sábado, 6 de abril de 2013

a criança


por sébastien faure (Sébastien Faure (1858-1942) anarquista francês, realizou conferências pela Europa e participou de diversos jornais, entre eles, Le Libertaire, fundado junto com Louise Michel. Também colaborou com a cooperativa Cinéma du peuple. Dedicou-se à La Ruche (1904-1917), uma escola autogestionária. Morreu aos 84 anos em Royan, França).

Camaradas, 
É da criança que vou lhes falar esta noite. Não conheço assunto mais cativante: nenhum ultrapassa sua importância. 
Não conheço assunto mais cativante do que este ser alternadamente grave e sorridente, indiferente e apaixonado, cruel e sensível, calmo e colérico, sempre gracioso e poético. 
Não conheço assunto mais importante do que os numerosos e graves problemas suscitados pelo estudo da criança, pois a criança é a inteligência que se abre, o julgamento que se forma, o coração que desabrocha, a vontade que se afirma, a consciência que desperta; pois a criança é, hoje, a fragilidade e a ignorância, e amanhã, o saber e a força; em resumo, o problema da criança é por inteiro o problema do futuro. 
O que é a criança? Um anjo descido dos céus, alguns dizem; um demônio vomitado pelos infernos, outros declaram. E aqui nos defrontamos, imediatamente, com duas escolas: aquela que irei nomear de escola pessimista e aquela que, por oposição à precedente, chamarei de escola otimista. 
A primeira declara que a criança nasce profundamente má, que desde o berço traz todas as taras originais de natureza nociva a seu desenvolvimento normal, que é modelada totalmente a partir do lodo, inclinada às mais perversas tendências, sujeita aos mais perniciosos e miseráveis movimentos.
A outra escola afirma o contrário. Declara que a criança nasce boa; que, por natureza, é justa, amável, fraterna, e que ao nascer traz o gérmen das mais auspiciosas disposições, as mais louváveis tendências, os mais valorosos impulsos, sendo capaz de todas as virtudes. 
A primeira escola declara que, dada a maldade original da criança, é indispensável conduzir seu desenvolvimento sob uma rigorosa vigilância, uma inflexível severidade, pois apenas o chicote consegue guiar a criança, de quem nada de bom pode se esperar fora de uma regra severa, de uma austeridade irredutível; e, para utilizar uma expressão atualmente na moda, afirma que é necessário fazer pesar sobre a criança uma ditadura sem fraquezas ou tréguas: a ditadura do medo, da repressão e da proibição.
A escola otimista declara ser preciso, ao contrário, deixar a criança entregue a si própria, abandoná-la completamente a seus instintos e que, cedendo à pressão de suas pulsões naturais, ela desabrochará como uma flor, espalhando ao seu redor, como a dita flor, os mais delicados e sutis perfumes. Nada de proibição, nada de severidade; antes, a entrega da criança a si mesma, que acabará crescendo por si só.
São estas, camaradas, as duas escolas e os dois métodos educativos que a nós se apresentam e entre os quais é preciso escolher. 
Declaro que não pertenço a nenhuma das duas e que estou igualmente distante de ambas. 
Dizer que a criança é má, é um erro; dizer que ela é boa é outro. Não existe criança naturalmente má, nem criança naturalmente boa. Há certamente sujeitos excepcionais, crianças que receberam da natureza os melhores instintos e os mais bem-vindos dons; outros, que vieram ao mundo com hereditariedades perniciosas, e aparentemente os primeiros são impulsionados para a virtude e os outros para o mal. Trata-se de exceções, e quando estou falando da criança, falo da criança em geral, tomada em seu conjunto, e afirmo existir equivalência entre os bons e os maus instintos, e que é preciso voltar para a primeira questão: o que é a criança? Pois é daí que partem os problemas que devemos examinar.
A criança não é nem um anjo descido dos céus, nem um demônio vindo do inferno. A criança — aquela de hoje — é apenas o resultado do acasalamento de um homem e uma mulher vivendo em nossa época, homem e mulher, eles próprios resultantes dos acasalamentos anteriores produzidos no tempo e no espaço. A criança é a sequência de uma interminável linhagem de homens e de mulheres que constituem a genealogia de todos seus ancestrais. A criança é a consequência de todas as gerações que se sucederam na história. É o resumo de todas as raças e de todas as civilizações anteriores. Quando a criança nasce, ela é como uma página em branco sobre a qual nada de definitivo ainda se encontra escrito, nem no sentido do bem, nem no sentido do mal. Ela não é nem boa nem má, ou mais exatamente, ela é ao mesmo tempo boa e má, pois carrega em si, desde seu nascimento, em estado de gérmen, todas as qualidades e, lamentavelmente, todos os defeitos de seus ascendentes.
Ela possui todas as suas virtudes e vícios, todas as suas forças e todas as suas fraquezas, todas as ignorâncias e todos os saberes, todas as ferocidades e todas as mansuetudes, todas as submissões, todos os fracassos e todas as vitórias, todos os progressos e todas as regressões, todas as grandezas e todas as baixezas, todas as perfeições e todas as misérias. Ela é a síntese dos instintos, dos movimentos, das paixões que, há séculos, agitaram e atormentaram a humanidade. Portanto, ela resume em si uma espécie de conjunto onde se combinam o melhor e o pior; ela é capaz dos mais sensatos movimentos, mas também dos mais irracionais, dos gestos mais loucos. Ela é capaz das mais nobres ações, mas também das mais baixas e vis. Por vezes, ela pode se elevar até o cimo, assim como pode descer até o abismo.
Assim é a criança. De onde veio esse pequeno ser amorfo, inconsistente, frágil e franzino, que chora em seu 
berço, e que representa, num dado momento da história, o resultado de todas as hereditariedades, e o que ele vai se tornar? Em que se transformará mais tarde esse pequeno pacote de carne e ossos, sobre o qual se inclina com ternura a mãe atenta? Ele será aquilo que três coisas o tornarem: a hereditariedade, a educação e o meio. 
A criança é como que a soma dessas três coisas. A ascendência, o atavismo, a hereditariedade, três termos 
que resumem todas as forças do passado das quais a criança é a herdeira; a educação, de que falaremos em 
breve, e finalmente, o meio, cuja influência e pressões dominantes a criança sofre, do nascimento até a tumba. Desses três fatores, é do segundo que quero, esta noite, ocupar-me mais particularmente, ou seja, da educação, pois ela é, ao meu ver, aquele que dentre os três exerce a maior importância, desempenhando um papel preponderante. 
Ninguém poderia hoje desconhecer a gravidade da questão da educação: perguntem a qualquer um. Independentemente das ideias filosóficas, religiosas, políticas ou sociais, haverá acordo sobre o fato de que o problema da educação é de importância soberana, ocupando um lugar preponderante nas preocupações de todos. De fato, é da fonte das ideias, dos conhecimentos, dos métodos, dos procedimentos em uso para a educação da criança que mais tarde dependerá a vida intelectual do adulto. As práticas às quais foi conduzido, os conselhos que recebeu, os exemplos que teve sob os olhos, as influências que sofreu, os ensinamentos que lhe tiverem sido dados, irão levá-lo, mais tarde, a um caminho ou a outro, e serão a base de toda a vida moral do indivíduo.
Não há dúvida que da criança de hoje depende o homem de amanhã, e que o problema de seu desenvolvimento é de primeiríssima ordem: a humanidade vale tanto quanto vale a criança. Essa afirmação, enunciada não sei por quem, e repetida por muitos, expressa uma verdade profunda, a seguinte: quem tiver a criança em mãos, terá toda a humanidade. Os dirigentes compreenderam isso muito bem; assim, disputam asperamente a educação da criança. Todos buscam torná-la a continuadora de sua obra, o representante das ideias de sua classe. Vejam a Igreja e a burguesia; duas escolas presentes em nosso país: a escola livre, ou mais exatamente, religiosa, e a do Estado. De um lado, a Igreja, que se esforça por dominar precocemente o coração e o espírito da criança, de modo a mantê-la enclausurada dentro das suas práticas, tornando-a um crente servil, dócil; de outro, o Estado, que também necessita de servidores submissos, de eleitores bem pensantes, de soldados disciplinados, de contribuintes que paguem seu imposto sem cara feia; 
o Estado que, representando a sociedade temporal como a Igreja representa a sociedade espiritual, joga todo seu peso na direção da escola, nos métodos empregados, nos princípios inculcados à criança, nos treinamentos aos quais é submetida, nas imagens que povoam seu cérebro, nos ruídos e cores que atingem seus ouvidos e olhos. A criança não pertence nem à Igreja, nem ao Estado, e à escola para e pelo Estado, à escola para e pela Igreja, eu oponho a escola para a criança. 
Mas abandonemos essas considerações de ordem geral sobre a escola, e vejamos juntos o que a educação 
deve ser. 
Pais e mães que me escutam, se eu lhes dissesse: “Vejam, o dia 1º de janeiro está próximo; eu queria lhes apresentar meus votos no que diz respeito ao seu filho: o que vocês querem que eu lhe deseje? Qual é seu sonho a respeito dele? O que vocês gostariam que seu filho fosse?” Conheço a resposta de antemão, pois é a resposta que eu daria se estivesse no lugar de vocês. Eu diria: “Desejo que meu filho seja belo, inteligente e bom.” Belo, concerne ao corpo; inteligente, ao espírito; bom, ao coração e à consciência. E se meu filho conseguisse ter essas três qualidades — a beleza, ou força física; a inteligência, ou força intelectual; a bondade, ou força moral —, tenho certeza que essa criança seria digna de minha ternura e que mais tarde eu me orgulharia dela.
É isso que vocês responderiam, e teriam razão. Dessa forma, vocês estariam ressaltando a necessidade de uma tripla cultura: física, intelectual e moral. Cultura física, que deve conduzir à beleza do corpo. É preciso compreender o que beleza quer dizer. Não entendo por essa palavra a beleza clássica, tradicional, acadêmica, de alguma maneira oficial, que reside sobretudo na fineza, na delicadeza ou na regularidade dos traços do rosto. Entendo por beleza algo bem diferente. Alguém pode ter traços irregulares e mesmo assim ser belo. Bela é a criança que possui uma fisionomia móvel e expressiva, olhos francos e abertos, um corpo robusto e bem constituído, a criança que, em cada um de seus movimentos, revela robustez, graça, agilidade. É essa a verdadeira beleza na criança. 
Direi quase o mesmo sobre a inteligência. Não considero como necessariamente inteligente a criança que vai bem na escola por ser estudiosa, porque em casa é vigiada para fazer direitinho seus deveres, por aprender bem suas lições e porque em seu cérebro foi introduzido um certo número de informações. Talvez ela saiba ler nos dicionários, construir gramaticalmente uma frase, ter noções de geografia e de história. Mas isso não significa que sua compreensão seja muito aberta, seu espírito judicioso, sua imaginação ardente e, consequentemente, que sua inteligência se encontre à altura dos meus desejos. 
E quanto à bondade, basta-me saber que esta criança é leal e franca, disposta a jamais abusar da força contra alguém mais fraco que ela, e que se presenciar algum violento batendo num pequeno camarada, irá defender o mais fraco contra o mais forte, e sem se preocupar com os riscos que atrairá para si, irá tomar a defesa do mais fraco, e que em todas as circunstâncias, na medida de seus pequenos meios, ela se mostrará fraternal. 
Como eu disse, cultura física, mais cultura intelectual e cultura moral. 
Cultura física: estamos de acordo sobre as condições 
que devem estar reunidas para que a criança se desenvolva normalmente, para que atinja toda a soma de 
força, beleza e harmonia de que é capaz.
Ar puro e revigorante, alimentação saudável e abundante, rotina, cuidados higiênicos, e especialmente ligados à limpeza, e finalmente exercícios físicos ao ar 
livre. Sinto vergonha de enumerar condições tão difíceis 
de se reunir, não para os ricos, não para os privilegiados da fortuna, que podem ter uma casa na cidade e 
outra no campo; na cidade, um apartamento espaçoso 
e bem localizado, no campo uma bela casa ou um castelo, podendo enviar seus filhos para respirar nas alturas 
das montanhas ou à beira-mar, sendo bem acolhidos 
por toda parte devido à sua riqueza. Mas condições difíceis de serem reunidas para os filhos de vocês, morando no quinto ou sexto andar, em que dois, três ou 
quatro vivem num único cômodo, já que os alojamentos 
hoje são tão raros e caros! E é nesse único cômodo que 
quase tudo deve ser feito: cozinhar, lavar roupa, trabalhar, comer, dormir. Como imaginar que o ar respirado 
nesses alojamentos tão pequenos e mal dispostos possa 
ser puro e revigorante? 16
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Alimentação saudável e abundante? Seria preciso 
oferecer a seus filhos alimentos leves, ovos, laticínios, 
frutas, legumes, pouca carne, nenhum vinho, álcool ou 
café, pois eles não têm necessidade de recorrer à excitação artificial dessas bebidas; isso iria mais tarde levá-
los a considerá-las necessárias. Mas esses ovos a que 
me refiro, esses laticínios, essas frutas, esses legumes, 
são abominavelmente caros. 
De modo que sinto vergonha quando falo de tais 
condições, que pareceriam no entanto tão fáceis de 
reunir e que constituem um problema quase insolú-
vel para o simples trabalhador e sua família. Sinto-me 
como esse médico que, chamado à cabeceira de uma 
mulher doente, carcomida pela tuberculose, exaurida 
pelo trabalho ou maternidades sucessivas, não tem dificuldade de enxergar o que deve ser feito, se não para 
salvá-la, ao menos para melhorar um pouco sua sorte 
e prolongar sua existência. Ele a aconselharia a fazer 
uma viagem para o Midi, sob o belo sol de Nice, a tomar vinhos fortificantes, comer carnes cruas ou mal 
passadas; mas ele sente que a miséria encontra-se lá, 
instalada nesse lar, e que essa mãe já tem tanta dificuldade para dar a seus filhos o alimento necessário! 
Como ela própria poderia seguir o tratamento que lhe 
seria necessário? 
Estou na mesma situação que esse médico. Sei claramente o que seria preciso para que seus filhos recebessem o desenvolvimento físico indispensável, e isso parece fácil de ser realizado. E, no entanto, como é difícil! 
Ar puro e revigorante, alimentação saudável, variada e 
abundante, cuidados higiênicos, limpeza irrepreensível, 
rotina, acordar e dormir à mesma hora; espécie de ginástica na qual pouco a pouco são treinados o corpo e 
o estômago da criança, condições quase indispensáveis 
para uma boa saúde. 
Rotina! Quando mesmo para vocês é tão difícil adotá-
la, já que pelas condições de trabalho são obrigados a 
sair de casa cedo, só conseguindo retornar muito tarde... verve
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A criança
Entretanto, eu lhes digo tudo isso, mesmo que vocês 
não possam aproveitar de meus conselhos. Eu lhes digo 
isso porque assim vocês irão detestar ainda mais essa sociedade que priva seus corações de pais ou mães da alegria de dar a seus filhos aquilo que eles necessitam para 
se tornarem robustos, vigorosos, saudáveis e belos. 
Não vou insistir sobre esse ponto. Estamos de acordo 
quanto a isso, e estou convencido que no dia seguinte 
a uma revolução que derrubasse o regime social atual, 
que abolisse o contrato social que nos ata, tenho toda 
certeza que não haveria, no que diz respeito à educação 
de seus filhos, nenhuma discussão grave entre nós. 
Então, falemos agora da cultura intelectual.
A criança, vive, come, dorme, bebe, agita-se, seu corpo de algum modo se desenvolveu. Ei-la na idade de receber os conhecimentos que devem mobiliar seu cérebro. 
Chegou a hora da escola. 
Ah! Nunca digam a seus filhos a seguinte frase, 
que, no entanto, escutei com excessiva frequência 
sair de lábios paternos ou maternos quando a criança 
não se comportava bem: “Seu maroto, se você não for 
bonzinho, vou te mandar para a escola!” Nunca digam 
isso. Se ameaçarem a criança com a escola, é como se 
estivessem dizendo a ela que a escola é um castigo. Isso 
quer dizer: vou te punir te mandando para a escola 
onde, em vez de encontrar uma mãe meiga e afetuosa 
como eu, você vai encontrar um mestre severo que irá te 
corrigir. Quando vocês falam assim, a criança imagina 
imediatamente que a escola é uma espécie de prisão 
na qual será muito infeliz. Ela vai ter receio de ter que 
frequentá-la. Não digam isso a seus filhos. Ao contrário, 
digam-lhes: “Se você se comportar muito bem, vou te 
mandar logo logo para a escola. Até agora você era 
muito pequeno, mas já está grande o suficiente para ir 
à escola caso se comporte bem.” E a criança ficará feliz 
de antemão com a ideia de que logo poderá ir à escola. 
E quando finalmente isso acontecer, ele levará consigo 16
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toda sua alegria. Vocês compreendem que, devido a 
esse fato, a criança terá as melhores condições para 
desfrutar dela? 
Ei-la na escola. Com que objetivo ela se encontra aí? 
Evidentemente para se instruir, para aprender, para se 
familiarizar com as noções mais úteis, e principalmente 
para aprender a aprender. 
Estou falando da escola primária, frequentada pelo 
filho do trabalhador. Ele a frequenta para aí absorver o 
gosto pelo estudo, para receber os conhecimentos indispensáveis sobre os quais, mais tarde, a criança poderá, 
graças a seu esforço pessoal e persistente, fundar toda 
sua vida. 
Falaremos daqui a pouco dos programas. Graças aos 
conhecimentos que recebeu, ela em seguida deverá ser 
capaz, caso se torne possuidora de um bom método de 
trabalho, de procedimentos intelectuais judiciosos, e 
se tiver contraído um mínimo gosto pelo estudo, deve 
conseguir desenvolver seus primeiros conhecimentos, 
ampliar o campo de suas observações, formar cada vez 
melhor seus julgamentos, aumentar os tesouros armazenados por sua memória, forjar em sua imaginação — 
por aproximação e comparação — evocar novas ideias, 
imagens, unir umas às outras. É esse o papel da imaginação. Nela, há uma parte de criação, ao passo que 
as outras faculdades são exercidas apenas sobre dados 
precisos; a imaginação tem a particularidade de criar 
sobre materiais que lhe são fornecidos pela memória, a 
inteligência e o julgamento. 
É esse o objetivo da escola e é o que nos propomos 
a ensinar à criança, quando ela vem para a escola. Dirigiram à escola pública um requisitório muito severo. 
Confesso compartilhar da maioria das críticas formuladas contra ela. O que não impede de prestar ao corpo 
docente, principalmente às professoras e professores 
da escola primária, a homenagem que merecem. Um 
grande número dentre eles cumpriram esforços meri-verve
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A criança
tórios, chocaram-se contra uma organização defeituosa 
de ensino, contra a hostilidade das famílias, a rotina 
dos regulamentos, contra as exigências abusivas dos 
chefes, dos inspetores. Eles se encontraram, por assim 
dizer, entre a cruz e a caldeirinha. De um lado, seus 
chefes hierárquicos, o programa seco, brutal; de outro, 
as exigências crescentes das famílias. 
Nessas condições, reconheço que o papel dos professores e professoras é extremamente ingrato, e é por isso 
que não estou aqui acusando os mestres, mas o ensino.
Em primeiro lugar, há alunos demais para um único 
mestre. 
Sabe-se que quando um professor ou professora tem 
em sua classe 40, 50, e por vezes, 70 ou mais alunos, é 
materialmente impossível que consiga se ocupar de forma útil deles. Ele mal os conhece; sabe vagamente seus 
nomes, por vê-los sentar-se todos os dias no mesmo lugar, no mesmo banco, diante da mesma escrivaninha, 
mas o que sabe deles? Será que os interrogou um a um? 
Será que lhe é possível conhecer o espírito e o coração de 
seus alunos? Será que terá tempo de corrigir os deveres 
de cada um, garantir se eles aprenderam ou não, se eles 
sabem suas lições? Não, isso não lhe é possível.
E o que acontece com a classe em tais condições? 
Felizes dos mais inteligentes e estudiosos, que conseguirão aproveitar dos ensinamentos de seu mestre, que é 
obrigado a se conformar a um programa estrito, do qual 
é escravo e que deve percorrer com excessiva rapidez. 
Sorte daqueles alunos com mais inteligência e memória. Mas e os outros? Aqueles que formam a imensa 
massa? Eles se arrastam, tropeçando, aos trancos e 
barrancos, e têm muita dificuldade de acompanhar. 
Suas pequenas pernas não lhes permitem correr. Então, 
essas crianças são evidentemente sacrificadas. E elas 
constituem a maioria. Para elas é muito difícil chegar ao 
famoso certificado...16
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Certificado cujas matérias, aliás, são muito pouco 
conhecidas por aqueles que o obtém, matérias que, 
além do mais, estes últimos praticamente não irão utilizar a seguir e que tratam de esquecer o mais rapidamente possível, mal acabam de aprendê-las. 
É preciso que o trabalho seja variado. A criança só 
possui uma pequena soma de atenção sustentável. 
Depois de três quartos de hora, no máximo uma hora, 
essa soma de atenção encontra-se de alguma forma 
esgotada. É indispensável deixá-la à vontade para 
fazer alguns movimentos, é necessário proporcionarlhe alguns instantes de recreação, para que possa 
desenferrujar as pernas. Após uma hora, ela não entende 
mais nada. Sente comichões nas panturrilhas. Preferiria 
estar lá fora, brincando, e isso é compreensível. 
Se ela for maior, conseguirá manter-se no lugar e 
atenta um pouco mais de tempo, mas com uma condição: 
que o tipo de trabalho mude, e que façamos suceder a 
um certo estudo, um trabalho de gênero tão diferente 
quanto possível. Por exemplo, após uma aula de cálculo, 
deem-lhe uma redação; depois de uma lição exigindo 
memorização, que ela desenhe. Assim, apenas o fato de 
mudar de estudo, de trabalho, constitui uma distração; 
senão, é evidente que se você massacrá-la durante uma 
hora e meia, duas horas, com o mesmo trabalho, este 
vai se tornar penoso, e o escolar não conseguirá tirar 
qualquer proveito dele. A criança precisa de trabalho 
variado e de recreação frequente.
É preciso também que a sala de estudo seja clara, 
alegre, ampla, de modo que as crianças não se atrapalhem mutuamente, e que sintam prazer por se encontrar aí. Já vi escolas em que elas ficavam totalmente 
amontoadas, não conseguindo nem mesmo mexer os 
braços. 
As crianças precisam de muito espaço: observemnas enquanto comem. Quase todas comem espalhando os cotovelos sobre a mesa; os menores precisam de verve
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A criança
mais espaço que um adulto. Na escola, é a mesma coisa: a criança precisa sentir-se à vontade. Se pudesse, 
ela se deitaria. E se em casa ela é capaz de colocar os 
pés num prato ao comer, seria também bem capaz de 
colocar os pés sobre a mesa na escola. 
As posições mais exdrúxulas são as melhores para 
ela, enquanto a posição metódica, clássica, que consiste em se manter de tal ou tal maneira, com os cotovelos 
perto do corpo, é uma posição que não lhe convém.
Portanto, seria preciso que a sala de aula fosse clara, 
arejada, alegre e ampla; que houvesse coisas penduradas nas paredes, lembrando à criança pequena que a 
hora do recreio vai chegar. E não essas máximas que 
lembram, a cada instante, que ela tem uma lição a fazer, não preceitos sobre suas obrigações. 
Parem de importuná-las com máximas. 
O resto é uma questão de programa, e ao mesmo tempo, de memória. 
Apenas algumas palavras sobre o programa. O programa da escola primária é, a meu ver, carregado demais. Ah! Conheço as ilusões tenazes e as exigências 
absurdas da maioria das famílias. Pais e mães têm a 
eterna fraqueza de ver em seu filho um ser prodigioso. Se ele não for realmente um horror, o pai e a mãe 
estarão convencidos que seu petiz é um projeto de gê-
nio. Quando é um pouco robusto, os pais consideramno um Apolo ou um Hércules. Pais e a mães possuem 
um prisma especial, o prisma de seu carinho através 
do qual percebem o filho. Esperam dele que seja um 
prodígio. É preciso que ele seja forte em gramática, em 
cálculo, em história, em geografia; que ele leia de modo 
inteligente os mais sutis autores.
Essa é uma exigência louca. A criança de dez ou 
doze anos mal nasceu para a vida cerebral, sua inteligência está ainda começando a se formar. Peçam, por 
exemplo, para uma criança de dez anos erguer um peso 16
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de vinte quilos e carregá-lo com braços estendidos; ela 
não vai conseguir. Pois bem, é exigir um esforço igualmente ridículo e um resultado igualmente absurdo esperar que ela seja, aos doze anos, forte em gramática, 
em matemática, em história, em geografia, em desenho, 
em tudo. Então, o que acontece é que a maioria dessas 
crianças prodígio, tais como limões cujo sumo foi espremido prematuramente, tornam-se frutos secos em 
noventa por cento dos casos. Foram sobrecarregadas 
num dado momento, e da vanguarda em que se encontravam passam para a retaguarda. Eram as primeiras, 
tornam-se as últimas. Conheço muitas crianças que, 
precoces e exigidas em excesso, foram a esperança de 
sua família e que, ao entrar para a vida, tornaram-se 
puros cretinos. 
Muitas vezes, o cérebro da criança é comparado 
a uma morada. Está correto. Muitas vezes se diz: é 
preciso mobiliar o cérebro da criança. Isso não quer 
dizer que o cérebro da criança seja um apartamento 
muito amplo, composto de numerosos cômodos e que 
pudesse ser abundantemente mobiliado. Ao contrário, 
é uma habitação pequena, muito pequena; não devemos entulhá-la de mesas, armários, bufês, cadeiras, 
camas; isso atrapalharia a criança. É preciso apenas 
alguns poucos móveis, de utilidade incontestável, e é 
preciso que cada móvel esteja em seu lugar, de modo 
a ocupar o menor espaço possível, para que a criança 
possa circular e esteja à vontade nessa casa. 
Considero que o programa da escola primária tem um 
excesso de conteúdos. Esse programa deveria ser limitado aos conhecimentos fundamentais, ou seja, àqueles 
conhecimentos sem os quais não é possível adquirir outros; aos conhecimentos essenciais, aos conhecimentos 
de base: a escrita, a leitura, o cálculo, as primeiras no-
ções de desenho; em ciências, bastam algumas noções 
elementares. Senão, a criança irá possuir um verniz de 
todas as coisas, mas na verdade não vai saber nada. verve
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A criança
Seria melhor que ela conhecesse menos coisas, mas 
que conhecesse melhor cada uma delas. E o latim, que 
dizia: Non multa sed multum, não muito em extensão, 
mas muito em profundidade, tinha infinitamente razão. 
Permitam-me uma comparação:
Temos dois homens. O primeiro tem uma biblioteca 
que abarca mil volumes. Não é muito, mas é alguma 
coisa (há muitos dentre nós que não possuem uma biblioteca tão volumosa); ele tem mil volumes, mas nunca 
os leu, ou tão pouco, que poderíamos dizer que ele não 
os conhece. Conhece vagamente o nome de alguns autores. Quando recebe visitas, ele as leva à sua biblioteca, certo de que vai lhes causar uma boa impressão de 
sua alta cultura, dizendo-lhes: “Eis meus livros!”
Durante a conversa, ele chegará mesmo a lançar, 
ora bem, ora mal, algumas vezes bem, mas com 
mais frequência mal, o nome de algum autor célebre, 
ou de uma obra conhecida. Mas se precisar de uma 
informação, de um dado preciso, de uma estatística, de 
uma cifra, ele terá uma infinita dificuldade de encontrar 
em sua biblioteca o volume que deverá consultar para 
obtê-los; e mesmo quando tiver encontrado o volume, 
ele o terá lido em outra época de forma tão distraída, 
folheado tão rapidamente, que vai ser muito penoso 
para ele encontrar a passagem de que necessita.
Ele tem muitos livros, mas conhece muito pouco 
deles. 
E agora, eis o outro homem. Este aqui possui apenas 
uma biblioteca bem pequena, de quarenta ou cinquenta livros — e pode ser até menos — muito poucos livros. 
Pouco importa o número. Mas ele já leu cada um deles 
durante o tempo necessário para conhecê-lo bem. Conhece não somente o título, mas o conteúdo. Leu-o pá-
gina a página. Releu-o duas vezes, três vezes, dez vezes, 
e exerceu sua reflexão em cada página.16
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Se este homem precisar de alguma informação, de 
um documento, de uma citação, de uma cifra, não hesitará. Sua biblioteca é bem organizada, seus livros estão 
bem classificados; aqui, os romances; ali, o teatro; mais 
longe, a ciência; lá, outra coisa. Consequentemente, ele 
sabe em que lugar procurar o documento de que necessita, onde está o livro a ser consultado e, nesse livro, a 
página que deverá reler. 
Poucos livros, mas ele os conhece. Isso vale mais do 
que muitos livros desconhecidos.
Da mesma forma, prefiro uma criança que conhece 
poucas coisas, mas que as compreendeu e se apropriou 
bem delas, do que uma criança que possui um verniz de 
tudo, mas que na realidade não conhece nada. 
O programa é carregado demais. Ele deve se limitar aos conhecimentos elementares, essenciais, fundamentais, permitindo mais tarde que a criança, caso 
seja estudiosa e possua um bom método de trabalho, 
desenvolva seus conhecimentos e torne-se uma espécie 
de autodidata, ou seja, o homem que aprende tudo por 
si só. 
Melhor conhecer a fundo poucas coisas do que muitas insuficientemente. 
Há outra censura que lanço ao ensino, e aqui ela se 
dirige mais ao método do que ao programa.
Acho que é reservado um lugar privilegiado para a 
memória, um lugar importante demais no desenvolvimento da força cerebral da criança. Vou evitar falar mal 
da memória; ao contrário, aprecio a importância considerável dessa faculdade, e dou valor, como convém, 
aos serviços que ela é capaz de prestar. Se fôssemos 
esquecendo conforme aprendêssemos, seríamos como 
Sísifo empurrando em vão sua pedra, e nosso cérebro 
seria como o barril das Danaides, que, por estar furado, 
deixava cair por baixo aquilo que vertiam por cima. verve
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A criança
A memória é uma faculdade preciosa. Longe de mim 
contestar esse fato. Mas ela tem seu papel, sua função, 
que é reter, armazenar, classificar, categorizar os conhecimentos que são pouco a pouco introduzidos no 
cérebro da criança. Ela os classifica ordenadamente, 
de modo que a criança possa, se for o caso, encontrá-
los. É a pequena biblioteca sobre a qual falei agora há 
pouco. É necessário que haja ordem, que ela não esteja 
entulhada, e para isso, que a memória apenas sirva à 
inteligência. Ela não deve precedê-la.
O papel da inteligência é compreender; depois, quando compreendemos, intervém a memória, cuja função é 
reter. Portanto, a memória deve se limitar à função que 
lhe convém, sem invadir as faculdades vizinhas. 
A energia cerebral comporta quatro elementos ou 
quatro fatores: 1) a inteligência propriamente dita, a 
capacidade de compreender; 2) a memória; 3) a imaginação; 4) o julgamento. 
Cada uma dessas faculdades tem suas atribuições 
particulares que permitem realizar o desenvolvimento 
do cérebro nas melhores condições.
Em primeiro lugar, compreender: inteligência. Em 
seguida, reter e classificar: memória. Associar os conhecimentos adquiridos, as ideias armazenadas, os 
ruídos, as cores que povoam o cérebro, evocar através 
da imagem novas criações e aproximações inesperadas: 
imaginação. Depois, comparar, aproximar ou separar 
ideias, sensações, lembranças, estabelecer semelhan-
ças ou diferenças: julgamento. 
Tudo isso comporta um mecanismo bastante complicado. Mas ainda é preciso se reconhecer nisso e, 
nesse sentido, deixar a cada faculdade o lugar que lhe 
convém.
Farei uma outra e última censura à escola. Sou um 
adversário ferrenho do que é chamado classificação; 
do sistema que consiste em fazer com que as crianças 16
2009
30
entrem em competição, para reconhecer uma como 
primeira da classe, outra como segunda, uma outra 
ainda como última. Sou adversário desse sistema de 
classificação por estar convencido que seus resultados 
são nefastos. Muitas pessoas imaginam, a meu ver 
de forma totalmente errônea, que essa classificação 
é um estímulo, e que tal competição produz bons 
resultados. Acredito que aqueles que pensam assim 
estão enganados. 
Os primeiros não são sempre os melhores, os mais 
estudiosos. São aqueles que receberam da natureza as 
mais preciosas capacidades e os mais brilhantes dons. 
Mas nem sempre são eles os que mais trabalham. Frequentemente, são os que trabalham menos, pois possuem mais capacidades que seus coleguinhas. Eles 
acabam por se tornar insuportáveis devido ao orgulho, 
presunção e autossuficiência. Sem dúvida, vocês já conheceram dessas crianças que sempre são as primeiras 
e que ganham constantemente medalhas. Eles olham 
com desdém, com desprezo, o pobre coleguinha que 
se arrasta penosamente no último lugar, e acham natural que exista na escola primeiros e últimos, os que 
foram feitos para estar sempre na frente, para receber 
todas as recompensas, todos os cumprimentos, todos 
os sucessos, todos os sorrisos, e aqueles, ao contrário, 
que são destinados a só conhecer os últimos lugares, 
as broncas, as humilhações. E assim, eles acabam se 
acostumando a uma concepção social perigosa. 
Mais tarde, quando essas crianças entrarem na circulação social, trarão consigo esse hábito e o resultado desse sistema de classificação. Os primeiros ainda 
distribuirão cotoveladas para conseguir os primeiros 
lugares. Irão querer, a qualquer preço, desencavar as 
melhores posições. Passarão por cima de todos os escrúpulos que poderiam retê-los. Para eles o principal é 
conseguirem ser os primeiros. Na escola, havia os primeiros e os últimos, os que recebiam os elogios e as 
recompensas e aqueles que recebiam as censuras e as verve
31
A criança
punições. Na sociedade, eles pensam que também deva 
ser a mesma coisa, e efetivamente há os primeiros e 
os últimos e, para serem os primeiros, farão de tudo, 
tornando-se arrivistas ferozes.
Quanto aos últimos, eles olham os primeiros com 
inveja e, pressionados por suas famílias, que dizem: 
“Então, você nunca vai ser o primeiro?”, eles também 
desejariam chegar em primeiro lugar e ganhar a medalha, mas não possuem as mesmas facilidades. Sua memória é ingrata, a imaginação preguiçosa, seu espírito 
lento. Por mais que trabalhem, façam esforços, sejam 
estudiosos — eles mereceriam cem vezes a medalha e o 
primeiro lugar — estão de qualquer forma condenados 
a serem os últimos.
Então, pouco a pouco, eles se desencorajam, come-
çam a odiar o estudo que não lhes proporciona qualquer 
satisfação, reservando-lhes, pelo contrário, apenas dissabores, humilhações, contrariedades. Eles chegam até 
a odiar o próprio fato de se esforçar, diante da esterilidade dos esforços que realizam.
É isso que produz tal classificação: em uns, o orgulho, a presunção, a dureza de coração, o arrivismo; nos 
outros, a inveja, o desencorajamento, o ódio pelo estudo, 
a aversão ao esforço.
Sem contar que existe, para os professores e professoras, um caso de consciência difícil de ser resolvido. 
Quando um mestre é obrigado a classificar seus alunos, 
é um gesto de justiça que ele deve realizar, é um ato de 
equidade que ele deve cumprir. Como ele irá estabelecer 
sua escolha? No que irá basear sua apreciação?
Tomo duas crianças: uma delas é inteligente, tem 
prontidão de espírito, a compreensão viva, a memória 
fiel, a imaginação ardente, o julgamento relativamente 
saudável e judicioso — tanto quanto tudo isso é possível quando somos crianças — estuda pouco e consegue aprender bem.16
2009
32
O outro, pelo contrário, tem o espírito lento e preguiçoso, a imaginação curta e rara, a memória infiel 
e ingrata, a compreensão difícil, o julgamento incerto. 
Estuda muito, mas não tem sucesso.
Mestre, o que você faria? Você deve comparar os 
deveres dessas duas crianças e pronunciar sobre eles 
uma sentença. Você teria o direito de julgá-las, de alguma maneira: de recompensar uma delas, dando-lhe 
o primeiro lugar, e de punir a outra, relegando-a ao último. O que você faria? Você irá recompensar a natureza dando o primeiro lugar para aquela que, mais bem 
dotada que a outra, faz uma lição melhor sem esforço 
ou, ao contrário, você irá recompensar o esforço, dando o melhor lugar para aquela que, carente de aptidão, 
trabalhou mais e cuja lição, embora inferior, é ainda 
mais meritória pelo fato de seu esforço ter sido maior? 
Responda.
Confesso que, se eu fosse professor, não saberia, em 
tal circunstância, como resolver a questão! Esse é um 
problema de consciência, extremamente grave, delicado 
para o professor ou a professora. 
Além do mais, será que não basta que, mais tarde, 
entrando na vida, na grande circulação social, nossas 
crianças, tornadas adultos, homens, sejam obrigados a 
participar da luta social, a se interessar pelas paixões 
que nos agitam, a participar das querelas que nos agitam? Será mesmo necessário que, tão cedo, por esse 
sistema de classificação, elas sejam contrapostas umas 
às outras, treinadas em rivalidade, quando mais tarde 
inevitavelmente conhecerão os horrores da vida e correrão o risco de que essa rivalidade permaneça em seu 
coração e espírito? A criança não deve ser comparada 
a outras; ela deve ser comparada consigo própria; o essencial é que ela esteja progredindo, não em relação a 
seus colegas, mas a si mesma.verve
33
A criança
Cheguei ao ponto mais delicado deste estudo: a cultura moral. A cultura moral exigiria uma ou mesmo vá-
rias conferências, mas tenho que respeitar os limites. 
No que diz respeito às condições e procedimentos 
próprios para garantir o desenvolvimento físico, 
estamos, pelo menos em princípio, quase todos de acordo. No que concerne à cultura intelectual, tampouco 
existe desacordo entre nós, ainda que a concordância 
não seja, nesse ponto, tão completa quanto sobre o 
primeiro; mas é apenas sobre questões de detalhes que 
temos algumas divergências. Pelo contrário, no que se 
refere à cultura moral, a luta é áspera e apaixonada, 
entre as duas escolas sobre as quais falei no início; 
uma desejando a severidade, a outra a brandura; esta, 
procedendo pela liberdade, a outra, pela coerção; uma 
adestrando, a outra educando. 
Vamos dar uma olhada geral nesses métodos opostos. 
Severidade ou brandura? Não será surpresa se eu 
lhes disser que prefiro o método da suavidade.
Não falem de suavidade, indulgência, benevolência 
aos partidários da força! Eles lhes diriam: “Ah! Vocês 
querem usar a persuasão com a criança! Querem raciocinar com ela e convencê-la! Quando ela cometer um 
erro, querem que ela compreenda e esperam assim levá-la a se arrepender? Estão completamente iludidos!”
Assim falam os partidários da severidade, acreditando que a criança deve crescer em uma atmosfera de 
autoridade implacável, e que deva ser tratada com disciplina ferrenha, numa impiedosa ditadura.
Todos os raciocínios que vocês desenvolverem irão 
no máximo provocar neles o erguer de ombros que vocês tão bem conhecem. Eles irão lhes lançar um olhar 
estranho, vão medi-los da cabeça aos pés, perguntando-se se vocês não estariam por acaso um pouco 
doentes, um pouco malucos, considerando-os espíritos quiméricos. Não irão conceder a seus argumentos 16
2009
34
qualquer atenção séria pois, a seu ver, eles nem merecem ser examinados. 
Pois bem, eu acredito que a severidade conduz aos 
mais desastrosos resultados. 
Através da violência, com surras, vocês não conseguirão nada da criança. 
Evidentemente, caso se trate de conseguir dela que 
permaneça quieta e tranquila em um cantinho, como se 
fosse uma imagem; que ela evite pronunciar qualquer 
palavra sem antes ter sido autorizada; que ela se abstenha de dizer tudo o que lhe foi proibido expressar, sob 
pena de castigos ou privação de sobremesa, reconheço 
que tudo isso pode ser obtido em troca de uns safanões 
bem aplicados ou de ameaças sérias que se tornarão 
efetivas na primeira falha. 
Mas vocês não percebem que se a criança permanece silenciosa e tranquila quando esse pequeno ser 
aspira aos movimentos e gostaria de tagarelar, que é 
contrário à sua natureza condená-la à tranquilidade e 
ao silêncio? Isso é algo muito perigoso. Evitem dizer a 
seu filho: “Cale-se, você não tem direito a falar quando 
estiver perto de adultos.” Não se deve falar assim com 
as crianças. Em primeiro lugar porque, se ela tiver algo 
a dizer, ela tem o direito de falar e, em segundo, porque 
vocês correm o risco, condenando-a dessa forma ao silêncio, de quebrar nela o poderoso impulso à curiosidade que leva a criança a interrogar, discutir, raciocinar, 
perceber, saber. 
A criança a quem vocês dizem: “Cale-se, escute os 
adultos”, não diz nada; vocês acham que ela vai escutar 
os adultos? Não! Ao passo que os escutaria com prazer se 
tivesse o direito de entrar na conversa e dar sua palavra.
Talvez isso permitisse muitas vezes que, sob a forma 
ingênua que lhe é própria, ela colocasse questões simples sobre as quais vocês mesmos não teriam pensado.verve
35
A criança
Mas condená-la ao silêncio e ir contra sua natureza, 
será que isso é educar?
Vocês acreditam que irão enobrecer o coração de seu 
filho, conduzi-lo às práticas salutares da virtude, despertar em seu coração e consciência os pensamentos 
mais nobres e generosos, obrigando-o a uma imobilidade artificial e ao silêncio imposto?
Não. E consequentemente, isso não tem nada em comum com o ser moral que a educação tem a tarefa de 
desenvolver.
Trata-se de algo totalmente diferente do que obter o 
resultado que vocês obteriam pela severidade, em geral, a hipocrisia. Ah! Vocês vão conseguir da criança 
sobre a qual acabei de falar que ela não faça nada de 
proibido enquanto vocês estiverem presentes. Ela vai 
permanecer tranquila enquanto vocês estiverem a seu 
lado. Mas quando não estiverem mais ali, essa criança 
que vocês terão impedido de falar vai tirar a desforra, 
falando até sufocar; aquilo que lhe tiver sido proibido, 
ela vai se apressar a fazer, assim que vocês tiverem lhe 
dado as costas. Mas para não ser punida, ela terá o 
cuidado de enganá-los. Recorrerá à mentira e à hipocrisia. Dissimulará seu erro. Vai dar um jeito de vocês 
não saberem de nada para não puni-la, e o único resultado que vocês obterão através dessa severidade será 
simplesmente suscitar nessa criança a hipocrisia e a 
mentira. É essa maneira da força que a terá tornado a 
mais leviana, a mais turbulenta, a mais agitada, a mais 
nervosa, e a seguir será dessa maneira forte que ela irá 
cometer baixezas, desatinos, e até loucuras.
Talvez por enquanto isso não seja grave; mais tarde, 
esse jovem animal vai se acalmar; vai chegar à idade da 
sabedoria. Não será preciso colocar um freio em seus 
exageros, sua turbulência, seu desatino. A experiência 
e a idade irão se encarregar dessa tarefa. Se isso não é 
certo, pelo menos é possível, e mesmo provável.16
2009
36
Mas o grave é que a criança terá contraído o hábito da mentira e da dissimulação; o hábito dessa fraude à qual terá frequentemente recorrido em vez de se 
mostrar, assim como é, para aqueles com quem vive. 
Terá constantemente desempenhado um papel, fingido 
ser a criança calma, quando ao contrário era agitada e 
turbulenta, terá fingido ser a criança silenciosa e bem 
comportada, quando ao contrário desejava tagarelar, o 
que aliás fazia muito bem desde que vocês não estivessem mais ali. 
Reconheço que a severidade é um processo cômodo 
para o educador. É tão fácil dizer à criança: “Se você se 
comportar bem, vou te recompensar; se não se comportar bem, vai ter que se haver comigo.” Não lhe é dada 
qualquer explicação; se ela pede por alguma, tem uma 
resposta dura: “Nada de discutir comigo, eu te proíbo de 
fazer isso, e basta.” É fácil, cômodo, rápido. Para isso, 
nem mesmo é preciso amar muito seu filho, nem possuir 
grandes conhecimentos. É só dizer a seu próprio filho 
o que se escutou do próprio pai ou mãe: “Você tem que 
fazer isso, você tem que fazer aquilo.” Isso não tem nada 
em comum com a educação e não dá à criança qualquer 
elevação de pensamento, de caráter ou de coração.
Coerção ou liberdade? Não preciso lhes dizer que sou 
contra a coerção. 
A coerção tem inconvenientes graves porque ela só 
funciona com seu cortejo de punições e recompensas. 
Ela tem o inconveniente de regulamentar todos os atos 
da criança, de catalogá-los como permitidos ou proibidos, de categorizá-los como atos recompensados e atos 
punidos. 
Exemplo: a mamãe sai; ela deixa duas ou três crian-
ças em casa. Ela lhes diz: “Meus filhinhos, estou saindo, comportem-se bem, fiquem quietinhos; está aqui 
um livro de figuras e um livro de histórias; leiam, assim 
vocês vão se divertir. Não saiam, não vão para a rua; 
se baterem à porta, não respondam, não abram; não verve
37
A criança
brinquem com fósforos, não comam geleia. Se vocês se 
comportarem bem, se vocês se conformarem àquilo que 
estou lhes dizendo, quando eu voltar, vou lhes dar um 
tablete de chocolate, e vou levá-los à noite ao cinema 
ou ao circo. Mas se vocês não se comportarem, não vão 
ganhar nenhum chocolate, não vai ter nenhum cinema, 
e sim um bom castigo, uma boa surra.” 
Vocês conhecem mães que dizem isso. Eu também. 
Qual é o resultado dessa coerção exercida sobre a 
criança? A seguinte. De duas, uma: ou as crianças vigiam pela janela para saber a hora que a mãe foi embora, e assim que ela se afastar farão o diabo a quatro, 
irão para a rua brincar com os coleguinhas, vão se lambuzar de geleia, acabar com os fósforos, em resumo, 
não vão dar qualquer atenção às recomendações da 
mãe. Mas como querem evitar a surra e fazem questão 
do chocolate, do cinema, do circo, cuidarão de voltar a 
tempo para arrumar tudo e quando a mamãe chegar, 
estarão calmamente sentadas nas suas cadeiras, e lerão o livro de contos e olharão o livro de imagens. 
A mamãe lhes dirá: “Vocês se comportaram bem, 
meus filhos?” E eles responderão: “Sim, mamãe...” “Muito bem, vocês estão de parabéns”, dirá a mamãe: “tomem 
o chocolate, e esta noite iremos ao cinema ou ao circo.”
Ou então, ao contrário — o que é bem possível — as 
crianças levarão a sério as recomendações da mamãe. 
Elas dirão: “Que chato! Bem que gostaríamos de ir para 
a rua encontrar nossos amigos; você está escutando fulano nos chamando? ...mas não podemos ir. Ah! Alguém 
está batendo à porta... vamos ficar quietos, não vamos 
abrir; Ah! Essas geleias! Parecem bem apetitosas... mas 
mamãe deve ter visto que só tinha um pouco; e os fósforos? ...só há quatro, mamãe deve ter contado quantos 
tinha antes de partir, não vamos tocar neles.”
A criança irá estabelecer, na sua cabeça, o seguinte 
cálculo: “Eu bem que comeria um pouco de geleia, mas 
se fizer isso não vou ganhar chocolate, e prefiro um pe-16
2009
38
daço grande de chocolate a um pouquinho de geleia.” 
Ela irá obedecer, unicamente por interesse, ou ainda 
por medo da surra. Será que se pode dizer que como 
a mãe conseguiu o que queria, é só isso que importa? 
Não. Em qualquer ato, é preciso ver os motivos. O valor 
moral de um ato não é determinado pelo próprio gesto, 
mas pelos motivos que o inspiraram.
Imagine que essas crianças, em vez de estarem habituadas à severidade, à repressão, tivessem uma mãe 
afetuosa, um pai suave que as tivesse acostumado a 
racionar sobre a situação e sobre as razões pelas quais 
seria bom e sensato realizar algo. Suponham que essas 
crianças respeitem as recomendações da mãe não para 
evitar a surra ou para não perder o direito ao chocolate, 
mas unicamente porque, pouco a pouco, a razão tivesse 
se familiarizado com os atos a serem realizados e as coisas a serem evitadas, pois sua inteligência teria pouco 
a pouco compreendido porque é bom fazer isso e mau 
fazer aquilo, e por dizerem a si próprias: “Não vamos 
brincar com os fósforos, mesmo que seja agradável ver 
o brilho da chama, porque isso nos foi proibido e porque poderíamos causar um incêndio, do qual seríamos 
as primeiras vítimas; ainda não temos idade suficiente 
para brincar com fósforos.” Ou então a criança dirá: 
“Bem que eu comeria um pouco dessa geleia, mas só 
tem um pouco, é melhor comê-la em família, é preciso 
que ela figure esta noite na mesa comum, quando papai 
e mamãe estiverem aqui, iremos comê-la todos juntos, 
vai ser melhor.”
Ou ainda a criança dirá; “Não vamos para rua, a mamãe não quer, e se ela ficasse sabendo, ficaria triste e 
nós gostamos muito dela, ela fica tão carinhosa e feliz 
quando fazemos o que ela gosta! Ela vai ficar bem contente quando dissermos que a escutamos!”
Vocês veem que há uma grande diferença entre o 
mesmo gesto realizado pelas primeiras apenas para 
evitar a surra, e pelas segundas, para serem sensatas 
e não deixar triste a mamãe que elas amam e que as verve
39
A criança
ama? No primeiro caso, o gesto não tem nada de moral e é quase imoral. No segundo caso, é um gesto que 
adquire, a partir dos motivos que o determinaram, um 
caráter de alta moralidade. 
É chocante escutar falar de educação pelos partidá-
rios da severidade, do método da coerção e da repressão. 
Surpreendi muitos deles dizendo: “Vocês acham que estão educando? Não, vocês estão adestrando!”
Isso me traz à memória uma lembrança muito vívida 
e forte. Há um certo número de anos, um camarada, um 
amigo, estava discutindo comigo sobre a educação, de 
maneira muito livre e amigável, como acontece muitas vezes entre amigos. Ele tinha ideias realmente muito rígidas 
a respeito. Elas eram diametralmente opostas às minhas. 
Na opinião dele, dar uma boa educação consistia em não 
discutir com as crianças, que têm muita dificuldade de 
compreensão, mas tratá-las realmente como pequenos 
animais. “Mas isso, eu lhe disse, não é educação, é adestramento!” — “Chame como você quiser, mas não há outro jeito” — “Repito que é adestramento!”
E fomos ao Circo-Novo, na rua Saint-Honoré. Não 
me lembro mais qual artista — pois era um verdadeiro 
artista — estava apresentando focas que realizavam um 
trabalho realmente maravilhoso, exercícios espantosos. 
Vocês conhecem esse animal pesado, de pequenas patas, corpo viscoso, excessivamente longo e desgracioso. 
O artista em questão chegava a conseguir deles atitudes 
que transformavam esses animais feiosos em seres graciosos, bonitos, que ficavam de pé, sucedendo-se, oito 
ou nove, numa série de exercícios bem arranjados, tão 
metodicamente regulados que tudo acabava formando 
um número realmente notável. 
Eu disse a meu amigo: “Veja como essas focas são 
bem educadas” — “Não! adestradas”, ele responde num 
sobressalto — “Ah, então você percebe que tenho razão 
em querer fazer uma diferença entre educação e adestramento.” Ele ficou sem palavras.16
2009
40
Entre o adestramento e a educação, existe a enorme 
diferença de que o adestramento consiste em se dirigir 
à parte animal do indivíduo, enquanto a educação consiste em se dirigir à sua parte moral, a seu pensamento, 
sua inteligência, sua consciência, seu coração, seu espírito, às suas faculdades mais nobres e elevadas. 
Em matéria de educação, camaradas, o melhor mé-
todo é o exemplo. Os preceitos morais quase não têm 
eficácia. O exemplo, ao contrário, é determinante. Dizem, sobre o mal, que ele é contagiante: isso é verdade. 
Mas o bem também o é. De fato, a criança é o reflexo 
do meio no qual vive. Ela reflete esse meio de modo tão 
fiel que quando vemos uma criança podemos adivinhar 
o meio ao qual ela pertence e, inversamente, quando 
conhecemos o meio, é fácil pressentir como deve ser a 
criança que nele vive. 
Por exemplo, tomem uma criança que curva a cabe-
ça assim que alguém chega perto dela, e que protege 
imediatamente o rosto com o braço. Apenas por essa 
atitude podem estar certos que tal criança é criada segundo o método da repressão brutal.
Se a criança baixa os olhos, podem ter certeza que 
ela pertence a um ambiente dissimulado, hipócrita.
Se fala de modo grosseiro, se emprega expressões de 
baixo calão, é que seus pais não frequentam os salões 
acadêmicos; evidentemente, é porque em casa, a toda 
hora, ela sempre escuta serem proferidos os mais baixos termos, que talvez não fossem usados se os adultos 
pensassem em se controlar na sua frente. 
A criança é sempre a imagem do meio ao qual pertence, e é sua imagem fiel. 
Como querem conseguir que as crianças não os enganem, se vocês próprios a enganam? Se, quando prometem algo, não cumprem sua promessa? Se quando 
assumem um compromisso com ela, não o respeitam?verve
41
A criança
Se quiserem que seu filho nunca minta, comecem 
nunca mentindo para ele. 
Se quiserem que ele mantenha suas promessas, comecem mantendo as suas. 
Para ensiná-lo a respeitar um compromisso assumido, 
respeitem em primeiro lugar os que assumiram com ele. 
Outro fato. Caso esteja sendo longo, desculpem-me; 
é um assunto que me apaixona tanto que me permito 
desenvolvê-lo para que meu pensamento seja melhor 
compreendido. 
Há cerca de dezoito meses, um amigo veio um dia me 
encontrar. Ele tivera a infelicidade, seis meses ou um 
ano antes, de perder sua companheira, e ficara viúvo 
com um menino de uns dez anos. Ele me disse: “Meu 
caro, estou desolado. Não consigo que meu filho me obedeça em nada. Se lhe peço o menor favor, ele me manda 
passear; caso faça algo que lhe peço, ele o faz xingando; 
nunca vejo um gesto amável de sua parte; nunca um sorriso. Estou muito infeliz. Tenho vontade de me separar 
dele. No entanto, gosto dele; e agora que somos apenas 
nós dois, sinto quanto a presença de sua mãe, que não 
está mais aqui, seria necessária. Mais necessária ainda 
seria para mim a presença dessa criança, caso ela fosse 
razoável. Nós dois poderíamos ser tão felizes juntos! Não 
sei o que fazer. Vim te pedir um conselho.”
Eu lhe disse:
“Vejamos! Você tem queixas sobre seu filho. Conteme um fato preciso sobre o qual eu possa basear o conselho que você me pede. O que você está me dizendo é 
vago demais.”
“Pois bem. Imagine que ontem de manhã eu estava atrasado. Ele, pelo contrário, estava adiantado. Eu 
vou trabalhar às oito horas, Ele vai á escola às oito e 
meia. Geralmente, saímos juntos. Ora, ontem de manhã, acordei tarde, e como ele estava adiantado, eu lhe 16
2009
42
disse: ‘Engraxe meus sapatos...’ Pois bem! O espertinho 
arranjou um jeito de ir embora sem engraxá-los.”
Então, eu disse a meu amigo: 
“Acontece, às vezes, dele estar atrasado? E por vezes 
é você que está adiantado em relação a ele: alguma vez 
você engraxou os sapatos de seu moleque?”
“Era só o que faltava!” — exclamou meu amigo.
Eu continuei:
“Pois bem! É aí que está todo o mal. Se teu filho, 
quando você está adiantado e ele atrasado, pudesse 
contar com você para engraxar seus sapatos em seu 
lugar, para ajudá-lo a recuperar o tempo perdido, se 
ele soubesse que você engraxaria seus sapatos no seu 
lugar, no dia seguinte, quando você estivesse atrasado, 
poderia contar com ele para que ele engraxasse os seus; 
a criança, por si só, começaria a engraxá-las, com carinho, com prazer, sem que você precisasse pedir.”
“Outra coisa”, ele me disse. “No domingo, fazemos um 
pouco de limpeza na casa. Domingo passado, eu tinha 
que sair; precisava ir a meu sindicato, para uma reunião. 
Eu disse ao pequeno: ‘Você vai limpar a casa, eu volto ao 
meio-dia.’ Quando voltei, o menino não tinha feito nada, 
ou tão pouco e mal que tive que refazer tudo.” 
Disse ao meu amigo:
“Acontece muitas vezes de você sair no domingo e 
deixar a seu filho a tarefa de fazer a limpeza?”
“É muito natural! Isso não é trabalho para um homem!”
“Se não é para um homem, tampouco o é para uma 
criança; não é menos para você do que para ele, não é 
mais para ele do que para você, é para vocês dois fazerem a limpeza, varrer, lavar a louça. Não são vocês dois 
que sujam a louça? Não são ambos que trazem de fora 
sujeira para dentro de casa? Por que sempre ele deve-verve
43
A criança
ria fazer esses trabalhos, ter esses encargos, enquanto 
você iria ao sindicato, passear ou tomar um aperitivo?”
Meu amigo me compreendeu. E seis meses depois, 
contou-me:
“Estou maravilhado. Não tinha muita confiança, 
mas empreguei seu sistema e hoje, meu filho e eu, engraxamos os sapatos juntos, fazemos a limpeza juntos, 
lavamos a louça juntos, saímos juntos... somos dois 
amigos!”
Gostaria ainda de lhes falar sobre a educação profissional. Mas nesta noite não tenho mais tempo: falarei 
disso uma outra vez. Precisamos terminar. 
Quando lançamos um olhar à massa, deixamo-nos arrastar ao pessimismo, às ideias sombrias, ao desânimo.
De fato, por toda parte existe tanta covardia, tanto ódio, tanta hipocrisia, tanta baixeza, que por vezes 
chegamos a perguntar se será possível levar à grande 
massa as nossas concepções. Ela continua sempre tão 
ignorante, tão fraca, tão servil, apesar de toda propaganda feita junto a ela, apesar de todos nossos esforços, 
difundidos tão profusamente: nossos jornais, panfletos, 
folhetos, livros, reuniões. 
“Vocês se esforçaram tanto, e o que conseguiram? 
Onde está o resultado? Será que não dispenderam suficientemente sua energia, seu saber, sua força, sua saú-
de, em favor dos outros? Vocês não percebem — dizem 
os pessimistas —, que não há nada a fazer com relação 
às massas, e que após ter trabalhado tanto em vão, é 
melhor ir descansar?” 
Quantas vezes, camaradas, escutei essas palavras, 
quantas vezes, provavelmente, vocês também as escutaram! E nos olhos de todos que me davam esse tipo de 
conselho, eu lia mais piedade que afeição ou interesse 
verdadeiro. 16
2009
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Mas se eles sentiam pena de mim, eu sentia o mesmo em relação a eles: pois será que eles não entendem 
que se despender, se dar, se entregar, trabalhar, lutar, 
agir, é não somente uma necessidade para aquele que 
pensa, que tem alguma coisa no coração e no espírito, 
mas que é ainda a única coisa que torna a vida suportá-
vel? Que apenas isso pode embelezar nossa existência, 
e nos ligar a ela?
A lentidão dos progressos sociais não deve provocar 
o desânimo ou diminuir o ritmo de nossos esforços. No 
corpo social, o trabalho acontece como na natureza. 
Se não percebemos nada, pelo menos a elaboração 
das novas forças acontece nos cérebros. 
Paciência! Virá um dia, quando o trabalho de gestação tiver sido suficiente, em que poderemos ver o resultado na reviravolta social que esperamos, e em que 
suas consequências acumuladas permitirão o advento 
de um mundo novo. 
Quanto tempo nos separa desse mundo? Não sabemos. 
Depende de nós, de nossos esforços, a aproximação 
dessa época.
E como?
Através da criança!
Durante minha existência, já longa, pude constatar 
que não há grande coisa a ser esperada dos velhos. 
Quando chegamos à idade de cinquenta ou sessenta 
anos, tudo no homem, por assim dizer, cristalizou-se; 
tudo tomou nele uma forma de alguma maneira definitiva, seu cérebro congelou como o resto. Ele se encontra 
na idade em que as faculdades enfraquecem, em que 
sua vontade se desfaz, em que a energia desaparece, 
em que a tumba está tão próxima que parece inútil começar um gesto que será abandonado assim que for 
iniciado. Nada a fazer com os velhos. verve
45
A criança
Tampouco grande coisa com os homens de idade 
madura. Quando chegam à idade de trinta ou quarenta 
anos sem ter sentido necessidade de participar das lutas 
sociais de nosso tempo, é bem difícil conduzi-los a isso. 
Eles fundaram uma família, escolheram uma carreira 
ou profissão; traçaram um plano para sua existência; 
sua tranquilidade exige que nada mudem nesse plano. 
E depois, eles já estão tão cansados com a luta pela 
vida, e tão decepcionados pelos dissabores que foram 
encontrando pelo caminho, que não querem se lançar à 
batalha. Não querem correr seus riscos. Não, isso está 
acima de seus esforços.
Mas se eu disse: nada a fazer com os velhos e pouca coisa com os homens de idade madura, acrescento: 
há muito a esperar, ao contrário, dos jovens. Os jovens 
possuem ardor, energia, força, entusiasmo. Eles não 
recuam diante de nada, de nenhum obstáculo. São frequentemente censurados pela temeridade e exageros: 
isso é um erro. Essas são condições indispensáveis 
para o sucesso. 
Basta apresentar aos jovens, cujo coração ainda não 
sofreu decepções, cuja imaginação permanece ardente, cujo pensamento é lúcido, cuja vontade é forte, cuja 
consciência ainda não foi corrompida, basta apresentarlhes um ideal puro, nobre, para que eles se tornem os 
servidores desse ideal, seus defensores desinteressados, 
fervorosos e generosos. 
Nada a fazer com os velhos, não muito com os homens maduros, muito com a juventude. 
E acrescento, para terminar: tudo com a criança. A 
criança é o futuro; a criança é a semente: a semente 
hoje, a espiga amanhã, a colheita depois de amanhã.
Pois bem! Nós, militantes, temos as mãos cheias de 
verdades. Essas verdades, são as sementes que contêm 
todo o futuro. Evitemos aprisioná-las e conservá-las 
possessivamente em nossas mãos. Nós não as adquirimos unicamente com nosso esforço. Nós as devemos 16
2009
46
aos esforços daqueles que vieram antes de nós, e por 
isso devemos espalhar por todos essas verdades que 
recebemos de todos. Abramos generosamente nossas 
mãos, lancemos livremente essas verdades nos sulcos 
recentemente cavados, nos sulcos da infância. Prepararemos assim as mais belas colheitas. Sejamos como 
bons lavradores. Se não aproveitarmos dessa colheita, 
nossos filhos, aqueles que nos seguem e que amamos, 
por quem trabalhamos, aproveitarão dela. E essa será 
nossa recompensa. 
Tradução do francês por Martha Gambini.
Notas
1
 Conferência realizada em Paris, em 4 de janeiro de 1921. (N. E.)verve
47
A criança
RESUMO
A criança não é nem um anjo, nem um demônio — Ela é a consequência física, intelectual e moral das gerações anteriores — 
Ela é resultado da hereditariedade, da educação e do ambiente — Importância capital do problema da educação — Cultura 
física — Cultura intelectual: a escola atual: seu programa, seus 
métodos, suas condições — Cultura moral: severidade ou brandura? Proibição ou liberdade? — O exemplo. A reciprocidade. 
— A criança é o futuro!!!

famílias abertas e famílias fechadas


por colin ward (1924-2010 - Anarquista nascido no Reino Unido, foi arquiteto, urbanista e pedagogo. Depois da Segunda Guerra passou a contribuir com o periódico Freedom, fundado por Piotr Kropotkin no século XIX. Editou o periódico Anarchy entre 1961-1970. Entre suas obras mais importantes estão Anarquia e ação (1973) e A Criança na Cidade (1978)).
Ao se escolher um parceiro, procura-se tanto reter as relações desfrutadas na infância, quanto retomar fantasias que se lhe foram negadas. Consequentemente, a seleção de um companheiro ou de uma companheira torna-se para muitos uma tentativa de arranjar um papel particular em uma produção fantasiosa própria. No entanto, na medida em que ambas as partes tem a mesma intenção, mas raramente as mesmas fantasias, o resultado pode ser muito bem o duelo entre dois produtores rivais. Há homens, como Stanley Spencer disse de si próprio, que necessitam duas esposas que se complementam, e mulheres que precisam de dois maridos complementares, ou ao menos dois objetos amorosos complementares. Se, em primeiro lugar, insistirmos que isso é imoral ou infiel, e, em seguida, que se isso ocorresse haveria uma obrigação de cada objeto amado em exigir direitos exclusivos, nós simplesmente estaríamos adicionando dificuldades desnecessárias a uma questão que poderia ter se apresentado sem nenhuma, ou ao menos com poucas, caso fosse permitido a cada um resolvê-la em seus próprios termos. Alex Comfort (Sexo na Sociedade).

Uma revolução essencialmente anarquista, que tem avançado enormemente em nossos dias, é a revolução sexual. É anarquista precisamente porque envolve a negação da autoridade das normas estabelecidas pelo Estado e por diversas iniciativas religiosas em relação às atividades dos indivíduos. Pode-se afirmar que tem avançado, não por causa do “colapso” da família que os moralistas (em geral erroneamente) enxergam por todo lado, mas porque, na sociedade ocidental, mais e mais pessoas decidiram conduzir sua vida sexual como acham melhor. Aqueles que profetizaram consequências terríveis como o resultado da maior liberdade sexual defendida pelos jovens — bebês indesejados, doenças venéreas, etc. — são geralmente os mesmos que buscam a realização de suas profecias ao se oporem ao livre acesso dos jovens aos anticoncepcionais e à eliminação do estigma e mistificação que cercam as doenças sexualmente transmissíveis.
O código oficial sobre questões sexuais foi transmitido ao Estado pela igreja cristã e tem sido cada vez mais difícil de ser justificado devido ao declínio das crenças sobre as quais está baseado. Anarquistas, de Emma Goldman a Alex Comfort, observaram a conexão entre repressão política e sexual. Embora aqueles que pensam que a liberação sexual leva necessariamente à liberação política e econômica provavelmente sejam otimistas, esta certamente faz as pessoas mais felizes. O fato de não haver bases imutáveis para os códigos sexuais pode ser observado a partir da ampla variedade de comportamentos aceitos e da legislação acerca de temas sexuais em diferentes períodos e em diferentes países. A homossexualidade masculina tornou-se um “problema” apenas porque virou assunto da legislação. A homossexualidade feminina não era um problema, pois sua existência foi ignorada pelos legisladores (homens). As anomalias legais são algumas vezes hilárias: “Quem pode explicar exatamente por que a relação anal é legal na Escócia entre homem e mulher, mas ilegal entre homens? Por que a relação anal entre homem e mulher é ilegal na Inglaterra, mas sancionada entre homens se ambos forem maiores de 21 anos?”
Quanto mais a lei é remendada no esforço de torná-la mais racional, mais absurdos aparecem. Isso significaria que não há códigos racionais para o comportamento sexual? Obviamente não: eles apenas estão submersos nas irracionalidades ou desqualificados por meio da associação com proibições irrelevantes. Alex Comfort, que encara o sexo como “o mais saudável e importante esporte humano”, sugere que “o próprio conteúdo do comportamento sexual muda provavelmente muito menos entre as culturas do que a capacidade individual de desfrutá-lo sem culpa.” Ele asseverou duas injunções ou mandamentos morais acerca do comportamento sexual: “Não deverás explorar os sentimentos de outra pessoa”, e “Não deverás causar em nenhuma circunstância o nascimento de uma criança indesejada.” A referência a esses mandamentos levou o professor Maurice Carstairs a provocá-lo com a questão: “por que, enquanto um anarquista, Comfort estaria prescrevendo regras?” — ao que este retrucou que uma filosofia da liberdade demandava um nível mais alto de responsabilidade pessoal do que uma crença na autoridade. A falta de prudência e cortesia habituais que pode ser observada no comportamento adolescente de hoje decorreu, como ele sugeriu, precisamente da determinação de um código de castidade que não faz nenhum sentido em detrimento de princípios que são “imediatamente compreensíveis e aceitáveis por qualquer jovem sensível.”
Certamente não é necessário ser um anarquista para perceber a família nuclear moderna como uma resposta 
do tipo camisa de força às necessidades funcionais do lar doméstico e da criação de filhos, que impõem restrições intoleráveis a muitas pessoas que são capturadas nessa armadilha. Edmund Leach assinalou que “longe de ser a base da boa sociedade, a família, com sua estreita privacidade e espalhafatosos segredos, é a fonte de todos os nossos descontentamentos.” David Cooper a denominava “a insuperável e mais letal câmara de gás de nossa sociedade”, e Jacquetta Hawkes disse que “é uma forma indutora de terríveis demandas aos seres humanos capturados por ela: fortemente carregada pela solidão, exigências excessivas, restrição e fracasso.” Obviamente, para alguns ela funciona como o melhor arranjo, mas nossa sociedade não toma providências para os outros, cujo número se pode deduzir ao se fazer a pergunta: “Quantas famílias felizes eu conheço?”
Consideremos o caso do Mané Cidadão. Em virtude de algumas noites alegres na discoteca, ele e Maria fazem um contrato com o Estado e/ou com alguma corporação religiosa para viverem juntos por toda vida e recebem uma licença para copular. Assumindo que eles superaram os problemas de encontrar algum lugar para viver e formar uma família, olhemos para eles alguns anos depois. Ele, a cada dia lutando do trabalho para casa, sente-se capturado em uma armadilha. Ela sente o mesmo, a solitária dona de casa sem nenhuma ajuda, acorrentada à pia e ao balde de fraldas. E as crianças também, cada vez mais, com o passar dos anos, sentem-se em uma armadilha. Por que papai e mamãe não nos deixam simplesmente em paz? Não é preciso continuar essa saga porque a conhecemos de trás para frente.
Em termos de felicidade e plenitude dos indivíduos envolvidos, a família moderna mostra-se melhor em relação à sua predecessora do século XIX ou às várias alternativas institucionais sonhadas por autoritários utópicos; e podese muito bem argumentar que hoje não há nada que impeça as pessoas de viverem da maneira como gostam. No entanto, de fato, tudo em nossa sociedade, dos anúncios publicitários na televisão às leis de herança, está baseado na suposição da compacta pequena unidade consumidora da família nuclear. A moradia é um exemplo óbvio: para as moradias municipais não estão previstas unidades fora do padrão e no setor privado nenhum empréstimo ou hipoteca estão disponíveis para a formação de comunidades.
Os ricos podem evitar a armadilha pelo simples expediente de pagar outra pessoa para fazer o serviço doméstico e cuidar de suas crianças. Mas para as famílias comuns, o sistema faz exigências que muitas pessoas não conseguem dar conta. Aceita-se isso pois é universal. De fato, o padrão se tornou tão ubíquo que os Kibbutz israelenses ou as comunas chinesas são os únicos exemplos que Dr. Leach poderia citar, onde crianças crescem em grupos domésticos amplos e mais flexíveis, centrados na comunidade e não na cozinha da mãe. Mas mudanças se anunciam: o movimento de liberação feminina é um lembrete que o preço da família nuclear é a subjugação da mulher. As comunas ou moradias conjuntas que alguns jovens estão estabelecendo são sem dúvida, parcialmente, uma consequência da necessidade de dividir aluguéis inflacionados, mas em muitos casos, são também uma reação contra o que eles percebem com a estultificada natureza rígida da pequena unidade familiar.
A mística do parentesco biológico resulta em que alguns casais vivam em desesperada infelicidade por causa 
de sua infertilidade, enquanto outros têm crianças que são indesejadas e negligenciadas. Isso também gera a 
situação comum de pais agarrados a suas crianças porque depositaram muito do seu capital emocional neles, enquanto que estas querem desesperadamente escapar de seu amor possessivo. “Um lar seguro”, escreve John Hartwell, “muitas vezes significa uma atmosfera sufocante onde as relações humanas se tornam uma paródia e onde gotas de criatividade são esmagadas como evidência de desvios.” Estamos muito longe do tipo de comunidade na qual as crianças poderiam escolher localmente figuras parentais às quais elas gostariam de se ligar. No entanto, um bom número de sugestões interessantes está no ar, todas indicando um afrouxamento dos laços familiares no interesse de ambos: pais e filhos. Há a ideia de Paul e Jean Ritter de uma “casa de crianças” no bairro atendendo 25 a 30 famílias; há o conceito de “Casa dos Jovens” de Paul Goodman, instituição análoga à de algumas culturas primitivas; e há a “Unidade de Moradia de Famílias Múltiplas”, sugerida por Toddy Gold. Essas ideias não estão baseadas em nenhuma rejeição de nossa responsabilidade em relação aos jovens: elas envolvem repartir essa responsabilidade pela comunidade e aceitar o princípio que, como Kropotkin colocou, “toda criança é nossa criança.” Elas também implicam dar responsabilidades às próprias crianças, não apenas em relação a elas mesmas, mas à comunidade, o que é exatamente o que a nossa estrutura familiar fracassa em fazer.
As necessidades e aspirações pessoais variam de modo tão amplo, que é tão insensato sugerir alternativas estereotipadas, quanto recomendar conformidade universal ao padrão existente. Em uma ponta da escala, está a deformação da criança pelo acidente da paternidade, tanto pela possessividade, quanto pela perpetuação da síndrome familiar de inadequação e incompetência. Na outra ponta, está o embrutecimento emocional da criança por meio da falta de ligação pessoal em uma situação de abrigo institucional. Conhecemos lares convencionais permeados com afeição casual onde responsabilidades e tarefas domésticas são repartidas, enquanto que facilmente imaginamos um lar comunal no qual as mulheres são verdadeiros burros de carga coletivos, e não individuais, e uma criança que não seja muito atraente e assertiva foi não apenas isolada, mas também negligenciada. Mais importante do que a estrutura da família é a expectativa que as pessoas têm do seu papel nela. O tirano doméstico da família Vitoriana era capaz de exercer sua tirania apenas porque os outros estavam preparados para suportá-la.
Há um velho slogan entre educadores progressistas; “acolha-os, ame-os e deixe-os em paz.” Mais uma vez, 
isso não encoraja a negligência, mas enfatiza que metade das misérias e frustrações pessoais dos adolescentes e dos adultos em que eles se transformam é decorrente das pérfidas pressões ao indivíduo para que este faça o que outras pessoas acreditam ser apropriado para ele. Ao mesmo tempo, a contínua extensão dos processos de educação formal adia cada vez mais a aceitação da efetiva responsabilidade do jovem. Qualquer professor de educação continuada irá relatar a diferença entre jovens de dezesseis anos que estão trabalhando e frequentam cursos vocacionais de meio período e aqueles da mesma idade que ainda estão na educação em tempo integral. Naqueles países tenebrosos onde ainda se permite que crianças trabalhem, percebe-se não apenas o elemento de exploração, mas também a maturidade que acompanha incumbir-se das responsabilidades funcionais do mundo real.
Os jovens são capturados em uma delicada armadilha: a idade da puberdade e a idade do casamento (na medida em que nossa sociedade ainda não permite a experimentação de alternativas) são admitidas, ao mesmo tempo em que a aceitação no mundo adulto é continuamente adiada — apesar da redução da maioridade formal. Não surpreende que muitos adultos pareçam estar presos a um modelo de imaturidade. Na vida em família não se desenvolve uma genuína sociedade permissiva, mas apenas uma sociedade na qual é difícil tornar-se adulto. Por outro lado, para uma minoria de jovens, uma minoria que tem aumentado, os estereótipos do comportamento sexual e papéis sexuais que confinaram e oprimiram as gerações anteriores por séculos, simplesmente se tornaram irrelevantes; fato que poderá certamente no futuro ser considerado como uma das conquistas positivas da nossa era.
Tradução do inglês por Beatriz Carneiro.
Nota
1 Traduzido de “Open and closed families”. Publicado pela primeira vez em Anarchy in action, Londres, Editora Allen & Unwin, 1973. (N.T.)
Resumo: A revolução sexual é uma revolução anarquista, nega a família e suscita experiências de liberdade. O autor retoma outros anarquistas, ao alertar para as consequências do papel da família na subjugação da mulher e frustração de pais, crianças e jovens. Descarta tanto alternativas estereotipadas, como padrões universais existentes. Ressalta ainda a importância da educação livre e comunitária das crianças. 
palavras-chave: revolução sexual, família, crianças.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Direitos Humanos no Código de Ética


Os Códigos de Ética profissionais esforçam-se para buscar uma concepção de homem e de sociedade que determina a direção das relações entre os sujeitos num determinado momento histórico da profissão. 
Traduzem-se em princípios e normas que devem se pautar pelo respeito ao sujeito e seus direitos fundamentais. Por constituir a expressão de valores universais, tais como os constantes na Declaração Universal dos Direitos Humanos; valores sócio-culturais, que refletem a realidade do país; e de valores que estruturam uma profissão, um código de ética não pode ser visto como um conjunto fixo de normas e imutável no tempo. As sociedades mudam, as profissões transformam-se e isso exige, também, uma adequação contínua sobre o próprio código de ética que orienta os profissionais.
A preocupação da Psicologia em exercer práticas não excludentes e não discriminatórias que garantam os direitos humanos está expresso nos Princípios Fundamentais do Código de Ética: “O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos” (CFP, 2005).
Para que o psicólogo possa garantir os direitos humanos no seu exercício profissional ele precisa reconhecer-se e fazer reconhecer a profissão junto às instituições e equipes de trabalho, ter uma postura firme e segura e, em determinados momentos, de enfrentamento, estabelecendo as condições para o trabalho e os limites técnicos e éticos da profissão.
As Resoluções e o Código de Ética profissional orientam que o psicólogo se posicione em defesa da dignidade humana, do respeito às igualdades e de relações sociais equânimes. 
Dentro dessa perspectiva, uma das influências dos Direitos Humanos no Código de Ética vigente refere-se a uma maior participação do atendido e da sociedade nas decisões éticas, para além de uma decisão única do profissional, obrigando-o a refletir e buscar em outros documentos e conquistas de direitos humanos a sua decisão de posicionamento. A quebra de sigilo, que antes era tratada como um imperativo de consciência, hoje não é somente um direito, mas um dever do psicólogo, previsto no Art. 10: “Nas situações em que se configure conflito entre as exigências decorrentes do disposto no Art. 9º e as afirmações dos princípios fundamentais deste Código, excetuando-se os casos previstos em lei, o psicólogo poderá decidir pela quebra de sigilo, baseando sua decisão na busca do menor prejuízo” (CFP, 2005). A orientação considera outras legislações como o Código Civil, Código Penal e Estatuto da Criança e do Adolescente. 
Outro ponto do Código de Ética que também está diretamente relacionado à questão dos direitos diz respeito à prática utilizada para obtenção de vantagens pessoais. O Código de Ética determina em seu Art 2º, que ao psicólogo é vedado “Pleitear ou receber comissões, empréstimos, doações ou vantagens outras de qualquer espécie, além dos honorários contratados, assim como intermediar transações financeiras”. O psicólogo não pode ser conivente com nenhuma forma de exploração para ter vantagem pessoal ou obter 
um bem material. 
Em sua atuação profissional, o psicólogo irá enfrentar dilemas éticos que perpassarão sua prática que deve sempre estar engajada e comprometida com os direitos humanos. Para isso, as Resoluções do CFP orientam e disciplinam a atuação do psicólogo diante de novas demandas sociais. 
Nos últimos anos, questões relacionadas a temáticas como sistema prisional, escuta de crianças e adolescentes em situações de abuso sexual, homossexualidade, minorias (população indígena, negra, religiões) são alguns dos temas contemplados em Resoluções publicadas pelo Conselho Federal de Psicologia. 
Área Técnica
Lucio Fernando Garcia – Coordenador da Área Técnica
Adriana Dal Orsoletta – Psicóloga Fiscal
Leticia Giannechini – Psicóloga Fiscal
Lucia Regina Cogo – Psicóloga Fiscal

Psicologia e Direitos Humanos


Entrevista com Cecília Coimbra, Professora da Universidade Federal Fluminense e membro da diretoria do Grupo Tortura Nunca Mais Rio de Janeiro. No Seminário "Entre garantia de direito e práticas libertárias", realizado pelo CRPRS, no final de 2012, Cecília falou sobre Psicologia e Direitos Humanos. 
CRPRS – Em sua opinião, questionar a falácia do estado democrático e do próprio campo dos direitos humanos significa abandonar este território de luta?
Cecília Coimbra – Não. Temos que pensar historicamente a emergência dos direitos humanos. Os conceitos de direito e humano têm uma determinada emergência histórica localizada, estão relacionados às famosas declarações dos direitos humanos que vêm do bojo de movimentos revolucionários burgueses. Precisamos pensar a que dispositivos esses conceitos têm sido utilizados. Vivemos numa sociedade capitalista, em que a vida se transformou em capital e o direito não é para qualquer um, humano não é para qualquer um. O conceito de humanidade é colocado em questão principalmente para aqueles que se opõem, de um modo geral, ao status quo. Precisamos pensar como estamos militando na área dos direitos humanos, embora a gente ache que o estado democrático de direito é o estado democrático de direito do capital. Não é falácia, nem mito. É a democracia que o capital tem. 
CRPRS – Há algum exemplo que retrate essa realidade?
Cecília Coimbra – No Rio de Janeiro algo muito sério está acontecendo. As Unidades de Polícia Pacificadora funcionam como se a polícia pudesse ser pacificadora. Está se produzindo a lógica do consentimento. A polícia reprime quando necessário, mas é comunitária, ajuda a levar para o médico, a evitar as brigas entre os perigosos. Estamos vendo hoje uma produção muito competente, não só na repressão. É a produção de um consentimento no outro. Nós próprios pedimos punição, mais leis, queremos criminalizar tudo, queremos a tutela do estado sobre cada um de nós, isso nos dá segurança, isso é produzido na cabeça de cada um, nas mentes e nos corações. É um processo perverso extremamente competente, extremamente eficaz, que nos transforma em soldados cidadãos.
CRPRS – Que espaços de militância ou combate são mais efetivos hoje?
Cecília Coimbra – Eu, cada vez mais, desacredito na política de representação. Sempre me considerei uma mulher de partido. Fui do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) e fundadora do PT no Rio de Janeiro. Hoje, eu não estou e nem quero estar vinculada a nenhum partido. Nunca pensei que isso fosse acontecer. Aposto na micropolítica, nestas pequeninas coisas que são desqualificadas. A minha geração sonhou em fazer a revolução, na transcendência de chegar até lá. A derrota que sofremos foi produtiva, apesar das mortes e desaparecimentos, nos ensinou, mostrou a nossa arrogância. Ao mesmo tempo em que queríamos uma sociedade socialista, fraterna, éramos muito machistas, extremamente autoritários no cotidiano, com nossos filhos, nossos companheiros, nossos amigos, dentro da própria militância. A luta de direitos humanos hoje, mesmo sendo utilizada para garantir direitos para alguns, para garantir cidadania, participação social, é um grande engodo. O capitalismo liberal mostra todo o conceito burguês do que chamamos de direitos humanos. Acredito que a luta continua de outra forma, nos pequenos espaços em que são produzidos acontecimentos. 
CRPRS – Em sua opinião, qual a importância do trabalho da Comissão da Verdade? 
Cecília Coimbra –A conquista da Comissão Nacional da Verdade, em minha opinião, é o pior engodo. Há pouco tempo, acompanhamos a entrega de documentos à família de Rubens Paiva. Mas será que entregaram todos os documentos ou só aquilo que interessava entregar? O exército esteve na casa do coronel antes e nada foi feito, os documentos foram tratados como arquivo pessoal. Arquivo pessoal coisíssima nenhuma, são documentos roubados da nação que pertencem à sociedade! As pessoas aceitam a ideia da Comissão da Verdade com a sensação de que agora poderão conhecer o que de fato aconteceu. Versões são dadas. Eu não acredito na verdade, não existe a verdade histórica, são muitas as verdades. Agora, o que é inadmissível é que a gente só conheça uma parte dela. Até onde essa história vai ser contada? 
CRPRS – Quais são as formas e resquícios em que se manifestam as heranças da ditadura militar no atual contexto social?
Cecília Coimbra – Vivemos um exemplo disso, com a Casa da Morte, centro clandestino ligado ao Exército de tortura e assassinatos, criado durante a ditadura militar. O Grupo Tortura Nunca Mais esteve na Casa em 1985 e já tínhamos feito denúncia em 1981. Simplesmente fomos ignorados, é a produção do esquecimento que o Grupo fez. A Casa, agora, será transformada em Museu da Memória. Apoiamos todas as construções de Museus desse tipo, mas não quando feitos pelo Estado, como aconteceu em São Paulo no Memorial da Resistência. Lá as frases que estavam escritas nas celas foram raspadas, pintadas e outras frases foram escritas por cima. E não é por acaso que essas coisas acontecem. Queremos museus da memória, onde possamos participar, que não seja algo imposto de cima para baixo. Além disso, o medo ainda é muito forte entre as pessoas, os efeitos psicológicos da repressão são interessantes, tem pessoas que realmente não conseguem falar. Têm dispositivos sociais que foram ‘sofisticados’ pela ditadura como, por exemplo, a figura do desaparecido político. Essa figura foi exportada pelo Brasil para as demais ditaduras latino-americanas. Outra expressão muito utilizada ainda hoje, inventada no tempo da ditadura, são os ‘altos de resistência’. A pessoa é exterminada e sua morte é registrada por resistir à prisão. O mais sério é que as pessoas aplaudem o extermínio e a tortura de alguns seguimentos sociais. A tortura acaba sendo banalizada por algumas pessoas, que brincam com a violência. Existe um grupo nos Estados Unidos que trabalha para tornar a tortura mais humanizada. Assistimos à aceitação do extermínio em nome da nova segurança. As pessoas são convencidas pelos meios de comunicação, pelo terror que é produzido por eles, que para sua segurança, o cara da esquina merece ser exterminado, porque é a minha segurança ou a dele. São situações que vão sendo criadas que, para a minha segurança, o outro pode ser torturado e até ser morto. Isso não é apenas herança da ditadura, são heranças históricas do Brasil.

“O carcereiro que há em nós”

Entrevista Edson Passetti 
Professor do Departamento de Política e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP e coordenador do Núcleo de Sociabilidade Libertária (NU-Sol). No Seminário "Entre garantia de direito e práticas libertárias", realizado pelo CRPRS, no final de 2012, Passetti conduziu a mesa “O carcereiro que há em nós”.
CRPRS – Em sua opinião, questionar a falácia do estado democrático e do próprio campo dos direitos humanos significa abandonar este território de luta?
Edson Passetti – Não. Todavia é preciso estar atento para o que o Estado quer de cada um. E, hoje em dia, ele depende de uma governamentalização participativa. Precisa de todos fiscalizando os direitos. O que devemos nos perguntar é se é isso o que queremos. De imediato, constataremos que não há consenso, seja por parte das forças conservadoras e fascistas, seja pelos libertários. Como o Estado Democrático de Direito funciona por maioria numérica, ele tende a subalternizar contestações, inserindo-as de maneira seletiva. Os direitos humanos vêm de 1948, como efeitos da guerra, do combate ao comunismo, da situação das colônias, do imperialismo, enfim, funcionou contra os “abusos” sobre os corpos e mentes. É disso que ele trata, de conter abusos e regular condutas comedidas. A luta contra instituições austeras, ao contrário, foi e é imediata. Deve, portanto, estar adiante das denúncias, pois essas são sempre reparadoras e funcionam para as seletivas reformas, facilitando a recomposição das instituições austeras (prisões, hospícios, recolhimentos de jovens infratores, refugiados...) por meio de privatizações, gestões compartilhadas, ou mesmo de programas contínuos de descentralização administrativa que expandem monitoramentos territoriais e transterritoriais com a participação da sociedade civil organizada. A luta pelos direitos humanos deve ser a luta pela vida, portanto insubmissa, posto que o direito sempre é efeito da força. No caso dos direitos humanos, os combates aos abusos repercutem em outras formas de punição. É preciso liberar o direito à vida que se materializou em direitos humanos como fluxo contínuo da cultura do castigo, e hoje em dia, principalmente, desta fixação em suprimir as impunidades, que nada mais é do que reconhecimento por conduzir-se em um campo delimitado, o do território da fiscalização, de novas institucionalizações e da participação pluralista.
CRPRS – Que espaços de militância/combate são mais efetivos hoje?
Edson Passetti – Aqueles onde são possíveis práticas de liberdade, de direito à vida, de abolição da punição (nas relações pessoais e da continuidade das instituições austeras). É preciso não só atravessar essas instituições com práticas que interditem seus funcionamentos, como precaver-se do ideal colaboracionista de reformá-las. Quem trabalha em uma instituição austera, primeiro deve enfrentar a escolha ou seu conformismo com o imperativo de empregabilidade. Muitas vezes, os jovens procuram este tipo de trabalho visando limpá-las de torturas, práticas indesejáveis para fazê-las melhor. Isso é o que se espera de um profissional dos direitos humanos no interior de uma instituição austera ou nas suas fiscalizações por meio de ONGs, institutos e fundações.
CRPRS – Quais são as formas e resquícios em que se manifestam as heranças da ditadura militar no atual contexto social?
Edson Passetti – Hoje em dia é raro alguém não se dizer democrata, e não é nada difícil compreender essa conduta. Há milhares de vermes vivos que assim se declaram, mesmo porque são capazes de afirmar que o golpe civil-militar de 1964 tinha por objetivo a democracia e ela aí está. Isso é política. Desta maneira nada como crer na justiça e suas respectivas secretarias, comissões e ministérios. Tudo aí prontinho para funcionar democraticamente de modo majoritário, o que supõe que se você faz parte de uma minoria descontente, deve organizar-se para compor uma nova maioria; esta é a circularidade positiva do poder. Esta é a verdade, a verdade do Estado para a qual cada um deve colaborar com suas práticas participativas e fiscalizadoras. Insiste-se que o Estado precisa ser preservado, ele ainda é a categoria do entendimento. Então são os governos que se tornam alvo de denúncias, punições relativas, revisões e, por isso mesmo, fortalecem e preservam o Estado. Parece não ser possível viver sem Estado. Assim sendo, é debatendo os governos, e, por conseguinte, os regimes políticos, que cada um fortalece também o Estado dentro de si. As pessoas abdicam de sua capacidade para governarem a si próprias sem Estado. Elas estão dispostas a obedecer, assim foram e são educadas, com maior ou menor rigor punitivo, e desse modo elas creem nas reformas das leis e dos procedimentos burocráticos. São cidadãos do e para o Estado!
CRPRS – Qual a sua opinião em relação às políticas adotadas que caracterizam violações de direitos e inconstitucionalidade e que vem retornando nas tentativas de mudanças de legislações, como internação compulsória, comunidades terapêuticas, remoção de moradias, em função de obras para Copa?
Edson Passetti – Somos governados por uma agenda futura. Isso explicita que devemos melhorar a vida das futuras gerações. É o novo perfil humanitarista do capitalismo sustentável. Este deve ser o paradigma e suas práticas devem sedimentar a utopia a ser realizada. Compõe-se um patchwork de fluxos intermináveis para dar procedimento programático às reformas. Um dia, somos alertados para a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) como “capaz” de acabar com traficantes, mas sem se arranhar o fim do tráfico (para o momento, descriminalizar a maconha é um redutor de danos; eis aqui um dos efeitos do possível e da melhoria). Segue a comunidade terapêutica e prosseguem os manicômios; segue a penalização a céu aberto e prosseguem as edificações de prisões de segurança máxima; retifica-se a internação compulsória para “viciados” e prossegue a higienização urbana, a remoção de moradias, a limpeza da paisagem e a revitalização dos centros das cidades... Estamos no fluxo da erradicação da miséria promovida pela ONU com o enriquecimento extraordinário dos bancos, a exploração da força de trabalho chinesa, os agronegócios, os negócios sociais, enfim, estamos na era dos negócios e dos empreendedores. Estado e sociedade civil querem limpeza. O preço é baixo: amar a sobrevivência, reduzir a vida a isso, ser um empreendedor de si, tornar-se capital humano. Tudo isso revestido de direitos, organizações, políticas fiscalizadoras governamentalizando a vida. Uma conduta moderada. É isso o que a produção monitorada destas medidas gera para a agenda futura.
CRPRS – O que seriam práticas libertárias no atual contexto?
Edson Passetti – Práticas anti: participativas, moderadas, sustentáveis (pois são sempre para o futuro do capitalismo; caso se objetivasse um equilíbrio com a natureza, já não seria sustentável), reformistas, governamentalizadoras... Práticas, enfim, que decorrem de atitudes de liberdade; sem dúvida, anti-instituições austeras, anticultura da punição, anticapitalistas.
CRPRS – Frente ao momento atual de aumento da demanda punitiva da população – questão que tem tomado inclusive os movimentos sociais, como, por exemplo, o movimento pela criminalização da homofobia – como é possível conduzir um debate ou mesmo construir um projeto que leve a redução do Estado Penal?
Edson Passetti – O Estado de direito é um Estado penal, senão não seria Estado. Estado sem punição é vida sem Estado, sem sociedade civil organizada (porque esta sempre foi organizada, inclusive para pedir fascismos, nazismos ou mesmo como no golpe de 1964, por isso este foi e sempre deverá ser compreendido como um golpe civil-militar). Houve um tempo em que o Estado punia as relações entre pessoas do mesmo sexo como homossexualismo condenável moralmente. Hoje ele deve punir condutas contra o homoerotismo. Produziu-se uma inversão de sinais, revisão de conceitos. Houve progresso na aceitação desta conduta porque ela é produtiva e ajustou as transgressões sexuais às regulações familiares. Esta é a positividade do poder. A repressão é, e sempre foi, apenas uma ponta do iceberg que governa a conduta obediente e produtiva.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

escola, uso de drogas e violência

por acácio augusto (Acácio Augusto é pesquisador no Nu-Sol, doutorando em Ciências Sociais na PUC-SP e professor de Ciência Política no Curso de Relações Internacionais da FASM).
Nos dias de hoje, a escola ocupa um lugar inquestionável. Quase todas as pessoas sabem o que é uma escola, pois viveram, por um certo tempo de sua existência, uma experiência escolar. Passar pela escola é na vida de qualquer pessoa um fato quase “natural”. Contudo, vivemos atualmente uma experiência escolar estendida e contínua.
Houve um tempo em que chegava a hora de despedir-se da escola para inserir-se no mercado de trabalho, porque ocorrera um corte brusco na experiência educacional ou para adentrar à universidade. Agora, estamos endereçados à escola do nascimento à morte. Essa verdade foi construída pelo saber contemporâneo para ser consensualmente aceita e incorporada como inevitável.
A escola não é mais o lugar de uma etapa necessária ao desenvolvimento da criança e do adolescente, estabelecida pelos pais, sob o controle do Estado, para uma educação de conhecimentos regulada por pedagogos e psicólogos. Ela perdeu o status de lugar especial, de etapa a ser cumprida ou estágio a ser vencido para se atingir a vida adulta como um indivíduo preparado. Tornou-se um lugar familiar para toda a vida. Em seu interior se aprende conhecimentos e obediências, mas, também, é para lá que se dirige a vida do bairro, das redondezas, da comunidade. A escola passou a ser um lugar de convívio onde se estuda, desfruta de lazer e se decidem coisas da vida entre os habitantes do local.
A despeito de sua presença contínua, se alguém disser a qualquer jovem: “amanhã, você irá para a escola”, ele ainda responderá quase instantaneamente: “que droga!”. Porém, mesmo avesso ao complexo disciplinar, mais ou menos aberto, ele irá de qualquer maneira, porque entende o que se espera dele. Ainda desgostoso, mostra-se pronto para tornar isso menos doloroso, sem que tenha que enfrentar mais desconfortos derivados do regime disciplinar que lhe é insuportável. A escola permanece sendo um lugar inquestionável. Embora desagradável, ela se impõe, mesmo para ele, como indispensável, ou então, um mal necessário, até mesmo quando a vê, sob as novas condições, como lugar de lazer e cultura, decisões compartilhadas, ou refúgio de uma vida familiar violenta.
É extensa a produção de artigos, livros, estudos, dissertações e teses que criticam esse ou aquele modelo de ensino, sistema educacional ou estrutura escolar. Inúmeras propostas e experiências são sugeridas e criadas para tornar a escola mais humana, mais atrativa, mais eficiente. No entanto, nenhuma delas ousa tocar na continuidade da escola.1
Muito se diz e escreve sobre seus problemas, mas quase nunca se questiona sua necessidade. Ao contrário, encontram-se meios para ampliar as suas funções e atrair os alunos para seu interior: as crianças devem ser escolarizadas desde pequeninas, frequentando a variedade de escolas complementares voltadas desde a formação física até a iniciação em idiomas e artes. 
O Estado não admite a educação de crianças pelos próprios pais e regulamenta o funcionamento de todas as escolas. Elas se tornaram, sob a rubrica de educação, um monopólio de Estado. Este acontecimento se justifica com base no reconhecimento das limitações da escola, necessidade de reformas, introdução de novas ideias, pedagogias e atividades, que, no entanto, não propiciam uma reflexão a respeito das suas utilidades. 
A escola é uma instituição analisada e reformada sempre pelo que lhe falta, pelo que deve ser acrescido, e raramente pelo que ela produz e faz funcionar. Ao preencher lacunas, empreende-se o itinerário de reformas dos sistemas de ensino, currículos e prédios escolares.