sábado, 12 de fevereiro de 2011

divulgação: O EFEITO PLACEBO ALOPÁTICO

por: Orlando Gonzalez
A maior prova de que a homeopatia é eficaz reside na tentativa insistente da indústria alopática em querer enxovalhá-la. Essa preocupação obsessiva, que deveria inexistir em produtores de drogas que as consideram superiores, desnuda suas intenções mercadológicas, seu aferrado amor ao lucro a qualquer preço. Para tanto, lançam mão de repetidos chavões, incomodados que estão com a permanência de mais de duzentos anos do êxito da homeopatia. A indústria alopática sabe que, em medicina, mentiras duram pouco, a exemplo da frequente substituição de seus medicamentos por outros, numa sucessão de estragos que promovem nos incautos, e sempre com a desculpa de que a droga adventícia tem “menos efeitos colaterais”, uma espécie de confissão de que o remédio defenestrado era realmente perigoso e disseminou incalculáveis males, nunca pesquisados, catalogados e exibidos publicamente. Nem sempre, entretanto, a promessa se cumpre – às vezes o novo astro arruína o organismo humano mais do que o anterior. Por isso a alopatia e seus porta-vozes mercenários precisam agredir sistematicamente terapêuticas de sucesso, como de vez em quando fazem com a acupuntura, a medicina chinesa, a fitoterapia e outras. E de onde provém essa necessidade? Do fato incontestável de que seus remédios (“remédios”?) geram desastres de há muito identificados por cientistas idôneos (imunes a soldo): dependência física e psíquica de psicotrópicos, alguns levando ao suicídio; vitaminas sintéticas cancerígenas; degeneradores celulares; antibióticos que aumentam a resistência microbiana; desreguladores hormonais de lastimáveis consequências; supressores imunológicos; interações que levam ao óbito, etc. etc. etc. (E põe etc. nisso). Em resumo, o paciente da alopatia que se livra temporariamente de um incômodo (transformando-o não raro em outro – ou outros - a médio ou longo prazo) tem uma grande capacidade de auto-sugestionar-se. Além de se predispor a crer que a doença irá às favas pela ação da repressora química alopática, sua indução psicológica alcança também a remoção dos imediatos efeitos colaterais do veneno alopático. Isso é que é efeito placebo!...

divulgação: HOMEOPATIA E CETICISMO

por: Marcus Zulian Teixeira
No início do ano passado (30/01/2010), com o propósito de endossar um movimento que propunha a suspensão do financiamento público para a prática homeopática no Reino Unido (Parlamento Britânico - Comitê de Ciência e Tecnologia), um grupo de céticos britânicos organizou uma manifestação midiática, na qual os seus integrantes experimentaram, em praça pública, frascos inteiros de medicamentos homeopáticos (escolhidos ao acaso), com o intuito de mostrar que eles não sentiriam quaisquer efeitos adversos, o que indicaria que os medicamentos homeopáticos são substâncias inócuas (placebo). Sem utilizar um modelo de acompanhamento dos experimentadores para uma possível avaliação dos resultados (metodologia científica), esse “teatro ao ar livre” foi reproduzido por outros grupos de céticos no Canadá e na Austrália. No último sábado (05/02/2011), essa manifestação foi repetida por céticos em diversos países, inclusive no Brasil. No artigo transcrito abaixo, Marcus Zulian Teixeira questiona os resultados apresentados pelos céticos (que alegam não terem sentido qualquer efeito nas referidas experimentações dos medicamentos homeopáticos), embasando sua conclusão nos resultados positivos de prática semelhante que realiza com estudantes de medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) desde 2003.
Resultados da overdose maciça de remédios homeopáticos no Reino Unido: ceticismo ou preconceito?
(Tradução de “Results of mass overdose of homeopathic medicines in United Kingdom: scepticism or prejudice?”, publicado em 2010 no periódico “International Journal of High Dilution Research” em resposta à manifestação de 30/01/2010, semelhante a que ocorreu em 05/02/2011). [1]
Marcus Zulian Teixeira*
Como foram relatadas em diversas manchetes [2], em 30 de janeiro de 2010, às 10:23 horas, centenas de céticos tomaram uma overdose de remédios homeopáticos em frente às “Farmácias Boots” na Grã Bretanha (Birmingham, Bristol, Brighton, Edinburgh, Glasgow, Hampshire, Leeds, Leicester, Londres, Liverpool, Manchester, Oxford e Sheffield) para protestar contra a venda de remédios homeopáticos por essa rede, e também para provar que esses remédios não teriam nenhuma base científica. O mesmo foi realizado no Canadá e na Austrália.
Coordenados pela “Sociedade Merseyside de Céticos”, uma organização dedicada a “desenvolver e sustentar a comunidade cética”, os manifestantes engoliram o conteúdo de frascos inteiros de medicamentos homeopáticos para ilustrar sua idéia de que “são apenas glóbulos de açúcar”.
Baseados na suposição de que nenhum dos manifestantes apresentou quaisquer efeitos adversos depois deste “experimento maciço dos efeitos dos medicamentos homeopáticos”, concluíram que esses não têm atividade alguma no corpo humano, mas funcionam como placebo [3].
A experimentação de medicamentos (experimentação patogenética homeopática) é, de fato, um método excelente para comprovar os fundamentos homeopáticos, sempre que os experimentadores concordem em observar e registrar, sem preconceitos, as mudanças desencadeadas pelas substâncias preparadas segundo o método homeopático (diluídas e agitadas) em seus estados de saúde.
Por esse motivo, em relação ao episódio anteriormente relatado e seus supostos resultados, eu não posso deixar de questionar se tais “céticos” estariam, realmente, dispostos a mencionar qualquer mudança em seu estado de saúde observada depois da auto-experimentação.
Como o mais provável é que a resposta seja “não”, então proponho que ao invés de “céticos” sejam chamados de “preconceituosos”, porque lhes falta o verdadeiro “espírito científico”, ou seja, aquela postura que exige dos pesquisadores deixarem de lado as opiniões e idéias pessoais e preconcebidas quando se procuram respostas para as perguntas feitas na pesquisa.
Minha conclusão se baseia nos resultados obtidos no projeto “Experimentação patogenética homeopática como método didático”, que vem sendo realizado desde 2003 com estudantes da disciplina eletiva “Fundamentos da Homeopatia” [4] da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Trata-se de um protocolo científico (aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas da FMUSP), onde são testados medicamentos homeopáticos na diluição 30cH – através de ensaios randomizados, placebos-controlados e duplos-cegos. Os estudantes de medicina experimentam esses medicamentos voluntariamente, observando os efeitos despertados pelos mesmos em seus estados de saúde. Com essa prática vivencial puderam ser confirmados vários sintomas descritos em experimentações patogenéticas prévias das mesmas substâncias, corroborando a premissa de que a “informação” contida nos medicamentos homeopáticos ultradiluídos pode produzir efeitos patogenéticos em seres humanos. Esse aspecto é um dos grandes obstáculos para que mentalidades que só admitem medidas quantitativas possam aceitar a homeopatia.
A experiência quali-quantitativa recém mencionada está descrita, em detalhes, no artigo “Experimentação patogenética homeopática breve: uma singular ferramenta educativa no Brasil”, publicado no periódico “Evidence-based Complementary and Alternative Medicine” (eCAM). [5]
No entanto, devo insistir que o requisito mínimo para que os fenômenos homeopáticos sejam constatados está na mente aberta dos observadores (como se posicionaram os estudantes de medicina da FMUSP), sem preconceitos, tanto na pesquisa quanto na terapêutica. Caso contrário, são “pérolas jogadas aos porcos”.
Referências
[1] Teixeira MZ. Results of mass overdose of homeopathic medicines in United Kingdom: scepticism or prejudice? [Letter to the Editor]. Int J High Dilution Res. 2010; 9(30): 3-4. Disponível em: http://www.feg.unesp.br/~ojs/index.php/ijhdr/article/view/374/412.
[2] Jones S. Homeopathy protesters to take 'mass overdose' outside Boots. Guardian.co.uk, London, 29 January 2010, Life & Style. Disponível em:http://www.guardian.co.uk/lifeandstyle/2010/jan/29/sceptics-homeopathy-mass-overdose-boots.
[3] Freeman H. Me and my homeopathic overdose. The Guardian, London, 3 February 2010. Disponível em: http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2010/feb/03/homeopathy-overdose-hadley-freeman.
[4] Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Disciplina eletiva “Fundamentos da Homeopatia” (MCM0773). Disponível em: http://sistemas2.usp.br/jupiterweb/obterDisciplina?sgldis=mcm0773&nomdis.
[5] Teixeira MZ. Brief homeopathic pathogenetic experimentation: a unique educational tool in Brazil. Evid Based Complement Alternat Med. 2009; 6(3): 407-414. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2722208/.
*Médico homeopata, PhD, professor e pesquisador da FMUSP,www.homeozulian.med.br.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"condutas impróprias"!

Que coisa, né?! Ontem, quando passeava um pouco pelas notícias na internet, deparei-me com a manchete que anunciava uma decisão inédita no judiciário gaúcho. Corri a abrir o negócio, pois, além do dito juiz atuar na cidade vizinha à comunidade em que nasci e onde passei parte da minha adolescência, sou curiosa e acho bacana essa coisa do judiciário gaúcho ser vanguarda em tantas coisas importantes para a garantia formal da dignidade das gentes... mas eis que, para minha surpresa, tratava-se de uma das coisas mais estúpidas que já vi nas decisões do judiciário gaúcho! Estúpido, sim!
Assumo que não conheço nada sobre o juiz Marcelo Colombelli Mezzomo, assim como, não sei nada sobre porque "Mezzomo já havia sofrido censura por envolvimento em acidente de trânsito e era alvo de outros processos por conduta inconveniente" (ZHonline). Não pretendo defender nada de suas "condutas impróprias" e nem das condutas apropriadas. Só quero aproveitar o evento e rabiscar umas coisinhas!
Começo com a informação também inédita de que seja o primeiro juiz a ser exonerado no Brasil, por conduta imprópria! Mas o que é mesmo conduta imprópria para um juiz ou para qualquer outro profissional? Qual é a forma em que as pessoas se enforma ou se formatam para dizer o que é apropriado ou não?
Vemos, com isso, o quanto ainda somos reféns de uma cultura conservadora e ultrapassada que define o que se pode e o que não se pode fazer, sempre com ênfase naquilo que não se pode fazer, pensar, dizer, etc. Sempre o não, o não, o não. Sempre as identidades prontas e acabadas. Sempre as identidades, as identidades, as identidades. Nunca a vida, nunca a liberdade, nunca o protagonismo, nunca a autonomia, nunca o anarquismo, nunca a decomposição do velho, nunca as vitalidades, nunca as potências, nunca as singularidades, nunca dizer o que se pensa, nunca dizer o que se sente, nunca abrir espaço para o novo, nunca sublinhar as diferenças e a diversidade, nunca se desalinhar, nuncanuncanuncanuncanunca! Nãonãonãonãonãonão!
Além de não entrar nas questões de Mezzomo, não entrarei nas motivações da moça que reagiu diante de suas palavras... sem saber nada da situação, só quero dizer que me soa muito estranho alguém se ofender por ter suas belezas sublinhadas, mesmo que de forma "imprópria", porque acho que as belezas existem para serem vistas e ditas... acho estranho as pessoas se ofenderem tanto por terem as belezas, quanto por terem as feiezas evidenciadas e sublinhadas... se não é por um é por outro! Nem entrarei na pendenga de que a cultura machista dá permissões aos machos de saírem dizendo tudo o que lhes passa nas telhas da cabeça e nas teias do pensamento... acho que as mulheres também poderiam se dar essas liberdades de "condutas impróprias" e saírem a exaltar as belezas que lhes dilatam os olhos... eu própria sou pródiga nessas "condutas impróprias"... gosto dessas alegrias bobas do cotidiano... gosto dos sorrisos rasgados e dos pensamentos que se perdem de si quando lhes provocamos alegrias! Queria que o judiciário me condenasse ao exílio no sol ou na lua... que dissesse que minhas "condutas impróprias" não cabem nas molduras que são aceitas... estando no sol ou na lua, seria tão simples emitir raios de alegria... mas é claro, de forma apropriada, com a lua se manifestando durante a noite, respeitando suas fases, enquanto o sol, deveria se manter regulado para emitir seus raios durante o dia... de forma apropriada, sublinhe-se!
O que me parece evidente na situação da moça ofendida, é o fato dela ser posse de alguém e em sendo posse de alguém (o fato de ser posse de alguém parece que não é ofensivo!), não está disponível para o olhar, os pensamentos e os sentimentos alheios... se o juiz (sim, juiz! porque, no caso, ele não é visto como gente que pensa, sente e expressa isso! é só um uiz que deve ter condutas apropriadas!) tivesse olhado, pensado e se aquietado em condutas apropriadas, não seria mote de uma decisão inédita no campo do judiciário! Se a moça não fosse posse de alguém, talvez estaria honrada e ter tido sua beleza exaltada por um JUIZ!
Afora essas coisas, passei o dia martelando em meus ocos pensamentos, as muitas condutas impróprias que vemos acontecer no campo do judiciário (hoje falo só desse campo)... o fomento ao marasmo processual burocrático... a desconexão com a realidade das gentes... o descaso com as vidas... a exaltação das formas-formatadas... o culto ao ideário dominante... os olhos vendados aos aviltamentos das dignidades das gentes... as bem guardadas e cultuadas liturgias que ignoram movimentos... aqueles que vagueiam enquanto se faz tramitar a burocracia que justifica seus salários,  trabalhando com condutas apropriadas, com vagas, com números, com padrões, com normas, com fluxogramas, com o que a lei e com o que o escasso tempo permite fazer, com falas exatas, preparadas, comedidas, impositivas, engessadas, nocauteando o sujeito com que se trabalha, porque ele não cabe no tênue contorno que delimita a atuação técnica!
Essas coisas fizeram lembrar, também, de uma situação em que uma juiza determinou a doação das facas retidas em processos já encerrados, a um seu colega uiz e colecionador de facas... quando soube dessa história, incrédula, fui verificar sua veracidade... e é vero! Não sei se a doação foi feita por desconhecimento das "condutas impróprias", por uma ética "imprópria" ou sei lá porque... mas, na época, até fiz uma anotação sobre isso, para um escrito que ainda está por ser desenrolado... me fez pensar nessa coisa de se cultuar e por no altar da coleção, as facas que aviltaram vidas... com que prazer se faz isso? Parece-me que é como colecionar motes para a morte! Mas, enfim, a única condenção, nesse caso, foi o desfazimento da doação... ao que lembro!
Enfim, são tantas "condutas impróprias" que passam ao léu da exposição e da consideração púplica, que se fossem exonerar todos os juízes que as apresentam, não sei no que daria esse furdunço!
Afora essas questões, sublinho as palavras de Mezzomo, em ZHonline (ps: esqueci de copiar o link!):
RBS TV — O senhor vai recorrer da decisão?
Marcelo Colombelli Mezzomo — Não. Já havia dito à vice presidência do TJ, há alguns meses, que, pra mim, o que decidissem estava bem decidido. Não contratei advogado, e até deixei de me manifestar no processo. Não tenho nenhuma vontade de permanecer no Judiciário. Em dezembro, já havia pedido exoneração, e não foi pra escapar dos processos. É porque realmente não quero mais estar no Judiciário. É só um cargo público. Vivi antes dele e vou continuar a viver sem ele. Mas se é transparência que se busca com a divulgação da decisão, pergunto: por que não são divulgadas todas as punições e decisões sempre? Ou se divulga todas, ou nenhuma. Acho que todas deveriam ser divulgadas sempre. (grifo meu)
RBS TV — Qual a sua versão sobre o que ocorreu na sorveteria?
Mezzomo — A que está no processo. Agora que divulgaram quase todo, apesar de correr em sigilo, o que me causa estranheza, é fácil ir lá e ver.

Essas "condutas impróprias" fizeram-me buscar um contículo inspirado num moço inquieto que atendi na clínica, nos idos de 2003 ou 2004, que, a partir de alguns acontecimentos aos seus arredores, colocou-se a pensar nessas coisas sobre o que seja apropriado ou não na postura de uma pessoa, pois teria sido advertido por um grande crápula, sobre o que poderia ou não manifestar numa dada situação... isso o fez ficar muito indignado com o cara que se autorizou a advertír seus atos e pensamentos... a sua revisão sobre as "condutas apropriadas", inspirou-me, então o título "pessoas sérias e maduras não sentam no meio fio da calçada", que acabou ficando em "SENTADO NO MEIO-FIO"... apesar de ser um texto bobo, aí vai:
Andava demasiado ocupado com o excesso de trabalho, com compromissos vários, com descarregos não feitos, com contas a pagar, com tantas coisas a concluir e muitas mais a começar. Andava compenetrado. Sem tempo para perceber que o inverno se aproximava. Sem tempo para acompanhar os sôfregos passos dos filhos. Sem tempo para ficar com a bunda na janela. Quase nem sentiu quando o pai morreu. Só pensou que logo também a mãe se iria, sem avisar, sem se despedir.
Teve tempo de perceber que andava tendo alguns desencantos, que faziam balançar os encantos. Às vezes já não conseguia ver as idéias que se apresentavam em seu caminho, nem os sorrisos que iluminavam sua vida. Foi quando cruzou com aquele sujeito que há muito tempo estava sentado naquela mesma esquina. Naquele mesmo intervalo de meio-fio. Às vezes quieto. Às vezes gritando. Às vezes rindo. Às vezes chorando. Nos dias de chuva encharcava com os respingos da água deslocada pelos veículos conduzidos por motoristas apressados. Nos dias de sol escurecia com o pó que acordava na rua e adormecia sobre o seu corpo.
Passou a ficar mais atento com as amenidades e com as loucuras do mundo. Foi assim que encontrou outro sujeito que pensava, desde criança, que quando se tornasse adulto teria que deixar de fazer tantas coisas de que gostava e teria, ainda, que aprender a fazer tantas outras. Talvez pudesse desistir de crescer. Disse-lhe que já lera algo sobre isso. Sobre um menino que se rebelou contra o tempo e decidira não ficar adulto. Soube que ele pensava, também, que tendo se tornado adulto, teria que trabalhar. E se trabalhasse num cargo público não poderia praticar atos ilícitos ou maracutaias perniciosas com o fim de tirar proveito próprio, por exemplo, forjar um contrato de compra de carros que estiveram locados para o governo, ou desviar dinheiro, ou fazer lorotas para conseguir benefícios. Caso trabalhasse num cargo privado teria que aturar patrões, mostrar desempenho, cumprir metas, atingir objetivos. Preferia a loucura.
Deparou-se com outro que dizia não saber em que é que Vítor Ramil estava pensando quando fez Tambong. Que não sabia em que é que Fernando Pessoa pensava quando falava de seus "eus". Não sabia em que é que Borges pensava quando se perdia em seus labirintos ou alucinava com seus seres imaginários. Mas que tinha certeza de que quando Kafka escrevera Metamorfose, era nele que pensara. Pensava, na verdade, que era a barata. Acreditava que Saint-Exupéry se jogara com seu avião ao mar, pois fizera "O pequeno príncipe" inspirado nele. Aliás, acreditava, piamente, ser o Pequeno Príncipe. Quando via se formar uma poça d'água, nos dias de chuva, ou no esguichar de uma mangueira, pensava-se Narciso e achava-se o mais belo, o mais perfeito, o mais retumbante, o mais desejado, o mais cortejado.
Sentou com outro que acreditava-se vindo dos céus com a missão de unir-se a Jesus Cristo para salvar a humanidade de seus males e de suas chagas. Passava seus dias e suas noites a rezar pela humanidade. E a humanidade não fazia um movimento sequer para reconhecer o seu esforço. Isso o tirava dos eixos. Tanto que tinha que ser imediatamente internado. Até recomeçar a reza.
Entre tantos que ainda encontraria, houve um que pareceu-lhe o mais interessante de quase todos, pois era o mais genuíno. Esse dera para ler coisas em jornais, em revistas e em livros, e pensar que o que estava escrito era dirigido objetivamente para ele. Em uma ocasião fizera esgotar a edição de um jornal, no qual lera um conto que dizia falar somente e tão somente dele. Quem ainda não havia lido, foi a procura do texto para ler. Saiu a acusar e desqualificar autores outros que não quem havia escrito. Dizia ter constituído advogado para mover processos contra autores e jornais. E até encontrou advogados que o acompanharam na triste saga de prover que o pegajoso personagem do conto seria ele. Fez com que a editoria do jornal temesse que todos aqueles que se identificaram com o dito personagem, ou com outros personagens de ficção, fizessem o mesmo.
Enfim, quando deu-se por achado percebeu que ainda estava observando aquele sujeito sentado no meio-fio e lamentou não poder fazer o mesmo. Sentar no meio-fio e ficar a balbuciar a existência. Escorar os braços na janela e pôr-se a ver a vida passar. Chegou a sentar no meio-fio, mas percebeu que aqueles que passavam e que o conheciam, paravam e olhavam inquietos para a sua figura ali jogada.
Levantou-se e mandou à merda todas as convenções, mas se recompôs e seguiu firme para o trabalho. O dia estava por começar e a primeira caneca de café anunciaria o seu futuro breve. Quando retornou para casa, à noite, percebeu que algo novo circundava o entorno e a profundidade de seu olhar.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

divulgação: hypomnemata 129 - Ardor

hypomnemata 129
Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol - Núcleo de Sociabilidade Libertária
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
no. 129, janeiro de 2011.
Ardor
A recomendação para a massa, o povo, a multidão é que proteste pacificamente, requeira autorizações para fazer passeatas, compareçam às urnas quando convocados, sejam solidários nas catástrofes e zelem pela segurança de todos.
Quem fugir da cartilha está condenado a ser chamado de baderneiro, anarquista, rebelde sem causa, revoltado necessitando atenção e medicação, vagabundo desleixado com seus deveres de cidadão.
Está mais do que claro que empresas e Estado, mais ou menos afinados com sindicatos, políticos profissionais e a sociedade civil transterritorial organizada, são os responsáveis por assegurar a permanência e a pretensa perpetuação das instituições democráticas.
O sujeito deve saber respeitar e obedecer às organizações, às regras, às leis e aos comandos, segundo aética da participação no consumo, na política e no social: deve relativizar com as novas formas do racismo, da eugenia, do nacionalismo; deve evitar e combater quaisquer fundamentalismos em nome das imprescindíveis negociações em função da melhoria das condições de vida; deve aprender a sobreviver!
Para cumprir o simples procedimento recomendado, o cidadão deve ser religioso, porém não extremista; politizado, mas jamais anarquista; envolvido com inclusões dentro dos regulamentos e das regulações para denunciar impunidades e mostrar sua boa conduta. O sujeito deve: ele é um devedor!
O sujeito é o cidadão, e por vezes o aspirante a cidadão, em busca de um reconhecimento: pode ser o miserável favelado atado ao tráfico de drogas e/ou de órgãos, o trabalhador chinês aprisionado nas grandes corporações lucrativas, o idiota nacionalista do leste, o celerado religioso do oriente médio, o trabalhador refém dos proprietários exportadores de mão de obra... este sujeito está subordinado a alguém poderoso que lucra com a legalidade e ilegalidade de seus negócios.
O acesso ao consumo se amplia, com ou sem crises, pela legalização das transações ou pela sua diversificação em ilegalidades inevitáveis; a participação social e política se avolumam e é preciso ser paciente, cordato, amável, pacífico e ordeiro para sobreviver!
Ele (e ela) não deve se insurgir, mas agradecer. No limite, protestar e reivindicar com autorização na esperança de que tudo melhorará!
O sujeito deve amar sua condição de sujeitado e ao mesmo tempo adorar a obediência. Deve ser um amoroso adorável!
Deve aprender a negociar, a aceitar emprego como voluntário até ser incorporado e depois vir a obter a carteira de trabalho assinada. Deve continuar amando sua prisão no trabalho, seja sob comando da planificação comunista ditatorial, do planejamento empresarial, da anarquia do mercado; deve trabalhar para alguém, vir a ser alguém na estrutura de qualquer empresa legal ou ilegal e atuar para obem de quem lhe paga. Deve obedecer no trabalho, na prisão, em qualquer confinamento, e seguir as regras rígidas e pouco conhecidas da Internet, que lhe propicia a ilusão de liberdade e livre trânsito no seu lar, nas ongs, na magnitude solitária e eletrônica dos que se imaginam livres, em busca de um emprego.
Ele (e ela) deve ordenar a sua vida para o empreendedorismo pessoal, social e ambiental, para melhorar a sua condição de sobrevivente, dos semelhantes e do planeta.
E nisto não há nenhum fundamentalismo, apregoam todos que se aninham na velha e eficaz condição de centro: centro-direita, centro-esquerda, mas sempre exigentes de obediência à autoridade centralizada, mesmo quando a existência dos sobreviventes é organizada pelas variadas formas de descentralização de procedimentos nos empregos. Serão felizes, serão alguém no futuro, famélicos de vida, mas satisfeitos com a sobrevivência.
Quando, de repente, aparecem os insurgentes, eles são rapidamente colocados lado a lado com fundamentalistas religiosos, às vezes na circunvizinhança de milícias fascistas ou de embolorados revolucionários comunistas, e em nome da liberdade desta democracia no capitalismo são desqualificados, renomeados perigosos e novamente identificados como anormais.
Quando a mídia denuncia os que ultrapassam a zona demarcada dos protestos e das reivindicações, ela alardeia para o perigo anarquista. Os anarquistas têm sim propostas sérias e imediatas; eles não reivindicam reformas e melhorias ao estado das coisas: querem o fim das desigualdades e assimetrias, da autoridade centralizada, das sujeições e dos assujeitamentos; querem liberdade para produzir livres de proprietários privados e estatais; querem cultura libertária e não escolarização acentuada e ongueira; querem saúde e não planos de assistência; querem o fim da polícia, da polícia articulada com acomunidade, das prisões e dos exércitos; querem que todos saibam que nada é eterno e que é impossível melhorar na sobrevivência: querem viver!
Viver numa democracia é ampliar e intensificar liberdades e não apenas restrição por limites.
Assim como não há capitalista que despreze a adesão dos trabalhadores e miseráveis aos seus programas e planejamentos, não há nada de surpreendente que jovens abastados, fartos do oco consumista e do devedor cidadão, decidam-se pelos anarquismos, pela revolta!
Da mesma maneira que em nome da nação e do Estado as desigualdades sócio-econômicas se diluem em igualdades formais jurídico-políticas, representações e em participação ampliada nas empresas e na política, lutar contra as velhas e novas ordens do poder é um efeito da democracia, é sua saúde!
Não há nada de terrorismo na ação dos anarquistas espalhados pelo planeta, articulados ou não pela Internet. Esta é uma nova forma do controle e ninguém é inocente para achar que está navegando livre dos provedores. A Internet serve para facebook, wikileaks, wikipédias, Google administração e controle de empregados e lucros, serve a todos e a qualquer um em sua solidão, sob o controle dos provedores, crescimento da governança da Internet e o desenvolvimento de uma série de procedimentos para o seu bom uso para a segurança de todos e de novos direitos aos deveres.
Os anarquistas seguem gritando, botando fogo, sem respeito algum pela propriedade e nem pelas migalhas. Dispensam esta vidinha. São contra o governo e contra o capitalismo, porque a propriedade e suas sobras borbulham daí. Estão despertos e perigosos para os satisfeitos, seus bens e seus moralismos: recusam a normalidade!
A vida e a liberdade são muito mais do que se conquista com a propriedade. A vida e a liberdade são o oposto da propriedade e quem escolheu satisfazer-se com esta última opção, permanece morto-vivo há muito tempo.
Os anarquistas não estão restritos a datas ou territórios, nem limitam suas causas. Não cumprem metas e etapas de programas. Os anarquistas não sossegam porque não aceitam ser dopados ou anestesiados; porque, em seu corpo, cada célula experimenta a vida: liberdade se experimenta por inteiro.
A revolta, diferente da reivindicação, não está restrita ao alcance de um objetivo, mas arde viva enquanto existe o desassossegado. As tropas de choque, a assistência social, a medicação e o tribunal jamais serão capazes de apagar o fogo de pessoas livres.
O revestimento racional que objetiva desqualificar a anarquia invariavelmente vem acompanhado de extermínio: foi assim após a Comuna de Paris (1871), seguida do julgamento dos 30, foi assim com aRevolução Espanhola (1936-1939), como foi no Brasil no começo do século XX, ou na Rússia, após a vitória dos bolchevistas. Ocorre que a decisão em não mais servir, de recusar o governo, faz de cada um o inimigo do Estado e da sociedade, alvo do corte que permite entregá-lo à morte: todo revoltado é tomado como um criminoso que ameaça a sociedade!
Em sua missão de conservação os defensores da ordem não recusam a violência, usam-na a seu favor e quando acusam os outros de violentos é pelo temor do fogo, princípio e fim da existência. O que temem nos anarquistas é sua maneira incendiária de existir.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

divulgação: INSTINTOS E INSTITUIÇÕES

DOSSIER DELEUZE
Organização: CARLOS ENRIQUE DE ESCOBAR - Um exame rigorosamente completo da obra do filósofo Gilles Deleuze - numa seleção de textos e análise do prof. Carlos Henrique de Escobar - HÓLON EDITORIAL
INSTINTOS E INSTITUIÇÕES - por Por Gilles Deleuze*
O que se chama um instinto, o que se chama uma instituição, designam essencialmente procedimentos de satisfação. Ora reagindo por natureza a estímulos externos, o organismo extrai do mundo exterior os elementos de uma satisfação de suas tendências e de suas necessidades; esses elementos formam, para os diferentes animais, mundos específicos. Ora instituindo um mundo original entre suas tendências e o mundo exterior, o sujeito elabora meios de satisfação artificiais, que liberam o organismo da natureza submetendo-o a outra coisa, e que transformam a tendência propriamente dita introduzindo-a num meio novo; é verdade que o dinheiro livra da fome, com a condição de possuí-lo, e que o casamento poupa a busca de um parceiro, submetendo a outras tarefas.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

orgasmo

meu primeiro orgasmo depois do parto foi pelas metades. o segundo, foi tão desesperador que me pareceu estar me trazendo à vida. e trouxe.

a gota

a gotícula demorou uma eternidade para se formar. pendurada na fina teia da distraída aranha, foi, por aquele breve e longuíssimo instante, o lugar do reflexo de todas as coisas ao seu redor. quando caiu, demorando mais uma eternidade para tocar o espelho d'água do riacho parado e morno, tesseu o som de uma enorme pedra se espatifando no líquido morno e quieto. junto caíram todas as coisas nela refletidas.

divulgação: POLÍCIA E CIDADANIA

São onze horas da noite e encerramos nossa reunião de pesquisa. Saímos para um lanche. Mais tarde, dou carona a quatro pesquisadores. Em alguns instantes estaria na porta do edifício onde reside o último amigo. Na esquina da Rua Dr.Veiga Filho com a Amaral Gurgel, diante do semáforo vermelho, observo uma “batida” policial adiante, no Largo do Arouche. Poderia ter virado à esquerda ou à direita e escolhido uma rota de fuga de um imediato incômodo. Prefiro seguir em frente.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

divulgação: Homofobia em preto e branco

Homofobia em preto e branco
Episódios de violência contra homossexuais trazem à tona a discussão sobre direitos negados e preconceitos, que são encarados como corriqueiros pela sociedade.
Por Glauco Faria e Thalita Pires

divulgação: Uma breve história do Fórum Social Mundial

Uma breve história do Fórum Social Mundial
Nas origens do FSM estão o "grito zapatista" de 1994 e as manifestações em Seattle, em 1999, que impediram a realização da reunião da OMC. Na sequência, o movimento anti-neoliberal passou da fase de resistência à fase de construção de alternativas. Este FSM demonstrará se permanece na fase de resistência, de fragmentação de temáticas, de limitação à “sociedade civil” ou se se coloca à altura da etapa atual de disputa hegemônica, já não mais a nível nacional ou regional, mas a nível global. A análise é de Emir Sader.
Emir Sader

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

divulgação: Valorização de sujeitos

Valorização de sujeitos - por Roger Ceccon
Descrevendo a termo de comparações entre ofícios, sabendo-se que distintos, porém circundados de bens comuns, vê-se que enquanto a classe médica, corporativista, brada e esperneia pelo o que é seu de direito, nós, os demais profissionais da saúde, também formadores do vasto contingente bruto de trabalho, assistimos atônitos de braços cruzados. Meros espectadores é o que somos.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

divulgação: Atenção à Saúde da Gestante em APS

Estou postando a Apresentação do Guia do GRUPO HOSPITALAR CONCEIÇÃO/ GERÊNCIA DE SAÚDE COMUNITÁRIA, oraganizado por: Maria Lucia Medeiros Lenz e Rui Flores/ Porto Alegre - RS, sobre a Atenção à Saúde da Gestante em APS; segue, também, o caminho virtual para acessar o material na íntegra: http://www2.ghc.com.br/GepNet/publicacoes/atencaosaudedagestante.pdf

divulgação: instituto municipal de ESF

sobre a carta aberta da Associação Brasileira de Psiquiatria

Estou postando manifestação à carta aberta da Associação Brasileira de Psiquiatria, arremessada (sim, arremessada!) ao no Ministro da Saúde.
Não sabe-se se, por ignorância, prepotência, arrogância, alienação mental, política e social, ou por qual cargas d'água esses engenheiros da doença insistem em outorgarem-se o saber sobre as vidas e a política de saúde mental... não sabem que não lhes há mais trono, não por lhes ter sido tirado, mas simplesmente por não haver mais trono. Nem vertical. Nem horizontal. Simplesmente transversal. Por isso, levar "as preocupações" direto para as "cabeças" (no caso, o Ministro) e querer mexer os pauzinhos que já se esfarelaram, é de uma UNI-POLARIDADE preocupante. PENSO QUE "temos a crescente necessidade de ferramentas terapêuticas para o tratamento dos portadores" dessa falta de "transtorno" de polos.

divulgação: Por que temer o espírito revolucionário árabe?

A reação ocidental aos levantes no Egito e na Tunísia frequentemente demonstra hipocrisia e cinismo. A hipocrisia dos liberais ocidentais é de tirar o fôlego: eles publicamente defendem a democracia e agora, quando o povo se rebela contra os tiranos em nome de liberdade e justiça seculares, não em nome da religião, eles estão todos profundamente preocupados. Por que aflição, por que não alegria pelo fato de que se está dando uma chance à liberdade? Hoje, mais do que nunca, o antigo lema de Mao Tsé-Tung é pertinente: "Existe um grande caos abaixo do céu - a situação é excelente". O artigo é de Slavoj Zizek.
Slavoj Zizek
O que não pode deixar de saltar aos olhos nas revoltas Tunísia e Egito é a notável ausência do fundamentalismo islâmico. Na melhor tradição democrática secular, as pessoas simplesmente se revoltaram contra um regime opressivo, sua corrupção e pobreza, e demandaram liberdade e esperança econômica. A sabedoria cínica dos liberais ocidentais - de acordo com os quais, nos países árabes, o genuíno senso democrático é limitado a estreitas elites liberais enquanto que a vasta maioria só pode ser mobilizada através do fundamentalismo religioso ou do nacionalismo - se provou errada.
Quando um novo governo provisório foi nomeado na Tunísia, ele excluiu os islâmicos e a esquerda mais radical. A reação dos liberais presunçosos foi: bom, eles são basicamente a mesma coisa; dois extremos totalitários - mas as coisas são simples assim? O verdadeiro antagonismo de longa data não é precisamente entre islâmicos e a esquerda? Ainda que eles estejam momentaneamente unidos contra o regime, uma vez que se aproximam da vitória, a sua unidade se parte e eles se engajam numa luta mortal, frequentemente mais cruel do que aquela travada contra o inimigo comum.
Nós não testemunhamos precisamente tal luta depois das eleições no Irã? As centenas de milhares de apoiadores de Mousavi lutavam pelo sonho popular que sustentou a revolução de Khomeini: liberdade e justiça. Ainda que esse sonho tenha sido utópico, ele levou a uma explosão de criatividade política e social de tirar o fôlego, experiências de organização e debates entre estudantes e pessoas comuns. Essa abertura genuína, que liberou forças de transformação social então desconhecidas, um momento no qual tudo pareceu possível, foi então gradualmente sufocada pela dominação do controle político e do establishment islâmico.
Mesmo no caso de movimentos claramente fundamentalistas, é preciso ser cuidadoso para não perder de vista o componente social. O Talibã é usualmente apresentado como um grupo fundamentalista islâmico que impõe suas leis pelo terror. No entanto, quando, na primavera de 2009, eles tomaram o Vale de Swat no Paquistão, o The New York Times noticiou que eles arquitetaram "uma revolta de classe que explora profundas fissuras entre um pequeno grupo de ricos donos de terra e seus inquilinos desprovidos de um chão". Se, ao "se aproveitar" dos apuros dos agricultores, o Talibã estava criando, nas palavras do New York Times, "um alerta sobre os riscos ao Paquistão, que permanece sendo largamente feudal", o quê impediu os democratas liberais do Paquistão e dos Estados Unidos de, da mesma forma, "se aproveitarem" desses apuros e de tentarem ajudar os agricultores sem terra? Ocorre de as forças feudais no Paquistão serem aliados naturais da democracia liberal?
A conclusão inevitável a ser delineada é que a ascensão do islamismo radical sempre foi o outro lado do desaparecimento da esquerda secular nos países muçulmanos. Quando o Afeganistão é retratado como sendo o exemplo máximo de um país fundamentalista islâmico, quem ainda se lembra que, há quarenta anos atrás, ele era um país com uma forte tradição secular, incluindo um poderoso partido comunista que havia tomado o poder lá sem dependência da União Soviética? Para onde essa tradição secular foi?
É crucial analisar os eventos em andamento na Tunísia e no Egito (e no Iémen e ... talvez, com esperança, até na Arábia Saudita) em contraste com esse pano de fundo. Se a situação for eventualmente estabilizada de modo ao antigo regime sobreviver, apenas passando por alguma cirurgia cosmética liberal, isso irá gerar um intransponível retrocesso fundamentalista. Para que o legado chave do liberalismo sobreviva, os liberais precisam da ajuda fraternal da esquerda radical. De volta ao Egito, a mais vergonhosa e perigosamente oportunista reação foi aquela de Tony Blair noticiada na CNN: mudança se necessário, mas deverá ser uma mudança estável. Mudança estável no Egito, hoje, só pode significar um compromisso com as forças de Mubarak na forma de ligeiramente alargar o círculo do poder. Este é o motivo pelo qual é uma obscenidade falar em transição pacífica agora: pelo esmagamento da oposição, o próprio Mubarak tornou isso impossível. Depois de Mubarak enviar o exército contra os protestantes, a escolha se tornou clara: ou uma mudança cosmética na qual alguma coisa muda para que tudo continue na mesma, ou uma verdadeira ruptura.
Aqui, portanto, é o momento da verdade: ninguém pode arguir, como no caso da Argélia uma década atrás, que permitir eleições verdadeiramente livres equivale a entregar o poder para fundamentalistas islâmicos. Outra preocupação liberal é de que não existe poder político organizado para tomar o poder caso Mubarak parta. É claro que não existe; Mubarak se assegurou disso ao reduzir a oposição a ornamentos marginais, de forma que o resultado acaba sendo como o título do famoso romance de Agatha Christie, "E Então Não Havia Ninguém". O argumento de Mubarak - é ele ou o caos - é um argumento contra ele.
A hipocrisia dos liberais ocidentais é de tirar o fôlego: eles publicamente defendem a democracia e agora, quando o povo se rebela contra os tiranos em nome de liberdade e justiça seculares, não em nome da religião, eles estão todos profundamente preocupados. Por que aflição, por que não alegria pelo fato de que se está dando uma chance à liberdade? Hoje, mais do que nunca, o antigo lema de Mao Tsé-Tung é pertinente: "Existe um grande caos abaixo do céu - a situação é excelente".
Para onde, então, Mubarak deve ir? Aqui, a resposta também é clara: para Haia. Se existe um líder que merece sentar lá, é ele.
(*) Nota do Tradutor: o título original do livro de Agatha Christie é "And Then There Were None", conhecido aqui no Brasil como "O Caso dos Dez Negrinhos".
Referências feitas pelo autor:
Traduzido por Henrique Abel para o Diário Liberdade.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

divulgação: Notas sobre a experiência e o saber de experiência

20 Jan/Fev/Mar/Abr 2002 Nº 19
Notas sobre a experiência e o saber de experiência* - por Jorge Larrosa Bondía
Universidade de Barcelona, Espanha
Tradução de João Wanderley Geraldi, Universidade Estadual de Campinas, Departamento de Lingüística
No combate entre você e o mundo, prefira o mundo.
Franz Kafka
Costuma-se pensar a educação do ponto de vista da relação entre a ciência e a técnica ou, às vezes, do ponto de vista da relação entre teoria e prática. Se o par ciência/técnica remete a uma perspectiva positiva e retificadora, o par teoria/prática remete sobretudo a uma perspectiva política e crítica. De fato, somente nesta última perspectiva tem sentido a palavra “reflexão” e expressões como “reflexão crítica”, “reflexão sobre prática ou não prática”, “reflexão emancipadora” etc. Se na primeira alternativa as pessoas que trabalham em educação são concebidas como sujeitos técnicos que aplicam com maior ou menor eficácia as diversas tecnologias pedagógicas produzidas pelos cientistas, pelos técnicos e pelos especialistas, na segunda alternativa estas mesmas pessoas aparecem como sujeitos críticos que, armados de distintas estratégias reflexivas, se comprometem, com maior ou menor êxito, com práticas educativas concebidas na maioria das vezes sob uma perspectiva política. Tudo isso é suficientemente conhecido, posto que nas últimas décadas o campo pedagógico tem estado separado entre os chamados técnicos e os chamados críticos, entre os partidários da educação como ciência aplicada e os partidários da educação como práxis política, e não vou retomar a discussão.
O que vou lhes propor aqui é que exploremos juntos outra possibilidade, digamos que mais existencial (sem ser existencialista) e mais estética (sem ser esteticista), a saber, pensar a educação a partir do par experiência/sentido. O que vou fazer em seguida é sugerir certo significado para estas duas palavras em distintos contextos, e depois vocês me dirão como isto lhes soa. O que vou fazer é, simplesmente, explorar algumas palavras e tratar de compartilhá-las.
E isto a partir da convicção de que as palavras produzem sentido, criam realidades e, às vezes, funcionam como potentes mecanismos de subjetivação. Eu creio no poder das palavras, na força das palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e, também, que as palavras fazem coisas conosco. As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. E pensar não é somente “raciocinar” ou “calcular” ou “argumentar”, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece. E isto, o sentido ou o sem-sentido, é algo que tem a ver com as palavras. E, portanto, também tem a ver com as palavras o modo como nos colocamos diante de nós mesmos, diante dos outros e diante do mundo em que vivemos. E o modo como agimos em relação a tudo isso. Todo mundo sabe que Aristóteles definiu o homem como zôon lógon échon. A tradução desta expressão, porém, é muito mais “vivente dotado de palavra” do que “animal dotado de razão” ou “animal racional”.
Se há uma tradução que realmente trai, no pior sentido da palavra, é justamente essa de traduzir logos por ratio. E a transformação de zôon, vivente, em animal. O homem é um vivente com palavra. E isto não significa que o homem tenha a palavra ou a linguagem como uma coisa, ou uma faculdade, ou uma ferramenta, mas que o homem é palavra, que o homem é enquanto palavra, que todo humano tem a ver com a palavra, se dá em palavra, está tecido de palavras, que o modo de viver próprio desse vivente, que é o homem, se dá na palavra e como palavra. Por isso, atividades como considerar as palavras, criticar as palavras, eleger as palavras, cuidar das palavras, inventar palavras, jogar com as palavras, impor palavras, proibir palavras, transformar palavras etc. não são atividades ocas ou vazias, não são mero palavrório. Quando fazemos coisas com as palavras, do que se trata é de como damos sentido ao que somos e ao que nos acontece, de como correlacionamos as palavras e as coisas, de como nomeamos o que vemos ou o que sentimos e de como vemos ou sentimos o que nomeamos. Nomear o que fazemos, em educação ou em qualquer outro lugar, como técnica aplicada, como práxis reflexiva ou como experiência dotada de sentido, não é somente uma questão terminológica. As palavras com que nomeamos o que somos, o que fazemos, o que pensamos, o que percebemos ou o que sentimos são mais do que simplesmente palavras. E, por isso, as lutas pelas palavras, pelo significado e pelo controle das palavras, pela imposição de certas palavras e pelo silenciamento ou desativação de outras palavras são lutas em que se joga algo mais do que simplesmente palavras, algo mais que somente palavras.
1. Começarei com a palavra experiência. Poderíamos dizer, de início, que a experiência é, em espanhol, “o que nos passa”. Em português se diria que a experiência é “o que nos acontece”; em francês a experiência seria “ce que nous arrive”; em italiano, “quello che nos succede” ou “quello che nos accade”; em inglês, “that what is happening to us”; em alemão, “was mir passiert”.
A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça. Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara. Em primeiro lugar pelo excesso de informação. A informação não é experiência. E mais, a informação não deixa lugar para a experiência, ela é quase o contrário da experiência, quase uma antiexperiência. Por isso a ênfase contemporânea na informação, em estar informados, e toda a retórica destinada a constituirnos como sujeitos informantes e informados; a informação não faz outra coisa que cancelar nossas possibilidades de experiência.
O sujeito da informação sabe muitas coisas, passa seu tempo buscando informação, o que mais o preocupa é não ter bastante informação; cada vez sabe mais, cada vez está melhor informado, porém, com essa obsessão pela informação e pelo saber (mas saber não no sentido de “sabedoria”, mas no sentido de “estar informado”), o que consegue é que nada lhe aconteça. A primeira coisa que gostaria de dizer sobre a experiência é que é necessário separá-la da informação. E o que gostaria de dizer sobre o saber de experiência é que é necessário separá-lo de saber coisas, tal como se sabe quando se tem informação sobre as coisas, quando se está informado. É a língua mesma que nos dá essa possibilidade. Depois de assistir a uma aula ou a uma conferência, depois de ter lido um livro ou uma informação, depois de ter feito uma viagem ou de ter visitado uma escola, podemos dizer que sabemos coisas que antes não sabíamos, que temos mais informação sobre alguma coisa; mas, ao mesmo tempo, podemos dizer também que nada nos aconteceu, que nada nos tocou, que com tudo o que aprendemos nada nos sucedeu ou nos aconteceu.
Além disso, seguramente todos já ouvimos que vivemos numa “sociedade de informação”. E já nos demos conta de que esta estranha expressão funciona às vezes como sinônima de “sociedade do conhecimento” ou até mesmo de “sociedade de aprendizagem”.
Não deixa de ser curiosa a troca, a intercambialidade entre os termos “informação”, “conhecimento” e “aprendizagem”. Como se o conhecimento se desse sob a forma de informação, e como se aprender não fosse outra coisa que não adquirir e processar informação. E não deixa de ser interessante também que as velhas metáforas organicistas do social, que tantos jogos permitiram aos totalitarismos do século passado, estejam sendo substituídas por metáforas cognitivistas, seguramente também totalitárias, ainda que revestidas agora de um look liberal democrático. Independentemente de que seja urgente problematizar esse discurso que se está instalando sem crítica, a cada dia mais profundamente, e que pensa a sociedade como um mecanismo de processamento de informação, o que eu quero apontar aqui é que uma sociedade constituída sob o signo da informação é uma sociedade na qual a experiência é impossível.
Em segundo lugar, a experiência é cada vez mais rara por excesso de opinião. O sujeito moderno é um sujeito informado que, além disso, opina. É alguém que tem uma opinião supostamente pessoal e supostamente própria e, às vezes, supostamente crítica sobre tudo o que se passa, sobre tudo aquilo de que tem informação. Para nós, a opinião, como a informação, converteu-se em um imperativo. Em nossa arrogância, passamos a vida opinando sobre qualquer coisa sobre que nos sentimos informados. E se alguém não tem opinião, se não tem uma posição própria sobre o que se passa, se não tem um julgamento preparado sobre qualquer coisa que se lhe apresente, sente-se em falso, como se lhe faltasse algo essencial. E pensa que tem de ter uma opinião. Depois da informação, vem a opinião. No entanto, a obsessão pela opinião também anula nossas possibilidades de experiência, também faz com que nada nos aconteça. Benjamin dizia que o periodismo é o grande dispositivo moderno para a destruição generalizada da experiência. 2 O periodismo destrói a experiência, sobre isso não há dúvida, e o periodismo não é outra coisa que a aliança perversa entre informação e opinião. O periodismo é a fabricação da informação e a fabricação da opinião. E quando a informação e a opinião se sacralizam, quando ocupam todo o espaço do acontecer, então o sujeito individual não é outra coisa que o suporte informado da opinião individual, e o sujeito coletivo, esse que teria de fazer a história segundo os velhos marxistas, não é outra coisa que o suporte informado da opinião pública. Quer dizer, um sujeito fabricado e manipulado pelos aparatos da informação e da opinião, um sujeito incapaz de experiência. E o fato de o periodismo destruir a experiência é algo mais profundo e mais geral do que aquilo que derivaria do efeito dos meios de comunicação de massas sobre a conformação de nossas consciências. O par informação/opinião é muito geral e permeia também, por exemplo, nossa idéia de aprendizagem, inclusive do que os pedagogos e psicopedagogos chamam de “aprendizagem significativa”. Desde pequenos até a universidade, ao largo de toda nossa travessia pelos aparatos educacionais, estamos submetidos a um dispositivo que funciona da seguinte maneira: primeiro é preciso informar-se e, depois, há de opinar, há que dar uma opinião obviamente própria, crítica e pessoal sobre o que quer que seja. A opinião seria como a dimensão “significativa” da assim chamada “aprendizagem significativa”. A informação seria o objetivo, a opinião seria o subjetivo, ela seria nossa reação subjetiva ao objetivo. Além disso, como reação subjetiva, é uma reação que se tornou para nós automática, quase reflexa: informados sobre qualquer coisa, nós opinamos. Esse “opinar” se reduz, na maioria das ocasiões, em estar a favor ou contra. Com isso, nos convertemos em sujeitos competentes para responder como Deus manda as perguntas dos professores que, cada vez mais, se assemelham a comprovações de informações e a pesquisas de opinião. Diga-me o que você sabe, diga-me com que informação conta e exponha, em continuação, a sua opinião: esse o dispositivo periodístico do saber e da aprendizagem, o dispositivo que torna impossível a experiência.
Em terceiro lugar, a experiência é cada vez mais rara, por falta de tempo. Tudo o que se passa passa demasiadamente depressa, cada vez mais depressa. E com isso se reduz o estímulo fugaz e instantâneo, imediatamente substituído por outro estímulo ou por outra excitação igualmente fugaz e efêmera. O acontecimento nos é dado na forma de choque, do estímulo, da sensação pura, na forma da vivência instantânea, pontual e fragmentada. A velocidade com que nos são dados os acontecimentos e a obsessão pela novidade, pelo novo, que caracteriza o mundo moderno, impedem a conexão significativa entre acontecimentos. Impedem também a memória, já que cada acontecimento é imediatamente substituído por outro que igualmente nos excita por um momento, mas sem deixar qualquer vestígio. O sujeito moderno não só está informado e opina, mas também é um consumidor voraz e insaciável de notícias, de novidades, um curioso impenitente, eternamente insatisfeito. Quer estar permanentemente excitado e já se tornou incapaz de silêncio.
Ao sujeito do estímulo, da vivência pontual, tudo o atravessa, tudo o excita, tudo o agita, tudo o choca, mas nada lhe acontece. Por isso, a velocidade e o que ela provoca, a falta de silêncio e de memória, são também inimigas mortais da experiência.
Nessa lógica de destruição generalizada da experiência, estou cada vez mais convencido de que os aparatos educacionais também funcionam cada vez mais no sentido de tornar impossível que alguma coisa nos aconteça. Não somente, como já disse, pelo funcionamento perverso e generalizado do par informação/ opinão, mas também pela velocidade. Cada vez estamos mais tempo na escola (e a universidade e os cursos de formação do professorado são parte da escola), mas cada vez temos menos tempo. Esse sujeito da formação permanente e acelerada, da constante atualização, da reciclagem sem fim, é um sujeito que usa o tempo como um valor ou como uma mercadoria, um sujeito que não pode perder tempo, que tem sempre de aproveitar o tempo, que não pode protelar qualquer coisa, que tem de seguir o passo veloz do que se passa, que não pode ficar para trás, por isso mesmo, por essa obsessão por seguir o curso acelerado do tempo, este sujeito já não tem tempo. E na escola o currículo se organiza em pacotes cada vez mais numerosos e cada vez mais curtos. Com isso, também em educação estamos sempre acelerados e nada nos acontece.
Em quarto lugar, a experiência é cada vez mais rara por excesso de trabalho. Esse ponto me parece importante porque às vezes se confunde experiência com trabalho. Existe um clichê segundo o qual nos livros e nos centros de ensino se aprende a teoria, o saber que vem dos livros e das palavras, e no trabalho se adquire a experiência, o saber que vem do fazer ou da prática, como se diz atualmente. Quando se redige o currículo, distingue-se formação acadêmica e experiência de trabalho. Tenho ouvido falar de certa tendência aparentemente progressista no campo educacional que, depois de criticar o modo como nossa sociedade privilegia as aprendizagens acadêmicas, pretende implantar e homologar formas de contagem de créditos para a experiência e para o saber de experiência adquirido no trabalho. Por isso estou muito interessado em distinguir entre experiência e trabalho e, além disso, em criticar qualquer contagem de créditos para a experiência, qualquer conversão da experiência em créditos, em mercadoria, em valor de troca. Minha tese não é somente porque a experiência não tem nada a ver com o trabalho, mas, ainda mais fortemente, que o trabalho, essa modalidade de relação com as pessoas, com as palavras e com as coisas que chamamos trabalho, é também inimiga mortal da experiência. O sujeito moderno, além de ser um sujeito informado que opina, além de estar permanentemente agitado e em movimento, é um ser que trabalha, quer dizer, que pretende conformar o mundo, tanto o mundo “natural” quanto o mundo “social” e “humano”, tanto a “natureza externa” quanto a “natureza interna”, segundo seu saber, seu poder e sua vontade. O trabalho é esta atividade que deriva desta pretensão. O sujeito moderno é animado por portentosa mescla de otimismo, de progressismo e de agressividade: crê que pode fazer tudo o que se propõe (e se hoje não pode, algum dia poderá) e para isso não duvida em destruir tudo o que percebe como um obstáculo à sua onipotência. O sujeito moderno se relaciona com o acontecimento do ponto de vista da ação. Tudo é pretexto para sua atividade. Sempre está a se perguntar sobre o que pode fazer. Sempre está desejando fazer algo, produzir algo, regular algo. Independentemente de este desejo estar motivado por uma boa vontade ou uma má vontade, o sujeito moderno está atravessado por um afã de mudar as coisas. E nisso coincidem os engenheiros, os políticos, os industrialistas, os médicos, os arquitetos, os sindicalistas, os jornalistas, os cientistas, os pedagogos e todos aqueles que põem no fazer coisas a sua existência. Nós somos sujeitos ultra-informados, transbordantes de opiniões e superestimulados, mas também sujeitos cheios de vontade e hiperativos. E por isso, porque sempre estamos querendo o que não é, porque estamos sempre em atividade, porque estamos sempre mobilizados, não podemos parar. E, por não podermos parar, nada nos acontece.
A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço.
2. Até aqui, a experiência e a destruição da experiência.
Vamos agora ao sujeito da experiência. Esse sujeito que não é o sujeito da informação, da opinião, do trabalho, que não é o sujeito do saber, do julgar, do fazer, do poder, do querer. Se escutamos em espanhol, nessa língua em que a experiência é “o que nos passa”, o sujeito da experiência seria algo como um território de passagem, algo como uma superfície sensível que aquilo que acontece afeta de algum modo, produz alguns afetos, inscreve algumas marcas, deixa alguns vestígios, alguns efeitos. Se escutamos em francês, em que a experiência é “ce que nous arrive”, o sujeito da experiência é um ponto de chegada, um lugar a que chegam as coisas, como um lugar que recebe o que chega e que, ao receber, lhe dá lugar. E em português, em italiano e em inglês, em que a experiência soa como “aquilo que nos acontece, nos sucede”, ou “happen to us”, o sujeito da experiência é sobretudo um espaço onde têm lugar os acontecimentos. Em qualquer caso, seja como território de passagem, seja como lugar de chegada ou como espaço do acontecer, o sujeito da experiência se define não por sua atividade, mas por sua passividade, por sua receptividade, por sua disponibilidade, por sua abertura.
Trata-se, porém, de uma passividade anterior à oposição entre ativo e passivo, de uma passividade feita de paixão, de padecimento, de paciência, de atenção, como uma receptividade primeira, como uma disponibilidade fundamental, como uma abertura essencial.
O sujeito da experiência é um sujeito “ex-pos-to”. Do ponto de vista da experiência, o importante não é nem a posição (nossa maneira de pormos), nem a “o-posição” (nossa maneira de opormos), nem a “imposição” (nossa maneira de impormos), nem a “proposição” (nossa maneira de propormos), mas a “exposição”, nossa maneira de “ex-pormos”, com tudo o que isso tem de vulnerabilidade e de risco. Por isso é incapaz de experiência aquele que se põe, ou se opõe, ou se impõe, ou se propõe, mas não se “ex-põe”. É incapaz de experiência aquele a quem nada lhe passa, a quem nada lhe acontece, a quem nada lhe sucede, a quem nada o toca, nada lhe chega, nada o afeta, a quem nada o ameaça, a quem nada ocorre.
3. Vamos agora ao que nos ensina a própria palavra experiência. A palavra experiência vem do latim experiri, provar (experimentar). A experiência é em primeiro lugar um encontro ou uma relação com algo que se experimenta, que se prova. O radical é periri, que se encontra também em periculum, perigo. A raiz indo-européia é per, com a qual se relaciona antes de tudo a idéia de travessia, e secundariamente a idéia de prova. Em grego há numerosos derivados dessa raiz que marcam a travessia, o percorrido, a passagem: peirô, atravessar; pera, mais além; peraô, passar através, perainô, ir até o fim; peras, limite. Em nossas línguas há uma bela palavra que tem esse per grego de travessia: a palavra peiratês, pirata. O sujeito da experiência tem algo desse ser fascinante que se expõe atravessando um espaço indeterminado e perigoso, pondo-se nele à prova e buscando nele sua oportunidade, sua ocasião. A palavra experiência tem o ex de exterior, de estrangeiro,3 de exílio, de estranho4 e também o ex de existência. A experiência é a passagem da existência, a passagem de um ser que não tem essência ou razão ou fundamento, mas que simplesmente “ex-iste” de uma forma sempre singular, finita, imanente, contingente. Em alemão, experiência é Erfahrung, que contém o fahren de viajar. E do antigo alto-alemão fara também deriva Gefahr, perigo, e gefährden, pôr em perigo. Tanto nas línguas germânicas como nas latinas, a palavra experiência contém inseparavelmente a dimensão de travessia e perigo.
4. Em Heidegger (1987) encontramos uma definição de experiência em que soam muito bem essa exposição, essa receptividade, essa abertura, assim como essas duas dimensões de travessia e perigo que acabamos de destacar:
[...] fazer uma experiência com algo significa que algo nos acontece, nos alcança; que se apodera de nós, que nos tomba e nos transforma. Quando falamos em “fazer” uma experiência, isso não significa precisamente que nós a façamos acontecer, “fazer” significa aqui: sofrer, padecer, tomar o que nos alcança receptivamente, aceitar, à medida que nos submetemos a algo. Fazer uma experiência quer dizer, portanto, deixar-nos abordar em nós próprios pelo que nos interpela, entrando e submetendo-nos a isso. Podemos ser assim transformados por tais experiências, de um dia para o outro ou no transcurso do tempo. (p. 143)
O sujeito da experiência, se repassarmos pelos verbos que Heidegger usa neste parágrafo, é um sujeito alcançado, tombado, derrubado. Não um sujeito que permanece sempre em pé, ereto, erguido e seguro de si mesmo; não um sujeito que alcança aquilo que se propõe ou que se apodera daquilo que quer; não um sujeito definido por seus sucessos ou por seus poderes, mas um sujeito que perde seus poderes precisamente porque aquilo de que faz experiência dele se apodera. Em contrapartida, o sujeito da experiência é também um sujeito sofredor, padecente, receptivo, aceitante, interpelado, submetido. Seu contrário, o sujeito incapaz de experiência, seria um sujeito firme, forte, impávido, inatingível, erguido, anestesiado, apático, autodeterminado, definido por seu saber, por seu poder e por sua vontade.
Nas duas últimas linhas do parágrafo, “Podemos ser assim transformados por tais experiências, de um dia para o outro ou no transcurso do tempo”, pode ler-se outro componente fundamental da experiência: sua capacidade de formação ou de transformação. É experiência aquilo que “nos passa”, ou que nos toca, ou que nos acontece, e ao nos passar nos forma e nos transforma. Somente o sujeito da experiência está, portanto, aberto à sua própria transformação.
5. Se a experiência é o que nos acontece, e se o sujeito da experiência é um território de passagem, então a experiência é uma paixão. Não se pode captar a experiência a partir de uma lógica da ação, a partir de uma reflexão do sujeito sobre si mesmo enquanto sujeito agente, a partir de uma teoria das condições de possibilidade da ação, mas a partir de uma lógica da paixão, uma reflexão do sujeito sobre si mesmo enquanto sujeito passional. E a palavra paixão pode referir- se a várias coisas.
Primeiro, a um sofrimento ou um padecimento. No padecer não se é ativo, porém, tampouco se é simplesmente passivo. O sujeito passional não é agente, mas paciente, mas há na paixão um assumir os padecimentos, como um viver, ou experimentar, ou suportar, ou aceitar, ou assumir o padecer que não tem nada que ver com a mera passividade, como se o sujeito passional fizesse algo ao assumir sua paixão. Às vezes, inclusive, algo público, ou político, ou social, como um testemunho público de algo, ou uma prova pública de algo, ou um martírio público em nome de algo, ainda que esse “público” se dê na mais estrita solidão, no mais completo anonimato.
“Paixão” pode referir-se também a certa heteronomia, ou a certa responsabilidade em relação com o outro que, no entanto, não é incompatível com a liberdade ou a autonomia. Ainda que se trate, naturalmente, de outra liberdade e de outra autonomia diferente daquela do sujeito que se determina por si mesmo. A paixão funda sobretudo uma liberdade dependente, determinada, vinculada, obrigada, inclusa, fundada não nela mesma mas numa aceitação primeira de algo que está fora de mim, de algo que não sou eu e que por isso, justamente, é capaz de me apaixonar.
E “paixão” pode referir-se, por fim, a uma experiência do amor, o amor-paixão ocidental, cortesão, cavalheiresco, cristão, pensado como posse e feito de um desejo que permanece desejo e que quer permanecer desejo, pura tensão insatisfeita, pura orientação para um objeto sempre inatingível. Na paixão, o sujeito apaixonado não possui o objeto amado, mas é possuído por ele. Por isso, o sujeito apaixonado não está em si próprio, na posse de si mesmo, no autodomínio, mas está fora de si, dominado pelo outro, cativado pelo alheio, alienado, alucinado. Na paixão se dá uma tensão entre liberdade e escravidão, no sentido de que o que quer o sujeito é, precisamente, permanecer cativo, viver seu cativeiro, sua dependência daquele por quem está apaixonado.
Ocorre também uma tensão entre prazer e dor, entre felicidade e sofrimento, no sentido de que o sujeito apaixonado encontra sua felicidade ou ao menos o cumprimento de seu destino no padecimento que sua paixão lhe proporciona. O que o sujeito ama é precisamente sua própria paixão. Mas ainda: o sujeito apaixonado não é outra coisa e não quer ser outra coisa que não a paixão. Daí, talvez, a tensão que a paixão extrema suporta entre vida e morte. A paixão tem uma relação intrínseca com a morte, ela se desenvolve no horizonte da morte, mas de uma morte que é querida e desejada como verdadeira vida, como a única coisa que vale a pena viver, e às vezes como condição de possibilidade de todo renascimento.
6. Até aqui vimos algumas explorações sobre o que poderia ser a experiência e o sujeito da experiência.
Algo que vimos sob o ponto de vista da travessia e do perigo, da abertura e da exposição, da receptividade e da transformação, e da paixão. Vamos agora ao saber da experiência. Definir o sujeito da experiência como sujeito passional não significa pensá-lo como incapaz de conhecimento, de compromisso ou ação.
A experiência funda também uma ordem epistemológica e uma ordem ética. O sujeito passional tem também sua própria força, e essa força se expressa produtivamente em forma de saber e em forma de práxis. O que ocorre é que se trata de um saber distinto do saber científico e do saber da informação, e de uma práxis distinta daquela da técnica e do trabalho.
O saber de experiência se dá na relação entre o conhecimento e a vida humana. De fato, a experiência é uma espécie de mediação entre ambos. É importante, porém, ter presente que, do ponto de vista da experiência, nem “conhecimento” nem “vida” significam o que significam habitualmente. Atualmente, o conhecimento é essencialmente a ciência e a tecnologia, algo essencialmente infinito, que somente pode crescer; algo universal e objetivo, de alguma forma impessoal; algo que está aí, fora de nós, como algo de que podemos nos apropriar e que podemos utilizar; e algo que tem que ver fundamentalmente com o útil no seu sentido mais estreitamente pragmático, num sentido estritamente instrumental. O conhecimento é basicamente mercadoria e, estritamente, dinheiro; tão neutro e intercambiável, tão sujeito à rentabilidade e à circulação acelerada como o dinheiro.
Recordem-se as teorias do capital humano ou essas retóricas contemporâneas sobre a sociedade do conhecimento, a sociedade da aprendizagem, ou a sociedade da informação.
Em contrapartida, a “vida” se reduz à sua dimensão biológica, à satisfação das necessidades (geralmente induzidas, sempre incrementadas pela lógica do consumo), à sobrevivência dos indivíduos e da sociedade.
Pense-se no que significa para nós “qualidade de vida” ou “nível de vida”: nada mais que a posse de uma série de cacarecos para uso e desfrute. Nestas condições, é claro que a mediação entre o conhecimento e a vida não é outra coisa que a apropriação utilitária, a utilidade que se nos apresenta como “conhecimento” para as necessidades que se nos dão como “vida” e que são completamente indistintas das necessidades do Capital e do Estado.
Para entender o que seja a experiência, é necessário remontar aos tempos anteriores à ciência moderna (com sua específica definição do conhecimento objetivo) e à sociedade capitalista (na qual se constituiu a definição moderna de vida como vida burguesa). Durante séculos, o saber humano havia sido entendido como um páthei máthos, como uma aprendizagem no e pelo padecer, no e por aquilo que nos acontece. Este é o saber da experiência: o que se adquire no modo como alguém vai respondendo ao que vai lhe acontecendo ao longo da vida e no modo como vamos dando sentido ao acontecer do que nos acontece. No saber da experiência não se trata da verdade do que são as coisas, mas do sentido ou do sem-sentido do que nos acontece.
E esse saber da experiência tem algumas características essenciais que o opõem, ponto por ponto, ao que entendemos como conhecimento. Se a experiência é o que nos acontece e se o saber da experiência tem a ver com a elaboração do sentido ou do sem-sentido do que nos acontece, trata-se de um saber finito, ligado à existência de um indivíduo ou de uma comunidade humana particular; ou, de um modo ainda mais explícito, trata-se de um saber que revela ao homem concreto e singular, entendido individual ou coletivamente, o sentido ou o sem-sentido de sua própria existência, de sua própria finitude. Por isso, o saber da experiência é um saber particular, subjetivo, relativo, contingente, pessoal. Se a experiência não é o que acontece, mas o que nos acontece, duas pessoas, ainda que enfrentem o mesmo acontecimento, não fazem a mesma experiência. O acontecimento é comum, mas a experiência é para cada qual sua, singular e de alguma maneira impossível de ser repetida. O saber da experiência é um saber que não pode separar-se do indivíduo concreto em quem encarna. Não está, como o conhecimento científico, fora de nós, mas somente tem sentido no modo como configura uma personalidade, um caráter, uma sensibilidade ou, em definitivo, uma forma humana singular de estar no mundo, que é por sua vez uma ética (um modo de conduzir-se) e uma estética (um estilo). Por isso, também o saber da experiência não pode beneficiar-se de qualquer alforria, quer dizer, ninguém pode aprender da experiência de outro, a menos que essa experiência seja de algum modo revivida e tornada própria.
A primeira nota sobre o saber da experiência sublinha, então, sua qualidade existencial, isto é, sua relação com a existência, com a vida singular e concreta de um existente singular e concreto. A experiência e o saber que dela deriva são o que nos permite apropriar-nos de nossa própria vida. Ter uma vida própria, pessoal, como dizia Rainer Maria Rilke, em Los Cuadernos de Malthe, é algo cada vez mais raro, quase tão raro quanto uma morte própria. Se chamamos existência a esta vida própria, contingente e finita, a essa vida que não está determinada por nenhuma essência nem por nenhum destino, a essa vida que não tem nenhuma razão nem nenhum fundamento fora dela mesma, a essa vida cujo sentido se vai construindo e destruindo no viver mesmo, podemos pensar que tudo o que faz impossível a experiência faz também impossível a existência.
7. A ciência moderna, a que se inicia em Bacon e alcança sua formulação mais elaborada em Descartes, desconfia da experiência. E trata de convertê-la em um elemento do método, isto é, do caminho seguro da ciência. A experiência já não é o meio desse saber que forma e transforma a vida dos homens em sua singularidade, mas o método da ciência objetiva, da ciência que se dá como tarefa a apropriação e o domínio do mundo. Aparece assim a idéia de uma ciência experimental.
Mas aí a experiência converteu-se em experimento, isto é, em uma etapa no caminho seguro e previsível da ciência. A experiência já não é o que nos acontece e o modo como lhe atribuímos ou não um sentido, mas o modo como o mundo nos mostra sua cara legível, a série de regularidades a partir das quais podemos conhecer a verdade do que são as coisas e dominá-las. A partir daí o conhecimento já não é um páthei máthos, uma aprendizagem na prova e pela prova, com toda a incerteza que isso implica, mas um mathema, uma acumulação progressiva de verdades objetivas que, no entanto, permanecerão externas ao homem. Uma vez vencido e abandonado o saber da experiência e uma vez separado o conhecimento da existência humana, temos uma situação paradoxal.
Uma enorme inflação de conhecimentos objetivos, uma enorme abundância de artefatos técnicos e uma enorme pobreza dessas formas de conhecimento que atuavam na vida humana, nela inserindo-se e transformando- a. A vida humana se fez pobre e necessitada, e o conhecimento moderno já não é o saber ativo que alimentava, iluminava e guiava a existência dos homens, mas algo que flutua no ar, estéril e desligado dessa vida em que já não pode encarnar-se.
A segunda nota sobre o saber da experiência pretende evitar a confusão de experiência com experimento ou, se se quiser, limpar a palavra experiência de suas contaminações empíricas e experimentais, de suas conotações metodológicas e metodologizantes. Se o experimento é genérico, a experiência é singular. Se a lógica do experimento produz acordo, consenso ou homogeneidade entre os sujeitos, a lógica da experiência produz diferença, heterogeneidade e pluralidade.
Por isso, no compartir a experiência, trata-se mais de uma heterologia do que de uma homologia, ou melhor, trata-se mais de uma dialogia que funciona heterologicamente do que uma dialogia que funciona homologicamente. Se o experimento é repetível, a experiência é irrepetível, sempre há algo como a primeira vez. Se o experimento é preditível e previsível, a experiência tem sempre uma dimensão de incerteza que não pode ser reduzida. Além disso, posto que não se pode antecipar o resultado, a experiência não é o caminho até um objetivo previsto, até uma meta que se conhece de antemão, mas é uma abertura para o desconhecido, para o que não se pode antecipar nem “pré-ver” nem “pré-dizer”.
JORGE LARROSA BONDÍA é doutor em pedagogia pela Universidade de Barcelona, Espanha, onde atualmente é professor titular de filosofia da educação. Publicou diversos artigos em periódicos brasileiros e tem dois livros traduzidos para o português: Imagens do outro (Vozes, 1998) e Pedagogia profana (Autêntica, 1999).
Notas:
1 Em espanhol, o autor faz um jogo de palavras impossível no português: “Se diria que todo lo que pasa está organizado para que nada nos pase”, exceto se optássemos por uma tradução como “Dir-se-ia que tudo que se passa está organizado para que nada se nos passe” (Nota do tradutor).2 Benjamin problematiza o periodismo em várias de suas obras; ver, por exemplo, Benjamim, 1991, p. 111 e ss.

3 Em espanhol, escreve-se extranjero. (Nota do tradutor)
4 Em espanhol, extraño. (Nota do tradutor)
Referências Bibliográficas
HEIDEGGER, Martin, (1987). La esencia del habla. In: .De camino al habla. Barcelona: Edicionaes del Serbal.
BENJAMIN, Walter, (1991). El narrador. In: . Para uma critica de la violencia y otros ensaios. Madrid: Taurus, p. 111 e ss. (Ou, na edição brasileira: , (1994). Magia e técnica, arte e política; ensaios sobre literatura e história da cultura. In: . Obras escolhidas. 7ª ed., São Paulo: Brasiliense, vol. I).
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

divulgação: O PLISSADO BARROCO DA PINTURA

DOSSIER DELEUZE
Organização: CARLOS ENRIQUE DE ESCOBAR - Um exame rigorosamente completo da obra do filósofo Gilles Deleuze - numa seleção de textos e análise do prof. Carlos Henrique de Escobar - HÓLON EDITORIAL
O PLISSADO BARROCO DA PINTURA - Por Christine Buci-Glucksmann*
Imagine o jogo inicial, infinitamente variado, de três elementos pegos na sua dinâmica pictórica: uma estrutura, aquela das grandes pinceladas uniformes de cor, monocromáticas, disformes e sempre vibrantes; figuras, puros acontecimentos estáticos de corpos deformados, espasmados, habituados a todas as violências e rompendo com seu rio de carne as intenções narrativas ou figurativas da pintura; e finalmente, contornos delimitando um lugar, organizando um espaço fechado e atordoante. Tal seria a aventura de um Bacon segundo Deleuze, uma pintura da Figura e do Grito, um sentir crucificado e convulsivo de onde nasce a inteligência da matéria: uma «lógica da sensação» (1).
Dezessete seqüências então, quase musicais, onde o entrecru-zamento de diferentes planos do sentir e da análise levam a descrição dos quadros e a história da pintura, reinterpretada a partir da arte bizantina e de Cézanne, ao seu ápice. Este abismo, esta plenitude de presença - este «excesso histérico» onde o pensamento corre o risco de se perder em seu silêncio ou na profusão das aparências, caso ele não se meça pelo que se arrisca mesmo na pintura: «De todas as artes, a pintura permanece sem dúvida a única que integra necessariamente, histericamente, sua própria catástrofe»(2).
Mas agora como abranger o caos? E como em filosofia escrever sobre esta pintura de Bacon que rejeita o código lingüístico da abstração visual, sem por isto desposar o informal, apintura-catástrofe e gestual de um Pollock? De onde o paradoxo central de Bacon: construir uma lógica da sensação - um tipo de topologia das forças - naquilo que escapa a toda a lógica conceituai: as sensações colorantes e este furor de esvaziar todo o clichê, toda a imagem pré-pictórica de sua banalidade para fazer aparecer a figura mesma, para além de todo o figurativo. Dos «corpos sem órgãos» de Bacon, os corpos em horrível ou torturado, mas o corpo mesmo da tortura, seu acontecimento aqui e agora.
Porque «a cor está no corpo, a sensação está no corpo e não nos ares. A sensação é isto que é pintado»'3'. No sentido absoluto, se é verdade que a sensação não está nem no objeto representado (um corpo violentado), nem em um elemento empírico isolável (tal amarelo), nem mesmo num simples sentimento, seja ele negativo (suscitar o desgosto ou o horror), ela seria sobretudo o efeito de fronteira, de contexto e de diferença, tal como este suspender camadas finas de matéria saídas do trabalho manual do pintor, que se dá de um só golpe no movimento forçado, pregueado e despregueado, no corpo-carne do Triptych de 1970: Studies of the human body. Uma amálgama de cinza-rosa-negro à Velasquez, repentinamente plissado em um espasmo de violência e de afetos. Do grito como premissa no entrelaçamento de uma incisão verde, surgida do vazio transparente de uma pincelada uniforme alaranjada onde a luz da cor vibra. Corpo intenso, violento e excessivo que agiu diretamente sobre o cérebro.
É por isso que não se saberia analisar aqui a pintura no par estético hegeliano da forma e do fundo. A captar energias invisíveis, ela só pode explorar a radicalidade barroca da diferença material/força em movimento apagando o limite do sensível e do inteligível. Como se o regime da luz, a potência do material forçassem a pensar. E, sem dúvida, a «lógica da sensação» seria ela o avesso de toda uma outra lógica, aquela do simulacro e do trompe-1'oeil. A se construir num teatro de matérias sem espetáculo mas não sem testemunha, o acontecimento pictórico conduz a alma no atordoamento do corpo, nas «pregas da matéria» em seu hystéresis (4). A força insensível daquilo que faz gritar em uma «figura sem horror» que não parece menos horrível. O grito «à morte» de Tosca ou de Lulu...
Histeria e carne da pintura: os termos de Deleuze, em seu equívoco, não devem deixar pensar que a lógica da sensação se releva de uma fenomenologia da «carne» do mundo no sentido de Merleau-Ponty (a despeito de quaisquer proximidades), nem com mais razão de uma lógica freudiana. Toda sensação remetendo a uma força fará do corpo o material da figura. Suas leis são os ritmos plissando os corpos e os submetendo a energias plásticas de desagregação, de deformação ou de isolamento. Toda uma «concepção muscular da matéria» já próxima de Leibniz(5).
Também, se o ser é prega, suas dinâmicas se repartem nestes dois andares próprios à alegoria da «casa barroca»(6). Aquele dos corpos em baixo com suas cavidades violentas («prega da matéria») e aquele das almas no alto, em sua ascensão alada toda espiritual, como no quadro de Greco, O enterro do Conde de Orgaz. Mas, à diferença da glória (defunta) do barroco, os corpos de Bacon caem infinitamente e a elevação não é mais religiosa: o aéreo não toca mais que as pinceladas uniformes de cor onde a luz cria o ritmo e a melodia, como no misticismo luminoso de um Rothko.
Desde então, neste mundo saturado de forças, a visão pictóri-ca, sempre para além do único ver ótico, não saberia surgir de um vazio, de um Olhar castrado, da «voyure» no sentido de Lacan. Se a pintura é bem «histérica», o olho da pintura, o terceiro olho, não é jamais ótico mas áptico. De haptein, tocar. Tocar com os olhos, ver o mundo como um tecido, uma textura, um papel plissado, um tecido veneziano.
E compreenderemos então que esta visão tátil e multisensível do Olhar reconduz a matriz dos três elementos de Bacon ao que o unifica e o organiza: a cor no sentido muito forte de Goethe no seu Tratado. A cor, como potência de clareza e energia, tato do ver e capacidade musical. Cores - cores fluidas de figuras, cores-estruturas e forças de pinceladas uniformes, cores-linhas: a lógica das sensações não é senão a análise dos regimes de cores, de suas modulações e de seus diferenciais. Tal seria o fundo da lição de Cézanne para Bacon: uma lógica colorida do abismo, com toda a potência formal do material.
Que uma tal lógica desempenha um papel privilegiado e limite na obra de Deleuze é certo. Porque ela se confronta em permanência ao «mal» da matéria, à sua catástrofe, ela seria um tipo de ponto entre a Lógica do sentido com suas figuras, acontecimentos e paradoxos e esta outra lógica toda leibniziana, do último livro: Le Pli (Leibniz et le Baroque). Mania de Deleuze: como constituir uma lógica das singularidades que não deixe jamais o sentido sem se confundir com ele. Mania do barroco: nas retóricas de Gracian ou de Tesauro,o conceito não é jamais conceito, ele não deixa mais a «carne» da língua e do mundo, procedendo por analogia e metáfora, dissonância e consonância em uma «nova harmonia».
Talvez a lógica da sensação remeta já àquela da Prega. Os corpos-pregas e tormentos desta violência vinda da Irlanda não param de evocar o traço fundamental do barroco segundo Gilles Deleuze: «A prega que vai ao infinito», a forma em suas inflexões, suas modulações, suas variações, se esgotando para fazer renascer sempre a fenda e o buraco(7).
Um barroco do pleno, do desdobramento sem fim onde as maneiras remetem ao teatro das matérias em ausência de toda a retórica e efeitos de língua. Uma lógica sensível e do sensível, inventando, como Deleuze em sua escrita, o plissado prometendo um novo tipo de expressão: «a entre-expressão, prega segundo prega». Uma loucura de pregas, o incomensurável e a desmedida do mundo-prega. Que um tal paradigma maneirista e musical duplifique uma dinâmica barroca das forças explica sem dúvida a pregnância de uma lógica de duas entradas que abre e fecha a prega: «dois andares» do barroco. Como se o livro-labirinto de Deleuze irradiasse a partir de um ponto selado. Certo, tudo é ponto de vista, multiplicidade e perspectiva. Mas, como em certos jogos, só há duas entradas para atingir um centro ausente: pregas da matéria onde cada forma se inclina, se espasma, se metamorfoseia e se anamorfisa, até o adormecimento, o desmaiar das marcas mudas. E pregas da alma, onde todo o real de um mundo submetido ao princípio da razão retorna a cada coisa espiritual (as «mônadas») em uma série de acontecimentos que ela inclui. Inflexão e inclusão, duas faces distintas e idênticas de um mesmo mundo e entre, no Entre-dois-plissado, todo o entrelaçamento infinito das analogias entre a alma e o corpo. Talvez a pintura, que Bacon diz ser «linguagem analógica» por excelência, exploraria este «entre as pregas» misterioso, sempre ao limite de...
Da Pintura-Grito de Bacon a estes curiosos «gritos-premissa» de um Leibniz, a mesma coisa não diferindo senão pela maneira? A pintura seria então este grande maneirismo de corpos desenhando a grande dramaturgia das almas pelas suas posturas, a fluidez de sua matéria e o fundo sombrio de suas «pequenas percepções». Estes pequenos azuis de Cézanne ou estes pequenos rosas de Bacon...
No fundo, isto é o barroco segundo Gilles Deleuze: «O esplêndido momento onde se mantém qualquer coisa mais do que nada» (8). A última glória de um mundo pirâmide e cúpula, conjurando o vazio em sua ponta luminosa e conceituosa, sem outro pecado que este ódio-furor de Deus próprio aos condenados, toda esta «raiva da razão» que freme no plissado barroco dos corpos de Bacon e o trançado também denso que secreta a escrita da Prega. «A alma na ponta dos dedos» dizia Diderot, tais as últimas vibrações sonoras de uma Ópera do pensamento: seu sutil-sublime e seu ouvinte-ver. In furore...
* Filósofa e diretora do Collège International de Philosophic.
Artigo extraído da revista «Magazine Littéraire» nº 257, set./1988. Tradução do francês por Carmen Bello.
NOTAS
1. Francis Bacon. Logique de Ia sensation. Ed. de la Différence.
2. Idem, p. 67.
3. idem, p. 27.
4. Sobre esta histeria da pintura, cf. o capítulo VII e, mais particularmente, a p. 37 ("com o pintor, a histeria tornou-se pintura") e p. 41 (sobre o Grito).
5. Francis Bacon, capítulo III: o atletismo e Le Pli. Leibniz et le baroque (Ed. Minuit) p. 6 e ss.
6. Le Pli, pp. 7,41, 133 e ss. "O que é propriamente barroco é esta distinção e repartição de dois andares."
7.Le Pli,p. 51.
8. Le Pli, p. 92.
cooperação.sem.mando