terça-feira, 16 de outubro de 2012


Educação para a Potência Aula 1 (Ditos Transcritos)

(Transcrição literal sem revisão do autor feita por Renata Melo)
EDUCAÇÃO PARA POTÊNCIA - Aula 1 / Ano 2008 - Turma II
Por Luiz Fuganti
Esse curso faz parte de um projeto maior, “bem ambicioso” chamado Filosofia na Primeira Idade, que tem uma visão muito diferenciada em relação a educação, a filosofia, a estética, a ética, a memória. São estas as questões que vamos trabalhar aqui. Educação para Potência é um nome que contrasta com os modos tradicionais que, a meu ver, são todos voltados para uma educação para a obediência. Nossa idéia é desmontar, desconstruir o sentido que se tem de educação. É muito raro ver uma educação que, de fato, se volte para a potencia. Existem escolas que trabalham a competência, mas a competência é ainda algo que se refere às disciplinas. Não que a disciplina seja em si algo ruim, mas o uso que se faz dela que pode ser algo muito nocivo. E a disciplina num sentido moderno, kantiano, tem a ver com certo instante de autoridade ou de autorização. Então você adquire um saber e na medida em que se torna apto a aplicar esse saber, você adquire uma competência e também uma autoridade. A educação está toda fundada neste modelo.
Por mais que se diga que a educação liberta, a nosso ver, esse tipo de educação aprisiona. A educação é uma forma de engajar o desejo, assim como a família e outra instituições, numa forma humana de viver, que a nosso ver, ao longo da vida, vai despotencializando a vida. Então esse curso se insere numa postura crítica em relação aos valores estabelecidos, às nossas práticas humanas em todas as áreas, ao mesmo tempo em que nos insere numa postura criativa. Criar uma linha de fuga afirmativa, uma outra maneira de existir, de agir e de pensar. Essa postura lança um desafio que não é pequeno. Um dos motivos que nos levou a investir nessa área também é que hoje em dia os homens mais conservadores, os mais moralistas, os mais místicos, os mais de esquerda, ou seja, todo espaço entre deus e o diabo, entre o bem e o mal, todos dizem, unanimemente: a educação é a saída. É de se estranhar essa unanimidade? Não, porque a educação sempre foi uma máquina de fazer com que a vida, de alguma maneira, se conformasse com um modo moral e racional de ser. Muitas vezes vemos estudantes universitários se rebelarem, que a educação está errada, que os currículos enchem lingüiça, muita coisa não tem nada a ver com a prática da vida, mas na verdade, se analisarmos, veremos que não está nada errado. Se a sociedades com suas instituições, quisessem, de fato, mudar a educação, já teriam feito. Mas não há este investimento, esse desejo. O desejo é sistematicamente quebrado sempre que ele tenta mudar uma postura, ou inventar outra maneira, ele é quebrado pela máquina de anti produção social, que mais tarde vamos falar. O que mais a gente vê são professores, coordenadores, diretores, educadores, se queixarem que o ensino está ruim, a rede do estado, do município, da união, etc. E há um investimento de forma quantitativo na educação, assim como na saúde e outra áreas. Nenhuma criança fora da escola. Será que não seria uma sorte uma criança ficar fora desse tipo de escola? Ser incluído neste sistema educacional é bastante complicado, pois é um sistema que está montado numa certa formatação, cujo objetivo nunca é dito. A transmissão de conteúdo, de verdades é secundária em relação a uma operação formal de corte, de separação da vida do que ela pode. É isso que a máquina da educação faz efetivamente. É neste corte que vamos operar o tempo inteiro, de modo critico e, ao mesmo tempo, fazer do corte uma ponte para uma postura criativa. De que maneira?

Imagina-se que o problema escolar ou educacional é de conteúdo. Tem muitas escolas alternativas que alteram o currículo, ou mudam o conteúdo, mudam até a forma, mas não transmuta a forma, transforma, criando outros sistemas operacionais. Mas antes dessa forma ou conteúdo existe uma operação de separação que é silenciosa, é muda, surda, cega, e opera numa zona de nós mesmos que faz com que a gente se transforme no mesmo lugar, imperceptivelmente, através de uma transformação incorporal, que impede que a gente fale em nome próprio, que experimente realmente, que encontre o imediato do pensamento, do corpo. Essa quebra essencial nos põe demandando por educação, competência, autorização, formação. Alunos e professores se tornam cúmplices dessa máquina, por mais rebeldes que eles sejam, por mais que queiram criar outras maneiras. Existe um corte mais imperceptível, mais sutil, que vamos trabalhar. Precisamos atingir uma zona virtual do modo de viver. Nessa zona virtual é que ele opera. É uma espécie de superfície de inscrição que se dá tanto no tempo como no movimento. Tanto no pensamento, através da linguagem, como no movimento ou no corpo, através da sensibilidade ou das imagens. Vamos ver qual o regime das imagens e da linguagem onde a coisa opera. A idéia então não é mudar os paradigmas, mas sair dos paradigmas e atingir, de fato, onde interessa que é a produção de um desejo intensivo, de um pensamento afirmativo, de um modo ativo de viver, cuja força dominante é a capacidade de criar a própria condição da experiência. A única nobreza da conservação seria conservar a capacidade de criar. Na medida em que se mantem colado à capacidade de criar não se demanda referências, sistemas, provedores, providências, tutores. A única referência é o seu modo de vida, que varia a capacidade de se fazer a seleção, a capacidade ética, estética e a capacidade de pensar. O pensamento, estética e ética estão absolutamente interligados, um atravessando o outro, gerando uma condição de sustentabilidade para um devir ativo. Nessa medida ele se torna produtor de memória, que não é mais representação do passado, mas é função de futuro.
Os 5 blocos:
-Experiência do pensamento
-Experiência do corpo
-Experiência da seleção
-Experiência da produção de memória ou de um plano de continuidade para devires ativos auto sustentáveis.
E por ultimo a esfera do ensino e do aprendizado para multiplicar esse modo de viver, pois a gente nunca para de aprender e ensinar. Mas a relação ensino-aprendizado em si se torna de outra natureza na medida em que desconstruimos e criamos uma outra atitude em relação ao pensamento, ao corpo, à seleção e à disponibilidade de futuro.

É a reforma do entendimento no sentido de Spinoza. Não é uma reforma, é uma mudança de natureza, sair do regime da imaginação e entrar no campo do entendimento real, que não é uma realidade abstrata. Não existe outra saída, não adianta fazer reforminhas. Não adianta ficar no campo da reforma lingüística, estética, moral, se a gente não habita aquela região que chamamos de primeira idade, do imediato. Sempre precisamos de uma mediação. O imediato é aquilo que se encobre por essa mediação. O imediato em si mesmo, vivido diretamente, é sempre visto como ameaçador, como algo imprevisível, que deve ser controlado, que deve ser legitimado, justificado, gerenciado, inscrito num plano de intencionalidade, de verdades, de justiças, de utilidades, de bem. Você inscreve o imediato neste campo intencional. Ao mesmo tempo funda uma interioridade baseada no senso comum, que se liga a um bom senso, e faz com que o desejo fique prisioneiro de uma memória. Memória enquanto representação de passado, que seria a origem da nossa identidade. Esse desejo se projeta num futuro que jamais se alcança, pois essa produção futura ela é idealizada do ponto de vista da forma. E o que se perde nesse processo todo é justamente o devir, o presente como acontecimento, a dupla dimensão do acontecimento. Tanto a dimensão presente do acontecimento como a dimensão virtual e inefetuável do acontecimento. Não que o acontecimento vai embora, ele segue acontecendo. O problema é o uso que fazemos dele. A nossa vida segue em acontecimento, mas o devir que nos atravessa é um devir reativo e não ativo. Como a gente opera o reencontro do imediato em nós? É o essencial desse curso. Como a gente recupera, reconquista, reencontra, porque a gente já encontrou numa primeira idade de nós mesmos esse imediato. Como se manifesta o imediato em nós? Ele se manifesta pelo tempo próprio que nos constitui e que nos atravessa assim como pelo movimento próprio que constitui o nosso corpo e que o faz variar. O imediato do movimento e o imediato do tempo. Esse duplo imediato que não é dicotômico, é uma dupla multiplicidade, cuja singularidade é uma relação necessária com o fora, com a fronteira de nós mesmos.
É nesse fora, nessa fronteira, nessa superfície de nós mesmos que o poder e o saber se inscrevem. Não há poder que não seja exercido tanto para aquele que transmite uma palavra de ordem, uma determinação extrínseca, quanto para aquele que sofre. Este também exerce poder. Ninguém numa relação de poder é só vítima A vítima também é cúmplice. A gente quer trazer a dimensão não da culpa, mas da cumplicidade. Porque uma vida separada do que ela pode precisa investir naquilo que supostamente a ligaria novamente com essa potência. Mas como essa relação é extrínseca, essa potencia vira uma relação de poder. Já é uma impotência que precisa de poder. Mas há um círculo vicioso. Porque a sociedade não muda? Porque ela precisa daquilo que a enfraquece. Pela imaginação você morde o anzol. Como se diz, o peixe morre pela boca. Você vai buscar o alimento fora, o poder, o reconhecimento e aí que você alimenta o buraco, a falta em você. E quanto maior o buraco e a falta mais necessidade de buscar o objeto fora para preencher. A pessoa fica no campo da imaginação, do simbólico, da estrutura. Existem sistemas extremamente sofisticados de se operar isso hoje em dia. O estruturalismo é um deles.
Existe em nós, sempre, uma presença que é disponibilizada no mecanismo da atenção, da atualização. Uma parte desse mecanismo é consciente ou não é disponibilizado, mas a presença está lá, algo em nós está. Os modelos geralmente fracassam, principalmente os de esquerda, pois a esquerda é prisioneira da falsa demanda, da inconsciência que estão alienados. Esse modelo da ideologia, da alienação, da consciência, é extremamente falido e sabemos que não teria outro destino porque ele já parte de um resultado, não daquilo que produz. Já parte de uma determinação operada na consciência. A consciência é um dispositivo sempre retardado, sempre chega depois que o mais importante já foi decidido. Algo decide em você e você acredita que foi uma consciência em você que decidiu, mas ela foi determinada a decidir psicologicamente. Tem uma determinação anterior a essa decisão psicológica. Isso opera no campo do encontro. Por isso precisamos retomar o modo de relação, o modo de encontrar, o modo de acontecer porque a determinação se opera no acontecer e produz algo em nós e esse efeito é que se torna consciente em nós. Nós só temos consciência do efeito, mas não entendemos a causa que operou e produziu isso em nós. E pelo efeito, uma vez que a gente não ultrapassa o efeito na consciência, a gente vai precisar imaginar a causa. E aí vai imaginar a causa com o um outro efeito desse algo que se põe no lugar da causa. Então você vai inverter, por o efeito no lugar da causa, explicar de modo invertido. É um mecanismo que acontece e vários pensadores vão desconstruir esse mecanismo: Epicuro, Lucrecio, os estóicos e principalmente, Spinoza, Hume, Nietzsche, Bérgson, Foucault, Deleuze-Guatari. Spinoza faz isso com muito rigor, com uma plenitude, insere tudo num campo de imanência e Nietsche também, com uma outra linguagem. Nietzsche chama de imagem invertida e Spinoza de ilusão de consciência. Bérgson chama de visão retrospectiva.
A questão é que mesmo na consciência alienada existe uma cumplicidade. Algo que deseja em mim tem vantagem nesse modo de viver. É o certo ao contrário. Mas a vantagem o torna ainda mais refém e dependente. Uma sutileza atual extremamente refinada vem de Kant e tem muitos filósofos e educadores que seguem essa linha, que dizem que é importante trazer a filosofia para a escola. Essa filosofia que eles querem trazer para a escola é a filosofia da autonomia. Mas a filosofia da autonomia é aquela que você conquista uma pura forma de ser, que nada mais é que dever ser e, nessa medida você se torna autorizado e autorizador como diz Kant, um legislador, até capaz de inventar leis, a partir dessa pura forma. Você adquire uma competência. Uma autonomia extremamente refinada, onde você não é mais comandado por nenhuma coisa de fora. Como diz Nietzsche, outrora eu tinha deus para nos carregar. Nós como burros de carga carregávamos nos valores divinos. Agora o homem diz: chega de deus, deus morreu, eu mesmo me carrego, não preciso de deus. Essa é a autonomia moderna. Carrega-se os valores morais nos ombros. É o tal do imperativo categórico em Kant. Você não faz uma coisa porque vai obter vantagem, faz por puro desinteresse, por verdade, porque é a maneira superior de ser. É uma maneira desinteressada, faz por pura verdade. Eu amo meu pai porque ele é meu pai. Eu me relaciono com a lei porque a lei é a lei, é universal. Essa é a mentira ainda mais hipócrita. É mais fingida, mais mascarada. É a questão moral de modo superior, não do ponto de vista da religião. Deus morreu. É a lei a serviço do bem. Mas o bem que é resultado da lei. O que importa é a lei, a pura forma de dever ser e o resultado que vai ter daí é uma autorização, uma justificação, uma legitimação. É a nossa sociedade, jurídica, legal, legalista, dos direitos humanos, da cultura da paz. E aí tem muitas instituições que investem nisso, numa ficção no que é violência. Uma visão mascarada da violência real. Essa cultura da paz é totalmente hipócrita em grande parte, uma paz que é uma rendição das forças mais interessantes do homem. Uma espécie de deposição de armas. Vamos nos desarmar todos. Mas que armas que se tem? São armas bizarras, nesse sentido é bom desarmar-se , mas não para ficar desarmado e sim pegar autênticas armas. Armas que combatem tudo que vive das paixões tristes. Armas que produzam uma máquina de guerra em relação a tudo que precisa se combatido, da miséria, da tristeza, do enfraquecimento, da opressão, da apropriação para viver e fundar o seu poder. Aí sim, esse tipo de arma a gente precisa construir. Não depor as armas ou achar que pelo convencimento racional vai se chegar a alguma coisa. Primeiro precisa ver que tipo de razão é essa. Existem vários tipos de razões que são sempre postas em um campo de forças. Não existe uma racionalidade verdadeira. Todas são verdadeiras ou todas são falsas. Você tem a racionalidade que merece, assim como a vida e a sociedade, depende do uso que faz dela, o que motiva, qual o motor dessa racionalidade, o que ela objetiva, como ela funciona.
Mas nosso argumento essencial é reencontrar o imediato do movimento e do tempo, pois já o encontramos alguma vez, já foi presente em nós de modo dominante. Não que ele não está mais aí. Ele está, mas não de modo dominante. Ao contrário, o que é dominante em nós é uma mediação. Essa inversão que precisamos operar, essa desconstrução, sob o ponto de vista crítico e um cultivo sob o ponto de vista criativo para que essa dimensão se torne dominante em nós e auto sustentável. Esse é o desafio.
A primeira esfera que nomeamos experiência do pensamento ou filosofia na primeira idade pode dar um panorama na medida em que a gente vai explicitar a palavra experiência, que não é uma palavra, mas um conceito. O que é experimentar? O que é pensar? O que é filosofia? O que é primeira idade? Na medida em que vou desconstruindo isso vamos também entender o que é a experiência do corpo, ou a estética na primeira idade. Vai, ao invés de situar o pensamento onde se colocou, em vez de situar a filosofia a gente situa a estética.
Vamos agora desdobrar a experiência, a idéia do imediato do pensamento, que é a primeira idade que se refere ao pensamento, ao corpo e depois aos modos de escolha. Em seguida temos a experiência da escolha ou do modo de fazer a diferença na vida ou de criar uma superfície seletiva, que não é nem do ponto de vista do imediato, que vamos chamar de ética, que entra em contraste com a moral, o modo moral e racional de decidir. Existe uma zona que decide em nós, uma zona imediata, que faz a diferença, que não tem nada a ver com a consciência, ainda que ela se apresente. Primeira idade se refere ao que falei de imediato. Faremos também uma diferenciação conceitual entre primeira idade e primeiridade.
Primeira idade é o encontro com o imediato. O imediato acontece em mim, tanto do ponto de vista do corpo, quanto do pensamento, quanto da capacidade seletiva. Eu faço parte do imediato e o imediato faz parte de mim, eu sou parte disso.
A primeiridade é algo mais adiante, é uma conquista da capacidade de manter esse imediato como comandante na minha vida, é tomar parte do imediato. Ser capaz de conduzir o próprio destino e criar a si mesmo. Estilizar a existência. Criar corpo, pensamento, desejo, capacidade seletiva.
Na esfera da memória a mesma coisa vai se operar. Vai haver uma experiência do tempo ou do registro do tempo ou da condução de registro do tempo imediato. Nessa medida, no tempo que se conserva ou que se apreende a si mesmo e se redispõe em direção ao futuro. Isso que diz respeito à produção de memória de futuro ou produção de pontes, ou plano de continuidade para um devir ativo ou intenso, auto sustentável. Fazer de si um moto continuo. Nós, de alguma maneira, somos moto continuo. Aquilo que Varela chama de auto poresi. Auto fabricação de si, de modo ativo, afirmativo, sem ser determinado de fora. O fora como excitante e aliado, e não como opressor, determinante ou algo que submete a vida a alguma autuação. Esse imediato na produção e disponibilização do tempo e da memória é um outro tipo de experiência. Cada esfera é uma esfera distinta de experimentação. São cinco: A do pensamento, do corpo, da seleção, da continuidade ou da duração que produz memória de futuro, e a última que é esse encontro com o imediato no ensino aprendizado, enquanto a experimentação te põe em contato com o próprio imediato do movimento e do tempo. O que o tempo e o movimento apreendido de modo imediato, transmite, ensina, cria, aprende, apreende. Como se dá esse processo? E como a partir desse processo há então uma capacidade de multiplicação? De vontade de expansão.

Experiência do pensamento ou filosofia na primeira idade
O que é experiência? O que é experimentar para nós? Para nós, geralmente é se apropriar de algo, saber usar, ter uma disponibilização à medida que aumentamos o contato com o objeto em experiência.
A gente vai experimentar porque acha que vai se enriquecer. Experimentar é motivado pela promessa de enriquecimento. A gente geralmente copia, porque saltamos uma etapa. Saltamos, pois a própria experimentação é sabotada. Há uma dimensão imperceptível que sabota a experimentação e o que se coloca no seu lugar é o consumo. Nós consumimos imagens, sensibilidades, sentimentos, sensações, afetos, sempre do ponto de vista de uma imagem. Os afetos sobre a imagem são paixões e sofrimentos, no melhor dos casos, é o que consumimos. Muitas imagens, muitos signos, discursos, muitas palavras, muita instrução, muita formação. No lugar da experiência se é disponibilizado uma capacidade de consumir. É por isso que o sistema não te exclui ou descarta. Ele não pode, ele precisa de você, como um consumidor e, ao mesmo tempo, como um produtor. Essa dimensão da experimentação é a dimensão do consumo. Então o que se passa é que em vez de você se conectar com a fonte real que sustenta a capacidade aberta de experimentar, realmente, o inédito, o imediato, o novo, você é condicionado na experimentação a investir num certo padrão, numa certa referência, num elemento que legitimaria uma experiência tolerável. Admissível socialmente, politicamente, moralmente, economicamente, racionalmente, religiosamente. Isso para o seu próprio bem, senão você vai ser esmagado. Há um corrente de transmissão de covardia. Carta ao Pai, de Kafka, é isso: meu pai, você baixou a cabeça, você quer que eu baixe também? Eu te perdôo por você ser covarde, mas não queira que eu seja também. Porque queres que eu baixa a cabeça? Para o meu bem? E a forma mais hipócrita de baixar a cabeça é levantar com autoridade. Aquele que tem a cabeça em pé, sustentada pela autoridade, esse já baixou, perdeu a cabeça. Pôs o rosto, que é um incorporal, no lugar da cabeça, que é o corpo. Em nome da autoridade você pratica o autoritarismo. É por isso que a forma esconde uma violência e um terrorismo. Não adianta dizer que a forma é democrática. Por mais democrática e pulverizada que seja, a forma é micro fascista. Assim como todo poder. Não adianta dizer: Ah, o poder é dos brancos, vamos dar para os negros, índios, mulheres e crianças, pois só o adulto macho tem. Não adianta pulverizar o poder, ou a forma da decisão, numa democracia que todo mundo tem o direito de dar a sua opinião, seu voto, a seu isso ou aquilo. Você já é refém de uma instância que autoriza. Aqui se esconde o elemento inconfessável. O conteúdo é sempre um diagrama de forças. A forma está articulada, mas é uma forma vazia, que não se sustenta sem o conteúdo, que são forças dominantes. Em nome do bem se invade o Iraque, o Afeganistão, faz as piores coisas. Assim é a lei. Dizem sempre que só ganha quem tem mais dinheiro. Nenhuma lei tem uma interpretação verdadeira em si mesma. Toda lei depende da força que a está interpretando. Há um interpretante atrás do elemento a ser interpretado. E esse interpretante é força, não é forma, não é formal. Essa é a enganação, a hipocrisia.

O que a gente chama de experimentar é, geralmente, consumir referências, autorizações, reconhecimentos. A gente geralmente consome aquilo que, justamente, nos devolve poder, e não potência. A gente consome para se enriquecer. A gente experimenta para se enriquecer. Mas se a experiência é fraudada, inviabilizada, e no seu lugar é posto uma relação de consumo de imagens, de signos, de discursos, de sentimentos, de instruções de formações, de objetos de prazer, o que se passa, efetivamente, é que vou me entupindo no corpo, no pensamento e na vida. O que era para ser um elemento enriquecedor através da experiência, tornou-se um elemento mortificador. Seguimos nessa relação, pois a morte é lenta, em vida. E, ao mesmo tempo, esse elemento nos dá uma ilusão de satisfação. Mas sabemos que no fundo a insatisfação e a frustração crescem. E quanto mais insatisfação e mais frustração mais necessidade de “enriquecer” com o consumo. Mais objetos de consumo.
Não há investimento do desejo ou submissão do desejo que não tenha uma cumplicidade do próprio desejo. Então, o primeiro reencontro que precisamos operar em nós, a lição que temos que fazer no corpo, que é a nossa casa, é cultivar a capacidade de experimentar realmente. Aprender isso, praticar isso. Um investimento de uma capacidade receptiva, que Spinoza chama de potência de ser afetado, que não é uma passividade, é uma potência em ato, não uma mera paixão. É uma potencia que se cultiva, que a gente desdobra, desenvolve. Implica numa abertura tal, que aquilo que se passa na relação da vida com o que envolve a vida não tem atravessador, não tem intermediário, é uma relação direta. Aí se dá uma experimentação. A capacidade receptiva precisa ser investida e ao mesmo tempo produzida em nós. Precisamos nos preparar para sermos capazes de experimentar. Somos também cúmplices dessa falsificação da experimentação, que põe o consumo no lugar da experimentação, que é um falso enriquecimento, na verdade, é uma mortificação de nós mesmos, que estimula em nós, não uma dança, mas um espírito de gravidade, de pesadume. Ficamos cada vez mais pesados quanto mais consomimos. Ao invés de nos enriquecermos, no sentido de ficar dinâmico, leve, veloz, potente, a gente enriquece no sentido que vai se entupindo, cada vez mais sedentário, mais ancorado, mais tristes. Esse investimento na capacidade receptiva, essa produção implica em acessar uma espécie de crítica. Precisamos aprender a dizer não para aquilo que se quer por no meio, aquele atravessador da nossa experimentação direta. O modo como nos relacionamos com a imagem que se produz na relação, é ela que acaba entupindo os poros do corpo, que acaba segmentarizando os movimentos, criando uma cadeia de ações e paixões que vai organizando nosso corpo e nosso movimento. A gente vai criando poses, etiquetas, posturas, maneiras de se movimentar, a gente cria cidade, arquitetura, as nossas caixas, nossas gaiolas, nosso movimento ordenado, coordenado, organizado. Isso tudo se dá pelo campo da imagem ou da sensibilidade. Isso que vai entupindo nossa capacidade de experimentar no corpo ou de acessar o imediato do movimento que se engendra em si mesmo e não o movimento que, separado dele mesmo, se pendura numa referência, para aderir a uma cadeia social de organização corpórea, um regime de luz ou de corpo, que disponibiliza o corpo e até retribui muitos prazeres que ficam aderido para que esse corpo agüente o tranco do dia a dia. Outra maneira de inviabilizar a experiência é por o signo ou a palavra no lugar do pensamento. É como se tivesse uma dimensão de nós mesmos que fica comentando o que vamos fazer, agora estou fazendo isso, agora isso outro, fica mediando o acontecimento com essa consciência e isso é operado, na verdade, no campo da linguagem, no uso que faz da própria linguagem. Põe a linguagem no lugar do pensar. O pensamento é silencioso, mas a gente acha que ele é tagarela. Para cada coisa bem vulgar, existe os refinamentos máximos, bem elevados, filosofias, ciências extremamente refinadas.
O signo no tempo, esse é outro atravessador, outro mediador. Esses mesmos elementos são usados pelo poder para nos separar do que podemos e para nos religar a ele, investir nele. Da mesma maneira que há um entupimento da nossa capacidade receptiva quando o estado de corpo, ou pensamento ou o estado do desejo ou da potência ocupa o lugar do acontecimento. O acontecimento é primeiro. O acontecimento é a pura capacidade de variar, virtualmente. Virtualmente, somos pura variação e atualizamos essa capacidade de variar na medida que nossa potência, nossa presença, freqüenta a fronteira dela mesma, numa relação com o que há em volta, enquanto potência e não enquanto estado de potência. Mas a potência que encontra sempre produz algo e esse algo enquanto produto pode se instalar e falsificar, produzir uma inversão. À medida que é apenas um estado, ocupar o lugar da própria potência, da própria essência ou do que nós somos inteiramente, é uma parcialização de nós mesmos que se põe no lugar do nosso desejo ou potência plenas. É claro que ele está investido de potência, mas uma potência separada da capacidade de acontecer diretamente, porque ela é mediada no acontecimento por esse estado. Isso é o que Nietzsche chama de ressentimento, mas a maneira como ele explica isso é bem sui generis. Spinoza chama de dupla ilusão do livre arbítrio, como causa primeira de si mesma, o desejo começa em mim e como ilusão de causas finais ou a ilusão da intencionalidade que a natureza opera em nós, agimos por vista de um fim, são duas ilusões, que fazem com a gente perca a capacidade ética, seletiva real porque, como diz Nietzsche, só retorna o que afirma plenamente, o que afirma inteiramente o acontecimento. O próprio acontecimento como afirmação da diferença que produz uma diferenciação ou uma singularização, faz essa mesma diferença diferenciante, diferencial, diferenciar novamente. Faz o retorno dela. O retorno da diferença, não o retorno do mesmo. Isso é uma capacidade seletiva, só retorna a diferença que afirma plenamente a si mesma. Essa capacidade seletiva, nós a perdemos quando colocamos o estado de desejo no lugar do acontecimento. Aí o retorno que acontece é o retorno de estados, de permanências, de paradas, de repousos, de identificações, de fixações, de unificações, de totalizações e a gente vai relacionar mais com o ser, e o devir vai ser apenas uma função desse ser. (Na verdade, o ser deve ser filho do devir. No fundo de tudo só tem devir, só tem variação. Aquilo que já dizia Bérgson, a única substância é a mudança. Ou a substância de Spinoza que é a potência absoluta de acontecer, de variar a si mesma, de produzir a si mesmo e a todas as coisas.) Isso inviabiliza nossa capacidade ética e vai fazer com a gente se relacione a uma demanda moral. A gente vai precisar criar uma referência para se constituir como critério de escolha, que nos afasta do mal e nos liga ao bem, que nos afasta do nocivo e nos liga ao útil, que nos afasta da injustiça e nos liga a uma máquina de justiça, que nos afasta do erro, do engano e da falsificação e nos liga a uma verdade. Então a gente se torna verídico, veraz, bom, justo e útil. Os quatro valores cultivados do homem fraco que com eles a gente mascara a impotência e a fraqueza de que são constituídos. O individuo acredita numa justiça que deveria chamar vingança, que ele é impotente para realizar e demanda, que um estado faça por ele, ele demanda a lei. Policia para quem precisa de policia.
Aqui então existe um terceiro elemento critico que é a ética, encoberta pela moral, que faz com que o estado de corpo se confunda com a essência, e esse estado de desejo ou de potência (tanto ao corpo como ao pensamento) que ocupa o lugar da própria potência, que não tem forma a priori. A potência é uma potência em ato e o ato é o acontecimento que a envolve, então não tem forma para ele. O acontecimento é aberto, é uma linha de devir. É o próprio estado de potência que me põe em uma relação de impotência comigo mesmo, eu me separado capacidade de acontecer, porque este estado vira mediador do acontecimento e esse mesmo estado de impotência que faz a leitura do real. E essa leitura vai ser sempre vista de uma forma fixa que já me constitui. Então eu só vou ver e avaliar coisas fixas. Kierkeegard faz um movimento oposto: vejo somente os movimentos, mas nós, ocidentais e mesmos os orientais, vemos apenas paradas e repousos, o que chamamos de ser. Ver somente movimentos já é investir numa capacidade receptiva do reencontro com o imediato. A gente acredita que o devir é inapreensível, não pode ser objeto de conhecimento, nem sujeito do pensamento, porque nós mesmos já entregamos o nosso desejo e a nossa potência à um estado de
desejo, de potência. Esse estado é justamente o testemunho da nossa incapacidade de nos pormos novamente em devir, em acontecimento, em devir ativo ou acontecimento afirmativo da própria potencia que se relaciona. Entramos num devir reativo porque o estado de desejo passa ser mediador do acontecimento e o acontecimento evidentemente jamais para de acontecer, só que o que é dominante em nós não é o acontecimento enquanto acontece, mas é o estado que sobrevoa o acontecimento. Isso que é a condição da moral. Geralmente nem se localiza o problema nessa região, pois se trata de uma coisa abstrata, onde menos se pensa que está o problema. Nem se localiza essa região. É um nada. O que é esse relacional, essa superfície, esse acontecimento? Precisamos apreender a realidade disso que não tem existência, mas não é por isso que não é real. O real não se reduz a existência, ele é também virtual. O virtual não existe, mas é real. Há uma natureza naturante que não se apresenta como existência. O que se apresenta como existência é a natureza naturada. Mas a “existência” da natureza naturante é um outro tipo de realidade que nem mereceria o mesmo nome de existência para não confundir mesmo, mas é uma realidade. Nessa zona de realidade que se passa os entupimentos e as capturas, tanto do ponto de vista do movimento, do corpo, das imagens, quanto do ponto de vista do pensamento com signos, e também do ponto de vista da capacidade seletiva com estados de corpo, de mente e objetos fora de mim, da mesma maneira, ou seja, o campo da imaginação. Aquilo que Spinoza chama de primeiro gênero do conhecimento. Esse campo da imaginação é dominante em nós e a consciência será a nossa potência reduzida a esse estado de corpo, de mente, de decisão. O que decide em nós? O estado? O que pensa em nós? È um sujeito chamado estado mental? O que age em nós? É um individuo chamado estado corporal? Nós achamos que existe uma instancia em nós que move o corpo e que recebe o movimento, na verdade é um estado de corpo. Que há uma instância em nós que pensa, um sujeito de pensamento. Na verdade é um estado da captura do pensamento em nós, que chamamos de alma ou sujeito, que ninguém admite não existir. A questão do estado de escolha que habita a zona de indeterminação do acontecimento, simplesmente como uma zona primitiva ou entupida pelo campo de possibilidade, que nada mais é que essa retroprojeção do que já foi vivido, só que reprojetado no futuro, de modo melhorado, de modo moral. Eu vivi assim, mas podia ser melhor ou eu vivi essa merda e isso tem que ser eliminado. Tem um campo do possível mal que vou evitar, afastar, destruir e um possível bom que eu vou investir, vou trazer para o presente. Então esse estado de escolha seria evitar o mal e seguir o bem, evitar o engano e seguir a verdade, evitar a injustiça e seguir a justiça. Dicotomiza a escolha supostamente alojada na existência da consciência. É uma maneira de entupir a capacidade seletiva.
A extração em tudo, seja do passado, do presente, ou de uma idéia inédita, algo que seja seu próprio elemento afirmativo. Esse elemento afirmativo da idéia, ou da memória ou de uma instância incorporal é uma maneira de acontecer da própria potência, que põe isso no horizonte do meu futuro. O que me dá direito ao futuro? O que me disponibiliza o futuro ou a continuação de mim mesmo? É uma espécie de liga, de ponte, que é uma passagem de um aumento de potência. Um acontecimento que é o crescer da potência que está antes da própria potência que vai crescer. Então esse crescer da potência, que Nietzsche chama de vontade de potência, que determina a escolha do ponto de vista afirmativo e ativo, determina a seleção e a produção de memória de futuro, é o que faz crescer. Isso é o que comanda em nós e é o que captura em nós porque também investimos no poder, no consumo, na imagem, no signo, no espelho, pois aparentemente isso nos dá direito ao futuro, a se manter ligado, consumindo e se enriquecendo, só que dependendo de uma instância exterior a si mesmo. Então essa vontade de potência vira vontade de poder, você vira refém de uma referência. É um modo de se capturar a decisão e a escolha. Inverte. Aí a moral e essa racionalidade, que pressupõe esse sujeito moral, entram com tudo.
As tribos e as sociedades primitivas tem os seus anciãos, os seus espíritos que estão mortos, mas que na verdade não estão, estão inteiramente vivos em outro plano, o virtual. Quando uma sociedade dessas adoece, o xamã, ou feiticeiro ou curandeiro vai diagnosticar e geralmente ele diagnostica que ouve um desinvestimento, um esquecimento, uma ausência de uma maneira de ser e acontecer que era vital para aquela sociedade. Um espírito de um antepassado nada mais é que uma maneira de ser que ultrapassa o indivíduo enquanto indivíduo. Uma maneira de ser sem a qual a sociedade fica mais fraca, adoece. Você aprende com o passado naquilo que o passado tem de futuro, de liberador da situação presente. O passado te põe em relação com o sentido em que ultrapassa uma certa coação presente, um certo deslocamento, uma certa obstrução, uma certa fixação. O passado é uma ponte, é o próprio futuro que desterritorializa o presente das suas amarras e extratificações.
Esse aprendizado da tradição que o Foucault vai fazer em relação a história. Ele vai captar o inédito de cada acontecimento para depois entender a condição dos fatos. Os fatos são o modo como as forças dominantes interpretam o acontecimento. Mas antes de ele ficar reduzido a isso ele vai direto às condições do acontecimento, àquela maneira de ser. A maneira de ser traz consigo a capacidade de se repetir, é uma singularidade que por repetição pode, ou não, virar uma espécie de valor universal. Se ela for de fato uma emergência, uma maneira de ser afirmativa da vida, ela se torna uma potência de diferenciação, de singularização e não cai na ilusão do universal.
É uma idéia do Bérgson. Nietzsche também fala em memória de futuro, com outras palavras. Em função do futuro, uma representação do passado. Bérgson, ao contrário de Hegel, (que dizia que o passado foi e o futuro vai ser), diz: o passado é, de maneira contemporânea do presente, junto com o seu presente se traz todo o seu passado, por mais que ele não esteja ativo, mas há uma pressão virtual dele, pontas dele que se reatualizam, se diferenciam, se tornam outra coisa nesse presente. Há uma coexistência do passado com o presente. Passado e presente não tem apenas uma relação de sucessão, e se tiver, não é a principal. A principal é a coexistência. Nessa mesma medida eu também posso dizer que o futuro é. De modo virtual. Atualmente temos devir. O futuro é ser, o passado é ser e o presente é devir. O presente é um movimento. Geralmente a gente se relaciona com o passado de modo representado. A gente tem memórias de marcas que foi, do que está marcado, estigmatizado e o retorno dessas marcas que acaba repetindo, copiando, inviabilizando o inédito no presente. O presente é radicalmente inédito, é impossível que não haja o inédito, estamos sempre no inédito. O dejavú é ilusão. A gente perde o inédito porque o nosso passado já nos fixa em várias posições que faz com que a gente represente esse virtual. No lugar dele coloca uma memória formal ou figurativa e com essa memória achamos que temos direito ao futuro. Porque essa mesma memória que a gente projeta de maneira idealizada no nosso futuro. Fica o campo do possível no futuro e perde o virtual que é na verdade a potência de criar possíveis. O possível tem que ser criado. E não se submeter ao possível que é a idealização do que já foi vivido. Ah, isso não é possível porque nunca existiu! De que maneira o novo é possível? O novo jamais seria possível?
Nós usamos o termo vontade aqui no sentido de Nietzsche, como vontade de potência. Não como Schopenhauer, nem como Kant, nem Hegel, ou como na psicanálise. Não é uma vontade psicológica, não tem uma unidade psíquica, nem psicológica, nem física, nem ideal. A vontade é o querer da força. É o relacional de toda a realidade em relação. Não existe realidade que não esteja em relação. É como diz Spinoza, tudo é em modo, ou potência de modificar ou ser modificado. Tudo é essa potência. Para que se modifique é preciso estar em relação, é necessário haver um ser da relação, que é esse relacional. Esse relacional podemos chamar de vontade. Vontade não tem unidade subjetiva, nem substrato. A unidade subjetiva é a condição de julgamento, é a condição de representação, do poder. O poder que precisa representar e julgar. Para haver julgamento é preciso nivelar, unificar os desejos e por tudo de um ponto de vista do senso comum. O desejo de um tipo ativo seria o mesmo que o desejo de um tipo reativo para esse tipo de pensamento. Nessa medida, se um ativo faz maldades ele pode ser julgado. Se o reativo, que é impotente, não faz, ele pode dizer que não faz porque ele é bom e não porque ele é impotente. Ele poderia fazer, mas na verdade ele não pode. Essa é uma maneira de falsificar o real, de se desqualificar a vida, pressupõe uma base, um substrato comum chamado vontade. Não é dessa vontade que estamos falando aqui. Quando falamos dessa vontade, essa vontade como livre arbítrio, aí a gente desconstroi. Pode se usar o termo vontade, mas para que você apreenda a dimensão virtual do atual, que antes de ser uma forma seria uma força. O atual é uma força. O querer da força é o virtual da força, que é uma potência. Potência e força são nuances, são distinções, não se usa no mesmo sentido.
Sobre essa maneira de ver o tempo, Renato Russo intuiu isso na música: Quem me dera eu pudesse entender que o passado ainda está por vir e o futuro não é mais como era antigamente. Às vezes alguém qualquer produz um enunciado novo. O que pensa em alguém? Não é o fulano instruído ou o cientista, o filósofo ou o artista. É algo que pensa em nós. Aí se encontra o imediato do tempo. Ele faz com que você veja essa dimensão.
Até agora estamos vendo apenas um conceito, que é a experimentação. Não chegamos ainda no que é pensar.
E ainda estamos falando da experimentação do ponto de vista receptivo, mas ainda há a tomada de posição nesse processo de experimentação, que é uma atitude ativa. Não que a outra não seja ativa também. A outra é receptiva, ela instala uma relação com a fonte do movimento e do tempo, te põe em contato direto com o acontecimento e por isso dispensa um provedor, você não precisa do poder, de uma condição instituída para experimentar. Não precisa de nenhum artifício ou artefato social, econômico, político. Como diz Fernando Pessoa, ser milionário das sensações. Até o mais reles dos mendigos pode se conectar com essa capacidade receptiva, com a própria fonte do real que está bem diante de nós. Na nossa fronteira nós tocamos essa fonte, na fronteira de nós mesmos. Ela não está em outro mundo, numa profundidade, num inconsciente, em algum lugar do eu profundo e encoberto. Ela está bem na superfície. Precisamos fazer do nosso ser uma passagem. Justamente o contrário da práticas espíritas, passes de energia para nos potencializarmos, se tornar a passagem.
Experimentação implica não em consumo. O que a gente chama de consumo é, geralmente, consumo de coisas mortas ou o que institui em nos a morte lenta, a morte em vida. Experimentar é modificar-se. A modificação não é uma transformação, não é uma mudança de forma, nem uma transfiguração, uma mudança de figura. Não é no plano formal que a gente se modifica, nem no figurativo, nem da imagem, nem do signo. Mas se modifica no limiar do próprio desejo, no modo de desejar. A gente se transmuta e não se transforma. A modificação só é verdadeira se existe transmutação. Experimentar, modificar e transmutar. Para experimentação é preciso de transmutação ou produção de si. Isso é real, não é uma metáfora, não é uma sublimação, uma purgação, uma purificação, uma idealização, uma metonímia. É um processo real de modificação de si. Quando se apreende esse processo? Quando se atinge uma posição de ser onde se atinge uma zona da multiplicidade que te constitui, que é irreversível. Não é que não pode mais voltar no tempo. Você redispõe a capacidade de jogar, mas essa capacidade transmutada. Essa transmutação não dá para por debaixo do tapete ou fazer com que não existiu. Ela já altera em você, já é coadjuvante e co-autora em você do seu novo devir. Experimentar implica uma modificação real, uma transmutação que se dá simultaneamente no corpo e no pensamento. Depois vamos ver o que é pensar e entender o que é experiência no pensamento. Daí conseguiremos entender de modo sutil e mais refinado o que é primeira idade do pensamento e depois a primeiridade do pensamento. Começaremos a conceitualizar e investir no aspecto crítico que destrói aquilo que entope, que media e invialibiza a relação com o imediato do pensamento, a relação do tempo enquanto tempo. O próprio tempo como sujeito. E ao mesmo tempo apreende o elemento afirmativo do pensamento que é o seu principio criativo. O pensamento só cria pela afirmação. Podemos então chamar de vontade a própria afirmação. A idéia tem vontade que é a afirmação da idéia. Ela não é neutra, ela tem uma tendência, é também uma força, é uma direção, um sentido e uma potência, uma diferenciação que pode algo. Pode modificar e ser modificada. A própria idéia está em devir.
Não há criação sem natureza naturante. A natureza naturante é o principio da criação, não só de tudo, mas da criação em si. É uma realidade que se auto instaura, é auto gerativa (Spinoza chama de deus), que está na natureza, que é idêntica a natureza, só que a dimensão naturante da natureza. Tem uma dimensão que é naturada. A natureza tem uma dupla dimensão: a naturante que fabrica a ela mesma e a tudo que é naturado. Ela se fabrica como natureza naturante e fabrica a própria natureza naturada. Não há criação sem natureza naturante. Spinoza não gosta deste termo criação, pois ele está associado ao cristianismo, ao judaísmo, as religiões monoteístas que instaura um deus criador do universo, do mundo e das coisas. Spinoza usa o termo produção. Mas podemos usar o termo criação nesse sentido mítico. Nietzsche só usa criação.
O pensamento é intuição, mas não uma intuição vaga, uma intuição rigorosissíma. Uma presença de uma potência diferencial que cria um caminho, uma direção, um vetor. È isso que queremos acessar. Acessar não o que já está pronto, mas a capacidade de produzir essa dimensão. Como diz Nietzsche: Real? Invente ele. A gente produz, fabrica o real. Somos meios, instrumentos de fabricação de eternidade. A eternidade nos atravessa. E através de nós ela produz a si mesma. Podemos aproveitar ou desperdiçar isso. E se desperdiçarmos não haverá um inferno para nos punir por isso. É aqui e agora que jogamos a vida pelo ralo. Tem gente que se conforma e encontra jeitos de se consolar, de suportar essa miséria existencial, com pequenos prazeres, seduções. O capitalismo virou mestre nisso, em oferecer seduções.
Experimentar não é se enriquecer com a diversidade casual ou com o caos. Não é um enriquecer que vai satisfazer, preencher e desenvolver a forma que já estava pronta em mim. Aí não estou mudando coisa alguma. Estou apenas usando a experiência para reforçar ainda mais as fixações que já me constituem. A experiência vira testemunha, um elemento de confirmação daquilo que eu já afirmava previamente. Os meus preconceitos são reforçados. Isso é o que devemos desconstruir no que chamamos de experimentação. Ao invés de reforçar o que eu já sou, de melhorar o que já sou, ou desdobrar e desenvolver um suposto eu, um suposto sujeito ou indivíduo, me levando a me encontrar cada vez mais comigo mesmo, a me conhecer, a conhecer o profundo eu, a experimentação deve fazer justamente o contrário. Eu me torno cada vez mais afastado de mim mesmo, diferente de mim mesmo. Tem uma diferença em mim para ser diferenciada. A experimentação vira uma ocasião de transmutação, de diferenciação de si. Quanto mais eu me diferencio mais eu me multiplico, mais eu crio elementos heterogêneos, uma multiplicidade que me constitui. Esse elementos heterogêneos são co-autores, são aliados, são forças do fora selecionadas, dobradas, gerando um dentro capaz de dispor do futuro. A experimentação vira esse motor ou plataforma de lançamento para o futuro. E não simplesmente uma coisa casual, um acidente, um caos que existe por aí que dá uma enriquecida na ordem representativa e formal que me constitui. É justo o contrário. Experimentação tem um gosto real pela diferenciação, que não faz de conta.
Ser ou não ser? Devenha. De modo afirmativo. Heideger: ser no mundo. Não. Devenha no mundo. O ser não é o primeiro. O acontecer que vem primeiro. A não ser que se chame ser o acontecer. Acontecer é produzir realidade e se produzir. Isso é que é entrar em devir. Tem uma potência em variação, na experimentação você de fato se põe em variação real e não uma variação de uma constante que você é. Há uma pura variação de você, que varia e produz afetos ou intensidade ativas em você. Essas dobras de força que criam um plano de consistência em você, e não um sujeito. Crescer numa continuidade imanente do movimento que engendra o próprio movimento, do tempo que engendra tempos. E não ter um tempo homogêneo e fragmentar esse tempo homogêneo e distribuir ele pra lá e pra cá, e da mesma maneira o espaço. Elementos que ocupam um espaço aqui e ali, todo esse esquadrinhamento exterior. O esquadrinhamento exterior é superado quando você atinge essa dimensão imanente que engendra o próprio movimento e o próprio tempo, fabrica espaço e tempo. Não temos mais espaços e tempo prontos e homogêneos para ocupar ou pra ter. Nós inventamos o próprio tempo e o próprio espaço, a gente cria lugar na potência, em acontecimento. A potência em acontecimento, em ato, ela é primeira e a experimentação acontece quando eu habito a zona do acontecer. Quando algo em mim se confunde com o próprio acontecer. Quando o acontecimento passa a desejar em mim. O acontecimento antes de acontecer já é o desejo em mim. Mas o acontecimento não tem forma. Esse desejo não tem intencionalidade, não quer chegar numa forma ou numa figura, ele é potência de variar. Essa potência de variar é o começo do desejo. Onde o desejo começa? No eu? No sujeito? Não. Ele começa na fronteira, na superfície, no horizonte de mim mesmo. Arnaldo Antunes diz: o desejo é o começo do corpo. Ele começa no acontecimento e o acontecimento é o começo do corpo, do pensamento, é o começo de tudo. O começo, o fim e o meio. Na verdade, é o meio, o começo e o fim são resultantes. Objeto e sujeito são produtos. Os seres são produtos do devir. O eu e o outro são efeitos de um outrem ou de um entre. É essa zona que Spinoza chama de ser comum, onde se dá a identidade ou mesmo. O único mesmo que é real é o mesmo como afirmação da diferença. É o mesmo ser que se diz de todas as diferenças. Esse ser se chama afirmação. Afirmação das diferenças. Uma afirmação da diferença faz a diferença se diferenciar. Essa mesma afirmação de uma outra diferença faz a diferença se diferenciar de outra maneira. Não vai haver nunca uma igualização, uma identificação. O único igual, o único mesmo, a única identidade é a própria afirmação que se diz imediatamente da diferença. É por isso que é impossível haver um igual, a identidade, o equilíbrio. No máximo elas são simulacros, como zonas comuns. Por exemplo, um devir animal, um devir criança, o devir orquídea da abelha, ou devir abelha da orquídea. Que zona é essa que elas se encontram? É a mesma? É idêntica? É semelhante? Não, a semelhança e a identidade são apenas simuladas. É uma zona de indeterminação, de acontecimento, é um platô de variação. É aquilo que te põe em devir de alguma maneira. Não é um conceito, é uma zona, uma região, um limiar, uma espécie de grau do horizonte, um horizonte móvel. Tem o horizonte movente que é aquilo que separa o dentro do fora, mas que é, simultaneamente, uma fronteira que está dentro e fora. É esse horizonte movente que é essa zona que poderíamos dizer que é idêntica, que é semelhante, que é comum, mas esse idêntico ou semelhante apenas simulado é, na verdade, a necessidade de cada relação. É o relacional de cada relação. É a base ou o ser de cada relação. Na medida em que eu toco isso, eu toco o imediato tanto do tempo quanto do movimento. Isso que vamos cultivar, aproximar, desconstruir o que impede isso. Investir e criar pontes para chegar nisso e se relacionar de modo imediato com isso. Isso é um modo de vida. Por isso precisamos cultivar, tanto do ponto de vista do corpo como da sensibilidade, na musica, no cinema, na literatura, o que for que atravessa o corpo, como aquilo que alimenta o espírito (como sinônimo de tempo), ou a mente ou o pensamento. Esse cultivo implica também um outro uso da linguagem.
Experimentar não é consumir. Experimentar é modificar-se, não é um faz de conta. Você age e sente de maneira diferente quando há uma modificação. Você se torna diferente de você mesmo. Isso é essencial, pois faz você ter um gosto real pelo acontecimento e pela diferença e não um “tolerar” o acontecimento e a diferença. Os politicamente corretos toleram a diferença, eles não fazem a diferença. Eles, ou algo em nós, certas instâncias em nós, só toleram a diferença. E toleram porque tem vantagens na tolerância. Quanto mais se tolera, é civilizado, é racional, calcula, espera, não avança, em tudo tem a ordem, o tempo, seu jeito, mais vantagens você vai ter. Você é recompensado socialmente. Você é educado, amável, civilizado, respeitoso, respeitável, autorizador, autorizável. Entra naquele campo de legitimação instituído. Esse ponto essencial da experimentação de todas as atmosferas, do pensamento, do corpo, da seleção, da produção de memória, de oportunidade, da instrumentação do aprendizado e do ensino tem essa dimensão de uma modificação real que faz com você se torne diferente de você mesmo e não simplesmente mude de roupa, de casca. De fato, outra coisa que deseja em você, que pensa em você, que age em você, a cada diferenciação, a cada modificação. Aquilo que Bérgson chama de diferença da natureza. Há uma continuidade em nós, que só se divide mudando de natureza. Uma continuidade intensiva e expressiva e não uma falsa continuidade na extensão e de um falso corte na representação. É uma qualidade expressiva e não representativa, é intensiva e não extensiva.
A agressividade mais eficaz, a maneira mais potente de destruir o que precisa ser destruído, sem culpabilidade, de modo inclusive afirmativo, é a doçura, e com humor. Isso é uma conquista, é difícil. Uma coisa é essencial para não ser enquadrado pelo poder, é se tornar imperceptível, deixar de chamar atenção sobre você, se pintar com as cores do mundo, ser um homem bem comum. Não é ser humilde. Você pode ser o mais comum, sendo o mais extraordinário. Devir imperceptível. Você sabe que existe uma zona na sociedade que elogia a amabilidade, a doçura, a educação, não alterar o tom, o não se indispor, a não alterar o humor, não ser explosivo, não ser animalesco. Você pode habitar essa zona, mas com outro ponto de vista, com outra motivação, fazendo outro uso disso. O teu amável se torna um habitar um tempo próprio que te constitui e um movimento próprio que engendra movimento, sem atropelar, sem saltar, sem retardar. Isso cria uma suavidade, uma necessidade que se confunde com a falsa necessidade dos amados, dos respeitados, dos justos, dos bons, dos verídicos. É uma zona simulada. Você não finge, é amável de fato, mas de outro ponto de vista. Pode até se mostrar não amável deste ponto de vista. O amável que finge jamais abandona a carapuça, ele é covarde e precisa daquilo, ele se agarra aquilo porque não pode fazer frente a nada. Investe nisso como uma capacidade plástica, estética, você se transfigura, se exprime de várias maneiras, tem dinamismo. Mas o importante é nunca estar naquilo que te fotografa. A fotografia do instante é apenas um instante de uma passagem que é incapturável. Desse ponto de vista, confundir-se com a própria passagem gera um investimento de se mostrar ao máximo, (que é o contrário de se esconder), na passagem e não na figura ou na forma. É algo que se mostra em ser de passagem. Quanto mais se mostra como ser de passagem, mas se torna incapturável e mais se torna indestrutível. O poder não apreende a passagem, não a compreende. Ele só julga a passagem. Ele tem que fragmentar, segmentar, instantanear, encadear, registrar, mapear. Vai decalcando tudo. Se você se torna a pura passagem, ele não te pega. Isso é a potência da vida A vida é totalmente potente para fazer frente a qualquer poder. É impossível que não haja essa potencia em nós. A vida é totalmente perfeita, é uma plenitude. Só que nós, separados da capacidade de acontecer, substituímos isso. Caímos num buraco e procuramos um céu para pendurar lá e ser resgatado desse buraco, já que não temos mais superfície. Por isso dizemos que a vida é imperfeita e triste. Pois toda vez que estamos no buraco, estamos sofrendo. Um sofrimento por falta e não por excesso de vida. Isso faz com que eu identifique a existência à mal, à imperfeição. Há um mal na existência, uma falta, ao desejo falta o objeto.
Imagem pode virar mais que índice, um sinal, uma porta de entrada de um fluxo, como efeito de um movimento. A imagem viva. A imagem como instante, como elemento opaco, que impede acessar ou congela o movimento, deve ser dissolvida. Essa imagem fixa pode também ser imagem de um fluxo e aí é péssimo, pois com a imagem fixa você faz uma imagem não fixa. Por exemplo os sentimentos. De tristeza, de alegria. È a imagem de um fluxo, de um afeto, da variação de uma potência, de um desejo. Enquanto imagem eu não apreendo o próprio afeto. Mas se eu faço dessa imagem a porta de entrada para o afeto enquanto afeto, da força enquanto força, viva essa imagem. A imagem não é má, o signo não é mau, depende do uso que fazemos deles. É tudo uma questão do uso. Não existe nem bem nem mal. Existe um mau jeito e um bom jeito. Como diz Nietzsche, existe o bom e o mau jogador. O mau jogador é aquele que ressente, que é prisoneiro de um estado de corpo, que busca um ideal, que julga, que investe numa falsa verdade, aquele que carrega, que retem para si, que não quer queimar. Bom, mas a chama já está aí! Você pode mudar a maneira de queimar e viva a queimação, vamos queimar. O bom jogador é o que dança, que é veloz, potente, dinâmico. Um leva para força, como generosidade e o outro leva para fraqueza, como mesquinho. Parar o tempo, o tempo como horizonte da morte ou da decadência é um desperdício.
Ética não é aquela que seleciona entre o bem e o mal. É aquela que, em qualquer relação, seja boa, seja má, de saúde ou de doença, há o necessário nela, que pode virar combustível da minha vida. Isso que é a capacidade de transmutar e aí é o segundo momento da experiência. A experiência também me leva para maus encontros, para a doença. Não é experimentar só o que é bom e garantido. Ao contrário, a experiência não dá nenhuma garantia, por isso tenho que me preparar, não com um escudo dos mediadores, mas com a capacidade de olhar o sol de frente, de ver somente, movimentos, tempos e modos imediatos, sem mediadores de representação. Não é fácil, por isso temos medo, nos acovardamos, fugimos, temos medo das próprias forças, se desvia, dá mais atenção ao outro, ama o outro, odeia o outro. Transformar a dor num presente. É difícil também, mas sempre tem jeito. Nem Henry Miler, nem em Nietzsche existe uma acusação sequer contra a vida. E Nietzsche sofreu muito. Esse segundo momento da experiência é transmutar o que te acontece para que você se torne digno do que te acontece em vez de reclamar do que te aconteceu O que eu mereci de imerecido é, na verdade, o que diz Deleuze que transforma as nossas chagas em coisas repugnantes ou que faz do acontecimento chagas repugnantes. Isso é desperdício. A gente não experimenta, de fato, porque a gente tem medo que o acontecimento seja injusto com a gente. Por isso que temos que desenvolver a prudência e o devir imperceptível, que é um aspecto fundamental da prudência. E a preparação, o aprendizado da constituição de si, que nos faz potentes o suficiente para podermos dizer bem vindo à todo acaso e não só a parte boa do acaso, inclusive o pior deles, pois ele é inocente como uma criança.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O FILÓSOFO MASCARADO


MICHEL FOUCAULT (Entrevista – 06/04/1980)
 
Le Philosophe masqué (entrevista de C. Delacampagne), em ‘Le Monde" n. 10945, de 06 de abril de 1980: "Le Monde-Dimanche", pp. I e XVII. Em janeiro de 1980, Christian Delacampagne decidiu pedir a Foucault uma longa entrevista para o suplemento dominical de "Le Monde", dedicado principalmente aos debates culturais. Foucault aceitou imediatamente, mas apresentou uma condição de princípio: a entrevista deveria ficar anônima, o seu nome não deveria aparecer e importava eliminar todos os indícios que teriam permitido identificar a sua pessoa. Foucault justificou esta posição da seguinte maneira: a cena intelectual tornou-se presa da mídia, as "estrelas" prevalecem sobre as idéias, e o pensamento como tal acaba não sendo reconhecido; conseqüência disso é que aquilo que se diz conta menos do que a personalidade de quem fala. E também este tipo de crítica com relação à "midiatização" corre o risco de ser menosprezada, caso for pronunciada por alguém que, sem querê-lo, já ocupa um lugar no sistema da mídia, como era o caso de Foucault. A fim de romper com semelhantes efeitos perversos e para tentar que fosse dita uma palavra que não pudesse ser aniquilada pelo fama do autor, convinha decidir-se a entrar no anonimato. A idéia agradou a Delacampgne. Acordaram que a entrevista fosse feita a um "filósofo mascarado", isento de uma precisa identidade. Faltava convencer "Le Monde", que queria uma entrevista com Foucault, a aceitar um texto de "ninguém". Foi difícil, mas Foucault mostrou-se inflexível.
O segredo foi conservado até a morte de Foucault. Parece que bem poucos conseguiram descobri-lo. Em seguida, "Le Monde" e a editora La Découverte concordaram em juntar em volume esta entrevista com outros textos do mesmo autor. Conforme acontece nestes casos, "Le Monde" decidiu unilateralmente revelar o verdadeiro nome do "filósofo mascarado". O texto da entrevista cabe integralmente a Foucault, que elaborou inclusive as perguntas, junto com Delacampagne, e reescreveu com muito cuidado cada resposta.


Permita-me,  em primeiro lugar,  perguntar-lhe porque escolhe o anonimato.
Imagino que você conheça a história daqueles psicólogos que apresentaram breve filme numa localidade no coração da África profunda. Pedem aos espectadores que narrem a história da forma como a entenderam. Pois bem, de um drama com três personagens, só uma coisa os havia interessado: a passagem das sombras e das luzes através das árvores.
Entre nós, os personagens ditam lei à percepção. Os olhos voltam-se preferivelmente para as figuras que vão e vêm, aparecem e desaparecem.
Por que lhe sugeri de usar o anonimato? Por saudades do tempo em que eu era absolutamente desconhecido e, portanto, aquilo que dizia tinha alguma possibilidade de ser entendido. O contato imediato com o eventual leitor não sofria interferências. Os efeitos do livro refletiam-se em lugares imprevistos e desenhavam formas a que nunca havia pensado. O nome constitui uma facilitação.
Gostaria de propor um jogo: o do "ano sem nome". Por um ano publicar-se-iam apenas livros sem o nome do autor. Os críticos deveriam haver-se com uma produção completamente anônima. Mas penso que, talvez, não teriam nada a dizer: todos os autores esperariam o ano sucessivo para publicarem os seus livros...
Você acredita que, hoje, os intelectuais falam demais? Que nos atrapalham com os seus discursos diante de qualquer mínimo pretexto e, muitas vezes, até mesmo sem pretexto algum?
A morte dos intelectuais parece-me um estranho conceito. Intelectuais, nunca os encontrei. Encontrei pessoas que escrevem romances e pessoas que curam os doentes. Pessoas que estudam economia e pessoas que compõem música eletrônica. Encontrei pessoas que ensinam, pessoas que pintam e pessoas de quem não entendi se faziam alguma coisa. Mas nunca encontrei intelectuais.
Pelo contrário, encontrei muitas pessoas que falam do intelectual. E, por escutá-los tanto, construí para mim uma idéia de que tipo de animal se trata. Não é difícil, é o culpado. Culpado um pouco de tudo: de falar, de silenciar, de não fazer nada, de meter-se em tudo... Em suma, o intelectual é a matéria-prima a julgar, a condenar, a excluir...
Não penso que os intelectuais falem demais, porque para mim não existem. Mas penso que o discurso sobre os intelectuais esteja passando do limite e seja pouco encorajante.
Tenho uma feia mania. Quando as pessoas falam tanto por falar, quando fazem discursos que ficam no ar, procuro imaginar onde levariam as suas palavras se fossem transcritas na realidade. Quando "criticam" alguém, quando "denunciam" as suas idéias, quando "condenam" o que escreve, imagino-os numa situação ideal em que têm pleno poder sobre ele. Reproduzo as suas palavras no primeiro significado: "demolir", "abater", "reduzir ao silêncio", "sepultar". E vejo abrir-se a radiante cidade em que o intelectual certamente seria prisioneiro e enforcado, com maior razão se fosse um teórico. É verdade, não vivemos em uma região em que os intelectuais são mandados ao diabo; mas, na realidade, diga-me, por acaso ouviu falar de um certo Toni Negri? Por acaso não está na prisão exatamente enquanto intelectual?
Mas, então, o que o levou a entrincheirar-se atrás do anonimato? Um certo uso publicitário que, hoje, certos filósofos fazem ou permitem fazer do seu nome?
Isto não me perturba minimamente. Nos corredores do meu liceu vi grandes homens de gesso. E agora, nas primeiras páginas dos jornais, em baixo, vejo a foto do pensador. Não sei se a estética melhorou. A racionalidade econômica seguramente, sim...
No fundo, impressiona-me profundamente uma carta escrita por Kant, quando já era muito velho: contra a idade, a visão que se reduz e as idéias que se confundiam, apressava-se, assim narra, em terminar um livro para a feira do livro de Lípsia. Conto este episódio para demonstrar que não tem nenhuma importância. Publicidade ou não, feira ou não, o livro é coisa totalmente diferente. Nunca conseguirão levar-me a crer que um livro seja ruim porque se viu o seu autor à televisão. Mas nem sequer que seja bom só por este motivo.
Se escolhi o anonimato, não é para criticar isso ou aquilo, o que nunca faço. É um jeito de dirigir-me mais diretamente ao eventual leitor, o único personagem que me interessa: "já que não sabes quem sou, não sentirás a tentação de buscar os motivos pelos quais digo o que lês; deixa-te andar, diz simplesmente: é verdadeiro, é falso, gosto, não gosto. Isto basta".
Mas o público não espera que a crítica forneça juízos precisos sobre o valor de uma obra?
Não sei se o público espera que o crítico julgue as obras ou os autores. Mas creio que os juízes já estavam aí antes que o público pudesse dizer o que queria.
Parece que Courbet tinha um amigo que se acordava à noite urlando: "julgar, quero julgar". É incrível quanto as pessoas gostam de julgar. Julga-se em todo lugar, continuamente. Provavelmente, para a humanidade, é uma das coisas mais simples a fazer. Mas você sabe que o último homem, quando a última radiação houver reduzido o último adversário a cinzas, tomará uma mesa mal ajeitada, se sentará e começará o processo contra o responsável.
Não posso deixar de pensar em uma crítica que não procure criticar, mas fazer existir uma obra, uma frase, uma idéia; acenderia fogos, olharia a grama crescer, escutaria o vento e imediatamente tomaria a espuma do mar para a dispersar. Reproduziria, ao invés de juízos, sinais de vida; invocá-los-ia, arrancá-los-ia do seu sono. Quem sabe os inventaria? Tanto melhor, tanto melhor. A crítica sentenciosa faz-me adormentar; gostaria de uma crítica feita com centelhas de imaginação. Não seria soberana, nem vestida de vermelho. Traria consigo os raios de possíveis tempestades.
Há, porém, tantas coisas a conhecer, tantos trabalhos interessantes, que a mídia deveria falar todo o tempo de filosofia?
Certamente, entre a "crítica" e aqueles que escrevem livros existe um mal-estar de longa data. Uns não se sentem entendidos e outros acreditam que se queira fazer pressão sobre eles. Mas o jogo é este.
Parece-me que hoje a situação seja bastante particular. Temos instituições pobres, enquanto nos encontramos em situação de super-abundância.
Todos deram-se conta da exaltação que freqüentemente acompanha a publicação ( ou a reedição) de obras, que, aliás, às vezes são interessantes. Trata-se, sempre, de nada menos que a "subversão de todos os códigos", do "antagonista da cultura contemporânea", da "discussão radical de todo o nosso modo de pensar". O seu autor deve ser um marginal incompreendido.
Em compensação, não há dúvida de que os outros devam ser remetidos à obscuridade da qual nunca deveriam ter saído; não eram senão a espuma de "uma moda irrelevante", um simples produto institucional, etc.
Diz-se que se trata de um fenômeno parisiense e superficial. Contudo, eu percebo aí os efeitos de uma inquietação profunda. O sentimento do "nenhum lugar vazio", "ou ele ou eu", "um por vez". Está-se em fila indiana, por causa da extrema exigüidade de lugares em que se pode escutar e fazer-se ouvir.
Resulta daí uma espécie de angústia que irrompe em mil sintomas, mais ou menos curiosos. A partir disso, naqueles que escrevem, o sentimento da sua impotência diante da mídia, que é acusada de dominar o mundo dos livros e de dar existência ou de fazer desaparecer aqueles que agradam ou desagradam. A partir disso, nos críticos, o sentimento de conseguir fazer-se ouvir, a não ser que se levante o tom e se tire da cartola um coelho por semana. A partir disso, a pseudo-politização que mascara, sob a alegação da necessidade de mover uma "batalha ideológica" ou de acabar com os "pensamentos perigosos", a ânsia profunda de não ser lidos nem ouvidos. A partir disso, também a fobia fantástica do poder: cada pessoa que escreve exerce um poder inquietante a que se precisa pôr, se não um fim, pelo menos limites. A partir disso também a afirmação um pouco encantadora segundo a qual, atualmente, tudo é vazio, desolado, sem interesse e importância: afirmação que, evidentemente, provém daqueles que, não fazendo nada, pensam que os outros são supérfluos.
Mas não acredita que a nossa época é realmente sem espíritos à altura dos seus problemas e de grandes escritores?
Não, não acredito no refrão da decadência, da ausência de escritores, da esterilidade do pensamento, do horizonte negro e tétrico.
Creio, pelo contrário, que há uma abundância excessiva. E que não sofremos por causa do vazio, mas porque os meios para pensar em tudo o que acontece sejam demasiado poucos. Há muitíssimas coisas a conhecer: fundamentais, terríveis, maravilhosas ou estranhas, ao mesmo tempo minúsculas e capitais. Além disso, há uma curiosidade imensa, uma necessidade, um desejo de conhecer. Sempre lamentamos que a mídia embote a cabeça das pessoas. Nesta idéia há alguma misantropia. Acredito, pelo contrário, que as pessoas reagem: quanto mais se procura convencê-las, mais se interrogam. O espírito não é uma cera mole. É uma substância reativa. E o desejo de saber mais, melhor e diversamente, cresce à medida que se procura encher as cabeças.
Se isso for verdade e se acrescentarmos a isso que, na universidade e em outros lugares, se estão formando grandes quantidades de pessoas que podem servir de intermediários entre a massa de coisas e a avidez de saber, pode-se bem rapidamente deduzir que a desocupação dos estudantes é a coisa mais absurda que há. O problema consiste em multiplicar os canais, as passarelas, os meios de informação, as redes televisivas e as radiofônicas, os jornais.
A curiosidade foi um vício estigmatizado sucessivamente pelo Cristianismo, pela filosofia e até por uma certa concepção da ciência. Curiosidade, futilidade. Mesmo assim, a palavra me agrada. Sugere-me algo bem diferente: evoca a "cuidado", a atenção que se presta ao que existe ou poderia existir; um sentido agudo do real, que, porém, nunca se imobiliza diante disso; uma prontidão em julgar estranho e singular aquilo que nos circunda; uma certa obstinação em desfazer-se do que é familiar e em olhar as mesmas coisas de forma diferente; um ardor em colher o que acontece e aquilo que passa; uma desenvoltura com relação às hierarquias tradicionais entre o que é importante e o que é essencial.
Sonho com uma nova idade da curiosidade. Os meios técnicos existem; o desejo existe; as coisas a conhecer são infinitas; as pessoas que podem empenhar-se nesta tarefa existem. De que então sofremos? De escassez: canais estreitos, exígüos, quase monopolistas, insuficientes. Não se trata de adotar atitude protecionista para impedir que uma "má" informação invada e sufoque a "boa". Importa, pelo contrário, multiplicar os trajetos e as possibilidades de ir e vir. Nenhum colbertismo neste campo. O que não significa, como frequentemente se teme, uniformização e nivelamento por baixo. Significa, sim, diferenciação e simultaneidade de redes diferentes.
Imagino que, neste plano, a mídia e as universidades poderiam ter funções complementares, ao invés de continuarem a opor-se.
Você lembra a admirável frase de Sylvain Lévy: o ensino comporta um ouvinte; basta haver dois que se torna vulgarização. Também os livros, a universidade, as revistas cultas são mídia. Dever-se-ia evitar de chamar mídia os canais de informação aos quais não se pode ou não se quer ter acesso. Importa entender como fazer que as diferenças ajam; saber se devemos instaurar uma zona reservada, um "parque cultural" para as frágeis espécies dos cultos, ameaçados pelas grandes aves de rapina da informação, enquanto todo o resto do espaço seria um vasto mercado de bugigangas. Não me parece que semelhante repartição corresponda à realidade. Pior: não me parece de fato desejável. Para fazer que as diferenças úteis ajam não deve haver repartição alguma.
Procuremos fazer uma proposta concreta. Se tudo vai mal, onde se pode começar?
Não, não vai tudo mal. Em todo caso, creio que não se deve confundir a crítica construtiva contra as coisas com as jeremiadas repetitivas contra as pessoas. Com relação a propostas concretas, elas aparecem como "gadgets", se antes não forem precisados alguns princípios gerais. Este, em primeiro lugar: o direito ao saber não deve ser reservado nem a uma idade da vida, nem a certas categorias de indivíduos; se deve poder exercitá-lo ininterruptamente e de formas múltiplas.
Mas esta vontade de saber não é ambígua? Afinal, o que as pessoas farão com todo este saber que está adquirindo? A que pode servir?
Uma das funções principais do ensino consistia nisto: a formação do indivíduo caminhava no mesmo passo da determinação do seu lugar na sociedade. Hoje precisaríamos conceber o ensino de modo tal que permitisse ao indivíduo de se modificar a seu prazer; e isso é possível apenas sob a condição de que o ensino seja uma possibilidade oferecida "permanentemente".
Em suma, você é a favor de uma sociedade culta?
Digo que a vinculação com a cultura deve ser contínua e a mais polimorfa possível. Não deveria haver, por um lado, uma formação que se sofre e, por outro, uma informação a que se é submetido.
O que acontecerá, em uma sociedade culta, com a filosofia eterna?... Ainda temos necessidade dela, das suas interrogações sem resposta e dos seus silêncios diante do incognoscível?
O que é a filosofia senão um modo de refletir, não tanto sobre aquilo que é verdadeiro e aquilo que é falso, mas sobre a nossa relação com a verdade? Às vezes a gente se lamenta por não existir na França uma filosofia dominante. Muito melhor. Não há nenhuma filosofia soberana, é verdade, mas há uma filosofia ou, melhor, há filosofia em atividade. A filosofia é o movimento pelo qual nos libertamos – com esforços, hesitações, sonhos e ilusões – daquilo que passa por verdadeiro, a fim de buscar outras regras do jogo. A filosofia é o deslocamento e a transformação das molduras de pensamento, a modificação dos valores estabelecidos, e todo o trabalho que se faz para pensar diferentemente, para fazer diversamente, para tornar-se outro do que se é. Sob este ponto de vista, os últimos trinta anos foram período de intensa atividade filosófica. A interferência entre a análise, a pesquisa, a crítica "culta" ou "teórica" e as mudanças no comportamento, a conduta real das pessoas, a sua maneira de ser, a sua relação consigo mesmas e com os outros, foi constante e considerável.
Há pouco dizia que a filosofia é um modo de refletir sobre a nossa relação com a verdade. É preciso acrescentar: é um modo de perguntar-se: se esta é a relação que temos com a verdade, como devemos comportar-nos? Creio que tenha sido feito e que se esteja continuando a fazer um trabalho considerável e múltiplo, que modifica, contemporaneamente, o nosso vínculo com a verdade e a nossa maneira de nos comportarmos. E isso em ligação complexa entre uma série de pesquisas e um conjunto de movimentos sociais. É a própria vida da filosofia.
É compreensível que alguns lastimem o vazio atual e busquem, na ordem das idéias, um pouco de monarquia. Mas aqueles que, pelo menos uma vez na própria vida, provaram um tom novo, uma nova maneira de olhar, um outro modo de fazer, aqueles, creio, nunca sentirão a necessidade de se lamentar porque o mundo é um erro, a história está farta de inexistências; é tempo para que os outros fiquem calados, permitindo assim que não se ouça mais o som da reprovação por parte deles...
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FOUCAULT, Michel. Archivio Foucault. Vol. 3. Estetica dell’esistenza, etica, politica. A cura di Alessandro Pandolfi. Milano, Feltrinelli, 1994, pp. 137-144. Tradução portuguesa de Selvino José Assmann. Fpolis, setembro de 2000.  
Este texto foi gentilmente cedido por Marco Antonio Frangiotti, e aparece originalmente no site de "textos de interesses filosóficos"
buscado em: cooperação.sem.mando

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

flecheira.libertária.269


balancinho eleitoral  
No final, rondando os 30% seguem os dois candidatos para o segundo turno das eleições de São Paulo, repetindo os índices regulares de eleições anteriores. Nas últimas duas semanas os ataques diretos ao candidato refugiado na sigla evangélica, minaram parcialmente as repercussões midiáticas do passado do candidato. A sempre oscilante parte do eleitorado reacionário de classe média baixa e circunvizinhança pendeu para os candidatos que ofereceram garantias  políticas mais seguras. O eleitorado reacionário que ronda os 35%, expressa um segmento duro e de disposição fascista. Mas em eleição o que importa é ser majoritário. E assim crescem os fascistas, os ilusionistas democratas, os senhores do pastorado, os vitoriosos de sempre.
dispositivos de exceção  
O rebanho comparece à votação. Porque deseja e porque faz da obrigação seu ato de liberdade. Amam a legislação de exceção que lhes impuseram como sua escolha. Quem não comparecer à votação sem justificar sua ausência sabe que isso pode lhe custar o emprego! Como derrubar esta fantasia? Estamos todos presos! 
eleições e controle eletrônico 
O sistema de identificação biométrico sempre esteve intimamente ligado ao controle nas prisões e à classificação de indivíduos considerados perigosos. Hoje, no Brasil, as mais altas tecnologias biométricas vêm sendo utilizadas em empresas, bancos, computadores pessoais e etc. Nas eleições de 2012, algumas cidades já adotaram a identificação biométrica eletrônica – acoplada à tecnologia da urna eletrônica – para garantir a  segurança e a transparência no processo eleitoral. Para além do fato do voto ser obrigatório no Brasil, seu caráter secreto também já não existe há algum tempo. Os amantes servis da democracia representativa acham graça nas  facilidades propiciadas pela tecnologia. Desse modo, aquele que é considerado um dos momentos mais emblemáticos da democracia representativa apenas escancara o que está presente no que há de mais ordinário em nosso cotidiano, o fato de que, cada vez mais, estamos todos presos. 
além do voto e da política 
Como contraposição à realização dos pleitos eleitorais em todo o país, certos grupos de São Paulo organizaram a “Semana do Não Vote”. Constituída por uma programação de debates, exibições de vídeos, festas e até um “churrascão da justificativa”, marcado para domingo à tarde numa praça da região central da  cidade, a Semana visou, segundo seus organizadores, explicitar a “descrença” com a democracia representativa e propor uma “alternativa política” baseada em práticas libertárias. O posicionamento em favor da abstenção destoou de velhas ladainhas em torno do voto nulo. Entretanto, a disposição inicial de embate com a obrigatoriedade do voto colmatou-se na propaganda da abstenção como mero protesto a reboque da organização de uma alternativa política. É preciso ir além do voto. Mas não basta. A política e as infindáveis reformas e profusões de alternativas que a sustentam também devem ser arruinadas. 
escrachando o voto 
O voto obrigatório foi instituído durante a ditadura civil-militar e permaneceu obrigatório mesmo depois de ter passado pela denominada “abertura política” nos anos 1980, e a chamada consolidação da democracia na última década do século XX. A obrigatoriedade do voto é o rescaldo apodrecido, em plena democracia, do que há de mais abominável na recente política brasileira. Por que não – em tempos que certos jovens corajosos escracham torturadores e serviçais da ditadura civil-militar – não abolirmos este senhor decrépito e autoritário denominado voto obrigatório? É preciso escrachar o que persiste de ranço da ditadura civil-militar no presente. Por que não? 
porque sim 
O argumento da ditadura civil-militar para justificar o voto obrigatório se baseou na ortopedia político-pedagógica que propunha educar o cidadão para votar, formatando sua consciência democrática. Anunciava que quando o cidadão já estivesse conscientizado, as eleições voltariam a ocorrer pelo voto facultativo. Essa tal pedagogia foi incorporada pelas lideranças políticas, seus intelectuais e militantes e se tornou mais um normalizador dispositivo de exceção na democracia. 
criança esperança 
No Rio de Janeiro, uma renomada escola particular instituiu para os alunos do ensino fundamental um exercício de processo eleitoral, no qual os alunos  votaram em chapas compostas por colegas para eleger “prefeitos” e “vereadores” de cada série. A diretora frisou não se tratar de uma simulação, pois os “programas políticos” elaborados pelos próprios candidatos e suas “equipes de assessores” de colegas serão implantados ou negociados com a direção visando sua efetivação. Um dos “candidatos” colocou no seu “programa” a demanda por dois professores em sala de aula para “controlar a bagunça”, enquanto uma “pequena eleitora” disse que iria fiscalizar para valer se as promessas seriam cumpridas. A diretora, orgulhosa, considera a proposta um sucesso na formação da cidadania em plena semana de eleições municipais. Assim, educa-se desde a mais tenra idade os futuros  cidadãos, talhados para serem  agentes de uma democracia a ser gerenciada com controles, procedimentos, obediência e adesão a um inevitável, único e desejável modelo político.

IDEAS Y CREENCIAS


por José Ortega y Gasset 

CREER Y PENSAR 

I - Las ideas se tienen; en las creencias se está. - "Pensar en las cosas" y "contar con ellas". 
Cuando se quiere entender a un  hombre, la vida de un hombre, procuramos ante todo averiguar cuáles son sus ideas. Desde que el europeo cree tener "sentido histórico", es ésta la exigencia más elemental. ¿Cómo no van a influir en la existencia de una persona sus ideas y las ideas de su tiempo? La cosa es obvia. Perfectamente; pero la cosa es también bastante equívoca, y, a mi inicio, la insuficiente claridad sobre lo que se busca cuando se inquieren las ideas de un hombre -o de una época- impide que se obtenga claridad sobre su vida, sobre su historia.  
Con la expresión "ideas de un hombre" podemos referirnos a cosas muy diferentes. Por ejemplo: los pensamientos que se le ocurren acerca de esto o de lo otro y los que se le ocurren al prójimo y él repite y adopta. Estos pensamientos pueden poseer los grados más diversos de verdad. Incluso pueden ser "verdades científicas". Tales  diferencias, sin embargo, no importan mucho, si importan algo, ante la cuestión mucho más radical que ahora planteamos. Porque, sean pensamientos vulgares, sean rigorosas "teorías científicas", siempre se tratará de ocurrencias que en un hombre surgen, originales suyas o insufladas por el prójimo. Pero esto implica evidentemente que el hombre estaba ya ahí antes de que se le ocurriese o adoptase la idea. Ésta brota, de uno u otro modo, dentro de una vida que preexistía a ella. Ahora bien, no hay vida humana que no esté desde luego constituida por ciertas creencias básicas y, por decirlo así, montada sobre ellas. Vivir es tener que habérselas con algo -con el mundo y consigo mismo. Mas ese mundo y ese "sí mismo" con que el hombre se encuentra le aparecen ya bajo la especie de una interpretación, de "ideas" sobre el mundo y sobre sí mismo.  
Aquí topamos con otro estrato de ideas que un hombre tiene. Pero ¡cuán diferente de todas aquellas que se le ocurren o que adopta! Estas "ideas" básicas que llamo "creencias" -ya se verá por qué- no surgen en tal día y hora dentro de nuestra vida, no arribamos a ellas por un acto particular de pensar, no son, en suma, pensamientos que tenemos, no son ocurrencias ni siquiera de aquella especie más elevada por su perfección lógica y que denominamos razonamientos. Todo lo contrario: esas ideas que son, de verdad, "creencias" constituyen el continente de  nuestra vida y, por ello, no tienen el carácter de contenidos particulares dentro de ésta. Cabe decir que no son ideas que tenemos, sino ideas que somos. Más aún: precisamente porque son creencias radicalísimas se confunden para nosotros con la realidad misma -son nuestro mundo y nuestro ser-, pierden, por tanto, el carácter de ideas, de pensamientos nuestros que podían muy bien no habérsenos ocurrido.  
Cuando se ha caído en la cuenta de la diferencia existente entre esos dos estratos de ideas aparece, sin más, claro el diferente papel que juega en nuestra vida. Y, por lo pronto, la enorme diferencia de rango  funcional. De las ideas-ocurrencias -y conste que incluyo en ellas las verdades más rigorosas de la ciencia- podemos decir que las producimos, las sostenemos, las discutimos, las propagamos, combatimos en su pro y hasta somos capaces de morir por ellas. Lo que no podemos es ... vivir de ellas. Son obra nuestra y, por lo mismo, suponen ya nuestra vida, la cual se asienta en ideas-creencias que no producimos nosotros, que, en general, ni siquiera nos formulamos y que, claro está, no discutimos ni propagamos ni sostenemos. Con las creencias propiamente no hacemos nada, sino que simplemente estamos en ellas. Precisamente lo que no nos pasa jamás- si hablamos cuidadosamente- con nuestras  ocurrencias. El lenguaje vulgar ha inventado certeramente la expresión "estar en la creencia". En efecto, en la creencia se está, y la ocurrencia se tiene y se sostiene. Pero la creencia es quien nos tiene y sostiene a nosotros.  
Hay, pues, ideas con que nos encontramos -por eso las llamo ocurrencias- e ideas en que nos encontramos, que parecen estar ahí ya antes de que nos ocupemos en pensar.  
Una vez visto esto, lo que sorprende es que a unas y a otras se les llame lo mismo: ideas. La identidad de nombre es lo único que estorba para distinguir dos cosas cuya disparidad brinca tan claramente ante nosotros sin más que usar frente a frente estos dos términos: creencias y ocurrencias. La incongruente conducta de dar un mismo nombre a dos cosas tan distintas no es, sin embargo, una casualidad ni una distracción. Proviene de una incongruencia más honda: de la confusión entre dos problemas radicalmente diversos que exigen dos modos de pensar y de llamar no menos dispares.  
Pero dejemos ahora este lado del asunto: es demasiado abstruso. Nos basta con hacer notar que "idea" es un término del vocabulario psicológico y que la psicología, como toda ciencia particular, posee sólo  jurisdicción subalterna. La verdad de sus conceptos es relativa al punto de vista particular que la constituye y vale en el horizonte que ese punto de vista crea y acota. Así, cuando la psicología dice de algo que es una "idea", no pretende haber dicho lo más decisivo, lo más real sobre ello. El único punto de vista que no es particular y relativo es el de la vida, por la sencilla razón de que todos los demás se dan dentro de ésta y son 
meras especializaciones de aquél. Ahora bien, como fenómeno vital la creencia no se parece nada a la ocurrencia: su función en el organismo de nuestro existir es totalmente distinta y, en cierto modo,  antagónica. ¿Qué importancia puede tener en parangón con esto el hecho de que, bajo la perspectiva psicológica, una y otra sean "ideas" y no sentimientos, voliciones, etcétera?  
Conviene, pues, que dejemos este término -"ideas"- para designar todo aquello que en  nuestra vida aparece como resultado de nuestra ocupación intelectual. Pero las creencias se nos presentan con el carácter opuesto. No llegamos a ellas tras una faena de entendimiento, sino que operan ya en nuestro fondo cuando nos ponemos a pensar sobre algo. Por eso no solemos formularlas, sino que nos contentamos con aludir a ellas como solemos hacer con todo lo que nos es la realidad misma. Las teorías, en cambio, aun las más verídicas, sólo existen mientras son pensadas: de aquí que necesiten ser formuladas.  
Esto revela, sin más, que todo aquello en que nos ponemos a pensar tiene ipso facto para nosotros una realidad problemática y ocupa en nuestra vida un lugar secundario si se le compara con nuestras creencias auténticas. En éstas no pensamos ahora o luego: nuestra relación con ellas consiste en algo mucho más eficiente; consiste en... contar con ellas, siempre, sin pausa.  
Me parece de excepcional importancia para inyectar, por fin, claridad en la estructura de la vida humana esta contraposición entre pensar en una cosa y contar con ella. El intelectualismo que ha tiranizado, casi sin interrupción, el pasado entero de la filosofía ha impedido que se nos haga patente y hasta ha invertido el valor respectivo de ambos términos. Me explicaré.  
Analice el lector cualquier comportamiento suyo, aun el más sencillo en apariencia. El lector está en su casa y, por unos u otros motivos, resuelve salir a la calle. ¿Qué es en todo este su comportamiento lo que propiamente tiene el carácter de pensado, aun entendiendo esta  palabra en su más amplio sentido, es decir, como conciencia clara y actual de algo? El lector se ha dado cuenta de sus motivos, de la resolución adoptada, de la ejecución de los movimientos con que ha caminado, abierto la puerta, bajado la escalera. Todo esto en el caso más favorable. Pues bien, aun en ese caso y por mucho que busque en su conciencia no encontrará en ella ningún pensamiento en que se haga constar que hay calle. El lector no se ha hecho cuestión ni por un momento de si la hay a no la hay ¿Por qué? No se negará que para resolverse a salir a la calle es de cierta importancia que la calle exista. En rigor, es lo más importante de todo, el supuesto de todo lo demás. Sin embargo, precisamente de ese tema tan importante no se ha hecho cuestión el lector, no ha pensado en ello ni para negarlo ni para afirmarlo ni para ponerlo en duda. ¿Quiere esto decir que la existencia o no existencia de la calle no ha intervenido en su comportamiento? Evidentemente, no. La prueba se tendría si al llegar a la puerta de su casa descubriese que la calle habla desaparecido, que la tierra concluía en el umbral de su domicilio o que ante é1 se habla abierto una sima. Entonces se produciría en la conciencia del lector una clarísima y violenta sorpresa. ¿De qué? De que no había aquélla. Pero ¿no habíamos quedado en que antes no había pensado que la hubiese, no se había hecho cuestión de ello? Esta sorpresa pone de manifiesto hasta qué punto la existencia de la calle actuaba en su estado anterior, es decir, hasta qué punto el lector contaba con la calle  aunque no pensaba en ella y precisamente porque no pensaba en ella.  
El psicólogo nos dirá que  se trata de un pensamiento habitual, y que por eso no nos damos cuenta de él, o usará la hipótesis de lo subconsciente, etc. Todo ello, que es muy cuestionable, resulta para  nuestro asunto por completo indiferente. Siempre quedará que lo que decisivamente actuaba en nuestro comportamiento, como que era su básico supuesto, no era pensado por nosotros con conciencia clara y aparte. Estaba en nosotros, pero no en forma consciente, sino como implicación latente  de nuestra conciencia o pensamiento. Pues bien, a este modo de intervenir algo en nuestra vida sin que lo pensemos llamo "contar con ello". Y ese modo es el propio de nuestras efectivas creencias.  
El intelectualismo, he dicho, invierte el valor de los términos. Ahora resulta claro el sentido de esta acusación. En efecto, el intelectualismo tendía a considerar como lo más eficiente en nuestra vida lo más consciente. Ahora vemos que la verdad es lo contrario. La máxima eficacia sobre nuestro comportamiento reside en las implicaciones latentes de nuestra actividad intelectual, en todo aquello con que contamos y en que, de puro contar con ello, no pensamos.  
¿Se entrevé ya el enorme error cometido al querer aclarar la vida de un hombre o una época por su ideario; esto es, por sus pensamientos especiales, en lugar de penetrar más hondo, hasta el estrato de sus creencias más o menos inexpresas, de las cosas con que contaba? Hacer esto, fijar el inventario de las cosas con que se cuenta, sería, de verdad, construir la historia, esclarecer la vida desde su subsuelo.  

II - El azoramiento de nuestra época. - Creemos en la razón y no en sus ideas. La ciencia casi poesía. 
Resumo: cuando intentamos determinar cuáles son las ideas de un hombre o de una época, solemos confundir dos cosas radicalmente distintas: sus  creencias y sus ocurrencias o "pensamientos". En rigor, sólo estas últimas deben llamarse "ideas".  
Las creencias constituyen la base de nuestra vida, el terreno sobre que acontece. Porque ellas nos ponen delante lo que para nosotros es la realidad misma. Toda nuestra conducta, incluso la intelectual, depende de cuál sea el sistema de nuestras creencias auténticas. En ellas "vivimos, nos movemos y somos". Por lo mismo, no solemos tener conciencia expresa de ellas, no las pensamos, sino que actúan latentes, como implicaciones de cuanto expresamente hacemos o pensamos. Cuando creemos de verdad en una cosa no tenemos la "idea" de esa cosa, sino que simplemente "contamos con ella".  
En cambio, las ideas, es decir, los pensamientos que tenemos sobre las cosas, sean originales o recibidos, no poseen en nuestra vida valor de realidad. Actúan en ella precisamente como pensamientos nuestros y sólo como tales. Esto significa que toda nuestra "vida intelectual" es secundaria a nuestra vida real o auténtica y representa a ésta sólo una dimensión virtual o imaginaria. Se preguntará qué significa entonces la verdad de las ideas, de las teorías. Respondo: la verdad o falsedad de una idea es una cuestión de "política interior" dentro del mundo imaginario de nuestras ideas. Una idea es verdadera cuando corresponde a la idea que tenemos de la realidad. Pero nuestra idea de la realidad no es nuestra realidad. Ésta consiste en todo aquello con que de hecho contamos al vivir. Ahora bien, de la mayor parte de las cosas con que de hecho contamos no tenemos la menor idea, y si la tenemos -por un especial esfuerzo de reflexión sobre nosotros mismos- es indiferente porque no nos es realidad en cuanto idea, sino, al contrario, en la medida en que no nos es sólo idea, sino creencia infraintelectual.  
Tal vez no haya otro asunto sobre el que importe más a nuestra época conseguir claridad como este de saber a qué atenerse sobre el papel y puesto que en la vida humana corresponde a todo lo intelectual. Hay una clase de épocas que se caracterizan por su gran azoramiento. A esa clase pertenece la nuestra. Mas cada una de esas épocas se azora un poco de otra manera y por un motivo distinto. El gran azoramiento de ahora se nutre últimamente de que tras varios siglos de ubérrima producción intelectual y de máxima atención a ella el hombre empieza a no saber qué hacerse con las ideas. Presiente ya que las habla tomado mal, que su papel en la vida es distinto del que en estos siglos les ha atribuido, pero aún ignora cuál es su oficio auténtico.  
Por eso importa mucho que, ante todo, aprendamos a separar con toda limpieza la "vida intelectual" -que, claro está, no es tal vida- de la vida viviente, de la real, de la que somos. Una vez hecho esto y bien hecho, habrá lugar para plantearse las otras dos cuestiones: ¿En qué relación mutua actúan las ideas y las creencias? ¿De dónde vienen, cómo se forman las creencias?.  
Dije en el parágrafo anterior que inducía a error dar indiferentemente el nombre de ideas a creencias y ocurrencias. Ahora agrego que el mismo daño produce hablar, sin distingos, de creencias, convicciones, etc., cuando se trata de ideas. Es, en efecto, una equivocación llamar creencia a la adhesión que en nuestra mente suscita una combinación intelectual, cualquiera que ésta sea. Elijamos el caso extremo que es el pensamiento científico más rigoroso, por tanto, el que se funda en evidencias. Pues bien, aun en ese caso, no cabe hablar en serio de creencia. Lo evidente, por muy evidente que sea, no nos es realidad, no creemos en 
ello. Nuestra mente no puede evitar reconocerlo como verdad; su adhesión es automática, mecánica. Pero, entiéndase bien, esa adhesión, ese reconocimiento de la verdad no significa sino esto: que, puestos a pensar en el tema, no admitiremos en nosotros un pensamiento distinto ni opuesto a ese que nos parece evidente. Pero... ahí está: la adhesión mental tiene como condición que nos pongamos a pensar en el asunto, que queramos pensar. Basta esto para hacer notar la irrealidad constitutiva de toda nuestra "vida intelectual". Nuestra adhesión a un pensamiento dado es, repito, irremediable; pero, como está en nuestra mano pensarlo o no, esa adhesión tan irremediable, que se nos pondría como la más imperiosa realidad, se convierte en algo dependiente de nuestra voluntad e ipso facto deja de sernos realidad. Porque realidad es precisamente aquello con que contamos, queramos o no. Realidad es la contravoluntad, lo que nosotros no ponemos; antes bien, aquello con que topamos.  
Además de esto, tiene el hombre clara conciencia de que su intelecto se ejercita sólo sobre materias cuestionables; que la verdad de las ideas se alimenta de su cuestionabílidad. Por eso, consiste esa verdad en la prueba que de ella pretendemos dar. La idea necesita de la critica como el pulmón del oxigeno y se sostiene y afirma apoyándose en otras ideas que, a su vez, cabalgan sobre otras formando un todo o sistema. Arman, pues, un mundo aparte del mundo real, un mundo integrado exclusivamente por ideas de que el hombre se sabe fabricante y responsable. De suerte que la firmeza de la idea más firme se reduce a la solidez con que aguanta ser referida a todas las demás ideas. Nada menos, pero también nada más. Lo que no se puede es contrastar una idea, como si fuera una moneda, golpeándola directamente contra la realidad, como si fuera una piedra de toque. La verdad suprema es la de lo evidente, pero el valor de la evidencia misma es, a su vez, meta teoría, idea y combinación intelectual.  
Entre nosotros y nuestras ideas hay, pues, siempre una distancia infranqueable: la que va de lo real a lo imaginario. En cambio, con nuestras creencias estamos inseparablemente unidos. Por eso cabe decir que las somos. Frente a nuestras concepciones gozarnos un margen, mayor o menor, de independencia. Por grande que sea su influencia sobre nuestra vida, podemos siempre suspenderlas, desconectarnos de nuestras teorías. Es más, de hecho exige siempre de nosotros algún especial esfuerzo comportarnos conforme a lo que pensamos, es decir, tomarlo completamente en serio. Lo cual revela que no creemos en ello, que presentimos como un riesgo esencial fiarnos de nuestras ideas, hasta el punto de entregarles nuestra conducta  tratándolas como si fueran creencias. De otro modo,  no apreciaríamos el ser "consecuente con sus ideas" como algo especialmente heroico.  
No puede negarse, sin embargo, que nos es normal regir nuestro comportamiento conforme a muchas "verdades científicas". Sin considerarlo heroico, nos vacunamos, ejercitamos usos, empleamos instrumentos que, en rigor, nos parecen peligrosos y cuya seguridad no tiene más garantía que la de la ciencia. La explicación es muy sencilla y sirve, de paso, para aclarar al lector algunas dificultades con que habrá tropezado desde el comienzo de este ensayo. Se trata simplemente de recordarle que entre las creencias del 
hombre actual es una de las más importantes su creencia en la "razón", en la inteligencia. No precisemos ahora las modificaciones que en estos últimos años ha experimentado esa creencia. Sean las que fueren, es indiscutible que lo esencial de esa creencia subsiste, es decir, que el hombre continúa contando con la eficiencia de su intelecto como una de las realidades que hay, que integran su vida. Pero téngase la serenidad de reparar que una cosa es fe en la inteligencia y otra creer en las ideas determinadas que esa inteligencia fragua. En ninguna de estas ideas se cree con fe directa. Nuestra creencia se refiere a la cosa, inteligencia, así en general, y esa fe no es una idea sobre la inteligencia. Compárese la precisión de esa fe en la inteligencia con la imprecisa idea que casi todas las gentes tienen de la inteligencia. Además, como ésta corrige sin cesar sus concepciones y a la verdad de ayer sustituye la de hoy, si nuestra fe en la inteligencia consistiese en creer directamente en las ideas, el cambio de éstas traería consigo la pérdida de fe en la inteligencia. Ahora bien, pasa. todo lo contrario. Nuestra fe en la razón ha aguantado imperturbable los cambios más escandalosos de sus teorías, inclusive los cambios profundos de la teoría sobre qué es la razón misma. Estos últimos han influido, sin duda, en la forma de esa fe, pero esta fe seguía actuando impertérrita bajo una u otra forma.  
He aquí un ejemplo espléndido de lo que deberá, sobre todo, interesar a la historia cuando se resuelva verdaderamente a ser ciencia, la ciencia del hombre. En vez de ocuparse sólo en hacer la "historia" -es decir, en catalogar la sucesión- de las ideas sobre la razón desde Descartes a la fecha, procurará definir con precisión cómo era la fe en la razón que efectivamente operaba en cada época y cuáles eran sus consecuencias para la vida. Pues es evidente que el argumento del drama en que la vida consiste es distinto si se está en la creencia de que un Dios omnipotente y benévolo existe que si se está en la creencia contraria. Y también es distinta la vida, aunque la diferencia sea menor, de quien cree en la capacidad absoluta de la razón para descubrir la realidad, como se creía a fines del siglo XVII en Francia, y quien cree, como los positivistas de 1860, que la razón es por esencia conocimiento relativo.  
Un estudio como éste nos permitiría ver con claridad la modificación sufrida por nuestra fe en la razón durante los últimos veinte años, y ello derramaría sorprendente luz sobre casi todas las cosas extrañas que acontecen en nuestro tiempo.  
Pero ahora no me urgía otra cosa sino hacer que el lector cayese en la cuenta de cuál es nuestra relación con las ideas, con el mundo intelectual. Esta relación no es de fe en ellas: las cosas que nuestros pensamientos, que las teorías nos proponen, no nos son realidad, sino precisamente y sólo... ideas.  
Mas no entenderá bien el lector lo que algo nos es, cuando nos es sólo idea y no realidad, si no le invito a que repare en su actitud frente a lo que se llama "fantasías, imaginaciones". Pero el mundo de la fantasía, de la imaginación, es la poesía. Bien, no me arredro; por el contrario, a esto quería llegar. Para hacerse bien cargo de lo que nos son las ideas, de su papel primario en la vida, es preciso tener el valor de acercar la ciencia a la poesía mucho más de lo que hasta aquí se ha osado. Yo diría, si después  de todo lo enunciado se me quiere comprender bien, que la ciencia está mucho más cerca de la poesía que de la realidad, que su función en el organismo de nuestra vida se parece mucho a la del arte. Sin duda, en comparación con una novela, la ciencia parece la realidad misma. Pero en comparación con la realidad auténtica se advierte lo que la ciencia tiene de novela, de fantasía, de construcción mental, de edificio imaginario.  
  
III - La duda y la creencia - El "mar de dudas" - El lugar de las ideas. 

El hombre, en el fondo, es crédulo o, lo que es igual, el estrato más profundo de nuestra vida, el que sostiene y porta todos los demás, está formado por creencias 1. Éstas son, pues, la tierra firme sobre que nos afanamos. (Sea dicho de paso que la metáfora se origina en una de las creencias más elementales que poseemos y sin la cual tal vez no podríamos vivir: la creencia en que la tierra es firme, a pesar de los terremotos que alguna vez y en la superficie de algunos de sus lugares acontecen. Imagínese que mañana, por unos u otros motivos, desapareciera esa creencia. Precisar las líneas mayores del cambio radical que en la figura de la vida humana esa desaparición produciría, fuera un excelente ejercicio de introducción al pensamiento histórico).  
Pero en esa área básica de nuestras creencias se abren, aquí o allá, como escotillones, enormes agujeros de duda. Éste es el momento de decir que la duda, la verdadera, la que no es simplemente metódica ni intelectual, es un modo de la creencia y pertenece al mismo estrato que ésta en la arquitectura de la vida. También en la duda se está. Sólo que en este caso el estar tiene un carácter terrible. En la duda se está como se está en un abismo, es decir, cayendo. Es, pues, la negación de la estabilidad. De pronto sentimos que bajo nuestras plantas falla la firmeza terrestre y nos parece caer, caer en el vacío, sin poder valernos, sin poder hacer nada para afirmarnos, para vivir. Viene a ser como la muerte dentro de la vida, como asistir a la anulación de nuestra propia existencia. Sin embargo, la duda conserva de la creencia el carácter de ser algo en que se está, es decir, que no lo hacemos o ponemos nosotros. No es una idea que podríamos pensar o no, sostener, criticar, formular, sino que, en absoluto, la somos. No se estime como paradoja, pero considero muy difícil describir lo que es la verdadera duda si no se dice que creemos nuestra duda.  
Si no fuese así, si dudásemos de nuestra duda, sería ésta innocua. Lo terrible es que actúa en nuestra vida exactamente lo mismo que la creencia y pertenece al mismo estrato que ella. La diferencia entre la fe y la duda no consiste, pues, en a creer. La duda no es un "no creer" frente al creer, ni es un "creer que no" frente a un "creer que si". El elemento diferencial está en lo que se cree. La fe cree que Dios existe o que Dios no existe. Nos sitúa, pues, en una realidad, positiva o "negativa", pero inequívoca, y, por eso, al estar en ella nos sentimos colocados en algo estable.  
Lo que nos impide entender el papel de la duda en nuestra vida es presumir que no nos pone delante una realidad. Y este error proviene, a su vez, de haber desconocido lo que la duda tiene de creencia. Sería muy cómodo que bastase dudar de algo para que ante nosotros desapareciese como realidad. Pero no acaece tal cosa, sino que la duda nos arroja ante lo dudoso, ante una realidad tan realidad como la fundada en la creencia, pero que es ella ambigua, bicéfala, inestable, frente a la cual no sabemos a qué atenernos ni qué hacer. La duda, en suma, es estar en lo inestable como tal: es la vida en el instante del terremoto, de  un terremoto permanente y definitivo.  
En este punto, como en tantos otros referentes a la vida humana, recibimos mayores esclarecimientos del lenguaje vulgar que del pensamiento científico. Los pensadores, aunque parezca mentira, se han saltado siempre a la torera aquella realidad radical, la han dejado a su espalda. En cambio, el hombre no pensador, más atento a lo decisivo, ha echado agudas miradas sobre  su propia existencia y ha dejado en el lenguaje vernáculo el precipitado de esas entrevisiones.  
Olvidamos demasiado que el lenguaje es ya pensamiento, doctrina. Al usarlo como instrumento para combinaciones ideológicas más complicadas, no tomamos en serio la ideología primaria que él expresa, que él es. Cuando, por un azar, nos despreocupamos de lo que queremos decir nosotros mediante los giros preestablecidos del idioma y atendemos a lo que ellos nos dicen por su propia cuenta, nos sorprende su agudeza, su perspicaz descubrimiento de la realidad.  
Todas las expresiones vulgares referentes a la duda nos hablan de que en ella se siente el hombre sumergido en un elemento insólido, infirme. Lo dudoso es una realidad liquida donde el hombre no puede sostenerse, y cae. De aquí el "hallarse en un mar de dudas".  
Es el contraposto al elemento de la creencia: la tierra firme.2 E insistiendo en la misma imagen, nos habla de la duda como una fluctuación, vaivén de olas. Decididamente, el mundo de lo dudoso es un paisaje marino e inspira al hombre presunciones de naufragio. La duda, descrita como fluctuación, nos hace caer en la cuenta de hasta qué punto es creencia. Tan lo es, que consiste en la superfetación del creer. Se duda porque se está en dos creencias antagónicas, que entrechocan y nos lanzan la una a la otra, dejándonos sin suelo bajo la planta. El dos va bien claro en el du de la duda.  
Al sentirse caer en esas simas que se abren en el firme solar de sus creencias, el hombre reacciona enérgicamente. Se esfuerza en "salir de la duda". Pero ¿qué hacer.? La característica de lo dudoso es que ante ello no sabemos qué hacer. ¿Qué haremos, pues, cuando lo que nos pasa es precisamente que no sabemos qué hacer porque el mundo -se entiende, una porción de él- se nos presenta ambiguo?  
Con él no hay nada que hacer. Pero en tal situación es cuando el hombre ejercita  un extraño hacer que casi no parece tal: el hombre se pone a pensar. Pensar en una cosa es lo menos que podemos hacer con ella. No hay ni que tocarla. No tenemos ni que movernos. Cuando todo en torno nuestro falla, nos queda, sin embargo, esta posibilidad de meditar sobre lo que nos falla. El intelecto es el aparato más próximo con que el hombre cuenta. Lo tiene siempre a mano. Mientras cree no suele usar de él, porque es un esfuerzo penoso. Pero al caer en la duda se agarra a él como a un salvavidas.  
Los huecos de nuestras creencias son, pues, el lugar vital donde insertan su intervención las ideas. En ellas se trata siempre de sustituir el mundo inestable, ambiguo, de la duda, por un mundo en que la ambigüedad desaparece. ¿Cómo se logra esto? Fantaseando, inventando mundos. La idea es imaginación. Al hombre no le es dado ningún mundo ya determinado. Sólo le son dadas las penalidades y las alegrías de su vida. Orientado por ellas, tiene que inventar el mundo. La mayor porción de él la ha heredado de sus mayores y actúa en su vida como sistema de creencias firmes. Pero cada cual tiene que habérselas por su cuenta con todo lo dudoso, con todo lo que es cuestión. A este fin ensaya figuras imaginaras de mundos y de su posible conducta en ellos. Entre ellas, una le parece idealmente más firme, y a eso llama verdad. Pero conste: lo verdadero, y aun lo científicamente verdadero, no es sino un caso particular de lo fantástico. Hay fantasías exactas. Más aún: sólo puede ser exacto lo fantástico. No hay modo de entender bien al hombre si no se repara en que la matemática brota de la misma raíz que la poesía, del don imaginativo.  
Diciembre 1934  
1 Dejemos intacta la cuestión de si bajo ese estrato más profundo no hay aún algo más, un fondo metafísico al que ni siquiera llegan nuestras creencias  
2 La voz tierra viene de tersa, seca, sólida   
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PARA LOS NIÑOS ESPAÑOLES 
(José Ortega y Gasset) 
Texto escrito por el autor para su inclusión en el volumen Nuestra raza, libro de lectura manuscrita escolar. Editorial Hispano-Americana. Reus, 1928 
El porvenir de España depende enteramente de vosotros los niños españoles. Y dentro de vosotros, niños españoles, depende enteramente de que aprendáis o no aprendáis una cosa. ¿Sabéis cuál? Esto que habéis de aprender y cultivar en vosotros exquisitamente, niños españoles, es lo que en mayor grado faltaba a nuestros padres y nuestros abuelos. ¿Sabéis qué es? ¡Ah!, una cosa que parece muy sencilla. Esta: distinguir entre personas. 
No ignoráis que con el ejercicio y el adiestramiento consigue el hombre perfeccionar incalculablemente su capacidad de distinguir. El pintor llega a notar la diferencia entre colores que a los demás parecen iguales. El músico distingue las más leves divergencias entre los sonidos. Para el que es catador de vinos, como lo fue el padre de Sancho Panza, no hay dos vinos iguales. La palabra "sabio" significó en un principio el que distingue de sabores. 
Pues bien, la vida de una sociedad y más aún la de un pueblo depende de que sus individuos sepan bien distinguir entre los hombres y no confundan jamás al tonto con el inteligente, al bueno con el malo. 
Mirad: a la hora en que escribo esto para vosotros hay en España, desgraciadamente, muy pocos hombres inteligentes y de corazón delicado. Solo esos hombres puros, espirituales, profundos y nobles podrían mejorar a la patria. Pero no logran que se les atienda. 
Porque los españoles que ahora forman nuestra sociedad no saben distinguir entre hombres y, acaso de buena fe, creen que son inteligentes los que son más necios, que son buenos los que son más farsantes. Ya sabéis que hay enfermos de la visión los cuales ven grises los objetos azules. Una cosa parecida nos acontece hoy a los españoles: padecemos una perversión del juicio sobre personas. Se juzga inteligentes a esos vanos charladores que llaman "políticos". Se cree que es buen poeta, buen novelista, buen profesor el que más lugares comunes dice, el que mejor halaga al público repitiendo las tonterías que este pensaba veinte años hace. 
Y en tanto los mejores, los que verdaderamente valen son poco conocidos, nadie les hace caso o, tal vez, se les combate en todas formas. 
¿Veis cuán importante seria que vosotros llegaseis a la madurez con una exquisita sensibilidad para distinguir entre el valer verdadero y el falso? 
A este fin yo os recomendaría, entre otras, cuatro reglas o criterios: 
1. No hagáis nunca caso de lo que la gente opina. La gente es toda una muchedumbre que os rodea -en vuestra casa, en la escuela, en la Universidad, en la tertulia de amigos, en el Parlamento, en el circulo, en los periódicos. Fijaos y advertiréis que esa gente no sabe nunca por qué dice lo que dice, no prueba sus opiniones, juzga por pasión, no por razón. 
2. Consecuencia de la anterior. No os dejéis jamás contagiar por la opinión ajena. Procurad convenceros, huid de contagios. El alma que  piensa, siente y quiere por contagio es un alma vil, sin vigor propio. 
3. Decir de un hombre que tiene verdadero valor moral o intelectual es una misma cosa con decir que en su modo de sentir o de pensar se ha elevado sobre el sentir y el pensar vulgares. Por esto es más difícil de comprender y, además, lo que dice y hace choca con lo habitual. De antemano, pues, sabemos que lo más valioso tendrá que parecernos, al primer momento, extraño, difícil, insólito y hasta enojoso. 
4. En toda lucha de ideas o de sentimientos, cuando veáis que de una parte combaten  muchos y de otra pocos, sospechad que la razón está en estos últimos. Noblemente prestad vuestro auxilio a los que son menos contra los que son más. 
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