domingo, 24 de fevereiro de 2013

Educação para a Potência Aula 4


(Ditos Transcritos)

(Transcrição literal sem revisão do autor feita por Renata Melo) 
EDUCAÇÃO PARA POTÊNICA - Aula 4 / Ano 2008 - Turma II
Por Luiz Fuganti 
Estamos aqui fazendo uma abordagem do problema da educação que implica numa crítica radical, que tem como objeto uma desconstrução nos modos de vida humanos de investir num plano fora da natureza ou, ao menos, fora do próprio plano de imanência do desejo; fora, além ou sob o movimento que sustenta o próprio corpo, o tempo que sustenta o pensamento e o modo imediato como tempo e movimento se conservam, se acumulam, se concentram e se continuam a si mesmo nos seus processos de diferenciação. Esse plano de imanência é sistematicamente desinvestido do ponto de vista das maneiras humanas de existir, maneiras que acabam por desqualificar o plano mais essencial do real, que se produz a si mesmo e todas as coisas que decorrem disso. Nossa crítica radical incide sobre um plano suposto, necessária pelo modo de vida reativo do homem, incide sobre esses modos e maneiras de viver da humanidade que demandam um plano fora da natureza, ou mesmo dentro da natureza - mas diferente da natureza, de outra ordem , que seria esse plano transcendente de organização. Ficamos com a questão da educação para a potência a partir de um horizonte criativo, que seria desinvestir ou desconstruir esse plano exterior de referência do homem para liberar essa dimensão imanente da natureza de nós mesmos, nos modos de vida que levamos ou que implementamos. A educação para a potência seria simultaneamente uma desconstrução daquilo que nos separa dessa relação com a imanência - que a gente chama de imediato: imediato do tempo, do movimento, da diferença, da memória, do aprendizado, numa palavra, o imediato da experimentação. Implica numa desconstrução do que nos separa do imediato, do que faz com que a experiência seja apenas um consumo, uma troca, um suposto enriquecimento que, no fundo, é uma fraude. Ao mesmo tempo, essa crítica é como uma espécie de liberação das forças - que estariam investidas nesse plano supérfluo de organização - para inventar novas maneiras de experimentar, nas várias dimensões que atravessam a vida e os modos de vida humanos.
Sintetizamos isso através de 5 modalidades de experiência:
Experiência do Pensamento: A desconstrução de uma experiência do pensamento, de um investimento do pensamento que é capturado por esse plano transcendente e, ao mesmo tempo, a liberação de um pensamento enquanto pensa, enquanto acontece, o imediato do pensamento em nós, que faria com que a experiência do pensamento apreendesse a zona autônoma do próprio pensamento. E aqui se trata de uma questão radicalmente diferente do que se entende por autonomia. Não se trata de autonomia moral, racional, suposta liberdade kantiana, ou de acesso a um poder e um saber estabelecido, nem acesso as condições sociais dadas. Para gente isso não é autonomia, isso é a ligação da vida com um plano de referência que tutela a vida, gerando autonomia para essa vida e dando garantia dessa autonomia. A vida não precisa ser garantida de fora. Se quisermos autonomia, não precisamos pedir licença, nem ter reconhecimento social. Mas para isso precisamos conquistar essa dimensão do pensamento que é a dimensão do imediato. E aí, no pensamento encontrar a dimensão infinita dele mesmo. È o infinito que garante a autonomia, não é uma lei, o estado, uma forma democrática, uma lei humana. É nossa capacidade de entrar novamente em contato com esse infinito do pensamento. Não significa que vamos dissolver de modo misterioso no infinito. Existe uma finitude em nós, mas essa finitude não vem do nada, está ligada com outros elementos finitos que, por sua vez, tem um encadeamento infinito. Essa apreensão da finitude como perfeição é o que faz a gente se relacionar novamente com o infinito. Isso será trabalhado em todas as dimensões, não só com o pensamento, mas com a do corpo, a da diferença, da memória. Essa nova apreensão da finitude, não como morte ou algo imperfeito, ou uma degradação do infinito, mas como a própria perfeição do real. Essa finitude que nos liga a uma zona de acontecimento tal que nos põe em contato direto com a fonte inesgotável de si mesmo. Assim nosso pensamento finito se ligaria a uma zona de acontecimento infinito, uma fonte infinita do pensar, que nos sustentaria o tempo inteiro enquanto seres pensantes. Sem precisar de nenhuma referência acadêmica, científica, religiosa, moral, nenhum sistema de valores. O pensamento pode por ele mesmo pensar rigorosamente, sem ter nenhuma referência. Nisso que estamos investindo aqui. A conquista desse imediato do pensamento faz com que a gente mude de idéia a respeito de autonomia. Autonomia de pensamento não significa que o pensamento seja superior a outras regiões e que deveria dominá-las. Ao contrario.
Experiência do Corpo: nessa segunda modalidade, a experiência do corpo que vai ter esse mesmo tratamento crítico, que faz com que a gente apreenda os elementos que separam o corpo do que ele pode, que separa o movimento que se faz enquanto movimento e que se segmentariza o corpo. A critica a esse modo de segmentarizar o corpo, a um regime de corpo, a um regime de luz, essa desconstrução vai criar as condições para que o próprio movimento imediato do corpo apareça, se apresente e invente novas maneiras de se modificar ou de fazer variar esse movimento que constitui o corpo. Essa modalidade de experiência nos coloca nessa dupla postura: uma critica, que desconstrói o que captura ou separa o corpo do que ele pode e outra, afirmativa e criativa, que faz com que o movimento se apreenda novamente na dimensão imanente dele mesmo e gera uma linha de continuidade, uma religação com o infinito que o corpo perdeu. Uma retomada do infinito do corpo. Desse ponto de vista, podemos dizer que o corpo tem uma dimensão autônoma, radicalmente independente do pensamento e de outras dimensões. O corpo é o corpo. O pensamento é o pensamento. Nenhum é mais que o outro. Um é o que é e pode até o infinito. O outro é o que é e pode até o infinito. Têm uma dimensão de experimentação única. Singular de cada uma, que não se compara nem estabelece uma condição de hierarquia. São zonas diferentes de acontecimento e essas zonas todas têm a sua perfeição.
Experiência da Seleção: que nos põe em contato com a diferença na própria existência, aquilo que faz a diferença, aquilo que seleciona em nós, aquilo que opera uma escolha. Essa dimensão tem também o seu aspecto crítico e criativo. O aspecto crítico é que nós ligamos a escolha a uma noção moral. Nós imaginamos que escolher só é possível a partir de um sujeito moral, responsável, que opera na própria consciência e que tem a ciência do bem e do mal, do verdadeiro e do enganador, do justo e do injusto, do útil e do nocivo. Desse modo haveria uma operação subjetiva que desdobra o desejo em três dimensões: um substrato de vontade, um desencadeamento de ações e uma finalidade da ação ou conseqüência da ação. O ser moral escolheria o bem e evitaria o mal, escolheria a verdade e evitaria o engano, escolheria a justiça e evitaria a injustiça, escolheria o útil e evitaria o nocivo. Isso é uma mediação das vidas tornadas impotentes. A escolha moral já é uma escolha impotente. Na verdade, não é uma escolha e sim uma escravidão. Supõe a captura de um desejo que já está separado do que pode. Devemos liberar o imediato dessa escolha que ocorre numa zona que chamamos de ética, que seria uma presença, e não uma consciência, do tempo e do movimento, na alternância e na conjugação do tempo e movimento em nós que operaria uma diferenciação, uma escolha, radicalmente distinta da moral, pois esta escolha não se dá mais entre um objeto e outro, entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso, entre o justo e o injusto, entre o útil e o nocivo. Ela se dá em qualquer relação, seja ela tida pelos seres morais, boa ou má, verdadeira ou falsa, justa ou injusta, útil ou nociva. Em qualquer relação, mesmo que tenha uma doença, uma impotência, uma injustiça, um engano, não importa; se a relação me atinge é porque tinha algo de necessário nela. É pela ótica do necessário e do relacional de cada relação que eu transmuto essa relação, de doença em saúde, de nociva em útil, de inimigo em aliado, etc, ou seja, não moralizar o acaso, a multiplicidade, o caos e as diferenças, mas aproveitar, em cada coisa que me chega, aquilo que tem de necessário. Naquilo que ela tem de necessário ela gera necessariamente uma afirmação de mim mesmo e não uma decomposição de mim mesmo. Esse necessário é o ser comum da relação, sem o que nem haveria relação e é por essa porta que eu começo operar uma transmutação, uma ética que não tem nada a ver mais com a exclusão de uma parte da natureza, como faz a moral. A moral exclui o mal, a doença... O ser ético aproveita do mal, da doença, da dor, do sofrimento. Ele sabe que a dor sempre tem um sentido alegre. A doença é uma provocação para o corpo e a mente alargar ainda mais a capacidade de experimentar. Sempre vê isso como uma oportunidade. Claro, aí entra a arte das doses, das distâncias, da prudência que permite experimentar mesmo nas zonas mais perigosas, com cuidado, para que a ousadia vá, de fato, mais longe. A prudência a serviço da ousadia e não o contrário. Assim como a paz a serviço de novas guerras. Guerras no sentido ativo, vivo, do combate da vida. Essa zona de experimentação da escolha, essa dimensão ética, da que faz a diferença em nós, retomaria uma outra zona de imanência de nós mesmos que se revezaria com a zona de imanência do pensamento e a do corpo. Pensamento, ética e estética. Nessa zona também há uma autonomia, um diferenciar que liga diretamente com uma continuidade intensiva e expressiva que nos põe em contato com a quarta modalidade.
Produção de Memória: A memória não mais como representação do passado, mas como função de futuro. Aquela que te dá direito ao futuro, que disponibiliza o tempo. Essa disponibilização do tempo, essa capacidade de se continuar a si mesmo e nesse processo de diferenciação que a ética nos insere, repetir o jogo da diferença, e não do mesmo. Isso é não só entrar em devir, mas num devir ativo, auto sustentável. Isso é fundamental. Quantas vezes não experimentamos maneiras interessantes, livres, vivas, intensas e logo as perdermos. Temos um insight, um vislumbre e vai embora. Não basta apenas encontrar essa zona do imediato, mas é preciso conquistar essa zona. Essa conquista implica na capacidade de produzir memória de futuro. É outro tipo de registro que se faz no próprio tempo. É o tempo que se registra nele mesmo, que se torna sujeito, e não uma consciência, assim como o movimento se torna sujeito. Existe um modo do movimento se registrar ou de gerar um plano contínuo dele mesmo. Nesse plano de continuidade existem duas maneiras da vida ativa continuar a ela mesma. Essas maneiras coexistem e são inseparáveis, mas são distintas. A primeira, uma continuidade intensiva de nós mesmos e a outra, uma continuidade expressiva de nós mesmos. Essa última chamamos de função de memória. É a linha imanente de continuidade que faz com que um processo desencadeie noutro, engendre outro e assim por diante. Há um auto engendramento das coisas. Essa linha de continuidade abstrata, mas inteiramente real, que chamando de memória. Memória bergsoniana, do livro Matéria e Memória (esse livro faz parte da bobliografia do curso) que compactua com a maneira que Nietsche interpreta o que é essencial e fundamental no homem, do que o distingue de outras modalidades de vida, que é a capacidade de dispor do tempo, o que ele chama de um animal que é capaz de prometer, de dispor do futuro. Essa continuidade do querer, da vontade... Um modo de querer que quer o que eu já quis, de novo e quero que esse querer continue. O que em mim se conserva, que faz com que eu apreenda a idéia de que algo em mim dura, mas ao mesmo tempo na duração esse algo se modifica. Então o que em mim se conserva, se diferencia, o que em mim quer voltar a processar essa diferenciação de mim mesmo, o que se continua, aí é necessariamente viabilizado na medida em que eu disponho do futuro. O modo de se continuar é essencial. Mas não é uma continuidade do estado, da moral, da razão, essa velha memória, que tem um centro de origem, um pai original, uma genealogia de um deus, um big bang da física. Aliás, esse mito da origem está em todas as ciências, na biologia molecular, na psicanálise, que é a mestra maior. Não tem nada a ver com a continuidade de uma memória central que formaria uma dinastia. É uma continuidade da capacidade de se diferenciar. É manutenção do inédito e do diferente como fundo de tudo na natureza. É até um paradoxo para quem está acostumado a analisar a continuidade do ponto de vista da consciência. Como já vimos em aulas anteriores, há uma autêntica continuidade assim como uma autêntica ruptura ou descontinuidade, do ponto de vista das quantidades intensivas e das qualidades expressivas, que forma aquilo que Deleuze Guatari chamam de plano de consistência. Há também uma falsa continuidade e falsa ruptura, uma ruptura significante, um corte significante ou uma continuidade formal, daquilo que Foucalt chama de memória de longa duração. Essa é uma continuidade do poder e do saber que integra poder, assim como a descontinuidade também é do poder. O poder corta, separa, para depois oferecer a união de novo. Ele desqualifica para oferecer a requalificação, ele destitui para institucionalizar ao seu modo, cria um critério de legitimação, de justificação, de verificação e de utilização de todas as práticas que atravessam a vida humana. Então você legitima, verifica, justifica os movimentos que atravessam o corpo, as idéias que atravessam o pensamento. Você disponibiliza dessa forma a partir de um plano de referência o modo desses elementos em sociedade efetuarem ou investirem nesse tipo de escolha, que é a escolha moral e criar uma idéia de responsabilidade radicalmente nociva, mortal para a vida. Esses que se enchem de arrogância ou de autoridade, ao falar que é necessário uma responsabilidade social, ou mesmo com as diferenças, com as multiplicidades, com a vida, sempre se fala da vida, o pior dos poderes jamais vai falar o que, de fato, é inconfessável para ele. O poder sempre opera de numa dupla maneira, de um lado ele desqualifica para qualificar, instiga violência –jamais diz isso – para oferecer segurança, de um lado mete medo e desconfiança para oferecer confiança e esperança , introjeta caos e confusão para oferecer uma clareza, e assim vai, é seu modo de operar, e a educação está totalmente alinhada com isso. Por isso é muito pouco dizer que a educação está errada, ela não está errada, está certíssima. Ela não foi feita para outra coisa, serve para separar a vida do que ela pode. Isso é o essencial, se não acessarmos essa dimensão vamos ficar sempre moralizando, ah, vocês estão fazendo errado, vocês não entendem, estão cegos, o verdadeiro caminho é esse. Nós não estamos falando de verdadeiro caminho, não tem verdadeiro caminho, a vida não precisa de verdadeiro caminho, a vida faz os caminhos necessários para ela, não precisa de modelo, desde que ela se ligue ao que ela pode.
Esse é nosso trabalho crítico. Não é dizer vamos mudar de sistema, de valores, não é fazer uma transformação de valores, mas uma transmutação de elemento que cria valor. Inserir de novo a vida no seu plano de forças, de potências e não dizer que a força e a potência precisam ser subordinadas a forma, que é o que fazem esses poderes mais democráticos e humanistas, inclusive, dizendo que é pela forma que o homem se salva, que se legitima, que se harmoniza, que funciona de modo benéfico, atrelado a um suposto bem comum. A forma é a primeira instituição da violência, o que gera a violência é justamente a forma que se imagina harmônica, pacífica, civilizatória. A forma é uma maneira de institucionalizar a violência. A violência só aparece quando uma força está separada do que pode, de alguma maneira é esmagada, se despreza e se desqualifica a instância própria de cada corpo, de cada pensamento, de cada movimento, de cada tempo. Ao desprezar e desqualificar, ao nadificar o tempo próprio, o movimento próprio de cada corpo, de cada desejo, necessariamente gera monstros dentro de si, gera o mal, a doença e isso vai se expressar de qualquer maneira, mais cedo ou mais tarde, do jeito mais torto possível. Aí o moralista vai dizer: -Viu? Tinha monstros sim, é por isso que precisa da lei e da forma para segurar o monstro!- Mas a forma, antes, já estava produzindo monstros. É como a questão do incesto. Dizem: -Ah, se a proibição do incesto está aí, é porque o incesto existe.- É essa inversão que se faz. Não se vê que é a proibição que gera a idéia de incesto, porque incesto não existe. A própria proibição que gera essa imagem. Não que ele não existe, existe numa zona, num certo modo de perceber a realidade. É sempre essa inversão que é operada, assim como você coloca o produto no lugar do produtor, põe o condicionado para determinar o condicionante, ao invés de partir direto da condição, apreender a condição para depois aí ver de que modo ela condiciona. Você pega o modelo da condição pelo condicionado, que ela de alguma maneira efetuou, e põe o efeito no lugar da causa, a imagem no lugar da força, a coisa no lugar da potência. A coisa, a imagem, o sujeito, o objeto, os signos, são efeitos de forças e potências.
É por isso que desdobramos tanto aqui a noção de experiência. Essa noção de experiência que atravessa as cinco modalidades: Experiência do pensamento, do movimento, da seleção, da memória e do aprendizado. É essa noção de experiência que nos põe em contato diretamente com esse imediato de cada modalidade, do pensamento, que é do tempo; do corpo, que é do movimento; da escolha, que é o imediato da diferença enquanto diferença; da memória, que é disposição do tempo e não a representação de um tempo que foi; e do aprendizado, que é apreender aquilo que aumenta a capacidade de criar-se a si mesmo, que não tem nada a ver com o aprendizado tradicional.
Esses imediatos todos é que nos gera uma condição de não ter mais que investir num plano superior- ou um plano transcendente de organização, um plano de referência- mas nos põe novamente ligados a essa capacidade de criar o próprio real, de criar as condições de experiência, de criar as condições existenciais. Só aí, para gente, existe liberdade. Liberdade não ter à disposição um campo de possibilidades, onde você é livre para fazer isso ou aquilo. Isso é muito pouco. A liberdade só acontece quando você não a diferencia mais de uma necessidade de efetuar a própria natureza, de fazer a diferença diferenciar. Nessa medida, a própria diferença, se diferenciando, não está sujeita a um campo de possibilidades, mas ela cria a possibilidade, ela movimenta, ela recria, a todo o momento, o campo do possível. Ela não se atrela ao campo do possível. O campo do possível é efeito desse acesso ao virtual, dessa religação com o virtual.
A idéia de experiência nos devolve essa maneira de nos por em contato com uma fonte que nos torna capazes de viver sem pedir licença, sem imitar, sem se identificar, sem fazer como, mas afirmando aquilo que há de necessário e inédito na existência. E como é impossível não haver o inédito, a gente precisa dispor dessa dimensão que nos faz inéditos e necessários a cada instante. O que faz a nossa vida uma missão real, algo que torna a nossa vida não apenas uma contingência, mas uma necessidade. A nossa vida não é um acaso - pode ser um acaso, se não a tomarmos nas próprias mãos. Mas eu posso fabricar o próprio destino, e aí ela se torna uma necessidade. A vida pode ser um mero acidente, mas posso fazer dela uma essência. Pode ser um mero devir aleatório, mas posso fazer disso a necessidade de um ser.
Vou falar um pouco, pois já desdobramos isso em outras aulas, da diferença de uma experiência extraordinária e uma ordinária. A experiência ordinária é aquela que é um mero enriquecimento, uma mera troca, um mero consumo de palavras, de discursos, de imagens, daquilo que se diz enriquecimento na experiência cotidiana que, na verdade, desemboca num consumo necessário de fantasmas e múmias, de coisas mortas. Quanto mais a gente consome isso, mais pesado a gente fica, mais a gente produz um passado que nos ancora na falta, num buraco e que demanda, aí sim, um referencial e uma referência. Esse tipo de experiência é uma fraude e usamos essa visão de experiência, em contraste com a experimentação extraordinária, que é um modo de experimentar raro que deve se tornar freqüente, e não importa o quão raro seja, deveria ser horizonte de cada momento de nossas vidas, em todas as nossas dimensões, seja pelo pensamento, pelo corpo, pela diferença, pela produção de continuidade. Esse modo de experimentar é aquele onde, de fato, a vida é tomada como um acontecimento, onde não há vida fora do acontecimento, nem fora da modificação e a modificação produz realidade. A modificação é real, não é uma troca qualquer, não é um faz de conta, não é uma metáfora, não é um fazer como. A modificação produz diferença, não só nas coisas como em mim. Na experiência que eu tenho, que é sempre em relação, algo se passa. Algo vai e algo vem ao mesmo tempo e isso faz com que eu entre em devir, que eu me torne outra coisa do que eu sou, mas eu não me torno o outro, nem imito o outro, nem me identifico com o outro, nem faço como o outro, ou como alguém. Na verdade eu me torno diferente de mim mesmo, esse que é o devir na relação, no encontro que eu faço. Dependendo do modo como eu sou no encontro, da qualidade que eu crio para encontrar as condições da experimentação, que eu posso modificar, dependendo dessas condições eu tenho o que eu mereço. Aliás, eu sempre tenho o que eu mereço, a justiça é imanente. Não existe deus, a moral, o homem para julgar o que é bom ou é mal. Até existe, mas é tudo por ficção e captura. O que realmente se passa é que eu acabo tendo o que eu mereço. Todos temos o que merecemos. Temos a sociedade que merecemos, o modo de vida que merecemos, segundo essa capacidade de ser: determinado de fora, das condições dadas ou de criar as próprias condições. Isso nos põe de novo naquela questão: existe o coitadinho? O miserável? O impotente? Existe, mas não sem ele ser cúmplice. Não sem algo nele que se deixa capturar. A vida tem potência. Senão essa visão piedosa que se tem sempre, que é preciso investir num sistema provedor para não deixar que a vida fraca, o coitadinho, o miserável, seja excluído. Precisamos incluí-lo. Essa visão reproduz a impotência em nome de uma outra idéia que seria dar autonomia. Dar autonomia coisa nenhuma, ao contrário, reproduz a dependência. A gente sabe que nenhum poder exerce no abstrato, ele se exerce sobre nossa própria energia, nossa própria potência, sobre nosso corpo, no nosso pensamento, sobre o uso que fazemos da linguagem, da sensibilidade. Essa sensibilidade, esse pensamento, o uso que faço da linguagem, que me atravessa, necessita que eu disponibilize algo de mim. Essa disponibilização é a minha cumplicidade. É bem diferente dizer culpa. Não se trata de dizer que a vida é culpada, mas trata de dizer que há uma conivência, uma cumplicidade e essa vida, separada do que pode, é cúmplice, pois na medida em que ela aceita e investe nesse poder, investe porque tem vantagens. Por mais que ela seja reprimida, ela tem vantagens, ela está ali porque ainda acredita que isso é um mal menor, em função de um mal maior que poderia advir se ela não investisse nesse modo de ser. É essa covardia que é necessário a gente provocar. Não para humilhar, para atacar, no sentido moral, no sentido de uma desqualificação, mas para sair desse lugar de vitimização e se tornar co-autor do destino. A cumplicidade se dá nesse modo de experimentar. É aí que a gente capta a zona de imanência da vida. É aí que a gente vai ver o imediato ou colocar a mediação no lugar do imediato, seja do ponto de vista do corpo, do pensamento, da diferença. Na verdade, é uma zona muito concreta, a zona do acontecimento. É aquilo que pode transformar o acontecimento num estado de coisa ou o que pode fazer do acontecimento a única fonte de potência e de atualização de força. O acontecimento, na verdade, é a fonte, não tem outra fonte, não é deus, nem o estado, nem a lei. A fonte é o modo de acontecer, é esse horizonte que atravessa qualquer vida, esse relacional de qualquer vida. Toda vida está em relação, necessariamente. Então, a qualidade desse relacional que nos atualiza, necessariamente é que faz com que a gente perca ou aumente a potência. Como a gente se efetua? A partir de uma necessidade imanente da própria diferença ou sendo preenchido de fora?
A questão da experiência, dessa dimensão extraordinária da experiência, faz com que o imediato salte e se ponha no lugar dos estados de coisas, seja nos estados de corpo, nos estados mentais, estados de época ou valores de época ou das determinações históricas, sociais e econômicas. O acontecimento nos põe novamente em contato com essa fonte, ele é a própria fonte. Por isso é preciso distinguir acontecimento de fato. Fato não é acontecimento. Fato já é o acontecimento efetuado, sob o ponto de vista de uma força. A mídia sempre produz fatos a partir do apoderamento, da apropriação de um acontecimento. São Paulo produziu o fato que é a instituição do cristianismo, ao se apoderar do acontecimento da morte de Jesus, e diz que Cristo morreu pelos nossos pecados. Isso é a produção de um fato, mas o acontecimento, a morte de Cristo, é múltiplo, tem múltiplos sentidos, más segundo São Paulo, um dos sentidos é esse. Cristo morreu pelos nossos pecados, porque eles se tornaram tantos e infinitos que o próprio credor deu o seu próprio filho para quitar essa divida impagável. Golpe de gênio que faz com que esse deus do amor que ama os homens piedosamente, na verdade, atrela os homens numa dependência ainda maior. Assim faz a história oficial, a história dos vencedores, de uma dinastia ou a mídia, sempre interpreta o acontecimento do ponto de vista daquilo que é necessário enquanto espelho, enquanto referência, modelo que te orienta como você deve opinar e pensar. O fato, na verdade, é o modo de se apropriar do acontecimento e que constitui um espelho, sem o qual não haveria reflexão nem referência. Quando a gente diz aqui que o acontecimento é aquilo que faz saltar a dimensão extraordinária da experiência, a gente não está chamando de acontecimento o fato. O fato já é um resultado, um acontecido, um vivido. O acontecimento a é a condição da própria vida, não há vida sem essa dimensão do acontecer e essa dimensão é inesgotável como os verbos nos seus modos infinitivos. Andar, há um inesgotável no andar - a minhoca anda, a terra anda, o homem anda, o cavalo anda, o carrapato, a girafa, não importa. Há uma pluralidade de andares para esse acontecimento andar. O andar é uma potência infinita de se modificar segundo essa singularidade andar. Essa potência infinita de se modificar se repete a cada acontecimento do andar, segundo a intensidade, a modalidade, que se entra nessa variação do andar. Acontecimento é essa dimensão abstrata, mas inteiramente real, do que faz o movimento mover, o pensamento pensar, a vida viver. Há uma causa imanente que é o próprio acontecer, que é uma abertura virtual e não uma possibilidade formal, uma região onde põe a vida em variação e, mais do que isso, potencializa a vida, apesar de nós mesmos sempre nos relacionarmos com essa abertura como uma ameaça. Por isso que a gente demanda e investe tanto no controle ou mediações.
Não há como apreender a dimensão do que seria a educação para a potência se não prepararmos o próprio corpo, a gente tem que agüentar o tranco. A gente pode bancar essas idéias? São mais que idéias, são modos de vida. Tem que fazer a lição de casa. Daí a questão da experiência extraordinária ser uma prática do abstrato. Precisamos praticar o abstrato e sem isso estamos apenas adquirindo competências, autoridades, instruções, novas formações. Fica naquela eterna formação permanente, sempre se reciclando, se atualizando. Não que isso seja uma bobagem, mas é muito pouco diante dessa prática do abstrato necessário, que nos põe sempre em relação com a capacidade de manter as próprias condições de criação. Esse é o ponto essencial, manter as capacidades, ou manter as condições da potência sempre nessa região criativa. Criativa das próprias criações da experiência e do que acontece nessa experimentação. É uma idéia de liberdade raramente pensada ou acessada pelos homens. E não porque é rara, é impossível. Se fosse impossível deveríamos desejar o impossível. O impossível é apenas uma contra parte do possível, um falso problema. O possível e o impossível, você produz. Não pode ficar refém de uma coisa que seria impossível, porque isso não existe na natureza. Não existe o impossível. Existe o virtual, que fabrica o campo de possibilidades e impossibilidades. Então é preciso acessar isso aí.
Essa idéia de experiência nos põe numa condição de gostar do acontecimento, nos coloca numa espécie de receptividade onde o próprio acontecimento deseja em nós, gosta em nós, se interessa ou cria o interessante em nós. Não é um sujeito, uma consciência em nós que vai adquirir o gosto. É a própria maneira de ser que na abertura encontra o gosto da própria abertura, encontra o gosto da própria diferenciação. Criar um gosto pela experimentação é a única maneira de ultrapassar a moral, de ultrapassar essa escolha racional, ultrapassar a idéia de que a vida tem que ser aperfeiçoada, melhorada, progredir, e de encontrar o perfeito da natureza em cada relação de acontecimento. A única maneira é criar esse gosto.
O inimigo principal desse gosto é a primeira institucional das sociedades fracas, o medo. O medo é aquilo que necessariamente nos separa desse primeiro gosto. Mas o medo não é uma força abstrata, solta. Ele se alimenta já dos nossos maus encontros, na nossa separação daquilo que podemos. O medo alimenta a desconfiança no acaso, no devir, nas multiplicidades, no caos que supostamente nos ameaça, nas forças que a gente teme que estão em nós mesmos, nos nossos porões. As forças de fora e as de dentro. Ele é uma máquina de inoculação de desconfiança, no devir, na abertura e no acontecimento, que se sustenta pelo mau uso da dor, do sofrimento. A vida em abertura, em acontecimento, necessariamente está em contato com a dimensão da dor e do sofrimento assim como está em contato coma dimensão do prazer. Mas a vida separada do que pode se confunde com uma dimensão reativa dela mesma. O prazer e a dor nada mais são do que instâncias reativas, não são o principal, na verdade, são temperos da vida, excitantes da vida. Se eu começo a apreender a dor como um tempero da vida, apreendo-a como um presente. No pior dos casos, uma provocação, e no melhor dos casos, um presente, uma ocasião, uma oportunidade para a vida variar ainda mais, ampliar a sua potência e poder enunciar, junto com Nietzsche, “o que não me mata, me deixa mais forte”. Ter esse gosto implica em inventar um outro sentido da dor. Se eu me relaciono com a dor como aquilo que deve ser eliminado, sou um ser adepto da anestesia, que quer amortizar tudo, vou tornar a dor idêntica a um mal que exprimiria imperfeição da existência, da qual deveríamos fugir. Fugimos da dor como fugimos do mal ou da imperfeição e buscamos uma perfeição, uma saúde, um prazer segundo esse modelo da dor e do prazer, que nada mais são que instâncias reativas em nós. Ao nos reduzirmos ao estado de corpo, de impotência, achamos que a ultima palavra na vida, do ponto de vista do modo de vida, é a quantidade de dor e de prazer que temos direito ou dever, que se tornam nosso quinhão. Aí reduzimos a existência a essa dimensão absolutamente reativa e tornamos cúmplices na alimentação desse plano de desconfiança que se põe entre as relações humanas. A gente mesmo alimenta as desconfianças, porque estamos presos a um ressentimento, a uma impotência de se subtrair ao estado de corpo que nos constitui. Por isso é necessário fazer um combate essencial. Esse combate não é contra o poder, contra a educação estabelecida ou contra não sei quem. Esse combate já começa por nós, se a gente não o faz, tornamos necessariamente cúmplices. A gente não suporta a existência de outra maneira. A gente diz: Esse sistema está errado, mas vamos reformá-lo, vamos criar um outro. Mas jamais abandona a idéia de um sistema. O combate não é contra as forças do poder ou do saber estabelecidos, mas entre as forças que nos constitui. Que forças são essas? Existem forças que nos põe diretamente em contato com o imediato e que se alimentam disso, são forças de criação, o que Nietzsche chama de forças ativas. Essas não precisam de nenhuma referência, não estão inscritas num plano de finalidade, aquilo que diz Spinoza, a natureza não age em vistas de fins, ela não é prisioneira de fins, age em vista da sua própria necessidade. O fim é sempre um efeito, uma conseqüência que você nunca sabe onde vai dar, mas se você é ativo, afirmativo, você sabe necessariamente que essa conseqüência é boa, é uma potência e não aquilo que o fraco fica sempre imaginando, que pode gerar uma doença, uma desconstrução, um aprisionamento. O fraco sempre precisa que o outro pense na conseqüência. O forte sabe que, na medida em que ele age, sempre gera mais valor e mais potência para a realidade. O fraco que seja capaz de captar essa mais potência e aproveitar porque isso é um presente, uma generosidade, e não aquilo que o aniquilaria.
Na medida em que a gente acessa essa dimensão ativa de nós mesmos, sabemos que ela é necessária para manter a vida no imediato, saudável, realmente livre e em processo criativo. O combate de manter essas forças ativas ou criativas dominantes em relação às forças reativas em nós, que são meras forças de conservação no melhor dos casos, esse combate é essencial. Não deixar que o reativo seja dominante me nós em relação ao ativo em nós. Fazer com que o reativo em nós obedeça a nossa dimensão criativa. Existe uma região de nós mesmos que deve obedecer e outra que deve comandar. O que deve comandar em nos é justamente a dimensão da experimentação ativa, da capacidade criativa, da ousadia em relação à prudência. A prudência sim, mas a serviço da ousadia. A conservação sim, mas a serviço da criação. Essa postura entra já numa dimensão ética que nos expõe a um combate de nós mesmos, um combate conosco mesmo. Não contra outro, mas entre as nossas forças. Adestrar forças em nós para que elas sejam agidas por outras forças, adestrar as forças reativas para que elas sejam agidas por forças ativas. Educar seria exatamente esse adestramento, ou seja, criar as condições para que a vida se torne forte e livre. Podemos experimentar isso em cada coisa que a gente faz: ao se alimentar, ao morar, ao se transportar, ao gerar lixo, sei lá o que, em tudo, em tudo existe essa presença. É isso que Nietsche provoca o tempo inteiro, que a humanidade está dormindo. Ela se acha tão consciente de tudo, mas a consciência é o modo de ela dormir, está no piloto automático. A gente dispensa essa presença de nós mesmos. Ela está aí, mas não se apresenta. Acha que está criando, mas está repetindo e o que repete é o estado de corpo. A gente acha que é esse estado que se tornou, mas esse estado já é um efeito, um mau jeito na relação. A gente se reduz a um estado por um mau jeito na relação e perde essa dimensão virtual de nós mesmos que é uma potência em ato e que se apresenta na fronteira de si mesmo. Essa fronteira de si mesmo é a zona da experimentação extraordinária, essa fronteira do acontecer da própria vida, o acontecimento do próprio acontecimento.
O racional no humano se confunde com a linguagem. A gente acha que a palavra já é pensamento. Aí você liga uma palavra com outra e acha que está raciocinando. Então liga uma palavra com outra, um signo com outro, uma imagem com outra imagem e chama isso de razão. Essa racionalização é pura imaginação e o pior uso dela, pois a imaginação é uma potência. Agora, imaginação é imaginação, pensamento é pensamento, são coisas radicalmente distintas. Ma usar a imaginação e dizer que está pensando é estúpido e é isso que o poder faz. Aliás, na escola se ensina a ordenar a imaginação segundo a demanda da sociedade. É isso que se faz ao ensinar a pensar. Não se ensina a pensar, se ensina a obedecer. Por isso dizemos que esta educação é para obediência, pois incentiva um encadear de signos, de imagens. É como a filosofia do Wittgenstein, vai dar nessa estupidez que é achar que a linguagem e o pensamento é uma coisa só. É como a relação entre acontecimento e fato. A linguagem é só um fato desse ponto de vista, do pensamento. A questão não é fazer a dicotomia entre a palavra e o pensamento. A questão é apreender aquilo que sem o que a própria palavra não é. A palavra tem um sentido que vai além da própria estrutura da linguagem e esse sentido emerge no acontecer. Há um acontecer intemporal que atravessa todas as coisas. Esse acontecer se exprime na linguagem. O sentido expresso na linguagem é incorporal, ele não se confunde com a linguagem, mas sem ele não haveria linguagem. Aí eu abro a palavra para o sentido, ultrapasso o significado, o designado, o manifestado, o significante, o desejante, o eu , o mundo e deus e entro no próprio sentido que exprime uma força - o sentido é sempre uma direção de uma força - e saio dessa zona intelectualoide, de uma neutralidade da forma e do saber e vejo que todo o exprimir exprime a direção de uma força e faço da linguagem uma máquina de produção de sentidos.
A linguagem é produtiva e não representativa. Esse uso da linguagem que a gente vai propor e ao mesmo tempo desconstruir o uso representativo da própria linguagem que separa o pensamento da capacidade de se relacionar com o tempo imediato. Sentido aqui é uma zona anterior a esse sentido que normalmente imaginamos que, na verdade é apenas significado, está cheio de convenção. O sentido é sempre singular. Na medida em que um sentido se põe numa espécie de zona que o repete e que faz dele um significado, esse significado se torna um universal e o universal, sim, enquanto valor orientador, enquanto um saber, se sobrepõe as particularidades, que em última instância é sobrepor as singularidades. A própria particularidade já é produto dessa abstração do universal. O universal e o particular são efeitos de um certo uso capturado da singularidade. O que tem no fundo é sempre singularidade. Vamos explicando isso aos poucos, existem regiões muito espinhosas e difíceis, mas tenham confiança que vamos chegar lá. O que precisamos é nos tornar criadores e não seguidores de um sistema. Fazermos-nos aliados. Eu dou aulas não para instruir, mas para fazer aliados, vidas livres. Quanto mais as vidas forem fortes e potentes muito mais interessante elas se tornam. Não existe uma intenção moral, de fazer o bem, é interesseiro mesmo, quer a vida intensa e ela se torna mais intensa quando nos tornamos mais fortes, quando jogamos de modo mais livre.
Essa idéia de experimentação nos coloca imediatamente com a idéia de experiência naquilo que chamamos da experiência do pensamento que é nossa primeira modalidade. O que é essa experiência extraordinária do pensar? Ainda que o pensar ocidental se arvore numa altura tal, nas suas modalidades de pensamento, o que aparentemente seria uma experiência extraordinária, é mística, metafísica, genial, um acesso a uma realidade inacessível que só alguns gênios acessariam. A primeira coisa que devemos fazer é dizer que isso não é pensamento. Não só dizer, mas demonstrar. Há no mínimo três modos de pensar ou de se definir o pensamento que atravessa e são dominantes no ocidente que a gente vai dizer que não é pensar. Pensar é contemplar. Em grego contemplação é teoria. Teorizar é contemplar. A teoria é a própria contemplação. Essa visão dominou o ocidente até o século 17, e estamos só a 400 anos do séc. 17. Vinte e um séculos de domínio dessa idéia de que pensar é contemplar. Pensar é refletir, que foi a idéia que se tornou dominante a partir do séc. 17, com Descartes. Descartes acreditava que pensar era refletir. No sujeito o objeto, refletir o objeto no sujeito seria pensar, o espírito como espelho. Do séc. 18 para 19 uma nova idéia do que é pensar, que é dominada por Kant, vai se estabelecer: Pensar é comunicar, uma informação, uma verdade que se exprime na informação. Pensar é comunicar entre sujeitos, uma relação inter subjetiva.
Descartes é uma relação entre sujeito e objeto. O objeto se reflete no sujeito e em Kant é entre sujeitos. Vou desenvolver um por um, mas antes disso vamos definir pensar de um modo bem resumido, para nos inspirar nessa desconstrução. Já insistimos nisso de que a nossa desconstrução não é uma crítica ressentida, não é falar contra. Esse falar contra é efeito de uma afirmação que gera uma criação. Nós afirmamos que pensar não é contemplar, não é refletir e não é comunicar, em virtude de uma afirmação maior que é a de que pensar é criar. É preciso ter sempre essa dimensão do criar quando desconstrói o contemplar, o refletir e o comunicar.
O que é criar? Geralmente a gente acha que é uma invenção artificial qualquer, um brinquedinho, um faz de conta. Criar é o que tem a dimensão de criar eternidades, não criar fantasmas, não uma imagem qualquer, não um signo qualquer, não uma metáfora. Cria-se realidade, cria-se eternidade. Criar eternidade, criar realidade. Isso que é pensar. Pensar é criar, não é descobrir uma idéia pronta. Não é se relacionar com modelos ou com verdades a serem descobertas. Pensar é criar. Essa idéia é essencial. Criar o que? Realidade. Mas como a realidade ou eternidade se exprimem? De várias maneiras, por exemplo, ao modo de conceito. Quem cria conceito? O filósofo. A gente pode convencionar que o filósofo cria conceitos, quer dizer, não qualquer um. Platão, por exemplo, diz que criar é acessar o modelo, a idéia enquanto idéia. Mas ele precisou criar isso. Precisou criar o que ele chama de incriado, para ele é incriado, mas ele criou antes um criado. Pode-se até dizer, Platão criou idéias, apesar de ele dizer que a idéia é incriada. Ele criou inclusive essa maneira de fraudar o real. É uma invenção dele. Cada um tem a invenção que merece. Essa invenção vai fazer com que a vida vá para uma direção. O que cria? Conceito, sensação, aí já não é o filósofo e sim o artista. O artista cria sensações assim como novas maneiras de receber e de se afetar ou de entrar em devir. Novas maneiras de desejar, que é a mesma coisa. Assim como o cientista cria funções, se ele é criador, porque existem cientistas que só reproduzem modelos e paradigmas, está inserido dentro de uma epistemie que é constituída de um campo de forças e ele não apreende a zona cega que esse campo produz e acha que a partir dali gera uma certa luz, mas está só reproduzindo e não está criando, de fato. Mas ao pensar ele cria funções. Pensar é criar. Há pensamento, não só na filosofia, mas na ciência, nas artes e todas as dimensões do humano. Isso só é possível entender na medida em que a gente acessa a necessidade do próprio pensamento como dimensão autônoma e esta não como um delimitação formal, uma instância garantida por um deus ou instituição. O pensamento se garante por ele mesmo porque ele tem um modo de realidade único e de variação infinita dele mesmo. Aí que está a autonomia. Nessa medida em que se apreende essa autonomia do pensar, sabe-se que pensar é criar.
Vamos agora ver o que não é pensar em três momentos. Pensar não é contemplar. O que é contemplar? Platão, na esteira de Sócrates, constrói uma imagem do pensamento que, na verdade, continua sendo a imagem do ocidente a cerca do pensar. Só que houve um devir dessa imagem, várias modificações dessa imagem do pensamento. Tem um segundo momento que é a imagem feita por Descartes e um terceiro momento, o kantiano. Estes últimos não teriam sido possível sem o momento platônico. O que é pressuposto nesses três modelos ou nessas três imagens do pensamento? Que haveria uma instância, uma realidade da idéia fora da natureza que seria diferente da própria natureza. Uma instância transcendente a natureza. Platão nomeia essa região. È a região do mundo das idéias, que habita uma região supra celeste, além dos céus, é metafísico. Como apreendemos isso, realmente? A inspiração é socrática. Platão, na esteira de Sócrates faz isso. Sócrates, nas suas práticas eurísticas, agonísticas, na Grécia – que depois vai ser acusado de pervertor de jovens e impiedosos para com os deuses de Atenas e condenado a beber cicuta - opera o pensamento em conversas privadas com os jovens, com os sofistas, os artistas, gente da cidade. Sócrates tem uma obsessão, ele ama a verdade. Aliás, foi ele que inventou o modelo ocidental de verdade. Ele acredita que a verdade de uma coisa é dada por uma definição. Quando se define uma coisa tem-se a sua essência. E ao dar a essência de uma coisa tem-se a verdade universal dessa coisa. Ele quer sempre definir as coisas, dar a verdade de cada coisas e inventa uma maneira de perguntar. Inventa essa pergunta filosófica: O que é a...? ou O que é o...? O que é a essência, a natureza de algo? Não é o que é este algo ou aquele algo, mas o que é o. O que é a. O que é a universalidade, o modelo da coisa, a idealidade das coisas. Sócrates interroga Alcebíades, Hermógenes. A partir de um certo problema pergunta: o que é a beleza? O interlocutor responde: beleza é as cochas da égua do Aristófanes. Sócrates diz: Eu não perguntei o que é essa beleza, ou aquela beleza, mas perguntei o que é a beleza nela mesma. O que é a essência de beleza? Não te perguntei dessa ou daquela beleza, perguntei da beleza. Essa é a pergunta que Sócrates inventa. Não quer saber dessa ou daquela cadeira, mas a cadeira. Mas a cadeira não existe no mundo. Não existe a cadeira no mundo ou nos corpos. Existe essa ou aquela cadeira, a cadeira é uma abstração. A cadeira não existe, é idéia, é ideal, não tem corpo, é incorporal. Então para acessar a idéia é preciso se livrar do corpo e ao mesmo tempo não se encontra na natureza, pois tudo na natureza é corpo, logo não está nem no mundo, nem na terra, nem nas águas, nem nos céus, está além dos céus, no mundo supra celeste. O ideal é o que não se encontra na natureza. Sócrates tem vontade de ideal. Nietzsche diz que o ideal é o mais longo erro da humanidade. O ideal, que é o ideal de verdade é a mais longa estória da maior de todas as mentiras e ele diz que a questão de erro não é uma questão de ignorância ou de cegueira, como falaria o próprio Sócrates. O erro, para Nietzsche, é covardia. E para fazer frente à pergunta socrática, Nietzsche vai inventar a sua: E quem precisa do ideal? Na verdade ele faz a seguinte questão: O que é a essência de alguma coisa remete por um sintoma. O sintoma de um desejo que busca essa essência, esse ideal. Mas o ideal é apenas um efeito de um modo de vida. Existe um modo de vida que vai buscar o ideal porque não consegue mais viver o real. Ele se ressente do acontecimento, das multiplicidades, dos devires, já está separado do que pode. Nietzsche vai além: Quem quer o ideal? O que quer esse que quer o ideal? Essa é a sua maneira de reverter o socratismo, o platonismo, o aristotelismo, o niilismo. Isso para explicar que o erro na crença do ideal não é cegueira nem uma questão de ignorância, o erro é um covardia, na medida em que não suporta mais essa dimensão da existência.
Veremos onde se funda o senso comum e o bom senso que são os dois pilares do sistema de julgamento ou do sistema de representação humana. Como o homem moraliza e conhece segundo a representação, segundo os modelos do senso comum e do bom senso, que na verdade é uma forma de julgamento que implica em uma não criação. Quem julga não cria. Então pensar não é julgar. Poderíamos resumir que a contemplação, a reflexão e a comunicação são modos de julgar. Mas pensar não é julgar, pensar é criar. Na seqüência da desconstrução da contemplação, da reflexão e da comunicação vamos saltar esses dois pilares do juízo, que é o bom senso e o senso comum que são fundamentos da identidade, da origem, da unidade e da totalização ou do fim, da finalidade. Todos esses modos sedentários de pensar e de fraudar e capturar a vida.
Vocês viram que eu saí da idealidade pura, da imagem do que é pensar e remeti para quem gera essa imagem, quem precisa dessa imagem, remeti para um campo de forças. Saí da pura forma, da idealidade e vim para um campo de forças, que é o desejo implicado aí. O desejo já remete esse pensamento para um campo de forças, que é a pergunta nietzscheniana. Não é mais o que é a essência de alguma coisa - que seria puramente formal e neutro, universal - mas é quem se relaciona com isso, inventa isso, cultiva isso, aplica isso, que já é um desejo, uma potência que entra em variação segundo essa relação. Não o que é mas quem e o que quer esse quem ao querer esse o que é. O que é, é mero sintoma, mero efeito. Não é causa nem principio de nada. Sócrates e Platão colocam isso como principio. Sócrates diz que o objeto geral é superior ao objeto particular. Essa e aquela cadeira são objetos particulares, mas a cadeira é um objeto geral. Sócrates diz que nesse objeto geral você dá a essência de qualquer cadeira, você atinge o modelo que governa qualquer cadeira particular e você atinge a estrutura de cadeira, por isso é superior. Não só de modo lógico ela é superior, mas também de modo moral. A estrutura superior contempla todas as cadeiras particulares. Se uma é mais ou menos cadeira que a outra, todas são contempladas pela verdadeira cadeira, que é essa essência ideal, essa estrutura do ideal. Essa estrutura do ideal e do universal é um guarda chuva, um guarda sol que protege todas as cadeiras particulares. E que unifica todas as cadeiras particulares, hierarquiza as cadeiras, sim. Esse exemplo é chato, podemos usar o homem. Existe uma essência do homem, e todos os homens particulares se aproximam mais ou menos dessa essência, desse modelo, e nessa medida, vão ter mais ou menos realidade, são hierarquizados segundo essa aproximação ou afastamento e ao mesmo tempo ordenados segundo essa estrutura. Essa hierarquia é moral e essa estrutura é lógica. Uma diz respeito ao conhecimento especulativo a outra diz respeito o conhecimento prático. O conhecimento prático detem uma função moral, social, político, etc. e o conhecimento especulativo seria uma pura forma neutra da verdade. A dimensão especulativa é que o homem, esse objeto geral, a essência do homem, seria uma verdade universal e por isso contemplaria a todos os homens particulares e mais do que isso, poria, por essa ordem e hierarquia, os homens em harmonia, no seu devido lugar. Esse modelo unifica tudo, apazigua e concilia tudo, por isso esse modelo é a fonte do bem, ou o próprio bem. O universal teria relação direta com o bem. Sócrates é alguém que quer o bem, é um homem de bem, justo, bom, veraz, útil, tudo que o idealismo quer, que o homem bondoso quer. Nessa medida ele seduz os homens a aderir a esse universal que gera uma harmonia social, política, afetiva, todos os campos. O universal contemplaria as partes e ultrapassaria o elemento passional de cada parte que é a fonte do mal, do conflito, das guerras, das destruições, das mortes, das doenças, das imperfeições, das misérias, etc. Seria uma maneira de orientar a vida para que ela se superasse ou progredisse em relação a esse ideal.
Platão vai mais longe. Não que isso não seja explicito em Sócrates. Sócrates é aquele que vai beber a cicuta porque ele acha que a lei ou o sistema de lei, por pior que seja, é um representante do bem, uma delegada do bem, assim como as idéias dos homens são delegadas dessa idéias, dessas essências em si. A lei pode ser melhorada, mas deve ser obedecida e respeitada, mesmo a pior delas. No caso dele, ele obedecer a lei. Ele poderia fugir, ficou trinta dias a disposição dos amigos, com planejamento de fuga, era simples ele ter fugido, mas não fugiu, ele cumpriu a lei. Existe aqui um drama, de um certo ponto de vista, muito patético, que Sócrates é protagonista. Isso revela aquilo que Deleuse e principalmente Nietzsche falam que há um suicídio depressivo em Sócrates. Beber a cicuta é uma espécie de suicídio. A posição platônica é maníaco-depressiva, se quisermos psicologisar Platão, que não é uma coisa boa de se fazer. O movimento platônico é esse: você está num buraco e busca altura. A vida está separada do que pode, busque o ideal. Ela perde o devir, perde a superfície, é uma posição maníaco-depressivo. Sócrates é o fundador dessa posição em filosofia. E voltando para o campo de forças, Sócrates, na verdade está cansado da vida, é um tipo doente, sem juízo de valor, feio, cansado e doente. (Com humor, sem sacanagem! Nosso modo malvado de ser.) Sócrates é um desgostoso com a existência, não tem o gosto pelo devir, pelas multiplicidades, pelo movimento, pelo fluxo. É como diz Nietzsche, aquele que não suporta o devir precisa de um refúgio no ser. Esse ser, para Platão, é o que é verdadeiramente real. O que a gente acha que é o real aqui e agora, no movimento e no devir é um falso ser, é apenas uma aparência de ser. Nessa aparência de ser Platão vê duas vertentes: um ser aparente que vai para o ser essencial e um ser aparente que gera a própria aparência, como pegadinha, que Platão chama de simulacro. Simula o ser, mas na verdade, fica apenas na aparência de ser, que é terrível, pois ela imita, despista, se passa por, quando o que está sustentando isso é uma coisa terrível de decadência, de depreciação, o que Platão chama de falsa cópia, de um ser que inviabiliza a relação com o modelo, que nem reconhece o modelo.
O verdadeiramente real é tomado como aquilo que não muda. O critério de realidade para Platão é a mudança ou a permanência. Para Platão está mais próximo do real aquilo que permanece e mais afastado, aquilo que muda. Então o ser é mais real que o devir, que muda. O critério absoluto dele é: o verdadeiramente real que é aquele que permanece eternamente no mesmo. Não é que não tem movimento, até tem movimento, mas é o movimento circular da eternidade, que vai do mesmo ao mesmo. É a cobra mordendo o próprio rabo. Ao ponto dele definir as idéias de modo tautológico, pelo modelo do mesmo. O que é a justiça? É aquilo que é justo. O que é a beleza? Aquilo que é belo. A beleza é bela, a justiça é justa, a verdade é verídica e por aí vai. Existe aqui um problema lógico que Platão vai resolver na obra chamada Parmênides onde ele cometeu o famoso parricídio, pois ele diz que Parmênides é o seu pai filosófico. Parmênides é aquele filosofo do ser. Só que o ser de Parmênides não tem nada a ver com o ser de Platão, mas Platão vai dizer que este ser é o ideal, e para Parmênides o ser é a natureza, que é algo muito mais interessante. Platão comete esse parricídio, desmente Parmênides, que diz que o ser é e o não ser não é. E Platão diz que o não ser é de alguma maneira, para que ele crie uma lógica. É o famoso problema da atribuição. Pois senão Platão estaria preso a essa mesma idade: a justiça é justa, a beleza é bela. Isso é o modelo do mesmo, mas Platão ainda precisa do modelo do outro senão não há atribuição lógica possível e dessa forma não há julgamento, não há distribuição de destinos, não há hierarquização de ordem na natureza e assim ele não pode aplicar a supra realidade humana. Ele precisa arranjar um jeito de aplicar isso, senão prá que serve o ideal? Ele tem que ser aplicado. O ideal é para nós, nunca é em si. Isso que não é dito. O que é verdadeiramente real para Platão é o que permanece eternamente idêntico a si. Isso você não encontra na natureza, então isso é uma sobre-natureza, uma para- natureza, é além da física, uma metafísica. Essa sobre natureza, transcende a própria natureza, é uma região transcendente ao real. Esse modelo, do que jamais muda, vai ser o critério de avaliação daquilo que muda, é para isso que vai servir o modelo. O modelo é apenas meio, um instrumento para julgar a vida. Platão inventa esse meio, esse critério de julgamento para medir as pretensões dos homens. Platão inventa a realidade como uma realidade que disputa, uma realidade de pretendentes. Para Platão existe o modelo, a idéia, o ser que permanece eternamente nele mesmo e aquilo que muda, que pode se relacionar com esse ser ou se desviar desse ser. Na medida em que relaciona com esse ser, vai ter uma certa disputa, que quer se aproximar o máximo desse ser e na medida em que não se relaciona com esse ser, pior ainda porque vai inocular a decadência na realidade que muda. Vai ser um jeito de Platão excluir essa realidade que não se relaciona com o modelo e que ela é incorrigível, selvagem, não é domesticável, jamais vai se submeter à verdade disso que não muda. Aqui, é importante a gente marcar que o que eu não muda, o que permanece, esse modelo do mesmo, do idêntico a si, é algo acabado, pronto, é impossível haver mudança nela, é por isso que é eterna. Então, a eternidade de Platão está fora do tempo, não é essa que falamos a pouco, de produzir eternidade. A eternidade que a gente fala é a de produção no tempo. Essa eternidade é a que o ocidente já vem de longa data fazendo uma imagem, que se põe fora do tempo. Essa é a eternidade platônica, está fora do tempo e fora do movimento. Não apenas é a origem dos tempos e dos movimentos, está realmente fora deles, é transcendentes a eles e seria uma origem. Em última instãncia nós somos uma parte dessa idéia. Na medida em que somos homens e particulares, somos um certo grau de realidade desse homem geral, essencial, que seria pura idéia. E na medida em que somos partes temos uma certa relação hierárquica. Quanto mais nos aproximamos da idéia mais espirituais nos tornamos, mais verdadeiros, mais imutáveis, mais permanentes. E quanto mais afastarmos, mais estaremos próximos do corpo, da matéria, do movimento, do tempo, do devir, de tudo que faz com que a gente saia do ser. Para Platão o devir é inferior ao ser porque o devir é aquilo que é incapaz de permanecer no ser. É o contrário do que a gente fala. Verdadeiramente real, para Platão, é aquilo que jamais sai do seu ser. O devir é o que é irreal e que vira outra coisa, não permanece. Platão diz que o devir é efêmero. Por isso é inconsistente e não tem realidade. Platão está preso numa imagem do que é o devir, não está no elemento substancial do próprio devir, por isso faz essa ficção do que seria o devir. Então haveria também aqui um ideal puritano, o que Nietzsche chama de ideal ascético. Aeschesis, em grego significa exercício. Há uma prática, um exercício no sentido da submissão do corpo, ou da superação do corpo ou da renúncia do corpo. Sócrates vai se inspirar nas práticas xamânicas, que atravessam as seitas órficas, pitagóricas, as seitas exotéricas da Grécia, que já é um xamanismo decadente que vai se utilizar de uma idéia da alma que separa do corpo. Não apenas alma que viaja, que sai do corpo como o xamanismo que vem da Sibéria e contagia a Grécia, mas é uma alma que separa do corpo. Sócrates traz a idéia da psiquê separada do soma, de uma alma que separa do corpo e que é superior ao corpo. E que quanto mais o corpo está submetido mais a alma viaja e é livre. Vai haver uma inspiração ascética, puritana, que é de exercícios de domínio das paixões e tudo que corporifica que é justamente para liberar mais o espírito. É aquela idéia absolutamente invertida, que depois Spinoza vai desconstruir, de quanto mais o corpo é passivo mais a alma é ativa e vice versa. Se a alma e o pensamento, que acessam o universal, a verdade, o bem é superior ao corpo, tem que submeter as paixões, que são sempre particulares, geradores de discórdia, de interesses parciais, que seriam fonte do mal, da escravidão e dos conflitos que aniquilam a vida. Esse ideal puritano está na condição do acesso a verdade. Para acessar a verdade é preciso uma prática de si, de renuncia e submissão daquilo que é corpóreo. O corpo é o lugar das misturas, a idéia é o lugar do puro. Na idéia não tem corpo, nada se mistura à idéia. Esse puritanismo que implica um ódio ao devir, às misturas, às relações, vai se impor como um oriente salvador do homem. Claro Sócrates e Platão estão já num momento decadente da cidade grega, de Atenas que foi uma cidade ascendente, eles querem salvar essa sociedade da decadência. Isso tem a ver com todo um contexto social.
Pensar não é contemplar. Tudo isso foi matéria para entender o que se contempla e como se contempla. Você só acessa essa contemplação pelo espírito. É o espírito ou essa alma, que se separa do corpo, que contempla. A alma, como pura idéia, como puro espírito só emerge quando eu me constituo como sujeito moral, ainda que seja difícil falar na palavra sujeito na Grécia, mas é uma espécie de dobra de si, uma condição moral sem a qual a condição especulativa do pensamento, ou do conhecimento, não emergeria. Essa coisa prática, essa prática de si, que faz com que eu adquira as condições para contemplar, ela é a condição primeira da própria contemplação e na medida em que essa condição é efetuada eu me apreendo como puro espírito, como pura idéia e dessa forma eu apreendo a minha origem divina, supra celeste. Eu, enquanto idéia, vim do mundo das idéias. Isso significa que eu posso re- conhecer, fazer a re-cognição da origem que eu sou, da idéia que eu já era. Sócrates diz que é filho de parteira e ele, ao seu modo, é um parteiro. Ele diz, eu sou um parteiro de idéias. A parteira, ao fazer o parto, ela não cria o bebê, só ajuda ele a nascer, ele já estava lá. Sócrates, ao fazer o parto de idéias, não cria a idéia, a idéia já estava lá. Ele só desperta a idéia pronta que já estava lá ou faz com que você acesse o que já estava pronto em você, e mais, antes de você nascer, estava no outro mundo. A idéia de transcendência não cria nada, ela só faz você descobrir o que já existe, então dá idéia de deus, pois já existe como? Existe em si nesse modelo da idéia. Você é uma degenerescência, uma decadência disso, um grau inferior disso. Mas o momento mais elevado do homem seria apreender como puro espírito, pois aí contempla uma realidade que já viu um dia, a realidade supra celeste.
Platão tem o mito da circulação das almas, numa obra chamada Fedra. Ele diz que a alma do homem é como um cocheiro em cima de um carro puxado por dois cavalos, um negro e um branco. O cocheiro é a parte racional da alma, intelectiva, aquela pura idéia. O cavalo negro é a parte mais baixa da alma, a parte desejante da alma, a parte passional da alma. O cavalo branco é o aspecto da força, da coragem da alma. A coragem pode ser usada tanto do lado das paixões, quanto do lado das idéias. É uma espécie de guerreiro santo do conhecimento ou o guerreiro perverso das paixões. O cavalo branco estaria entre essas duas realidades. Platão diz: antes da gente incorporar a gente fez um passeio junto ao cortejo de um deus e os deuses, então, estão dispostos, com suas realidades puramente ideais, e nós
Na medida em que fizemos parte desse cortejo, contemplamos essas realidades ideais puras, essas puras idéias. Aqui entra a palavra contemplação. Contemplação é uma visão do espírito, não do olho, onde a gente vê a pura idéia na sua pura estrutura, a pura idealidade, esse ser que jamais muda, essa circularidade ideal que permanece eternamente idêntica a si mesma. Mas quem vê é o cocheiro, é a parte espiritual da alma que vê. Mas ela precisa de condições para ver, como aqui na terra que precisa fazer a renúncia do corpo, as práticas ascéticas e puritanas para criar essa zona espiritual e aí acessar a verdade. Não deixar que o corpo atrapalhe. Platão diz que aqui na terra existem almas que viram muito e almas que viram pouco. As que viram pouco são aquelas que, na ocasião desse cortejo celeste, dessa circulação, tinham seu cavalo negro indócil, nunca ia na finalidade, na origem da idéia, sempre desviando, e o cocheiro ao invés de ficar contemplando as idéias, ficava preocupado em domar o seu cavalo negro. Nessa medida, ele perdeu a oportunidade de ver muito e dificilmente vai se lembrar aqui na terra do que viu desse outro mundo. Nesse sentido Platão é inteiramente socrático. Sócrates acredita que a idéia está lá pronta, isso vem das seitas órficas, puritanas. Já que esta alma viu pouco, ela não consegue ver o que Sócrates quer liberar, então Sócrates vai dizer que os sofistas, o tirano, os artistas estão nessa zona das almas que viram pouco. E as almas que viram muito, como diz Sócrates são as que sabem amar verdadeiramente pois ela não amam a beleza do corpo, elas amam a beleza enquanto beleza. Essa é a essência do amor platônico. É por isso que o discurso de Fedra é belíssimo, há um erotismo incrível e é Sócrates na relação com Alcebíades, que é um jovem efebo, aquela coisa da homosexualidade grega, da beleza idealizada. Ele ama Alcebíades, na medida em que ele é o signo dessa pura beleza que existe no outro mundo. Os corpos ou as relações com a beleza aqui na terra, são apenas meios, instrumentos de chegar a ver essa beleza em si, essa idéia em si que já estava pronta e acabada.
Pensar, segundo esse modelo, é contemplar o que já se viu algum dia, na verdade é reconhecer essa visão primeira, que tinha tido antes, da existência. Essa visão primeira vai ser, na verdade, sempre segunda, do ponto de vista da existência. Isso implica que pensar não é criar, pensar é reconhecer. É que nem a idéia de lei, que nem a nossa justiça. Dependendo da grana, da influência, da força tal, você muda a sentença, faz isso, faz aquilo. A sentença deveria ser neutra, deveria ser de um puro modelo de verdade neutra. Assim também o modelo platônico, um puro modelo de verdade, inacessível, mas quem determina o conteúdo dessa verdade é quem se apropria da fábrica de fazer modelo. Assim a sociedade fabrica os seus modelos, suas normas, suas leis, a partir de um diagrama de forças que não tem nada a ver com a forma. A forma é efeito de um diagrama de forças. Platão fez a gente acreditar que a forma era pronta e era princípio e causa de tudo, causa de organização de tudo. Na verdade, é só um meio de integrar as forças difusas que atravessam esse diagrama de poder. Como fala Foucault, o diagrama como diferencial da força e a forma ou o extrato como integrador dessa força diferencial. Diferencial ou integral, é como em matemática. A forma como integrador de poderes difusos, que são imperceptíveis, abstratos, apesar de plenamente reais e nessa medida, então você tem uma maneira de esconder, de omitir, de tornar inacessível, a idéia de que a realidade incriada precisou ser antes criada, a realidade superior e primeira, na verdade, é conseqüência, fruto de uma realidade anterior, ela não é primeira coisa nenhuma, que a realidade mais elevada é fruto de uma baixeza. Que a realidade mais pacifica é fruto de uma violência. Que a realidade mais idealizada é fruto de um corpo mais misturado de modo impotente. É essa fraude, esse elemento inconfessável, que não se diz nunca ao se aderir a esse modelo de que pensar é contemplar. Esse modelo atravessa a educação, todas as áreas do homem.
A gente sempre acredita que atingir a verdade é descobrir a verdade, é descobrir algo que está lá. Ao ler um livro e não entende nada. Não entende porque acha que tem uma verdade para descobrir ali. Não tem nada a descobrir, tem a maquinar, algo se passa ou não se passa. E se passa, como funciona isso em mim? Começa a se relacionar com o sentido, com a força que atravessa ali e não com um significado verdadeiro. Não há nada para ser descoberto. Você tem que ler, criando. De outra forma não se entende. Entender é criar, pensar é criar. Se estou lendo para entender, tenho que ler pensando, ler criando. Ler de uma maneira tal que sou até capaz de adivinhar a frase seguinte, não porque eu sigo um modelo, mas porque a própria força se antecipa e aponta para mim. Isso é ler pensando, de modo vivo, numa co-criação. Essa crítica é sempre fundamental termos em nosso horizonte, para a hora que formos ensinar, aprender, estudar, ler, escrever, estudar, não entregar o ouro no sentido que meu ouro vai se adequar a uma forma pronta, isso é um desperdício. A nossa potência é co-criadora, no mínimo, da idéia, de um saber ou de um entendimento. Essa dimensão da criação e da co-criação falaremos por último, só estou anunciando esse contraste. A imagem do pensamento como uma contemplação é sempre uma presuposição de que existe algo em mim que é imutável, que é o meu espírito, que veio já de outra região, supra celeste, fora da natureza e que reconhece aquilo também que viu objetivamente fora de si como uma pura idéia imutável e pronta, acabada. Isso é o que a gente chama de sabedoria e não de pensamento. Sábio é aquele que acredita em idéias prontas. O sábio na verdade é um sacerdote. O sábio nasceu sob os regimes mágico-religiosos e despóticos, no interior de um palácio. O sábio é um sacerdote que interpreta a vontade do déspota e que se relaciona com os deuses. O sábio tem a ver com os escribas, ele também é um escriba associado a uma contabilidade material dos contadores da acumulação material do déspota, ele cria uma contabilidade espiritual, ele cria um negócio com os deuses. O sábio vai negociar segundo a aproximação do modelo mítico inserido naquele regime de signos mágico-religioso, que é o regime mítico. O regime mítico de soberania, não o regime mítico dos guerreiros ou das sociedades primitivas, que tem outro tipo de regime mítico, são mitos da terra, de fertilidade e abundância, de guerra e não mitos de soberania. Nesse sentido Platão é um nostálgico, desse sábio antigo. Platão ou os gregos são herdeiros de um mundo mágico-religioso e despótico que se estabeleceu em Creta que era o mundo micênico, cujo centro era ocupado pelo Arnax que era o déspota divino. Esse Anax, que vivia em palácio, tinha todos os seus escribas, os seus sábios, contadores, seus funcionários. O sábio é um sacerdote, um padre, um crente com idéias prontas.
Será que somos padres? Essa é nossa questão. Até onde somos padres, até onde acreditamos que as coisas estão prontas? Ou precisamos das coisas prontas? Esse é o sábio, o padre em nós. É necessário por o pensamento novamente ligado a uma capacidade de criar. Encontrar a dimensão criativa do pensamento. Não uma criação de metáforas, de fantasma, uma criação de realidade. Pensamento produz realidade, uma realidade singular, é dele, não do corpo, que é outra realidade. Não que ela se contrapõe, mas são diferentes. Uma coisa é criar movimento e variação de movimento, outra é criar tempo, variação de tempo ou a criação do virtual. O virtual se cria a si mesmo. O pensamento produz virtual, e é uma realidade. O virtual não existe, mas é real. Precisamos encontrar essa dimensão. A gente já encontrou isso algum dia, por isso, falo em reencontar. E não só reencontrar, mas aquilo que chamamos de primeira idade, esse frescor do encontro com imediato, mas também conquistar essa dimensão, que é o que faz a gente distinguir primeira idade e primeiridade. Esse outro tempo onde você não só entra em contato com o imediato, mas passa a se apropriar da capacidade de se manter
no imediato. Esse é o único ter nobre, na verdade. O ter vem antes do ser. Ter a capacidade de se relacionar diretamente com o imediato e produzir o próprio destino. Ter a vida nas próprias mãos. Isso implica na retomada da dimensão criativa do pensamento.
Hoje, após a introdução ficamos focados na idéia de contemplação. No próximo encontro vamos falar de reflexão e comunicação e talvez entrar em senso comum e bom senso. O senso comum é um lugar comum, uma espécie de identificação de todo o desejo humano, ou de uma subjetividade humana, que é a mesma, há um senso comum e o bom senso é esse senso comum da subjetividade humana, que é a mesma, que se acredita que pode ir numa ou noutra direção, ou o que fez poderia ter feito diferente. É uma espécie de zona de livre arbítrio que te põe numa condição de julgamento, você pode ser julgado. Isso que você fez, poderia ter feito diferente. Aí entra a condição do julgamento que diz você fez o mal e não o bem, ou você fez o bem e vai ser recompensado. O julgamento impõe um senso comum, uma base comum do desejo das nossas almas, ou da subjetividade e uma finalidade no bem ou no mal: um bom sentido, um mal sentido, um bom senso. Senso comum e bom senso, são os dois pilares do julgamento. Ou seja, ele falsifica a idéia de que todo desejo é diferencial, singular, incomparável. É impossível julgá-lo ou separá-lo do que pode, a não ser por ficção. É essa a idéia que o senso comum e o bom senso ou que esse plano transcendente de organização impõe as nossas práticas.
Há um uso da linguagem que valoriza mais o artigo definido e não o indefinido, mais o substantivo comum e não o nome próprio, mais o adjetivo, o predicado do que o verbo no infinitivo. Um pensamento nômade se relaciona mais com um do que com o ou o a. Mais com o nome próprio do que o nome comum, mais com o acontecimento no verbo do que com um predicado que atribui um sujeito e fixa aquele sujeito com traços de caráter, por exemplo. Essa é uma questão essencial. Revalorizar o nome próprio, o artigo indefinido e o verbo. Existem pensadores que se dizem de esquerda, como Chomsky, que estão inteiramente nesse elemento platônico do puro. Por isso precisamos perceber que o buraco é mais embaixo, a zona é mais sutil.
Não existe devir homem. O homem enquanto modelo, enquanto ser... é como o modelo platônico se quer fora do devir, é uma ficção, o homem como essa ficção modelar, por isso que não existe devir homem, esse devir do homem macho. Ex, eu sou homem, você mulher, claro que tem devir para mim. Mas a forma homem não tem devir, ninguém se encaixa na forma homem, é um ideal, não existe, por isso não tem devir. Um congelamento do devir no universal, uma tentativa de parar o devir. A forma homem, a forma deus são esse tipo de idéia, é aquilo que quer se por no lugar do devir, porque se acredita que o devir é inferior. O devir é aquilo que te põe em contato com uma zona do acontecimento onde não há outra realidade que não a singularidade. A idealidade se confunde com o próprio acontecimento e singularidade. Não há uma idealidade em outro mundo. Isso que liga o pensamento a capacidade de criar que vamos desenvolver depois. O pensamento que cria, produz singularizações que emergem numa zona de acontecimento, de devir, de vir a ser, de variação. A forma é um convite para você sair da variação, para entrar nesse puro ser, eterno, para morrer lá e ficar em paz. É um desejo de morte, por isso Nietzsche vê um suicídio em Sócrates, um cansaço da vida que busca o ideal. Uma tentativa desesperada da vida, separada do que pode, completamente torta, de buscar e preservar a si mesmo. Nietzsche fala sobre isso em alguns fragmentos do primeiro livro de Zaratustra em Sobre os Desprezadores do Corpo, em Sobre os Transmundanos. Na verdade essa tentativa de saída do corpo e da terra se deve a um corpo capenga, é um espasmo desse corpo doente e cansado. Esse espasmo é que o corpo ainda quer o corpo, a vida ainda quer a vida, a terra ainda quer a terra, mas já de modo torto e doente.

Educação para a Potência Aula 3


(Ditos Transcritos)

(Transcrição literal sem revisão do autor)
EDUCAÇÃO PARA POTÊNCIA - Aula 3 - 09/05/2008 - Turma I
Por Luiz Fuganti 
Educação para potência é um curso que surgiu em função de uma urgência que a gente sente que atravessa a sociedade. Mas as pessoas que se afetam com esse tema que virou uma unanimidade, uma coqueluche de modo equivocada. Um equívoco que tem raízes profundas, pois já pressupõe um modo de vida reativo. As sociedades já estão muito tomadas por um devir reativo. O devir reativo constitui um campo de forças onde o corpo situa o desejo de maneira tal que você não consegue pensar de outra maneira. Tem um preconceito de base que não tem a ver com o conhecimento, mas com as condições do conhecimento, com as condições do modo de pensar. É essa urgência que eu sinto enquanto oferta dessa proposta de pensar uma educação para potencia e não para obediência. O que eu chamo de unanimidade é que essa visão de educação é uma educação para obediência e não para potencia. Imagine que a educação seja um instrumento de liberação de geração de autonomia, mas essa autonomia que é gerada é uma autonomia moral, de autoridade, formal, mas não é real. Mesmo os que se dizem autônomos já estão prisioneiros de uma condição que nem sequer apreendem, que os faz dizer no limite ou não dizer, que os faz ver e não ver, são formas de sensibilidade, de dizibilidade que impedem você de pensar, sentir e agir de outra maneira. A unanimidade em relação à educação tem a ver com uma idéia que a natureza, no seu âmago, não tivesse uma ordem própria, que sofreria de uma falta de ordem, de hierarquia, que seria substituída por um plano civilizatório, ou plano de cultura. O homem, na medida em que se abre a esse plano, como Freud diz, que é impossível a vida em sociedade sem uma mediação de um plano que legitimaria, que justificaria, que verificaria, e que utilizaria nossas práticas, nosso pensamentos, enfim a nossa vida em sociedade. Esse plano intermediário que seria necessário para que a vida em sociedade se desse de forma supostamente afirmativo, em progresso, em evolução, na verdade é o que nos separa da capacidade de acontecer. Na verdade, essa visão que é unânime é ainda uma visão moral. Acredita que falta algo a existência, que a realidade não tem um plano de auto sustentabilidade. Implica em aderir a uma referência extrínseca a existência que se constitui em um plano mais importante, transcendente, que organizaria a vida sobre a terra, sobre a sociedade. Essa referência transcendente passa a ser um plano mais importante que a própria experimentação direta da vida e da natureza. Nessa medida ela se torna a instância que justificaria ou que legitimaria as nossas práticas e idéias. È a dimensão que instaura a condição do julgamento. Não haveria humanidade sem o julgamento. E a educação faria parte de um adestramento do animal humano para que ele se tornasse capaz de julgar, de discernir entre o verdadeiro e o falso, entre o bem e o mal, entre o justo e injusto, entre o útil e o nocivo. A educação faria parte de um grande adestramento coletivo sem o qual não haveria paz em sociedade, nem progresso, nem desenvolvimento. Muita gente fica abismada com casos sensacionalistas como esse da Isabela. De vez em quando existe um bode expiatório em que a sociedade vê seus monstros e tem que abafá-los rapidamente. A gente vê as pessoas mais influentes, formadores de opinião, artistas, âncoras de jornal dizendo que precisamos tomar uma atitude, imaginem como um pai e uma mãe fazem isso! A gente até entende que precisa tomar uma atitude, isso desde sempre. Tem uns mais abertos que vão querer atuar nas causas, e quando vão atuar nas causas, já estão nos efeitos. É isso que queremos atingir, o plano das causas. Mas se você acredita em uma natureza humana decaída, em uma espécie de mal que atravessa o corpo, o pensamento, a natureza e você precisa investir nessa ordem que resgataria a vida - seja uma ordem religiosa, laica, moral - dessa sujeira, dessa lama, desse mal, desses monstros que existe dentro de nós. O clamor pela educação entre deus e o diabo. Os políticos mais cretinos que existe na política brasileira e mundial assim como os políticos mais interessantes, os que querem de fato fazer algo. Entre os deuses e diabos da política existe essa unanimidade, a educação. Mas que educação? O que é esse adestramento, esse refinamento, essa produção de si que se dá desde a mais tenra infância? Como o homem produz a si mesmo para que ele tenha uma consistência tal que ele possa fazer a diferença que é apenas tolerada ou aquela que julga - pois isso não é diferença- de fazer a escolha que não seja moral. Como produzir a si mesmo e ao mesmo tempo fazer a escolha, a diferença? Como ser capaz de interagir de modo criativo e livre, sem se submeter a um plano transcendente dessa civilização, dessa humanidade ou de uma certa formação social? Sem ter que pedir licença para uma mediação, uma vez que a mediação se tornou necessária para organizar as vidas fracas e impotentes? Aquelas pessoas que não conseguem viver sem a lei. Cito sempre aqui o Ferreira Gullar que é essa pessoa tida como um grande poeta, de esquerda, em um debate sobre a peça Écuba, diz que sem lei é a barbárie. Como que poetas, filósofos, artistas, cientistas, pessoas aparentemente livres, de esquerda, avançados, até anarquistas - estes um pouco menos, o problema do anarquismo é o ressentimento e não a lei - se conformam que haveria uma instância decaída de nós mesmos que precisaria investir nesse plano transcendente que justificaria e legitimaria a nossa relação em sociedade? Como uma educação é capaz de chegar e produzir modos de viver que não precisam ser legitimados por planos transcendentes e sejam capazes de fazer a seleção no imediato? Esse é o desafio da educação para a potência. O que seria educar? A educação implica em uma idéia de aprendizado e ensino. Por isso focamos as duas primeiras aulas na experiência. Qual a natureza desse aprendizado e ensino uma vez que eles se dão no campo daquilo que potencializa a vida e não no campo de instrução ou da competência? Educar não é instruir, nem tornar competente, nem formatar ou formar. Educar, do ponto de vista da potência, seria educar no sentido de que seu próprio modo de viver já é uma conquista permanente de criação de novas condições de experimentação. Ele já um investimento nisso, um aprendizado no crescimento da própria potência, que por sua vez aumenta a capacidade de criar em ato. Um ensino e aprendizado que foque isso e não a aquisição de conhecimento, não a erudição, a instrução, a competência, a autoridade. Esse é o desafio maior, que faz a urgência de um pensamento como esse, na medida em que esse clamor social, histórico, político e econômico, que se torna cada vez mais desesperado. A sociedade cada vez mais decadente e os monstros aparecem de forma cada vez mais caricata. Como gerar um contraste a essa demanda que, no fundo, é de fundo reativa? Em vez de dizer mais educação diria: não, chega de educação! É ao contrario, acabem com a educação. Pois a educação sempre foi, no seu modo dominante de ser, uma máquina de adestramento reativo e não uma máquina de adestramento que poria a vida em condições de criar as próprias condições de experimentação ou existência. A idéia que começa por isso em cheque, a porta de entrada que nos gera um divisor de água entre o que seria essa educação para obediência e essa outra que seria para potência, evoca ou torna necessário o desdobramento ou até uma invenção de noção de experimentação. O que é experimentar? O ensino se dá na experimentação, o ensino se dá na experimentação. Tudo se dá na experimentação. Não existe vida que não seja em relação, que não seja vida em acontecimento. O próprio acontecimento define o que é vida. Viver é acontecer. Não existe zona da vida, região protegida da vida, onde a vida se encapsula, se isola, fica ensimesmada. Não existe uma região solipicista da vida. A vida é necessariamente em relação. Mesmo que não seja com o humano, pode ser com verme, com átomo, com sol. Essa dimensão da relação com o vivo é onde se dá a experimentação. Qual a natureza da relação, da experimentação? A experimentação se diversifica. Existem experimentações que são necessariamente distintas, e que atravessam o campo de humano, que atravessam a nossa vida. Tem uma experimentação que é singular ao pensar. A experiência do pensamento enquanto pensamento é radicalmente diferente da experiência do corpo, ainda que não haja dicotomia de alma e corpo. Acontecer no pensamento é radicalmente distinto do acontecer no corpo. Acontecer no tempo do corpo - que é o tempo presente - ou no movimento do corpo é radicalmente diferente do que acontecer no tempo do pensamento - que é o tempo virtual, passado e futuro ao mesmo tempo, um movimento de outra natureza. Eu tenho aqui sinalizado sempre de modo mais simplista: A experiência do corpo é a experiência do movimento e a experiência do pensamento é a experiência do tempo. Tempo de movimento, corpo e pensamento. Dois tipos de experiências radicalmente distintas. O que implica dizer que são singularidades? Que a experiência do pensamento é uma singularidade, é de fato uma diferença nela mesma. Implica em dizer que só é uma diferença nela mesma, pois está ligada ao infinito do pensar senão se fosse apenas de finitude essa finitude teria que se ancorar em outra sustância que não seria o próprio pensamento que sustentaria o próprio pensamento. A mesma coisa em relação ao corpo. Se a experimentação do movimento não tivesse essa relação direta com o infinito o corpo seria dependente de uma outra instância. E o ocidente fez sempre o corpo dependente do espírito ou da consciência. Aqui a gente está liberando a diferença enquanto diferença e não a diferença apoiada em outra instância que a englobaria e que atribuiria realidade ou não a instância em questão. O pensamento, se ele de fato é uma diferença, uma experimentação única, se é uma região única de acontecimento em nós, ele tem que ter essa relação com o infinito. É o infinito que dá autonomia para o pensamento, assim como é o infinito do movimento que dá autonomia para o corpo. Existem zonas de experimentação, zonas que nos atravessam, então a experimentação do pensamento em nós é necessária do ponto de vista da liberdade, encontrar a dimensão do imediato do tempo que nos põe novamente em relação com o infinito. Da mesma forma, a experiência na dimensão do movimento é necessária, não existe corpo sem movimento, a gente nem teria nascido, a gente não aconteceria se o movimento não tivesse sustentando o corpo. Encontrar o necessário do movimento no corpo é também encontrar o imediato do movimento no corpo, que é encontrar o infinito do movimento, é o que dá sustentabilidade ao movimento. E o que dá sustentabilidade a esse movimento que nos atravessa é a condição da autonomia e da diferença enquanto diferença. O movimento e o corpo tem uma diferença enquanto movimento assim como o tempo do pensamento, o próprio pensamento tem uma diferença do pensar nela mesma, essa diferença não se compara com outra coisa, não é diferente em relação a algo. É diferente já na própria maneira de acontecer, é uma singularidade.
- Existe o tempo do corpo também. Às vezes eu faço uma simplificação para facilitar. O tempo do corpo é o presente e o tempo do pensamento é o que não existe. Só o presente existe no tempo, o passado e futuro não existem, no entanto eles são reais. O tempo do pensamento é esse tempo virtual que não existe e no entanto é real. Fazemos aqui uma distinção entre existência e realidade. O real não se reduz ao existente, o real é também o virtual. Geralmente a gente vive reduzido ao existencial e, pior que isso, a gente vive reduzido a um estado existente. Precisamos então abrir a existência novamente, aquilo que ela pode e ao mesmo tempo que abre a existência a gente comunica ela com essa realidade virtual, que atravessa necessariamente a existência. Não há existência sem essa realidade virtual. A realidade virtual do pensamento é esse tempo que é virtual e a realidade virtual do movimento...- aqui não posso fazer a comparação porque o tempo do corpo não é virtual, ele é atual, é o presente, o presente atual. O virtual do corpo é o vazio. O vazio não é uma nada. É o real virtual. O corpo é um topólogo, um agrimensor, um geógrafo, ele produz lugares, topos, espaço. O espaço é gerado, não é um continente homogêneo onde o conteúdo do corpo se localizaria, o espaço é inventado, assim como o corpo. Vamos desenvolver essas questões do movimento, o tempo do corpo, em outros encontros. O corpo é feito de ação e paixão. O corpo é feito de movimento que modifica, que é ação, e de um movimento que gera modificação. Esse modificar em mim é a paixão que eu sofro e o movimento que modifica, ele age. Ação, paixão: isso é corpo. O que é o presente, o tempo do corpo? É a extensão da ação e a extensão da paixão, é a extensidade. Até onde vai? Aquela presença, aquilo está presente, vai além do instante, tem uma espessura física, uma presença corpórea do movimento. O movimento se corporifica, e essa corporificação até o limite da ação e da paixão que constitui o corpo, é o presente desse corpo. Além do nosso programa vocês vão entendendo o campo de forças, o diagrama nesse plano virtual.-
A idéia de educação se bifurca na natureza da experimentação. Experimentar, dependendo do modo como eu apreendo isso, ou eu me dirijo para uma educação para a obediência ou uma educação para a potência. A idéia de experimentação é um divisor de águas. A experimentação não é única, ela já é uma multiplicidade, uma pluralidade em nós. Existem várias dimensões da experimentação em nós. Uma dela é a do pensamento, ou desse tempo virtual; outra é a do corpo; outra é a da escolha ou do fazer a diferença; outra é a da produção de continuidade - que estamos chamando de memória de futuro, como função de futuro e não representação de passado-; e o investimento em si mesmo, o cuidado, o domínio de si, o investir em si mesmo, o estilizar a própria existência, o constituir-se a si mesmo - que constitui um aprendizado e uma apropriação, uma conquista desse aprendizado e uma transmissão dessa conquista, que seria o ensino. Este é o nosso programa. Já estou falando num diagrama. Na verdade, existe uma coexistência, uma composição e uma recomposição. Não há vida que não seja atravessada por essas instâncias, todas ao mesmo tempo. Há uma diferença de natureza entre uma e outra, e elas não acontecem de modo sucessivo e cronológico. Não é que vai analisar o corpo, depois o pensamento, depois a escolha para depois ver a questão da memória. Quando focamos o pensamento já vai aparecendo o corpo, a escolha e outras coisas, mas estamos focando de modo dominante o pensamento, depois focaremos de modo dominante o corpo e assim com as outras dimensões. Elas interagem, se atravessam, e é uma questão didática.
A experiência desse ponto de vista se diferencia em 5 modalidades:
1 – a experiência do pensamento ou a filosofia na primeira idade
2- a experiência do corpo ou a estética na primeira idade
3 – a experiência da escolha ou a estética na primeira idade
4- a experiência da memória, ou de um certo nível de produção de registro. O próprio tempo registrando a ele mesmo. Existe também o registro do movimento, que se acumula, se dobra e incide sobre o próprio movimento. O tempo se dobra, se acumula e incide sobre o próprio tempo. Então, se existe um sujeito - essa palavra bizarra- ele é o próprio movimento no corpo e o tempo no pensamento. Continuar de si mesmo no modo ativo, criação de um devir ativo auto sustentável, um horizonte de futuro, nos manter ligado a potência do acontecimento.
5- uma vez que a gente conquista essa capacidade de continuidade de si mesma - que é a capacidade de se manter diferenciando de si mesmo, afirmando sua própria natureza, que é uma diferença que se diferencia de si - você é capaz de se diferenciar de si sem perder a natureza. Nessa medida em que você apreendeu todo esse processo do que é se constituir dessa maneira, apreendeu o aprendizado, o aprender. Você apreende a natureza do aprender e se torna capaz de distribuir, de transmitir ou de ensinar. Você apreende o aprender no aprendizado. O aprendizado que faz com que a potência aumente na relação e que seja aproveitada nesse aumento. Ou seja, não só aumenta por acaso, mas sob meu comando, eu tomo minha vida nas próprias mãos. Isso faz com que a gente avalie esse termo Primeira Idade.
Primeira Idade é um neologismo que até me lembraram que existe em Pierce. Não é que não tem nada a ver com o conceito de Pierce, até tem alguma coisa. Na semiótica de Pierce, a Primeira Idade leva como ordem primeira, que seria expressa no sinal. No sinal ele revelaria uma ordem primeira, mas não estamos falando disso. Estamos falando de toda a ordem imanente da natureza. A Primeiridade é, antes, uma Primeira Idade.
Primeira Idade é aquele momento e aquele lugar, aquela região, aquele platô, aquela zona de acontecimento onde você acontece no imediato. É o acontecimento do tempo se apreendendo enquanto tempo que acontece. O acontecimento do movimento se apreendendo enquanto movimento que acontece. O movimento que se relaciona com o movimento e não com uma forma de consciência que representa o movimento. É movimento se relacionando com movimento, tempo se relacionando com tempo. Todos nós temos experiência desse imediato, pois somos feitos disso. É uma inocência, podemos até chamar de uma ingenuidade. As pessoas até confundem: você está sendo ingênuo. Sim, viva a ingenuidade! É uma virgindade, aquele frescor, aquele imediato que não tem nada a ver com o instantâneo. Há também uma confusão radical entre imediato e instantâneo. Instantâneo seria um corte. O imediato te põe em contato com uma região, sem necessidade de uma mediação através de signo, de imagem, de representação, de efeito das coisas. Não é o efeito que media a causa, não é um plano de representação que vai mediar. Esse imediato é algo de nós mesmos, que já é imediato, que encontra com algo fora de nós mesmos, que também é imediato. É a experiência da criança, do bebê, o devir criança, acontece nessa zona. É por isso que tem esse simulacro da primeira idade. Não se trata de primeira idade cronológica, aquela que depois tem a segunda e a terceira idade. É um primeiro tempo, um primeiro momento desse contato. É um contato imediato com o tempo, com o movimento, etc. Uma coisa é você ser atravessado por isso, outra coisa é a manutenção desse modo imediato de acontecer. Essa conquista desse modo é o que chamamos de primeiridade. Primeira Idade seria o primeiro encontro, que nós já encontramos de alguma maneira, e podemos até reencontrar. Nossa questão toda aqui, o aspecto crítico é desconstruir ou destruir aquilo que impede esse reencontro. Essa é toda nossa dimensão crítica. E a dimensão criativa é, não só encontrar isso, como conquistar a capacidade de exercer isso, é um ter, mais importante que o ser. Essa conquista que é a primeiridade.
Nós iniciamos esse curso em contraponto a esse movimento de levar a filosofia para as escolas de segundo grau e fundamental, pois percebemos que esse movimento era civilizatório. Vamos levar filosofia para a educação, pois a educação está precisando de um outro tipo de formatação da subjetividade que não está rolando e que a filosofia poderia andar essa formatação. Até existe uma americano, esqueci o nome, e seus seguidores, que levam a filosofia para a escola de modo a criar na criança, ou inspirar a criança a investir nessa dimensão autônoma de si mesma. Mas essa dimensão autônoma como dimensão moral. É uma filosofia kantiana. É a idéia do Ferreira Gullar: sem lei não tem civilização. É preciso introjetar o puro dever ser na criança. Isso é um esmagamento extremo. Por favor, não! Se você leva esse tipo de filosofia você var ter a criança que merece. A sociedade vai ter de novo os homens que ela merece, vai aprofundar ainda mais essa decadência, essa impotência. Assim como a violência que se esconde atrás da forma democrática que gera a paz, que é na verdade a primeira instituição da violência. A violência é sempre um esmagamento da vida, de maneira institucionalizada. O primeiro esmagamento da vida é pela forma. Quando, a forma toma lugar da força, desqualificando-a e criando um devir reativo da força. Isso raramente é dito, aliás, eu não ouço e não vejo. È sempre essa unanimidade, que a forma é a salvação, seja Hanna Arendt, seja Chonsky - toda essa cultura da democracia como valor universal, dos valores humanos, essa ressaca do totalitarismo, do fascismo, do nazismo - e de que se a forma não funciona é porque precisa ser reformada, ou reformulada. Que ela seria a única ordem real e não qualidade relacional, não a singularidade. Ora, de que adianta levar essa filosofia para a educação? Estaremos, de novo formando gente mais recalcada, jogando mais sujeira para baixo do tapete, produzindo mais monstros. Só que monstros sob controle, pois uma vez que isso se instala é como eu me tornasse oco. Como dizia Nietzsche, a moral é apenas uma máscara para dizer que eu tenho uma força monstruosa, que precisa deter essa força monstruosa. No momento que a moral se instala, dessa maneira, já não tem força monstruosa nenhuma, já morreu. É isso que é insuportável, diz Nietzsche, um homem que não tem nada a temer dele mesmo, um banana, totalmente dócil, ou seja, as forças já se esgotaram. Por causa desse horror que a moral tem, por esse medo que as vidas impotentes têm - de que a natureza humana, a natureza selvagem tenha essa dimensão do mal - que deveria ser contida de qualquer maneira. Como? Pela forma. Jamais! Você só adia o processo. Apenas gera mais monstros e uma hora explode. É como diz Artaud no teatro e seu duplo: o que é vital na cultura? O que se chama de cultura hoje é essa coisa morta. A cultura ainda fala do ponto de vista da necessidade vital? Ou está ajudando a recalcar ainda mais as forças do homem e aí sim o homem chega e diz: viu como tem monstros? Viu como existe esse cara que atira criança pela janela? Viu? Viu? É a mesma coisa a respeito do incesto. Ele é proibido porque existe. Ninguém sabe, é uma inversão absoluta. Por ex a ONU, que é o Bush e sua laia. Mianmar. Lá existe um governo que é anti americano. Aí tem um desastre, nada como isso para eles oferecerem sua ajuda humanitária, e eles já estão fazendo propaganda que o governo não aceita ajuda humanitária e que eles estavam pensando no modo de ajudar a força. Eles são tão bons! E a mídia em eco, não tem nenhum ponto crítico. Então se justifica a forma pela presença de uma força monstruosa. Mas a força monstruosa foi produzida pela presença forma. É ao contrário, a forma é que torna aquela força monstruosa. Uma sociedade assim reativa não se vê cúmplice desses monstrinhos que aparecem. Imagine, o outro que é o mal! Que bom que tem um bode expiatório que eu posso expurgar. Olha, de fato, isso eu não posso fazer. Agora, não há um diagrama que é comum, que atravessa as pessoas todas e que aparece num ou noutro e que eu posso julgar como bode expiatório. Essa hipocrisia social - de querer esconder que a própria maneira da sociedade se constituir, de se relacionar - é que gera essa decadência, essa violência. Por isso que tem que sair da moral das formas e entrar na qualidade das forças. Isso é necessário, focar na qualidade das forças. Tem a ONU, Tribunal Internacional de Haia, de que adianta? Que neutralidade têm? As forças que estão por trás comandam as formas. A forma é só uma desculpa para a força chegar e exercer aquilo que no fundo ela já queria, aquilo já estava determinado. Já estava determinado que Sadam ia morrer na forca. A questão não é saber se ele é bom ou mal, dane-se. Daí, de um outro ponto de vista, se tem o que se merece. É essa mistificação, que a forma é redentora de tudo e que a educação tem que focar nessa formatação do homem, nessa produção de uma subjetividade boa, justa, veraz, útil, é isso que precisamos desmistificar e desconstruir. Como? Só se faz isso desinvestindo na necessidade de uma instância fora da vida, ou superior à própria vida, que seria essa forma - não importa se esta forma esteja em deus ou na cabeça do homem ou no modo do homem se relacionar, porque no fundo é isso. De onde vem essa forma se a natureza é só imanência? Vem do modo de se relacionar. É aí que uma ficção se destaca e diz, como Nietzsche, um deus que se acha o único, ou uma forma que se acha universal. Isso seria mais importante que as formas particulares. É no modo de viver, por não encontrar o imediato, que essa forma é eleita e investida. Não só ela é tolerada e a gente se conforma, como a gente gosta e quer ela. A gente investe nela. È por isso que essa educação por mais liberal que seja, na verdade é uma educação piedosa e hipócrita, pois onde há piedade há hipocrisia. Ela é piedosa com a natureza selvagem, incorrigível, que atravessa o corpo, o movimento, o desejo, o tempo da decadência, o movimento que leva para os desarranjos, devires, disruptivos. Ela então é piedosa com isso e vai resgatar, formatar, organizar e na organização você está corrigido e você vai conservar sua vida. Por isso a forma é piedosa, mas justamente essa forma esconde um duplo mecanismo. A própria presença dela já é uma desqualificação da vida, já é um reconhecimento, um conformismo que a vida não tem ordem própria. E ao mesmo tempo em que ela desqualifica a vida, ela vem e diz, mas eu estou aqui para te requalificar. Eu te dou a qualidade a partir de mim, de eu que sou uma forma universal. É a dupla pinça, o poder sempre funciona assim, não funciona sem criar uma zona de impotência. Ele cria insegurança para oferecer segurança, cria violência para oferecer a paz. É por isso que essa cultura da paz que atravessa sociedade, até entre as melhores cabeças, tem essa hipocrisia radical que não é falada. A violência traz essa paz. A violência traz a boa educação, o polimento das falas que não alteram o tom de voz. Apesar do modo panfletário de Michael Moore, é interessante o que ele expõe nos seus filmes. Ele chega a dizer que existe uma taxa de pânico social, uma taxa de medo. Você gera medo, introjeta o medo. A mídia faz isso todo dia, as novelas. O produto mais rico das novelas é introjetar a desconfiança na vida, sempre tem a maldade, a trama, sempre do ponto de vista mais baixo. Tudo acaba bem para justificar a existência do bom. Como diz Nietzsche, esse bom tem sempre a necessidade que o outro seja mal para ele se sentir bom. Ele não é bom por ele mesmo, ele tem que encontrar antes um mal. Como o poder, que antes tem que desqualificar para ele... Não tem um poder que não diga que oferece o bem. Ele age por sedução. Ele vai proteger, dar ajuda humanitária ao povo de Mianmar, à África. Mas para oferecer ajuda aquela vida já tem que estar no estado de demanda, ela precisa de ajuda. Então eu te ofereço ajuda. Mas já existe uma máquina anterior que separa a vida do que ela pode para daí dizer eu ligo a vida ao que ela pode. Mas gerando um certo saber que integram as forças de poder que integram a sociedade. Você vai quere ligar ao que pode pelo poder. Ao invés de ser potente você vai procurar o poder. Só o impotente precisa investir no poder. É assim que atua essa piedade, essa oferta generosamente gerada. É uma oferta para que você reforce a condição de fraqueza da vida.
O problema então está na natureza da relação ou da experiência. Se você precisa de algo que legitime a sua experiência, necessariamente você cai nesse modo de desqualificar a vida. Mas se você encontrar o imediato sem essa dimensão intermediária ou supérflua, que organizaria ou legitimaria a vida, você entra no plano da qualidade das forças. Aí você vai trabalhar a qualidade. O que importa, o que me move, o que me sustenta? É um modo ativo de ser? O que é dominante em mim, ainda que haja forças ativas e reativas? As forças reativas ou ativas? As de criação são mais importantes que a de conservação ou o inverso? As sociedades reativas precisam que a conservação seja mais importante que a ousadia, que a invenção e a criação. Na medida em que eu entro nesse campo de forças, sou capaz de experimentar, eu posso novamente investir nisso que inventa, que experimenta de fato, nisso que cria o inédito. Eu posso investir nessa dimensão ativa como dominante em relação da dimensão da conservação, reativa.
Como a gente começa a acessar essa zona do imediato? Claro, há uma pressuposto: Enquanto eu não sei, eu acredito. Dá uma enrabadinha na idéia de crença. Em vez de acreditar em outro plano, fora da natureza, porque não acreditar na natureza? Uma vez que eu não sei, que eu preciso acreditar, então vamos usar a idéia de crença, vamos dar uma chance à vida. A vida, enquanto vida, na existência mesmo, sem precisar de nenhuma referência, na relação direta. Porque não dar uma chance a vida nesse sentido? Começar a investir num plano de confiança da vida. Se a sociedade, o poder introjeta desconfiança a gente faz o contrário, e quando desconfiam da gente, acham que queremos tomar algo, faz o oposto, dá mais. Dá não só aquilo que imaginavam o que a gente ia tomar como ainda oferece mais um pouco. Dessa maneira você é capaz de reinjetar confiança na vida. Eu diria que para reconquistar uma idéia de experimentação extraordinária, digna, rara, não essa experimentação vulgar, seria necessário antes, ter essa postura de confiança e para isso tem que vencer o medo. No ultimo encontro falamos dos quatro perigos do guerreiro. O medo é o primeiro, é por onde entra a desconfiança. Por onde é inoculado uma espécie de um não sem forma, um não anterior, uma covardia primeira que impede gostar da experimentação, de criar um gosto pela estética, pelo acontecimento, pelo movimento, pela variação, pela modificação, pela diferenciação. Você vai tendo muito cuidado, muita modificação, muita variação e pode se dar mal. A gente faz o contrário. Ma não é uma crença boba, ingênua, uma experimentação porra louca, idiota. Existe um jeito, uma questão de dose, a arte das doses, colocar a prudência no lugar do medo. Não a prudência para limitar a ousadia, justo ao contrário, é a prudência que vai levar a ousadia ainda mais longe. É inverter, não é a paz para impedir a guerra, mas a paz para produzir guerras mais interessantes, guerras vivas, combates e não guerra como máquina de morte. Como diz Nietzsche, é justamente o oposto da cultura da paz - a paz como pausa para novas guerras. Guerra, bem entendido, não como maquina de morte. A gente só entende guerra do ponto de vista do Estado, que capturou a máquina de guerra e faz dela uma máquina de morte. Guerra no sentido de combate. A vida não é ativa sem combate. Fomos recentemente influenciados pelo oriente, pela filosofia do não combate e no ocidente isso entrou por Schopenhauer, que de alguma maneira era um budista. Não estamos aqui julgando o budismo, mas desse uso dominante, não só do budismo como outras religiões orientais, onde a questão essencial seria do não combate e da renúncia. Como Cristo, que também adere a essa filosofia, dê a outra face e seja crucificado. Toda ação na existência gera sofrimento e uma reação de destruição. Então é melhor não agir. Esse é o niilismo passivo, ele não tem ódio, não é ressentido, nem tem má consciência, mas ele apenas renuncia, adere a grande compaixão universal. Por isso é tão importante entender essa idéia de combate. O combate é ativo, afirmativo, pois é ele que faz com que a ação seja necessariamente positiva, uma oferenda, uma geração de realidade - não um ato de rapina, no sentido reativo, de apropriação, onde eu ajo, ferro com outro e ganho o poder. Não tem nada a ver com isso. A ação é generosa, é geradora de riqueza e de valor. Mas só se tiver esse combate. Quando o ativo se torna dominante. Como? É um aprendizado que se dá na experiência.
O que é experimentar?
A gente tem uma idéia vulgar de experimentação. Experimentar, do mais nobre que se imagina é apenas enriquecer. Você experimenta para se enriquecer, para ficar mais veloz, mais sábio, mais experiente. Mas esse tipo de experiência é um tipo de aquisição, investe-se numa aquisição de discursos, de idéias, de saberes. Aliás, é a instituição mais valorizada hoje em dia - a instrução, a capacitação, a eficácia - criar indivíduos dirigentes. Quanto mais experiente mais dirigente você se torna, mais útil, mais verdadeiro, mais bom, etc. A experiência é um aproveitamento. Mas desse ponto de vista, ela não passa de um consumo ou de uma troca. Você dá algo de você e recebe algo em troca e isso é no máximo uma transformação ou transfiguração de você mesmo, mas jamais uma transmutação, que é completamente diferente. Uma coisa é transformar, outra é transmutar. Você só produz a si mesmo quando transmuta, se diferencia de si mesmo, realmente. Então estamos aqui ligando a idéia de experiência a um - para falar ao modo de Hume - empirismo superior, não esse empirismo vulgar, simplesmente sensível, que reduz a experiência ao sensível, que inclusive é redutor do próprio corpo, porque o corpo não se reduz ao sensível. É um empirismo superior no sentido que a experimentação se dá necessariamente no campo relacional, no plano dos encontros e, de fato, produz uma mudança no campo de forças que te constitui. Uma mudança real, você se torna outro, você se diferencia de si mesmo, se distancia de si mesmo, tenciona, se multiplica, se dilata, se amplia, cria novas vibrações, novas capacidades de entrar em ressonância, na medida em que você experimenta, na medida em que acontece. Acontecer é mudar a relação de forças que atravessava até então. Na medida em que há o acontecimento, há modificação de si, modificação real e que se dá no imediato, da seguinte maneira: ao mesmo tempo que algo de você vai, algo de você vem e algo de fora entra também. Essa mistura entre o dentro e o fora, essa relação ziguezagueante, esse ir e vir ao mesmo tempo, ao mesmo tempo que algo vai, algo te torna. O que é entrar em devir? É isso, no encontro que você faz, em vez de você virar o outro, imitar, copiar, se identificar ao outro, fazer como o outro, você se torna diferente de você mesmo no encontro que você faz com o outro. E o outro que encontra com você também se torna diferente dele mesmo no encontro que ele faz com você. Aí existe produção de si, aí existe uma experimentação que a gente está trazendo aqui.
Esse si já é uma multiplicidade, nunca é um eu, uma unidade. São sis em mim. Nietzsche chama de ser próprio. Deleuze e Guattari chamam atenção para um certo uso da linguagem do nome próprio. O nome próprio é sempre esmagado pelo nome comum. Nós imaginamos que temos nomes próprios, mas na verdade nossa relação com o nome próprio é uma relação com o nome comum. O comum, que na verdade é uma generalização, é universal, ele se põe no lugar de uma singularidade, que seria o próprio. Próprio não próprio de um ego, é próprio de uma multiplicidade que acontece no imediato sem a relação intermediária desse nome comum que te constitui. Eu é um nome comum. Eu não é eu. Eu é o preposto do poder em mim. É o que me torna uma correia de transmissão do poder, o próprio eu. Individuo no corpo e eu na linguagem ou no incorporal ou no campo dos signos.
Para acessar essa dimensão da experimentação é preciso de uma espécie de disposição. Isso que Nietzsche chama de sim, que não é um sim da consciência, é o sim de uma presença. É algo que se apresenta em nós. É a presença do movimento que nos sustenta, em nós, na dianteira, na fronteira de nós mesmos. É esse movimento em nós que se apresenta e que está na dianteira de nós mesmos, no extremo de nós mesmos, no limite. Ou esse tempo que nos constitui ou nos diferencia de nós mesmos, que também está na fronteira. É essa presença do corpo ou do incorporal, do desejo em ambas, que gera confiança. Não adianta dizer não ou fazer a crítica sem essa dimensão afirmativa que, por mais que a gente não tenha a forma dela, a apropriação dela, a gente sente. Então, há um sentir antes. Esse sentir, essa presença, essa apresentação do movimento enquanto movimento, essa apresentação do tempo enquanto tempo em nós que , de alguma maneira, alimenta a confiança. Não é uma confiança boba, ingênua, não é uma crença cega. Essa presença tem um outro tipo de luz, que não é a luz da consciência - que é uma falsa luz, é só um reflexo, já é secundária. Essa luz não, ela é uma luz que constitui a própria presença de nós mesmos. Essa confiança começa a criar a condição da transmutação do medo em prudência, que é o primeiro inimigo do guerreiro, o medo.
O que a sociedade faz para nos separar desse plano de experimentação imediato? Medo, medo o tempo inteiro, desde criançinha: não faz isso, vai queimar, vai quebrar... É o não que já vai quebrando os agenciamentos. Deve-se proteger sim, más com crueldade e não com piedade. Proteger da necessidade da formação de um corpo forte, formar um corpo forte, produzir um corpo forte, não é com piedade que se faz isso. É uma questão de doses, como vacina, vai produzindo anticorpos. Piedade não educa ninguém, não protege ninguém. O SUS tem toda uma política de humanização que eles acham o máximo, do cuidado, da distribuição da atenção generalizada. Que cuidado é esse? O que é dominante é a ampliação máxima da atenção, mas com o mínimo de qualidade. Para tudo você pode ir lá demandar. E existe um tipo de oferta, por mais que essa oferta seja uma trapaça. O que acontece? Você mantem a vida sob controle. A prática da saúde como um refinamento das instâncias de poder, inclusive de uma certa esquerda que quer se perpetuar aí. Apesar de que a direita é ainda pior. Não estou querendo dizer que o PSDB é mais interessante que o PT, não é isso, o contrário. Existe uma zona que é lamentável, estão no mesmo preconceito, no mesmo tipo de atitude, mas o buraco é mais embaixo, ou mais em cima ou mais no meio ou mais no imediato e não nessas zonas hipócritas de trapaça. Você troca um atendimento por um poder, é uma barganha. Não é o fortalecimento da vida. Cuidar, proteger, como? Gerando força, gerando potência. O que as escolas fazem? Ou mesmo os sábios, os cientistas e os gênios? A maioria pelo menos. Busca discípulos, busca seguidores. Onde está a genialidade da vida? Em fazer justo o contrário, em criar aliados. Em vez de alunos, aliados. Em vez de paciente, ter o mais rápido possível um aliado. Saia dessa instância que você resgata o paciente, que você educa um aluno. Que algo vai trazer a vida para um plano superior. O que é o proteger? A mesma coisa que o educar. Que natureza é essa? Por isso, reencontrar a confiança, ultrapassar esse primeiro perigo que corre uma vida em combate, guerreira, uma vida que se faz, que se auto produz é começar a estimular uma capacidade receptiva em nós. Receptiva de que? Talvez não tão receptiva do que está fora quanto receptiva de algo em nós mesmos. Escutar mais as nossas próprias forças, estar mais atento, mais alerta a isso que vibra em nós, essa presença em nós. Aí o fora também. Você vai encontrar isso fora também, quando ouve uma música, quando assiste um filme, quando faz amor, quando se alimenta, toma banho, escova os dentes, não importa. Cada momento você vai ter mais... Algo de você mesmo e de fora de você mesmo vai se apresentar de modo mais imediato, sem a imediação das nossas imagens, das nossas representações. Para isso é preciso primeiro, trabalhar a capacidade receptiva, a abertura. O que fecha? O medo. Do que o medo se alimenta? Da dor. Porque? Porque a dor é vista como má. O mau uso da dor. E a gente se apieda de nós mesmos. Ai! Doeu! Fecha. Em vez de: doeu, reage, será que dá para agüentar, doe um pouco mais, reage. É um excitante, é outra atitude, completamente diferente. É o sentido alegre da dor. Encontrar isso é fundamental para vencer o medo. Aí também implica a arte das doses. Até onde eu posso agüentar, posso ir nesse encontro? Às vezes a tristeza é tão interessante. Não tem nada a ver com o cristianismo, isso. A tristeza é a dor real mesmo, te acontece e você tem ali a oportunidade, é um presente que está recebendo para ultrapassar uma certa zona onde a vida se coagulou. A dor é um instrumento, um aliado da vida intensa para descoagular a vida, para descristalizar os fluxos. Porque não criar esse gosto? E aí a crueldade. O que é a crueldade? Não é fazer sacanagem, humilhar a vida, ser cruel, humilhar. Não nada disso. Geralmente a gente tem idéia de crueldade como humilhação, que é o que se faz no exército, pega o soldado e humilha, tortura. A crueldade não tem nada a ver com isso, até tem, mas é uma idéia bisarra de crueldade. Crueldade tem a ver com uma necessidade real de crescimento, de fortalecimento. Esse dilatar a si mesmo, a própria idéia de doença tem isso também. Nietzsche diz isso em algumas passagens da obra dele, que muitas vêzes uma doença, a sociedade se apressa em qualificar como doença, mas na verdade é uma oferta experimental que a vida está te dando. Você entra numa zona de experimentação. Você fica com febre, você se enfraquece, é algo muito potente que está te atravessando e quem sabe você não consegue ser sufocado, em respirar, criar um jogo, dobra, cria distâncias. Daqui a pouco estabelece um jogo lúdico com isso, se fortalece. Então aquela doença era uma dilatação do corpo, era criação de novas capacidades. É como a vacina. É uma espécie de dose de inimigo no seu corpo que vai gerar uma recomposição das forças que exercem um combate, ou que se expandem, que é o sistema imunológico.
Então a questão da receptividade, o que o Spinoza chama aumentar a capacidade de ser afetado, é a primeira porta de entrada para essa experimentação no sentido mais nobre da palavra. Experimentação como modificador de si. Ser capaz de ser afetado realmente. Na medida em que você é afetado você deseja de modo diferente, pensa, sente de modo diferente. Se permitir a isso. Ficar mais a espera de si mesmo. Não ficar a espera de uma providência futura. Espere as forças, fique atento, à espreita das forças que te atravessam. Exercer a espreita, ser menos ansioso, mesmos atuante, ficar mais parado, investir na idiotia, na catatonia ao invés de ter sempre uma resposta pronta. Seja desajeitado, é interessante. Não receie que o outro vá te rejeitar porque você está desajeitado. Invista nisso. Não em ser desajeitado se não vira um estilo, um novo marketing, não é isso. Porque a vida claudicante, do porto de vista do dirigente, algo no acontecimento problematiza e faz a vida tremer, variar, ficar insegura, mas isso está no próprio acontecimento. A estrutura do acontecimento já é problemática. E porque a gente ao investir no acontecimento a gente se recente com o problemática como se fosse algo negativo? O problemático é justamente o que põe a vida em variação. O que é o encontro? É o princípio da diferenciação. Não há encontro que não tenha esse principio atuante. Porque que eu vou ressentir a diferenciação. Aproveita. Não “relaxe e goze”, más “ tensione e goze”. É outro tipo de gozo, que não tem nada a ver com relaxar, é um gozo tensionante, é outro tipo de prazer. Aí sim existe um consumo, que não tem nada a ver com o consumo da experimentação vulgar. Você passa a consumir intensidades e não mais discursos, pequenos prazeres que satisfazem o corpo, imagens opacas que vão preencher os nossos órgãos, sejam imagens visuais, auditivas, olfativas, táteis, gustativas.Elas são opacas pois já estamos reduzidos a um estado de corpo. Consumimos imagens mortas, desse ponto de vista. Assim como consumimos palavras mortas. Pode observar, geralmente as pessoas disputam e brigam por causa de palavras, confundem a palavra com o pensamento. Na medida em que a gente consome palavras, a gente está separado da capacidade de pensar. É por um certo uso da linguagem, do consumo de palavras, que separamos do imediato do pensamento ou desse tempo próprio que gera sentidos em todas as palavras, que rasga as palavras, que abre as palavras em linha. Essa dimensão da experiência vulgar que é da aquisição, da instrução, da formação, ou do ponto de vista do corpo, que é da etiqueta, do consumo do gesto, da segmentação dos movimentos, aquilo que é socialmente aceito no andar, no dirigir, no fazer, no circular, enfim tudo o que envolve o corpo, esse regime de corpo que nós consumimos nos separa da nossa capacidade de variar imediatamente o movimento que nos constitui. Assim como a linguagem, os signos impede de acontecer no pensamento. Para que invistamos na capacidade receptiva, nessa experimentação que abre, que gera uma confiança, que chama uma presença de forças que nos atravessam, é preciso desconstruir aquilo que faz o efeito contrário. O que faz com que a gente se afaste do movimento que nos constitui? O consumo de imagens opacas, na medida em que a gente se reduz ao nosso estado de corpo, de humor, de impotência. O que faz com que agente se afaste do imediato do pensamento? Um certo uso da palavra que põe a palavra e o signo no lugar do próprio pensamento, do próprio tempo. Então é, ao mesmo tempo que eu chamo essas presenças em mim, que eu vou me abrindo e aumentando as minhas capacidades e que eu vou desconstruindo o que me impede a experiência com o imediato. É uma atitude simultaneamente crítica e criativa. Crítica para desentupir os poros e criativa para criar novas pontes, novos canais, novos poros, novas janelas, novas portas, novas ligas, novas linhas. Ela te põe em devir. O devir antes do ser, antes do final e antes do tempo inicial, antes do sujeito e do objeto, antes da coisa e da palavra, o devir. O devir tem uma ponta na fronteira do acontecimento e outra ponta na potência, dobrada, que se apresenta nessa mesma fronteira. O ato como fronteira e a potência como distância. Aqui se dá uma ampliação da capacidade receptiva. E o que se passa nessa ampliação, nesse investimento real de modificação de si mesmo? Faça algo que os homens sequer suspeitam, nem em sonho, que a fonte da eternidade está bem defronte do nosso nariz. Está em cada acontecimento que nos atravessa. A fonte do real está aí, assim com a fonte da potência. Não tem nenhum deus, nenhum estado, nenhuma lei, nenhum capital que possa se apropriar da fonte. Essa fonte é uma distribuição generosa, inesgotável, nômade, direta, não precisa pedir licença a ninguém. Então se você quer um anarquismo, uma revolução socialista, comunista, acesse esta fonte. É aqui que está a distribuição nômade que faz com que você deixe de ser mesquinho, que deixa de ficar disputando, que fica retendo saberes. Não há nada para economizar, para arquivar, para estocar. Ao contrário, quanto mais você se abre mais a fonte é inesgotável. Justo o contrario, o mesquinho é um estúpido, ele investe numa espécie de conservação. Na medida em que você começa a exercitar você começa a ganhar gosto e confiança. Você percebe que essa zona do imediato é justamente aquilo que te dá mais força e potência para você criar, para aumentar a potência de afetar. Na medida em que você aumenta a potência de ser afetado, você aumenta a potência de afetar. Dá-se ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo em que algo vem, algo vai. É por isso que Nietzsche diz que a justiça é imanente, é imediata. Temos aquilo que merecemos, segundo o modo de vida que somos capazes de criar. Claro que é preciso nuançar isso. As pessoas dizem: mas não tem uma máquina social, uma máquina de miséria? Claro, tudo isso existe, mas em cada miserável, em cada oprimido há uma cumplicidade. Não uma culpa, uma fraqueza constituída por natureza, mas uma cumplicidade que produz o enfraquecimento. É aí que a educação para a potência teria que atuar. Onde a vida se torna cúmplice de um enfraquecimento? Onde ela pode ser cúmplice de uma potencialização? Há algo em nós mesmos que nos deixa enfraquecer. Há algo em nós mesmo que investe na potencialização. Essa distinção é fundamental. Como a gente apreende, exercita, pratica e transmite isso? É toda nossa questão.
O investimento nessa capacidade de abertura de ser afetado, ao mesmo tempo vai nos pondo em contato com uma nova maneira de fazer a seleção. Ao mesmo tempo em que você contata o movimento enquanto imediato, o tempo do pensamento enquanto imediato, você também, porque isso implica uma abertura... Como você vai selecionar? Tudo entra? Onde eu faço a diferença, a escolha? Digo sim para tudo? É isso que diz Nietzsche, saber dizer sim. O homem não sabe dizer sim. O que é dizer sim? Não é nem dizer, não é verbal. Até passa pelo verbal. Esse verbal que está investido por esse sim anterior que é silencioso, que não é da consciência. Dizer sim é essa abertura, essa confiança, esse gosto pela variação, é a própria diferenciação antes de diferenciar no acontecimento que gosta em você, que deseja em você, isso é o sim. O sim é algo que te ultrapassa, um campo de imanência, um horizonte absoluto que te diferencia. Mas como que você faz para que este horizonte não te engula, não te destrua? Que não venha dele, desse fora, campos ou forças que te aniquilem? Justamente amando as distâncias. Amar a si e não ao próximo. Amar a si enquanto esse si difere de si mesmo, esse si que cria distância no tempo e no movimento. Distâncias não como separação, mas como presenças necessárias que se mantêm inteiras e em pé, sem fazer concessão. Porque a distância que gera uma aproximação por constrangimento, ela abaixa a cabeça. Aqui estou usando um antropormofismo para força dizendo que a força tem uma cabeça, a força abaixa a cabeça quando ela é constrangida, quando a distância é invadida. A distância é fundamental. É essa distância que opera a seleção na fronteira de si mesmo. Não entre uma coisa ou outra coisa, que é a seleção moral, mas a seleção em qualquer coisa que chegue até essa superfície, a extração do necessário daquele acaso. A extração da essência daquele acidente. A extração de um ser daquele devir. A extração de um duplo do acontecimento. A extração de um ato imanente daquele ato que aparentemente era exterior....... É uma extração e uma criação ao mesmo tempo, é um duplo movimento, uma co-autoria. Eu sou co-autor com o acaso, com o caos, com o fora que me atravessa, de um modo que faz com que qualquer coisa que me chegue seja transmutado em força aliada que cria uma consistência, um plano de consistência, um plano até de continuidade. Nessa medida, a natureza da escolha muda completamente. Não é escolher entre o bem e o mal. Não é que eu escolho o bem e evito o mal, invisto no verdadeiro e destituo o enganador, etc. Na verdade, seja bem ou seja mal, seja verdadeiro ou seja falso, justo ou injusto, vinde a mim, como dizia Nietzsche, todo acaso porque ele é inocente como uma criancinha. A inocência do acaso. Aqui sim tem abertura como horizonte absoluto e não como um horizonte parcial do bem, que é investido e horizonte parcial do mal, que é recusado. Dividir a natureza em bem e mal, dividir o devir em bom e mal devir, que é o que o homem faz o tempo inteiro e o que a educação investe o tempo inteiro. Essa confiança, essa abertura, esse horizonte absoluto não é um horizonte bobo, idiota, é totalmente seletivo. Mas é uma seleção de outra natureza. Isso não só é possível como é necessário. Spinoza nos ajuda muito aqui. Ele nos põe diretamente no rigor. Onde está o rigor dessa seleção? Vamos agora pensar no mal ou na doença. Uma coisa me faz mal ou me torna mais fraco, mais miserável. Mas para ela me atingir é preciso ter relação. Se ela não se relacionar comigo ela não me atinge. Como ela relaciona comigo se não tiver nada em comum comigo? Seria impossível. Como você estabelece relação com algo se não tem algo de comum entre você e esse algo? Alguém consegue imaginar uma relação sem uma zona comum? Sem uma natureza comum? De que maneira uma coisa passa para outra ou a outra passa para a coisa? De que maneira algo modifica algo se não tiver uma relação? E de que maneira vai haver relação se não há uma zona comum? Spinoza vai dizer, ora, não é pelo que uma coisa tem de comum com outra que ela vai sofrer um mal ou adoecer ou se decompor. Ao contrário, na zona comum está o começo da transmutação. Como eu opero uma transmutação real? Da doença em saúde, da miséria em riqueza. Isso é real, não tem nada de sobrenatural, isso é alquimia real, você transmuta os elementos. Você precisa encontrar essa zona comum, necessária, é impossível que não exista essa zona comum. Se é difícil encontrar... não é impossível. Aliás, é porque é difícil que a maioria dos homens ou da humanidade está onde está. Isso é outro tempero da vida, outra dinâmica, é uma espécie de provocação para a vida ir mais longe. Não é uma inconsistência da vida, uma imperfeição da existência, uma falta na natureza, não tem nada a ver com isso. Ao contrário, a natureza é perfeita. Sob que ótica, sob que ângulo, qual o ponto de vista que transforma tudo em perfeição? Esse ponto de vista a gente pode habitar. Primeira coisa é encontrar o comum, o ser comum que não tem nada a ver com o universal, muito menos com o bem. O ser comum não é nem bem nem mal, ele é simplesmente, ele é necessário, é uma zona de acontecimento, um plano de imanência, onde tudo começa, um plano de encontro. Há uma zona comum em qualquer encontro, há uma seção imediata entre algo e algo que se encontra. Há um relacional que põe diretamente em contato, sem mediação. Esse plano é um elemento direto, é como um verbo no infinitivo: andar. Andou no passado ou andará no futuro? Andar é para os dois sentidos ao mesmo tempo, para o futuro e para o passado. A seção do andar é um plano do imediato, essa zona comum está aqui. Um andar para todos os andares. Um animal para todas as animalizações. Esse animalizar é um ser singular onde todos os modos de animalizar modificam o animalizar. O animalizar é modificado por cada intensidade que entra nele, por cada relação que entra nele. O animalizar é a zona comum do animal, mas ao mesmo tempo, é incrível, porque de um ponto de vista ele é uma zona comum e do outro, ele é uma singularidade. O animalizar é diferente do vegetalizar, que é diferente do humanizar. Existem zonas singulares, existe uma comum idade dos elementos que humanizam, que vegetalizam, que animalizam, mas ao mesmo tempo, o humanizar, o animalizar, o vegetalizar são diferenças irredutíveis, são singularidades. A primeira coisa é encontrar essa zona comum que opera a transmutação e nos dá a condição de uma escolha ética e não uma escolha moral. Você não escolhe mais pelo dever se ligar ao bem e evitar se ligar ao mal. Você escolhe agora naquilo, seja bom ou mal que te acontece, o necessário antes de tudo. Se algo me aconteceu é porque tinha uma necessidade ali. E se é necessário eu desculpabilizo, eu digo, não poderia ser diferente, isso me era necessário, eu encontro a zona onde aquilo era necessário e não poderia ser diferente. A partir daí eu posso transmutar. Então aquilo que me fazia mal não pode me fazer mal, pelo que tem de necessário. Então, ao invés de eu me aliar ao outro que eu julgo que era mau, que eu quero eliminar, odiar, destruir, eu me ligo a maneira de ser que tem uma necessidade. Na maneira de ser é que eu transmuto. Assim que despessoalizo, que eu deixo de acusar o outro, amar ou odiar o outro. Mas eu amo ou odeio algo que se passa na relação com o outro. É um entre, eu começo a investir no entre, mudo de foco. A educação tem que trabalhar esse foco e não o foco do eu ou do outro, ou da instrução que deixa o eu mais bom, mais verdadeiro ou da instrução que deixa o outro mais civilizado, mais obediente. Na maneira de acontecer, aqui está a zona de modificação real. Ao mesmo tempo em que eu aumento a capacidade receptiva, que eu sou capaz de ser afetado ao máximo também eu posso modificar, ser capaz de afetar. E o que modifica? Antes de tudo, a própria condição da experimentação. Eu sou capaz de criar a condição da experiência que a minha vida entra. Aqui eu posso dizer que tem autonomia? E porque de outro modo não tem autonomia? Porque eu reduzo a vida a um campo de possibilidade. O campo do possível, ele já elege um certo conjunto de formas de referências que vão limitar o meu leque de escolha, como um jogo de xadrez: é todo fechado, tem um limite, uma hierarquia, as regras fechadas. O campo do possível é como um jogo de xadrez, é fechado e ao mesmo tempo me faz acreditar que tem um certo limite que eu não consigo ultrapassar. Ele me põe em uma certa zona de acontecimento limitada a valores de épocas, por exemplo. Uma certa época inventam um modo de ver ou de criar zonas cegas, um modo de ouvir ou de criar zonas surdas, um modo de falar ou criar coisas mudas , um modo de pensar e criar zonas impensadas. No limite do leque de possibilidades você diz não aqui não pode. Aqui é o não que a vida não acessa. Isso porque não somos capazes de criar a própria condição da experiência. A gente diz: isso é possível? Ah, então tá. É impossível, então deixa. Em vez de: impossível? Mas eu quero o impossível. É possível? Mas é muito pouco. É como diz o Nietzsche, o vosso máximo é tão pequeno e o vosso péssimo? Nossa, esse era o péssimo? Isso não faz nem cócegas. É uma cobra? Mas eu sou um dragão. Então, é ampliar ao máximo, ultrapassar o possível bem e o possível mal, que é uma coisa achatada, mediana, de homem medíocre e entra nessa zona onde você cria a própria condição da experiência. Na medida em que você investe na singularidade que é a afirmação própria de cada diferença. Quando você investe nessa afirmação que está em construção, que precisa ser construída inclusive, ela não está dada. A singularidade é uma linha de acontecimento. Ex: você diz, lá está o limite do mar ou daquela avenida, aquele prédio é o ultimo. Se eu estou acostumado a viver aqui, o limite é lá. Mas na medida em que eu começo a me deslocar o próprio horizonte começa a deslocar comigo, então não existe limite. O limite é um limiar. Na mesma medida em que eu afirmo a singularidade eu afirmo o limiar e não o limite. O limiar é uma ponte que vai me diferenciando e no limite, no corte, muda de natureza, há uma transmutação. Isso que é a transmutação na experiência. A vida, ela é de brincadeira, mas uma brincadeira real. A vida é um brinquedo, é lúdica, mas é totalmente real. Não é metáfora. Por isso a metáfora é tão pobre. É o como se... E não é o como se... É totalmente real. Você produz a si mesmo nessa medida. E produzir a si mesmo não é criar um eu forte, poderoso. É ampliar a multiplicidade, é se constituir enquanto multiplicidade, que se torna cada vez mais dinâmica, mais veloz. E ao mesmo tempo imóvel, porque ao afirmar o acontecimento não se trata de sair agindo e se movimentando. Ser ativo não é sair fazendo um monte de coisas. Não tem nada ver com imperativo, ainda que o imperativo seja já sintoma de uma sociedade que limita, que impõe e que demanda. Produz o imperativo, uma reação histérica de uma ação que está presa ou obsessiva.

Pergunta: existe uma zona comum entre a massa e Hitler?

Na verdade ali já é a perda do comum, uma espécie de captura do comum. Há o comum? Há, mas está esmagado por um universal. É a trapaça quando você acredita que o comum é universal, é uma forma. Aí, necessariamente, acaba mal, não tem como. Como isso acontece? Como se chega nesse momento em que invés de você apreender aquilo que é comum e geraria uma liberação de uma linha de fuga ativa faz com que você invista no ódio, em um não a priori? Hitler dizia claramente naquele filme Triunfo da Vontade: os nossos inimigos sequer suspeitam e ficam abismados com a nossa unidade..., o que eles não sabem é que estamos unidos pela dor, pela miséria, pela impotência. Fala claramente, está ali para todo mundo ouvir. O comum na miséria, na impotência, o comum no não, que faz a troca para o universal. É essa trapaça. Então é preciso apreender a afirmação como algo que tem diferença de natureza em relação a negação. Ultrapassar a dialética. Hegel, por ex. vai dizer que o estatuto do sim e do não é o mesmo. O mesmo estatuto para a afirmação e a negação. Isso para a dialética. E Nietzsche vai dizer a dialética é a ideologia própria do ressentimento. Dá em Hitler, em Stalin, em totalitarismos, Bush, nessas coisas aí. Quer dizer, Bush, Stalin, Hitler, o que é o corpo, o espírito deles? É toda a trama social que está ali. É toda a sociedade que está ali investida. Não é o Hitler. Isso é ridículo. A gente sempre buscando o bode expiatório. Claro, Hitler protagoniza, foi ele que num indivíduo catalisou todo o diagrama social. Se não tivesse esse Hitler, seria outro. Freud por exemplo não inventou a neurose ou o Édipo. Freud já era um neurótico já produzido pela máquina social que inverte tudo a relação, o inconsciente enfim...e se não tivesse aquele Freud ia ter um outro. Porque o poder precisa de um certo saber que regule essa relação de adoecimento e introjeção da falta. Se a família não funciona bem a psicanálise está aí para edipinizar. A edipinização é uma função do poder. É necessário ter, senão não tem consumo. Não há desejo no sistema capitalista sem que seja fundado pela falta. Pela falta do objeto a ser consumido. Essa é a máquina do consumo necessário. Não que isso aconteça só no capitalismo, existem outras maneiras de consumir, inclusive eternidade e salvação. São Paulo inventou uma maneira de você consumir eternidade, introjetando a má consciência ou a falta dentro de você como o pecado original. Porque as religiões vão muito bem, obrigado, mesmo numa época que não precisa mais de deus? Na verdade o que é a moral sem deus? É essa mesma falta que é filha de deus e deus é filho de um corpo impotente e de um mau uso desse corpo. Uma vida impotente, que faz mau encontro, uma outra vida que faz mau uso desse encontro, cria deus, que por sua vez cria a moral que deve seguir a deus. Daqui a pouco deus não serve mais, não precisa mais de deus, a moral basta. Assim é o capital, agora nós precisamos só da falta. Édipo basta, não precisa mais da alma pecadora, nem de uma conjugalidade humana, muito menos heterossexual, pode ser homossexual. E pode ser até uma conjugalidade com animal ou com um objeto de estimação qualquer. Aí que você já introjeta a falta. Há uma cultura da falta. Mas isso é que alimenta esse fraudar da zona comum. Aquilo que Artaud disse: deus esse ladrão, esse ladrão de superfície. Todo poder é um ladrão de superfície. Rouba a superfície. Superfície é o imediato do movimento, do tempo, da escolha. O poder, o tempo inteiro, desqualifica essa zona do imediato, desqualifica a superfície, o comum e oferece o bem, a lei, o universal no lugar do comum. Mas a lei, o bem, o universal, é fruto do negativo, do ódio, da impotência. É por isso que eu digo, junto com Freud, há um mal estar necessário da civilização, porque todo desejo para acontecer em sociedade tem que entrar na lei. É o Ferreira Gullar, se não tem lei é a barbárie. É essa substituição do comum pelo negativo do universal. Essa invenção já é socrática. Sócrates que vai dizer que tem um ideal, a idéia em si, o objeto geral e a idéia em si é universal e então ela é representante do bem, porque o bem contempla a todos. Se ela não fosse universal ela seria parcial ou particular, e o particular só contempla a um ou a outro, que gera disputa, intriga, inimizade, guerra, destruição, que gera o mal. Então o particular deve ser obediente ao universal. A educação opera o tempo todo aí, nessa disciplinização, nessa homogeneização, nessa universalização, essa normatização. A educação é uma máquina de normatizar, ou seja de ligar o particular que você é no universal que é necessário para se viver em sociedade. Quando você nem é um particular, você é um singular, que é completamente diferente. Singular não é particular, mas sim uma multiplicidade. A gramática nos engana, de novo. A gramática diz que o singular é o oposto do plural e a gente confunde o conceito com a gramática. Na verdade não há singular sem a pluralidade que constitui o singular e não há pluralidade sem afirmação singular que faz dessa multiplicidade uma linha. Essa máquina educacional, esse sistema de negação pela universalidade criam um referência universal, liga a vida que era singular a este universal, ou seja, esmaga a singularidade, cria uma fórmula média de particularidade que vai se encaixar na universalidade. E a singularidade mesmo está desperdiçada. As sociedades enfraquecidas desperdiçam vida, desperdiçam desejos, afetos, são supérfluos. A terra está cheia de supérfluos. O supérfluo é aquele que não faz a diferença, que não cria nada, não inova, não inventa, que só vive do sangue dos vivos. É o próprio parasita, que não faz a diferença existir ou não existir. Cuidado, isso não é pessoal. Supérfluo é o modo de se relacionar com a força, não é a pessoa que é supérflua. Se não eu vou olhar o que é supérfluo e daí aniquila, aí é o Hitler. A gente sempre fala de forças e de singularidades, não é uma pessoa. No indivíduo tem pluralidade de forças que atravessam então você deve se relacionar com singularidades que afirme a vida e não com os modos que submetem a própria vida. Esse não não é um não contra o outro e sim contra uma maneira. Por isso que tem que ser cruel e implacável, é o não. Mas não à maneira e não ao outro, não pode confundir a criança com a água do banho. É um problema de confundir a linguagem com o pensamento.
Chegamos nessa zona da escolha que não é uma escolha moral, mas uma escolha ética: não importa o que me aconteça ou as relações que eu estabeleça, em cada relação que me atravessa, encontrar aquilo que é necessário, que é essencial, aquilo que se compõe. Não é pelo comum que perco potência, ao contrário, o comum é a condição da composição. É no comum que começa uma unidade de composição. A unidade é a zona comum. A única unidade que existe é essa zona comum. Mas não é uma unidade que salta fora e fica olhando as multiplicidades se relacionarem e ai relaciona essa multiplicidade com essa unidade e assim respectivamente, atomiza as duas, bioonivociza, binariza a nossa multiplicidade com a unidade, tipo juiz- réu, aluno-professor. Você tem as várias substâncias, indivíduos e pessoas sociais que se relacionam a partir de uma unidade que saltou fora. Não, a unidade é o meio, é o próprio acontecimento, tem algo no acontecimento que faz a unidade, que é uma zona comum do acontecimento. Essa zona comum, se não existe, temos que inventar. É o que Deleuze Guattari dizem do corpo sem órgãos, que é aquilo que já está dado, mas ao mesmo tempo está tudo por fazer. Existe uma zona dada, mas ao mesmo tempo, existe outra que está por fazer. Então, essa outra que está por fazer cabe a nós fazermos. Ninguém vai fazer por nós. A gente tem que ser não apenas parte, mas tomar parte. Essa atitude de tomar parte implica uma ousadia e para que haja essa ousadia é preciso que haja confiança, receptividade, uma relação com a própria fonte, senão como você vai ousar? Do nada? Saltar como macaco? Com perdão dos macacos, pois eles saltam bem. Você não pula etapas, precisa criar uma continuidade imanente e é esse o processo de aprendizado. O aprendizado te liga novamente a essa necessária continuidade. Um processo engendrando um outro processo, um movimento engendrando outro movimento e não movimento sendo segmentado de fora, sendo recortado e depois religado artificialmente. Não, é o próprio movimento engendrando e cortando de dentro, diferenciando, um corte a-significante, não racional, não representativo, não moral, um corte necessário que faz com que aquele devir mude de natureza e seja capaz de continuar a si mesmo, na mudança de natureza. É essa zona de escolha que vamos trabalhar ao longo do terceiro bloco, teremos seis aulas especificas para isso. Essas declarações de intenções são apenas simulacros, às vezes é mais tempo, às vezes menos, é uma maneira de distribuir no programa, que não é formal, ele é uma zona de dobragem e de desdobramento e esse tempo a gente nunca sabe qual o tempo necessário para desdobrar suficientemente para ir adiante, mas é mais ou menos isso.
A escola segmentariza o aprendizado e a educação para a potência seria uma continuidade intensiva e expressiva ou qualitativa. Uma quantidade entre intensiva e uma qualidade expressiva. É essa zona de continuidade que a gente precisa habitar, uma continuidade real e não artificial feita pelo homem, ou por deus, ou pela representação. Assim como também nessa continuidade você encontra o processo de diferenciação real, de corte, de descontinuidade. Aí você entende a descontinuidade real e a continuidade real no lugar de uma continuidade artificial ou de um corte ou uma descontinuidade artificial. A representação opera corte e descontinuidade artificial a partir desse não, dessa impotência. Quer dizer, o solo para essa falda descontinuidade e para essa falsa continuidade é a impotência, é a separação da vida do que ela pode, em cima disso que ela cresce. A invenção do Estado faz isso, o Estado é um falso corte e cria uma falsa continuidade. O estado vai querer ter uma memória bem grande, de longa duração, uma memória da forma, uma filiação, uma genealogia, uma dinastia. O poder, ele se continua. É uma falsa continuidade, implica uma captura.
Partindo da síntese que Deleuze faz, pensar não é contemplar, que tampouco é refletir e que menos ainda é comunicar. Não é contemplar um objeto pronto, transcendente. Não é refletir o objeto no sujeito e não é comunicar uma informação entre sujeitos ou intersubjetiva, que é o caso de Kant. Nem Platão, nem Descartes, nem Kant, que são os três modos ocidentais de formatar e capturar o pensamento. Isso não é pensar. Pensar, como diz Nietzsche, é criar. E criar, do ponto de vista da filosofia, é criar conceitos. Mas o conceito não é uma forma, é uma singularidade como potência de acontecer. Do ponto de vista da arte, criar é criar sensações. Do ponto de vista da ciência, criar é criar funções. Pensar, então, não é exclusivo do filosofo. O cientista, o artista, outros pensam. Mas pensar é antes de tudo, criar. Vamos desenvolver esse conceito no próximo encontro. O que é pensar e o que não é pensar. Vamos ligar a primeira idade e a primeiridade a esse pensar, a dimensão da experiência no pensamento e depois iremos para outras experiência, do corpo, da escolha, da memória e do aprendizado.