domingo, 3 de março de 2013

"filas na madrugada não acabaram"

amanhecemos o dia 01 de março de 2013 com esse enunciado feito na página 07 do jornal diário serrano (midiático diário cá em nossas plagas)... vejamos: "filas na madrugada não acabaram"... de onde sai essa enunciação? para quê serve? Para que serve uma série de denúncias vazias desconectadas da realidade que cotidianamente flui na vida e a vida das gentes?
o jornal pinçou (como sempre costuma fazer) algumas situações pontuais e isoladas, transformando essa bricolagem numa verdade ampla e abrangente, perdendo a oportunidade de fazer uma abordagem no mínimo responsável,  no que se refere à situação da política de saúde em nossa comunidade. tomar o depoimento desconectado de um ou outro usuário para tentar mostrar uma cartografia do campo da saúde pública, equivale a brincar com a opinião pública e com a capacidade mental e intelectual das pessoas.
vimos, em períodos de campanha eleitoral, candidatos despreparados e desconhecedores das searas da administração pública, enunciando que eles resolveriam "os problemas da saúde no município" (e isso saiu tanto da cabeça de candidatos a prefeito, como a vereador), como se isso fosse, racional e politicamente, possível... quem faz uma enunciação desse tipo, desconhece que a política, as ações e os serviços de saúde são feitos por gente, com gente, para gente e entre gentes, portanto, não é um ou dois sujeitos iluminados que vão "resolver" as coisas... quem transita no campo da saúde é sabedor do quanto a sociedade brasileira já teve que andar e quanto ainda terá que andar para fazer acontecer um sistema único de saúde emancipatório, focado na promoção da saúde e não da doença, guiado pela perspectiva humana e não pelo lucro ou ideal de mercado, e, implicado na promoção do protagonismo e na autonomia das gentes.
se olharmos para a questão das "filas na madrugada" ou na "distribuição de fichas", já podemos ver que há questões que vem de todos os lados... se ainda há filas para "pegar fichas" para atendimento nas ESF's, é porque essas unidades de saúde ainda estão longe de funcionar como deveriam... se ainda há comércio de aluguel de vagas nas filas que se formam para "tirar ficha" é porque ainda há muita coisa para se pensar, conversar e modificar... ou será que ninguém fica sabendo que há pessoas ganhando dinheiro para marcar lugar nas filas das madrugadas e "tirar fichas"? se isso ainda acontece é porque tanto usuários, quanto gestores e trabalhadores ainda tem muito por ralar. e cabe dizer que essa é uma situação que não é de agora.
é óbvio que as ESF's devem ter um mínimo de articulação para organizar a distribuição do atendimento às pessoas, mas não podemos esquecer que se deve garantir o atendimento à demanda espontânea, priorizando, é claro, as crianças, os adolescentes, os idosos e as situações que, em função da gravidade, exigem atendimento imediato. o alinhavo da atenção em saúde não pode mais ser feito por pessoas e cabeças guiadas pelos velhos modos de fazer saúde, em que gestores e trabalhadores autoritários falavam de cima pra baixo com usuários submissos e assujeitados. é comum vermos trabalhadores em saúde com uma postura autoritária, mandando os usuários embora das unidades de saúde, sem terem sequer orientado, escutado ou acolhido as pessoas. sabemos de tudo isso, mas não podemos esquecer que não trabalhamos  mais com fichas... não atendemos fichas... atendemos gente e gente tem existência real, com necessidades reais e problemas reais... gente não é um mero número que pode ser encaixado ou deixado de ser encaixado num número xis de fichas! não podemos esquecer, também, que os trabalhadores são gentes e que, para modificar seus pensares e seus fazeres, necessitam de investimento em educação permanente no trabalho, pois suas práticas e seus processos de trabalho não vão se modificar a partir de um raio que lhes caia na cabeça, vindo de um memorando, de um ofício circular ou da mera determinação saída da cabeça do gestor.
ainda vemos gestores de unidades de saúde (aqui estou generalizando e não estou falando de situações específicas de cruz alta) que têm dificuldades para lidar com a dimensão humana de sua existência e nas relações de trabalho, fazendo-se autoritários, individualistas, hierarquistas, traiçoeiros, perigosos e sem capacidade alguma para gestão das pessoas e do serviço. e não posso deixar de dizer que tenho visto muitos trabalhadores em sofrimento em função dessas situações, pois acabam não tendo a quem recorrer, sofrendo perseguições, retaliações e armações traiçoeiras.
ainda vemos legisladores que, sem a mais básica noção sobre a política de saúde, se acham no direito de invadir unidades de saúde com suas arrogâncias, prepotências e manias de superioridade, querendo priorizar o atendimento aos seus eleitores, achincalhando com a dignidade dos demais usuários e dos trabalhadores... são legisladores que não orientam os usuários para buscarem o atendimento nas unidades de saúde, mas que os levam embaixo do braço, ligam para deputados, para diretores de hospitais e para outros quetais, buscando garantir "vagas para internação" ou atendimentos privilegiados, sem terem sequer ouvido o trabalhador da área da saúde que seria responsável pela avaliação e atendimento ao usuário... já cansamos dessas patacoadas de vereadores... já não há mais espaço para essas práticas em que os vereadores ligavam para os trabalhadores ou para os gestores em saúde e lhes diziam o que necessitavam de atendimento para os seus apoiadores eleitorais... já não cabem mais os bilhetinhos com pedidos de favores... já não cabe mais o terrorismo que alguns vereadores fazem com os trabalhadores em saúde (principalmente no pronto atendimento - PA), invadindo a unidade de saúde com suas ameaças de chamar a cobertura da televisão, de rádio e jornal... já não cabe mais essa prática em que trabalhadores dos meios de comunicação acompanham vereadores em suas investidas, para colocar medo nos trabalhadores em saúde.
sabemos que ainda há trabalhadores em saúde que não encontram força e potência suficientes para fazer o enfrentamento à essas situações, e acabam se curvando ao medo, atendendo essas demandas estapafúrdias que lhes são dirigidas... mas a maioria dos trabalhadores em saúde se faz guiar pela força e pela clareza dos princípios e diretrizes presentes na política do sistema único de saúde e na política de humanização da saúde.
ainda temos muito a fazer para alcançar: a superação do modelo médico-centrado em saúde; a superação das ações da política de saúde dirigidas eminentemente para a atenção à doença, distante da promoção da saúde; a superação da lógica da medicamentalização que entope os usuários de medicamentos, em vez de promover suas condições de produção de saúde; a superação da lógica hospitalocêntrica, que prima pela atenção hospitalar, em vez da promoção da atenção básica/primária; a superação da lógica de relações hierarquizadas no trabalho, em que alguns trabalhadores são considerados superiores aos demais ou em que o saber de alguns trabalhadores é considerado mais importante que o dos demais.
enfim, somos, de uma forma geral, reféns históricos de uma concepção e prática em saúde pública voltada para a cronificação da cultura da doença, para a “medicina curativa”, para a medicalização, a medicamentalização e para o assujeitamento dos usuários a um sistema centralizador e verticalizado da política de saúde.
os movimentos produzidos a partir da Constituição Cidadã, de 1988, no campo da política de saúde pública a partir da regulamentação e implantação do SUS, vem, aos poucos, evidenciando os novos desenhos com que se produz a atenção à saúde e com que se pensa e faz não somente a ação do cuidado em saúde coletiva, mas saúde de forma geral. afora os movimentos de humanização no campo da saúde, é de se considerar o dimensionamento prático e formal das ações de saúde, e, para isso, me ancoro nas palavras de Campos, para rabiscar o matiz do meu entendimento sobre isso, quando diz: 
"Identificam-se quatro modos básicos para se produzir saúde: a) transformações econômicas, sociais e políticas resultando em padrões saudáveis de existência, dificultando o surgimento de enfermidades. Cidades saudáveis tem denominado este modo de produção referente à promoção à saúde (WHO,1991); b) vigilância à saúde voltada para a promoção e prevenção de enfermidades e morte; c) clínica e reabilitação em que se realizam práticas de assistência e de cuidados individuais de saúde e d) atendimento de urgência e de emergência, em que práticas de intervenção imediatas, em situações limites, evitam morte e sofrimento" (Gastão Wagner de Sousa Campos. Saúde pública e saúde coletiva: campo e núcleo de saberes e práticas. Ciência & Saúde Coletiva, 5(2): 2000).
Isto posto, destaco algumas das noções básicas que tem guiado nossos pensares e nossos fazeres em saúde. vejamos:
"Humanização/Política Nacional de Humanização (PNH): No campo da Saúde, humanização diz respeito a uma aposta ético-estético-política: ética porque implica a atitude de usuários, gestores e trabalhadores de saúde comprometidos e co-responsáveis; estética porque acarreta um pro-cesso criativo e sensível de produção da saúde e de subjetividades autônomas e protagonistas; política porque se refere à organização social e institucional das práticas de atenção e gestão na rede do SUS. O compromisso ético-estético-político da humanização do SUS se assenta nos valores de autonomia e protagonismo dos sujeitos, de co-responsabilidade entre eles, de solidariedade dos vínculos estabelecidos, dos direitos dos usuários e da participação coletiva no processo de gestão".
"Educação permanente: Aprendizagem no trabalho, onde o aprender e ensinar se incorporam ao quotidi-ano das organizações e ao trabalho". Soe dizer que para podermos modificar os pensares e os fazeres dos usuários, trabalhadores e gestores em saúde, devemos, no mínimo, intensificar e ampliar as ações de educação permanente em saúde.
"Equidade: No vocabulário do SUS, diz respeito aos meios necessários para se alcançar a igualdade, estando relacionada com a ideia de justiça social. Condições para que todas as pessoas tenham acesso aos direitos que lhe são garantidos. Para que se possa exercer a equidade  é preciso que existam ambientes favoráveis, acesso à informação, acesso a experiências e habilidades na vida, assim como oportunidades que permitam fazer escolhas por uma vida mais sadia. O contrário de equidade é iniquidade  e as iniquidades no campo da saúde têm raízes nas desigualdades existentes na sociedade".
"Igualdade: Segundo os preceitos do SUS e conforme o texto da Constituição brasileira, o acesso às ações e aos serviços, para promoção, proteção e recuperação da saúde, além de universal, deve basear-se na igualdade de resultados fim e diante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doenças e de outros agravos".
"Protagonismo: É a ideia de que a ação, a interlocução e a atitude dos sujeitos ocupam lugar central nos acontecimentos. No processo de produção da saúde, diz respeito ao papel de sujeitos autônomos, protagonistas e implicados no processo de produção de sua própria saúde".
dou fecho a este escrito dizendo que talvez os veículos de comunicação (e seus operadores) poderiam colaborar muito mais para a modificação e qualificação da política de saúde se passassem a abordar e problematizar seu panorama de forma séria e esclarecedora, e não a partir de informações ou propósitos desconectados e claramente parciais... digo ainda que, se nossos vereadores atuassem de forma a fazer acontecer efetivamente as funções para as quais foram eleitos, poderiam, inclusive, estar fiscalizando as ações e serviços de saúde, ao invés de agirem de forma autoritária e equivocada, tentando atropelar os trabalhadores em saúde e o fluxo dos serviços.

flecheira.libertária.283


sinalizadores
Não há como contestar a beleza dos fogos de artifício. Eles iluminam, espocam nos céus, traduzem alegrias. Nada a opor aos fogos de artifício nos estádios. Todavia há sempre o boçal, nem sempre sozinho, que aproveita do gol no futebol para transformar fogos de artifício em arma contra o adversário. Comemoração de arrogantes e autoritários. Foi isso o que se passou no jogo do Corinthians contra o San José, na Bolívia. O boçal corintiano matou um jovem torcedor do San José com um sinalizador disparado contra a torcida adversária. Sem dúvida, o mesmo atirador não seria capaz de fazê-lo contra a polícia, porque antes de tudo as torcidas organizadas são compostas de adestrados companheiros dos policiais.
sinalizando
Tem uns 10 da torcida uniformizada em cana, como suspeitos. Investigação aberta, há os primeiros dois identificados em risco de processo. Entretanto, alguém se entregará como culpado, seguindo o comando da direção da torcida Gaviões da Fiel. O laranja, obviamente um jovem menor de idade, limpará a sujeira de diretores da Gaviões da Fiel. Isso funcionará como amortecedor às possíveis penalizações a serem impostas pela Conmebol, e evitará a ameaça do Corinthians de deixar a competição. Dizem, também, que será proibida a torcida no estádio nos próximos jogos em Sampa. A Gaviões da Fiel convoca os corintianos a cercarem o estádio. Enfim, a torcida uniformizada agride, manobra o direito, pressiona, policia e alavanca o time.
sinal
Os torcedores de hoje são cidadãos devotos da punição, e como tal sabem burlar o direito em seu benefício. A mídia exige o fim dos fogos de artifício, mais monitoramento nos estádios, e as torcidas uniformizadas persistem na ditadura sobre os torcedores comuns. Mais uma vez, explicita-se a seletividade penal e a continuidade da obsessão por punição, em nome da segurança. É bem melhor ver futebol com todos os torcedores juntos e misturados. Os adversários jamais serão identificados como inimigos e os fogos de artifício espocarão de alegria.
a alma do negócio
Negócios são negócios. Aquela que se declara a maior torcida do Brasil está em festa há anos graças ao governo federal, às empresas transnacionais e uma milionária estratégia de marketing. Milionária a ponto de, junto com sua patrocinadora esportiva, fazer uma campanha publicitária que re-nomeou o clube com o adjetivo de república popular. Mas a massa, fascista e covarde, não vive só de dinheiro e títulos. Ela quer sangue, se inflama com o fogo e mata. Os fascistas são assim: matam um jovem do outro, e oferecem um próprio em sacrifício.
rebelião?
Nesta semana noticiaram-se duas rebeliões na Fundação CASA. Uma na quinta, na Unidade de Vila Conceição, e outra no sábado, na Unidade Raposo Tavares. Sabe-se, pela imprensa, que a queima de colchões, cadeiras e mesas na Unidade da Vila Conceição teve como objetivo a retomada de atividades complementares suspensas e a denúncia de torturas por parte dos monitores. Quanto à rebelião na Unidade Raposo Tavares, ocorrida no sábado, a imprensa e o sindicato dos monitores (leia-se carcereiros) dizem desconhecer as motivações. As duas rebeliões foram controladas pela brigada de monitores (conhecida como Choquinho) e duraram menos de 24hs. Registraram-se, na imprensa, alguns depoimentos de mães desesperadas. E só.
mordaça democrática
Não se sabe o que queriam os jovens rebelados. Paradoxalmente, a democrática Fundação CASA, que substituiu a FEBEM, em 2006, e tornou-se, desde então, entupida de entidades, ONGs e parcerias público-privadas, tornou-se uma caixa hermeticamente fechada. Nunca são publicadas notícias completas. Poucos se importam com o que se passa por lá. Sabemos que o acesso de certos pesquisadores à Fundação CASA para registrar o que querem esses jovens é obstruído pela sua burocracia. Quando há uma efêmera e pontual rebelião, não se sabe se ela é motivada por um acordo, uma insatisfação ou, simplesmente, um querer quebrar tudo porque não se aguenta mais ficar trancado.

flecheira.libertária.282


para não esquecer 
Na última semana, a imprensa divulgou a “descoberta” dos livros que registravam a entrada e saída de pessoas nas dependências do Dops entre 1971 e 1979. Os documentos que, segundo a reportagem, estavam “perdidos” até agora, no mesmo prédio em que hoje funciona o Memorial da Resistência, explicitam o óbvio ululante: o funcionamento da ditadura civil-militar dependia da ampla participação de grande parte da sociedade. Além de militares, os livros identificam a presença assídua de funcionários de empresas privadas e outros “civis” no prédio em que pessoas eram presas, torturadas e mortas durante a ditadura. Da mesma maneira que estes documentos foram “esquecidos”, muitos dos nomes citados neles seguem levando uma vida normal e contam com a colaboração dos que não se lembram e que tampouco se lembre de onde estiveram durante os chamados “anos de chumbo”. O esquecimento é conveniente somente aos poderosos e aos covardes. 
em altamira 
A polícia de Altamira, cidade próxima ao empreendimento de Belo Monte, tem realizado operações em prostíbulos da região em busca de mulheres que estejam sendo exploradas sexualmente. Estas mulheres são levadas a centros de assistência social e postas sob a tutela do Estado. Desse modo se regulamenta e normaliza a situação nos arredores da usina. Alguns associam as irregularidades na prostituição aos mais de 20 mil trabalhadores pobres empregados na construção do grande empreendimento, ignorando que a exploração de mulheres e meninas por grandes latifundiários, agroboys e seus capangas – mesmo com a implementação de delegacias da mulher – sempre foi corriqueira na região. A notícia, que incita aplausos à justiça no Xingu, ignora também a violência contra mulheres indígenas e ribeirinhas as quais, coincidentemente, lutam de maneira incessante contra a construção da usina. Os aplausos efusivos servem para recobrir o berro das mulheres que seguem violentadas diariamente nas mãos de machos proprietários. Machos que sustentam seus negócios, amparados pelo próprio exercício da Justiça. 
enredados 
Em Brasília, na última semana, foi criada a denominada “Rede Sustentabilidade”. Mesmo utilizando o modelo de contribuição pela internet como o adotado pelo Partido Verde e visando, segundo seus próprios idealizadores, romper com a ‘lógica dos partidos’, uma das lideranças da Rede – apontada como presidenciável nas próximas eleições – argumentou que a nova organização não se posicionará nos moldes considerados usuais. Nem direita. Nem esquerda. Estamos à frente, concluiu. Não é de hoje que a palavra sustentabilidade, travestida de roupagem avançadinha, sustenta a política, esse velho negócio. Dessa maneira, não mais sob o nome de Partido, certos jovens se entregarão ao que se apresenta como o que está mais à frente, porém, pouco a pouco, acabarão enredados lado a lado. 
perigosas estrelas cadentes 
O meteoro que explodiu no céu da cidade russa de Chelyabinsk não é o primeiro e nem último a cair sobre a Terra. Enquanto astrônomos e agências espaciais preocupavam-se com a proximidade da passagem do asteróide 2012DA14, gravações amadoras, imediatamente compartilhadas pela Internet, registraram a queda supersônica do meteoro com potência de 30 bombas atômicas. O espetáculo natural trouxe espanto, temor, janelas de vidro quebradas e muitos feridos. Trouxe também a questão da vulnerabilidade planetária agora em relação aos pequenos fragmentos de asteróides, as estrelas cadentes. A NASA conseguiu mapear nos últimos 15 anos mais de 95% dos grandes asteróides ou cometas que cruzam a órbita terrestre e poderiam destruir todo o planeta. Porém, desconhece-se 99% dos asteróides menores que o 2012DA14, as estrelas cadentes, cujo impacto poderia devastar áreas metropolitanas inteiras.
investimentos candentes 
Estrelas cadentes são consideradas sinais de bons presságios, mas agora elas também são tomadas como ameaça à segurança. Autoridades russas sugerem reunir cientistas para a construção de um sistema de mísseis para desviar asteróides. Um deputado federal estadunidense articula-se para também propor um programa para defender o planeta de corpos celestes. Não são apenas os governos que estão preocupados com a segurança planetária. Empreendedores do Vale do Silício já doaram dinheiro para a Fundação B612 (nome do asteróide habitado pelo Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry) colocar em órbita um telescópio espacial para caçar ameaças cadentes. Há ainda as empresas Planetary Resourses, fundada em 2012, e a recém-criada Deep Space Industries que anunciaram a intenção de explorar minérios de asteróides próximos à Terra, o que além de eliminar os perigos cadentes traria divisas extraterrestres para engordar o PIB mundial. Se para alguns estas empreitadas espaciais privadas eram vistas como ficção científica, elas acabaram de encontrar o instante candente para receberem de investidores o selo de melhor e mais seguro negócio do planeta, em nome da segurança e da salvação. 

flecheira.libertária.281


política brasileira por um motorista de taxi na cidade do rio de janeiro
“Tenho 77 anos, já fui do sindicato dos taxistas, cabo eleitoral e conheço a história do Brasil desde Getúlio Vargas. Pode perguntar o que quiser”. Assim se apresenta o motorista de taxi, depois de puxar conversa falando de violência, crack, favelados expulsos das comunidades e dizer que Lula inaugurou a piscina de lama no país. O povo brasileiro, segundo ele, não estava nem está preparado para a democracia. Acusa o ex-presidente de se automutilar para ser líder sindical, de matador de prefeito, de controlar a Dilma, de ser mau pai e mau esposo como deixou claro Collor naquele histórico debate eleitoral, de ter dissolvido os ministérios das forças armadas e formado o Ministério da Defesa, comandado por um civil... Enfim, diz ele, o Brasil somente não virou comunista porque temos os militares, a igreja católica e a Rede Globo. Este Brasil de violência e miséria, ele pontifica, só tem correção com a volta dos militares revolucionários de 64. Aí sim, os bandidos seriam mortos e jogados em vala comum, a corrupção sanada e, finalmente, professores e médicos seriam bem remunerados. O discurso fascista circula livremente a pé, no transporte público ou de taxi.
participação democrática por uma intelectual num café na cidade do rio de janeiro
No café de um espaço de exposição de arte, uma senhora procura convencer a colega de mesa da importância dos projetos de arte-educação levados adiante por parcerias da sociedade civil com o Estado. Fala das maravilhas da participação monitorada como maneira pela qual a universidade e os universitários podem se aproximar da população pobre e como esta, por meio de programas similares, deve responder favoravelmente. Ela convence a outra a entrar no projeto que coordena, ressaltando as maravilhas da democracia, a inclusão, a oferta de alternativas para conter a violência, a miséria, o abandono, a impunidade e formar uma consciência crítica. É preciso programas como estes, ela pontifica, para formar bons cidadãos participativos e combater a violência e o tráfico, conter a corrupção, dar educação à polícia e aos futuros policiais. É assim que deve ser, segundo ela, para que melhorias sejam definitivamente alcançadas.
política e participação: balancinho
Os dois discursos se tocam mais do que indelevelmente. Para a simpatizante e para o antipatizante com o momento atual, o combate à violência, ao tráfico, à corrupção, à miséria, seja pela democracia ou pela restauração ditatorial, devem ter como alvo o fim das impunidades As palavras mudam de lugar e o pronunciamento é mais ou menos atualizado. Porém, ambos querem um Brasil desenvolvido, sem violência, corrupções, impunidades. Em suma, querem os pobres educados, com força ou arte, para obedecer qualquer autoridade. O motorista de taxi quer que tenha mais dinheiro neste país rico para programas sociais; a educadora quer que, com participação, os pobres aprendam a ser governados e a se governarem para o próprio bem. Querem polícias armadas e efetivas. Quando os dois discursos se tocam, o regime político passa a ser irrelevante. Importa que o Estado e os governos estejam comprometidos com os de baixo e que estes aceitem serem governados. Diante de qualquer crise, pode vingar um ou outro regime. Já foi assim na antessala do golpe de 64. A sociedade civil organizada apoiou o Estado de exceção governado por civis-militares.
filantropia certificada
Na rodada do chapéu da filantropia de 2013, Bill Gates conclama os bilionários estadunidenses e dos países de “renda média”, como o Brasil, a fazerem doações a países “muito mais pobres” do mundo. Na carta anual da Bill & Melinda Gates Foundation, ele fala da importância de se doar “ainda em vida” e de se ter ferramentas eficazes para medir o impacto de suas benesses. Destaca, por exemplo, o programa “Objetivos do Milênio”, da ONU, por possuir números claros e metas concretas, e avalia que “as vidas dos mais pobres melhoraram com mais rapidez nos últimos 15 anos do que jamais ocorreu antes”. Em uma era de certificação e sustentabilidade, filantropos querem ter garantias de que suas doações serão bem investidas no gerenciamento da fome e da miséria. Como todo negócio, tem que render e aparecer.
dispositivo-blitz 
O governo paulista aproveitou o carnaval para reformar as blitzes da Lei Seca. A partir de agora elas se chamarão Operação Direção Segura e contarão com uma equipe formada por agentes de trânsito, policiais militares, peritos de criminalística, delegados e escrivães. A ideia é que as pessoas flagradas com álcool no organismo possam ser enquadradas num só lugar, sem necessidade de deslocamento para uma delegacia. Em breve, cada blitz terá, também, computadores para identificar multas e atrasos nos impostos e inspeções veiculares, para que o motorista pague na hora o que deve ou tenha o carro apreendido. O novo programa – que já anuncia possíveis “aperfeiçoamentos” – começa junto com a nova Lei Seca nacional que considera uma infração grave, com possibilidade de ação penal, qualquer ingestão de álcool por motoristas e que transforma cada uma dessas barreiras policiais num dispositivo de controle, rastreamento e punição.
educar e punir
A Operação Direção Segura não fica por aí. Nesse carnaval, o governo implantou um programa-piloto para identificar o uso de maconha e cocaína. Os policiais da blitz poderão coletar saliva de pessoas suspeitas de terem consumido essas drogas, seguindo o padrão do teste do bafômetro. O controle sobre a droga legal associa-se ao de drogas ilegais seguindo a discricionariedade dos polícias que podem “interpretar sinais aparentes”, como um andar cambaleante ou os olhos dessa ou daquela cor. Além disso, cadeirantes que ficaram assim por conta de acidentes de trânsito realizam trabalho de conscientização em bares. A sociedade aplaude o rigor da lei e da fiscalização, considerando que a tolerância zero contra as drogas é necessária para se educar pela dor.
a vida e os imbecis
A “Lei Seca” brasileira evoca o nome da infame lei que nos EUA dos anos 1920 procurou banir o álcool e que terminou por fortalecer máfias, agigantar a repressão estatal, aumentar as mortes por consumo de álcool adulterado e impedir que práticas livres se desenvolvessem na relação com essa droga. A Lei Seca de lá acabou em 1933 e seu modelo se espalhou para muitas outras drogas. A “Lei Seca” daqui faz de imbecis que se embebedam e dirigem a generalização necessária para que se opere qualquer lei, padronizando e universalizando em nome do “bem comum”. Enquanto fiscalizações abundam e se rotinizam, marcas de cerveja patrocinam o carnaval, inundam as propagandas impressas e televisivas, estampam alegorias das escolas de samba e acompanham a garotada que deambula de cara cheia atrás de blocos e trios. Nenhuma lei abole a imbecilidade, mas propicia novos ou ampliados meios de esquadrinhar, acochar, amedrontar, enquadrar. No entanto, lei alguma impede, também, que experiências livres resistam aos castigos e controles, permanecendo vivas sob, ao lado ou nas brechas das punições.
fuja, agora
Três jovens fugiram de uma das unidades de internação da Fundação Casa na última semana. Enquanto isso, uma de suas carcereiras tituladas alardeava, pedagogicamente, a programação que o cárcere de jovens idealizou para os dias de carnaval: um retiro espiritual momesco no interior do estado, com “cânticos em ritmo de marchinha”. O trio que escapou, não aguardou, nem se guardou para o quando o carnaval chegar, ou passar. 

flecheira.libertária.280


Livraria anarquista Freedom incendiada 
incêndio fascista 
A Freedom Press é uma editora e livraria anarquista que funciona de maneira autogestionária desde o final do século XIX (foi fundada em 1886 por anarquistas ingleses e que estavam exilados na Inglaterra, comoPiotr Kropotkin e Charlotte Wilson). Mantém a periodicidade do importante jornal Freedom!, além de editar livros anarquistas fundamentais de autores de língua inglesa como Colin Ward, Herbert Read, Murray Bookchin, Alexander Berkman entre outros. No final da Segunda Guerra Mundial foi duramente perseguida pelo Estado. Perseguição que mobilizou a resistência em torno do Comitê de Defesa da Liberdade, coordenado por Herbert Read, George Orwell, Benjamin Britten, E. M. Forster, Augustus John, Osbert Sitwell e George Woodcock. Além da venda de livros e suas atividades regulares, a livraria funciona como espaço de reunião para diversos grupos anarquistas da cidade de Londres. Na última sexta-feira, esse espaço libertário foi o alvo de um incêndio fascista e covarde. 
freedom: a chama da liberdade contra a sanha fascista! 
Em 1993, a Freedom Press sofreu um ataque à bomba do grupo neo-nazista Combat 18. Agora, mais uma vez a livraria é atacada com um incêndio provocado que destruiu parte de suas instalações, mas que não feriu ninguém. Não houve, até o momento, reivindicação do ataque. Mas sabe-se que a violência de grupos de extrema direita vem crescendo na Europa, tendo como alvo os anarquistas, os imigrantes e outros grupos de indesejados. Como na Grécia, país em que grupos neo-nazistas promovem ataques regulares contra espaços e militantes anarquistas. Essas notícias, ignoradas pela grande mídia, dão nota da sanha fascista que graça no mundo como resposta à alegada crise. O que faz reaparecer das sombras os históricos e violentos inimigos da liberdade que atiram contra os mais aguerridos amigos das práticas em liberdade, os libertários. Que o ânimo na reconstrução das instalações e na luta contra o fascismo esteja aceso. Vida longa à Freedom Press! O ano novo começa, mas a luta não acabou com o ano que passou! Anarquistas seguem em luta, com liberdade (freedom!). 
fogo, fumaça e segurança
Asfixiados, contaminados, pisoteados. Mais de 230 jovens morreram em Santa Maria e sua história terrível inunda a mídia pela sádica exposição de gente chorando a morte de gente querida. Esses jovens buscavam o que a garotada de classe média tanto anseia: diversão segura e controlada. E acabaram morrendo pela falta de segurança técnica da boate e pela brutalidade obtusa dos seguranças que bloquearam a única saída temendo uma debandada de caloteiros. Morreram presos no banheiro e impedidos de sair pela entrada. Morreram engaiolados no espaço fechado do confinamento supostamente seguro. Todo gradeado é, também, uma armadilha.
esfumaça-se
Agora, o que é previsível: apurar, encontrar culpados, punir. A resposta do “poder público”, Brasil afora, veio com operações da defesa civil que têm fechado dezenas de bares e casas noturnas fuleiras e grã-finas. Operações que explicitam o óbvio: rola muita grana, muita mão molhada, muitos cafezinhos para fiscais de prefeitura e muito empreendedor dono de boate que não dá a mínima para quem vive ou morre. Os códigos de segurança existem para que os proprietários não cumpram – querendo lucrar mais – e para que a fiscalização lucre – vendendo suas vistas grossas. É surpreendente que não aconteçam horrores como os de Santa Maria todo santo dia.
de segurança mata-se e morre-se 1 
A tragédia irreparável catalisou, mais uma vez, os compadecidos defensores do apanágio da segurança e da punição, dos protocolos procedimentais e do engajamento da comoção voluntária. Mas já não foi, também, pelo controle da segurança do estabelecimento e da prevenção geral que se consumou a morte de mais de 200 jovens, que veio se explicitar no incêndio e na fumaça tóxica? No gás químico, no ácido cianídrico – proveniente da combustão da espuma de isolamento acústico exigida pela lei do silêncio –, que refaz outras e mesmas histórias de clamores por segurança e prevenção. E por segurança se morre e se mata. 
de segurança mata-se e morre-se 2
Ácido cianídrico. O mesmo gás já utilizado, na Primeira Guerra Mundial, quando descobriram que seu poder mortal contra as chamadas “pragas na agricultura” também era devastador em corpos humanos. Ácido cianídrico, o mesmo utilizado na Segunda Guerra Mundial e, também, pelos nazistas em substituição ao monóxido de carbono nas câmaras de gás de campos de concentração. Ácido cianídrico, o mesmo utilizado até hoje nos EUA em câmaras de gás para prisioneiros condenados à morte. Não é fortuito que, na última semana, especialistas dos EUA tenham chegado ao país com o “antídoto” capaz de neutralizar o cianeto, derivado do ácido cianídrico, nos corpos dos sobreviventes. E as cobaias, lá e aqui, regularmente, provêm de corpos de jovens abatidos como gado na continuidade da existência da prisão dentro e fora dos muros, sedimentada pelos clamores de prevenção geral, controle, segurança e castigo. O resto é falatório apiedado para boi dormir diante do matadouro que não finda. 

hypomnemata 152


Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no. 152, janeiro de 2013. 

Governamentalidades da sobrevivência 2

         No final de 2012, novamente foi reavivada na cidade de São Paulo a Operação Saturação
         Saturação, termo proveniente da química, que indica o alto grau de concentração de elementos específicos em uma mistura heterogênea. 
         Saturação, termo que, no linguajar militar, significa bombardear concentradamente uma posição inimiga. 
         Saturação, termo proveniente da medicina, que indica o nível percentual de oxigenação no sangue. 
         Saturação, termo apropriado pela linguagem policial para designar asfixia
          Operação Saturação por Tropas Especiais (OSTE), ação policial repressiva e comunitária impetrada pela polícia militar – versão similar ao Choque de Ordem, no Rio de Janeiro –, como a primeira das etapas de escalonamentos primários, secundários e terciários da denominada política preventiva no interior do Programa Virada Social (PVS)
         Este programa teve um de seus inúmeros inícios no ano de 2006, no Jardim Maria Elisa; somados a seus primeiros ensaios em 2005, oficialmente inaugurado no ano de 2007 (ver hypomnemata 107, de março de 2009, em http://www.nu-sol.org/hypomnemata/boletim.php?idhypom=125). 
         Entre os anos de 2005 e 2007, a Operação Saturação já contabilizava oito edições, envolvendo o Jardim Elisa Maria, São Mateus e Paraisópolis. 
         No início de 2011, o balanço em relatório oficial do Programa Virada Social destacou a importância da Operação Saturação em regiões denominadas vulneráveiscomo elemento imprescindível e apontou para a necessidade de maior articulação entre a polícia e serviços de proteção social. 
         O Programa Virada São Paulo, cujas metas projetadas em Paraisópolis se encerrariam em agosto de 2012, pode garantir sua maior longevidade a partir da reativação da Operação Saturação em outubro. 
         Mas não só, o Programa Virada São Paulo foi ampliado para vários pontos da cidade e do estado sob o argumento favorecedor ao desenvolvimento local sustentável e em simultaneidade à Operação Saturação
         Multiplicou-se em vários pontos do estado sob a justificativa do combate ao crime e à matança perpetrada pelo PCC e seus sicários, pela polícia e suas milícias. 
         O PCC, as polícias, as milícias, os sicários negociam, matam, traficam, participam do gerenciamento da gestão compartilhada das prisões, executam, torturam, gerem benefícios; disputam territórios; participam, cada um a sua maneira, de meandros específicos que proveem lavagens diversas de dinheiro. 
         Assim são abastecidas as contas de emergentes e abastados “homens de negócios”. 
         De tempos em tempos, no vaivém desse jogo, dessa “mágica capitalista” de tráficos e investimentos políticos legais que transforma 1 dólar em cinco, o negócio desanda, ou melhor, emperra. 
         Daí advém uma avalanche de programas de reação voltados à sobrevivência pela disputa na gestão compartilhada da segurança de negócios políticos que partem de um tríptico que muito se aproxima também do termo saturação: naquilo que dilui e concentra; no que restaura por oxigenação e no que asfixia.
crianças e jovens nas saturações de pastores laicos

         Em meados da década de 1990, e mais especificamente em 1997, reativava-se, a partir de São Paulo, a discussão sobre “a necessidade de maior penalização” para jovens no país e o clamor por mais polícia e segurança nas ruas e nas prisões para jovens. 
         Um dos pretextos na ocasião foi o caso do Bar Bodega – no qual se “supôs” o envolvimento de um jovem menor de 18 anos –, somado às rebeliões de jovens em unidades de internação, eufemismo para cárceres, no estado de São Paulo, acompanhadas de fugas em massa. 
         O episódio arregimentou os fascistas de classe média, da região de Moema, dos Jardins e arredores no Movimento Reage São Paulo – sua versão similar na época encontrava-se no Movimento Viva Rio (conhecido, entre os cariocas, como Viva Rico), articulado por fascistas de classe média após ondas de “arrastões” na orla carioca. 
          Em outubro de 1997, ocorreu na PUC-SP, o primeiro Seminário Internacional Abolicionista, que marcou a urgência e possibilidade efetiva de abolição da prisão para jovens no país. 
         Um famoso especialista na área da defesa de direitos na época vociferou: “mas, se as prisões para jovens acabarem o que vai ser de meu emprego?” 
         O Movimento Reage São Paulo sumiu na luz, entretanto aglutinou na ocasião o respaldo não só do Estado como de inúmeros setores da chamada sociedade civil organizada. 
         Na época o lema da vez já era “pacificar a periferia”. 
         O Movimento Reage São Paulo catalizou argumentos complementares que iam de jornalistas de renome, propalando que “a vontade de qualquer pessoa normal é enfiar o cano do revólver na boca dessa sub-raça e mandar ver”, até o de entidades que monopolizavam na ocasião as subvenções às produções culturais no país. 
         Em especial no estado de São Paulo, elas encamparam a defesa escancarada da “responsabilidade” que deveria caber a todos no “combate ao crime”, equalizada ao da ação responsável que deveria levar polícia e cultura às regiões da cidade onde se encontravam o que era denominado por “indigentes culturais”. 
         É neste escopo trazido pelo Movimento Reage São Paulo que se encontra não a origem institucional partidária, mas uma das inúmeras procedências políticas doPrograma Virada Social
         Programas como este não prescindem da polícia com ou sem farda, com um conjunto de iniciativas voltadas ao que passou a se denominar de responsabilidade social articulada ao fomento de negócios sociais
         O Movimento Reage São Paulo sumiu na luz, mas no mesmo diapasão, foi uma das procedências que marcou o surgimento posterior do Instituto Sou da Paz, com sua versão similar no Rio de Janeiro com o Instituto Viva Rio, e ambos com suas variações distintas e conexões respectivas tanto com o programa Virada Social (SP) que serviu de esteio para o Virada Cultural (SP), como para o itinerário do Programa de UPP/UPP Social (RJ); no esteio do esteio a versão praiana do “Virada Cultura” paulistano encontra-se no “Viradão Carioca”. 
         Ambos os institutos também estabelecem suas articulações específicas no exterior, em países como Haiti e Colômbia. 
         Em 2006, por sua vez, a Fundação Estadual de Bem-Estar do Menor (Febem), cria descentralizada da Fundação Nacional de Bem-Estar do Menor (FUNABEM) era redimensionada em Fundação Casa, e foi no interior desta passagem e por ela que se introduziu, simultaneamente, o deslocamento do conceito de administração para a denominada gestão compartilhada
         FUNABEM e Febem foram forjadas durante a ditadura civil-militar sob a égide da construção de crianças e jovens como uma questão de segurança nacional e sob os parâmetros de uma Política Nacional de Segurança. 
          Mais uma vez, não se lidou com a possibilidade da abolição de prisões para jovens no país. 
         Entretanto, consolidou-se o desenho acabado proposto pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) em conjunto com:
• a Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) e Ministério da Justiça, em comemoração, na ocasião, aos 16 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA),
• o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE) que viria a se constituir em padrão internacional a ser mirado por outros países, em especial os da América do Sul.
         Nunca é demais lembrar que a gestão compartilhada, direcionada tanto ao gerenciamento de unidades de internação e semi-internação, quanto ao acompanhamento de jovens que cumprem medidas socioeducativas em meio aberto, e que se exercita em inúmeros espaços físicos e eletrônicos provém, e muito, da continuidade da existência de prisões para jovens. 
         Em 2007, o Programa Virada Social na cidade de São Paulo já se firmava como um “programa de segurança com qualidade de vida”. 
         No mesmo ano era implementado no país o Programa Nacional de Segurança com Cidadania (PRONASCI), sob escopo também advindo do SINASE, cujo um dos balões de ensaio foi o projeto Territórios de Paz com jovens considerados vulneráveis
         Demarcou-se, institucionalmente, a questão da segurança à qualidade de vida e consagrou-se o conceito de vulnerabilidade conectado à chamada cultura de paz.
saturações de pastores

         A benevolência é uma das virtudes cultivadas na condução rumo à felicidade da política. 
         A benevolência é uma das virtudes consagradas à condição da entrega de si ao governo de alguém. 
         A benevolência é um dos requisitos para seguir mortificado sob a condição de sobrevivente, em variações de governos que atravessam:
• o morto-vivo que trafega pelas ruas;
• os grã-finos entediados e abastados de benemerências;
• os empresários com bancos, com Estado e sociedade civil;
• ONGs, institutos, certas universidades que abastecem de responsabilidades compartilhadas o mercado de ações;
• configura-se o “mercado ético” o mercado de direitos e de assistências, o mercado das proteções que jamais prescindiu da matança.
         E o mercado do tráfico e das bolsas e das matanças segue em compasso com o Estado em conjunto com a sociedade civil na continuidade do aprisionamento de crianças e jovens, entre muros e além deles. 
         Asfixia-se também a céu aberto, preenchido por governos de ambientes
         Felicidade é tema tão caro à política e que a faz tão cordata e carnífice.
buscado em: http://www.nu-sol.org/hypomnemata/boletim.php?idhypom=183

Controle do sexo, controle da vida


130227-Klimt2

Velhas formas de repressão caducaram, mas sociedade permanece incapaz de aceitar sexualidade liberta e criativa, por seu imenso poder questionador
Por Katia Marko, editora da coluna Outro Viver | Imagem: Gustaf Klimt,Serpenttes do Mar
Na coluna passada comecei a abordar o tema “prazer” e me senti desafiada a ir além, pois entre Eros e Thánatos, parece que o instinto de morte está dominando as relações sociais.
Segundo a mitologia grega, Eros, o deus do amor e da sensualidade, nos ensina a amar, a cultivar amizades autênticas, a apreciar as artes, as ciências, e tudo de bom e belo que existe no mundo. Ele nos dá a energia necessária para sentir-nos motivados, cheios de entusiasmo e alegria, para conduzir a vida com sentido, e contribuir com nossa parcela de talento para o progresso da humanidade.
Por sua vez, Thánatos nos atrai para a morte. Ele extrai do nosso ser toda energia, toda vitalidade. Vivemos nossa existência sem propósito, sentimo-nos apáticos, carentes de motivação. Não achamos graça em nada. Tudo é fastio, tristeza, insatisfação, constrangimento. Experimentamos uma existência de cor cinza, vendo os dias e as noites passarem, sentindo o final inevitável se aproximar.
No trabalho de autoconhecimento que desenvolvemos na Comunidade Osho Rachana, prazer e sexualidade são questões tratadas como muita seriedade, pois acreditamos serem a chave do ser. Dizer que as pessoas têm medo do sexo soa quase tão absurdo quanto dizer que elas têm medo da vida. Mas a realidade é que tanto a vida como o sexo possuem aspectos assustadores para as pessoas. Isso porque a vida e o sexo são imprevisíveis, estão além do ego, são de natureza intrinsecamente explosiva.
Contudo, é precisamente esta qualidade da vida, sua mágica, sua criatividade, este seu lado explosivo que nossa cultura dominante está tentando suprimir. Procuramos controlar o processo da vida para nos defender de suas vicissitudes, sem quase perceber que para fazer isso devemos nos transformar num aparato mecânico.
No livro Medo da Vida, o médico-psiquiatra Alexander Lowen, criador da Bioenergética, afirma que a monotonia da vida é efetivada pela supressão sexual. “É evidente que o sexo não pode ser totalmente suprimido, uma vez isso acabaria com a atividade reprodutiva. O que se suprime é o lado repentino, explosivo, encantador, da sexualidade. No passado, isso era alcançado com um código moral que limitava sua expressividade. Atualmente este código está praticamente desativado pela remoção de todos os limites e barreiras à expressão sexual, mas o fizemos de tal modo que a vida se tornou ainda mais monótona. Explorando comercialmente o sexo, fazendo divulgações vulgares e pornográficas, impedimos o acúmulo da excitação até aquele ponto em que pode ocorrer uma explosão, uma quebra. Nos nossos tempos, o sexo tornou-se uma produção, não uma criação”.
Lowen, assim como outros estudiosos do assunto, defende que o sexo é a mais intensa manifestação do processo vital. Controlando o sexo, controla-se a vida. “Podemos brincar com sexo das maneiras mais sensuais, mas morremos de medo de explodir num orgasmo de júbilo e êxtase”. Essa visão de sexualidade baseia-se nas ideias de Wilhelm Reich que chamava esse medo de “ansiedade do orgasmo”. Ele descrevia o orgasmo como uma convulsão corporal total, vivida como extremamente agradável e satisfatória. Sua função é descarregar toda a excitação excedente ou energia, no orgasmo. Essa descarga deixa a pessoa em estado de completo relaxamento e paz. Reich denominava a capacidade para uma tal descarga de “potência orgástica”, equacionando-a à saúde emocional.
No livro A Função do Orgasmo, ele afirma que a saúde psíquica depende da potência orgástica, do ponto até o qual o indivíduo pode entregar-se e pode experimentar o clímax de excitação no ato sexual natural. “No caso da impotência orgástica, de que sofre a esmagadora maioria, ocorre um bloqueio da energia biológica, e esse bloqueio se torna a fonte de ações irracionais. A condição essencial para curar perturbações psíquicas é o restabelecimento da capacidade natural de amar.”
Ainda segundo Reich, “as enfermidades psíquicas são a conseqüência do caos sexual da sociedade. Durante milhares de anos, esse caos tem tido a função de sujeitar psiquicamente o homem às condições dominantes de existência e de interiorizar a dinâmica externa da vida. Tem ajudado a efetuar a ancoragem psíquica de uma civilização mecanizada e autoritária, tornando o ser humano incapaz de agir independentemente”.
Além de apaixonante, o estudo das relações entre corpo e sociedade, que Reich tanto impulsionou, explica muito de como estão estruturadas as relações humanas atuais. Será assunto para debater em detalhes, nas próximas colunas

Katia Marko é jornalista, terapeuta bioenergética e uma pessoa em busca de si mesma. 

Cuba, a ilha das grandes interrogações


130227-Cuba2

Discurso de Raul Castro marca fim de um período histórico. E presidente avisa: mudanças mais importantes ainda estão por vir
Por Leonardo Padura* | Tradução: Gabriela Leite
A Assembleia Nacional de Cuba (parlamento) acaba de viver um momento histórico: o instante visível em que começou a se fechar uma etapa transcendente e complexa para a vida do país e abriu-se a porta a um futuro que, não é tão difícil prever, será diferente de muitas maneiras.
O general Raul Castro, reeleito no domingo (24/3) pela Assembleia, como presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros para a legislatura que vai até 2018, ratificou publicamente que, independentemente das modificações que se realizarem na Constituição a respeito do tempo de exercício dos altos cargos, este mandato, que ele inicia com 82 anos, será seu último à frente de seu país.
Quando Raul fazia essa afirmação, estava na primeira fila do plenário, sentado em sua cadeira de deputado, o ex-presidente Fidel Castro (a caminho de seus 87 anos). Teve em suas mãos o destino do país, durante mais de 46 anos. Testemunhou o anúncio que marcou o princípio do fim de um período histórico marcado por sua personalidade e estilo de governo.
A ilha, que agora ingressa numa etapa de encerramentos e aberturas talvez transcendentes, já é por si diferente da que Fidel governava, quando adoeceu gravemente e viu-se obrigado a se afastar do poder — primeiro, de forma provisória; em seguida, de maneira definitiva, em 2008.
A essência do sistema não mudou: mantêm-se intactas a estrutura de partido único, o sistema eleitoral e a economia de caráter socialista. Mas não se pode negar que os movimentos introduzidos por Raul, como parte do “processo de atualização do modelo econômico cubano” — convertido em programa político com os “Alinhamentos da política econômica e social” aprovados pelo VI Congresso do Partido Comunista (2011) — estão mudando a realidade do país. São uma série de medidas econômicas e sociais, com maior ou menor alcance, que, em muitos casos, revertem um modelo político centralizado e estatizado, e começam a dar fisionomia diferente ao cenário social e econômico desta ilha do Caribe.
Entre as mudanças, estão o fim de proibições que limitavam a capacidade de realização pessoal (o acesso à telefonia celular, a possibilidade de comprar e vender casas e carros etc.); as diversas modificações econômicas (ampliação e facilitação de trabalho autônomo, concessão de terras a particulares em regime de usufruto, criação de cooperativas, maior espaço para a comercialização dos produtos agrícolas, concessão de créditos bancários, nova lei tributária, entre outras), e até uma reforma migratória que, pela primeira vez em meio século, permite o livre movimento da grande maioria dos cidadãos.
De forma paralela, o governo de Raul Castro empreendeu outras campanhas. Entre elas, a que visa fortalecer a institucionalidade do país, a de combate à corrupção nos diversos níveis do aparato econômico, a troca de dirigentes à frente de ministérios e instâncias de decisão, e até uma mudança ostensiva no estilo governante. O presidente moveu-se das tribunas, dos discursos e das constantes e custosas convocatórias de mobilizações populares para as reuniões de portas fechadas, onde se fixam objetivos concretos que, em maior ou menor medida, têm influído na vida nacional.
O propósito expresso do atual presidente, ratificado ao tomar posse para novo mandato, é preservar o sistema socialista instaurado na ilha em 1961. Para tanto, tenta superar a ineficiência econômica do país, e promover dirigentes capazes de sustentar as mudanças a médio prazo, quando o próprio Raul e os outros membros de sua geração já não puderem cumprir suas responsabilidades: por idade e, aparentemente, por futura lei constitucional.
Em suas últimas aparições públicas, Raul tem advertido que os movimentos de “atualização” mais importantes ainda estão por vir. Sobre o caráter dessas mudanças, pouco se sabe, ainda que muito se especule.
Sem dúvida, os grandes desafios de qualquer governo em Cuba estariam concentrados na economia: a imprescindível eliminação de uma moeda dupla que deforma a macro, a mini e a economia doméstica; a necessidade urgente de aumentar os salários para aproximá-los às necessidades vitais da população; a facilitação de investimentos estrangeiros capazes de renovar a envelhecida infraestrutura do país; o polêmico e agora indispensável acesso à Internet, sem o qual não é possível pensar em desenvolvimentos individuais, sociais e econômicos na era digital…
Que país, dentro de cinco anos, entregará Raul Castro a seus sucessores? Cuba continua sendo a ilha do melhor tabaco do mundo e das mais amargas interrogações.

* Leonardo Padura [verbete na Wikipedia] é escritor e jornalista cubano, vencedor do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Seus romances foram traduzidos para mais de quinze idiomas e sua obra mais recente, El hombre que amaba a los perros, tem como personagens centrais Leon Trotsky e seu assassino, Ramón Mercader. Para ler todos os seus textos publicados em Outras Palavras, clique aqui.

Franz Kafka e a Segunda-feira


Ao contrário do que dizem os apologistas do fim da História, a luta de classes não se calou. No entanto, diante da assepsia publicitária por que passam os discursos contestatórios, a lógica poética de Kafka nos leva a pensar a contrapelo de nós mesmos: se o movimento da contradição histórica não for estancado e reconfigurado, continuaremos a figurar como coadjuvantes da cadeia alimentar que nos coage à frieza, à brutalidade e ao cinismo do entrechoque entre gato e rato, de modo que a "Pequena Fábula" possa receber um título mais adequado aos tempos atuais: "segunda-feira". O artigo é de Flávio Ricardo Vassoler.

No início do século XX, Franz Kafka escreveu uma

Pequena Fábula (*)

“‘Ah’, disse o rato, ‘o mundo torna-se cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro’. – ‘Você só precisa mudar de direção’, disse o gato e devorou-o”. 

Muitas teses e antíteses já entraram em entrechoque para tentar determinar o sentido cabal que daria conta da labiríntica fábula em questão. Assim, ora a vastidão inicial do mundo estaria relacionada ao Jardim do Éden, a utopia mítica, ora ela diria respeito aos primórdios das revoluções, em que a euforia coletiva pela nova miríade de oportunidades daria vazão a um perigoso caos político que logo precisaria de restrições para não se transformar em completa balbúrdia. As paredes que acabam por despontar à direita e à esquerda seriam, então, o sinal da Queda dos homens – a perda da liberdade original pela expulsão do Éden idílico – e/ou a chegada de um ditador que, com pulso firme, colocaria ordem na desordem, uma vez que não poderia haver vácuo no poder. Religiosos e políticos fariam um breve armistício, no entanto, diante da fraqueza original do homem – o rato trêmulo – que demandaria a tutela infalível de Deus e/ou do Guia Genial dos Povos – eis a onisciência e a onipresença do gato. (Iconoclastas tanto da tradição quanto do poder, os anarquistas de plantão discordariam de ambos os lados e diriam ser necessário pôr abaixo o labirinto; se tal fato acontecesse – dizem os religiosos e políticos que apenas por ora voltam a concordar –, o bebê seria jogado fora junto com a água do banho, já não haveria motivo para discordâncias, já não haveria nem mesmo a fábula de Kafka, “nós não teríamos o que fazer, ficaríamos todos desempregados, e vocês, anarquistas, já não teriam o que destruir”.) 

Diante do labirinto polissêmico de Kafka, que arremessa as interpretações contrárias e contrariadas em um turbilhão infindável de contradições, uma máxima de Oscar Wilde parece dar o tom para a contenda fabular entre Tom e Jerry. “Quando os críticos discordam entre si, o artista concorda consigo mesmo” (**). 

E se ao invés de perguntarmos o que a pequena fábula quis dizer, passarmos a interrogar como ela o fez? Se voltarmos nossas atenções para a forma kafkiana de estruturação e movimentação dos conflitos, talvez cheguemos à conclusão de que a dinâmica da História está inconclusa; de que a desigualdade entre gato e rato permanece, de modo a conferir atualidade à dialética entre liberdade e autoritarismo; de que o sentido está não no conteúdo unívoco que a fábula possa conter, mas na formapolissêmica que norteia e desnorteia as mais diversas interpretações e cuja dinâmica prolonga as contradições sem reconciliar os conflitos que a História ainda não resolveu. A meu ver, a atualidade de Kafka reside na plasticidade da moldura de seu labirinto, cujas galerias comportam os entrechoques das mais diversas teses e antíteses. Analisemos, então, o modo pelo qual a forma distópica, em estreito diálogo com as contradições históricas, transforma os discursos utópicos em antecâmaras do labirinto, ao fim do qual a saída não passa de uma nova entrada. Senão, vejamos. 

Em primeiro lugar, é preciso salientar o caráter fabular da breve estória kafkiana. Animais com características humanas vivenciam experiências e procuram torná-las inteligíveis para si próprios – e para os leitores. Animais sociais que somos, nós não vivemos em meio à natureza sem a mediação das transformações históricas. Assim, o processo de identificação entre o leitor humano e as personagens animais apresenta, desde o princípio, um sentido trágico e cínico para a fábula: como a humanidade ainda não conseguiu superar as contradições de um capitalismo voraz que arremessa seus súditos em relações de competição contínua e autofágica, a personificação dos animais e a animalização das pessoas medem a distância histórica entre a utopia não realizada e a distopia de nosso cotidiano. Ademais, a cadeia alimentar que coage os animais – mas que não deveria coagir os animais racionais – estabelece uma hierarquia inequívoca entre gato e rato: predador e presa. Quando entreveem essa assimetria, muitos leitores associam imediatamente a figura do gato ao poder, enquanto o rato representaria o povo secularmente acossado. Tal leitura não leva em consideração a lógica impessoal do poder que subjaz à construção kafkiana. 

O século XX, século kafkiano, demonstrou que a revolução bem pode degringolar em contrarrevolução. O líder fascista Benito Mussolini certa vez afirmou que, após a revolução, resta o problema dos revolucionários. Seria possível exercer contínuas autocríticas sem municiar os opositores que almejam o poder? Mas sem o exercício contínuo da crítica e da autocrítica, como garantir que o poder e os poderosos não demandarão a autocracia? Ora, os primórdios da revolução pareciam ter transformado o mundo em mera imagem e representação, tudo parecia possível. Trótski certa vez profetizou que, em meio à sociedade transformada pelo socialismo, o nível médio dos cidadãos seria comparável a Marx e a Aristóteles. Antes que conservadores onipresentes riam do revolucionário russo, é preciso levar em consideração o profundo otimismo histórico que embasava tal colocação. A revolução prometia romper os aguilhões que impediam o desenvolvimento humano. Artistas russos chegaram a declinar da autoria de suas obras. “Não fomos nós que as criamos, a história falou através de nós, o proletariado é o grande autor”. Mas os interrogatórios vindouros da polícia política de Stálin acabariam com o otimismo da autoria coletiva. “Vamos, confesse!” O patíbulo e o degredo na Sibéria como testemunhas oculares. 

A esquerda tende a se endireitar quando toma as rédeas do poder. A direita não sabe bem o que fazer com o bastão da oposição, mas precisa minimamente contestar se quiser sobreviver em sua mais nova e insólita posição. A História nos ensina que a lógica do poder tende a subverter e a inverter as prerrogativas do líder, grupo e partido que ocupam o trono. 

Nesse sentido, gato e rato são menos papéis demarcados e unívocos do que funções dinâmicas a serem ocupadas ora por um ator, ora por outro. Se os esquerdistas não estudarmos as lições de Kafka, estaremos fadados a vestir ainda uma vez a fantasia do gato para colocarmos os trajes de rato naqueles que a revolução obrigou a ceder as velhas vestes de felino. Assim, campos de concentração siberianos, os Gulags de Stálin, revoluções culturais que queimaram livros e paredões não conseguiram romper a lógicataliônica do poder que os revolucionários outrora afirmavam utilizar apenas momentaneamente enquanto o capitalismo não era superado por completo. (Quando os porões da Estação da Luz ficavam superlotados, os torturadores do DOPS paulistano não tinham quaisquer escrúpulos em voltar a dar aulas prática de lógica do poder àqueles que ousavam não delatar os camaradas que ainda não haviam sido presos.)

Ao voltarmos ainda uma vez para a Pequena Fábula, descobrimos que, a princípio, o rato se lamenta pela crescente estreiteza do mundo. O rato, animal combalido em face do gato vindouro, parece demandar maior liberdade. (Se a estória parasse por aqui, os anarquistas iriam a Praga a fim de convidar Franz Kafka para o congresso literário de maio de 1968.) Mas a frase seguinte – a antítese em face da tese que a primeira frase apresenta – narra um ratinho temerário em relação à vastidão inicial do mundo. Podemos deduzir, então, que havia uma imensidão anterior à contínua estreiteza do mundo com a qual o rato se depararia posteriormente. Como decidir qual a posição efetiva do rato? Ele teme as múltiplas possibilidades de um mundo vasto, mas ao mesmo tempo se lamenta por conta do contínuo emparedamento a que o mundo transformado o coage. Enquanto os críticos partidários quiserem atribuir um conteúdo unívoco à trajetória do rato, não será possível ver que a lógicapoética de Kafka, ao mimetizar os movimentos contraditórios da História, arremessa o roedor ora à direita, ora à esquerda, ora como sujeito de suas demandas, ora como súdito de seu medo, de modo que a leitura que opte por um único sentido acaba resolvendo artisticamente um conflito que, no terreno da luta de classes, ainda não foi superado. Assim, a despeito da boa intenção inicial que não sabe agir sem tachar amigos e inimigos, camaradas e inimigos do Estado, companheiros e opositores, a tentativa de arregimentar Kafka em um partido ou tendência únicos dilui a enorme atualidade de sua forte crítica social que está presente na dinâmica de sua estória, na lógica poética de sua fábula. O problema para a crítica partidária é que a crítica social kafkiana não resolve as contradições que a História só faz prolongar, e então ela se mostra impessoal e sem muita utilidade para aqueles que só cumprirão os desígnios do poder sem romper com a sua lógica histórica que delineia e define as fronteiras das ações políticas. 

O advérbio finalmente, na segunda frase da fábula, traz um certo alento ao pobre ratinho que, enfim, vê as paredes de Deus, do Pai, do pai, do partido, da empresa, do casamento, do clube etc. do etc. lhe darem novamente um mínimo de segurança. Para aqueles que não estamos acostumados a viver segundo o ritmo incerto da liberdade socialmente construída, as contradições históricas sussurram que tende a haver uma grande contiguidade entre o medo de caminhar com as próprias pernas e a entrega da própria autonomia a terceiros para que a incerteza pessoal seja permutada pela tutela alheia. (Se o labirinto de Kafka tivesse os contornos de uma catedral, o ratinho comeria a hóstia e se confessaria com o padre “por séculos e séculos, amém”.) Mas, novamente, Kafka dá dinamismo ao movimento da contradição, já que o ratinho passa a sentir que, agora, “essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra”. Vale a pena retomarmos o fio da meada: primeiro o rato é altivo, pois reclama da estreiteza do mundo – rato revolucionário; depois o ratinho sente medo pela vastidão inicial e se alivia com o fato de que, à distância, à direita e à esquerda, as paredes, isto é, os limites, passam a se delinear – ratinho reacionário; agora, ele volta a se contrapor ao movimento do labirinto, uma vez que as paredes que se estreitam cada vez mais passam a coagi-lo. Além de sugerir que há uma contiguidade entre os extremos, como se a liberdade total e a coação totalitária trouxessem temores e tremores parelhos, a pequena fábula de Kafka nos leva ao “último quarto”, em cujo canto fica a ratoeira para a qual o rato se encaminha. 

Abstraiamos o conteúdo da micronarrativa e tentemos desenhar o trajeto patibular de Mickey Mouse. O descampado idílico do Gênesis não tem fronteiras. O olhar do roedor não consegue abraçar o horizonte. (E, se pensarmos bem, será que conseguimos imaginar a noção do infinito sem que, no limite, coloquemos algum tipo de delimitação – uma cerca – para nos dar guarida?) De repente, o rato marcha – começa a correr de medo, a bem dizer – e as paredes convergem, à direita e à esquerda. Ora, salvo engano – e o poder bem gosta de nos ludibriar –, estamos cada vez mais diante de um funil, a metade de um losango, em cujo extremo desponta a ratoeira. Ora, o ratinho revolucionário e reacionário é provido de razão, só que o cérebro roedor precisa das proteínas do queijo para continuar a pensar, a questionar – e a temer. Mas – e o fluido das contradições kafkianas sempre desliza ao sabor de conjunções adversativas –, se as paredes convergem unidirecionalmente, basta ao rato dar meia-volta – a História fardada diria: “volver!” – para que as paredes antes convergentes passem a divergir e a se distanciar. O mundo voltará a ficar vasto, o Éden será então recuperado, mas e quanto ao medo, o irmão mais novo do pecado original? A Pequena Fábula de Kafka seria uma estória sem fim, já que a retomada da vastidão levaria o rato novamente à fuga para o extremo oposto em que está a ratoeira, e, ao se deparar com o beco sem saída, ele sentiria a nostalgia do paraíso perdido do qual fugiria ainda uma vez para logo em seguida voltar a buscá-lo – “por séculos e séculos, amém”. 

Mas eis que a criatividade de Kafka acompanha as contradições irresolutas da História e faz surgir na estória uma nova personagem, o bichano que esta análise já havia anunciado. Leiamos o conselho que o gato, possível autor de best-sellers de autoajuda, tem a dar ao roedor – e aos leitores: 

– Você só precisa mudar de direção. 

Por um lado, se o rato seguir o conselho do gato, logo encontrará a diluição de seus temores e tremores no suco gástrico do estômago felino. Por outro, se o rato degustar o queijo gorgonzola que o magnetiza sobre a ratoeira, já não haverá mais choro e ranger de dentes. Que fazer? 

Neste momento, o leitor me permitirá a heresia de apontar um certo anacronismo na Pequena Fábula kafkiana. O escritor tcheco complementou a colocação do gato com o seguinte arremate: “disse o gato e devorou-o”. Será que, no atual contexto histórico, seria preciso dizer que o gato devorou o rato? Onde estão as efetivas contestações? Onde está a revolução? Quando uma rede de fast food árabe utilizou, há alguns anos, o mote revolução nos preços para os preços revolucionários de suas esfihas abertas, cujos anúncios eram apresentados com a boina de Che Guevara, entrevi o labirinto histórico em que estamos encurralados. O discurso potencialmente emancipatório é cooptado como um lucrativo slogan de mercado. Ao contrário do que diziam os revolucionários de maio de 68, o capitalismo tardio sentencia que a revolução será televisionada. 

O arremate de Kafka mostrou-se profético diante do espectro nazista que, nas primeiras décadas do século XX, já rondava a Europa. Hoje, no entanto, o carrasco parece ter sido introjetado, não sabemos muito bem onde está o poder – quem, ou pior, o que ele é. Mas ele nos acorda cotidianamente às 5h – ou às 8h, para o privilégio dos paulistanos que moram dentro do perímetro central circundado pelas marginais. Se retirarmos a última parte da frase que conclui a Pequena Fábula, levaremos às últimas consequências o labirinto kafkiano. Afinal, após o conselho do gato, o que é que o rato vai fazer? Fugirá do gato e correrá para o patíbulo da ratoeira? Tapeará a fome e renegará a ratoeira apenas para correr em direção ao corredor polonês da garganta do gato? Ou será que, diante deste novo fim não finalizado, desta nova resolução irresoluta que propomos, o rato não lançará mão de um dos últimos redutos que (ainda) não foram totalmente cooptados pelo poder – a imaginação? Por mais exígua e improvável que a escapatória se apresente, um final que pressuponha maior abertura daria continuidade à contradição da estória e da História: a possibilidade de fuga caminharia lado a lado com o prolongamento sádico da tortura do ratinho. 

Ao contrário do que dizem os apologistas do fim da História, a luta de classes não se calou. No entanto, diante da assepsia publicitária por que passam os discursos contestatórios, a lógica poética de Kafka nos leva a pensar a contrapelo de nós mesmos: se o movimento da contradição histórica não for estancado e reconfigurado, continuaremos a figurar como coadjuvantes da cadeia alimentar que nos coage à frieza, à brutalidade e ao cinismo do entrechoque entre gato e rato, de modo que a Pequena Fábula possa receber um novo título mais condigno com o prosaísmo (supostamente) despolitizado dos tempos atuais: Segunda-feira

(*) In Narrativas do Espólio, tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 138. 

(**) Aforismos ou mensagens eternas, tradução de Duda Machado. São Paulo: Landy Editora, 2006, p. 69.

Flávio Ricardo Vassoler é mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos), será publicado em abril. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias,www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.