quarta-feira, 18 de agosto de 2010

DIVULGAÇÃO: I Encontro de Psicólogos Psicoterapeutas

18/08/2010 - Psicoterapia: I Encontro de Psicólogos Psicoterapeutas
O Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul promove nos dias 20 e 21 de agosto o I Encontro de Psicólogos Psicoterapeutas. O objetivo do evento é congregar os psicólogos que trabalham com a clínica para a discussão de estratégias de enfrentamento de conflitos e compartilhamento de experiências nesta prática, independente de abordagem e linha teórica.
A Comissão de Psicoterapia do CRPRS idealizou este Encontro a partir dos temas levantados nos fóruns do Ano da Psicoterapia em 2009, visando a fomentar a aproximação e o diálogo entre os profissionais da área. Temas como a realização de atendimento mediado por computador, a inclusão do serviço nos planos de saúde e a possível privatização de práticas serão debatidos nas mesas do evento. As inscrições deverão ser enviadas para o e-mail eventos@crprs.org.br com o nome e o número de inscrição.
Transporte e hospedagem – Psicólogos do interior terão à disposição transporte por van, com vagas limitadas, nas subsedes de Caxias do Sul e Pelotas. As inscrições para o transporte deverão ser enviadas com antecedência para os e-mails caxias@crprs.org.br ou pelotas@crprs.org.br. Os profissionais que desejarem se hospedar no hotel onde será sediado o evento terão direito a preço especial. As reservas deverão ser feitas diretamente com o Coral Tower pelo telefone (51) 3014.3550.
Confira abaixo a programação do evento:
20 de agosto – Sexta-feira
19h Conferência: Quem é o dono da Psicoterapia? Reflexões sobre a Complexidade, a Psicologia e a Interdisciplinaridade
Convidado: Maurício S. Neubern - Psicólogo, Doutor em Psicologia, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia Clínica (PCL), do Instituto de Psicologia (IP), Universidade de Brasília (UnB). Psicoterapeuta, trabalha com hipnose e terapia ericksoniana, formador de terapeutas.
Coordenação da mesa: Clarice Moreira da Silva - Psicóloga, Psicanalista, Membro Efetivo da Sigmund Freud Associação Psicanalítica, Conselheira vice-presidente do CRPRS Gestão 2007/2010, Presidente da Comissão de Ética e da Comissão da Psicoterapia do CRPRS.
20h Debate
21h Encerramento e coquetel de confraternização
21 de agosto – Sábado
9h às 10h30 Conferência A sociedade mudou. E a psicoterapia?
Discutindo sobre: Psicoterapia pela Internet - Novas demandas sociais
Convidados: Rosa Maria Farah - Psicóloga, Psicoterapeuta, Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Professora e supervisora clínica do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da PUC-SP, coordena o Serviço de Informática da Clínica Escola da PUC-SP – Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática (NPPI) – http://www.pucsp.br/nppi – e o núcleo O Corpo na Psicologia, disciplina que integra – na formação de terapeutas – o Trabalho Corporal e a Psicologia Analítica de C. G. Jung.
Maurício Neubern - Psicólogo, Doutor em Psicologia, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia Clínica (PCL), do Instituto de Psicologia (IP), Universidade de Brasília (UnB), Psicoterapeuta, trabalha com hipnose e terapia ericksoniana, formador de terapeutas.
Coordenação da mesa: Eduarda Coelho Torres - Psicóloga. Especialista em Psicossomática; integrante da equipe técnica do Departamento de Proteção Social Especial de Alta Complexidade da Secretaria do Desenvolvimento Social de NH; Membro da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática; Conselheira Secretária do CRPRS, integrante da Comissão da Psicoterapia.
10h30 às 11h Intervalo
11 às 12h Debate e registro da produção do grupo
12 às 13h30 Almoço
13h30 às 15h - Da babel terminológica a diálogos possíveis: o que é comum entre os psicólogos psicoterapeutas
Discutindo sobre: Privatização de práticas (Ato Médico)/ Regulamentação da psicoterapia/ Psicoterapia nos planos de saúde/ Psicoterapia nas Políticas Públicas
Convidados: Bárbara de Souza Conte - Psicóloga, Psicanalista, Doutora em Psicologia pela Universidade Autônoma de Madri (UAM), Membro Pleno e Presidente da Sigmund Freud Associação Psicanalítica, Conselheira do CRPRS gestão 2004/2007.
Clarice Moreira da Silva - Psicóloga, Psicanalista. Membro Efetivo da Sigmund Freud Associação Psicanalítica, Conselheira vice-presidente do CRPRS Gestão 2007/2010, Presidente da Comissão de Ética e da Comissão da Psicoterapia do CRPRS.
Simone da Silva Machado - Psicóloga, Doutora em Psicologia do Desenvolvimento pela UFRGS, Diretora do Núcleo de Estudos e Atendimentos em Psicoterapias Cognitivas (NEAPC), Membro Fundador da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC), Professora e supervisora clinica do Curso de Psicologia da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), integrante da Comissão de Psicoterapia do CRPRS.
Coordenação da mesa: Sandra Rute Silva Martins - Psicóloga. Psicoterapeuta com Formação em Terapia Reichiana, Especialização em Terapia de Casal e de Família, Especialização em Psicologia Social e Institucional.Integrante da Comissão da Psicoterapia.
15h às 16h Debate e registro da produção do grupo
16h Encerramento

Poetagens Alheias

O MURO - Manoel de Barros
Não possuia mais a pintura de outros tempos.
Era um muro ancião e tinha alma de gente.
Muito alto e firme, de uma mudez sombria.
Certas flores no chão subiam de suas bases
Procurando deitar raízes no seu corpo entregue ao tempo.
Nunca pude saber o que se escondia por detrás dele.
Dos meus amigos de infância, um dizia ter violado tal
segredo,
e nos contava de um enorme pomar misterioso.

Mas eu, eu sempre acreditei que o terreno que ficava atrás
do muro era um terreno abandonado!
(Em: MANOEL DE BARROS - poesia completa. Ed. LeYa. 2010, p. 40-1).

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Projeto Ítaca: Iconoclastas, avante!

Olá, gentes! Aí vai um escrito para partilharmos!
“História, materialismo, monismo, positivismo e todos os ‘ismos’ desse mundo são ferramentas velhas e enferrujadas que já não preciso ou com as quais eu não me preocupo mais. Meu princípio é a vida, meu fim é a morte. Gostaria de viver a minha vida intensamente para poder abraçar minha morte tragicamente.
Você está esperando pela revolução? A minha começou muito tempo atrás! Quando você estará preparado? (Meu Deus, que espera sem fim!) Não me importo em acompanhá-lo por um tempo. Mas quando você parar, eu prosseguirei em meu caminho insano e triunfal em direção à grande e sublime conquista do nada!
Qualquer sociedade que você construir terá seus limites. E para além dos limites de qualquer sociedade os desregrados e heróicos vagabundos vagarão, com seus pensamentos selvagens e virgens – aqueles que não podem viver sem constantemente planejar novas e terríveis rebeliões!
Quero estar entre eles!
E atrás de mim, como à minha frente, estarão aqueles dizendo a seus companheiros: ‘Voltem-se a si mesmos em vez de aos seus deuses e ídolos. Descubra o que existe em vocês; traga-o à luz; mostrem-se!’
Porque toda pessoa que, procurando por sua própria interioridade, descobre o que estava misteriosamente escondido dentro de si, é uma sombra eclipsando qualquer forma de sociedade que possa existir sob o sol!
Todas as sociedades tremem quando a desdenhosa aristocracia dos vagabundos, dos inacessíveis, dos únicos, dos que governam sobre o ideal, e dos conquistadores do nada, avança resolutamente.
Iconoclastas, avante!
‘O céu em pressentimento já torna-se escuro e silencioso!’”
(Renzo Novatore, Arcola, janeiro de 1920, apud: BEY, Hakim. TAZ – Zona Autônoma Temporária, p. 82-3, Conrad Editora, 2001)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Poetagens Alheias - De Constantino Kavafis

No sol poente do dia de amanhã, hei de partir para Ítaca... não sei se a viagem é de ida, simplesmente, ou de regresso... só tenho certeza de que seja uma Odisséia... Odisseu ou Penélope, ou mesmo a ilha... mal sei... sei do rumo!:
ÍTACA
Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.

Constantino Kabvafis (1863-1933)
Em: O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paz.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DIVULGAÇÃO: Entrevista Frei Betto

Entrevista Frei Betto: "O Brasil se tornou o paraíso do capital especulativo" - 26/07/2010
Participaram: Gabriela Moncau, Hamilton Octavio de Souza, Lúcia Rodrigues e Tatiana Merlino.
Frade dominicano, jornalista, escritor, autor de 52 livros, Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido como Frei Betto, foi militante contra a ditadura civil-militar, ajudou na fundação da CUT e do PT. Foi assessor da Presidência da República para assuntos sociais, onde coordenou o programa Fome Zero. Nesta entrevista, Betto fala sobre o período em que trabalhou como jornalista, a chegada do PT ao poder, os rumos da esquerda do país e sobre o governo Lula. Para ele, embora o governo atual seja “o melhor da história republicana do Brasil”, o PT e um grupo hegemônico que o comanda “trocaram um projeto de Brasil por um projeto de poder”. Entre as lições que aprendeu no período em que esteve no Planalto, uma delas é que “o governo é que nem feijão, só funciona na panela de pressão”.
Caros Amigos - Hamilton Octavio de Souza - Fale sobre você, onde nasceu, onde estudou, como começou a ter militância?
Frei Betto - Sou mineiro, e como diz o Drummond, a gente sai de Minas, mas Minas não sai da gente. Meu pai era advogado e terminou a sua vida profissional como juiz. Era homem de extrema direita e terminou de extrema esquerda. A única vez que saiu do Brasil foi para ir a Cuba. A minha mãe é uma especialista em culinária, tem oito livros de culinária, entre eles o “Fogão de Lenha, trezentos anos de cozinha mineira”. É considerada a maior especialista nesse tema no Brasil. Éramos oito irmãos; um já faleceu, o mais novo.
Hamilton Octavio de Souza - De que cidade de Minas?
Todos de Belo Horizonte. É um caso raro em uma cidade que tem pouco mais de 100 anos. Meus pais também nasceram em Belo Horizonte. Mais raro ainda: os dois e os oito filhos estudaram no mesmo grupo escolar Barão do Rio Branco, que há pouco fez 90 anos. Tive uma infância extremamente feliz, de moleque de rua, não havia a psicose televisiva. Brincava-se muito na rua, havia muita leitura, porque meu pai tinha duas manias: padaria e livraria. E ele comprava muito mais livros do que tinha tempo para ler, e não havia cômodo na casa para servir exclusivamente de biblioteca. Todos os cômodos, menos o banheiro e a cozinha por razões óbvias, tinham livros. Creio que minha vocação literária tenha a ver com isso. Meus pais escreviam, minha mãe na culinária e ele cronista dos principais jornais de Belo Horizonte durante mais de quarenta anos. Bem, depois, com treze anos, entrei na militância estudantil através da Juventude Estudantil Católica, a JEC.
Tatiana Merlino - Em que ano foi isso?
Em 1959. Na mesma época entrou o Henriquinho, que o Brasil conhece como Henfil. Nós dois éramos considerados muito crianças para pertencer à JEC. E esse desafio nos levou a nos firmar como militantes. Claro que o Henfil entrou por influência do Betinho, um dos fundadores da JEC de Belo Horizonte e depois foi para a Juventude Universitária Católica (JUC). E através da JEC é que eu comecei precocemente a ler muito filosofia, teologia e literatura. A primeira vez que eu enfrentei a repressão foi no dia 25 de agosto de 61, quando o Jânio Quadros renunciou à presidência. Depois, com 17 anos, fui indicado para a presidência da JEC. Então, me mudei para o Rio, onde fiquei de 62 a 64 numa república de estudantes, onde moravam doze rapazes e recebíamos mais uns 20 por mês que vinham de outros Estados para a UNE, ntre eles o Betinho e o Zé Serra. Nesses três anos eu percorri o Brasil todo duas vezes, articulando o movimento. Em 64 entrei na faculdade de jornalismo. Vocês vão morrer de inveja: meus professores eram o Tristão de Ataíde, Hermes Lima, Barbosa Lima Sobrinho, Danton Jobim.
Hamilton Octavio de Souza - Qual a faculdade?
Chamava Universidade do Brasil, depois acabou. Tinha grandes figuras da história do jornalismo brasileiro. Para contrabalançar, tinha o Hélio Viana, de extrema direita e cunhado do general Castelo Branco. Em junho de 64 eu estava na faculdade lá no Rio e fui preso pela primeira vez quando houve o arrastão da Ação Popular. Fiquei 15 dias preso, confundido com o Betinho, por conta dessa coisa de Beto, de JEC e JUC de Belo Horizonte. Eles estavam atrás do Betinho, que foi o grande fundador, a grande figura da Ação Popular, que depois conseguiu sair do país. Daí surgiu aquela dúvida: será que Deus quer que eu seja religioso? Crise vocacional forte. E convencido de que eu não tinha vocação, decidi entrar nos dominicanos em 65, porque não queria chegar aos 40 anos, olhar para trás e falar: “Ih! Acho que eu errei de caminho”... Mas eu queria tirar a limpo, ver no que vai dar. Entrei e isso já são quarenta e cinco anos.
Hamilton Octavio de Souza - Era um seminário?
Não, porque eu já tinha vinte anos. Os dominicanos no Brasil não têm seminário. Só aceitam quem terminou o ensino médio completo ou está na universidade. Que é melhor porque a pessoa é mais lúcida, essa ideia de seminário eu acho muito antipedagógico, é até desumano você colocar uma criança de 13, 14 anos no seminário. Eu acho que é por isso que tem tanto problema de pedofilia, de violência sexual. O cara vive naquela redoma patriarcal, machista e onde a sexualidade é sempre considerada pecado, enfim... Mas aí entrei nos dominicanos em Belo Horizonte. Em 66, eu vim para São Paulo para fazer filosofia, fiquei aqui de 66 a 69, aí aconteceram muitas coisas.
Hamilton Octavio de Souza - Você trabalhou na Folha, não é?
Trabalhei primeiro na revista Realidade. De lá, fui para a Folha da Tarde, que foi refundada com Jorge de Miranda Jordão. E lá fiz de tudo, desde geral até editoria de polícia. Cobri muito movimento estudantil e depois fui chefe de reportagem, e fui assistente do Zé Celso na montagem do Rei da Vela. Fui colega do Merlino, na Folha da Tarde. Além disso, eu estudava Filosofia de manhã e à noite fazia o curso de antropologia na Maria Antonia. Em 69 houve o AI-5, eu já estava bastante pressionado pela repressão. No início de 69, eu decido ir para o Rio Grande do Sul, porque o cerco estava se fechando, meu projeto era passar um tempo fora do Brasil, iria para a Alemanha estudar teologia. Fui para São Leopoldo, onde tinha um seminário de jesuítas, muito bom, e aí o Marighella me pediu para montar um esquema de fazer sair gente pela fronteira Sul com a Argentina e Uruguai. Um mês antes de eu ir para a Alemanha, os dominicanos, aqui em São Paulo são presos. Afinal, sou cercado no Rio Grande do Sul, consigo fugir uma semana, fui preso, caí numa cilada. Fiquei quatro anos preso, em São Paulo, só fiquei um mês preso em Porto Alegre, depois vim para cá. Foram dois anos como preso político e dois anos como preso comum, caso raro.
Hamilton Octavio de Souza - Foi na Tiradentes?
Foram oito prisões diferentes, a Tiradentes foi uma. Descrevo em detalhes num livro lançado no ano passado, que ficou quarenta anos guardado, chama Diário de Fernando, da Rocco. É um diário que foi do Fernando, um amigo meu, e a gente levou quarenta anos para publicar.
Lúcia Rodrigues - Por que levou todo esse tempo?
Primeiro, o Fernando não é jornalista nem historiador, mas teve o cuidado de anotar em papel celofane que saía dentro de canetas na visita. O frade levava uma caneta exatamente igual à que ele tinha e no meio da conversa trocava a caneta. Dentro vinha um celofane, depois se desmontava. Então, nos papéis, tinha coisas assim: “Paulinho foi para o Doi-Codi”. Ora, que Paulinho? Que data? Que aconteceu? O Fernando queria fazer o diário, mas não era do ramo, nem historiador e nem jornalista; depois de muitos nos ele falou: “Não Betto, você faz”. Aí teve toda uma pesquisa para decifrar cada papelzinho daquele, foi tudo computadorizado, teve até que ler com lente, porque ele mesmo às vezes não entendia, não lembrava a anotação. Nos últimos anos, de 2006 a 2009 me dediquei quase que exclusivamente a esse livro. Ele descreve os que a gente ficou como, primeiro, preso político, depois comum. Fomos condenados a quatro anos, e o recurso osso no Supremo Tribunal Federal foi julgado, e reduziram a nossa pena de quatro para dois anos quando nós completávamos os quatro anos. Eu brinco que a gente tem um crédito com a liberdade de dois anos.
Tatiana Merlino - O senhor pediu indenização para o Estado brasileiro?
Respeito muito quem pediu, mas nunca pedi. Primeiro porque não quero transformar uma questão política em uma questão financeira. Acho que não há dinheiro que pague o que sofri. Depois, porque embora tenha muita gente que eu respeite e por quem até lutei para que merecessem a indenização, acho que tem muita gente que foi com sede no pote de ouro, gente que recebeu indenizações milionárias e foi interrogado, esteve uma semana preso, enfim. Acho que virou uma certa farra esse negócio, então preferi não pedir. Em terceiro, porque eu não preciso do dinheiro do governo, eu consigo sobreviver do meu trabalho. Isso é dinheiro público, se fosse do bolso dos generais eu até aceitaria, iria reivindicar, mas não, e não quero usar em benefício pessoal.
Tatiana Merlino - Essa não foi uma maneira do Estado brasileiro reconhecer que essas pessoas foram realmente presas e torturadas?
Haveria outras maneiras. Por exemplo, o Estado até hoje não pediu perdão à nação pelo erro que ele cometeu. Essa é uma das dívidas, inclusive o governo Lula, que devia pedir perdão, em nome do Estado, assim como o papa pediu perdão à humanidade pela condenação de Galileu e agora de Copérnico.
Lúcia Rodrigues - Mas no governo Lula, nesse caso recente do STF e da OAB, mais uma vez manteve a impunidade aos torturadores.
Eu gostaria inclusive que abrissem os arquivos das Forças Armadas, continuo lutando por isso. Fiquei perplexo e horrorizado com a decisão do STF, porque não só é uma forma de absolvição legal de crimes hediondos, de lesa-humanidade, imprescritíveis, inclusive pela legislação dos tratados internacionais firmados pelo Brasil. Também é uma forma de abonar a tortura que continua nas delegacias praticada pelos policiais civis e militares Brasil afora. Enquanto eu viver lutarei para reverter essa situação. Tenho dedicado minha obra literária à memória desses anos de chumbo. São vários livros, o Cartas da Prisão, Batismo de Sangue, Dia de Anjo, Canto na Fogueira, que fiz com Frei Fernando e Frei Ivo, e agora o Diário de Fernando. Esqueci algum? Acho que não. As Catapuntas, que é o Cartas na Prisão, enfim. Assim como 60 anos depois a memória do sofrimento dos judeus por causa do nazismo continua viva, daqui a duzentos anos a memória do sofrimento das vítimas da ditadura militar também estará. Quer dizer, é um equívoco do STF, do governo, dos militares pensar que essa memória se apaga.
Hamilton Octavio de Souza - Quando você saiu da prisão, o que fez?
Saí no fim de 73.
Tatiana Merlino - Poderia falar sobre o período que ficou em São Paulo militando e trabalhando como jornalista?
Congresso da UNE é um bom exemplo. Quem conseguiu o local do Congresso foi o Frei Tito, lá em Ibiúna, um sítio, por isso que ele foi tão barbarizado na tortura a ponto de ser levado à morte. Eu conhecia o local e armei um esquema com o pessoal da ALN e com o Frei Tito de que qualquer sinal que a repressão tivesse notícia do local do Congresso, esse sinal viria através dos setoristas do jornal. Naquela época nós já tínhamos os setoristas no Dops, no exército e etc. Eu daria um aviso para que eles pudessem se safar. E, de fato, o setorista do Dops chegou na redação e disse: “tão falando lá no Dops que tem um pessoal que estaria reunido lá pelo lado de Ibiúna e tão querendo investigar e tal.” Aí eu chamei o repórter Rogério e disse: “Você vai agora avisar a direção que a polícia está indo para lá”. O Rogério foi, mas cometi um grande equívoco. Não me passou pela cabeça que o carro da Folha, com a sua logomarca na lataria, iria ser hostilizado pela segurança do Congresso. Resultado: o Zé Dirceu me disse depois que a notícia chegou à direção do Congresso, que eles podiam ter se safado, mas surgiu um problema de consciência: “e esses mil companheiros e companheiras que estão aqui?” Aí decidiram esperar, e deu no que deu, foram todos presos. Muitas vezes eu sabia de ações revolucionárias antecipadamente e armava o jornal para isso, por isso que a Folha da Tarde era quem melhor cobria a esquerda na época. Bem, voltando ao período da saída da prisão, no fim de 73, e com muita pressão da família, da Igreja e da repressão para ir para fora do Brasil, me veio uma questão de consciência: “quando vou voltar? Quero lutar no Brasil, não se muda um país estando fora dele”. Por outro lado, “esses caras já me fizeram ficar preso o dobro do que eu merecia segundo eles. Não vou embora não, vou ficar aqui”. Então decidi ir para Vitória, que naquela época era uma cidade politicamente mais calma. Fui morar na favela de Santa Maria. Comprei um barraco lá, que está tombado, física e emocionalmente tombado. Lá mora uma amiga, a quem eu “vendi” por 50 reais com o acerto de que o dia que ela sair de lá eu tenho que ser a primeira pessoa a quem ela vai oferecer o barraco.
Para ler a entrevista completa e outras matérias confira a edição de julho da revista Caros Amigos, nas bancas, ou compre a versão digital da Caros Amigos.

domingo, 8 de agosto de 2010

sábado, 7 de agosto de 2010

Deserto

No meio do caminho,
Numa en-cruz-ilhada qualquer,
ilhei-me numa cruz
para carregar seu peso.
Corri léguas na imensidão de
seu deserto.
Terra árida,
de tempo em tempo, me trazia
uma lufada de vento.
No meio do dia,
quando o sol a pino fazia ferver
a existência,
eu via e sentia miragens
que cobriam meu olhar.
No meio da noite,
eu via e sentia fantasmas
que descortinavam minha existência.
Um dia, num amanhecer preciso e reto,
acordei do pesadelo.
Vi, com exatidão.
Uma estrada deserta também nos leva a
outros caminhos e
a outros lugares.
Então larguei o peso de sua cruz e
andei.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

DIVULGAÇÃO - PINTURA: POIESIS DE SI E DE MUNDOS

INSTITUTO DE PSICOLOGIA SOCIAL PICHON-RIVIÈRE
Convida para o encontro
PINTURA: POIESIS DE SI E DE MUNDOS
Dia 9 de agosto das 19 h às 21 h
Será apresentada a dissertação de Mestrado em Psicologia Social e Institucional "Vida e obra em imagem-tempo" (abril / 2010). Na Oficina de Criatividade do Hospital Psiquiátrico São Pedro a autora desenvolveu uma pesquisa cartográfica buscando as forças que são capazes de atravessar um corpo, o corpo de Luiz Guides. Procurou visibilizar a potência do tempo, de sua cisão, de outras temporalizações possíveis. A Oficina de Criatividade possibilitou a sustentação para a poiesis de si e de mundos. A pintura como um território existencial possível em meio à adversidade do Hospital Psiquiátrico. Pintura-dobra que nos faz ver a potência de um corpo.
A palestrante é Andresa Ribeiro Thomazoni, Psicóloga, Mestre em Psicologia Social e Institucional - UFRGS, integrante do grupo de pesquisa Corpo, Arte e Clínica nos Modos de Trabalhar e Subjetivar - UFRGS, integrante da Equipe do Acervo da Oficina de Criatividade do HPSP.
Inscrições gratuitas: 3331 7467 e mailto:contato@pichonpoa.com.br

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Cartografagens Alheias: de Francisca Rodriguez

"Nós - sementes e gente da terra - nos necessitamos mutuamente, nós nos criamos e nos alimentamos mutuamente, dando origem a diversas culturas, a diversas cosmovisões acompanhadas da lua e do sol, seguindo os ciclos da natureza, conversando com a chuva e as estrelas, fazendo carinhos nas águas e convivendo com as árvores. Somos as agricultoras do mundo, as guardiãs da terra e das sementes. Sem sementes não há agricultura, sem agricultura não há alimentação e sem alimentação não há povos".
Francisca Rodriguez

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Poetagens Alheias - De Thiago de Mello

FIO DE VIDA - Thiago de Mello
Já fiz mais do que podia
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.

Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração

no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.

Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Poetagens Alheias - De Frei Betto

RECEITA PARA MATAR UM SEM-TERRA - Frei Betto
Tome um agricultor
Desplantado de sua terra,
Desfolhe-o de seus direitos,
Misture-o à poeira da estrada
E deixe-o secar ao sol.
Deposite-o, em seguida,
No fundo do descaso público.
Adicione a injúria da baderna.
Derrame o pote de horror ao pobre
Até obter a consistência do terror.
Acrescente uma dose de mau presságio
E salpique, com a mão do ágio,
Denunciosas fatias de pedágio.
Deixe repousar no silêncio
A ganância grileira,
As áreas devolutas,
A saga assassina
De quem semeia guerras
Para amealhar terras.
Ferva a mentira
No caldeirão oficial
Até adquirir densidade
Em rede nacional.
Sirva à repressão
Impunemente
Na bandeja do latifúndio.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Cartografagens Alheias: O Tempo

"O Tempo - Um pássaro pousa numa nuvem. O céu balança. As folhas das árvores olham surpresas o efeito que o repouso da ave provocou. Quase ninguém sente tal acontecimento. Os homens correm como se soubessem onde querem chegar. Quando o dia apaga suas luzes e ascende sua enorme escuridão os faróis dos carros parecem olhos de demônios. Faço uma prece. A reza é um sonho perverso e promíscuo de uma bruxa que implora pelo caos e na velocidade da loucura diz que a noite é outro dia, nada mais". Agosto, 1999 - Autor Conhecido

domingo, 1 de agosto de 2010

Cartografagens Alheias: Como fazer gente

"Como Fazer Gente - Num canto qualquer de um quarto vazio amontoam-se livros, cestos, tapeçarias diversas, tudo em tons suaves e nas mais diferentes formas e tramas. Juntos compõem uma biblioteca. Nas prateleiras livros antigos misturam-se a novos. Um rapaz auxilia na busca do informe, do indefinido. Uma coleção de livros com capa dura branca desataca-se dos demais. São livros que ensinam como fazer algo. Não são manuais nem receituários. São saberes. Apanho um livro que diz “como fazer cereal”. Na capa tem um quadrado composto por grãos de arroz e pedaços de macarrão tipo espaguete. São cereais industrializados que representam o produto adquirido a partir dos ensinamentos do livro. Mas me interessa um único livro. O livro que possa falar sobre “como fazer gente”. No entanto, o livro está faltando. Foi emprestado a outra pessoa. Desanimo. Era o livro que eu queria. Bastava abri-lo e então teria acesso àquilo que ninguém sabia. Dou às costas à biblioteca e no mesmo instante mergulho num lodo. O barro sobe agarrando-se as minhas pernas. Sob a água suja pedras soltas, falsas, instáveis. Basta que eu pise numa pedra “errada” para sufocar em meio ao barro pesado. Observo imobilizada. Olho meus pés calçados com sapatos de madeira e ando dentro do barro por trás de um ônibus que está dando ré. Dou volta e entro num trailer. É uma sala de aula, um lugar mágico e envolvente, cheio de gente. Todas as almas centram suas atenções em um homem. Um homem negro, sorridente e falante que conta suas experiências para um público envolvido e embriagado pelas histórias. Ele vai contando suas aventuras como se estivesse retirando-as com as mãos de lugar algum. Conta com as mãos. Seu corpo todo sincronizado no que diz e, assim, até o que não é dizível é possível ser visto no seu corpo/sorriso. Seu filho, sentado entre os ouvintes, confirma sorrindo as ilusões do pai".  - 26.07.99 - Autor Conhecido

quinta-feira, 29 de julho de 2010

DIVULGAÇÃO: Livro “Pós-Humanismo: as relações entre o humano e a técnica na época das redes”

Obra apresenta a relação entre o humano e a técnica na era das redes
Uma necessária reflexão além do pensamento humanista para a compreensão da nossa condição contemporânea.
O que a ficção científica e o cinema tinham imaginado nas cenas de filmes famosos, nos quais o humano sofre mutações através das suas interações com a técnica, não deve ser pensado como algo assustador ou como a imagem de um futuro fantástico, mas como os dinamismos que acompanham a humanidade desde o seu surgimento. As primeiras interações do homem com a técnica o deslocaram de sua condição humana para além dos limites do seu corpo.
A obra: “Pós-Humanismo: as relações entre o humano e a técnica na época das redes” foi organizada por Massimo Di Felice, sociólogo e doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e Mario Pireddu formado em Ciências da Comunicação pela Università La Sapienza Di Roma e doutor em Teoria da Informação e da Comunicação.
Ao trazer à tona as formas tecno-humana de interação social, a obra parte do princípio de que a reflexão humanista sempre separou a técnica do homem e que para a compreensão da nossa condição contemporânea, é preciso ultrapassá-la, ir além do humanismo, para repensar, a partir de um ponto de vista histórico mais amplo, a relação entre o homem e o mundo ao seu redor.
O conjunto de inovações tecnológicas e comunicativas que se difunde em nossa contemporaneidade redefine e altera o nosso cotidiano e os nossos sentidos, mostrando-nos a inadequação e os limites dessa percepção histórica e nos obrigando a repensar o absolutismo do princípio de autoformação e autodeterminação do humano.
Leitura relevante para estudiosos de diversas áreas, entre elas, Comunicação, Ciências Sociais e Filosofia, especialmente em níveis de pós-graduação e graduação. Trata-se do segundo volume da série “Era Digital”, publicado pela Difusão Editora em parceria com o Centro de Pesquisa ATOPOS, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, voltado aos estudos da comunicação digital. Composto por treze capítulos, o livro reúne textos de biólogos, filósofos e sociólogos de vários países e importantes pesquisadores brasileiros que refletem de diversos pontos de vista a relação entre o humano e a técnica na época das redes apresentando os possíveis significados do conceito pós-humanismo.
Sumário:
Capitulo 1 - A carne do futuro. Utopia da desmaterialização - Mario Pireddu
Capitulo 2 - Estéticas do pós-humanismo e formas atópicas do habitar - Massimo di Felice
Capitulo 3 - Pós-humano, pós-humanismo, anti-humanismo: discriminações - Lucia Santaella
Capitulo 4 - O novo totem do pós-humano - Derrick de Kerckhove
Capitulo 5 - Contra a pureza essencialista, rumo a novos modelos de existência - Roberto Marchesini
Capitulo 6 - Corpos e informações: o pós-humano de Wiener a Gibson - Antonio Caronia
Capitulo 7 - Convém falar das coisas que não se sabe - Alberto Abruzzese
Capitulo 8 - A natureza humana depois do humanismo - Roberto Esposito
Capitulo 9 - A inteligência do corpo: a sua evolução e a sua hereditariedade. Tecnologias do vivente - Pier Luigi Capucci
Capitulo 10 - O quarto corpo - Mario Perniola
Capitulo 11 - Redes e ambientes virtuais artísticos - Gilbertto Prado
Capitulo 12 - Impasses da comunicação eletrônica: a questão do diálogo na rede e do outro - Ciro Marcondes Filho
Capitulo 13 - Marshall McLuhan e o pós-humanismo - Andre Stangl

quarta-feira, 28 de julho de 2010

DIVULGAÇÃO: Livro FANTASIAS DE ESCRITURA

A Editora Sulina apresenta: FANTASIAS DE ESCRITURA - Filosofia-Educação-Literatura
Organização: Sandra Mara Corazza
Este livro? Onze textos produzidos pelo BOP – Bando de Orientação e Pesquisa. (O nome próprio como apreensão instantânea da multiplicidade.) Integrantes: professores, mestrandos, doutorandos, bolsistas. (Posição nos planos? Periférica.) BOP, que compõe, junto ao CNPq, o Grupo de Pesquisa DIF – artistagens, fabulações, variações. (Desde 1º de julho de 2002. Experimentações de potências intelectuais e expressivas com o pensamento da diferença.) BOP e DIF vinculados à Linha de Pesquisa 09, Filosofia da diferença e Educação. (Totalização? Unidade? Impossível!) Linha de Pesquisa, que integra o PPGEDU – Programa de Pós-Graduação em Educação. (Não fragmento numérico de totalidade perdida: pluralidade.) Programa de Pós-Graduação da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. (Restritos em quantidade? E já somos multidão.) Nesses dinamismos espaços-temporais, nos aventuramos, estudamos, escrevemos: este livro. (Feito de uma educação exprimida/espremida entre filosofia e literatura.) Com fantasia. Nas pegadas de Roland Barthes. Não antagônica à razão, lógica, realidade. Roteiro afirmativo. Positividade de forças desejantes. Origem da cultura. Ligada a codificações.
Autores: Cristiano Bedin da Costa, Deniz Alcione Nicolay, Eduardo Guedes Pacheco, Ester Maria Dreher Heuser, Fábio José Parise, Gabriel Sausen Feil, Karen Elisabete Rosa Nodari, Luciano Bedin da Costa, Marcos da Rocha Oliveira, Máximo Daniel Lamela Adó, Sandra Mara Corazza
Capa: Daniela Bürgel (sobre ilustração de Marcele Pereira da Rosa)
Nº de páginas: 174 - ISBN: 978-85-205-0561-8
Preço de Capa: R$ 27,00 - Departamento editorial e divulgação: (51) 3019. 2102
Editora Meridional/Sulina - www.editorasulina.com.br - Tel (51) 3311-4082/ Fax (51) 3264-4194

terça-feira, 27 de julho de 2010

Ainda sobre a palmada!

Das manifestações que recebi por email, do escrito sobre "a palmada", reproduzo duas:
Da Evani: Oi Maria. Aos "filhos dos nossos filhos" restará: educar seus avós, hehe. Espero que sem palmadas (risos). Beijos. Evani
Da Neusa (que trouxe matéria da Folha): Continuando as discussões... Neusa
FOLHA DE SAO PAULO - 26/07/2010
Maioria é contra proibição de palmada - 54% dos brasileiros são contrários ao projeto de lei que veta castigos físicos em crianças, segundo Datafolha
Levantamento mostra ainda que a maior parte dos brasileiros já apanhou dos pais e já bateu nos filhos
Por TALITA BEDINELLI, DE SÃO PAULO
A maioria dos brasileiros já apanhou dos pais, já bateu nos filhos e é contra o projeto de lei do governo federal que proíbe palmada, beliscões e castigos físicos em crianças.
É o que revela pesquisa Datafolha feita na semana passada em todo o país. Disseram ser contra o projeto de lei 54% dos 10.905 entrevistados. Outros 36% revelaram ser favoráveis à proposta do presidente Lula.
O levantamento revela que meninos apanham mais que meninas. E que as mães batem mais nos filhos que os pais. Entre as mães, 69% admitiram ter dado algum tipo de castigo físico em seus filhos, contra 44% dos pais.
Já apanharam dos pais 74% dos homens e 69% das mulheres. No total, 72% dos brasileiros sofreram algum tipo de castigo físico, sendo que 16% disseram que costumavam apanhar sempre.
A pesquisa é de 20 a 22 de julho. A margem de erro é de três pontos percentuais.
Para Carlos Eduardo Zuma, psicólogo, secretário da ONG Não Bata, Eduque, a lei, se aprovada, deve gerar uma mudança de comportamento, mas isso deve demorar ao menos uma geração.
"Na Suécia, quando a lei passou a vigorar [em 1980] as pessoas eram favoráveis ao castigo físico. Hoje essa visão mudou radicalmente."
Para ele, a palmada cria uma cultura de violência. "O pai passa a informação para a criança de que se alguma coisa a contraria, tudo bem bater", diz.
O projeto de lei enviado para o Congresso no início do mês altera a lei que dispõe sobre o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e "estabelece o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos corporais ou de tratamento cruel ou degradante".
O ECA atualmente fala em "maus-tratos", sem especificar os tipos de castigo.
O texto considera castigo corporal qualquer "ação de natureza disciplinar ou punitiva com o uso da força física que resulte em dor ou lesão à criança ou adolescente", inclusive palmadas e beliscões.
SAIBA MAIS
21 países da Europa já vetam punições - Na Suécia, palmadas já são proibidas por lei desde 1980. Mas restrições a castigos corporais enfrentam resistência em outros países da Europa.
Uma campanha do Conselho da Europa tenta estimular a adoção de leis contra punições corporais em crianças. Dos 47 países-membros, 21 as proibiram dentro de casas, escolas e entidades penais.
A discussão está crescendo. Mas a campanha ainda não tem adesão de países importantes, como França e Reino Unido.
ENTREVISTA
"Projeto quer regular relação pai e filho" - Para Lino de Macedo, do Instituto de Psicologia da USP, a lei quer "regular a intimidade da casa".
Folha - O que acha da lei?
Lino de Macedo - É uma lei que quer regular a intimidade da casa, da relação pai e filho. Os casos extremos já têm medidas judiciais. Já temos recursos que funcionam.
O Brasil é o país das leis. A educação, o convencimento, a preparação são feitos por lei, sem um trabalho educacional.
Se não se dá alternativas, quem só conhece a palmada vai continuar batendo. Às vezes até de formas que podem ser mais violentas. A violência verbal, a cara de nojo, a indiferença machucam muito.
O que os pais devem fazer? - É importante argumentar. Uma bronca deve ser feita com explicação. Para que a criança possa saber pouco a pouco a regra. Mas porque se recorre à palmada? Crianças não obedecem. Argumentos lógicos não as convencem. Não quero justificar a palmada. O problema é proibir e não trabalhar alternativas.
A palmada é prejudicial? - Educar supõe lidar com com a regra do "não". Muitos pais que não podem dar palmada deixam a criança fazer qualquer coisa. Uma criança sem limites se torna uma pessoa refratária às leis.
"Palmada não ensina ética nem princípio" - Ângela Soligo, especialista em psicologia educacional da Unicamp, diz que "não se ensina nenhuma ética com palmada".
Folha - O que acha da lei?
Ângela Soligo - Ao mesmo tempo em que ela vai proteger a criança na família, vai proteger a criança de um orfanato, de uma casa de correção.
A lei é mais abrangente e tenta proteger a criança de qualquer forma de agressão física. Só por isso ela já seria bem-vinda.
Palmada é um problema? - Há gente que diz que ela faz parte da educação. Mas não faz, ou não deveria. A palmada não ensina nenhum princípio, nenhuma ética. Ensina a obedecer pelo medo. Educar não é só ensinar a obedecer.
É passar valores, passar uma ética que a criança vai levar para a vida. Que vai servir de referência para quando tiver de se posicionar em relação à vida.
O que se ensina com a palmada é que de vez em quando a agressão é certa. Que quando não se resolver na conversa, pode partir para a ignorância.
Como educar sem bater? - Conversar, repetir muitas vezes. Colocar limites sempre conversando, explicando o sentido daquilo, por que não pode fazer.
DEPOIMENTOS
"Tomei poucas [palmadas] e foram bem dadas. Na hora, senti que era um castigo. Agora só tenho razões para dizer o quão certa ela [a mãe] estava. Há coisas que não adianta transferir para lei" - JOSÉ GREGORI, 80, - secretário de Direitos Humanos da Prefeitura de SP, ex-ministro da Justiça
"Sou da geração que levou palmada. Dependendo da traquinagem, rolava esse discurso. Hoje em dia sou contra. Acho abominável, é um código violento, uma prepotência do adulto contra a criança" - MARCIA TIBURI, 40 - professora de filosofia e escritora
"Levei palmada e apanhei com vara de árvore. Me ajudou a saber os limites. Em alguns casos, a palmada é bem-vinda. Se a lei proíbe qualquer tipo de contato físico, as crianças podem crescer sem limites" - WILLIAM MACHADO, 33 - zagueiro e capitão do Corinthians
"Levei alguns tapinhas simbólicos da minha mãe. Uma vez, porém, meu pai perdeu a cabeça e me bateu bastante. Fiquei revoltado. Uma palmadinha vez ou outra é saudável, mas agressão física já é outra coisa" - JÚLIO MEDAGLIA, 72 - maestro
"Levei muitos tapas. Meu pai me batia até com [galhos de] urtiga. Acho que ninguém morre por causa de umas boas palmadas. Elas servem para que a criança sinta que aquilo que fez está errado. Esses tapas doem mais nos pais" - OLGA RODRIGUES, 66 - dona de casa
"Apanhei muito e até hoje quando penso nisso me faz mal. Minha mãe não tinha pena, não. Batia com corda de náilon que queimava feito brasa. Acho que há outras formas de educar. Bater é coisa de pai que não sabe conversar" - COSME DE LIMA ARAÚJO, 32 - porteiro
"Levei uns tapinhas dos meus pais e isso não me traumatizou, não. Acho essa lei errada porque entra no íntimo da família. Acho que é preciso educar o povo. E, quando isso acontecer, não vai precisar ter lei" - CÉSAR LEBRÃO, 50 - engenheiro
"Levei um ou dois tapas, que devem ter sido [dados] em situações graves. O maior não bate no menor. É isso que ensinamos às crianças e isso vale também para os adultos. A agressão verbal pode ser tão grave quanto a física" - LILIAN PACCE, 48 - apresentadora de TV.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

“O que restará aos filhos de nossos filhos?”

Hoje serei mais breve e rasa do que o costumeiro! O título vai acompanhado de aspas porque é uma pergunta que me foi dirigida por um vizinho. Dia desses, saindo de casa, o vizinho me acompanhou na caminhada rumo ao trabalho. Ele me encontra e já sai puxando assunto, sendo que o daquele dia foi a “lei da palmada”. Indignado com a lei, porque sendo proibida a palmada, não restaria nada para os pais educarem os seus filhos e ainda emendou: “o que restará aos filhos de nossos filhos?”.
Primeiro, devo dizer que não formulei posição sobre a tal lei, mas acho desnecessária, visto que o Estatuto dos Direitos da Criança e do Adolescente – ECA já é dotado de dispositivos que coíbam toda e qualquer violência contra crianças e adolescentes, portanto, basta fazê-lo valer em toda sua dimensão.
Segundo, acredito que se trata de podermos tirar o foco da questão meramente legal, jurídica e formal, e dirigi-lo à questão da formação, da educação e da subjetivação.
Conheço um pouco da história desse vizinho que acredita na eficácia educativa das palmadas e sei que as gerações anteriores à dele – e a sua própria - foram educadas por espancamentos mais ou menos leves, que não produziram gentes melhores... muito pelo contrário, produziram esse mundo que aí está!
Fico estupefata diante dos argumentos daqueles que defendem a palmada como forma de educação... toda e qualquer forma de violência é covardia! Talvez quem não sofreu esse tipo de “educação” não tenha a dimensão do seu significado. Acho mais estúpida a defesa que diz que “é só uma palmadinha”... seu valor simbólico não diminui a dimensão do ato!
Talvez, se mudarmos a educação pautada pela violência, pela educação pautada pela gentidade, amorosidade, solidariedade, generosidade e respeito, “restará aos filhos de nossos filhos” um mundo mais bonito e menos violento, menos covarde e estúpido... e eles não terá que ficar discutindo leis para proibir uma coisa tão estúpida que qualquer adulto sério e responsável deveria saber que não pode utilizar contra uma criança.
Aos adultos que defendem a palmada resta dizer que, além de uma atitude covarde, ela nunca vem sozinha... essa palmada é tão simbólica que seus efeitos nunca deixam de ecoar em nossas vidas!

domingo, 25 de julho de 2010

Poetagens Alheias: O Amor - de Manoel de Barros

De Exercícios de ser criança: O AMOR - Manoel de Barros
Fazer pessoas no frasco não é fácil
Mas se eu estudar ciências eu faço.
Sendo que não é melhor do que fazer
pessoas na cama
Nem na rede
Nem mesmo no jirau como os índios fazem.
(No jirau é coisa primitiva, eu sei,
mas é bastante proveitosa)
Para fazer pessoas ninguém ainda não
inventou nada melhor do que o amor.
Deus ajeitou isso para nós de presente.
De forma que não é aconselhável trocar
o amor por vidro.
  •  
Quem não tem ferramentas de pensar, inventa.
Em: Manoel de Barros - Poesia Completa, Ed. LeYa, 2010, p. 473.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

RBS, NEM PENSAR!

Há vários dias que circulam informações na rede, sobre esses acontecimentos. Ainda escreverei sobre o assunto... penso que dá muito pano pra manga... por ora, postarei o somente o vídeo. Vejamos:
"Noticias do Sul Dois pesos e duas medidas. Record prepara Domingo Espetacular. Estupro em Joaçaba com video na interet vira manchete em rede nacional. Estupro em Florianopolis envolvendo filho de Sergio Sirotsky do Grupo RBS vira nota. Veja as notas de Pedro Sirotsky e Jayme Sirotsky no Blog Tijoladas.com.br
TV Santa Catarina RMTV - Joinvile, Camboriu, Criciuma, Chapecó, Lajes, Tubarão
TV Alenha Portugal RTP CIC Cabo Verde"

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Poetagens Alheias: QUEM AMA INVENTA - de Mario Quintana

QUEM AMA INVENTA
Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revoo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressureições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nosso corações
Batendo juntos e fetivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! Meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!
Em: A Cor do Invisível - Antologia Poética

terça-feira, 20 de julho de 2010

Poetagens Alheias: MENINO DO MATO - de Manoel de Barros

MENINO DO MATO - Primeira parte - I
Eu queria usar palavras de ave para escrever.
Onde a gente morava era um lugar imensamente e sem
nomeação.
Ali a gente brincava de brincar com as palavras
tipo assim: Hoje eu vi uma formiga ajoelhada na pedra!
A Mãe que ouvira a brincadeira falou:
Já vem você com as suas visões!
Porque formigas nem tem joelhos ajoelháveis
e nem há pedras de sacristia por aqui.
Isto é traquinagem de sua imaginação.
O menino tinha no olhar um silêncio de chão
e na sua voz uma candura de Fontes.
O Pai achava que a gente queria desver o mundo
para encontrar nas palavras novas coisas de ver
assim: eu via a manhã pousada sobre as margens do
rio do mesmo modo que uma garça aberta na solidão
de uma pedra.
Eram novidades que os meninos criavam com as suas
palavras.
Assim Bernardo emendou nova criação: Eu hoje vi um
sapo com olhar de árvore.
Então era preciso desver o mundo para sair daquele
lugar imensamente e sem lado.
A gente queria encontrar imagens de aves abençoadas
pela inocência.
O que a gente aprendia naquele lugar era só ignorâncias
para a gente bem entender a voz das águas e
dos caracóis.
A gente gostava das palavras quando elas perturbavam
o sentido normal das ideias.
Porque a gente também sabia que só os absurdos
enriquecem a poesia.
Em: MANOEL DE BARROS Poesia Completa, Ed. LeYa, 2010, p. 449-450.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Resposta a um Anônimo-Comentador!

Hoje, buscando uma postagem antiga, encontrei um anônimo comentário (12 de julho de 2010 17:17) feito numa postagem intitulada: “Vindo do Fórum Social, Econômico e Ambiental de Panambi”, de 16.05.2010, sendo que o Anônimo disse...: “Por causa do eterno discurso sem ações práticas que vivemos essa realidade que tanto te desagrada, muito me espanta o fato de vossa pessoa só defender discursos e nada fazer para muda-la.
Continue assim que daqui a 200 anos ainda estará discutindo quem surgiu primeiro se foi o ovo ou a galinha. Parabéns.”
Bueno!
Ponto 1: Sempre é difícil conversar com anônimos, principalmente com anônimos raivosos, portanto, só posso retrucar!
Ponto 2: Não defendo discursos... não me interessa defender discursos! E para clarear melhor essa afirmação e dizer um pouco das coisas teóricas e práticas que me interessam, faço uso das palavras de Baremblitt, ao falar do pensamento de Deleuze e de Guattari, dizendo: “Não é um pensamento discursivo, mas segundo a própria definição deles, é uma máquina fundamentalemnte energética, destinada a vibrar e a fazer vibrar aqueles que dela se aproximam e a engajá-los em um movimento produtivo, que não passa exatamente pelas idéias nem pelas palavras, mas pelos afetos. Por afetar e ser afetado. Passa pela capacidade de vibrar em consonância, passa pela capacidade de despertar o entusiasmo, a vontade de viver, a vontade de criar. (...) eles estão sempre integrados a um tipo particular de militância. Eles têm um ‘pé’ numa ação concreta que se exprime e se inspira nesses escritos, dentro da famosa idéia de práxis, ultimamente tão esquecida. A proposta de uma micropolítica é a ação política que acompanha a proposta analítica desses autores, que se chama ‘Esquizoanálise’. A Esquizoanálise é um aleitura do mundo, praticamente de ‘tudo’ o que acontece no mundo, como diz Guattari em seu livro sobre as ecologias, sendo uma espécie de Ecosofia, uma ‘episteme’ que compreende um saber sobre a natureza, um saber sobre a indústria, um saber sobre a sociedade e um saber acerca da mente. Mas um saber que tem por objetivo a vida,no seu sentido mais amplo: o incremento, o crescimento, a diversificação, a potenciação da vida” (Em: Introdução à Esquizoanálise, Biblioteca Instituto Félix Guattari, 1998, p.14-15).
Ponto 3: Para dizer que só defendo discursos e nada faço para mudar a realidade, o Anônimo Comentador pouco ou mal-me-conhece, visto que sou aquilo que digo/ vivo aquilo em que acredito e faço de minha práxis cotidiana uma permanente potenciação da vida, criando e produzindo movimentos que ajudam a transformar a realidade!
Ponto 4: É um tanto miserável falar em discussão sobre o que veio antes, se o ovo ou a galinha, visto que isso não interessa, mas sim, discutir o ovo, a galinha e o que fazemos com o ovo e a galinha no mundo em que vivemos!
No mais, dedico ao Anônimo Comentador, uma canção de Vítor Ramil, em duas opções para se ouvir, primeiro com o próprio Vítor e, depois, com La Negra! A canção é Semeadura, e diz assim:
Nós vamos prosseguir, companheiro
Medo não há
No rumo certo da estrada
Unidos vamos crescer e andar
Nós vamos repartir, companheiro
O campo e o mar
O pão da vida, meu braço, meu peito
Feito pra amar.
Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar
Nós vamos semear, companheiro
No coração
Manhãs e frutos e sonhos
Pr'um dia acabar com esta escuridão
Nós vamos preparar, companheiro
Sem ilusão
Um novo tempo, em que a paz e a fartura
Brotem das mãos
Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar
Minha guitarra, companheiro
Fala o idioma das águas, das pedras
Dos cárceres, do medo, do fogo, do sal
Minha guitarra
Tem os demônios da ternura e da tempestade
É como um cavalo
Que rasga o ventre da noite
Beija o relâmpago
E desafia os senhores da vida e da morte
Minha guitarra é minha terra, companheiro
É meu arado semeando na escuridão
Um tempo de claridade
Minha guitarra é meu povo, companheiro
Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar.



domingo, 18 de julho de 2010

Poetagens Alheias: VENTO - de Manoel de Barros

Se a gente jogar uma pedra no vento
Ele nem olha para trás.
Se a gente atacar o vento com enxada
Ele nem sai sangue da bunda.
Ele não dói nada.
Vento não tem tripa.
Se a gente enfiar uma faca no vento
Ele nem faz ui.
A gente estudou no Colégio que vento
é o ar em movimento.
E que o ar em movimento é vento.
Eu quis uma vez implantar uma costela
no vento.
A costela não parava nem.
Hoje eu tasquei uma pedra no organismo
do vento.
Depois me ensinaram que vento não tem
organismo.
Fiquei estudado.
Em: Manoel de Barros - Poesia Completa - Ed. LeYa - 2010, p. 435.