sábado, 28 de setembro de 2013

hypomnemata 160

Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no.
 160, setembro de 2013.
Breves anotações sobre Estado, mercado e cultura.
A ditadura civil-militar instituiu, pela primeira vez no Brasil, uma política cultural. Se, desde a ditadura de Getúlio Vargas, os investimentos estatais na área da cultura eram difusos, em 1975 se estabelece a Política Nacional de Cultura, vinculada ao Ministério de Educação e Cultura, que objetivava fornecer as diretrizes para o incentivo à produção artística.
Além da criação ou reformulação de diversos órgãos, como a Funarte e a Embrafilme, esta política visava promover o financiamento de produções nas áreas de cinema, teatro, dança, música e artes plásticas por meio do repasse de dinheiro público sequestrado de cada um, sob a forma de imposto, e transmutado em verbas do tesouro nacional.
Determinou-se a necessidade do Estado de “estimular as concorrências qualitativas entre fontes de produção”.
A qualidade das produções se vincularia à precaução do que é denominado como “culto à novidade”, reiterando-se, com isso, a necessidade da censura prévia, executada por meio da Lei de Censura a Diversões Públicas de 1946.
Em meio ao milagre econômico, articulou-se a necessidade de criação de um mercado de cultura ajustado à política de segurança nacional, realizando o programa de instauração autoritária de uma racionalidade neoliberal.
Com a redemocratização, em 1985, foi criado o Ministério da Cultura. Em 1986, promulgou-se a Lei Sarney de Incentivo à cultura, primeira política de incentivo fiscal neste âmbito, substituída posteriormente, durante o governo Collor, pela Lei Rouanet, de 1991.
Em vigor até hoje, esta lei possibilita às empresas deduzir do pagamento de impostos o patrocínio à cultura.
Se durante a ditadura civil-militar estava em jogo a formação de um mercado, na democracia se explicita o vínculo entre Estado e empresas nesta área de investimento.
Em 2007, o então ministro da cultura Gilberto Gil propôs a implementação de um Plano Nacional de Cultura (PNC), que apontou novas diretrizes e estratégias de ação do Estado. Tendo como pressuposto a corresponsabilidade entre poder estatal e sociedade civil, ele foi elaborado através de seminários e encontros públicos tendo em vista uma “gestão pública e participativa” das produções culturais e artísticas.
As políticas compreendidas pelo PNC dizem respeito tanto ao incentivo fiscal, onde o Estado serve como intermediário entre empresa e artista, quanto ao fomento, em que o repasse de verbas do Fundo Nacional de Cultura é feito de forma direta.
Estado e mercado não estão separados. E não existe liberal, nem autoritário, que abra mão do Estado.
Fomentos, alternativas e empresários de si
Depois de décadas de reivindicações pelo comprometimento do Estado no financiamento à cultura, hoje os próprios artistas são convocados a participar na elaboração das políticas de fomento.
Os editais compõem um fluxo ininterrupto: sempre há um edital disponível para inscrição de projetos vinculados a temáticas variadas nos quais se pode propor espetáculos teatrais, performances, gravação de discos, publicação de livros, turnês, jam sessions, aulas de dança, exposições, ocupações, seminários, cursos, encontros, ações sociais, desfiles de moda, etc..
A noção de cultura, no interior das políticas de Estado, é cada vez mais elástica. Ela já não se restringe às produções artísticas, incluindo ano a ano novas categorias.
Hoje, interessa “ampliar a participação da cultura no desenvolvimento socioeconômico sustentável”. É preciso que cada cidadão, além de produtor, se torne consumidor de cultura.
Se, por meio da Lei Rouanet, o investimento por parte dos empresários se dá preferencialmente sobre produções de grande abrangência e impacto comercial, as políticas de fomento possibilitam também o financiamento de ações locais voltadas a públicos mais reduzidos.
Não só o Estado, mas também empresas de capital privado promovem uma série de editais de financiamento. Há também as ferramentas colaborativas de financiamento online, o crowdfunding – o atual financiamento coletivo por intermédio da junção de múltiplas fontes, ou o eufemismo in english para uma das denominações de valor agregado capitalista para um produto.
Entre financiamentos estatais, empresariais, público-privados ou alternativos, há espaço para todos. Desde que o projeto responda aos interesses do proponente do edital ou consiga um número mínimo de seguidores dispostos a custeá-lo.
O que importa é que se produza cada vez mais, ocupando e entretendo tanto o público quanto os propositores de projetos.
Essas vias de financiamento apresentam lógicas similares e funcionamento complementar: submete-se uma proposta, contendo as devidas contrapartidas e inovações adequadas a cada caso. É possível se candidatar a uma ou outra destas modalidades, a depender dos interesses do propositor ou de suas necessidades financeiras.
Este trânsito permite que a produção seja m o d u l á v e l, contínua e inofensiva.
Se os artistas não dependem mais da indústria cultural, é preciso que se tornem empreendedores de si, aptos a formular projetos que articulem suas propostas aos interesses dos possíveis financiadores.
Se não está mais em jogo apenas a produção artística voltada para uma elite cultural, interessa a universalização do acesso à cultura como a garantia e condicionalidade regulamentar de cidadania.
A cultura funciona hoje como uma importante via de fortalecimento do Estado. É uma prioridade, articulada com a segurança, na agenda de ações voltadas para os denominados ambientes degradadospopulações vulneráveis.
pacificação e diversão
Nas favelas do Rio de Janeiro o que não falta é entretenimento e diversão patrocinados por parceiros da atual política de pacificação.
Todos os dias há um evento para ocupar, em especial, crianças e jovens. Afinal, agora é necessário atender à demanda de uma nova parcela consumidora que foi ampliada com a pacificação, e que se articula aos investimentos políticos, econômicos, sociais, culturais derivados dos empreendimentos voltados ao protagonismo e ativismo juvenil.
Os moradores ocupam seu tempo, investem em seu capital humano e fortalecem seu vínculo com a comunidade; os turistas – dos gringos às patricinhas da zona sul – podem entreter-se com a criatividade e a alegria desse lugar exótico, e depois voltar para casa.
Para que cada perfil encontre o programa perfeito, um jornal de grande circulação oferece um Guia Mensal com as melhores opções de lazer nas favelas “pacificadas”.
Passeios turísticos, festinhas badaladas, shows ecléticos – do funk à música clássica (inclusive da bandinha da polícia) –, exposições, sessões de cinema 3D, peças de teatro, espetáculos de dança, circo, colônia de férias, recreações, oficinas de artesanato, circuitos de mountain bike e festinha de aniversário da UPP. Essas são algumas “dicas culturais e de entretenimento” do Guia.
O presidente de uma das associações de moradores diz que este guia proporciona ao leitor a oportunidade de conhecer o lado mais bonito do que nomeia como “comunidades pulsantes”, isto é, sua cultura.
Entre esse e aquele entretenimento, a FLUPP (Feira Literária Internacional das UPPs) leva às favelas uma variedade de gente famosa e descolada para falar sobre literatura. Uma espécie de FLIP para quem não vai à Paraty.
A Feira procura formar novos leitores e autores a partir de encontros que acontecem previamente ao evento oficial, compondo a sessão que recebe o nome de FLUPP Pensa.
Seu objetivo é aproximar população e polícia, lembrando os policiais que é preciso abandonar o velho modelo de tratar favelados para passar a reconhecer a humanidade e complexidade de tal espaço.
Quem levará a questão à Academia da Polícia Militar será um conhecido cientista político, historiador e membro da Academia Brasileira de Letras. Sobre o que falará? A respeito do processo civilizatório que diz estar chegando às favelas. De academia em academia, fortalece-se a autoridade do Estado.
Esses entretenimentos compõem políticas sociais governamentais, privadas ou ambas – as chamadas parcerias público-privadas.
Funcionam a fim de estabelecer certa aproximação entre Estado e população, de maneira que este vínculo alimente a crença na solução de problemas via instituições e intervenções, ditas pontuais e ambientais, do Estado.
A variedade de programas atrativos levados às favelas faz com que a população indesejada circule menos no asfalto. E grande parte da população pobre se satisfaz.
A mediocridade os faz crer que todo pobre tem seu lugar.
Ao combinar-se diversão, integração e polícia, mina-se a revolta e compõe-se a articulação da velha prevenção geral, que sempre se inicia por crianças e jovens, voltada agora não para o que capitalismo, Estado, proprietários e comunidades chamaram um dia de ‘meio marginal’, mas para o que passam a denominar de ambientes vulneráveis, atravessados pelo carcomido conceito de crime do qual nenhum Estado, nenhum proprietário abre mão.
Está em jogo formar jovens cordatos e comandados: protagonistas governáveis.
O que antes era considerado como manifestações marginais, como o rap e o funk, torna-se capitalizável pelo mercado para ser consumido dentro e fora da favela. Dissemina-se a cultura do gueto – onde, por meio da identidade, a raiva se transforma em amor pela chamada comunidade.
Cada coisinha dessas, que entretém, ocupa e diverte, fortalece a política de pacificação, justificada também pela responsabilidade em levar lazer para os morros.
Enquanto isso, no asfalto da cidade maravilhosa, grandes festivais e variados eventos para outro público, os mesmos assujeitados.
no rock in rio
A realização de grandes festivais, antes promovidos por empresas privadas, hoje se mostra cada vez mais como um interesse também estatal. Trata-se de um eficiente meio de publicidade – tanto para empresários quanto para governos –, além de uma forma de movimentar a economia.
A articulação entre Estado e empresas, e a própria constituição do Estado como uma empresa intensifica a produção desse tipo de evento no Brasil.
Nessa onda, ocorreu neste mês a quinta edição da versão repaginada do Rock in Rio, que de festival local tornou-se uma franquia planetária de entretenimento.
Para além dos patrocínios milionários e dos ingressos salgados, a marca-festival conseguiu a captação de R$8,8 milhões em dedução de impostos via Lei Rouanet.
Em quatro horas, os ingressos foram esgotados com uma média de 1.200 compras por minuto, atraindo milhares de pessoas sedentas por consumir as atrações que figuram – ou um dia figuraram – nas paradas de sucesso do Brasil e do mundo. E postar tudo no facebookinstagram e similares, em tempo real.
Dentre suas atrações principais, o mega evento trouxe a diva texana Beyoncé.
Em sua perfomance espetacular, a cantora trocou de figurino diversas vezes, montou e desmontou cenários e exibiu, ao longo do show, trechos de um vídeo produzido e protagonizado por ela.
No vídeo, Mrs. Carter, como a cantora gosta de ser chamada de modo a lembrar de seu maridão, o bem sucedido rapper Jay-Z (Mr. Shawn Corey Carter), interpreta a si mesma em sua ascensão de jovem sofrida e desmotivada à rainha sedutora e autoconfiante.
Beyoncé desponta em meio ao pop como figura feminina empoderada. Ela vende esse empoderamento com hits como Runthe world (girls) no qual canta: “Quem comanda o mundo? Garotas!” e o associa a um poder de sedução. Algo não muito distante da “buceta é o poder” das funkeiras cariocas do proibidão.
No entanto, Beyoncé comanda a ala das bitches de família. Produzida em meio ao machismo do hip hop e à ostentação da sensualidade aos moldes machistas das cantoras pop estadunidenses, vende uma imagem sensual e provocativa, mas a qual não abre mão de uma conduta sexual muito bem regrada e socialmente aceita.
Casada, fiel e poderosa ela canta, em um de seus maiores hits Single ladies (put a ringon it), “Se você gostava, então deveria ter colocado uma aliança”.
Afeita às causas humanitárias, Mrs. Carter se diz realizada ao final do vídeo, exibindo imagens suas em missões na África e entre refugiados.
No ano passado, Beyoncé causou polêmica ao vender um show privé a Mutasim-Billah, filho do ditador libanês Muammar Kadafi, por cerca 1,2 milhão de libras. Diante da pressão da imprensa e de alguns de seus fãs, doou o dinheiro para o Haiti.
Adepta à causa das mulheres, Beyoncé se calou diante da prisão das integrantes da Pussy Riot – acontecimento que causou furor entre artistas ao redor do planeta.
Ou seja: a benevolência também faz parte do negócio gerenciado por artistas e seus empresários, preocupados com a consolidação de sua marca.
arruinando mercado e Estado
A banda punk Pussy Riot com seus concertos punks em lugares “ilegais” – públicos e privados – recusa a autoridade do Estado e as investidas da indústria fonográfica e seus shows espetaculares.
Ninguém paga para ver um show das Pussy Riots. Suas músicas estão todas disponíveis na internet. Tudo é pensado e feito por elas, sem financiamentos, patrocínios, empresários... sem negócios!
O uso das ruas russas como lugar para o fazer artístico não é algo novo. Antes das pussies, os integrantes do grupo Voina (ao qual também foram associadas algumas integrantes da Pussy Riot) já praticavam uma ação anarquista artística de rua.
O Voina atacou museus, galerias e exposições de arte. Pichou um pau enorme em uma ponte, em São Petesburgo, ao lado da rua dos escritórios da KGB. Virou uma viatura da polícia para pegar uma bola, chutada por um menino para debaixo do carro. Cantou um punk rock, dentro do tribunal, durante um julgamento em Moscou.
Integrantes da Pussy Riot e do Voina são alvos da polícia russa e odiados pela parte boa da população do país. Alguns deles estão presos, outros respondem a processos na justiça. Uma delas iniciou, em 23 de setembro, uma greve de fome para expor o trabalho forçado ao qual foi submetido junto das internas, na Colônia Penal nº 14, utilizadas na produção de fardas para o exército russo.
No entanto, continuam a viver sua arte livre, contra o Estado e contra o mercado.
Desde a década de 1980, o movimento punk e algumas de suas vertentes inventaram formas de resistir ao Estado e ao mercado.
Deste tanto inventado pelos punks, uma parte acabou servindo ao Estado e ao mercado a partir de redimensionamentos menos combativos e mais afeitos a negociações, como algumas bandas que figuraram no Rock in Rio.
Hoje, há punks tocando em eventos organizados e financiados pelo Estado. Há punks envolvidos com ONGs, coletivos de alternativos empreendedores e uma ou outra “empresa do bem”.
Mas há punks que escapam tanto à nostalgia das décadas passadas quanto à independência alternativa.
Não só com o punk, mas outras práticas de associações livres produzem e divulgam fanzines, revistas, shows, gravações musicais, vídeos de forma autogestionária. A produção estética sempre foi uma prática importante para dar forma à combatividade anarquista.
Diante da convocação à criatividade para se produzir inovações que ocupem e entretenham a população, aperfeiçoem e movimentem o mercado e fortaleçam o Estado, libertários experimentam, pelo planeta, novas práticas que arruínam o Estado e o capitalismo, por meio de invenções livres.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

‘A ideia de felicidade ocidental, baseada no individualismo, falhou’

Fundador da The School of Life vem ao País dar palestras sobre compaixão e trabalho. Para o filósofo australiano, colocar-se no lugar do outro é a verdadeira revolução.
Há 20 anos, Roman Krznaric se inscreveu para um curso de culinária na Bahia; mas, como não conseguiu uma bolsa de estudos, declinou a viagem. Hoje, o filósofo australiano, um dos fundadores da The School of Life, na Inglaterra, finalmente conhecerá o Brasil. Abriu uma exceção para viajar de avião – ele se preocupa com as emissões de carbono – e virá ao País para uma palestra sobre trabalho, dia 22, no Teatro Augusta.
A reportagem e a entrevista é de Sônia Racy e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 16-09-2013.
Escritor do best seller Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida, o filósofo continua interessado em culinária, mas se dedica a incentivar o que chama de “questionamentos sobre a vida”. E a vida laboral, segundo o escritor, é uma das questões que causam mais insatisfação e inquietação no mundo contemporâneo. “Hoje, pessoas de todas as classes sociais começam a enxergar o trabalho como algo para além da sobrevivência. É uma ocupação que pode fazer você se sentir preenchido”, conta. A saída para a insatisfação, explica, tem algumas alternativas: aplicar seus valores pessoais no trabalho; procurar um emprego que faça diferença no mundo; e usar seus talentos e habilidades; entre outras. “Uma das maiores razões de satisfação no trabalho não é dinheiro, mas autonomia”, diz.
Além de aulas e conferências pelo mundo, o australiano toca, paralelamente, um projeto definido por ele como “a grande ambição de sua vida”: a criação de um Museu da Empatia. “Trata-se de um lugar onde você poderá entrar e conversar com pessoas que não conhece. Assim como emprestamos livros de uma biblioteca, será possível emprestar pessoas para uma conversa”, explica. O projeto não é de todo utópico. Segundo o filósofo, depois de um vídeo explicando seu conceito de empatia, com 500 mil visualizações, sua caixa de e-mail recebe, pelo menos, uma mensagem por dia de pessoas do mundo inteiro se propondo a ajudar na criação do museu.
É por meio dessa troca e da disseminação desse conceito de empatia que o filósofo acredita ser possível fazer uma revolução: “As pessoas acham que a paz e as revoluções são construções de acordos políticos. Mas acredito que é possível que isso seja feito nas raízes das relações humanas. Desmontando ignorâncias e preconceitos”, diz.
Eis a entrevista.
No seu livro, o senhor fala que 60% das pessoas estão insatisfeitas com a vida profissional. Por que esse desconforto crescente?
Parte dessa insatisfação vem do fato de que, nos últimos 20 ou 30 anos, houve um grande crescimento de expectativa com relação ao trabalho. Antes disso, poucos se questionavam sobre seus empregos. Hoje, pessoas de todas as classes sociais começam a ver o trabalho como algo para além da sobrevivência. Uma ocupação pode fazer você se sentir preenchido. De taxistas a investidores de banco, médicos, faxineiras… todos procuram por mais significado no trabalho. Nasceu o conceito de que trabalho pode ser um lugar para se aplicar os talentos, as paixões, os valores.
Como essa mudança ocorreu?
À medida que as necessidades básicas são alcançadas, como casa, comida, educação, as pessoas buscam mais propósitos na vida. E, claro, hoje em dia há mais profissões. Na Europa do século passado, se você quisesse trabalhar com algo que envolvesse suas visões políticas e sociais, existiam poucas possibilidades. Atualmente, há um enorme mercado de trabalho para isso, como ONGs, órgãos de meio ambiente, sociais, em que as pessoas podem sentir que estão fazendo a diferença diariamente. Isso é algo novo. Ter um trabalho onde me sinto valioso e cheio de significados.
O senhor não acha que essa tendência contemporânea de que o emprego tem de ter alguma função social pode criar uma certa culpa coletiva?A maioria das pessoas não trabalha com algo que faz diferença para o mundo.
Sim. Nossos valores são grandes motivadores para o trabalho e para a satisfação laboral. E sim, existe uma culpa de quem pensa “se eu não estou trabalhando com meninos de rua, então sou uma pessoa ruim”. Entretanto, há outras maneiras de encontrar satisfação no trabalho. Uma delas é essa: aplicar seus valores pessoais na prática. Outra é usar seus talentos – sendo um artista ou um jogador de futebol, você não está necessariamente mudando o mundo, mas sua satisfação virá do uso de suas habilidades e paixões. Para mim, o maior problema não é a culpa, mas o arrependimento. É a sensação de chegar ao fim da vida e saber que não fez o que gostaria realmente de ter feito.
O que acha da corrente que defende que as pessoas trabalhem em casa, sozinhas?
Isso é um tópico contemporâneo muito importante. Nos últimos meses, especialmente nos EUA, as empresas não estão deixando seus funcionários trabalharem de casa. O exemplo mais clássico é a nova chefe executiva do Yahoo,Marissa Mayer, que há alguns meses não permite que seus funcionários trabalhem de casa. Isso é trágico. Uma das revoluções modernas laborais, no mundo ocidental, é a ideia de trabalhar de casa.
Por quê?
Uma das razões apontadas pela maioria das pessoas que são felizes no trabalho não diz respeito à remuneração, mas à autonomia. É o senso de liberdade, o poder de decisão sobre o próprio trabalho, que cria satisfação. Mesmo que não seja o emprego dos sonhos. Trabalhar de casa é uma dessas possibilidades. Controlar o próprio horário, a disciplina.
Recentemente, um estagiário se suicidou na Inglaterra, depois de trabalhar 72 horas seguidas. O que acha da cultura que incentiva trabalhar demais?
Muitas empresas fazem o culto do “overwork”, em que trabalhar muito, além da conta, é valorizado. Especialmente em bancos e consultorias. Na Inglaterra, um milhão de pessoas afirmam ser viciadas no trabalho. Ou seja, trabalham mais do que precisariam. A ideia de “work adiction” é um grande problema. O Japão é um caso clássico. Muitas pessoas cometem suicídio ou sofrem de ataque do coração, depois de trabalhar demais. Existe, inclusive, uma palavra no dicionário japonês para “morrer de tanto trabalhar”. Espero que isso seja uma mensagem para indivíduos e para essas empresas.
No livro, o senhor afirma que encontrar o “trabalho da vida” é como encontrar o amor perfeito.
Isso aprendi com uma mulher que, aos 30, pediu demissão e testou 30 profissões diferentes durante um ano. E ela me disse, no fim desse processo, que encontrar o emprego perfeito é como encontrar um amor perfeito. Você pode fazer uma lista com qualidades que gostaria num parceiro e, no fim, se apaixonar por um que não tenha nenhuma delas. Trabalho é isso. Empregos inesperados podem ser surpreendentemente bons. Por isso, experimentar é importante. Para se dar chance de descobrir novas paixões e talentos. O contrário também acontece.

Das máquinas de consolo

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Ela dadeira, dando sempre até a morte. A cuidadeira, carinhosa, trepadeira. Já a programação do macho é outra: ele não se move muito
Por Fabiane M. Borges | Imagem: Gustaf Klimt, Três idades de mulher (1905)
Ela precisava de carinho, mas ele continuava com seu auto-centramento habitual, falando das suas misérias, das injustiças da vida, das esperanças remotas mas ainda existentes — que lhe aqueciam nos dias mais frios. E aquele dia era um dos mais frios de São Paulo. Ela se retorcia toda, se enroscava pela mesa, pelas patas da mesa, colocava a bunda mais próxima ainda da ponta da cadeira, para poder fazer carinho naquele cara. Ela queria que ele fizesse aquele gesto, porque ela estava carente, desolada, queria que ele se retorcesse e passasse delicadamente a mão no meio dos seus olhos, entre suas sobrancelhas, que insistisse nesse pequeno gesto até que aquela coisa ruim dentro dela se dissipasse, mas isso não seria possível sem um pedido explícito, que poderia vir talvez com algum tom de reclamação, seguido de um mal estar, que originaria uma briga e causaria uma sensação de frustração completa e cansaço. Então ela o acariciava sem pedir nada em troca.
Eram os gestos de amor programados nela desde criancinha. Ela foi educada para acariciar seu homem, abraçá-lo, lambê-lo, lhe fazer cafuné, passar a mão na sua testa, nos seus lábios, nas suas armaduras. Ela sabe o poder que tem quando lhe esfrega as têmporas e consola sua dor. Ela fica convocando com a mão aquele lugar onde ele se entrega, reconhece coisas que não conseguiria reconhecer em um ambiente mais hostil, mais gelado. Esse lugar poderia ser o restaurante, onde todo mundo senta e come, mas as mãos milagrosas das cuidadeiras são capazes de transformar qualquer lugar em outro lugar mais afável.
A cena clássica da programação de gênero. A mulher consoladora, ouvinte, companheira, a que dá carinho, a que se dobra pra se encaixar na posição do macho, da que destrambelha o caminhar, o sentar na cadeira, modifica suas posturas corporais para encontrar a face, o peito, o pé do seu macho, que além de ter nascido para ser amado, precisa mais que tudo, de consolo ininterrupto, e não foi educado pelas mídias, pelo cinema, pela literatura, pela História, pela família a ser recíproco nisso. Ela dadeira, dando sempre até a morte. A cuidadeira, carinhosa, trepadeira, a máquina de consolo.
A programação do macho é outra. Estão acostumados com uma cultura geral que lhes diz que precisam de cuidados especiais porque são eles que sofrem, eles que habitam os domínios do demasiado, são eles que chegam da guerra, eles chegam da aventura, eles chegam das confusões do mundo, e ali está a figura da mãe, da avó, da mulher, da parceira, que vai lhe abrir os braços e acariciar. Ele não se move muito, não se destrambelha tanto, não se atira em contorcionismo para alcançar o rosto dela, o pulso dela, o pescoço dela, a sobrancelha dela de forma gratuita. Esses gestos só são produzidos na intimidade do lar, da cama, do sexo. Daí se sobrepõe nesse desejo toda uma outra produção semiótica, comportamental, que a industria pornográfica sabe bem como conduzir. O macho na cama, do pau duro e grande, o comedor, fodedor, o que tem os buracos do seu corpo parcialmente fechados, o que não pode fazer certos gestos na cama, pois isso o faria bicha, brocha ou pior que tudo, mulherzinha.
Ela continua precisando de carinho enquanto pensa tudo isso, mas já se consola sozinha, não vai pedir mais, não vai reclamar mais, não vai colocar a mão dele em sua nuca e torcer os dedos dele para lhe ensinar a acariciar, imaginando que se soltar a mão, ele vai continuar lhe fazendo carinho por mais algum tempo, sem parar. Ela já sabe que não vai ter isso nem do pai, nem do filho, nem do marido, nem do amante, nem do irmão. A máquina de produção de cuidado caiu para lado do gênero dela, ela tem que fazer nos outros os carinhos que gostaria ela própria de receber.
O cuidado, o carinho, a carícia poderiam ser tratados como elemento fundamental da sociedade. Os trabalhos voltados para o cuidado deveriam ser os mais valorizados; mas ao contrário disso o que vemos é um consolo químico, farmacêutico, cada vez mais atrelado ao processo industrial, que se afasta radicalmente do chazinho carinhoso das mãos prontas para acarinhar. O carinho perde para o ansiolítico, o consolo é um comprimido, o cuidado se compra nas salas de massagem. E no casal hétero-normal, é ela que tá lá, bunda estreita na cadeira, lhe dando a carícia.
Saí do restaurante pensando que os homens poderiam aprender a ser mais carinhosos, fazer carinho, acariciar, consolar e cuidar.

Drogas: o Brasil sob a sombra do obscurantismo


Detalhe da cupula de uma capela mediavel em La Brigue na França
Detalhe da cupula de uma capela mediavel em La Brigue na França
Na contramão da tendência mundial, Congresso ameaça aprovar aprofundar proibicionismo e encarceramento — comprovadamente ineficazes e dispendiosos
Por João Mendes, Herbet Toledo Martins, no Le Monde Diplomatique
Em maio, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei (PL) que corresponde a um retrocesso secular. O PL n. 7.663/2010, do deputado Osmar Terra, atualmente PLC 37/2013 em tramitação no Senado Federal, ameaça reconduzir o Brasil ao início do século XX ao intensificar a fracassada “guerra às drogas”. Não obstante os importantes avanços na política sobre drogas mundo afora − a exemplo do Uruguai, que acaba de regulamentar o uso da Cannabis −, as supostas bases empíricas utilizadas pelo Parlamento brasileiro são dignas de um “museu de novidades”.
O deputado Terra[1] insiste em apresentar números duvidosos sobre o cenário das drogas no Brasil. O deputado não explica, por exemplo, o fato de que de 2006 a 2012, após a Lei sobre Drogas n. 11.343, aumentou-se de três para cinco anos a pena por tráfico, mas o número de crimes de comercialização de drogas só tem crescido. Em 2006, o sistema carcerário tinha cerca de 10% de presos por tráfico de drogas; em 2012, já eram 30%. Estimam-se atualmente 160 mil presos. Esse argumento não explica por que se triplicou a população carcerária motivada pelas drogas sem que tenha havido diminuição do tráfico.
Para Loïc Wacquant, “a criminologia comparada demonstra que não existe, em lugar algum – nenhum país e nenhuma época –, uma correlação entre o índice de encarceramento e o nível de criminalidade” [2]. O sistema penal-punitivo brasileiro só tem prendido os “acionistas do nada” [3], os descalçados, as mulas do tráfico.
Dessa maneira, de onde surge a “verdade” que o Parlamento brasileiro tenta fazer crer? Há consistência nesse “antídoto” que está sendo vendido como inquestionável e irreversível? Foucault [4] afirmou que o discurso tido como verdadeiro “é, desde os gregos, aquele que responde ao desejo ou aquele que responde ao poder, o que é que, no entanto, está em jogo na vontade de verdade, na vontade de o dizer, de dizer o discurso verdadeiro – o que é que está em jogo senão o desejo e o poder…”. O discurso e a intensa defesa do deputado Terra parecem ter outras motivações que não estão explícitas em seus enunciados. Operam aí as categorias de “desejo e poder”. Desejo do quê? Poder sobre o quê? O “Estado-penitência”, que desinveste na proteção social para só “reencontrar” os sujeitos por seu braço policial – combinado isso com as cifras homéricas que o aparelho repressor faz girar –, produz uma “motivação” que harmoniza e naturaliza o desejo de “poder” (substantivo), transformando-o em desejo de prender.
O relator do PL é fisiologicamente vinculado às comunidades terapêuticas. Sancionada essa lei, numa só cajadada o “Estado-penitência” cumpre sua profecia autorrealizadora, a prisão: seja nas penitenciárias ou nas novas instituições totais de alcunha “comunidades terapêuticas” (CTs). Estas são uma fusão de manicômios, presídios e conventos. A participação do deputado Givaldo Carimbão como relator[5] do PL gerou, no mínimo, um conflito de interesse, já que o parlamentar é presidente de honra da Frente Parlamentar Mista em Defesa das Comunidades Terapêuticas [6].
Qual é o preço a ser pago pelo vendaval?
O custo financeiro por preso no Brasil é alto, e o impacto sobre o sistema prisional será ainda maior com o “endurecimento da pena” para o tráfico (que passará de cinco para oito anos de prisão) a partir da Lei Osmar Terra. É fácil concluir que gastamos muito e ineficientemente com o sistema prisional vigente. O custo médio mensal de um preso em instituições estaduais é de R$ 1.800. Considerando o tempo de pena atribuída ao crime de tráfico, tem-se que ao final do tempo mínimo da prisão o Estado terá desembolsado R$ 108.000. Considerando 30% dos 548.008 presos atuais, são aproximadamente 164.400 presos por drogas. Tais presos produzem um custo anual estimado em R$ 3.551.040.000. Somando os sessenta meses de cumprimento de pena dos presos por drogas tem-se a faraônica cifra de R$ 17.755.200.000,para algo que já se sabe não ser garantia de solução.
Como visto no quadro 1, o orçamento deverá ser acrescido de cerca de R$ 10 bilhões com a alteração da lei.
A política e os recursos para tratamento dos usuários de drogas no Brasil são ainda muito escassos. No Brasil, até 2011, a rede de Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps-AD) era composta de 258 unidades para tratamento de pessoas que fazem uso prejudicial de álcool e outras drogas. Calcula-se que exista um Caps-AD para cada grupo de 739.274 habitantes, ou aproximadamente 0,12 para cada grupo de 100 mil habitantes. Com o valor destinado ao pagamento de um ano dos presos por porte ou tráfico de drogas (R$ 3.551.040.000) os estados brasileiros custeariam 28,8 anos dos Caps-AD (ver quadro 2).
Esse serviço pode acolher até 190 usuários/mês distribuídos nas três modalidades de projeto terapêutico. O custo mensal de um usuário do Caps-AD chega a um oitavo do que se paga por um preso (ver quadro 3).
Considerando o custo/mês por preso e o custo/mês por usuário do Caps-AD – ainda que não se possa superpor a rede ao sistema prisional –, verifica-se que, além de ineficiente, o sistema prisional para usuários de drogas é caro e inadequado. Mesmo com evidências do equívoco dessa política proibicionista-policialesca, de tempos em tempos o Congresso Nacional revigora seu ar anacrônico.
Nova figura num quadro de tintas gastas
Contudo, uma nova figura surge nesse cenário: as comunidades terapêuticas, com direito a bancada parlamentar, pressão social e venda de uma imagem de “salvação” diante da maré de trevas. Sem dados precisos sobre quantidade ou localização, de certo quase a totalidade delas está vinculada a entidades religiosas cristãs [7]. Esse fato gera um conflito, já que as CTs relutam contra a premissa da laicidade do Estado brasileiro.
A nova modalidade de “cura” trazida pelas CTs centra-se no internamento dos errantes e desviados. “A prática do internamento designa uma nova reação à miséria, um novo patético – de modo mais amplo, outro relacionamento do homem com aquilo que pode haver de inumano em sua existência” [8]. O poder atribuído à Igreja fez dela a guardiã das boas práticas morais e do resgate das almas desgarradas. “A Igreja nada abandona do que a doutrina havia tradicionalmente concedido às obras, mas procura ao mesmo tempo atribuir-lhes um alcance geral e avaliá-las conforme sua utilidade para a ordem dos Estados” [9]. Formou-se uma parceria quase inquebrável entre a necessidade do Estado de manter a “ordem” e a Igreja como aparelho ideológico para disseminar a práxis “terapêutica” com a finalidade de reengendrar o curso da vida dos loucos, devassos e errantes. O modus operandi das CTs está traçado desde o século XVI. Elas são a nova roupagem do velho jeito manicomial de tratar os desvios morais − novo modelito num manequim já gasto que atualmente sofre denúncias de abusos e violações a direitos fundamentais [10]. O Conselho Federal de Psicologia constata o óbvio: em 68 CTs inspecionadas foram identificadas violações de direitos humanos mínimos e fundamentais.
A maioria das CTs no Brasil tem um “programa” que define a permanência dos internos variando de nove a doze meses de confinamento. Erving Goffman [11] alertou para o fato de que “toda instituição tem tendência de fechamento”. Essas comunidades se consolidaram mediante regras morais abstratas e arbitrárias, tornando-se instituições totais, “um híbrido social parcialmente comunidade residencial, parcialmente organização formal”. Forjam-se como “estufas para mudar pessoas, cada uma é um experimento natural sobre o que se pode fazer ao eu”. Um mix de manicômio (para os entorpecidos, sem razão e sem autonomia), presídio (para privar do encontro com o proibido) e convento (pela aposta na conversão).
Após várias décadas clamando por recursos públicos, as CTs foram agraciadas com um edital de financiamento do governo federal que destina R$ 1.000 para cada leito de adulto e R$ 1.500 para leitos de adolescentes [12]. Não bastasse o alto custo dos presídios, agora surge outro “serviço” destinado aos usuários de drogas cujo financiamento causa preocupação. O custeio de uma só vaga em CT equivale ao recurso necessário para o tratamento de 4,8 usuários num Caps-AD. Uma CT custa pouco mais da metade de uma vaga numa prisão (exatos 55%), mas custa 478% a mais que uma vaga no Caps-AD. Com esse recurso, o Caps-AD conseguiria alcançar 80% mais usuários que uma CT.
Cabe perguntar: o destaque dado pelo deputado Carimbão estaria motivado somente pelo desejo de ajudar?
Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), a rede Caps-AD é insuficiente para a cobertura assistencial adequada. A incompleta introdução dos Caps-AD alimenta “as críticas a esse modelo, priva do acesso ao tratamento milhares de pessoas, em geral de baixa renda, que se veem obrigadas a recorrer a outras formas pouco efetivas, seguras e que respeitem os direitos humanos do dependente de álcool e outras drogas” (parágrafo 420) [13]. Dialeticamente, o sucateamento da rede Caps-AD gera expectativas financeiras para setores que podem se beneficiar com essa fragilização.
No já citado relatório do TCU verificaram-se fragilidades nas ações de tratamento quanto aos mecanismos de inclusão de usuários, seleção, fiscalização e controle das atividades desenvolvidas pelas CTs selecionadas pelo Edital n. 001/2010/GSIPR/Senad/MS. Constatou-se que cerca de 55% das CTs apoiadas financeiramente pelo governo federal não possuíam nem licença sanitária.
Há motivos para uma mudança paradigmática em rota radicalmente contrária ao que acena o Parlamento nacional. Contudo, o espectro conservador insiste em não recuar. Dizia Einstein: “Difíceis tempos esses em que é mais fácil quebrar um átomo que um preconceito”. A crença no modelo reclusivo para usuários de drogas não se sustenta nem convence seja qual for a hipótese das que aqui foram citadas.
Um país que possui uma dívida histórica decorrente do vilipêndio a direitos fundamentais de segmentos já vulnerabilizados pelas desigualdades sociais não pode aceitar passivamente essa reprodução do higienismo social típica dos séculos XIX e XX. Karl Marx dizia que “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Uma política sobre drogas centrada na repressão e no encarceramento em massa é uma farsa.rdd
João Mendes Psicólogo pela UFPB, mestre em Linguística e Psicanálise, professor de Psicologia da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e coordenador do Centro Regional de Referência para Educação Permanente em Crack, Álcool e Outras Drogas.
Herbet Toledo Martins Doutor em Sociologia pela UFRJ, professor do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e coordenador do Grupo de Pesquisa em Conflitos e Segurança Social (GPECS/UFRB).
1 Osmar Terra, “Premissas erradas”, Folha de S.Paulo, 1o jun. 2013.
2 Loïc Wacquant, “A aberração carcerária”, Le Monde Diplomatique Brasil (site), 1o set. 2004. Disponível em: <www.diplomatique.org.br/print.php?tipo=ac&id=1169&PHPSESSID=099cbc670a7e8a6c998a4f532aaf76c9>.
3 Orlando Zaccone D’Elia Filho, Acionistas do nada: quem são os traficantes de drogas, Revan, Rio de Janeiro, 2007.
4 Michel Foucault, A ordem do discurso, Loyola, São Paulo, 2005.
5 Relatório do deputado Givaldo Carimbão sobre o PL n. 7.663/2010. Disponível em: <www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1049060&filename=PRL+1+PL766310+%3D%3E+PL+7663/2010>.
6 Instituição Padre Haroldo, “Frente Parlamentar Mista em Defesa das Comunidades Terapêuticas, Acolhedoras e Apacs vai promover um encontro nacional das comunidades terapêuticas de todo o Brasil”. Disponível em: <www.padreharoldo.org.br/site/secao.asp?i=39&c=212>.
7 Senado Federal, “Destinação de recursos públicos a comunidades terapêuticas esbarra na religião e em critérios médicos”, Em Discussão!. Disponível em: <www.senado.gov.br/noticias/Jornal/emdiscussao/dependencia-quimica/sociedade-e-as-drogas/recursos-publicos-comunidades-terapeuticas-religiao-medicos.aspx>.
8 Michel Foucault, A história da loucura na Idade Clássica, Perspectiva, São Paulo, 2005, p.52-53.
9 Ibidem, p.59.
10 Daniela Arbex, Holocausto brasileiro, Geração Editorial,São Paulo, 2013.
11 Erving Goffman, Manicômios, prisões e conventos, Perspectiva, São Paulo, 2001, p.22.
12 Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), Edital de Chamamento Público n. 1/2012. Disponível em: <www.obid.senad.gov.br/portais/OBID/biblioteca/documentos/Editais/329226.pdf> e >.
13 Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (Sisnad), Relatório Operacional. Disponível em: <
http://portal2.tcu.gov.br/portal/page/portal/TCU/comunidades/programas_governo/areas_atuacao/saude/Relat%C3%B3rio%20-%20Pol%C3%ADtica%20Nacional%20Antidrogas_Parte%20II.pdf>.

As sementes do fascismo, no século 21


Polícia de SP ataca o Pinheirinho, em 2011: ao invés de integrar marginalizados na acumulação de riquezas, sistema passou a fustigá-los e deslocá-los permanentemente
Polícia de SP ataca o Pinheirinho, em 2011: incapaz de integrar marginalizados à sua lógica, sistema passou a fustigá-los e deslocá-los permanentemente
Para retomar acumulação, em tempos de crise, capital ensaia estratégia particular. Inclui guerras, especulação financeira máxima e criminalização das “populações excedentes”  
Por William I. Robinson | Tradução: Taís Gonzalez
Em Policing the Crisis, clássico estudo conduzido, em 1978, pelo famoso socialista e teórico cultural Stuart Hall e alguns colegas, os autores mostram que a reestruturação do capitalismo, uma resposta à crise da década de 1970 – a última grande crise mundial do capitalismo até a de 2008 –, produziu, no Reino Unido e em todo o mundo, um “estado excepcional”. Significava um processo de ruptura com os mecanismos de controle social, então consensuais, e um autoritarismo crescente. Eles escreveram:
“Este é um momento extremamente importante. Esgotado o repertório da hegemonia por meio do consentimento, destaca-se cada vez mais a tendência ao uso rotineiro das características mais repressivas do Estado. Aqui, o pêndulo no exercício da hegemonia inclina-se, de forma decisiva. De um período em que consentimento suplantava a coerção, passa-se a outro em que a coerção volta a ser a forma natural e rotineira de assegurar o consentimento. Esse deslocamento interno do pêndulo da hegemonia – de consentimento para coerção – é uma resposta do Estado à crescente polarização (real e imaginária) das forças de classes. É, exatamente assim, que uma “crise de hegemonia” se expressa… O lento desenvolvimento de um estado de coerção legítimo, o nascimento de uma sociedade de “lei e ordem”… Todo teor da vida social e política é transformado (neste momento). Um novo ambiente ideológico, claramente distinto, é urdido. (Policing the Crisis, pp. 320-321).”
Esta é também uma descrição exata da atual conjuntura. Estamos testemunhando a transição de um estado de bem-estar social para um estado de controle social, em todo o mundo. Estamos diante de uma crise global sem precedentes, dada sua magnitude, seu alcance global, a extensão da degradação ambiental e da deterioração social e a escala dos meios de violência. Nós realmente estamos enfrentando uma crise da humanidade, entramos em um período de grandes agitações, de mudanças e incertezas. E esta crise é distinta dos episódios anteriores de crises mundiais – a de 1930 ou a de 1970 – precisamente porque o capitalismo mundial é fundamentalmente distinto, no início do século 21.
Entre as transformações qualitativas que ocorreram no sistema capitalista, em face da globalização das últimas décadas, há quatro que quero destacar. A primeira é a ascensão do capital transnacional e a integração de todos os países dentro de um novo sistema financeiro de produção globalizada. A segunda é o surgimento de uma nova Classe Capitalista Transnacional (TCC, sigla em inglês para Transnational Capitalist Class). Este grupo apoia-se em novos circuitos globais de acumulação, ao invés dos velhos circuitos nacionais; A terceira transformação é a ascensão da que eu chamo de aparatos estatais transnacionais. A quarta, o aparecimento de novas relações de desigualdade e dominação na sociedade global, incluindo a crescente importância das desigualdades sociais e de classe, relacionadas aos desequilíbrios Norte-Sul.
A atual crise
A crise atual combina aspectos estruturais similares aos das crises anteriores (dos anos 1970 e 1930) com características únicas, a saber:
- O sistema está atingindo rapidamente os limites ecológicos de sua produção. Já temos vários cientistas ambientais que fazem referência ao “ponto de inflexão”. Esta dimensão não pode ser subestimada;
- O magnitude brutal da violência e do controle social, bem como a extensão do controle sobre os meios de comunicação globais e de produção e circulação de símbolos e imagens. Neste sentido, nós somos testemunhas de novos e assustadores sistemas de controle social e repressão que precisamos analisar e aos quais devemos resistir;
- Estamos chegando ao limite da expansão do capitalismo – ou seja, não há mais novos territórios significativos a serem integrados ao sistema. A desruralização já é bem avançada; a mercantilização do campo e dos espaços pré e não-capitalista são intensas;
- O surgimento de uma população “excedente” que habita um “planeta de favelas“, afastada da economia produtiva, jogada às margens e sujeita a sofisticados sistemas de controle social e à destruição – a um ciclo mortal de expropriação, exploração e exclusão.
- O descolamento entre economia globalizada e um sistema de estados-nações baseado em uma política autoritária. Os aparatos estatais transnacionais são incipientes. Eles não foram capazes de desempenhar o papel que os estudiosos do sistema capitalista mundial designam por “hegemon”, ou um estado-nação líder com poder e autoridade suficientes para organizar e estabilizar o sistema.
Neste contexto, vamos rever como a atual crise se desenvolveu. O capital transnacional emergente passou por uma grande expansão nas décadas de 1980 e 1990. Isto envolveu o que poderíamos chamar de hiper-acumulação, alcançada por meio de uma série de fatores. Envolve a introdução de novas tecnologias, sobretudo da informatização e da utilização da internet; políticas neoliberais que abriram o mundo para o capital transnacional; novas modalidades de mobilização e exploração da força de trabalho global, com novo ciclo de “acumulação primitiva” maciça – a expulsão e deslocamento de centenas de milhões de pessoas, especialmente das áreas rurais do terceiro mundo, que se tornaram migrantes nacionais e transnacionais.
Mas no final da década de 1990, a estagnação instalou-se na economia global. O sistema enfrentava novamente uma crise. A nítida polarização social global e as desigualdades crescentes em todo o mundo alimentavam o problema crônico da “sobre-acumulação”. Muito simples, as desigualdades globais e o empobrecimento de uma ampla parcela da sociedade significam que o capital transnacional não pode encontrar saídas produtivas para descarregar as enormes quantidades de excedentes que acumulou. No início do século 21, a Classe Capitalista Transnacional procurou enfrentar a estagnação e a sobre-acumulação por meio de diversos mecanismos.
Um desses mecanismos é o que chamo de acumulação militarizada. Trata-se de fazer guerras e realizar intervenções que desencadeiam ciclos de destruição e reconstrução, além de gerar enormes lucros para um, cada vez maior, “complexo financeiro-militar-prisional-industrial-de energia-e-segurança”. Estamos vivendo agora em uma economia global de guerra, que vai além de “guerras quentes” como a do Iraque, do Afeganistão ou da Síria. Outro mecanismo é a invasão e saque dos orçamentos públicos. A Classe Capitalista Transnacional usa seu poder financeiro para assumir o controle das finanças do Estado e impor mais “austeridade” à maioria dos trabalhadores. Emprega seu poder estrutural (por controlar a economia global) para acelerar o desmantelamento do que ainda resta do salário social e do estado de bem-estar. E o terceiro mecanismo é a frenética especulação financeira em todo mundo – transformando a economia global em um gigantesco cassino. A TCC descarregou trilhões de dólares em especulação imobiliária, em alimentos, energia, mercados dos commodities globais, em mercados de títulos em todo o mundo (ou seja, nos orçamentos públicos e nas finanças estatais), e em outros tantos setores e seus derivados.
A ameaça do “fascismo do século 21″
Como as forças políticas e sociais em todo o mundo estão respondendo à crise? Ela resultou em uma rápida polarização na sociedade global. Forças de direita e de esquerda estão em ascensão. Entre outros, quero destacar três respostas para a crise que parecem estar em disputa.
Uma delas é o que poderíamos chamar de “reformismo de cima”. Este reformismo tem como finalidade estabilizar o sistema, salvando-o de si mesmo e de alternativas mais radicais, vindas de baixo. No entanto, nos anos que se seguiram ao colapso do sistema financeiro global de 2008, parece que esses reformadores não tiveram a capacidade (ou a vontade), de prevalecer sobre o poder do capital financeiro transnacional. Uma segunda resposta é a resistência popular e de esquerda, a partir de baixo. À medida em que conflitos sociais e políticos eclodem em todo o mundo, parece surgir uma revolta global organizada. Embora essa resistência pareça insurgir-se após 2008, ela ocorre de modo bastante desigual, nos distintos países e regiões e enfrenta muitos problemas e desafios.
A última resposta é a que eu chamo de fascismo do século 21. A ultra-direita é uma força emergente em muitos países. Em linhas gerais, busca-se fundir o poder político reacionário com o capital transnacional e organizar uma base de massas entre os setores historicamente privilegiados da classe trabalhadora mundial – como os trabalhadores brancos, no Norte do planeta e as velhas classes médias do Sul. Elas vivem hoje sensação de insegurança agravada, temerosas de mobilidade social decrescente, ou mudança de status. São tentadas ao militarismo, masculinização extrema, homofobia, racismo e uma mobilização racista contra bodes expiatórios — o que inclui a própria busca de bodes expiatórios, como os imigrantes e, no Ocidente, os muçulmanos. O fascismo do século 21 evoca ideologias mistificadoras, muitas vezes envolvendo supremacia racial e ou cultural e xenofobia. Abraçam um passado idealizado e mítico. A cultura neofascista banaliza e exalta a guerra e a violência social. Procura gerar fascínio pela dominação, ao retratá-la como heroica.
É importante salientar que a necessidade dos grupos dominantes em todo o mundo, para garantir segurança e organizar o controle social em massa sobre a população excedente e as forças rebeldes, dá um impulso poderoso a projetos de fascismo neste século. Simplificando, as imensas desigualdades estruturais da economia política global não podem ser facilmente contidas por meio de mecanismos consensuais de controle social – ou seja, por meio de dominação hegemônica. Com isto em mente, vamos concluir com cinco pontos para o debate futuro sobre sobre o capitalismo global policiante.
Um estado policial global
Primeiro, um capitalismo global policiante, por meio de novas modalidades de controle social globalizado e repressão não é apenas um projeto desse fascismo do século 21. Na verdade, ele está sendo antecipado pelas elites e Estados liberais e reformistas. É um imperativo estrutural do capitalismo globalizado, ligado aos imperativos de manutenção do sistema.
Segundo, ao pensamento sobre o capitalismo global policiante, devemos nos perguntar quem precisa ser policiado, no sistema. Aqui, quero chamar a atenção para a crescente onda de mão de obra excedente. Ao invés de incorporar os marginalizados, o sistema tenta isolar e neutralizar suas reais ou potenciais rebeliões, criminalizando o pobre e despossuído – com tendências, em certos casos, para o genocídio. Os mecanismos de exclusão coerciva incluem a detenção maciça em complexos industriais-prisionais (Prison-Industrial Complex ou PIC, o termo em inglês é usado para atribuir a rápida expansão da população carcerária dos EUA que influência as políticas das empresas de privatização de cárceres e empresas que fornecem bens e serviços para agências de prisão do governo); o policiamento generalizado, leis repressivas anti-imigrantes; novas formas de manipulação de espaços, para que tanto os condomínios murados quanto guetos sejam controlados por verdadeiros exércitos de segurança privada e vigilância de alta tecnologia; campanhas ideológicas voltadas à sedução; passividade por meio do consumo e da fantasia.
Novas formas de controle social e modalidades de dominação ideológicas cruzam barreiras. Por isso, pode haver um neo-fascismo constitucional e normalizado, com instituições de representação, partidos políticos e eleições formais, enquanto o sistema político é rigidamente controlado pelo capital transnacional e seus representantes. Qualquer divergência que ameace o sistema é neutralizada, quando não liquidada.
Em terceiro lugar, devemos reconhecer que a criminalização e o controle militarizado de estruturas marginalizadas, como mecanismo de contenção preventiva, são altamente racializados. Isso nos traz de volta para Stuart Hall e seus colegas. Os autores dePolicing the Crisis destacaram a natureza altamente racializada do policiamento e da criminalização de comunidades negras e imigrantes no Reino Unido. Eles desconstruíram o processo ideológico complexo de fabricar a criminalização dos oprimidos como uma função do controle social, em momentos de crises de hegemonia.
Aqui vemos fortes paralelos entre o embrionário “Estado excepcional” na década de 1970 e a atual deriva para tais Estados, nos EUA e em outros países. O deslocamento das ansiedades sociais para o crime e populações racialmente criminalizadas origina-se na crise dos 1970. Nos EUA, após as rebeliões de massa da década anterior, os grupos dominantes promoveram campanhas culturais e ideológicas sistemáticas de “lei e ordem” para legitimar a mudança de um Estado de bem-estar social para um Estado de controle e a ascensão de um complexo industrial-prisional.
“Lei e ordem” passou a significar a reconstrução e reforço das hierarquias raciais, sociais e da ordem hegemônica, após as rebeliões de 1960. Isso coincidiu com a reestruturação econômica global, o neoliberalismo e a globalização capitalista da década de 70 e anos posteriores. Agora, a criminalização ajuda a deslocar as ansiedades sociais, decorrentes da crise estrutural da estabilidade, segurança e organização social, geradas pela crise atual. Em seu chocante livro, The New Jim Crow, a jurista Michelle Alexander revela que o encarceramento em massa, nos EUA, é “como um sistema incrivelmente abrangente e bem disfarçado de controle social racializado”.
De fato, a natureza racializada das “guerras contra as drogas” hipócritas, dos encarceramentos em massa e das sentenças de morte social proferidas é tão cruel que choca os sentidos. Em uma abstração analítica, os encarceramentos em massa tomam lugar dos campos de concentração. O sistema submete uma população excedente de milhões, potencialmente rebeldes, a um aprisionamento sob violência estatal. As chamadas (e declaradas) “guerra contra as drogas” e “guerra contra o terrorismo”, bem como as não declaradas “guerra contra a juventude pobre” e a “guerra contra os imigrantes”, precisam ser colocadas neste contexto.
Em quarto lugar, em seu brilhante e ainda assustador estudo “Cities under Siege: The New Military Urbanism” ["Cidadas sitiadas: o novo Urbanismo Militar], Stephen Grahammostra como estruturas e processos de controle controle social militarizado constituem um projeto glogal que é, por definição, transnacional. É importante notar que cada país enredou-se no policiamento da crise global, assim como da economia global torna-se cada vez mais imbricada com o negócio da guerra, violência social e coerção e repressão estatal organizadas.
Quinto e último ponto: a militarização e a violência organizada tonaram-se estratégias de acumulação, independente de qualquer objetivo político, e aparecem como características estruturais do novo capitalismo global. Guerras, sistemas de encarceramento em massa, militarização das fronteiras, detenção de imigrantes, desenvolvimento de sistemas de vigilância globais – e assim por diante – são imensamente rentáveis para a economia corporativa global, para as multinacionais, os banqueiros transnacionais, investidores e especuladores. As forças populares de base devem estar conscientes da ameaça enfrentam, mas há necessidade de uma mudança fundamental no poder e nas relações de propriedades do capitalismo global, se queremos atingir a paz e a justiça.
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As ideias deste ensaio serão desenvolvidas em detalhe no livro Global Capitalism, Global Crisis, a ser publicado em 2014 pela Cambridge University Press. Este texto baseia-se numa fala à Conferẽncia sobre Poder e Justiça, em Nova York

domingo, 15 de setembro de 2013

flecheira.libertária.309

sobre os juízes de plantão
Juízes de plantão em suas reportagens e colunas situadas em jornais de grande circulação seguem sentenciando como vandalismo certas manifestações ocorridas em vários cantos do Brasil. Lançando mão de dados estatísticos, argumentam que, em comparação com os protestos de junho, os ocorridos durante o 7 de setembro, indicaram aumento da “violência” por parte dos manifestantes. Não é preciso ter estudado matemática para concluir exatamente o contrário do que visam provar os números expostos por tais juízes. Se houve, como apontam os quaisquer limitados estatísticos, redução do número de pessoas presentes nos protestos da última semana e aumento do número de prisões, escancara o óbvio. A violência é o Estado, a polícia, seus juízes de toga ou não.
sobre as carpideiras revolucionárias
Um jornalista estadunidense lamurioso, viúvo confesso do movimento Occupy Wall Street, condenou o que identificou como violência Black Bloc nos protestos ocorridos no Brasil. Segundo o laureado jornalista, as ações anticapitalistas, para além de afastar a “massa” das ruas, não respeitam as reivindicações formuladas pelo que cunhou de “maioria”. Ao que parece, o viúvo, mesmo tendo nascido ao norte da América, clamando ser de esquerda e trabalhar como escritor, desconhece ou ignora covardemente a afirmação vital de Henry David Thoreau, ainda no século XIX, sobre a maioria e a produção do homem comum. Segundo Thoreau, esse homem comum – que se acha tão peculiar – se arrisca a viver somente com a ajuda da companhia de Seguros Mútuos, que lhe prometeu um enterro decente. É preciso se afastar das carpideiras, ainda que estas se proclamem revolucionárias. não há paz e amor Foram presos, nos últimos dias, cinco jovens acusados pela polícia de formação de quadrilha armada e incitação à violência, a partir de investigações realizadas na página Black Bloc RJ e nos perfis de seus membros no Facebook. Poucos dias antes das manifestações marcadas para o dia 7 de setembro, celebridades e intelectuais se reuniram com o secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, pedindo a diminuição da ação da polícia para atenuar a violência nas manifestações. Porém, as forças se mostram claras: de um lado, a polícia – de todo e qualquer tipo – e de outro, aqueles que não a suportam. Aquele que se diz neutro ou indiferente está acomodado ao lado do mais forte. Não há paz e não há amor quando se trata de resistências a uma história de massacres incessantes cobertos de verde e amarelo em defesa da segurança e das propriedades. 
violento é o Estado!
Atualmente, centenas de pessoas têm sido presas e investigadas sob a acusação de vandalismo em todo o planeta. No entanto, nem todas as acusações de vandalismo se pautam no incomodo “quebra-quebra”, como é o caso das pussy riots, presas devido a uma ação que durou cerca de 40 segundos e na qual nenhum bem foi destruído. Essas acusações, geralmente, são sustentadas ao serem combinadas a outros supostos crimes, sendo a “incitação de violência” umas das mais usuais. A luta contra o capitalismo e a propriedade parece constituir uma grave ameaça aos “cidadãos de bem”, tendo em vista que não se vandaliza pessoas, mas propriedades. E a maioria, burra e horrorizada, deseja cessar a “violência incitada” em detrimento da violência escancarada da polícia que se exerce incessantemente em torturas, mortes e encarceramentos de gentes. 
democracia e autoritarismo
Ouve-se muitos elogios à simplicidade e alegado arrojo exemplar do presidente do Uruguai. Celebra-se a vida simples do condutor e as medidas vistas como progressistas de seu governo. Mas notícias sinistras, não publicadas na grande imprensa, chegam por aqui. O país que é o novo destino turístico da classe média brasileira está perseguindo militantes de direitos humanos, reprimindo duramente manifestações dos movimentos sociais e estudantis, espionando e sequestrando anarquistas. Uma nota para lembrar aos que se animam com “avanços” e mudanças produzidas no e pelo Estado, que nisso, devem engolir o pacote: mais polícia, vigilâncias e monitoramentos e o autoritarismo contra os que discordam do bom caminho traçado pelo governo. Mesmo que se viva, formalmente, sob um regime democrático. 
em tempo:
Nesta semana, no dia 11 de setembro, faz 40 anos que as forças militares, ordeiras e ditas majoritárias, com seus policiais e torturadores, em nome da propriedade privada e de sua democracia deram um golpe de Estado e instituíram a ditadura no Chile sobre um governo democraticamente eleito (segundo os moldes da democracia burguesa) e pacífico. Com o apoio dos Estados Unidos e do Brasil! 

Ler primeiro: A poesia de Chiu Yi Chih

Aolimitedoruidoenclausurado

 ”Carrego um girassol rutilante / sobrevoo / as esquinas da Augusta / disparo / amores aéreos / vestígios de arte contemporânea”
Por Chiu Yi Chih*
Performance em Sampa
uma ponte se evapora: só me resta
seguir este velho
prisioneiro das serpentes,
Filoctetes sangrando no pé esquerdo.
pássaro-escultor
navegando nos rostos de todos os mortos,
carrego um girassol rutilante
sobrevoo
as esquinas da Augusta
disparo
amores aéreos,
vestígios de arte contemporânea:
Hélio Oiticica e José Agrippino
em navios semialvejados – tudo se cria
nesse delgado retângulo: as cabeças
costuradas/amarradas
aos monturos
como turbantes azuis da desconfiança.
eis o nosso paraíso enrodilhado de infernos:
máquina desejante de eterna insônia.
monstro de ossos esverdeados
arregalando um olho triplo. alguém me vê
debaixo de uma usina e eu danço na rua
em meio aos dragões violetas do travesti.
estou sempre atrás, acima, além,
sob, sobre, entre as lajes do meu corpo –
sucata que perfura um negro arco-íris.
- do livro “Naufrágios” (Editora Multifoco)
TRANSCURSO
próximo aos estiletes de fogo que cospem lâminas finíssimas de chumbo ou avançando por detrás da escaramuça das algas insufladas pelas lascas eufóricas tal como o transístor das risadas coléricas precipitando-se às melodias de ondas incestuosas num revolutear de cristas incontáveis a contrair os minutos através das emanações de uma escada quase ovalada à espera de que todos os seres com aquelas flatulências possam se esgueirar acima dos estuques de gesso onde os fungos das trêmulas ancas se desatrelam com as lagartas de línguas enrubescidas embora nem sempre as lamentações de um cadáver insepulto se mantenham à distância dos edifícios esquálidos de certas plenitudes irreais enquanto assim um semi-animal humano parece estar rastejando nos lábios do cimento adormecido durante a sua translação para além das bifurcações de outras ferrovias que vão se perfilando às cegas sobre as reminiscências das válvulas da matilha atacada pelas fossas de um velho armazém como se apenas as suas mandíbulas inferiores pudessem se rejuvenescer com a plumagem dos túmulos e as cordilheiras de uma faísca submersa
BUDA-EXU
uma guerra se trava entre os clavicórdios de teus ossos porém mais do que dilúvio de sangue ou fome indiscriminada talvez seja apenas a inexprimível eclosão de outro império irrefletido pois tampouco se trataria de mero deslocamento de teus nervos senão de algo mais abstrato e desastroso assim como se um súbito inverno voraz viesse a irromper por si mesmo no distúbio iminente das consciências ou como se o próprio tempo estivesse sendo esmagado por debaixo das águas engomadas de tua astúcia eclipsada tal como se aquela falha inerente jamais pudesse ser estancada no momento em que todas as paredes ovaladas se arqueiam diante do edifício em destroços onde ninguém pretende refazer os venenos da tua carne assolada pelo pó das trevas ao mesmo tempo que nada parece se reconciliar com os alumínios de tua miséria mal reconquistada quando apenas o coração lacerado se alastra entre farrapos recalcitrantes tanto nesta língua atravessada pelos olhos calcinados como naquela viela de escamas enrugadas onde cada pétala se estilhaça com as estrelas esfarrapadas de tuas feridas impossíveis
PROVAÇÃO
sobre a geleira da ácida dissimulação os alvéolos enrouquecidos daquela máquina soluçam com os arquipélagos de uma avalanche enquanto num fulgor excruciante o dorso do lince se galvaniza acima dos crânios de lobos escabrosos assim como se num relevo furtivo a laringe pudesse arrastar um semblante sem esperança por detrás daquela gota cinzenta que começa a gemer debaixo do surdo vendaval dos tigres mumificados ao mesmo tempo que nessa órbita sonífera dos lábios desterrados ao longo das formigações das pupilas encharcadas se exalam as madressilvas de lídima voragem tal como se essa indecente montanha de ilegível sexo houvesse deglutido aquela macieira no centro de uma placenta de minúsculas anfíbias ainda que alguns caramujos jamais consigam se acasalar sob as maledicências do piano selvagem quando na fermentação de tantas lamúrias fibrosas os canivetes estampados das pérolas poderiam se exilar entre os estertores do mármore e o despertar das videiras da morte
TRANSVERSO
reclinando-se ao lado da neblina ferrosa que oscila em lívidas ramificações ou mesmo tropeçando com as raízes das ladeiras encalhadas como se naqueles artelhos de zinco escarpado reverberassem em uníssono as infatigáveis ofuscações de uma savana ao mesmo tempo que se desviam de sua rota os mastros dos ilícitos bárbaros a tal ponto que não soubéssemos mais por onde se desguarneceria a superfície dos gritos embalsamados sob o insulto dos embriões tempestuosos quando num abraço de cálidas difamações a lágrima escondida de sua face volumosa se revolve por debaixo dos músculos esfaimados num breve regozijo em que os ciprestes de contínuas insolências se comprimem acima dos azulejos do columbário sacrílego enquanto as gengivas se acorrentam sob aquela revoada de manguezais fustigados pela penumbra dos estames gordurosos e os córregos de lama violeta emergem dos cílios intumescidos como maremoto suspirando com os ladrilhos do vento assim que num átimo escorraçado uma estátua em flanelas negras se despedaça diante dos rochedos inescrutáveis onde mal vislumbramos os corações azulados esfumaçando-se nos hieróglifos com as dunas de cães evadidos ao norte das intempéries pois tão velozes se ascendem aos turbilhões as feridas gigantescas do espaço no meio das coagulações de carvão escarificado que uma sombra de madrepérola se desvencilha sob o pavilhão das flechas rugosas num inviolável aquário de anzóis estirados debaixo da litigiosas partículas sem que ninguém possa desencravar aquele baralho emplumado de desmesurados esfíncteres no mesmo instante em que cada batida solar dilacera as presilhas do ínfero meteoro com súbitas peripécias ao longo das presas cristalinas por onde as trevas se desmancham minuciosamente através das malhas escalpeladas pelas escotilhas encanecidas de um outono desossado
Os poemas “Buda-Exu”, “Transcurso”, “Provação” e “Transverso”são do livro inédito “Metacorporeidade”.
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*Chiu Yi Chih – poeta, filósofo e performer chinês. Mestre em Filosofia pela USPDesenvolve em parceria com o artista brasileiro Irael Luziano um conjunto de trabalhos na linguagem da escultura, performance, vídeo e poesia. Publicou seu livro de poesia Naufrágios (Ed. Multifoco) e, em breve, publicará o livro Metacorporeidade e seu ensaio “Por uma estética da diferença: um diálogo entre Deleuze e Artaud” no livro Deleuze Hoje (Editora Unifesp) com ensaios da filósofa Marilena Chauí e de outros pesquisadores. Mantém um site: http://philomundus.blogspot.com  e pode ser encontado em: winnerchiu@gmail.com
Vale a pena ler primeiro é seção de Outras Palavras dedicada à literatura. Foi criada e é editada por Fabiano Alcântara. Jornalista especializado em cultura, repórter de Música do portal Virgula, e colaborador de diversas publicações – como Valor Econômico e os sites das revistas TRIP e TPM –, Fabiano é também músico, baixista das bandas Mercado de Peixe e Lavoura e curador de festivais.Para ler edições anteriores da coluna, clique aqui.