cerca de duzentos discursos em que tomou, invariavelmente, a defesa das aspirações operárias, denunciando as péssimas condições de vida do povo brasileiro e a crescente penetração imperialista no país.
Nos anos 50, tomaria parte ativa nas lutas populares, em defesa do monopólio estatal do petróleo e contra o envio de soldados brasileiros à Coréia e a desnacionalização da economia.
Após o golpe militar de 1964, Marighella foi localizado por agentes do DOPS carioca em 9 de maio num cinema do bairro da Tijuca. Enfrentou os policiais que o cercavam com socos e gritos de “Abaixo a ditadura militar fascista” e “Viva a democracia”, recebendo um tiro a queima-roupa no peito. Descrevendo o episódio no livro “Por que resisti à prisão”, ele afirmaria: “Minha força vinha mesmo era da convicção política, da certeza (...) de que a liberdade não se defende senão resistindo”.
Repetindo a postura de altivez das prisões anteriores, Marighella fez de sua defesa um ataque aos crimes e ao obscurantismo que imperava desde 1o de abril. Conseguiu, com isso, catalisar um movimento de solidariedade que forçou os militares a aceitar um habeas-corpus e sua libertação imediata.
Em dezembro de 1966, em carta à Comissão Executiva do PCB, requereu seu desligamento da mesma, explicitando a disposição de lutar revolucionariamente junto às massas, em vez de ficar à espera das regras do jogo político e burocrático convencional que, segundo entendia, imperava na liderança. E quando já não havia outra solução, conforme suas próprias palavras, fundou a ALN (Ação Libertadora Nacional) para enfrentar, de armas em punho, a ditadura.
O endurecimento do regime militar, a partir do final de 1968, culminou numa repressão sem precedentes. Marighella passou a ser apontado como inimigo público número um, transformando-se em alvo de uma caçada que envolveu, a nível nacional, toda a estrutura da polícia política.
Na noite de 4 de novembro de 1969 surpreendido por uma emboscada na Alameda Casa Branca, na capital paulista, Carlos Marighella tombou varado pelas balas dos agentes do DOPS sob a chefia do delegado Sérgio Paranhos Fleury.
Em 11 de setembro de 1996 a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça reconhece a responsabilidade do Estado pela morte de Marighella.
Contatos: Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz - oinois@terra.com.br - (51)9999 45 70
PS: Mais tarde postarei um escrito que faz referência a esse trabalho da Tribo.

DIVULGAÇÃO: Dez falsos motivos para não votar na Dilma

Dez falsos motivos para não votar na Dilma
por Jorge Furtado em 25 de julho de 2010
Tenho alguns amigos que não pretendem votar na Dilma, um ou outro até diz que vai votar no Serra. Espero que sigam sendo meus amigos. Política, como ensina André Comte-Sponville, supõe conflitos: “A política nos reúne nos opondo: ela nos opõe sobre a melhor maneira de nos reunir”.
Leio diariamente o noticiário político e ainda não encontrei bons argumentos para votar no Serra, uma candidatura que cada vez mais assume seu caráter conservador. Serra representa o grupo político que governou o Brasil antes do Lula, com desempenho, sob qualquer critério, muito inferior ao do governo petista, a comparação chega a ser enfadonha, vai lá para o pé da página, quem quiser que leia. (1)
Ouvi alguns argumentos razoáveis para votar em Marina, como incluir a sustentabilidade na agenda do desenvolvimento. Marina foi ministra do Lula por sete anos e parece ser uma boa pessoa, uma batalhadora das causas ambientalistas. Tem, no entanto (na minha opinião) o inconveniente de fazer parte de uma igreja bastante rígida, o que me faz temer sobre a capacidade que teria um eventual governo comandado por ela de avançar em questões fundamentais como os direitos dos homossexuais, a descriminalização do aborto ou as pesquisas envolvendo as células tronco.
Ouço e leio alguns argumentos para não votar em Dilma, argumentos que me parecem inconsistentes, distorcidos, precários ou simplesmente falsos. Passo a analisar os dez mais freqüentes.
1. “Alternância no poder é bom”.
Falso. O sentido da democracia não é a alternância no poder e sim a escolha, pela maioria, da melhor proposta de governo, levando-se em conta o conhecimento que o eleitor tem dos candidatos e seus grupo políticos, o que dizem pretender fazer e, principalmente, o que fizeram quando exerceram o poder. Ninguém pode defender seriamente a idéia de que seria boa a alternância entre a recessão e o desenvolvimento, entre o desemprego e a geração de empregos, entre o arrocho salarial e o aumento do poder aquisitivo da população, entre a distribuição e a concentração da riqueza. Se a alternância no poder fosse um valor em si não precisaria haver eleição e muito menos deveria haver a possibilidade de reeleição.
2. “Não há mais diferença entre direita e esquerda”.
Falso. Esquerda e direita são posições relativas, não absolutas. A esquerda é, desde a sua origem, a posição política que tem por objetivo a diminuição das desigualdades sociais, a distribuição da riqueza, a inserção social dos desfavorecidos. As conquistas necessárias para se atingir estes objetivos mudam com o tempo. Hoje, ser de esquerda significa defender o fortalecimento do estado como garantidor do bem-estar social, regulador do mercado, promotor do desenvolvimento e da distribuição de riqueza, tudo isso numa sociedade democrática com plena liberdade de expressão e ampla defesa das minorias. O complexo (e confuso) sistema político brasileiro exige que os vários partidos se reúnam em coligações que lhes garantam maioria parlamentar, sem a qual o país se torna ingovernável. A candidatura de Dilma tem o apoio de políticos que jamais poderiam ser chamados de “esquerdistas”, como Sarney, Collor ou Renan Calheiros, lideranças regionais que se abrigam principalmente no PMDB, partido de espectro ideológico muito amplo. José Serra tem o apoio majoritário da direita e da extrema-direita reunida no DEM (2), da “direita” do PMDB, além do PTB, PPS e outros pequenos partidos de direita: Roberto Jefferson, Jorge Bornhausen, ACM Netto, Orestes Quércia, Heráclito Fortes, Roberto Freire, Demóstenes Torres, Álvaro Dias, Arthur Virgílio, Agripino Maia, Joaquim Roriz, Marconi Pirilo, Ronaldo Caiado, Katia Abreu, André Pucinelli, são todos de direita e todos serristas, isso para não falar no folclórico Índio da Costa, vice de Serra. Comparado com Agripino Maia ou Jorge Bornhausen, José Sarney é Che Guevara.
3. “Dilma não é simpática”.
Argumento precário e totalmente subjetivo. Precário porque a simpatia não é, ou não deveria ser, um atributo fundamental para o bom governante. Subjetivo, porque o quesito “simpatia” depende totalmente do gosto do freguês. Na minha opinião, por exemplo, é difícil encontrar alguém na vida pública que seja mais antipático que José Serra, embora ele talvez tenha sido um bom governante de seu estado. Sua arrogância com quem lhe faz críticas, seu destempero e prepotência com jornalistas, especialmente com as mulheres, chega a ser revoltante.
4. “Dilma não tem experiência”.
Argumento inconsistente. Dilma foi secretária de estado, foi ministra de Minas e Energia e da Casa Civil, fez parte do conselho da Petrobras, gerenciou com eficiência os gigantescos investimentos do PAC, dos programas de habitação popular e eletrificação rural. Dilma tem muito mais experiência administrativa, por exemplo, do que tinha o Lula, que só tinha sido parlamentar, nunca tinha administrado um orçamento, e está fazendo um bom governo.
5. “Dilma foi terrorista”.
Argumento em parte falso, em parte distorcido. Falso, porque não há qualquer prova de que Dilma tenha tomado parte de ações “terroristas”. Distorcido, porque é fato que Dilma fez parte de grupos de resistência à ditadura militar, do que deve se orgulhar, e que este grupo praticou ações armadas, o que pode (ou não) ser condenável. José Serra também fez parte de um grupo de resistência à ditadura, a AP (Ação Popular), que também praticou ações armadas, das quais Serra não tomou parte. Muitos jovens que participaram de grupos de resistência à ditadura hoje participam da vida democrática como candidatos. Alguns, como Fernando Gabeira, participaram ativamente de seqüestros, assaltos a banco e ações armadas. A luta daqueles jovens, mesmo que por meios discutíveis, ajudou a restabelecer a democracia no país e deveria ser motivo de orgulho, não de vergonha.
6. “As coisas boas do governo petista começaram no governo tucano”.
Falso. Todo governo herda políticas e programas do governo anterior, políticas que pode manter, transformar, ampliar, reduzir ou encerrar. O governo FHC herdou do governo Itamar o real, o programa dos genéricos, o FAT, o programa de combate a AIDS. Teve o mérito de manter e aperfeiçoá-los, desenvolvê-los, ampliá-los. O governo Lula herdou do governo FHC, por exemplo, vários programas de assistência social. Teve o mérito de unificá-los e ampliá-los, criando o Bolsa Família. De qualquer maneira, os resultados do governo Lula são tão superiores aos do governo FHC que o debate “quem começou o quê” torna-se irrelevante.
7. “Serra vai moralizar a política”.
Argumento inconsistente. Nos oito anos de governo tucano-pefelista - no qual José Serra ocupou papel de destaque, sendo escolhido para suceder FHC - foram inúmeros os casos de corrupção, um deles no próprio Ministério da Saúde, comandado por Serra, o superfaturamento de ambulâncias investigado pela “Operação Sanguessuga”. Se considerarmos o volume de dinheiro público desviado para destinos nebulosos e paraísos fiscais nas privatizações e o auxílio luxuoso aos banqueiros falidos, o governo tucano talvez tenha sido o mais corrupto da história do país. Ao contrário do que aconteceu no governo Lula, a corrupção no governo FHC não foi investigada por nenhuma CPI, todas sepultadas pela maioria parlamentar da coligação PSDB-PFL. O procurador da república ficou conhecido com “engavetador da república”, tal a quantidade de investigações criminais que morreram em suas mãos. O esquema de financiamento eleitoral batizado de “mensalão” foi criado pelo presidente nacional do PSDB, senador Eduardo Azeredo, hoje réu em processo criminal. O governador José Roberto Arruda, do DEM, era o principal candidato ao posto de vice-presidente na chapa de Serra, até ser preso por corrupção no “mensalão do DEM”. Roberto Jefferson, réu confesso do mensalão petista, hoje apóia José Serra. Todos estes fatos, incontestáveis, não indicam que um eventual governo Serra poderia ser mais eficiente no combate à corrupção do que seria um governo Dilma, ao contrário.
8. “O PT apóia as FARC”.
Argumento falso. É fato que, no passado, as FARC ensaiaram uma tentativa de institucionalização e buscaram aproximação com o PT, então na oposição, e também com o governo brasileiro, através de contatos com o líder do governo tucano, Arthur Virgílio. Estes contatos foram rompidos com a radicalização da guerrilha na Colômbia e nunca foram retomados, a não ser nos delírios da imprensa de extrema-direita. A relação entre o governo brasileiro e os governos estabelecidos de vários países deve estar acima de divergências ideológicas, num princípio básico da diplomacia, o da auto-determinação dos povos. Não há notícias, por exemplo, de capitalistas brasileiros que defendam o rompimento das relações com a China, um dos nossos maiores parceiros comerciais, por se tratar de uma ditadura. Ou alguém acha que a China é um país democrático?
9. “O PT censura a imprensa”.
Argumento falso. Em seus oito anos de governo o presidente Lula enfrentou a oposição feroz e constante dos principais veículos da antiga imprensa. Esta oposição foi explicitada pela presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) que declarou que seus filiados assumiram “a posição oposicionista (sic) deste país”. Não há registro de um único caso de censura à imprensa por parte do governo Lula. O que há, frequentemente, é a queixa dos órgãos de imprensa sobre tentativas da sociedade e do governo, a exemplo do que acontece em todos os países democráticos do mundo, de regulamentar a atividade da mídia.
10. “Os jornais, a televisão e as revistas falam muito mal da Dilma e muito bem do Serra”.
Isso é verdade. E mais um bom motivo para votar nela e não nele.
x(1) Alguns dados comparativos dos governos FHC e Lula.
Geração de empregos: FHC/Serra = 780 mil x Lula/Dilma = 12 milhões
Salário mínimo: FHC/Serra = 64 dólares x Lula/Dilma = 290 dólares
Mobilidade social (brasileiros que deixaram a linha da pobreza): FHC/Serra = 2 milhões x Lula/Dilma = 27 milhões
Risco Brasil: FHC/Serra = 2.700 pontos x Lula/Dilma = 200 pontos
Dólar: FHC/Serra = R$ 3,00 x Lula/Dilma = R$ 1,78
Reservas cambiais: FHC/Serra = menos 185 bilhões de dólares x Lula/Dilma = mais 239 bilhões de dólares
Relação crédito/PIB: FHC/Serra = 14% x Lula/Dilma = 34%
Inflação: FHC/Serra =12,5% (2002) x Lula/Dilma = 4,7% (2009)
Produção de automóveis: FHC/Serra = queda de 20% x Lula/Dilma = aumento de 30%
Taxa de juros: FHC/Serra = 27% x Lula/Dilma = 10,75%
(2) Elio Gaspari, na Folha de S.Paulo de 25.07.10: José Serra começou sua campanha dizendo: "Não aceito o raciocínio do nós contra eles", e em apenas dois meses viu-se lançado pelo seu colega de chapa numa discussão em torno das ligações do PT com as Farc e o narcotráfico. Caso típico de rabo que abanou o cachorro. O destempero de Indio da Costa tem método. Se Tupã ajudar Serra a vencer a eleição, o DEM volta ao poder. Se prejudicar, ajudando Dilma Rousseff, o PSDB sairá da campanha com a identidade estilhaçada. Já o DEM, que entrou na disputa com o cocar do seu mensalão, sairá brandindo o tacape do conservadorismo feroz que renasceu em diversos países, sobretudo nos Estados Unidos.
.Blog de Jorge Furtado

Jornal O Estado de São Paulo demite Maria Rita Kehl

Quinta, 7 de outubro de 2010, 11h25 Atualizada às 15h25
Maria Rita Kehl: "Fui demitida por um 'delito' de opinião", por Bob Fernandes
A psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida pelo Jornal O Estado de S. Paulo depois de ter escrito, no último sábado (2), artigo sobre a "desqualificação" dos votos dos pobres. O texto, intitulado "Dois pesos...", gerou grande repercussão na internet e mídias sociais nos últimos dias.
Nesta quinta-feira (7), ela falou a Terra Magazine sobre as consequências do seu artigo:
- Fui demitida pelo jornal o Estado de S. Paulo pelo que consideraram um "delito" de opinião (...) Como é que um jornal que anuncia estar sob censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?
Leia abaixo a entrevista.
Terra Magazine - Maria Rita, você escreveu um artigo no jornal O Estado de S.Paulo que levou a uma grande polêmica, em especial na internet, nas mídias sociais nos últimos dias. Em resumo, sobre a desqualificação dos votos dos pobres. Ao que se diz, o artigo teria provocado conseqüências para você...
Maria Rita Kehl - E provocou, sim...
- Quais?
- Fui demitida pelo jornal O Estado de S.Paulo pelo que consideraram um "delito" de opinião.
- Quando?
- Fui comunicada ontem (quarta-feira, 6).
- E por qual motivo?
- O argumento é que eles estavam examinando o comportamento, as reações ao que escrevi e escrevia, e que, por causa da repercussão (na internet), a situação se tornou intolerável, insustentável, não me lembro bem que expressão usaram.
- Você chegou a argumentar algo?
- Eu disse que a repercussão mostrava, revelava que, se tinha quem não gostasse do que escrevo, tinha também quem goste. Se tem leitores que são desfavoráveis, tem leitores que são a favor, o que é bom, saudável...
- Que sentimento fica para você?
- É tudo tão absurdo... A imprensa que reclama, que alega ter o governo intenções de censura, de autoritarismo...
- Você concorda com essa tese?
- Não, acho que o presidente Lula e seus ministros cometem um erro estratégico quando criticam, quando se queixam da imprensa, da mídia, um erro porque isso, nesse ambiente eleitoral pode soar autoritário, mas eu não conheço nenhuma medida, nenhuma ação concreta, nunca ouvi falar de nenhuma ação concreta para cercear a imprensa. Não me refiro a debates, frases soltas, falo em ação concreta, concretizada. Não conheço nenhuma, e, por outro lado...
- ...Por outro lado...?
- Por outro lado a imprensa que tem seus interesses econômicos, partidários, demite alguém, demite a mim, pelo que considera um "delito" de opinião. Acho absurdo, não concordo, que o dono do Maranhão (senador José Sarney) consiga impor a medida que impôs ao jornal O Estado de S.Paulo, mas como pode esse mesmo jornal demitir alguém apenas porque expôs uma opinião? Como é que um jornal que está, que anuncia estar sob censura, pode demitir alguém só porque a opinião da pessoa é diferente da sua?
- Você imagina que isso tenha algo a ver com as eleições?
- Acho que sim. Isso se agravou com a eleição, pois, pelo que eles me alegaram agora, já havia descontentamento com minhas análises, minhas opiniões políticas.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

DIVULGAÇÃO: Dois pesos… Maria Rita Khel diz tudo!

Dois pesos… Maria Rita Khel diz tudo! - 4 de outubro de 2010
Por Maria Rita Khel*
Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.
Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.
O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.
*Matéria originalmente publicada no jornal O Estado de S. Paulo e reproduzida do site O Escrevinhador